Limiar
17 Eu não vou fugir!
“Quem sou eu? Quem é essa pessoa que chamam de Emile Kato? Por que ela existe?”.
Emile Kato é uma mentira. Ela não existe nem nunca existiu. Emile Kato é algo que foi criado por alguém por um objetivo que eu não entendo. Tudo que existia sobre ela foi forjado e tudo que ela acreditava ser verdade não era. O mundo em que Emile Kato existia era uma mentira, assim como ela mesma era.
“Então, qual é a verdade?”.
Ela não sabe. Ela não sabia quando a levaram de volta ao antiquário, tampouco sabia quando a colocaram diante de Marcos para tentar falar, algo que àquela altura ela não conseguia fazer com qualquer possibilidade de coesão. Tudo que ela conseguia fazer era permanecer fechada dentro de si mesma, repetindo a pergunta infinitamente.
“Se Emile Kato é uma mentira então o que é a verdade?”.
Enquanto estava deitada naquela cama, Emile Kato se lembrou de todas as mentiras que viveu. De quando achou que tinha conhecido as pessoas que tinha chamado de pais, quando saiu da casa antiga para a nova e quando se mudou dessa para aquela em que morara até poucos dias antes, quando ainda acreditava ser Emile Kato. Os anos de escola e o tempo na faculdade também não eram verdade. Tudo aquilo era só um sonho que ela tinha vivido por um tempo e do qual agora tinha acordado. Como um bebê que acaba de nascer, a garota que acreditava ser Emile Kato chorou tanto quanto seu corpo aguentou. E então ela se calou. Ela continuou calada quando tentaram falar com ela, os dois, o pai e o filho. Ela não queria ouvir. Não ia ajudar, então para quê ouvir? Apenas se fechou dentro de si e deixou tudo mais para fora. Nada mais ia escapar. Ela ficaria sozinha e não precisaria mais ter que encarar tudo aquilo. Se voltasse a dormir, talvez voltasse a sonhar. Então, dormiu.
Para dormir, é preciso que seja noite, então ela fez o mundo todo escuro e o pontilhou com pequenas luzes e um grande disco branco. Para dormir, é preciso que haja silêncio, então ela fechou todo o barulho ao seu redor, isolou qualquer barulho do outro lado. Estava frio, então ela tornou tudo mais quente.
Quente… Confortável.
Ninguém mais poderia feri-la ali. Enquanto ela mantivesse os olhos fechados, nada poderia chegar a ela. Ela que não vê mal algum, ela que não ouve mal algum, ela que não fala mal algum era então feliz. E então, ela dormiu.
“Quem sou eu?”.
Emile Kato não disse isso. Então quem foi? Ela ouvia a voz em algum lugar, mas não sabia aonde. Ela olhou ao seu redor e, de relance, pensou ter visto alguém. Ela correu, seu corpo se movendo como se não fosse seu, as estrelas e a lua ao seu redor paradas no mesmo lugar, mas a voz chegando mais e mais perto.
“O que eu estou fazendo aqui?”.
Havia uma garota parada ali, sentada no chão, de cabeça baixa.
“O que eu sou?”.
Emile Kato se aproximou da criança que chorava, tocou-a no ombro, com cuidado e hesitação.
“Você está bem?”, ela perguntou à criança.
Levantando a cabeça, a criança revelou seu rosto choroso, o mesmo rosto que um dia Emile Kato tivera. Assustada, Emile Kato recuou sua mão.
“Quem é você?”, a criança perguntou a Emile Kato.
Emile Kato afastou os lábios, mas em sua cabeça não havia uma resposta. Seu peito doía, sua cabeça girava, seu estômago se revirava. Ela vomitou e de sua boca, envolta em sangue e choro, saiu uma Serpente, pequena e confusa. O rosto sem olhos da Serpente procurou ao seu redor, até achar a grande Emile Kato e a ela dirigir uma pergunta:
“Qual é o meu nome?”.
