Limiar
20 E, bem assim, amanheceu
Paula estava a salvo. A piranha não era mais problema. Agora, só faltava a aranha. Eu sabia que Daniel e Lavínia eram experientes, eu sabia que eles eram melhores do que eu quando se tratava de lutar, mas ainda assim, aquela sensação que penetrava o meu peito…
Por favor, estejam bem.
O Gorila saltou nos trilhos do metrô e começou a correr. Ele era mais rápido que eu – muito, muito mais rápido.
Vai dar tempo!
De um momento para o outro, a atmosfera mudou e a sensação de navalhas me cortando voltou. Àquela altura já dava para ver a estação onde a aranha estava. Assim como dava para ouvir os estrondos da batalha.
Como explosões.
Cheguei à plataforma a tempo de ver Lavínia ser atirada de um lado da estação para o outro, de uma plataforma para a plataforma oposta e pousar se apoiando nos pés e na mão.
Sangue.
As roupas dela estavam rasgadas em vários pontos e ela estava ferida por toda parte. Na plataforma da qual ela tinha sido atirada, Daniel e a aranha continuavam se atacando. Eles também estavam feridos, roupas aos trapos, se destruindo a cada golpe.
— Mais! – a aranha gritava. – Mais! Mais! Mais! Eu quero mais! Vamos, me acerta! Me deixa te acertar! Eu quero sentir mais!
Ela não estava mais apenas bloqueando os ataques e contra-atacando. O jeito que ela estava lutando, era insano, completamente insano. Ela não parava depois de ser acertada, ela não recuava quando um golpe ia na direção dela, ela só atacava, atacava e atacava, o tempo todo sorrindo, gritando como se ela sentisse prazer naquilo. Daniel não parava de golpear também. Não importava quantas vezes as patas da aranha cortassem ele, a raiva gelada nos olhos dele não desaparecia, o foco não escapava da aranha. Os golpes deles erravam e atingiam as paredes, os pés passavam por cima de tudo sem dar a menor importância.
Saltei das costas do Gorila e apontei para a aranha.
— Pega ela! – eu disse.
Enquanto o Gorila batia no peito e pulava para o meio do combate, eu corri até Lavínia.
— Você está bem? – eu gritei para ela.
Lavínia se levantou e limpou o sangue que estava escorrendo da boca dela.
— A cachorra é forte demais aqui – ela disse. – Ela está se curando o tempo todo e se enchendo de magia para absorver os golpes.
— Mas não tem um limite de energia ou sei lá, alguma coisa assim? – eu perguntei.
— Isso é o estúdio dela. Enquanto ela estiver aqui dentro é como se ela estivesse ligada numa bateria infinita. Isso está indo longe demais. Daqui a pouco o metrô volta a funcionar.
Ouvi o barulho de uma parede desabando. Do outro lado da estação, Daniel estava enfiado dentro de uma parede com a aranha correndo na direção dele. O Gorila tentou acertá-la, mas ela parou o golpe e…
Ah!
Perdi a força na perna. Era como se um peso olímpico tivesse me acertado no estômago.
Droga, droga!
Lavínia se levantou na hora e correu para o meio do campo de batalha.
— Espera! – eu gritei.
Tentei me levantar para ir atrás dela, mas não dava. Minhas pernas estavam fracas demais.
Tem que ter um jeito de vencer ela!
Vamos, pense!
Vamos!
Soquei o chão forte a ponto de quase quebrar minha mão. Meu braço esbarrou em alguma coisa no meu bolso.
O antídoto!
Era uma pista, não era?
Mas o que ele queria dizer?
Vamos, pense, pense, pense!
Antídoto, veneno, as garras, vencer a aranha, “Eles só precisavam saber que havia dois. Mas eu tenho certeza de que isso vai ser útil para você”.
Por quê?
Por que entregar parar mim e não para eles?
Não faz sentido!
A menos que…
“Ela está se curando o tempo todo e se enchendo de magia para absorver os golpes”.
“Aquela maldição é brutalmente eficaz”.
“O sangue da ferida vira agulhas. As agulhas furam a carne, faz sangrar mais, cria mais agulhas, fura a carne e faz sangrar mais, cria mais agulhas”.
Gotcha!
Tentei me levantar, minhas pernas fraquejaram.
Droga, Emile, se levanta!
Eu estou tentando, Emile!
Gritei fora todo o ar que eu tinha nos meus pulmões e me levantei. De um fôlego só eu corri, corri e saltei.
Vai, vai, vai!
Caí de pé na plataforma oposta. Fechei os olhos por um segundo.
Um incêndio.
Uma tempestade
Destruição.
Eu preciso da sua ajuda!
Abri os olhos, apontei para a aranha.
