Limiar

19 Minha vontade


“A batalha final”. Eis algo que nunca imaginei que fosse usar para falar de qualquer coisa que aconteceu comigo, mas o mundo tem lá seus truques para fazer as coisas acontecerem à revelia do que se espera. Ou pelo menos é o que me parecia, considerando tudo que tinha me acontecido. Era tão esquisito pensar que eu ia invadir uma estação de metrô para lutar.

Acho que isso me torna uma Warrior.

Não só isso – ao invés da Dama em Perigo eu agora era parte do grupo de resgate. É uma inversão de papéis bem brusca para acontecer em tão pouco tempo. Vou me repetir dizendo isso, mas o mundo é cheio de mistérios.

Entrar na estação não foi o maior dos problemas. O acesso externo ainda estava em construção, mas não tinha praticamente segurança nenhuma ali. Na verdade, a obra parecia abandonada com todas aquelas colunas erguidas pela metade e paredes por fazer. Ao menos o acesso ao subterrâneo estava pronto, mesmo com escadas não exatamente seguras e iluminação praticamente nula. Conforme eu descia com Daniel e Lavínia, ficava cada vez mais difícil enxergar na verdade. Se não fossem as luzes de trabalho amareladas, o pouco de luar que entrava pelo acesso à superfície e as luzes do túnel do metrô, aquilo seria um breu completo. Não só isso, alguma coisa no ar estava estranha. Era um cheiro de ferro, uma textura áspera como se o ar daquele lugar estivesse tentando me machucar.

Eu não gosto disso.

Tentei ver alguma coisa no rosto de Daniel e estava bem claro que ele também sentia aquilo e não estava gostando. O alarme na expressão dele era quase uma placa de neon brilhante. Nem dez metros escada abaixo, Lavínia, que seguia à frente, levantou a mão direita mandando a gente parar.

— Tem alguém aqui – ela disse.

Eu não conseguia ver ninguém ao redor, estava simplesmente escuro demais para os meus olhos.

— Onde? – eu perguntei.

Lavínia ficou uns instantes parada, acho que com os olhos fechados, só ouvindo. E então, ela apontou para as colunas grossas próximas à futura plataforma.

— Lá – ela disse. – Luzes, Mago.

Daniel desenhou alguma coisa no ar, um brilho apareceu na mão dele e, como um flare ele a jogou para frente. A luz foi delineando um arco, revelando as partes da estação.

Vermelho.

Corpos.

Símbolos.

O flare explodiu perto das colunas, formando uma esfera maior de luz branca esfumaçada, jogando nas paredes as sombras de três pessoas.

A aranha.

A piranha.

Paula.

Daniel olhava ao redor irritado ou espantando, não dava para dizer com clareza, mas alguma coisa ali incomodava ele muito.

— Merda – ele disse. – Essa estação inteira virou um estúdio.

A teia estava fechada.

A aranha saiu de trás da coluna, aplaudindo e rindo. As roupas dela eram estranhas, não era como as jaquetas que ela sempre usava, mas algo mais pesado, um vestido preto sem mangas aberto no lado, como um qipao curto, o cabelo preso com algum tipo de adereço branco.

Espera…

Ossos.

Meu coração disparou. As luvas dela…

Pele.

O colar.

Dentes.

A aranha olhou para mim, sorrindo.

— Gostou? – ela disse. – Trajes formais. Vesti só para vocês.

Que tipo de monstro é ela?

O que diabos é ela?

Não. Foque no importante.

— Cadê a Paula? – eu gritei.

A aranha pendeu a cabeça para o lado, para a outra coluna. De trás dela saiu a piranha segurando Paula, amordaçada, numa chave de pescoço. O monstro que um dia eu chamei de Luciana estava com os dentes de tubarão a mostra.

Sorrindo.

— Paula! – eu gritei. – Solta ela agora!

Claro que não vai ser assim, fácil.

— Por favor, Emile, você sabe como funcionam essas coisas – a piranha disse. – Os mocinhos vão atrás da amiga sequestrada e caem numa armadilha dos vilões para matar eles e capturar a que achou que ia ser trocada pelo refém. Você não esperava algo diferente, não é? As regras existem, afinal. Se bem que, considerando que esses dois estão com você, acho que você já estava esperando que isso acontecesse, não é, senhorita genre savvy.

Senti uma pancada de leve nas minhas costas. Lavínia estava do meu lado, sorrindo e já com as facas nas mãos.

E agora, a frase de efeito.

— Não se preocupa, garota-cobra – ela falou. – A gente já esperava isso.

