Limiar

6 Por que eu?


Anomalia. O dicionário define o termo como “Irregularidade, Anormalidade”. Algo que escapa às regras e opera nos seus próprios termos. Uma garota que continuou viva após ser partida ao meio, uma serpente gigante que fala, um gorila que mais parecia um monstro de Frankenstein. Todas essas são coisas que pelas leis normais da Natureza não poderiam existir, entidades cuja existência é fundamentalmente impossível.

Anomalias.

Não importa do que ângulo que se olhasse, não havia como me encaixar numa categoria como essa. Eu era um pouco mais rápida que a maioria das pessoas e tinha um pouco mais de fôlego, mas nada disso era algo que se pudesse considerar como um crime perante as Leis do Universo. No máximo, eram qualidades ligeiramente desejáveis que permitiam pequenas vantagens na sobrevivência. Mas apesar disso, apenas porque uma serpente havia me perguntando seu nome e uma mulher estranha havia me perseguido, a possiblidade de que eu fosse uma anomalia tinha sido levantada.

Era absurdo. Eu era só uma garota normal que, por algum erro nas pranchetas de organização da Senhora Sorte, havia sido jogada num mundo estranho. Se havia algo de anormal em mim era o azar que me perseguia nos últimos dias. Apesar disso tudo, não podia negar que era estranho tanta coisa acontecer comigo. É só que a ideia de que eu fosse uma anomalia parecia tão errada.

Deixando isso tudo de lado, acho que seria melhor voltar à história.

Depois do que aconteceu no capítulo anterior, a conversa não durou muito mais. Ficou decidido que Daniel iria pegar minhas roupas na casa de Paula e, assim que ele chegasse, ele e Lavínia iriam até a minha casa ver se meus pais tinham chegado. E enquanto isso, eu tinha que esperar. O que não era de todo mal, exceto pelo fato de que esperar, no primeiro momento, significava ficar no mesmo quarto que aquela garota.

Muito obrigada, Senhora Sorte.

Fiquei sentada no quarto dos fundos lendo um livro que pegara emprestado do pai de Daniel, enquanto Lavínia insistia em fazer barulho batendo nos sacos de areia, executando katas, embora, em alguns momentos de surpreendente consideração, ela calasse a boca e se contentasse em ficar sentada num canto. Ela parecia um tipo de filhote de gato de rua, cheio de manias chatas e bastante chegado em derrubar coisas. Irritante era o melhor termo para defini-la. Especialmente nos momentos em que ela parava de fazer o que quer que estivesse fazendo para me encarar com aqueles olhos famintos. Francamente, tinha vontade de bater nela numa hora dessas.

Por sorte, o toque do meu celular me impediu de fazer alguma coisa idiota. Peguei o telefone e, na tela dele, vi o número da minha veterana de cabelos multicoloridos. Normalmente, eu teria fingido que não estava vendo aquilo, mas naquela situação uma distração cairia bem.

— Então você está realmente viva? – minha veterana disse.

— Eu não deveria estar?

Considerando tudo que tinha me acontecido, definitivamente não.

— Sua amiga, a Paula, me ligou hoje – ela disse. – Ela disse que você tinha desaparecido da casa dela ou alguma coisa assim.

— É… alguma coisa assim.

— Bom, pela sua voz você não está machucada, então vou pensar que não foi nada. E a entrevista de emprego? Como foi?

— O quê?

— A entrevista de ontem. Você acha que foi bem? Que conseguiu o emprego?

Entendam, com os problemas e coisas estranhas que haviam me afligido nas últimas vinte e quatro horas eu tinha realmente me esquecido de toda a questão da entrevista. Isso tinha virado uma daquelas memórias marginais, como o barulho de uma televisão ao seu lado enquanto você tenta ler. Precisei me concentrar para poder entender o que ela estava dizendo e aí sim me recordar de tudo.

— Ah, certo – eu disse. – Isso. Eu não sei. Eu nem lembrava disso…

— Como assim, não lembrava? Você está bem mesmo? Quer que eu te visite? Posso passar na sua casa hoje.

— Não, tudo bem. Eu nem estou em casa.

— Como assim? Onde você está?

— Na casa de um amigo.

— Amigo? Ah… certo. Entendi. Não estou atrapalhando nada, não é?

Infelizmente, eu entendi isso.

— Não é nada do que você está pensando – eu disse. – Aconteceram umas… umas coisas. Eu vou ter que passar uns dias aqui até tudo se resolver. É bem possível que não vá para a faculdade também.

— É algo sério?

