Like I'm Gonna Lose You

23 Capítulo 21 - I want answers! And I want them now!


Notas iniciais
Olá Mermaids? Alguém ainda está aqui? Espero que sim. Desculpa a demora, mas eu juro que não estou tempo nem para respirar e estou enlouquecendo com a faculdade, e por isso estou demorando. Enfim, bom capítulo!

P.O.V Jace

Faltavam poucos minutos para o jogo iniciar, e aquela seria a primeira vez que eu não queria entrar naquela quadra para jogar. Meu humor estava no pior dia possível, e jogar contra os Demônios Raun não ajudaria em nada. De todos os times, sem dúvida alguma, eles eram os mais agressivos, e nós quase brigamos algumas vezes, e com briga, entenda como acidentalmente o meu punho acertar a cara do babaca do Velarc.

— Hey. — Olhei para o Alec. — Mantenha a calma no jogo, okay? — Balancei a cabeça em afirmação, ao mesmo tempo que notei a aproximação do Velarc. Ele jogou os seus cabelos loiros para o lado e abriu um sorriso presunçoso quando percebeu que eu já havia o notado.

— Herondale, é sempre bom vê-lo.

— Pena que não posso dizer o mesmo, Velarc. — Ele me ignorou. Até mesmo sua voz me irritava.

— Lightwood. — Ele cumprimentou o Alec e olhou em volta como se procurasse alguma coisa. — E a sua irmã? É sempre bom vê-la. — Eu senti a mão do Alec no meu ombro. — Ah. — Ele sorriu, provavelmente havia encontrado a Izzy em algum lugar no meio daquela confusão de pessoas. — Hum… Aluna nova? — Segui o seu olhar, e notei que a minha irmã conversava com a Clary. — Gosto de ruivas. — Eu o fuzilei com o olhar. — Algum problema? — Segui o conselho do meu irmão e respirei fundo.

— Nenhum. — Ele continuou a olhar para as duas meninas conversando.

— Isabelle Lightwood, gostosa como sempre. — Foi a minha vez de segurar o Alec. — Soube que ela terminou com o namorado, se ela precisar de um ombro amigo, avisem que eu estou sempre à disposição. — Ele deu de ombros. — A amiga dela é sempre bem-vinda também.

— Fique longe dela. — Disse, e me amaldiçoei um segundo depois.

— É sua namorada? — Aproximei-me do Velarc e olhei dentro de seus olhos.

— Fique longe das duas. Ou de qualquer outra pessoa dessa escola. Eu conheço muito bem o seu tipo. E se fizer alguma coisa com alguém, e eu sequer suspeitar, nós dois teremos um problema, e não será resolvido na quadra. — Ele riu.

— Depois que eu terminar com a ruiva gostosinha, nós podemos resolver o que você quiser. — E com isso ele saiu andando.

— Ele só está provocando. — O Alec tentou me acalmar, mas o meu sangue já estava fervendo.

— Ele conseguiu. — Murmurei. — E agora você resolveu notar que eu ainda existo? — Não o deixei responder e sai pisando duro.

Faziam quase duas semanas que a minha vida tinha virado de cabeça para baixo. Além de descobrir que eu tinha beijado uma Sereia, eu descobri que os meus irmãos também tinham caldas! Não me entenda mal, mas aquela foi a única vez que eu agradeci por nós não termos nenhum tipo de laço sanguíneo, pois não sei dizer o que aconteceria se eu descobrisse se era um tipo de ser sobrenatural imortal! Meu Deus! Imortal! Eu teria 64 anos e Izzy e Alec ainda teriam 18!

Essa história de descobrir um ser sobrenatural até pode ser legal nas produções hollywoodianas ou nos livros de fantasia, mas na vida real a história mudava completamente. Depois de passar pela primeira transformação, Alec passou dias trancado no quarto porque estava tentando digerir o fato de descobrir-se como um ser imortal, e que sua mãe estava viva; ele até poderia ser mais maleável neste assunto do que a Isabelle, mas não era assim tão coração mole. Nem mesmo o Magnus o tirou do quarto naquele período, o homem me ligou algumas vezes procurando notícias do namorado, mas nem eu tinha o que dizer. Em algum momento durante aqueles dias, o Bane finalmente conseguiu falar com o Alec, e seja lá o que tenha dito fez com que ele saísse de casa, literalmente. Passou uma semana fora, e quando voltou estava mais relaxado em relação ao assunto “MÃE”.

