Limiar

13 Combina com você


Cada vez mais, meu mundo saía de controle. Àquela altura, para ser completamente franca, qualquer semblante de controle era provavelmente só algum tipo de alucinação minha. Não bastasse ter que fugir daquela Serpente de novo, ainda acordei sendo estrangulada por uma cobra, sendo salva por Marcos só para ouvir que aqueles monstros estavam vindo de dentro de mim.

Depois do… depois daquilo Marcos desceu comigo para cozinha. Sentei à mesa, só pensando na possibilidade daquilo…

Não diga isso, por favor.

Daquilo talvez…

Droga!

Daquilo talvez ser verdade. Não sabia se deveria rir, chorar, gritar, me calar.

Como alguém deve reagir numa hora dessas, Emile?

Eu não sei, Emile.

Minhas mãos ainda estavam tremendo. Eu sentia o que restava do meu mundo escapar por elas, grão após grão, revelando abaixo uma superfície que eu nunca tinha visto e não sabia nem mesmo dizer como era.

Talvez se só por um momento eu…

Fechei os olhos.

Quem sabe…

Abri os olhos. Eu não estava em casa. Eu não estava nas minhas roupas. Minhas mãos ainda estavam tremendo.

Marcos colocou uma xícara na minha frente e despejou chá nela. Ele então se sentou e colocou a chaleira entre eu e ele, a fumaça escapando para cima, espiralando, enevoando o rosto dele. Fiquei encarando Marcos, depois a chaleira e então a xícara.

— Beba – ele disse. – Você precisa.

— Se eu beber, eu acordo? – eu falei.

— Você não está dormindo.

No chá, estava o rosto de uma garota que não sabia de nada. Bebi um pouco. Era amargo. Terrivelmente amargo. Queria cuspir aquele chá fora ou jogar açúcar nele. Mas algo me dizia que não adiantaria de nada. Só disfarçaria o gosto. Olhei para Marcos. Ele bebia o chá com tanta naturalidade, com tanto costume.

— Ei – eu falei. – Como… como aconteceu? Como você virou um mago? Por que aquela mulher te conhecia? Por que ela tinha medo de você?

Marcos colocou a xícara de lado e se inclinou para frente, apoiando os cotovelos na mesa.

— É uma história complicada – ele disse. – Não é algo com que você deva se preocupar agora.

— Eu quero saber – eu disse. – Mesmo que eu não entenda nada, eu quero saber.

Marcos acedeu de leve. Seus olhos correram para o vapor que fugia da chaleira. A fumaça se expandiu para os lados, se tornou numa cortina que encobria todo o rosto dele, enquanto as luzes se apagavam uma após a outra, até todo o foco estar apenas no centro do palco.

— Meu pai era um mago – ele disse. – E o meu avô provavelmente também era. Eu descobri isso quando tinha sete anos. Meu pai me disse que eu tinha mais talento do que qualquer outro em nossa família jamais tivera e que, por isso, ele iria me ensinar a praticar magia. Para uma criança, isso sempre soa como algo incrível. Pensar que você é especial, que tem talentos incríveis e que irá viver aventuras e coisas assim. Eu fiquei feliz de ouvir aquilo. Mas a felicidade não durou muito. A cada dia, eu aprendia um pouco mais sobre a natureza do jianghu… do submundo. Eu esperava elfos, fadas, mas descobri que eles mal existem mais. Não era uma conclusão difícil de alcançar. Ninguém nunca via um elfo aparecer na televisão ou ouvia histórias de negócios entre os anões das montanhas e os mineradores. Essas são coisas que pertencem a um outro tempo, a um outro mundo. Como na Irlanda os Fomorianos foram expulsos pelos Filhos de Danu e como os Filhos de Danu foram expulsos pelos Homens, eu aprendi que a magia estava desaparecendo desse mundo. Ela ainda existe, mas escondida nos cada vez mais raros recantos escondidos da iluminação. Monstros são perigosos demais, afinal, e magia imprevisível demais para um mundo de máquinas e ciência. Logo eu comecei a querer me afastar, mas meu pai nunca me deu essa escolha e eu não era forte o suficiente para tentar desafiá-lo. Eventualmente, me mudei para a Irlanda para continuar estudando. Conheci pessoas lá, bons amigos. Inimigos também. Dentre eles, a Fragarach. Embora, no começo, eu não possa dizer que era realmente inimigo deles. Até hoje, eu não tenho certeza se discordo dos objetivos deles e compreendo os métodos que eles usam. Não me entenda errado, eu nunca me aliaria à Fragarach e não acho que ela possa mesmo trazer de volta essa tal Era das Lendas. Mas isso não é importante. O fato é que eu e meus amigos acabamos entrando em conflito com a Fragarach e, mesmo que tenha tido um preço duro, nós vencemos. Acredito que essa é parte da razão pela qual Aalto reagiu como reagiu. Embora eu tenha certo renome no jianghu.