Lavínia fechou o sorriso e a cara e cravou o olhar na aranha.

— Sabe, eu odeio gente como você – ela disse. – Acha que pode sair matando gente assim, sem consideração nenhuma só porque quer? Eu não consigo aguentar gente da sua laia. Você não passa de um monstro.

— Monstro? – a aranha disse. – Não, não. Vida. Eu dei vida para essas pessoas.

— Do que você está falando? – eu gritei. – Você matou elas! Que tipo de vida é essa?

— A única vida. A vida vivida no último momento antes de morrer. O calor nas veias. O medo de morrer. A adrenalina correndo no sangue. O desejo ardente de viver!

A aranha olhou para Daniel, sorrindo, as mãos abertas para ele.

— Você sabe como é – ela disse. – Dá para ver no seu corpo inteiro. Você quer partir para cima de mim. Você quer me acertar com toda a sua força enquanto eu devolvo. Você quer sentir o seu corpo contra o meu. Eu sei. Eu te entendo.

Ela é louca.

Os olhos de Daniel não mudaram, nem nada no rosto dele. Ele continuava encarando a aranha como uma águia encara uma presa.

Ei, não faz isso.

Ele suspirou e fechou os olhos. Abriu os olhos e apertou os punhos. Linhas pretas subiam pelo pescoço dele e se espalhavam pelo punho. Eu conseguia sentir a tensão o ar grudando na minha pele como navalhas, cada inspiração machucando minha garganta.

— Se você se deu ao trabalho de fazer um estúdio então não tem o que negociar – Daniel disse. – Não. Nunca teve. Lavínia tem razão, você é um cachorro louco. Enquanto você viver, pessoas vão estar em perigo. Eu não vou deixar isso acontecer.

Daniel virou os olhos para Lavínia e para mim.

— Eu cuido da Aalto – ele disse. – Vocês duas vão resgatar a Paula.

— Não – eu disse. – Eu vou sozinha.

— Ei, você está falando sério? – Lavínia perguntou.

— Eu sei o que eu estou fazendo. A Aalto é mais perigosa, não é? E essa coisa de estúdio, isso deixa ela mais forte, certo? Confiem em mim, por favor.

Encarei os dois nos olhos, sem fugir, sem fingir.

— Confiem em mim – eu repeti.

Daniel começou a andar em direção à aranha. Depois de três passos, ele parou e ergueu a guarda.

— Vamos lá, Lavínia – ele disse. – Estou contando com você.

Lavínia acedeu e bateu no meu peito.

Ei!

— Acaba com aquela vagabunda – ela disse.

Ela correu para junto de Daniel.

Um estrondo, nuvem de pó, outro estrondo.

No lugar em que Daniel estava, o chão tinha rachado e ele estava trocando socos com a aranha. E então Lavínia, golpeando por trás.

Ataques sincronizados, leves e pesados, um mix up de socos, cortes, chutes, estocadas – a aranha continuava guardando o próprio chão como se tivesse seis braços.

Foco, Emile!

Eu sei, Emile!

A piranha ainda estava lá. Quando meu olhar cruzou com o dela, ela puxou Paula consigo e saltou nos trilhos.

Mas não vai mesmo!

Corri atrás dela e saltei nos trilhos. Ela estava carregando Paula e eu era rápida. Em condições normais, tenho certeza de que não tinha como eu perseguir ela, mas aquela não era uma situação normal, eu tinha uma chance. Só precisava correr.

Vamos lá, Emile!

Estou indo, Emile!

Depois de uns minutos de corrida, a piranha saltou dos túneis para a plataforma da estação, arrebentou as portas de vidro com as garras e continuou em frente. Eu tinha corrido de uma estação até outra sem parar, meu sangue estava fervendo, quase borbulhando, o ar machucava minhas gengivas.

Aguenta, droga!

Tentei subir para a plataforma, mas meu corpo mal aguentava me manter de pé.

— Socorro! – Paula gritou. — Emile!

Ela está pedindo ajuda, droga!

Minha cabeça estava esquentando, meu corpo já devia estar carregado de adrenalina.

Droga!

Uma batida.

Eu estava cansada, frustrada e, especialmente, eu estava com raiva. Muita, muita raiva.

Fechei os olhos, respirei fundo.

Cinza.

Forte.

Um gorila machucado lutando e destruindo.

O nome dele: Raiva.

— Por favor, me ajude – eu disse.

Um rugido.