Minha irmã, eu desconfiava, que uma hora mudar-se-ia para a casa do Lewis (ainda que eles não tenham assumido o romance); Izzy não queria ver a mãe nem coberta de diamantes, havia descoberto sobre aquilo de uma forma terrível, e reagido de uma forma, a meu ver, melhor do que eu o faria. Nos primeiros dias Isabelle desenvolveu uma aversão ao nome “Maryse” ou ao termo “Mãe”; eu entendia o lado dela e jamais a julgaria, mas não tinha a oportunidade de demonstrar o meu apoio, afinal, a mesma não olhava na minha cara, pelo menos não além do necessário, tudo isso graças a uma certa ruiva de um metro e meio.

Segundo a própria Isabelle, ela estava irritada comigo pela forma como eu estava encarando toda aquela situação envolvendo a Clary, e, palavras dela não minhas, “Ela lidava com a ressurreição da mãe, melhor do que eu lidava com o fato de ter uma Sereia apaixonada por mim.”; eu posso dizer que ela não mentiu em momento algum. Quase duas semanas desde todo o ocorrido, ela aceitava o fato de ter uma mãe, mas não significava que ela aceitaria a mãe que o destino havia lhe devolvido. Maryse ainda era uma pessoa que a Izzy manteria distância por quanto tempo pudesse.

Minha irmã estava certa em dizer que eu estava lidando mal com a situação da Clary. Eu admito. Mas o que eu poderia fazer? Havia simplesmente surtado com o fato de descobrir uma Sereia misteriosamente ligada a minha família, e então descubro que é por causa de uma maldição que tende a matar um dos dois, no melhor dos casos, se não ambos. Como disse anteriormente, as coisas na vida real não acontecem da mesma maneira que em um filme ou em um livro, eu sou um ser humano comum, e é claro que eu surtei. Hobbes não o classificou como tal, mas eu acabo de criar um direito natural no qual eu deixo claro que: “todos os homens têm o direito de surtar em situações onde o desespero, a pressão e o medo resolvem caminhar juntos com o intuito de bagunçar com o seu psicológico.” — Herondale, Jace.

A questão, é que toda aquela confusão não alterou apenas a minha vida, como também a vida dos meus irmão, como também a nossa relação de irmãos. Fazia, pelo menos, uma semana que eu não conversava com nenhum deles, nada além de trocas de cumprimentos ou respostas monossilábicas. E isso era o que mais me incomodava.

A mudança na relação com os meus irmãos me afetava demais. Depois do acidente que causou a morte dos meus pais, e com o qual eu tenho pesadelos até hoje, Isabelle e Alec foram cruciais durante o meu processo de luto. Eu não consigo imaginar uma outra versão de mim sem o apoio deles, sem o acolhimento que eles tiveram comigo, sem o amor deles; se eu tivesse sobrevivido, era bem provável que fosse uma pessoa totalmente diferente. Uma pessoa amarga, fria e sem esperança, exatamente como… Como um dos meus últimos sonhos, que mais podem ser chamados de pesadelos, me mostrou a Clary.

Duas noites atrás…

Eu estava sentado na praia. A brisa fresca da noite estrelada batia contra o meu rosto como uma carícia, fazia os meus cabelos voarem e alguns fios batiam contra o meu rosto, mas eu sentia uma paz de espírito tão grande que não me deixava importar com nada que não fosse a imensidão azulada a minha frente. O Mar.

Não havia ondas grandes quebrando contra a areia, mas algo tão fraco que mal dava para vislumbrar o formato da onda. No lugar que eu estava sentado era possível sentir a espuma do Mar contra os meus pés, e eu me recordava de precisar me afastar algumas vezes para evitar molhar as roupas, mas foi totalmente em vão.

