Limiar

18 A palavra que eu fingi esquecer


A aranha estava com Paula nas mãos. Era tudo que eu precisava saber.

Assim que eu e Lavínia voltamos para o antiquário, demos com Daniel e Marcos na loja, em suas posições de sempre. Tomei a frente.

— A aranha pegou a Paula – eu disse. – Ela quer encontrar com a gente duas da manhã, na estação nova do metrô.

— Parece que ela quer logo por um fim na situação – Marcos disse. – E pelo seu olhar, acho que ela não é a única.

— Eu fiquei tempo demais escondida e fugindo – falei. – Não, dessa vez, não. Eu vou salvar a Paula.

Marcos ajeitou os óculos e me encarou sorrindo um pouco.

— E pensar que eu ia ouvir algo assim de novo depois de tão pouco tempo – ele disse.

Marcos se abaixou e pegou uma caixa de debaixo do balcão. De dentro da caixa, ele tirou um frasco pequeno, carregado de um líquido vermelho.

— O que é isso? – Daniel perguntou.

— Algo que foi muito difícil de conseguir – Marcos respondeu. – Eu pedi ajuda para alguns amigos para estudar um jeito de lidar com a maldição da Aalto. Infelizmente, não há nada que se possa desenvolver em tão pouco tempo para bloquear a magia em si, porém, em tese, outra infecção sanguínea pode impedir que o veneno se espalhe. Não há como testar, mas é a melhor das alternativas. Então eu pedi que me conseguissem um pouco de sangue de vampiro e trabalhei em neutralizar o agente ativo sem perder as características infecciosas. Em tese, isso vai fazer com que o corpo de vocês possa lutar contra infecções sanguíneas futuras. Em tese.

— Tem um monte de “em tese” nisso que você falou – Lavínia disse.

— Como eu disse, não tive tempo de testar, então tudo não passa de uma hipótese. Ainda assim, estou confiante quanto à eficácia desse método.

Daniel se aproximou do balcão, cabeça para o alto, olhar para a frente.

— Isso é o suficiente para quantas pessoas? – ele perguntou.

— Eu tenho duas doses – Marcos disse. – Ela não vai atacar Emile, então vai ser o suficiente.

Lavínia estralou o pescoço e sorriu mostrando os dentes.

— Dessa vez a cachorra não escapa – ela disse.

— Não pensem que só porque estão imunes à maldição a Aalto não vai ser perigosa – Marcos falou. – Ela ainda é uma das melhores combatentes de que se tem relatos.

— Não se preocupa – Daniel falou. – Eu já vi como ela luta. Dessa vez isso vai até o fim.

“Até o fim”.

Ele quer dizer… matar?

O sangue. Os corpos. O monstro.

Uma batida.

Marcos olhou para mim por um momento, como se soubesse o que eu estava pensando, e então se voltou para Daniel e Lavínia.

— Nesse caso, vocês dois vão para os fundos – ele falou. – Eu vou preparar as injeções e já vou aplicar em vocês.

Assim que Daniel e Lavínia saíram, Marcos pegou um dos frascos de dentro da caixa, veio até mim e me entregou o vidro junto a uma seringa.

— Achei que só tivessem dois – eu falei.

— Eles só precisavam saber que havia dois – Marcos falou. – Mas eu tenho certeza de que isso vai ser útil para você.

O que ele está tentando dizer?

— Todo o processo da inoculação vai demorar algumas horas para começar a fazer efeito – Marcos disse. – Nesse meio tempo, Daniel e Lavínia não vão poder se mexer muito. Eu acredito que tenha algo que você queria fazer com esse tempo livre.

Encarei Marcos frente-a-frente, sem tentar fugir dos olhos dele.

O que é você?

— Você me dá medo – eu falei. – Se você estivesse tentando me capturar e não aquela mulher, eu já tinha me rendido.

— Sorte sua que eu não estou, não é?

Acedi.

— Mas você tem razão – eu falei. – Tem uma coisa que eu tenho que fazer antes de encarar aquela mulher outra vez. Eu não sei se eu estou pronta, mas eu não posso mais fingir que não tem nada acontecendo. Eu vou…

Parei de falar quando Marcos pegou o pingente que tinha me dado com uma mão e ficou olhando para ele, sério.

