Lily
2 Emma Swan
Notas iniciais
* Storybooke, dias atuais.
Emma mal teve tempo de entender o que estava acontecendo. Belle entrara no Granny's com uma expressão de pavor e em questão de segundos, todos já estavam na loja de penhores. Um coração negro como carvão anunciava que Rumplestiltskin não mais conseguiria conter as trevas que habitavam em seu peito e na tentativa de aprisionar todo esse mal em um chapéu mágico, um aprendiz se sacrificara praticamente em vão. Quase que como uma peça muito bem pregada do destino, aquelas trevas, tão escondidas e evitadas por anos; as mesmas trevas a que Charming e Snow condenaram aquele pequeno bebê antes mesmo de nascer, se apoderaram de Emma, mesmo com os gritos de Regina e as lágrimas desesperadas de Killian. A adaga bem posicionada nas mãos da Salvadora, livraram a Rainha de ter seu coração e sua vida comprometidos mais uma vez. Era quase que um acerto de contas por ter trazido Marian – que na verdade era Zelena, irmã de Regina – de volta para Storybrooke. Agora, era como se Emma e Lily estivessem no mesmo patamar.
Sim, um enorme acerto de contas do destino.
– “Emma Swan”.
Hook pronunciava com os olhos trêmulos, o brilho desfocado pela iminência das lágrimas. Não podia acreditar que ela havia escolhido justamente aquele momento para dizer que o amava. Snow e Charming apenas conseguiam chorar nos braços um do outro, procurando meios de descobrir como contar para Henry que sua mãe agora era a nova Senhora das Trevas. O garoto havia ficado na loja de Gold com Belle, já pesquisando sobre o tal Merlin de quem o Aprendiz falava pouco antes de morrer. A única coisa que sobrara de todo aquele redemoinho escuro era a adaga marcada com o nome dela. “Emma Swan”
– Swan... – Regina balbuciava fracamente, num misto de ódio e tristeza. Sabia que a Salvadora seria capaz de fazer isso, mas realmente desejava com todas as forças que ela não o fizesse – Como pôde…
– O que vamos fazer agora, David? – Mary Margaret choramingava, olhando com pesar nos olhos perdidos do marido. – Isso é nosso castigo. É o destino nos mostrando o erro que cometemos ao enviar todo o potencial maligno de Emma para o bebê da Malévola...
– O que houve aqui? A lanchonete inteira parecia sacudir. – Lily interrompia surgindo por detrás de Regina que ainda estava perplexa com a cena de segundos atrás – Cadê a Emma? E… que caras são essas?
– Falando no Diabo…
Regina revirou os olhos e Lily percebeu o tom carregado de ironia no seu tom de voz.
– Nem todo mundo aqui tem bola de cristal para adivinhar as coisas. – A morena de olhos opacos devolveu o olhar de Regina com sua língua afiada. – Eu só quero perguntar uma coisa à Emma, ela praticamente saiu correndo lá do restaurante…
– Bem, você está vendo ela aqui? – Regina afastou-se de Robin e deu dois passos em direção à Lily que se manteve encarando-a exatamente de onde estava. – Se a resposta for “não”, pode começar a procurar em outro lugar.
– Olha aqui – Lily cobriu os mesmos dois passos que Regina dera e a encarou com os olhos sérios e cinzentos pela névoa – Eu ainda não esqueci que você me cortou com a droga da faca na parada de ônibus. Emma pode ser minha amiga, mas eu ainda vou arranjar um jeito de fazer você pagar por aquilo.
– Comece cuspindo fogo então, Charizard!
– Regina! – Mary Margaret a repreendeu com seu som usual – Não é hora para isso!
– Não precisa me defender, Ladra de Bebês – Lily olhou para o Casal Charming com nojo, sentindo o peito queimar com as lembranças de seu nascimento. – Eu mesma a encontro.
Lily deu as costas ao grupo e saiu sem rumo, ainda não muito habituada àquela cidade.
– Ótimo. Espero que a primeira atrocidade de Emma seja torcer o pescoço dessa…
– Regina, não. – Mary virou-se para ela e a olhou como apenas uma mãe conseguiria olhar para alguém. – Emma abriu mão de sua alma para que você não sucumbisse às trevas novamente. Não deixe que o trabalho dela seja em vão.
– Eu sei. – Regina abaixou o tom, sentindo os olhos arderem novamente. – É só que… Não sei se gosto mais de dragões. – ela suspirou, dessa vez olhando para o resto do grupo. – Como eu vou contar para o Henry que deixei Emma ser tomada por aquele… aquilo?
– Ele conhece a mãe que tem. – foi a vez de Hook pronunciar-se, mesmo que sua voz ainda saísse rasgando pela sua garganta. – Sabe que ela faria qualquer coisa para nos deixar seguros. Por isso ela é a Salvadora.
– Ainda assim… Ele vai ficar muito abalado. – Regina passou as duas mãos pelo rosto, terminando nos seus cabelos curtos e negros. – Quando trouxermos Emma de volta, ela vai ouvir umas poucas e boas!
– O que faremos primeiro? – David olhou para o grupo, atordoado.
