Lilly — Seth Clearwater

8 ፠ Capítulo VI ፠


Hey brother, There's an endless road to rediscover

Hey sister, know the water's sweet

But blood is thicker

Oh, if the sky comes falling down, for you

There's nothing in this world I wouldn't do

▬ Hey brother, AVICII. ▬

▪▫

Ele correu e me abraçou. John estava de volta. Eu queria o estapeá-lo no rosto por ter me abandonado quando mais precisei dele, mas a única coisa que consegui fazer foi o abraçar de volta e chorar. Eu chorava alto e copiosamente, não me importava se havia alguém olhando. Depois de um mês fingindo que estava tudo bem, ao olhá-lo, eu não consegui esconder mais o que sentia.

Chorei por saudade, dele e de nossa mãe, por estar me sentindo sozinha, por culpa de não ter conseguido a salvar e principalmente, eu chorava de felicidade. Eu chorei por ele, chorei por mim. Quando meus joelhos falharam, ele me segurou em seus braços. Eu achei que ele não voltaria, e ele voltou. Voltou por mim, por nossa família de dois.

“Me desculpe, Lills. Por favor me desculpe.” Disse aos sussurros enquanto chorava em meus ombros e fazia carinho em meu cabelo loiro. Ele repetia aquilo como um mantra.

Eu não me importava que ele tivesse bons vinte quilos mais magro, não me importava como seus olhos verdes, que focavam nos meus, pareciam cansados. Ainda eram os mesmos olhos, a mesma mão que acariciou meus cabelos quando eu corria para o seu quarto dizendo que estava com medo. Ele ainda era o John.

Eu soube disso quando ele sorriu, seus olhos apresentaram pequenas rugas que não deveriam estar ali. John tinha 20 anos, faria 21 em poucos dias, mas parecia muito mais. A vida não havia sido fácil conosco.

“Eu não quero que me peça desculpas John. Eu ia conseguir lidar com tudo sozinha, como eu fiz desde que você foi morar em Chicago, mas você a deixou.” Desabafei me soltando de seus braços. Ele me olhou com olhos magoados e negou com a cabeça.

“Eu sou um fraco, Lilly.” Disse e suas palavras fizeram meu coração de partir em mais um pedaço. Eu realmente não conseguia entender como ele ainda batia. Eu o sentia moído.

“Não é. Você é um idiota, um completo. Mas não é fraco, estava lutando pelo seu futuro, optou por você uma vez na vida. Eu entendo John, de verdade.” Suspirei. “Eu entendo que não quisesse cuidar mais das pessoas e ser um universitário comum, que não tivesse que tomar conta e uma mãe doente e uma irmã adolescente. Eu juro que entendo, mas você podia ter ligado, podia ter falado com ela.” Disse colocando de volta minha mochila no ombro.

Só percebi que estava perdendo a linha de raciocínio quando senti uma mão gelada em meu braço. Não precisei de muito para descobrir que era Ness.

“Está tudo bem, Lilly?” Perguntou a ruiva encarando meu irmão. Eu pude jurar que se eu dissesse que não ela partiria para cima dele.

“Está sim, esse é o John. John, esta é Renesmee, uma amiga.” Os apresentei e eles e encararam. O loiro com um olhar magoado e a ruiva com olhos raivosos. A tensão ali era quase palpável.

“Lills, podemos ir a uma lanchonete conversarmos um pouco melhor?” Perguntou e eu assenti. Renesmee ainda segurava meu braço e quando John se encaminhou a sua caminhonete, ela sussurra.

“Você tem certeza? Ele tem cara de estuprador de menininhas pra mim.” Disse e eu consegui sorrir.

“Ele é meu irmão Ness, não poderia me fazer mais mal do que já me fez antes.”

Então ela me abraça rápido e entre sussurros diz para que eu fique bem e que qualquer coisa era para eu avisar, que ela me acharia em minutos. Eu ri e disse eu faria isso, mesmo sabendo que isso nunca aconteceria.

Ao entrar na caminhonete antiga, eu sentia John tenso. Ele deu partida rapidamente, mas segurava o volante com tanta força que os nós de seus dedos estavam brancos.

“John, o que há de errado?” Perguntei e ele suspirou.

“Eu nunca fui à faculdade, Lills.” Disse de uma vez e eu levei algum tempo para responder, só consegui arregalar os olhos.