Bonito, não é? — Desviei os meus olhos do horizonte quando ergui a minha cabeça para poder encarar a mulher ao meu lado. Naquela noite os seus cachos ruivos que tanto me encantam estavam presos em uma trança lateral, me permitindo ver melhor o contorno de seu rosto. Eu poderia jurar que havia visto escamas ali. — Eu costumava ficar sentada e observar o nascer do sol, a forma como o reflexo dos raios solares criavam um efeito na tonalidade da água. Perdi as contas de quantas vezes o pintei.

Por que não faz mais? — Ela finalmente me encarou. O verde de seus olhos estavam vazios e opacos, sua pele, ainda que com a falta de iluminação, estava pálida, acinzentada. Ela estava esquelética. Não era a Clary. — Clary…

Isso foi antes. — Ela deu de ombros. — Foi antes de eu me tornar uma Esquecida. — Ela abriu um sorriso perverso. — Antes de você fazer isso comigo.

O que? Como… Eu não fiz nada! — Rebati enquanto me levantava.

Exatamente! Você não fez nada. — Instintivamente eu dei um passo para trás. — Você assistiu enquanto eu morria, e não fez nada para impedir. Mentiu para mim!

Eu não menti! Eu…

Cansei das suas desculpas e de sempre se fazer de vítima nessa história. — Em um piscar de olhos ela estava há menos de dois centímetros de mim, passando as unhas, ou melhor garras, pela minha clavícula. — Talvez eu devesse te transformar na vítima que você tanto acredita ser. — Eu tentei me mover, mas os meus pés pareciam ter sido acorrentados àquele lugar. — Vamos ver quanto tempo você leva para morrer desta vez. — E com isso sua garra deslizou pelo meu peito fazendo um corte profundo, que começou a sangrar instantaneamente, no segundo seguinte ela me jogou no chão. O corte em meu peito queimava como o inferno, mas a coisa que mais me aterrorizava era o sorriso cheio de dentes afiados que a Clary me oferecia. — Hora de morrer, Jace. — E com isso ela veio para cima de mim, como se fosse me atacar. Eu só consegui erguer um braço inutilmente para tentar me defender e esperar pelo ataque.

Mas ele não veio. Ao olhar em volta a Clary havia sumido, assim como o corte e o sangue em meu peito. E eu estava sozinho na praia novamente. Pelo menos por alguns segundos.

É isso o que vai acontecer comigo. — A Clary voltou a aparecer ao meu lado. Daquela vez tinhas os cabelos soltos e usava uma jardineira manchada de tinta. — Por favor, Jace. — Ela olhou em meus olhos. — Não permita que eu me torne aquela coisa.

Como eu faço isso? — Ela abriu um sorriso.

Comece contando a verdade. — Franzi o cenho. — Eu sinto mentiras, Jace, mas uma mentira passa a ser verdade quando aquele que a profere acredita que ela seja verdade. — Engoli em seco. — Me diga, Jace. Em qual mentira andou acreditando?

Despertei dos meus pensamentos carinhosamente quando uma bola de basquete bateu na minha cara e eu fui ao chão. Ouvi o som do apito enquanto recobrava os meus sentidos. Fiz uma careta e olhei, ainda no chão, para o relógio. Nove minutos. Nove minutos para terminar o jogo das quartas de final e nós estávamos treze pontos atrás. Encarei um dos jogadores do outro time que ria do ocorrido, e soube naquele instante que havia sido ele o responsável pela bola ter batido no meu rosto.

— Algum problema, Herondale?

Sem pensar duas vezes e tomado pela adrenalina do jogo eu parti para cima dele. O meu punho acertou o rosto dele antes que ele percebesse, e eu fiquei feliz por tirar aquele sorriso ridículo no soco. Não demorou dois segundos para o caos se espalhar pela quadra. Eu senti braços me segurarem antes que eu pudesse perceber, e o mesmo aconteceu com o Velarc que sequer teve a oportunidade de retribuir ao soco que recebera.