A Serpente era uma criatura assustadora e misteriosa – era algo diferente de tudo que Emile já havia experimentado e por isso podia apenas ser má. Emile se levantou e correu. Fugiu. Da Serpente que perguntava seu nome, da menina que chorava sem saber quem era. A Serpente corria atrás dela, crescendo rápido, furiosa, repetindo aquela mesma pergunta.
“Qual é o meu nome?”.
Emile Kato ouviu um grito e ao olhar para trás viu Emile Kato ser pega pela Serpente. Ela via a Serpente à sua frente, sua boca escancarada e a pergunta ecoando de dentro das entranhas da besta.
“Qual é o meu nome?”, a Serpente perguntou.
“Eu não sei!”, Emile Kato respondeu.
E então, ela foi devorada.
Emile Kato abriu os olhos e o mundo ao seu redor era escuro e escorria cobrindo-a num líquido negro. De todos os lados ecoava a pergunta “Quem sou eu?”, entoada em mil vozes. Em um lugar, a Serpente era devorada, e o gorila e o monstro, todos engolidos pela escuridão, lutando, se debatendo, fracos demais para escapar. Emile Kato gritava e se debatia, mas seu corpo apenas afundava mais rápido a cada tentativa de escapar. Ela arrancava as sombras que se agarravam a seu corpo, porém de nada adiantava. Emile Kato seria devorada e desapareceria para sempre. Num último esforço, enquanto seus olhos eram cobertos pelo escuro, ela ergueu sua mão para o alto.
Alguém a segurou.
No escuro, alguém a segurou. Havia alguém ali. Existia alguém além dela. Uma pessoa, tinha uma pessoa que não era ela ali. Emile Kato se agarrou àquela mão com toda a sua força, com toda a sua vida. Ela não ia largar. Ela não ia morrer ali. Não ainda, não antes de poder responder à pergunta, não antes de, pelo menos, entender, afinal quem sou eu?
Havia luz e barulho e pessoas.
O homem alto de óculos, o rapaz tão normal, a garota incrivelmente forte.
— Você está bem? – o homem de óculos perguntou.
Os olhos do homem estavam em mim. Ele estava falando comigo.
Eu… estava ali.
— O que aconteceu? – eu perguntei.
O rapaz suspirou.
— Você quase morreu – Marcos disse. – Você perdeu controle, um tipo de… é um pouco difícil de explicar, posso fazer isso depois.
Sentei na beira da cama. Meu corpo estava pesado.
— Daniel e Lavínia me contaram sobre o que aconteceu – Marcos falou.
— Então foi mesmo de verdade – eu disse. – Eu sou um monstro.
— A gente já entendeu, senhorita dramática – Lavínia disse. – Agora supera.
Me levantei e encarei Lavínia nos olhos.
— Acha que é tão simples assim? – eu gritei. – Eu sou uma coisa, um experimento, um bicho de laboratório! Meus pais não eram meus pais, minha amiga não era minha amiga e tem monstros saindo de dentro de mim!
— Eu sei – Lavínia falou. – Quer que eu diga o quê? “Ai, que pena”? Não. O que eu tenho para te dizer é para de gritar, cria vergonha nessa cara e supera. Você deu sorte.
— Lavínia! – Daniel gritou.
— Cala a boca, Daniel. Alguma hora alguém vai ter que parar de mimar essa daí e começar a falar o que ela tem que ouvir. É, você é uma anomalia. Uau, que terrível. Um monte de gente é assim. Todo mundo aqui nessa porra desse quarto é assim. Daniel tem um buraco no peito e um monte de magia enfiado no lugar, Marcos tem alguma merda nos olhos que eu não sei de onde caralhos ele tirou e eu não morro. Somos a porra de um bando de monstros iguais a você, mas por acaso tem alguém reclamando disso? Não! Então para de ficar chorando!
Chega.
— Acha que isso é ruim? – eu gritei. – Você não morre! Você é a droga de uma imortal! Você não tem do que reclamar! Eu daria qualquer coisa para estar no seu lugar! Tudo! Sua vida é perfeita.