“O que?” Perguntei em estado de negação. Era impossível que ele havia mentido sobre isso também.

“Eu nunca consegui ir. Desde a adolescência eu tenho tido problemas com drogas.” Ele disse e pude ver uma lágrima cair de seu belo rosto. Como eu não respondi ele continuou. “Tudo começou quando eu tinha uns 16 anos, estava no ensino médio e uma garota que eu estava ficando me ofereceu. Eu sempre fiz o tipo rebelde sem causa, mas sabia que não deveria experimentar. Ela insistiu bastante e depois de muitas doses de bebida eu me rendi. E então a cocaína era meu refúgio.” Ele parou seu discurso quando estacionou o carro, mas apesar disso, nós não saímos. Meus olhos estavam inundados de lágrimas, minhas mãos estavam entrelaçadas e John já não conseguia olhar pra mim.

“Era sobre a mamãe, sobre as pressões que o meu pai colocava em minhas costas, mas era muito mais sobre mim. A cocaína me dava uma felicidade momentânea, uma sensação de completude que nunca havia acontecido em minha vida. Toda piora dela eu me afundava ainda mais, me desgastava. No dia do seu aniversário eu decidi que iria para a reabilitação, pois faria aquilo por nós. Para que eu voltasse a ser o irmão que você merece.”

“John-“ Tentei dizer entre soluços.

“Me deixe falar, por favor.” Ele pediu e eu assenti. “Eu fiquei esse tempo todo preso em um local onde era para a minha melhora. Eu aprendi técnicas, fiz alguns cursos lá dentro e até me tornei tatuador, graças a um curso que foi oferecido pela clínica.” Eu sorri, ele conseguiu me olhar novamente. “Eu estou há 7 meses sem uma gota de álcool na boca e sem qualquer tipo de drogas no meu corpo.” Eu sorri, sorri largamente de completo orgulho do homem que ele havia se tornado. John havia se tornado melhor.

“Eu sinto muito, por não poder estar lá. Nos últimos anos eu não estava lá porque era fraco, mas neste eu não estive pois estava tentando me tornar forte pra você. Merecedor de metade do seu amor e apoio. Lills, você não sabe o quanto eu senti sua falta.” Disse sorrindo enquanto grossas lágrimas caiam de seus olhos.

“Eu estou muito feliz que tenha voltado, John.” Foi a única coisa eu consegui dizer antes de o abraçar.

Quando saímos do carro fomos surpreendidos por uma fina garoa, corremos para a entrada da lanchonete e fomos recepcionados com um dos melhores cheiros que poderiam existir, hamburguer e fritas.

Nos sentamos em uma mesa bem no fundo do salão. Quando a garçonete nos atendeu pedimos a mesma coisa de quando éramos crianças: cheeseburguer duplo, anéis de cebola e um refrigerante bem gelado. Tudo isso com uma promessa de experimentar o sunday de chocolate de sobremesa.

Conversar com John era muito simples, parecia que ele nunca havia ido embora. Nós falávamos das nossas vidas, na verdade mais eu do que ele. Ele me ouvia e sempre perguntava uma coisa ou outra. Quando os pedidos chegaram, ele não me deu descanso, então entre uma mordida e outra eu respondia uma de suas milhares de perguntas.

“Você deveria parar com isso ou então vou te cobrar por pergunta.” Disse e ele revirou os olhos.

“Cobrar? Você está me devendo pela vida. Eu trocava suas fraldas quando a mamãe estava muito ocupada. Eu limpei sua bunda.” Disse e eu gargalhei muito alto. Esse era John, irônico e afiado.

“Você limpou uma vez, John Adam. Pare de ser dramático que eu tenho certeza que meus dejetos tinham cheirinho de rosas.” O provoquei e ele gargalhou negando.

“Você era fedida. Não conseguia entender como a mamãe tinha paciência. Você chorava o tempo todo.” Disse mordendo mais um pedaço de seu lanche.

“Ela era paciente, né?” Disse e suspirei.

“Ela era sim. Eu não consigo entender como uma pessoa que trabalhava 18 horas por dia conseguia sorrir ao chegar em casa.” Disse e eu confirmei. “Ela me ensinava a lição, me ajudava com a mochila e ainda tomava conta da casa. Ela era incrível. Tivemos sorte em tê-la como mãe.” Disse e eu concordei sorrindo. Eu nunca mais iria chorar ao lembrar-me dela. Karen Jean deveria ser lembrada da forma como estávamos fazendo agora, sorrindo.