— Eu vou acabar com você, Herondale! — Ele se debateu me fazendo rir.

— Você pode tentar. — Um apito soou e os treinadores chegaram gritando conosco. Em questão de um segundo eu fui mandado para fora da quadra e direto para o vestiário para esfriar a cabeça.

O fato de eu ter acertado o Velarc melhorou o meu humor, mas, consequentemente, eu fui mandado para o vestiário, o que voltou a me deixar de mau humor. Arranquei a minha camisa antes mesmo de chegar ao meu armário, peguei a minha toalha e caminhei com raiva até o chuveiro.

Eu gostava do chuveiro daquele vestiário pelo simples fato da pressão da água ser forte, ou seja, quando batia contra a pele causava uma sensação relaxante e prazerosa. Me permiti ficar no chuveiro por mais tempo do que o necessário, ouvi os outros jogadores tomarem seus banhos, e saírem, alguns até tentaram puxar conversa, mas eu não estava com humor para tal.

Saí do chuveiro só quando senti que estava sozinho. Meus cabelos pingavam em meus ombros e rosto, por isso deixei para vestir a camisa por último. Sentei-me no banco do vestiário e afundei a minha cabeça entre as minhas mãos. Aproveitei o silêncio do banheiro para tentar organizar os meus pensamentos, que nos últimos dias estavam uma completa bagunça. O furacão Clarissa havia passado e deixado estragos por todos os lados.

Mesmo que eu não quisesse eu só conseguia pensar na forma como eu a havia machucado com as minhas palavras. Eu queria me desculpar com ela, mas sabia que só iria acabar piorando tudo. Então, por mais que me doesse, eu preferi aceitar o afastamento dela, e não a culpava por nada. Eu entendia o lado dela, e torcia para que ela entendesse o meu.

Mãos em meus ombros me acordaram de meus pensamentos, vi os fios loiros antes mesmo de ver seu rosto. Desviei de seus lábios no último segundo, vendo uma expressão confusão formar-se em seu belo rosto. Ela respirou fundo e sentou-se ao meu lado, ajeitando o seu uniforme de líder de torcida em seguida.

— Jace…? — A olhei. — Tudo bem. O que está acontecendo?

— Nada, Lydia. Só não estou no clima. — Murmurei. — O que você quer? — Ela arqueou ambas as sobrancelhas. — Me desculpe se soou rude. Mas você sabe o que vai acontecer se alguém pegar você aqui. — Ela riu e se aproximou.

— E desde quando você liga para isso, Jace? — A loira voltou a deslizar seus dedos por mim, daquela vez pelo meu peito. Afastei-me no mesmo instante ao me pôr de pé.— Okay! O que o Velarc disse para fazer com que você perdesse a cabeça? — Respirei fundo e a ignorei. — Ele falou algo da Isabelle?

— Sim. — Respondi enquanto secava os meus cabelos com a toalha mesmo. — Acabou?

— Não. — Ela cruzou as pernas e apoiou os braços atrás do corpo enquanto me observava por alguns segundos. — Ele falou da ruiva? — A encarei, a Lydia fez um gesto com a mão e riu. — Não me venha com nenhum papinho, Herondale! Eu conheço você, sei que tá caidinho pela ruiva. Eu já vi esses seus lindos olhinhos olharem cheio de desejo para o meu corpinho. — Eu acabei rindo. — Mas você não olha assim para a Clary. Você gosta dela. — Ela ficou de pé e se aproximou de mim antes de começar a arrumar os meus cabelos com as mãos. — Eu sou sua amiga antes de ser sua… ficante? Não importa. — A careta que a loira fez foi o suficiente para me fazer rir novamente. — Isso quer dizer que se você não cuidar bem da ruiva, eu mesma vou vir aqui e cortar essa coisa que você chama de…

— Entendi! — A cortei. Ela abriu um sorriso convencido, beijou a minha bochecha e saiu rebolando. — Eu não tenho nada com a Fray. Ela não quer nada comigo.