— Não, não. Coisa minha. Besteira.

— Tem certeza?

“Vai ficar tudo bem, não se preocupe”, é o que eu queria ter dito. Só que as palavras não saíram. Cada vez que eu tentava dizê-las parecia que uma corda se enrolava no meu pescoço.

O homem enforcado.

Foi um pensamento esquisito. Algo que eu nunca entendi. Mas não conseguia tirar aquilo da minha cabeça. “O homem enforcado”. Tentei lembrar onde tinha visto isso, só que tudo que encontrava era um buraco no lugar onde deveria estar essa lembrança.

— Depois eu te ligo – eu disse.

Sem esperar ela falar, eu desliguei. Fiquei olhando para o meu celular, acho que estava esperando alguma coisa acontecer. Mas não aconteceu nada. Guardei o celular de volta e, me virando para o lado, notei que a garota estava me encarando.

Se quer falar algo, fala de uma vez.

Como ela não ouvia meus pensamentos, tudo eu pude fazer foi usar da estratégia militar: se o inimigo não ataca, ataque você mesmo.

— Então – eu disse – você e o Daniel se conhecem de onde?

— Por que você quer saber?

— Só curiosidade. Não é em todo lugar que se encontram pessoas… como você.

Achei que ela não fosse me responder, considerando o modo como ela me olhava, mas, depois de um tempo, a expressão ficou menos agressiva.

— Ele me ajudou – foi o que ela respondeu.

Definitivamente, era ele. Aparentemente, “ajudar” era o único meio que Daniel conhecia para se aproximar de pessoas. Imaginar que alguém que quase sempre cochilava nas aulas era tão propenso a ajudar os outros era uma ideia estranha. Talvez tenha sido aí que eu percebi que, apesar de correta, a resposta da garota parecia incompleta.

— O que você quer dizer com “ajudou”? – eu perguntei. – Foi algo parecido com o que ele fez ontem?

— Fala da serpente? Algo desse tipo, sim.

— Ele sempre faz isso? – eu perguntei. – Lutar contra monstros?

— Quando tem monstros com os quais lutar.

— Você ajuda sempre?

— Em geral. E algumas pessoas outras pessoas de vez em quando, também.

— Então vocês são como Batman e Robin?

— Mais para Batman e Mulher-Gato ou Tália.

Infelizmente, eu entendi isso.

A garota embainhou sua faca, fez alguns alongamentos, soltou o cabelo e veio até mim.

— De qualquer jeito, melhor sairmos logo – ela disse.

— Sair? Para onde?

— Para sua casa.

Ela falou aquilo como quem não dizia nada demais, quase de um jeito despreocupado. Achei que fosse uma piada. Não era.

— Não devíamos esperar o Daniel voltar? – eu disse.

— Do jeito que ele é, se ele encontrou a garota que mora lá, ele não volta tão cedo. Ela é do tipo que fala muito, não é?

— É, sim.

— E ele não é do tipo que consegue fugir de uma conversa. Provavelmente vai ficar preso por horas falando com ela.

Por mais que eu detestasse ter que admitir, ela tinha razão quanto a isso. Para alguém que, aparentemente, era acostumado a lidar com monstros, Daniel era terrível em lidar com conversas.

— Mas é seguro? – eu perguntei. – Irmos só nós duas?

— É de dia. Eles não vão atacar de dia. Gente demais vendo, faz Magia ser mais difícil de usar. É complicado. Mas não vai acontecer. É mais seguro ir agora do que esperar até o senhor nãoseicortarconversa voltar e arriscar estar fora quando escurecer.

Ela sorriu aquele sorriso de pantera outra vez.

— Mas se estiver com medo eu não me importo em não ir – ela disse. – O problema é seu, não meu, afinal.

Qual a palavra?

Muito bem. Vamos logo.

— Eu não posso sair vestida desse jeito… – foi o que disse. – Eu estou de pijama e nem estou usando um sutiã.

— E daí? Aqui, toma.

A garota tirou o casaco que estava usando e jogou para mim. Era um pouco menor que eu, mas dava para usar sem muitos problemas. Exceto os de estilo, isso é. Aquilo parecia um casaco de homem.

— Ainda estou sem sapatos – eu disse. – Não posso sair de pantufa.

Dessa vez, ela pegou a mochila e tirou de dentro dela tênis de corrida. O número era o mesmo do meu o que, apesar de suspeitamente conveniente, era razoavelmente compreensível.