– Vamos voltar para lá e contar tudo ao Henry – Regina respirou fundo e deu o primeiro passo rumo à loja de penhores. – Ele com certeza terá alguma ideia brilhante.
(…)
Lily percorria as ruas desertas de Storybrooke, sentindo o frio da madrugada refrescando a chama que sentia arder dentro de si. Algo dentro dela parecia gritar a todo instante que todos os seus esforços acabariam sempre no mesmo lugar. Sempre haveria a ruína e a miséria de ser deixada em um mundo que não pertencia, com uma maldição no seu encalço. Um peso muito maior do que deveria carregar. A vida toda havia sido uma guerreira por remar contra todas as marés que se colocaram diante dela, e isso ainda a fazia acreditar que, no fundo, havia um sentido para aquilo tudo.
Após seguir a pé até a parte mais afastada da torre do relógio, Lily conseguiu encontrar uma construção que parecia abandonada. A misteriosa casa dos livros em branco lhe pareceu um bom lugar para descansar, após procurar Emma por quase toda Storybrooke, sem sucesso. Cobriu a distância que a separava dos degraus da entrada e apenas empurrou a porta, seguindo cuidadosamente, como se aquela fosse a primeira vez na vida que invadia a casa de alguém. Deixou seu casaco no cabide e experimentou acender a lareira com suas habilidades de dragão. Sorriu timidamente ao ver as chamas queimando a madeira envelhecida, numa mistura de orgulho e pesar. Alguma coisa permanecia fora do lugar. Infelizmente, Lily não teria chance de refletir sobre o seu enorme e injusto fardo naquela noite.
– O que faz aqui?
A morena foi interrompida por uma voz rouca e firme e virou-se repentinamente, já em posição de ataque.
– Emma?! – Lily franziu a testa e deu um passo vacilante para trás, ao sentir a atmosfera ao seu redor pesar como se fizesse zero graus naquela casinha – Mas o que…
– A Magia vem com um preço.
Emma pronunciou séria e sentou-se em uma enorme cadeira de madeira, sob o olhar fixo de Lily. A doce e rebelde garota que desde cedo se metia em encrencas, agora tinha uma enorme mecha escura em meio ao mar dourado que costumava ser o seu cabelo. A Salvadora não poderia mais carregar esse título. Não com toda a escuridão que se apoderava dela a cada segundo.
– O que aconteceu com você? – Lily apoiou uma das mãos na parede e a estudou da cabeça aos pés. – Então era por isso que os “Charming” – ela fez as aspas com os dedos – e a Rainha Má estavam com aquelas caras de enterro?
– Tudo faz sentido agora, não faz? – Emma a olhou com os olhos fora de foco, buscando a escuridão que habitava o corpo de sua parceira de crimes da adolescência. – Nós fomos atraídas como ímãs. Meus pais te venderam para o mal e nós duas fomos amaldiçoadas por isso. Eu com a luz e você com a escuridão. Dois pólos opostos se atraindo desde que viemos ao mundo...
– Eu ainda quero matar os seus pais por isso. – Lily piscou rapidamente e puxou a outra cadeira que havia no cômodo. – Sabe disso, não sabe?
– Sim – Emma olhou nos olhos dela pela primeira vez – Eu também quero.
Lily sorriu, não sabia ao certo se pelo que Emma havia dito ou do modo macabro como ela pronunciava aquilo. Talvez fosse mesmo a hora de abraçar sua verdadeira natureza. Talvez essa fosse a ideia desde o início: Criar a peça perfeita para o cargo. Rumplestiltskin parecia ter criado Emma para mais de um propósito: tornar-se a próxima escrava da Adaga.
– Mas preciso fazer uma coisa primeiro. – Lily abaixou a cabeça e tomou seu colar de lua entre os dedos, tocando delicadamente as duas extremidades.
– O seu pai – Emma inclinou a cabeça e sorriu mais com os olhos do que com a boca. – Você quer achá-lo.
– É. – Lily suspirou e pôs-se de pé, aproximando-se de Emma e estendendo a mão para que ela fizesse o mesmo. – Talvez você possa conhecer alguma Xerife que seja boa em encontrar pessoas. – ela sorriu docemente, dessa vez parecendo a Lily que Emma conhecera tantos anos antes.
– Acho que conheço a pessoa perfeita para o trabalho. – Emma devolveu o sorriso com a mesma cumplicidade.
– E aí? Que tal voltarmos à Clandestinidade como nos velhos tempos? Uma última aventura antes de eu decidir o próximo propósito da minha vida?
Emma segurou a mão da amiga, recordando o dia em que a morena a havia salvo no supermercado. Não havia muito o que se fazer ali. Não queria que Henry sentisse toda a escuridão que habitava nela agora. Não queria ficar perto dos pais, ou Regina, nem ninguém que pudesse ser destruído por ela. Precisava ficar fora do radar. E a única pessoa que poderia tê-la por perto seria, ironicamente, o bebê que seus pais condenaram trinta anos atrás. Lily não tinha medo do escuro. E Emma agora era o oposto da Luz.
– Vamos nessa, Lily.
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