— Sabe por que cobras são símbolos da renovação? – ele falou.

— Porque elas trocam de pele? – eu disse.

— Exato. Elas deixam a pele antiga para trás para que possam crescer. Realmente combina com você.

Marcos soltou o colar e voltou para o balcão.

Eu sorri.

Tal pai, tal filho.

— Eu vou voltar – eu disse.

— Eu sei que vai – Marcos falou.

E então, eu saí do antiquário, com minhas mãos tremendo, mas sem olhar para trás.

Vamos lá, Emile.

Vamos lá.

Fiz todo o caminho, ônibus, metrô e um pouco de caminhada, até a minha casa. A televisão do metrô mostrava o horóscopo do dia numa frase genérica sobre perseverar para se conquistar algo. Acho que eu ri um pouco e o homem sentado ao meu lado estranhou. Desci do trem na estação perto da qual morava. De lá, era só caminhada até chegar à minha casa. Aquele era o mesmo caminho que eu fazia todos os dias, indo e voltando para casa, mas enquanto eu subia a ladeira, nunca tinha notado a loja de doces ou a papelaria, nem a banca de jornal. Eu sabia que aquelas coisas estavam ali, já tinha comprado lá uma vez ou outra, mas nunca tinha olhado para elas, nunca tinha visto o os desenhos na parede da doceria ou que tinha uma máquina de chicletes na banca de jornal. Aquele era o caminho no qual eu havia gastado incontáveis horas da minha vida. O caminho pelo qual eu havia corrido sem nem olhar para qualquer coisa.

No fim da ladeira, havia uma casa. Minha casa. Eu não tinha a chave dela, mas a porta não estava trancada. Quando eu entrei, as luzes estavam apagadas como eu tinha deixado na manhã em que saí, antes desse mundo desaparecer da minha vista. Em cima da mesa da cozinha tinha um bilhete. “Eu sinto muito por tudo”, era o que dizia naquele papel.

Ouvi passos descendo a escada.

— Emile…?

A mulher que eu tinha chamado de mãe por muito tempo estava parada na escada, olhando para mim com olhos arregalados de surpresa e, quem sabe, um pouco de alegria.

— Eu… voltei – eu disse.

Minha mãe fez um pouco de café. Tomamos sem nem nos sentar à mesa. Alguns dias atrás eu tinha saído dali sem saber que demoraria uma vida inteira para poder voltar ali.

— Ouvi que você falou com o Palazzi – a mãe disse.

Aquele homem.

“Eu sou seu criador”.

— Então, é verdade – eu disse. – Eu meio que já sabia disso, mas tinha que ouvir de você.

No rosto da mãe não tinha mais alegria agora, só tristeza. E culpa.

— Me desculpe – ela falou. – Eu achei que fosse melhor não te contar. Enquanto desse, eu queria que você tivesse uma vida normal.

Doía.

— Por que você está aqui? – eu perguntei.

A mulher apenas continuou me olhando sem falar nada. Na parede da geladeira tinha uma foto minha com aquela mulher… com a minha mãe. Eu ainda era uma criança naquela época. Era tão estranho…

— Eu pretendia sair de casa, sabe? – eu falei. – Ainda pretendo. Só não pelo mesmo motivo. Queria olhar para aqui antes disso acontecer. E queria te agradecer.

— Você não precisa me agradecer. Eu só queria fazer o que eu pudesse por você.

Meus olhos ardiam, minhas pernas tremiam, mas eu sentia o calor no meu peito.

— Eu vou continuar morando aqui – minha mãe disse. – Quando tudo isso acabar você ainda vai vir me visitar?

Fechei os olhos e sorri.

— Eu vou tentar – eu falei.

O relógio continuava correndo. Minha mãe segurou minha camisa e ficou mexendo na gola por uns momentos. Quando terminou, ela abriu um sorriso.

— Você está animada hoje – ela disse.

— Estou?

— Tem algum motivo para isso?

— Acho que eu cresci um pouco.

— Fico feliz em ouvir isso.