E assim, idiotamente motivada por uma provocação boba, como uma criança tonta, eu me decidi a voltar para casa. Se me dessem a escolha, eu diria que aquela pessoa que caiu num truque tão barato não era eu, entretanto, para meu azar, isso não era a verdade. Daquele dia em diante, não teria escolha que não viver carregando nos ombros aquela vergonha.

Dramático.

Quando estávamos saindo da loja, o pai de Daniel ainda estava no balcão, dessa vez lendo um livro de algum psicanalista alemão, e, nos vendo ali, simplesmente passou um olhar, deixando muito claro o que estava prestes a dizer.

— Não se preocupa – Lavínia disse. – Eu vou trazer ela de volta inteira. Além disso, está de dia.

— O fato de que eles não vão atacar com magia não quer dizer que não irão atacar com outros meios ou que não estão vigiando – o pai de Daniel disse. – Espero que tenha considerado isso.

— Eu sei disso. Mas está tudo bem desde que eu traga ela de volta para cá, não é? Isso eu posso garantir que faço. Além disso, se alguém tentar alguma coisa, eu dou conta.

— Você pode até ter experiência em assassinato, mas isso não vai funcionar contra a Aalto.

— Vou me preocupar com isso se ela aparecer. Voltamos logo, tio.

Se tivéssemos ficado mais um momento, ele provavelmente teria insistido e nos feito ficar, mas esse momento não ocorreu. A garota me agarrou pelo pulso e me puxou para fora enquanto acenava para o homem. A porta se fechou atrás de nós e, lá estava eu, na rua. Enquanto ela me segurava e puxava, eu não conseguia me livrar de uma sensação estranha, como ver o Sol nascer por trás de uma pintura da alvorada.

Por que eu não consigo lembrar?

Fomos as duas por todo o caminho, ônibus, metrô e um pouco de caminhada, até a minha casa. Não nos falamos no caminho. Não tinha nada para falar. Pessoas entraram e saíram do vagão, conversaram, se calaram, jogaram, assistiram televisão. Descemos do trem na estação perto da qual eu morava. De lá, era só caminhada até chegar à minha casa. Aquele era o mesmo caminho que eu fazia todos os dias, indo e voltando para casa. O caminho no qual eu havia gastado incontáveis horas da minha vida. O caminho pelo qual eu havia corrido sem nem olhar para frente.

E, ainda assim, eu não sabia onde estava.

Por mais que eu andasse, por mais que eu voltasse, por mais que eu olhasse para frente e para trás, que perguntasse e confirmasse ser aquele o caminho certo, eu nunca chegava ao fim dele.

Eu estava perdida.

— Tem certeza de que descemos na estação certa? – a garota me perguntou. – Você disse que eram dez minutos de caminhada, mas já estamos nisso há mais de meia-hora.

— Eu faço esse caminho todo dia! Eu sei que está certo!

— Então por que não chegamos na sua casa ainda?

Como eu posso saber?

Voltamos à estação para tentar refazer o caminho desde o começo, mas, uma vez lá, antes que eu desse o primeiro passo, a garota me parou.

— Que tal tentarmos algo diferente? – ela disse.

— O que você está sugerindo?

— Me diz o caminho. Dá as direções e eu sigo elas. Se estiverem certas, eu vou chegar na sua casa.

— Que ideia idiota. Estamos seguindo as minhas direções desde que saímos daquela estação e ainda assim não conseguimos chegar lá. Que diferença faz que você vá sozinha?

— Eu sei lá. Tem um monte de coisas por aí que eu não entendo. Até onde eu sei você pode ser uma delas. Algum tipo de coisa que não consegue voltar para casa.

Senti algo estranho dentro de mim, como a sensação de estar flutuando em águas desconhecidas no meio de uma noite sem lua.

— Você insiste nisso? – eu disse. – Eu sou uma garota normal, certo? Não algum tipo de aberração da natureza. Até ontem eu nem sabia que alguma coisa dessas existia! Essa história toda não faz sentido! Eu não sou um monstro!

A garota me encarava com olhos frios. Olhos de um animal ofendido em seu orgulho.

Droga.

— Desculpa – eu disse. – Eu não quis te ofender.

— Não, você está certa. Eu sou um monstro que por acaso nasceu no corpo de uma humana. Mas, sabe, tem pessoas por aí que tentariam salvar até mesmo um monstro. Tem todo o tipo de idiota nesse mundo. Mas esse tipo de coisa te faz pensar.

O olhar dela foi longe, mas não eu conseguia ver para onde. Parecia mesmo alguma pintura antiga de Monet, uma figura destacada, não bem ali. Uma foto colada numa imagem antiga. Naquele momento, meus dedos poderiam tê-la atravessado.