— Perfeita? Você acha que minha vida é perfeita? Você sabe como eu descobri que eu não posso morrer?
— Lavínia, espera! – Daniel disse.
— Não, não espera! – eu falei. – Eu quero ouvir. Eu quero ouvir a história tão ruim de como você descobriu como é terrível ser imortal, Lavínia. Foi o quê? Um acidente de carro? Uma bala perdida? Vai, fala. O que pode ser tão ruim?
Lavínia não estava mais irritada, mas séria. Terrivelmente, assustadoramente séria. Todo o rosto dela estava diferente, pesado, as sobrancelhas, os olhos, a boca, tudo tinha se alterado para transmitir a mesma imagem.
— Eu fui sequestrada, estuprada, torturada e morta – ela disse. – Não foi uma vez nem duas. Foram dois anos. Dois anos sendo alugada feito uma coisa, passada de mão e mão para ser usada e morta. Dia após dia. Sem descanso. Por dois malditos anos minha vida foi isso. Perfeita? Minha vida foi bem longe de ser perfeita. Eu vivi um inferno. Tem ideia do que é isso? E você vem dizendo que queria ter minha vida? Eu queria ter a sua vida. Mas não foi assim. Eu tive que passar por essas merdas todas e não tinha ninguém para me ajudar, ninguém para me explicar o que estava acontecendo, ninguém para me salvar até eu escapar com as minhas próprias pernas.
Não tinham palavras que eu podia dizer. Qualquer coisa simplesmente parecia errada.
Droga…
Simplesmente não tem como não é?
Minhas mãos tremiam muito, meus olhos ardiam.
Eu sou um lixo.
Como eu pude falar aquilo?
Por que eu nunca faço nada direito?
Eu estava soluçando. Meu corpo tinha caído sentado sobre a cama.
Eu sou uma droga de pessoa.
Lavínia parou na minha frente, me olhando sem um pingo de emoção.
— Levanta e vem comigo – ela disse. – Agora.
— O quê? – eu disse.
Sem dar a mínima para o que eu dizia, Lavínia me agarrou pelo pulso e me puxou da cama.
— Eu não quero ouvir nenhuma palavra de ninguém – ela falou. – E vocês dois, não me sigam. Entenderam? A gente está indo.
Lavínia me arrastou para fora do quarto, da loja, pelas ruas. Eu não conseguia questioná-la nem falar nada. Que direito eu tinha?
O que eu estava fazendo?
Como eu pude ser tão idiota?
Todo esse tempo, eu só estava olhando para mim mesma.
— Chegamos – Lavínia disse.
Estávamos num parque pequeno, simples. Não tinha ninguém perto, só nos duas. Lavínia me soltou e se afastou uns dois passos.
— Por que você me trouxe aqui? – eu disse.
— Só tem um jeito de a gente resolver essa situação – Lavínia disse.
— Situação? Do que você está falando?
Lavínia mudou de postura. Ela ergueu os punhos e afastou as pernas, como se fosse lutar.
— O que você está fazendo? – eu perguntei.
— Daniel é meu – Lavínia disse. – Eu não vou deixar alguém que nem consegue parar de mentir para si mesma tomar ele de mim. Se você quiser ele, vai ter que arrancar ele das minhas mãos. Se prepara.
— Espera, do que você está falando?
Ela partiu para cima de mim. Recuei para não acabar levando um soco no rosto.
— Para com isso! – eu gritei. – Você entendeu tudo errado!
— Para de mentir!
Lavínia atacou de novo. Quase caí enquanto recuava. Os socos dela eram rápidos demais para acompanhar.
Droga!
— Então desiste! – ela disse. – Se afasta da gente e nunca mais se aproxima!
— Isso não é justo!
— Então eu vou te bater até você desistir!
Ela simplesmente não me ouvia. Os socos não paravam de vir.
Minhas costas.
Bati numa árvore. Não tinha mais como recuar.
— Te peguei! – Lavínia gritou.
