Limiar

5 Você é como nós


Após um dia estranho e uma noite absolutamente absurda, eu podia, com completa sinceridade, dizer que o meu mundo não tinha mais cima e baixo. Era como se as próprias leis que regem o Mundo tivessem parado de funcionar, me atirando para dentro de alguma fantasia estranha, um espaço de regras esquisitas e pessoas distorcidas. Parecia tudo algum tipo de Alice no País das Maravilhas às avessas.

Mas, de qualquer jeito, eu não pensei em nada disso enquanto estava desmaiada no meio da rua. Na verdade, eu pensei nessas coisas agora enquanto escrevia, já que naquela situação quem iria pensar numa analogia complicada? Isso seria terrivelmente irreal. Irrelevando essa questão, vamos adiante no enredo.

Acontece que, quando eu acordei, não estava em nenhum lugar que conhecia. Pelo contrário. Estava nos pijamas de outra pessoa, deitada na cama de outra pessoa, no quarto de outra pessoa. O que funciona como um ótimo resumo da minha situação, aliás. Meu corpo ainda doía como se eu tivesse sido surrada por um gorila e meus pensamentos estavam inundados de mulheres estranhas e homens mascarados. Tive que me levantar devagar para não arriscar uma dor de cabeça, mas isso não funcionou muito bem.

Alguém me dá um analgésico, por favor.

A porta do quarto não estava trancada, então eu pelo menos sabia que não tinha sido sequestrada. Ou se tinha, que meus sequestradores eram fortuitamente incompetentes, o que na prática era a mesma coisa. O corredor apertado do que parecia ser o primeiro andar de uma casa de subúrbio apareceu do outro lado da porta. Tinha outro quarto ao lado do que eu estava, porém não valia a pena me arriscar a investiga-lo. Minha direção eram as escadas. No andar de baixo tive a certeza de que estava numa casa de subúrbio, provavelmente do tipo que servem de casa e loja. Uma sala com móveis velhos e baratos, um televisão nova, mas também barata, e quadros provavelmente só baratos. Não parecia o tipo de lugar que serviria de cativeiro. Nada naquela situação, aliás, apontava para isso. Não me restava outra escolha que não eliminar a possiblidade de que eu tivesse sido sequestrada.

Viu, Emile? Senhora Sorte não te abandonou completamente.

Naturalmente, isso levantava outra questão. Afinal, onde eu estava e por que estava ali? Era o que eu poderia descobrir. E o melhor jeito de fazer isso seria tentando ir embora sem que ninguém me visse. Ao menos foi o que me pareceu uma boa ideia no momento. Procurei a saída da casa passando por uma cozinha, depois voltando pela sala em direção à outra porta, indo enfim parar… numa loja. Não qualquer loja. Um antiquário. Uma dessas lojas esquisitas, cheias de prateleiras abarrotadas de coisas velhas, que você se pergunta que tipo de clientela recebe. Nada ali parecia ter valor nenhum exceto alguma história bizarra possivelmente atrelada a um objeto, fosse real ou só enrolação. Uma loja de estranhices, definitivamente. Mas tinha uma saída e isso era o que me importava.

Embora sair na rua de pijama fosse algo que de todo modo gostaria de evitar, naquela situação não via outra saída. Literalmente. Aquela era a única porta para fora e dava numa rua. Enchendo-me de coragem, abri a porta, pisei firme na calçada e de cabeça erguida tomei todos os olhares estranhos jogados em mim pela multidão de passantes.

Ou teria sido isso que eu teria feito se tivessem passantes. Do lado de fora, só havia um ou outro gato pingado e o eventual cachorro perdido. No fim, nada de triunfante. Só saí, um tanto aliviada por não ser vista.

Ou teria sido isso que eu teria feito se eu não tivesse ouvido alguém me chamar. A voz era funda, experiente. Voz de quem sabe o que fala. Me virei na direção dela.

Corre.

Corre agora!

Eu teria corrido. Teria saído daquela loja em disparada, descalça, de pijamas pelo meio da rua, sem me importar com o que qualquer um pensasse, dissesse ou fosse lá o que fosse. Eu teria. Se eu conseguisse. Mas não dava. Minhas pernas, meu coração, meu cérebro. Tudo parou. No fundo do meu corpo, eu sabia, uma sensação muito antiga, muito primal tinha despertado. Provavelmente a mesma sensação que uma formiga tem quando se vê diante de um tamanduá, de um peixe sozinho no mar com um grande tubarão branco. Eu sabia, no mais profundo do meu código genético, nas bases da constituição do meu ser, que aquele era um inimigo contra o qual eu jamais poderia lutar.