— Faça me rir! — Ela parou na porta. — Por que vocês querem complicar tudo?

— Não é tão simples quanto parece. — Ela deu de ombros.

— Então, simplifique.

Encontrei os meus irmãos do lado de fora do vestiário, e ambos estavam rindo de alguma coisa. Me permiti parar alguns segundos para observar o sorriso no rosto da Isabelle, fazia alguns dias que eu não o via; e ela tinha um sorriso lindo. Não demorou muito para o Alec perceber a minha presença, e ao se virar para mim, o sorriso da minha irmã morreu.

— Eu vejo vocês depois. — Murmurei antes de voltar a andar em direção a saída.

— O que aconteceu com você na quadra? — Encarei a minha irmã. — Não vou perguntar novamente. — Afirmou cruzando os braços.

— O Velarc só me tirou do sério. — Dei de ombros. — E ele merecia aquele soco faz um tempo. — Ela abriu um pequeno sorriso. — Vocês vão para casa?

— Não. Vamos para a praia. — Ela jogou os cabelos para trás e suspirou. — Você deveria ir. — E com isso saiu andando em direção ao estacionamento.

— Você devia aproveitar o bom humor dela. — Era claro para qualquer um que a minha relação com o Alec era complexa, nós não conseguíamos ficar brigados por muito tempo, e eu sabia que ele seria o primeiro a quebrar o gelo. — E… Nenhum de nós gosta dessa situação.

— Eu sei. — Afirmei com um suspiro. — Quando foi que chegamos a todo esse drama? — Ele riu.

— Essa é fácil, desde que uma Sereia entrou na nossa vida. —Seus ombros balançaram com a breve risada que ele deu. — Vamos, nós precisamos disso. — Balancei a cabeça em afirmação e o segui pelo corredor.

(...)

Do lugar em que eu estava eu conseguia observar o grupo conversando e rindo o tempo inteiro. Conseguia ver a felicidade estampada nos olhos da minha irmã, e a forma como o meu irmão estava relaxado. Conseguia ver a forma que o Lewis olhava para a Isabelle, com carinho. Conseguia ver a forma que o Sebastian e a namorada aproveitavam em silêncio a companhia do outro. E como até mesmo a Clary parecia estar relaxada.

Em algum momento o meu olhar encontrou com o da ruiva e ela me lançou um pequeno sorriso. Desviei os meus olhos para o Mar ao perceber que ela falava ao com a Isabelle, e comecei a acompanhar o ritmo que as ondas iam e vinham, como quebravam contra a areia e como a espuma era absorvida pela mesma.

— Parabéns pela vitória hoje, ainda que você tenha sido expulso.— Virei-me em direção a voz suave da Clary. Naquela noite, como eu já havia percebido durante o jogo, ela usava uma camisa branca de meia manga, shorts jeans, um cinto preto e uma jaqueta jeans sobre os ombros, além dos seus quase inseparáveis All Stars. Seus cabelos estavam presos no topo de sua cabeça em um soque extremamente bagunçado e o que impedia que estes caíssem era um pincel sujo de tinta azul; percebi que suas mãos ainda tinham alguns respingos de tinta, e os seus shorts estava manchado. — O que aconteceu no jogo?

— Não vai querer saber. — Ela deu de ombros.

— De qualquer maneira, parabéns.

— Obrigado. — Disse enquanto colocava as minhas mãos no bolso da calça de moletom. — Mas acho que você deveria dirigir as congratulações ao Alec, afinal, foi graças a ele que ganhamos. — Ela abriu um sorriso.

— Alec ainda precisa se acostumar com as habilidades que temos em forma humana. — Disse depois de se aproximar alguns passos de mim. Provavelmente, aquele ato foi apenas para evitar que alguém nos escutasse, embora, naquele momento, apenas eu, ela, o próprio Alec, a Isabelle, e o Lewis estivéssemos na praia, além do Sebastian e da namorada. — Vai demorar um pouco, mas ele está conseguindo controlar melhor que Isabelle. — A encarei com cenho franzido e a mesma abriu um sorriso enquanto corava. — Nós temos alguns dons, Jace, e também habilidades que nos diferem dos humanos, como por exemplo a força. Isabelle está tendo problemas com a força recém-descoberta.