— Estou indo agora. Bom dia, mãe.

— Juízo.

Ditas as despedidas, me virei de costas para aquela casa e corri para o mundo que eu sabia estar habitado por Serpentes gigantes, monstros e magia. O Sol batia na minha cabeça e o vento arranhava meu rosto. Não era um sonho, nem um pesadelo. Aquele mundo existia e eu sabia disso. Então eu corri. Não para longe dele, mas para ele. Para a estação de metrô. Para onde tudo mudou.

O caminho inteiro de novo.

No metrô, estação após estação, eu sentia o meu coração balançando, acelerando, minhas pernas querendo me tirar dali o mais rápido que conseguissem.

Aguenta só mais um pouco…

Duas estações.

Por favor…

Uma estação

Ao menos dessa vez…

O trem chegou à estação. Meus joelhos estavam balançando, as pessoas começaram a se levantar e sair.

Nada de correr.

Não dessa vez.

De um impulso, me coloquei de pé.

Vai, anda!

Caminhei até a porta. Todos já tinham descido, as portas iam fechar em segundos.

Só mais um passo…

Eu sabia o que aconteceria se eu descesse ali. Sabia o que estaria me esperando. Minhas mãos estavam tremendo, mas eu as agarrei com toda a força que tinha.

Só mais um…

Eu fechei os olhos e atravessei o limiar da porta.

Está feito.

Quando abri os olhos, ao meu redor tudo estava encoberto pela névoa. Não havia uma pessoa sequer além de mim em toda a estação, nem mesmo as que haviam descido do metrô junto comigo. Só a estação vazia, a névoa. Aquele era o mesmo lugar onde tudo tinha mudado, onde eu ouvi pela primeira vez aquela pergunta.

O sibilar.

Girei ao redor, procurando.

O túnel.

— Eu sei que você está aí – eu falei. – Aparece.

Não como num filme, muito menos como na cutscene de algum jogo, mas à minha frente, tão real quanto algo poderia ser, um vi a névoa se iluminar com o brilho verde e vermelho que se aproximava devagar de dentro do túnel, subindo pelo metrô parado nos trilhos, se arrastando ao meu redor num círculo e finalmente se erguendo até a altura do teto. A neblina se descortinou para revelar a Serpente, colossal e coroada, com seu rosto sem olhos me olhando e o brilho escorrendo em linhas por seu corpo. Ela desceu sua cabeça até minha frente, sua boca escancarando as presas, sua língua se movendo a centímetros do meu rosto. Ela podia me matar se quisesse. Só precisaria me agarrar e me esmagar e tudo estaria acabado. Dessa vez, ninguém iria aparecer para me salvar. Eu estava sozinha com ela.

Como devia ter estado desde o começo.

Meu corpo queria desabar, mas eu precisava ficar de pé.

Só dessa vez.

A Serpente escancarou a boca. Do escuro da garganta dela, eu via aquelas palavras vindo.

“Qual o meu nome?”.

Uma batida.

Minha garganta estava apertada. Eu estava sem ar, sem palavras.

Não… Dessa vez não!

Cerrei meus punhos.

Dessa vez não.

Afastei meus lábios, enchi meus pulmões.

Dessa vez não.

— Me desculpa – eu disse. – Eu fui injusta com você. Esse tempo todo, eu só fiquei fugindo, te tratando como um monstro. Eu não devia ter feito isso. Eu devia ter te olhado de frente, eu devia ter te respondido desde o começo. Eu menti para você tantas e tantas vezes. Tudo porque eu não conseguia encarar a verdade.

Ergui minha mão, toquei a cabeça da Serpente.

— Você é eu. Eu sou você. Eu sempre soube disso e por isso eu estava com medo e sempre fugia. Mas isso não vai mais acontecer. Nunca mais! Eu sei quem é você. Eu sei qual é o seu nome.

A pessoa que eu me forcei a ser.

A mentira que eu contei para mim mesma.

A palavra que eu fingi esquecer.

— Desejo. Seu nome é desejo.

Atrás de mim, estavam o gorila e o dinossauro. Me virei para olhar eles de frente.