Como o lobo gigante de tantas mitologias ou um dragão invencível, aquela pessoa que eu via diante de mim estava completamente além do meu alcance.

Os olhos diziam isso. Aqueles olhos estranhos que gritavam “morte”.

Mas então os olhos desapareceram atrás de vidro. Não. O certo seria dizer que foram escondidos. Escondidos pelo homem que os tinha.

— Eu sinto muito – ele disse. – Isso não deve ter sido muito confortável para você.

Só quando ele já estava com os óculos eu consegui ver mais nele do que o olhar. E só aí percebi algo de familiar naquele rosto, uma vaga similaridade com alguém, embora endurecido, mais experiente. Um rosto que havia visto sangue.

— Não se preocupe – o homem disse. – Eu não vou te tocar.

Eu tentei montar uma frase, só que nenhum som se formava direito. Ainda sentia como se tivesse sido sufocada até a morte.

Respira. Respira. Isso. Tudo bem.

— Que lugar é esse? – eu perguntei.

— Só uma loja de coisas velhas num subúrbio. Não é um lugar com que você deva se preocupar.

— Então por que eu estou aqui? Eu estava…

As lembranças vieram de uma vez, como uma onda gigante varrendo uma praia. Monstros, tiros, homens estranhos e aquela mulher. Eu tinha desmaiado. Certo. Desmaiado e agora estava naquele “lugar com o qual não devia me preocupar”.

— Não se force demais – o homem disse. – Você passou por muita coisa em um único dia. Tem bastante sorte de estar viva. Muita sorte.

— Acho que sim… mas você não me respondeu. Por que eu estou aqui?

— Te trouxeram aqui. Para te esconder.

— Quem trouxe?

— Você realmente conhece tantas pessoas irresponsáveis a ponto de se envolverem com terroristas para salvar alguém que nem é tão próximo?

Incômodo.

— Daniel – eu falei. – Foi ele, não foi? Nesse caso, você deve ser o pai dele.

— Então ele falou de mim. Gentil da parte dele. Quanto ele te contou?

— Pouco. Disse que você era um mago e que podia me ajudar a tentar entender o que está acontecendo.

— É o suficiente.

O homem de óculos levantou a tampa do balcão e veio até mim. Minhas pernas tremiam, minhas mãos queriam abrir a porta. Apertei os lados do pijama para me controlar. Ele parou na minha frente e ficou me encarando como se eu fosse algum objeto estranho. Me sentia dentro de um tomógrafo.

— Então… – eu disse. – Cadê o Daniel? Se ele me trouxe para cá, então ele deveria estar aqui.

— Na verdade, não. Ele te deixou aqui e foi embora. A essa hora, provavelmente deve estar na faculdade. Não se preocupe, ele vai vir aqui mais tarde.

— Como você sabe?

— Meu filho tem um hábito de trazer garotas estranhas para minha casa. Infelizmente ele é incapaz de ignorar uma mulher em apuros.

— Eu entendo.

Por alguma razão, sentia que aquilo estava certo. Alguém que não consegue dar as costas para um pedido de ajuda. Acho que era uma boa descrição. Mas, ainda assim…

Qual é a palavra?

Percebi que o homem ainda estava me olhando daquele jeito analítico. Eu estava num pijama muito grande sem usar um sutiã. Aquele olhar simplesmente não cabia. Incômodo. Era a sensação. Não conseguiria descrever como qualquer coisa mais que isso. Era estranho. Parecia haver algo escondido atrás daqueles olhos. Algo que não devia estar lá.

— De qualquer jeito, seria melhor eu ir para casa – eu disse. – Meus pais devem estar preocupados já.

Espero.

— Não acho que isso seria inteligente – o homem disse. – Qualquer um pensaria em procurar alguém em sua casa.

Ele deu as costas para mim e começou a mexer em alguma coisa numa das prateleiras, tirando um objeto pequeno de lá e colocando-o em cima do balcão.

— E, além disso – ele continuou. – seria consideravelmente chamativo ver alguém vestido desse jeito andando no meio da rua. E tenho certeza de que você não quer chamar atenção.