“Você vai ficar em Forks?” Perguntei.

“Eu pretendo sim, antes de te encontrar eu consegui um emprego em um estúdio de tatuagens e estou procurando casas.” Disse e tomou um gole de seu refrigerante soda. “Bem, eu encontrei uma, mas ainda não fechei negócio.”

“Desde quando está na cidade?” Perguntei mas não consegui ser respondida quando vi a entrada de Seth.

Ele pareceu não perceber que estávamos ali, no canto e por isso eu pude ter uma boa visão dele. Não podia negar, ele continuava um pecado, usava seu macacão de trabalho, tinha os dedos sujos de graxa e os cabelos presos em um nó. Ele sorria enquanto pedia a garçonete seu almoço, ela pareceu amolecer com suas palavras e ficou desajeitada.

Ele havia sentado de costas para mim e só conseguia olhar sua nuca, se John falava comigo, eu já não escutava. Minha atenção estava total no homem de cabelos amarrados sentado a algumas mesas da minha.

Não demorou muito para que uma morena sentasse a sua frente na mesa, ela era o tipo que parava o trânsito, com longos cabelos negros, seios fartos e quadris largos, ele se ajeitou com a presença dela. Ela sorria pra ele e segurava sua mão.

Nesse momento eu senti que estava mordendo os lábios para não chorar e só desviei o olhar da cena quase hedionda para o meu coração quando John tocou em minha mão e sussurrou:

“Vem, Lills, não seja cruel com você, ok?” Nos levantamos e ele deixou algumas notas sob a mesa.

Quando estávamos nos encaminhando para a porta senti olhos cravados em mim, os lindos olhos negros que eu acreditei serem sinceros certa vez. Ele tentou dizer algo mas não conseguiu, John ia em minha frente e sequer percebeu que parei de andar. Mas olhar aqueles olhos negros enquanto outros dourados me encaravam de volta fez meu estômago enjoar e minha raiva se tornar ainda maior.

“Tchau, Seth” Sussurrei mais pra mim do que pra ele e segui meu irmão em direção a caminhonete.

Estávamos a caminho da casa de John quando meu celular começou a tocar, eu sabia quem estava me ligando, mas preferi não ver o nome no visor. John suspirava a cada nova chamada, na quinta ligação eu senti o carro parar no acostamento da rodovia.

“Pelo amor de Deus Lillian, atende logo isso!” Disse me olhando e eu murchei no banco. “Eu não sei quem ele é ou o eu vocês tem-“

“Não temos nada.” O interrompi.

“Eu acho que ele não pensa dessa maneira, pois está desesperado.” Suspirou. “Não finja ter o comportamento infantil que você não tem, Lilly. Escute o que ele tem a dizer. Ele tem que ter uma boa desculpa, mas o escute.”

“Ok” Disse rabugenta enquanto ele partia com o carro.

Quando paramos novamente, estávamos em frente a uma pequena casa de madeira com estilo colonial. Era antiga e tinha sua pintura desgastada, mas iria servir. Quando entramos, fomos recepcionados por uma corretora de imóveis, ela nos mostrou a casa e disse todas as suas particularidades. John havia gostado bastante e eu também. Não sabia se moraríamos juntos, mas fiquei feliz por ter um quarto a mais.

Quando meu telefone tocou pela sexta vez, senti os olhos de John em mim. Me encaminhei para a cozinha e resolvi atender.

“Alô!” Disse baixo.

“Ei Lilly, achei que não fosse atender.” Disse Seth arfando.

“Eu estava um pouco ocupada.”

“Quem é o cara eu estava com você hoje?” Perguntou e eu ergui uma sobrancelha indignada.

“Eu poderia perguntar a mesma coisa.” Disse e o senti gargalhar baixo, aquilo me irritou ainda mais.

“Ela se chama Nora, é uma cliente da oficina.”

“E desde quando que vocês transam?” O ouvi suspirar, mas não me respondeu. Eles haviam transado, afinal. “Esqueça, você não me deve nada.” Disse sentindo o ciúme corroer minhas entranhas, nunca imaginei que nutriria esse tipo de sentimento por alguém.