Marcos encheu sua xícara novamente e bebeu um pouco.

— Perdão – ele disse. – Eu tenho uma tendência a me deixar levar quando começo a falar.

Acho que eu sorri.

— Você e o Daniel são muito parecidos – eu disse.

Marcos abriu um pequeno sorriso.

— O que você pretende fazer agora? – ele disse.

Abaixei os ombros.

— Eu não sei – falei. – Acho que eu vou atrás do que aquela mulher disse. É estranho, mas eu não me lembro direito de nada antes de vir para essa cidade. Talvez se eu for para lá eu consiga descobrir alguma coisa.

— Você entende que sair do meu estúdio te coloca fora da minha proteção? – Marcos disse.

— Eu sei. Talvez seja mesmo uma armadilha, mas… mas eu não quero continuar desse jeito. Eu quero saber o que está acontecendo. Se eu não fizer isso, eu nunca vou conseguir voltar para minha vida normal.

— Não pense que descobrir sobre o seu passado vai trazer seu mundo antigo de volta. Aquele lugar não existe mais. Talvez nunca tenha existido. Não importa o que você faça, jamais vai poder voltar para lá.

Minhas pernas tremiam, minhas mãos apertavam a xícara.

— Eu sei – eu disse. – Eu sei que as chances são mínimas, mas elas existem, não é? Mesmo que seja uma em um milhão, eu ainda vou tentar.

Por uns momentos, Marcos ficou me encarando com um olhar que eu não sabia o que deveria dizer. Ele então se levantou, colocou a chaleira em cima da pia e foi até a porta.

— Vem comigo – ele disse.

Me levantei e o segui até a parte da frente da loja, onde ficavam guardados todos os objetos estranhos. Ele foi até uma das prateleiras, abriu um vidro e tirou um colar que estava em um busto.

— Fique com isso – ele disse. – É um amuleto que consegui com um amigo que visitou a Índia. Segundo ele, o amuleto foi feito por um asceta como parte de seus votos. Um item como esse é difícil de se encontrar, especialmente no Novo Mundo. Não há muitos homens santos por aqui. O colar vai te proteger de aparições como a de hoje, com alguma sorte.

Ele ofereceu o colar para mim. Era um amuleto pequeno, de madeira, com uma gravura em alto relevo feita a faca. Quando peguei ele e olhei de perto, vi o que era a gravura.

— Uma cobra? – eu perguntei.

Marcos sorriu.

— Combina com você – ele disse.

Depois disso, eu subi para o quarto em que estava dormindo. Me deitei e fiquei olhando para aquele amuleto, para cobra gravada nele, enrolada ao redor de si mesma.

“Combina com você”.

Tinha um espelho naquele quarto. Refletida nele, estava uma garota segurando um colar de cobra. Ela colocou o colar ao redor de seu pescoço e, para sua surpresa e terror, descobriu que ele realmente combinava com ela.

Eu me deitei na cama, enfiei o rosto no travesseiro e tentei dormir. Não deu nem cinco minutos e meu celular tocou.

A veterana.

Atendi. No mínimo, eu devia explicações para ela.

— Oi – eu atendi. –Depois daquilo tudo eu nem tive tempo de parar para pensar em como você estava. Tudo bem com você?

Que pergunta idiota.

— Bom, acho que sim – a veterana respondeu. – Quer dizer, eu estou viva. Mas… ei, Emile, você pode vir me encontrar? Não agora. De manhã.

— É, acho que eu te devo umas explicações mesmo. Nos vemos na faculdade?

— Não, não. Tem um lugar melhor. É um armazém perto daqui de casa.

Perigo.

— Ei – eu disse. – Tudo bem mesmo com você?

— Tudo. Você pode vir?

Não tinha nada de errado na voz dela, mas mesmo assim eu sentia um calafrio percorrendo minha espinha. Se eu fosse o Homem-Aranha, meu Sentido Aranha estaria tinindo.

— Certo – eu disse. – Tudo bem. Eu acho que sei onde é. Passo aí por volta das seis, OK?