— Seu nome é raiva. Seu nome é destruição. Vocês também são eu. Todos vocês. Eu sei disso. Então eu não vou mais fugir de vocês. E por isso, eu peço o poder de vocês. Eu preciso de vocês! Minha amiga está em perigo e eu não vou deixar nada acontecer com ela! Então vocês que são eu me ajudem!

O desejo.

A raiva.

A destruição.

Eles entraram em mim, penetraram meu coração e mergulharam na minha alma. Eu podia senti-los dentro de mim enquanto meu corpo se contorcia com a dor de estar completa. Era como se minha alma se destrinchasse e se refizesse de dentro para fora, um pedaço por vez, até o espelho estar enfim inteiro novamente.

E então, não havia mais névoa encobrindo meus olhos – eu via o mundo à minha frente, com todas as pessoas e eu, ali, de pé. Não havia mais mentiras.

Cheguei ao antiquário de noite, por volta das sete. Não tinha ninguém na entrada da loja, nem nos fundos. Subi as escadas e lá estavam Lavínia e Daniel, na varanda, conversando. Fiquei observando os dois enquanto eles se falavam, isolados no próprio mundo. Acho que eu estava com um pouco de inveja deles naquela hora. De repente, Lavínia se virou para trás, olhando para mim e, um pouco depois, Daniel acompanhou o gesto dela.

— Seus passos são pesados – Lavínia disse. – Dava para te ouvir subindo as escadas de longe.

— Oh – eu disse. – Desculpe, Senhorita Azumaril. Eu estou longe de ser o Batman pelo que parece.

— Muito, muito longe.

Ou talvez sejam só meus olhos.

— Você está bem? – Daniel perguntou. – Meu pai disse que você tinha ido num lugar.

— Não me subestime – eu falei. – Atrás da aparência incrivelmente bonita se esconde uma terrível assassina treinada para eliminar os mais perigosos alvos. Eu poderia ter te matado sete vezes só durante essa frase.

— Isso não é um pouco demais?

— Eu sou tão poderosa assim.

Todo mundo começou a rir feito três adolescentes.

Eu ainda posso fazer isso, ao que parece.

— Obrigada – eu falei. – Por tudo.

Lavínia passou o braço ao redor do meu pescoço e me puxou para perto dela e de Daniel.

— Não pensa que só com um “obrigada” você vai se livrar da gente – ela falou. – Você disse que daria “qualquer coisa” se a gente te ajudasse nisso e eu espero que você cumpra sua palavra, garota-cobra.

— Minha memória é muito boa, obrigada.

— Então eu espero que você esteja preparada para ser minha empregada por um bom tempo. Com toda aquela roupa, inclusive.

— Isso é sério?

— Ela só está tirando uma com a sua cara – Daniel disse. – Não é, Lavínia?

Toda resposta que Lavínia deu foi um sorriso cafajeste.

No que eu me meti…

Mas mesmo que eu pensasse isso, no fundo, aquela situação não era tão ruim assim. Era uma noite de lua cheia estranhamente clara e a cidade inteira parecia estar diferente da última vez que eu tinha olhado para ela dali. Em um ponto daquela cidade, a aranha estava me esperando.

Paula…

Eu vou te salvar, eu prometo.

Por volta da meia noite, nós três nos preparamos para sair. Marcos nos acompanhou até a porta.

— Obrigada pela ajuda – eu disse para ele.

— Como eu disse, eu só estava cumprindo meu dever paterno. Não há porque agradecer.

— Mentiroso.

Sorri para ele.

— Você é uma pessoa gentil – eu disse. – Incrivelmente gentil.

Marcos não disse nada, mas tenho certeza de que peguei ele de surpresa, mesmo que aqueles olhos se esforçassem para continuar indiferentes.

— Obrigada de novo.

Foi a última coisa que falei para ele antes de ir correndo até Daniel e Lavínia.

— Desculpem a demora – eu falei. – Eu estou pronta.

— É melhor estar mesmo – Lavínia disse.

— Vamos lutar até o fim dessa vez – Daniel disse. – Não podemos fugir nem deixar a Aalto fugir.

Isso de novo…

— Eu sei – eu falei. – Vamos lá. Até o fim.