Por um motivo incompreensível, nada daquilo parecia real.

Eu passei ainda mais um tempo procurando o caminho de volta para casa, mas, no fim das contas, foi perda de tempo. Tudo que eu pude fazer foi me resignar ao fato de que eu simplesmente não sabia como voltar. De mãos vazias e de cabeça cheia, tudo que me restava era voltar para a casa estranha.

Ainda não tinha anoitecido quando chegamos lá. A garota e o pai de Daniel ficaram falando sobre eu não ter conseguido encontrar o caminho, mas, sinceramente, eu não ouvia nada do que eles diziam. Na primeira chance que encontrei, subi para o quarto em que estava dormindo e fiquei lá, deitada na cama, tentando esquecer.

Em algum momento, eu voltei para aquela estação de metrô abandonada. Tinha algo lá que eu havia esquecido. Algo meu que eu havia perdido ali. Desci para os trilhos e fui andando para dentro do túnel. Logo, não conseguia enxergar mais nada. Eu estava sozinha no escuro, seguindo em frente em busca de um pedaço de memória perdido. Eu me sentia sozinha, como se o mundo inteiro fosse apenas eu. Mas havia algo na escuridão, deitado, me encarando com olhos que não estavam lá. Meu coração fraquejou. Minha boca se abria tentando puxar o ar que não existia. Eu ouvi o barulho de algo rastejando ao meu redor, se aproximando. Minhas pernas, meus braços, eu estava presa, completamente indefesa e imobilizada. E aí eu ouvi a voz sibilando dentro da minha cabeça.

“Qual o meu nome?”

Quando abri os meus olhos, estava de volta naquele quarto que não era meu. Fechei os olhos, respirei fundo.

Um sonho.

A lua cheia estava brilhando através da janela, entre os prédios, distante, sem se preocupar com os assuntos do mundo. Antes que me tocasse, estava me perguntando como seria viver aquela vida. Se perguntasse para a lua, ela não me diria nada. A lua está longe demais. Olhando por aquela janela, eu consegui arranhar alguma coisa, porém tudo que me vinha era sempre a mesma coisa.

O mundo não parecia real.

Me levantei da cama e desci até a entrada da loja. Sentei entre as prateleiras de coisas velhas e… para ser sincera, não fiz nada. Só queria ficar sozinha por um momento. Pensar em silêncio. Só que eu não conseguia. Não importava aonde eu fosse, não importava o que eu fizesse, não conseguia me livrar daquela sensação de que… de que tinha algo faltando. Numa das prateleiras ao meu lado havia um pequeno globo de cristal. Ele era bonito, dava um bom enfeite, e até parecia uma coisa culta, mas cristal era tão claro que ninguém podia ver os países ali, nem usá-lo para qualquer coisa que não enfeitar. Era para tudo que ele servia.

Inútil.

Não se preocupem, não vou começar um monólogo de trinta e tantas mil palavras sobre minha inclinação filosófica. Por mais que isso provavelmente aumentasse o valor literário desse projeto de livro, seria algo extremamente entediante. Além disso, eu nunca tive talento para esse tipo de coisa.

Foi por volta daí que eu ouvi alguém bater à porta. Eram batidas ritmadas, um-dois-três-quatro, um-dois-três-quatro-cinco-seis, um-dois-três-quatro, um-dois-três-quatro-cinco-seis-sete-oito.

Bolero.

Me virei para a porta.

Olhos. Oito patas. Uma aranha. Uma aranha estava sorrindo para mim. Uma aranha que tecia sua teia ao redor de mim e com suas patas me enrolava e me puxava enquanto sorria.

Dessa vez eu a via claramente

— Olá, de novo – a aranha disse. – A loja está aberta?

Socorro.

A Aranha acenou para mim e apontou para a maçaneta.

— Se importa se eu entrar? – ela perguntou.

Como? Como ela me achou? Como ela sabia que eu estava aqui? Como ela saiu viva daquele inferno?

A Aranha ficou me olhando. Ela estava esperando uma resposta. Ela sinceramente estava esperando uma resposta de mim. Meus lábios não queriam se afastar. Se eu abrisse a boca, eu ia gritar. Eu sabia… não, eu tinha certeza. Certeza absoluta. Se eu tentasse falar, ia gritar.

— Seja uma boa menina e abra a porta, sim? – a Aranha disse.