Cacos de vidro voavam ao meu redor enquanto eu subia em pleno ar. Eu estava sendo carregada pelo Gorila. Ele pousou com força, estourando o piso sob seus pés e batendo no peito com a mão que não estava me carregando.

Eu consegui…

Apontei para a piranha enquanto ela corria para dentro do elevador.

— Atrás dela! – eu gritei.

O Gorila me jogou nas costas dele, me agarrei aos pelos do pescoço enquanto ele se lançava de um salto para o nível superior, se pendurando e subindo e no processo quase me derrubando.

Ei! Cuidado!

Ele fez um barulho, acho que para dizer que tinha entendido, e se projetou para o alto. Na hora do pouso, o tranco quase me fez cair.

Acho que ele realmente não entendeu…

Oh, céus.

Assim que a porta do elevador se abriu, eu e o Gorila já estávamos esperando, porém não tinha ninguém ali e uma parte do teto de ferro tinha sido arrancada, aparentemente por garras.

— Emile! – Paula gritou de novo.

Dois níveis acima.

Como ela chegou tão rápido?

Não importa!

— Vai! – eu gritei para o gorila.

Ele rugiu e desembestou para frente, subindo as escadas, saltando, se pendurando até chegar ao último nível da estação bem a tempo de espantar os seguranças que estavam ali. Ao longe, eu vi a piranha carregando Paula nos dois braços, como um embrulho, enquanto cruzava o corredor elevado da estação em direção às plataformas. Sem esperar o meu comando, o Gorila se atirou atrás dela, esmagando o piso toda vez que seus punhos batiam nele, rugindo, gritando. A piranha saltou pelas escadas para as plataformas no nível inferior, das plataformas para os trilhos, por sobre as cercas que delimitavam a estação e então para a margem do rio. Sem parar por um momento, o Gorila me levou atrás dela, estourando a cerca no caminho, para o desespero de outro segurança.

À beira do rio, a piranha parou de correr.

— Emile! – Paula gritou.

Fiz o Gorila parar e desci das costas dele.

— Para! – eu gritei. – Chega disso! Lu, esquece essa história! Deixa a Paula ir! Ninguém vai atrás de você! Você pode ir embora?

A piranha que uma dia fora minha veterana soltou Paula no chão e então a levantou pelo pescoço de frente para mim.

— Tira esse macaco daqui ou eu quebro o pescoço dela, Emile Kato – ela disse.

— Espera! – eu disse. – Chega, droga! Acabou! Não dá para você entender isso?

Paula começou a gritar. Sangue começou a escorrer do pescoço dela conforme as garras da piranha afundavam nele.

— Faz o macaco desaparecer e se entrega agora – a piranha repetiu.

Droga…

Não tem jeito.

Fechei os olhos. Respirei fundo.

Meus batimentos. Controle as batidas. Controle. Controle.

Branco. Nada.

Apenas, se acalme.

Obrigada.

Quando abri os meus olhos, o Gorila tinha ido embora.

— Ótimo — a piranha disse. – Muito bom, Emile Kato.

Ela jogou Paula no chão. Corri até ela, chequei as feridas no pescoço.

Por favor, por favor, por favor.

Não eram graves. Ela ia sobreviver.

Obrigada, Senhora Sorte.

Paula agarrou minha mão. Eu ajudei ela a se levantar. Apesar das feridas não serem graves, ela não estava bem.

— Emile – ela perguntou. – O que está acontecendo? Quem é ela? O que era aquela coisa que estava com coisa? Eu não estou entendendo nada.

Pense rápido, Emile!

Não, não, não!

Ah, que se dane!

— Você precisa sair daqui agora, tá bom? – eu disse. – Eu te explico tudo depois, eu prometo. Agora você tem que ir embora. Isso é extremamente importante. Entendeu?

— Espera, não – Paula disse. – E você?

— Tudo bem. A ajuda está vindo. Agora vai! Vai!

Dava para ver quanto ela não gostava daquilo, quem gostaria, mas pelo menos Paula me ouviu e saiu dali. Acompanhei ela com o olhar até ela sair do meu campo de visão. E então, nos meus olhos só existia a piranha.

— Lu – eu falei – me escuta. Isso é loucura. Eu não estou com raiva de você, ok? E eu sei que tudo mundo pode esquecer isso se você for embora. Então, vamos parar com isso agora. Por favor.