“Eu devo, devo tanto que você não imagina, Lilly. E sim, transamos algumas vezes, mas há muito tempo não temos nada. “ Disse e eu permaneci calada, mas minha mente não, ela me dizia a todo momento o quanto eu sou inexperiente. “Você não me respondeu.”

“É meu irmão.” Disse.

Ficamos em silencio por algum tempo, minha cabeça estava uma bagunça e a insegurança que já estava presente antes, vinha com força total, me maltratando.

“Eu prometi que seria sincero com você Lill. Me desculpe por não conseguir ser totalmente.” Se interrompeu, parecia que estava escolhendo melhor suas palavras. “Você ainda quer sair comigo? Eu suspirei.

“Você pode me buscar no Jake às 19 horas.” Disse e o ouvi sorrir.

“Não, irei te buscar na escola, vamos ter um longo dia.”

Logo após isso, desligamos. Ele disse que iria encontrar com Leah e eu precisava dar atenção a John.

“Pelo sorriso, posso ver que se resolveram.” Disse meu irmão com as mãos na cintura.

“Pode-se dizer que sim. Vamos sair na sexta.”

“Preciso ficar musculoso, imagina se ele te magoa e eu preciso bater nele? Não devo estar aguentando um vento muito forte.” Disse entre risadas e eu gargalhei junto, realmente, John estava muito magro.

“Já começamos o seu processo de engorda, pequeno pato.” Gargalhei batendo em sua testa e correndo pela casa. Ele corria atrás de mim e eu fugia, quando finalmente conseguiu me agarrar, estávamos na grama do quintal, jogados no chão. Eram esses momentos que me faziam feliz.

Já era final da tarde quando John me levou para a casa dos Black, quando chegamos lá, Billy nos esperava com um sorriso no rosto, apertou a mão do meu irmão mais velho e o chamou para entrar, coisa que ele negou dizendo que estava em processo de mudança e por isso, precisava voltar logo pra casa.

Quando sai pela manhã daquela casa de madeira, não conseguiria imaginar o quanto o dia de hoje seria tão complexo, mas eu estava feliz. Fiz uma comida rápida para jantarmos, como sempre, Jake não estava em casa e por isso fomos apenas Billy e eu. Nós conversamos sobre meu primeiro dia de aula, sobre seu dia na reserva e como eu estava me adaptando.

Quando finalmente fui tomar meu banho para dormir, eu relaxei. Não sabia o quanto meus ombros estavam tensionados até aquele momento. Tudo que um dia me magoou estava voltando para os trilhos, o que me assustava um pouco. Enquanto a água quente caia por meu corpo, eu lembrei da frase mais linda do meu livro favorito:

“Eu agradeço unicamente por você, mãe.” Sussurrei por entre a as gotas que caiam por meu rosto. “Eu agradeço por ter me dado um irmão imperfeito e incrível, por sempre ser forte e me ensinar a ser assim.”

Notas finais
Teaser do próximo capítulo: (...) “Ei, pode parar já com isso! Renesmee, você tem uma família, uma mãe e um pai que amam você, você faz ideia do quanto eu gostaria de ter um momento a mais com minha mãe ou ter a chance de conhecer meu pai?” Suspirei enquanto ela estacionou o carro. “Me descul-“ Tentou dizer mas eu a interrompi. “Não precisa se desculpar, mas os valorize. Se existe alguém que não ame e aceite sua família do jeitinho que ela é, não pode ser considerado um amigo Ness. Eu sei que você não gosta muito do John, mas o aceita e o trata bem e eu não serei diferente. Então não se preocupe, ok?” (...) “Lilly, eu espero que você não se assuste, mas é uma parte de mim.” Ele suspirou. “Não é nada que você precise se preocupar, ainda serei eu, ok?” “Tá bom.” Respondi sem entender. “Eu vou entrar e sair por ali.” Disse apontando para o lado sul da clareira e se aproximando de mim. “Ainda serei eu, não se esqueça disso, por favor.” Disse como em uma prece beijando minha testa. Não sei vocês, mas agora sinto que preciso abraçar o John. Ele passou por tanta coisa, mas está seguindo em frente. Ninguém segura essa família! Amo a força deles. O capítulo está saindo mais cedo devido aos muitos comentários e favs. da história. MUITO OBRIGADA! Por confiarem em mim, na Lilly e na minha escrita. Espero que vocês continuem gostando e comentando. Até os comentários! Beijos e lírios, Harmony.