Essa era a última coisa que eu precisava. Infelizmente, não havia outra opção que não solenemente admitir que, sim, ele tinha razão. Era possível que aquela mulher estivesse atrás de mim ainda. Isso se ela estivesse viva. Aquele gorila…

Céus… o que está acontecendo?

Espera…

Peguei meu celular e liguei para casa.

Eu devia ter pensado nisso antes!

Chamou. Chamou. Chamou. Ninguém atendeu. Era impossível que meus pais não tivessem chegado em casa ainda.

Pegaram eles.

Foi a primeira coisa que eu pensei. Era uma ideia absurda, terrível. Não podia ter acontecido. Não. Não. Se eles tinham sido pegos era para me atrair. Seria possível? Ainda não tinham ligado. Se tinham mesmo pegado meus pais porque não ligaram ainda? O que estava aparecendo?

O que diabos está acontecendo?

Senti uma mão no meu ombro. Por cima do ombro vi aquele homem perto de mim, me olhando como se quisesse dizer “não adianta ir atrás deles”.

Eu sei disso…

— Se eles querem você tanto assim, eles não vão tocar nos seus pais – ele disse. – Enquanto você estiver escondida, eles vão estar seguros.

— Como… como você sabe disso?

— Você não está escondendo isso. Se estivesse, ninguém perceberia, mas não está, então fica óbvio. É um talento estranho esse seu.

Eu não fazia ideia do que ele estava dizendo. Isso não mudava o fato de que ele tinha razão. A lógica era razoável. E mesmo que eu tentasse fazer algo… não. Não tinha como nem pensar em tentar fazer nada. Eu nem fazia ideia do que estava acontecendo.

Eu não estava só perdida. Eu não sabia nem sequer andar. Despenquei num banco, minha cabeça explodindo.

— O que eu faço agora? – eu disse.

— Daniel vai chegar em algumas horas. Até lá, descanse. Quando ele chegar, conte a sua história. Assim, talvez, seja possível te ajudar.

— Entendo. Obrigada.

— Não me agradeça tão cedo. Ainda não sei se há algo que possa ser feito por você.

Depois disso, ele foi para o balcão e não falou mais nada. Honestamente, eu não conseguia entender aquela pessoa. Infelizmente isso ficava mais comum a cada momento. Se desse azar, chegaria um ponto em que não entenderia nem a mim mesma.

Azar é algo terrível.

Fiquei por algumas horas sentada naquele banco sem fazer nada. Em um momento ou outro, acabava cochilando, mas na maior parte do tempo simplesmente estava parada, sem saber o que fazer. Tudo isso graças a um dia ruim. Às vezes queria que as coisas fossem menos complicadas.

Em algum momento entre dois cochilos, meu celular tocou.

Paula. Como eu fui esquecer…

Ela provavelmente estava maluca àquela altura. Atendi logo e o grito do outro lado chegou muito perto de arrebentar o meu tímpano.

— Emile! – Paula disse. – Onde você está? Eu quase morri de medo! Você não estava em casa de manhã? Eu liguei para sua casa, mas ninguém atendia! Eu achei que tinha acontecido alguma coisa ruim com você!

Bingo. Temos um vencedor.

— Desculpe – eu falei. – Aconteceram algumas… coisas. Eu queria ter te avisado, mas não deu tempo. Antes de eu perceber eu já estava longe daí.

— Como assim? Você saiu no meio da noite! Como não conseguiu me avisar? Você estava do meu lado!

— Bem… eu sou sonâmbula, sabe?

Foi uma desculpa horrível. Ninguém precisaria me dizer isso. Qualquer pessoa em sã consciência saberia que aquela era uma mentira horrorosa. Pensar que fui eu quem disse isso me faz querer me espancar e me jogar num rio por pura vergonha. Uma mentira tão mal contada, uma história tão estúpida.

Parabéns, Emile.

— Sonâmbula? – Paula repetiu.

— É. Às vezes eu saio à noite para ir até o lado de fora de casa. Só que como eu estava longe de casa, acabei andando demais e me perdi. Por sorte encontrei a casa de um amigo quando acordei e ele me deixou dormir aqui. Foi um golpe de sorte.

E isso um abuso da sorte.

— Entendi – Paula disse. – Estou feliz que você esteja bem. Suas roupas ainda estão aqui. Quer que leve elas aí?

— Não precisa. Mais tarde eu passo aí e pego, tudo bem?

— Por mim, sim.

— Tá bom então.