Ela avançou, ergueu o punho e bateu mirando no meu rosto.
Meu braço.
O soco dela atingiu meu braço. O braço que estava na altura do meu rosto.
Quando eu me mexi?
Ela bateu outra vez e meu outro braço entrou no caminho.
O que está acontecendo?
Outra pancada veio em minha direção e meu corpo saiu do caminho, esquivou, mas não recuou – ele avançou… eu avancei e golpeei de volta.
Eu estou lutando?
Por que eu estou fazendo isso?
Me joguei para frente, socando mais e mais. Meu corpo estava quente, uma sensação estranha estava me enchendo por dentro. Eu me sentia leve, livre. A cada golpe era como se um peso saísse de dentro de mim, como se uma corda se desamarrasse em algum lugar.
Eu quero vencer.
Uma pancada acertou meu rosto, me jogou para trás. Senti o chão contra os meus joelhos, a terra entre os meus dedos. Me levantei com terra na mão e a joguei na cara de Lavínia. Ela protegeu os olhos com as mãos e nessa hora eu me lancei contra ela, agarrando-a e derrubando-a no chão.
Eu quero vencer!
Eu quero vencer!
Não importa como, eu quero vencer!
— Eu não vou fugir! – eu gritei.
Eu socava Lavínia com toda a minha força, com toda a minha vontade, com todo o meu corpo. Eu me sentia por inteira como nunca tinha sentido antes. Uma pancada nas minhas pernas me derrubou no chão, mas eu me levantei e levantei a guarda para aparar um soco. Outro veio pelo outro lado, mais um pela esquerda, direita, esquerda, direita, direita, direita, esquerda, eu via os golpes vindo, eu sabia o que fazer, eu sentia o que fazer.
Eu quero vencer!
Um soco.
Senti meu punho bater em algo e algo bater no meu rosto. O mundo girou e o céu alaranjado pelo pôr-do-sol apareceu na minha frente, lá, lá longe e aqui tão perto.
Tão bonito…
Eu estava sorrindo. Meu corpo estava cansado, eu estava suada, suja, machucada, exausta, mas sorrindo. Eu estava feliz. Mesmo com tudo que tinha acontecido, eu estava feliz. Lavínia estava caída no chão também, olhando para mim e sorrindo como uma gata que acabou de brincar.
— Eu vou ficar mais forte – eu disse. – E eu vou te vencer quando você estiver lutando de verdade. Está ouvindo? Eu vou te vencer! Pode esperar!
— Vou esperar sentada – Lavínia devolveu. – Essa sua bunda mole nunca vai me vencer.
Lavínia começou a rir. Era uma risada tão leve que como eu podia não rir também. Era uma sensação nova, diferente.
Meu celular começou a tocar. Puxei ele do bolso, era Paula.
— Alô, Paula? – eu disse.
— Errado, erado – foi a resposta.
A aranha.
Me levantei na hora. Lavínia se aproximou rápido para ouvir a conversa.
— Você… – eu falei. – Por que você está com o número da Paula? Você disse que não ia fazer nada!
— Não, não – a aranha falou. – Disse que ia dar tempo para ir atrás do passado. Você foi. O jogo voltou.
— Escuta aqui, se você fizer alguma coisa com a Paula eu…
— Calma, calma. Eu só quero te ver.
Olhei para Lavínia. Os olhos dela me diziam para ir adiante.
— Quando e onde? – eu perguntei para a aranha.
— Amanhã às duas da manhã, na estação em construção, dentro do metrô – ela respondeu. – Traga seus amigos, ok? Vamos fazer uma festa incrível, Emile. Não se atrase. Bye bye.
Ela desligou.
— O que ela disse? – Lavínia perguntou.
— Ela está com a Paula, disse para ir atrás dela duas da manhã, na estação de metrô em construção.
— Finalmente. Sabe o que isso quer dizer, não é?
Acedi.
— Sim, eu sei. É hora de acabar com isso, de uma vez por todas.
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