— Preciso ter cuidado para que ela não descubra a melhor forma de usá-la usando o meu rosto como teste. — Eu ri da minha própria constatação, mas a Clary apenas abriu um sorriso claramente forçado, e isso me fez perceber a sua tensão. — Eu… Eu quero me desculpar.

— Você não precisa fazer isso. — Ela virou-se para mim abraçando o próprio corpo. — Por favor. — Ela suspirou e cruzou os braços. — Eu já aceitei, Jace. Não vou mais lutar contra, não vou tentar impedir, não vou fazer a minha família enlouquecer atrás de uma cura que não existe. Não posso fazer isso com eles. — O sorriso que surgiu em seus lábios partiu o meu coração. — Não sei quanto tempo tenho até morrer, mas sei que não quero desperdiçá-lo atrás de uma cura inexistente.

— Por que você vai morrer? — Me vi perguntando. — Quero dizer, isso não é justo…

— Por favor. Não torne mais difícil para mim, okay? — Encarei os seus olhos e percebi que eles estavam marejados. Ela soltou uma risada nervosa enquanto passou as mãos nos olhos para esconder as lágrimas. — Eu vou me tornar uma Esquecida. E estou bem com isso.

— Não está. — Rebati. — Eu consigo sentir que não está. Clary… — Tentei tocá-la mais a mesma se afastou.

— Não. Olha, eu estou aguentando tudo sozinha para você não ter que sofrer. Mas isso diz respeito a nós dois! Então, por favor, respeite a minha decisão e não tente fazer com que eu mude de ideia. Os treinos com o Sebastian tem me ajudado a controlar a raiva, mas eu ainda posso te machucar, e… Eu estou cansada desse drama todo! Eu não consigo lembrar a última vez que eu estive completamente feliz nos últimos 700 anos! Eu estou aguentando essa maldição sozinha para não ver você sofrer…

— Eu não pedi para que fizesse isto sozinha! — Ela me lançou um olhar raivoso quando eu a cortei. — Não há nada que eu possa fazer?

— Sim! Pode manter-se longe e continuar a viver sua vidinha de adolescente babaca! — Eu queria rir da sua revolta repentina, mas sabia que isso apenas a irritaria ainda mais. — Eu sabia que seria uma perda de tempo tentar conversar civilizadamente com você! — Ralhou antes de sair pisando duro pela areia em direção aos outros.

— Hey! — A chamei enquanto começava a caminha atrás dela. — Nós ainda não terminamos de conversar! Não me dê as costas, Clarissa! — Aquela altura, os demais já tinham virado suas cabeças em nossa direção, mas aquilo não era com o que eu me importava aquele momento. A Clary me ignorou e continuou a andar. — Então, é assim que resolve os seus problemas? Você mesma disse que isso diz respeito a nós dois, então, ambos deveríamos entrar em um consenso quanto a isto!

— Eu estou tirando o seu da reta, deveria estar me agradecendo! — Revirei os olhos. Mas que ser teimoso. O que era aquilo? Sereias mudavam estado de humor tão rápido assim? — É o que você costuma fazer, Jonathan! Sempre tira o seu da reta de alguma forma! — Aquilo me deixou com raiva, tocou em um ponto, até então, intocado em mim.

— Não me compare com eles! — Ela parou onde estava, com a água do Mar batendo em seus pés.

— Você não é um terço do que qualquer um deles foi! — Ela cuspiu irritada, com os punhos cerrados e respiração alterada.

— Uma vez, você me disse que eu apenas me visto como eles, e eu te digo que está certa! Posso não saber de nada sobre eles, mas sei que estavam cegos, e pode acreditar que eu consigo ver perfeitamente em que merda eu me meti, então, não tente me comparar com nenhum deles! — A Clary rosnou e me fuzilou com o olhar, mas quando abriu a boca para dizer algo, uma risadinha fez com que um arrepio atravessasse a minha espinha, e a Clary ficou pálida. A ruiva virou-se lentamente na direção da água, como se procurasse algo.