— Sabe que pode confiar em mim, né? Se tiver qualquer problema, eu posso te ajudar a resolver.

Adoraria que pudesse, mas não acho que você seja capaz de enfrentar cobras gigantes e mulheres estranhas.

— Obrigada, Paula. Você é uma boa amiga. Fico feliz de poder contar com você. Tenho que desligar agora.

— Certo. Até mais tarde.

Eu desliguei o telefone. Aparentemente milagres realmente eram reais. A partir desse dia, me decidi a ao menos de vez em quando fazer doações e preces para as divindades mais populares que conseguisse pensar. Quem sabe quando o favor de um deus pode vir a calhar.

Só espero que eles não sejam particularmente exigentes.

Pouco depois da ligação de Paula, ouvi tocarem as sinetas da porta e ela se abrir.

Lá estava.

Daniel entrou pela porta, mas não conseguia senti-lo. Ou talvez fosse mais claro dizer que não sentia ele como normalmente sentia, uma presença vaga, mas próxima. Estava distante, afastado. Em outro mundo.

De novo.

Ela estava atrás dele. Aquela garota que não morre. Ela foi a primeira a me notar, mas preferia que nem tivesse visto. Os olhos dela queriam me comer viva.

— Então você está acordada – ela disse. – Essa foi uma recuperação bizarra.

Ela falava como se me detestasse.

O que essa daí tem?

Quando ela falou comigo foi que Daniel percebeu que eu estava ali. Ele se virou devagar e se abaixou perto de mim, me olhando, preocupado. Olhar de quem entende a situação.

— Você está bem? – ele me perguntou. – Eu fiquei preocupado quando você me ligou e depois que eu te encontrei caída no chão daquele jeito… – ele sorriu. – Fico feliz que você esteja bem.

Ele colocou a mão no meu ombro e ficou lá, me sorrindo.

Só que eu não conseguia sentir nada mais que um toque leve, indistinto, um esbarrão de desconhecido.

O homem de óculos foi até a porta da loja, trancou-a de chave e baixou as cortinas das janelas.

— Vamos para os fundos – ele disse. – Esse não é lugar para essas conversas.

— OK – Daniel concordou. – Você consegue falar sobre o que aconteceu ontem? – ele me perguntou.

— Não se preocupe comigo. Eu estou bem. E eu tenho uma memória boa. Além disso, não é uma coisa fácil de esquecer.

— Bom saber. Vamos lá.

Segui Daniel até o tal quarto dos fundos. Mas chamar aquilo de quarto não era certo. Era um cômodo quadrado, todo de cimento sem pintura, lotado de sacos de areia, alvos e todo tipo de parafernália esquisita e paredes lotadas de papéis pendurados. A única coisa que trazia à mente um quarto ali era uma mesa redonda e suas três cadeiras. O homem de óculos se sentou em uma das cadeiras, Daniel em outra e eu na última. A garota ficou de pé num canto, braços cruzados, olhos cravados em mim.

Sério, qual seu problema comigo?

O homem de óculos bateu os dedos na mesa e me encarou pedindo explicações. Respirei fundo. Aquilo ia demorar.

Devo ter ficado mais ou menos uma hora contando a história inteira. Como eu não sabia o que era importante ou não, falei tudo desde o momento em que acordei até desmaiar. A entrevista, ficar perdida, o encontro com a cobra, a noite na casa da Paula, a mulher, a saída dos meus pais, o gorila. Provavelmente me esqueci de alguma coisa, mas na hora não achei que fosse nada importante. Se soubesse, teria pensado melhor e evitado uma quantidade enorme de problemas, mas nunca fui vidente. Durante toda a explicação, ninguém falou nada. Sem perguntas, sem comentários. Só ouvidos me escutando. Na altura em que terminei, dava para ver que eles tinham muito sobre o que pensar.

— Você mencionou uma mulher – o pai de Daniel perguntou. – Como ela era?

— Estava um pouco escuro e eu estava com a cabeça confusa, então não sei se vai ser uma boa descrição, mas pelo que eu vi ela era loira, devia ter um metro e setenta. Era meio magra e toda musculosa. E ela tinha um sotaque estranho.

— Estranho?

— É. Parecia europeu. Alemão, talvez. Mas não era exatamente alemão. Não sei. Eu nem falo alemão, mas foi a impressão que me deu. E ela tinha uma cicatriz. Era no peito, bem aqui.

— Como você viu isso? – a garota perguntou.