— Ataca! – eu gritei.
O chão tremeu sob os pés de um monstro gigante. O dinossauro, bem menor do que as vezes anteriores, mas ainda grande o suficiente, se atirou rugindo contra a aranha, empurrando ela contra a parede longe dali.
Pancadas no meu rosto.
Ela ainda estava consciente e não ia dar para segurar ela por muito tempo, mas tudo bem, eu só precisava de tempo e espaço para chegar até Lavínia e Daniel.
— Eu sei como derrotar ela! – eu disse.
Daniel tirou o que restava do casaco dele e ficou me olhando sem dizer nada por um momento.
— Seu cabelo – ele disse. – O que aconteceu com você?
— Isso é hora de pensar nisso? – Lavínia falou.
— Desculpe. No que você pensou?
— A maldição dela – eu disse. – Se o problema é ela ficar se curando, aquela maldição deve parar ela, certo?
— Talvez. Mas eu não acho que consiga fazer ela se acertar.
— Eu faço – Lavínia disse. – Só preciso de uma abertura.
— Eu consigo segurar ela por um momento – Daniel falou.
— Eu coloco ela no chão – eu disse.
Uma marreta bateu no meu rosto.
A estação inteira tremeu. Vi o chão chegar rápido na minha frente, tive que usar as mãos para ele não me acertar de frente.
— Ela está vindo! – eu gritei.
Ouvi os passos, os primeiros golpes.
No três.
Me levantei e me virei para a luta.
Um.
Daniel prendeu a aranha no lugar.
Dois.
O dinossauro tentou acertá-la por trás.
Três.
Lavínia saltou.
Sangue.
Por um segundo, foi como se o alguém arrancasse uma faca presa na minha garganta e minha garganta esganada puxasse para dentro todo o ar que tinha.
Acabou.
A aranha caiu no chão, curvada para frente, gritando, segurando seu braço esquerdo conforme nele brotavam espinhos vermelhos, rasgando a pele e jorrando sangue. Os berros dela continuaram crescendo de crescendo até pararem e uma risada começar, baixa de início e crescer, aumentar, amplificar até ser uma gargalhada. A aranha jogou a cabeça para trás, se ajoelhando, agarrando o próprio rosto com a mão direita.
Ela é completamente louca.
A risada parou de repente, como um arquivo defeituoso, e os olhos da aranha correram por mim, Lavínia e Daniel.
— Vocês venceram – ela disse. — Ótimo, ótimo. Agora, eu morro.
— Ainda não – eu disse.
Todos os olhares se voltaram para mim. Eu tirei a seringa e o vidro do meu bolso.
— Espera, isso daí não é o que eu estou pensando, certo? – Lavínia disse.
— O antídoto do veneno – eu falei.
Cheguei perto da aranha e olhei ela nos olhos.
— Essa é a única coisa que pode te salvar agora – eu disse.
— Oh? – a aranha disse. – Não vai me dar por nada.
— Não, não vou. Em troca disso, eu quero que você vá até a Fragarach e diga para eles me deixarem em paz. Não me interessa como, mas eu quero que você faça com que eles nunca mais venham atrás de mim.
— Ei! – Lavínia gritou. – Você não está falando sério, está? Você não pode confiar nessa cachorra! Ela tentou matar a gente!
— Eu sei. Mas ela não é uma mentirosa, é?
A aranha sorriu para mim.
— Você é uma cobra – ela disse.
— Você tem razão – eu falei. – Eu sou uma cobra. E nesse momento essa cobra está com a sua vida nas mãos dela. E então, como vai ser?
— Que droga, você não pode fazer isso! – Lavínia gritou. – Isso é burrice!
— Ei, ei, ei – a aranha falou. – Se acalma, se acalma. Esse foi meu último trabalho. Achei uma coisa mais interessante que Fragarach.
Os olhos da aranha estavam caindo em Daniel. Ele continuava sério, porém agora tinha uma frieza naquela seriedade que não parecia com a frieza dele.
— Esse é um pedido formal – ele disse. – Como um representante do Mago no controle desse território eu endosso a oferta. Mas se você quebrar o acordo, se você voltar a pisar nessa cidade ou tentar fazer qualquer coisa contra qualquer um de nós eu não vou te dar outra chance.
— Adorável – a aranha falou. – É assim, é? Aceito.
Obrigada, Senhora Sorte.
Enchi a seringa e injetei no braço da aranha. Assim que tirei a agulha do braço dela, comecei a me afastar, a aranha me agarrou o pulso e me puxou para perto dela.
— Seus olhos e seu cabelo – ela disse. – Eles são lindos.
Me afastei da aranha enquanto ela me encarava e ria.