— Sem chance – o monstro em que a minha veterana tinha se tornado disse. – Eu vou te levar de volta. Eu não volto de mãos vazias, entendeu? Nós somos monstros, Emile Kato, mas isso quer dizer que não merecemos existir? Tudo que a Fragarach faz é para tentar retomar o nosso lugar de direito nesse mundo! E com você, talvez o dia em que eu não vou precisar mais me esconder vai chegar. Olha, olha para o que esses humanos fazem! Olha o estado desse rio! A poluição, a sujeira! Eles destroem a nossa casa por luxos e então matam a gente, fingem que a gente não existe! Você acha que isso é certo?

— Não, mas…

— Então vem comigo! A gente pode mudar isso, Emile! Com o seu poder, a gente pode mudar o mundo!

Não. Não desse jeito.

— Eu sou um monstro, tudo bem, mas eu não sou uma assassina – eu disse. – Eu não posso aceitar isso. Vocês machucam gente demais. Eu não posso ir com você.

A piranha me olhou nos olhos e fechou a cara.

— Então não tem jeito – ela disse.

Num instante, eu vi o cabelo dela se iluminar e as escamas brilharem, no outro, eu senti a mão dela na minha garganta e os meus perderam o chão.

— Me larga! – eu gritei.

— Se você não vai por vontade própria, então eu só preciso te desmaiar e te arrastar – a piranha disse.

Fui atirada no chão e, pelos cabelos, arrastada na direção do rio. Tentei escapar, me debater, mas ela era forte demais. Á beira do rio, ela parou e me segurou por sobre a água. Com os dentes, a piranha abriu um rasgo no próprio braço e derramou sangue na água. O sangue se diluiu rápido, limpando a área pela qual se espalhava, purificando a água. E então, o monstro que um dia eu tinha chamado de Luciana me jogou dentro do rio. Assim que bati na água, tentei subir para a superfície, mas não tive chance nenhuma de conseguir: a piranha saltou logo depois, agarrou minha perna e me puxou para baixo e para baixo e para baixo… Não conseguia escapar, a beça girava, sem ar.

Droga…

Droga…

Droga… droga!

Não, desse jeito.

Eu quero voltar.

Eu prometi que ia voltar… eu disse que ia vencer ela.

Eu não posso perder… Eu não posso perder!

O colar da serpente flutuava na minha frente.

Por favor

Eu o agarrei com as minhas duas mãos.

Você que é eu

Fechei meus olhos, meus ouvidos, minha cabeça.

Me ajude!

Um choque subiu da base da minha coluna até o cérebro. Por um momento, eu não via nada. Tudo estava escuro.

Eu estou… dormindo?

Tinha alguém comigo.

A Serpente dormia me encarando.

Ah… entendi.

Você não é só meu Desejo…

O rapaz…

Você é minha Vontade.

E eu… quero voltar.

Então, por favor, me leve de volta!

Eu abri os olhos. A água no fundo do rio se iluminou. A luz era branca, confortável, familiar. Ela se aproximava rápido, subindo… ascendendo. E então, ela chegou até mim.

Branca, pura, poderosa.

A Serpente Branca de Olhos Vermelhos se ergueu do fundo do rio, abrindo a água ao seu redor, agarrando a piranha com sua boca e a arrastando para cima e me libertando no processo. Eu nadei com toda a força que me sobrava até chegar à superfície.

Ar!

Obrigado, Senhora Sorte! Obrigada!

Atrás de mim, a Serpente Branca balançava a piranha no ar, chovendo o sangue dela sobre o rio, espalhando por sobre a superfície, antes de enfim atirá-la longe, longe, desaparecendo nas águas que pouco a pouco se purificavam.

Eu sinto muito…

A Serpente nadou então até mim, girando ao meu redor, formando um remoinho brilhante. Eu sentia algo entrando dentro de mim, penetrando meu corpo de dentro para fora. A luz cresceu até em minha visão haver só o branco e em minha cabeça tudo desaparecer. Mas eu não estava assustada, não estava nervosa. Eu estava…

Inteira.

Quando a luz desapareceu, eu sentia que algo em mim tinha mudado. No meu reflexo na água, meu cabelo estava branco e meus olhos vermelhos.

Como uma cobra albina.

Não tinha tempo de pensar nisso. Ainda não tinha terminado.

A aranha.

Nadei até a margem e corri para os trilhos. Foquei minha mente na raiva que sentia e consegui fazer o Gorila aparecer. Saltei nas costas dele e apontei para a direção da estação em construção.

— Vai! – eu disse.

Enquanto ele se lançava por todo o caminho de volta para dentro da estação, eu não conseguia afastar do meu peito a angústia e o medo.

Lavínia… Daniel, por favor, estejam bem.

Eu estou chegando.