— Ela não estava de camisa. Estava usando um top ou alguma coisa do tipo. Não dava para ver a cicatriz toda, mas parecia bem grande.

O homem de óculos cruzou os braços e mudou de expressão. Parecia preocupado agora, como se soubesse de alguma coisa. Não. Definitivamente, ele sabia de alguma coisa.

— Você conhece essa mulher? – Daniel perguntou-o.

— Não – ele respondeu. – Mas ouvi falar de alguém parecido. E considerando tudo que tem acontecido, provavelmente é ela. Tuuli Aalto.

— Ela é problema? – a garota perguntou.

— Por si só, é. Mas o que me preocupa é o que a presença dela aqui implica. Tuuli é uma Maga Finlandesa. Chamam-na de Verikoira.

— E o que isso significa? – Daniel perguntou.

— Um tipo de cão de caça. Costumam usar ele para rastrear e capturar pessoas.

— Bom, isso é bastante apropriado – a garota disse. – E o que mais você sabe sobre a cadela?

— Ela é famosa no Norte Europeu por desafiar outros Magos para duelos até a morte. E é bastante óbvio como esses duelos costumam terminar. Ela está na lista de procurados da C.E.R.C. e eu tenho certeza de que metade do mundo adoraria mata-la. Mas não tem muitas pessoas capazes disso.

— Ela parece realmente perigosa – Daniel disse. – Mas você falou que o principal problema não era a Aalto.

— E não é mesmo. Por mais que a Aalto seja perigosa, ela é só uma pessoa. Não há muitas pessoas perigosas a ponto do submundo inteiro preferir ficar longe dela. Entretanto, ela está envolvida com a Fragarach. A verdade é que se ela está aqui e não veio atrás de nenhum Mago, ela provavelmente está em um trabalho para a Fragarach.

Eu não sabia o que era essa tal Fragarach, embora o nome definitivamente me fosse familiar. Como uma lembrança estranha, meio escondida em algum lugar. E então eu lembrei.

— A Espada da Retribuição – eu disse. – É uma arma mitológica. E um Nobre Fantasma excelente contra lanceiros vestidos em colantes azuis.

— Eu não acho que esse seja o momento para fazer referências – Daniel disse. – Mas ela tem razão. Mitologia irlandesa, certo? A espada de Nuada.

— Correto. A espada que jamais erra e derruba todos os seus inimigos. Se nomes têm poder, tomar um nome como esse deixa intenções claras à vista. Desculpem. Divagações não cabem aqui. Fragarach é um grupo extremista. Eles acreditam que o mundo deve voltar ao seu estado original quando monstros e fadas andavam livremente pela Terra. Mas como não há nenhum tribunal que vá julgar isso, eles adotaram métodos mais… diretos.

— Terrorismo – a garota disse. – Eles são terroristas, é isso?

— Não exatamente. Bem, suponho que a certo nível se possa dizer que é terrorismo, mas a destruição é apenas consequência, não o método em si. É complicado. O que importa é que eles têm estado nisso há anos. Coletando relíquias, juntando anomalias, pessoas com habilidades especiais, trabalhando em projetos secretos, fazendo alianças. Ela é uma das maiores forças no submundo. A maior, se você desconsiderar as organizações com dinheiro de governos por trás delas.

— Eu não entendo – eu disse. – Por que um grupo assim estaria atrás de mim?

— Não sei. Mas se tivesse que dar minha opinião, eu diria que está ligado à serpente e provavelmente ao gorila também. Ambos apareceram no mesmo dia. Seria coincidência demais se não houvesse uma ligação.

— Não. Não faz sentido. Aquela cobra podia ter aparecido para qualquer um. Eu nem sei o que ela é.

A garota se aproximou e bateu com as duas mãos na mesa.

— Pois é, podia – ela disse. – Mas apareceu para você. E o gorila também apareceu bem na sua frente. Você acha mesmo que isso tudo é só azar?

O que você tem a ver com isso?

Cravei minhas unhas na minha palma para não bater naquela garota. A voz dela me irritava, o jeito dela falar como se soubesse de tudo me irritava. O que alguém podia ver em alguém como ela?

— O que você está insinuando? – eu exclamei.

Ela abriu um sorriso irritante, ergueu a cabeça e, me olhando como se tivesse algum direito de se achar acima de mim, disse:

— Eu estou dizendo, uma coisa muito simples. Você é como nós. Uma anomalia.