Eu recuei e recuei e recuei, mas ela não se afastava. As patas dela se aproximavam, se fechavam ao meu redor. O rosto dela, os olhos dela, estavam de frente para os meus e aquilo sorriso, por Deus, aquele sorriso! Ela não ia me matar com um golpe. Ela não ia me esmagar e devorar meu cadáver. Ela ia me comer viva, pedaço a pedaço, devagar, sorrindo durante tudo.

Não…

— Vai… vai… vai embora – eu sussurrei. – Vai embora daqui! – eu gritei. – Vai embora daqui!

Por um segundo, ela forçou uma máscara triste. Era nojento. Era enjoativo. Eu sentia o vômito subindo pela minha garganta.

E então o sorriso voltou.

— Menina má – ela disse. – Menina má!

A Aranha tocou a maçaneta.

Não.

Ela começou a gira-la, devagar, milímetro a milímetro, dilatando o tempo até o infinito.

Não.

Um clique.

A porta estava trancada.

— Que dor de cabeça – ela disse. – Não tem jeito então.

Ela sacou um revólver da cintura e apontou para a fechadura da porta. Se ela atirasse, o barril ia arrebentar. Não havia como a porta resistir àquilo. Não havia como impedi-la. Ela ia entrar ali e me devorar.

Não.

Ainda não.

Eu não consigo lembrar. Por que eu não consigo lembrar? Por quê?

Eu fechei os olhos. A Aranha puxou o gatilho. Não teve barulho. Quando uma arma é dispara e ainda mais quando ela acerta algo, há um grande barulho. É o que os filmes e os jogos me ensinaram. Mas não teve barulho daquela vez. Nem mesmo o clicar mudo do martelo ou o arranhar da bala pelo cano. Nada. Só silêncio.

Eu abri os olhos.

Aquela mulher, Aalto, não estava mais sorrindo. A expressão que eu vi naquele momento escancarada no rosto dela era algo completamente diferente. Não era o rosto de um predador prestes a matar. Era o rosto de um predador que, em meio a uma caçada, havia se deparado com um inimigo.

— Você… – ela disse. – Por que… por que você?

Atrás de mim, estava o pai de Daniel, parado perto do balcão, óculos no rosto, braços cruzados. Era como estar entre dois gigantes prestes a se matar, entre duas forças da natureza colocadas em lados opostos. Eu me sentia pequena, inútil, fraca.

— Essa é a minha loja – o pai de Daniel disse. – Se você quer entrar aqui é melhor que esteja pronta para negociar, caso contrário terei que considerar isso uma batalha.

— Ei, ei. Eu só quero a garota. Mais nada. Nem é assunto seu. Por que se envolver?

— Infelizmente, Emile foi trazida aqui pelo meu filho e ele ficaria muito irritado se eu simplesmente te deixasse leva-la. Brigas entre pais e filhos são coisas detestáveis e considerando que me reaproximei dele há pouco tempo, se possível gostaria de evitar esse tipo de coisa. Então, eu repito, se você não estiver pronta para uma negociação e ainda assim quiser entrar aqui, eu não vou ter outra escolha que não retaliar. Agora, isso seria um problema para nós dois, então por que você não dá meia-volta e evita isso?

A mulher apontou a arma para a porta, mas não atirou. Simplesmente sorriu e guardou-a de volta.

Ela desistiu?

Ela estava olhando para mim, sorrindo do mesmo jeito que antes.

— Você conseguiu um protetor perigoso, hein? – ela me disse. – Não é só você que tem truques, porém. Emile, você sabe onde seus pais estão?

Não…

— Você… – eu sussurrei.

— Yup – ela disse sorrindo. – Eles estão me fazendo companhia! Eles são pessoas simpáticas. Pena que não gostem de falar. Andam tão calados. É uma pena.

— Não… O que você fez com eles…

— Fica calma, fica calma. Eles estão bem, ok? Prometo. Bom, pelo menos por… três dias. Que tal? É bastante tempo, não é? OK então. Se em cinco dias não vier conversar comigo, só conversar, juro, não sei que vai acontecer com eles. O futuro é mesmo imprevisível, não é? Bom, vou indo. Não quero arranjar confusão. Bye bye, Emile. Nos vemos em breve.

Ela deu as costas e saiu andando.

Espera.

Eu tentei ir atrás dela. Eu juro… juro que tentei. Mas não me restavam forças. Eu não conseguia nem ficar de pé. Caí no chão e chorei. No fundo de mim, eu sentia algo que não sabia descrever. Na minha cabeça, eu só conseguia ouvir aquela pergunta, de novo e de novo.

“Por que eu?”.