— Vamos embora daqui, por favor – eu disse.
Saímos da teia da aranha enfim. Estávamos machucados, estávamos mal vestidos, estávamos cansados. Mas acho que estávamos todos satisfeitos e, acho que isso pode ser ousar um pouco demais, mas vou dizer mesmo assim, felizes. Pegamos o taxi que passou só que não voltamos direto para o antiquário. Esse era o plano original, mas, no caminho, passamos em frente a um parque verde, tranquilo, silencioso.
Eu sei exatamente o que você quer fazer, Emile.
Então vamos em frente com isso, Emile.
— Para o taxi – eu disse.
O motorista parou e eu desci. Lavínia me seguiu de perto e Daniel veio um pouco depois.
— Uma noite como essa, em que a minha primeira vitória aconteceu, seria desperdiçada simplesmente voltando para uma loja de coisas velhas – eu disse. – Então, por que não se juntam a mim e comemoramos aqui?
Eu sorri.
— Acho que a gente merece um descanso – eu disse.
Daniel e Lavínia sorriram de volta para mim.
— Não é uma má ideia – ele disse. – Certo?
— É, certo – Lavínia concordou. – Acho que não faz mal descansar um pouco.
Ficamos deitados no parque por horas, sentindo a grama, o vento, o cheiro do dia que estava começando naquele pequeno pedaço de mundo. Foram horas e horas de silêncio até o céu começar a ficar lilás e então azul, as luzes dos prédios apagarem e, pouco a pouco, o barulho das buzinas foi enchendo o espaço. E, bem assim, amanheceu. O mundo da noite, cheio de seus mistérios estranhos deslizou para fora da grande roda das coisas, dando lugar para o dia com todos os seus problemas simples, o trânsito, as provas, as contas, a inflação que não parava de subir. As peças voltaram ao lugar e minha vida logo estava de volta ao que era.
Não como um sonho – só como duas partes.
Bem, na sua maior parte pelo menos.
— O que você fez com o seu cabelo? – foi a primeira coisa que Coiote perguntou quando nos revimos no restaurante da faculdade.
Dei meu melhor sorriso para ele, para Dênis. Para Paula. Ela devolveu confidentemente.
— Um monte de coisa aconteceu – eu disse. – Achei que fosse uma boa marca para a nova eu.
Os olhos vermelhos ficam em segredo, porém.
Isso seria um pouco complicado demais para explicar.
— Que tipo de coisas? – Dênis perguntou.
— Coisas complicadas – Daniel disse. – Quase tão complicadas quando Eva 3.3 e, provavelmente, com muito mais sentido.
— Ei! – Coiote gritou. – Eva 3.3 faz todo o sentido, tá bem?
E desse jeito, a conversa se desviou para discussões sobre o sentido de Evan 3.3, o uso de simbolismo cristão em animes e a possibilidade do um clérigo derrotar um monge shaolin no Egito. O que um monge shaolin e um clérigo estariam fazendo no Egito, porém, ninguém sabia dizer.
O mundo é cheio de mistérios.
Senti um pouco de comida voar no meu rosto. Do outro lado do lançamento, estava Paula, sorrindo e com os olhos brilhando.
— A gente sentiu sua falta – ela me disse.
— Eu também senti.
No fim daquele almoço, quando saímos do restaurante, uma garota com jeito de gato estava esperando por uma pessoa. Assim que nos viu, Lavínia acenou para Daniel e ele correu até ela. Cumprimentei ela também e ela devolveu.
— Yo – ela disse. – Como vai sua bunda mole?
— Olá, Lavínia – devolvi. – Bem melhor do que o caderno que você está guardando dentro da camisa. Ah, desculpe. Esse é só o seu corpo.
Lavínia me encarou meio-sorrindo.
— Tentando comprar briga? – ela disse.
— Sempre – eu respondi. – Mas não hoje. Tenho um lugar para ir.
Cumprimentei todos e saí dali andando. Meu caminho me levou direto para o metrô, desci na estação em que sempre entrava, subi a ladeira que sempre subia e parei na frente da casa em que eu sempre parava. Tinha chovido há pouco tempo, então a cidade não estava lá tão laranja e nem tão quente e o ar seco, mas dava para suportar. A cidade, afinal, estava normal. Se alguém tentasse adivinhar que alguma coisa estranha tinha acontecido e apostasse nisso vinte e cinco centavos, essa pessoa ficaria vinte e cinco centavos mais rica no fim do dia e talvez algumas pessoas fizessem isso. Quem sabe. Esse é um mundo em que a vida de uma jovem mulher pode mudar em alguns poucos dias, afinal.
Eu sou Emile Kato. Essa foi minha história. É aqui que ela termina.
Por enquanto…
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