— OK. Obrigada. Toma cuidado, Emile.

E com isso, ela desligou. Me levantei da cama na hora e fui atrás de Marcos. Ele estava na cozinha ainda, falando ao telefone em francês com alguém. Tudo que eu consegui entender foi um nome. “Louise” ou algo muito parecido. Esperei ele terminar de falar para entrar na cozinha.

— Com licença – eu disse. – Eu… eu recebi uma ligação. Era de uma amiga. Acho que pegaram ela.

— Por que você diz isso? – Marcos perguntou.

— Ela estava comigo hoje quando a Serpente atacou e agora ela me pediu para encontrar ela de manhã num galpão. Acho que é uma armadilha.

Marcos se apoiou na pia e colocou a mão sobre a própria boca, como uma daquelas estátuas pensativas.

— Realmente soa como uma armadilha – ele disse.

— O que você acha que a gente deve fazer? – perguntei.

— A resposta natural seria ignorar o chamado. Porém, não acho que você vá fazer isso.

— Não. Eu não posso deixar ela sozinha desse jeito. Se ela está em perigo, eu quero poder ajudar.

— Imaginei. Nesse caso, não há muito que você possa fazer se não ir para o local de encontro. Naturalmente, eu vou pedir para que Daniel e Lavínia te acompanhem.

Acedi.

— Você acha que aquela mulher vai estar lá? – eu perguntei. – A Aalto.

— Não. Pelo que ouvi, ela é uma sociopata com um ethos muito bem definido. Se ela disse que ia te dar tempo e não te atacaria, então é isso que ela vai fazer. Se isso é mesmo uma armadilha, ela provavelmente não vai estar envolvida e nem sequer sabe.

Suspirei.

Obrigada, Senhora Sorte.

— Agora seria melhor que você fosse dormir – Marcos disse. – Seria ideal que você estivesse num bom estado físico e mental para amanhã.

Não tinha como discordar dele. Enquanto ia saindo da cozinha, porém, vi ele pegar o telefone de novo e começar a falar com alguém. Minha curiosidade me dizia para ficar e ouvir, mas o risco dos olhos dele me perceberem me fez mudar de ideia. Subi até o quarto e me aprontei para dormir. Enquanto me trocava, decidi manter o colar.

Só por segurança.

Nessa noite, eu não tive nenhum pesadelo.

De manhã, quando acordei e desci, Daniel e Lavínia já tinham chegado. Era um pouco antes das cinco.

— Desculpa por meter vocês nisso – eu disse.

— Já estamos num contrato, então qualquer merda que aconteça até isso tudo estar resolvido fica inclusa no pacote inicial – Lavínia disse.

— O que ela quis dizer é que você não precisa se preocupar – Daniel falou. – Esse é o jeito tsundere de dizer isso.

Lavínia deu uma cotovelada na barriga de Daniel com força o bastante para fazer doer em mim.

Se ela ao menos usasse minissaia e meias cinco oitavos…

Saímos depois disso. Fomos até o metrô e descemos na estação mais próxima da casa da minha veterana. De lá fomos andando até perto do tal galpão. Paramos no topo de uma ladeira, de onde dava para ver a quitinete dela e o armazém. Lavínia tomou a frente, ficou andando, olhando para o lugar lá longe, procurando alguma coisa.

— Acho que consigo entrar pelo teto – ela disse. – Tem uma claraboia lá em cima e o exterior não parece estar guardado.

— Não sei se é uma boa ideia – Daniel falou. – Existe a chance de ter uma barreira mágica lá.

— Então dá um jeito nisso. Você é o Mago, não é? A sua função é resolver esse tipo de coisa. Você cria a abertura e eu executo.

— Para isso eu vou precisar ir com você. E aí a Emile teria que entrar sozinha.

— Tudo bem – eu disse.

Daniel e Lavínia se viraram para mim, ele surpreso, ela com um meio sorriso.

— Se é o que vocês precisam fazer, então tudo bem – eu disse. – Eu não vou deixar vocês dois se arriscarem sozinhos. E, além do mais, se algo der errado, eu sempre posso correr.

— Você pode até ser rápida, mas não o suficiente para escapar de balas – Daniel disse.

Eu sorri.

— Então garanta que não tenha balas. Você é competente o suficiente para isso, não é, Gandalf? Se bem que colocar minha vida nas mãos de alguém que não é nem capaz de estudar por conta própria é assustador. Você se aproveita de minha nobreza.

Lavínia riu.

— Tudo certo então – ela disse. – Vamos lá, Mago, temos um forte para invadir. Eu só espero que dessa vez não tenha nenhum necromante.

O quê?

— Toma cuidado – Daniel disse para mim. – Se algo der errado, avisa.

— Não se preocupe, se algo der errado eu vou dizer que a culpa toda foi sua e eles vão me desculpar.

— Eu não acho que isso vai funcionar.

— Oh.

Daniel e Lavínia foram embora então, descendo a ladeira em direção à lateral do armazém. Para mim, ficou a frente.

OK, Emile, apenas não estrague tudo, certo?

Vou fazer o possível, Emile.

Espero que seja o suficiente…

Desci andando. Conforme me aproximava do galpão, sentia meus pelos levantarem e o ar me faltar. Como num jogo em que a tela vai se fechando e os filtros mudam para indicar uma cutscene em que o protagonista descobrirá um segredo importante, eu sentia a pressão aumentando ao meu redor e quase podia ouvir a música tensa crescendo.

Tãnãtãnãtãnã…

A porta do armazém estava entreaberta. Pela fresta não dava para ver nada. Escuro demais. Empurrei a porta, ela rangeu, eu entrei.

Claro, escuro.

As luzes estavam apagadas, as sombras cobriam quase todo o armazém, com a única luz penetrando pelas janelas altas. Com uma batida, a porta se fechou atrás de mim.

Eu realmente não gosto disso…

— Sou eu, Emile – eu chamei. – Tem alguém aqui?

– E então o monstro atacou –

Isso não é um filme terror, sabia?

Avancei com cuidado, olhando ao redor. A luz que entrava pelas janelas revelava prateleiras altas, com quase cinco metros, vazias, como esqueletos, espalhadas pelo armazém. Depois de andar uns cinco metros, eu ouvi um clique.

Perigo…

As luzes se acenderam.

Perigo.

Eu olhei para os lados.

Perigo!

Seis homens armados. Os seis vestidos do mesmo jeito que os que tinham me sequestrado. Provavelmente as mesmas pessoas. Eles estavam com fuzis apontados para mim, todos eles. E lá na frente, no lado oposto do armazém, estava a veterana.

Bastante óbvio.

Mas, esse posicionamento…

— Veterana – eu falei. – Tudo bem?

Minha veterana estava séria.

Assustada? Preocupada?

Não…

— Não precisa mais me chamar disso, Emile – ela disse.

A música diminui.

Ah, por favor… esse desenvolvimento não.

— Ei – eu falei. – Isso não tem graça. Pode parar com a encenação da “personagem que fingia ser amiga para atrair a protagonista para uma armadilha”. Eu sei que você está sendo usada. Vamos lá, mentemalignaportrásdetudo, se revele. Eu sei que você está aí.

A garota de cabelo multicolorido riu de leve e abaixou a cabeça.

— Você é sempre assim, não é? – ela disse. – Sempre olhando para a metalinguagem das coisas, sempre com uma referência na ponta da língua.

— Já disse para parar com esse fingimento. Você está soando como uma vilã.

A música aumenta, chega ao ápice.

— Não é só você que pode fingir ser quem não é – a garota de cabelo colorido disse. – Além disso, do seu ponto de vista, eu sou mesmo uma vilã, não sou? Como você disse, eu sou a “personagem que fingia era amiga para atrair a protagonista para uma armadilha”.

Cala a boca…

— Ei, isso não tem graça – eu disse. – Esse tipo de coisa só é legal quando não é plausível.

— Sua negação é tão forte… Vejamos, esse é o momento em que o vilão revela sua verdadeira forma, não é? Nesse caso, acho que é isso que eu devo fazer. Acho que a frase deve ser… Comtemple a minha verdadeira forma e desesperai-vos, mortal.

A veterana ergueu os braços para o alto.

Os olhos dela brilharam.

Verde.

Os cabelos dela se ergueram como fogo.

Vermelho.

Os braços dela se encobriram de escamas.

Laranja.

Nas mãos dela surgiram garras.

Preto.

Foram apenas alguns instantes. Só isso e minha veterana desapareceu por completo, engolida por algo estranho. No lugar dela havia um monstro, uma besta, com presas e escamas e fome.

Uma piranha.

Recuei só um passo.

O castelo desabou.

— O que é você? – eu disse.

— Eu – a piranha disse – sou uma Filha de Danu, um monstro, uma criatura abominada. Eu sou uma Espada da retribuição, eu, Emile, sou uma parte da Fragarach.