Um movimento na água fez com que eu desse um passo para trás por puro instinto. Em questão de segundos o Sebastian estava ao lado da irmã, e como ela olhava para a água como se procurasse por algo. O restante ficou parado ao meu lado como se esperasse que eles dissessem algo.

— Sebastian, tire o Jace daqui. — A Clary disse com a voz firme sem tirar os olhos de um ponto fixo na água.

— Não vou deixá-la sozinha com cinco Esquecidas.

— Elas não podem sair da água. — Rebateu irritada. — Tire-o daqui e… — Antes que ela terminasse de falar uma mulher começou a caminhar pela água, vindo em nossa direção. Seus cabelos eram loiros, mas as pontas estavam esverdeadas, como alga. Ela tinha o corpo totalmente nu, mas haviam algo como lodo em alguns pontos. Seus olhos, que eram totalmente prata, tinham um brilho de selvageria e loucura; ela tinha um sorriso aberto, e todos os seus dentes, além de manchados, eram afiados como presas. Fechei os olhos por alguns segundos ao lembrar de um pesadelo com a Clary parecida com aquela mulher, balancei a cabeça tentando apagar a imagem da minha cabeça.

— Olá, filhos de Jocelyn. — Sua voz era doce, mas parecia que ela não se comunica há anos, pois as palavras saiam com dificuldade por seus lábios. — Viemos dar um aviso. — Ela desviou o olhar para a mim. — Entreguem o humano até a próxima lua cheia, ou nossa Rainha virá pegá-lo.

— Você pode mandar a sua Rainha ir para o Inferno. — Quem a respondeu foi a Clary. — Vão precisar me matar primeiro. — A Mulher riu.

— Não será tão difícil, Clarissa. — Duas adagas surgiram nas mãos da mulher, pareciam ser feita de um material escuro e sujo, mas pareciam extremamente afiada. Porém, antes mesmo que ela conseguisse raciocinar, o Sebastian erguia uma espada contra o pescoço dela.

— Nem pense nisso. — Seu aviso fez a mulher rir. A espada do Sebastian parecia ser feita de água, parecia ser parte do Mar, e ao mesmo tempo parecia ser tão letal quanto ele. — O que sua Rainha quer com o humano?

— Não é da sua conta, Tritão. — Quem disse isso foi uma outra mulher que surgiu da água, esta tinha cabelos negros até a altura da cintura, junto dela surgiram mais três outras mulheres. — Estão com vontade de morrer? — Ela perguntou quando uma espada do mesmo material da outra mulher surgiu em sua mão, mas antes que ela pudesse erguer, e sem que ninguém conseguisse acompanhá-la, a Clary se moveu tão rapidamente que nem mesmo seu volto eu vi. Mas em um piscar de olhos a espada da mulher estava fincada na areia. Observei abismado quando a espada se formou, como se a própria água do Mar escorresse pelas veias da Clary e formassem aquela espada sinistra.

— Não teste a minha paciência. — A ruiva falou enquanto apontava a espada para a mulher desarmada. — Sumam daqui, e mandem a Rainha de vocês vir pessoalmente da próxima vez, já estou cansada de Esquecidas descontroladas nestas praias.

— Sumam daqui agora. — O Sebastian reforçou a ordem da Clary. — Vocês não querem vê-la irritada, acreditem em mim. — Duas mulheres se projetaram ao lado de Sebastian o desarmando e rindo quando ele bateu contra a areia, a espuma da água o encharcou em segundos.

— Nós adoraríamos. — Uma delas, uma que possuía cabelos vermelhos lisos se manifestou antes de atacar o Sebastian, mas ele se esquivou rapidamente de seu ataque.

— Seelie, tire-os daqui. — A Clary pediu antes de ir em direção a uma das Esquecidas.

A namorada do Sebastian rapidamente agarrou o braço do Simon e o meu antes de começar a nos arrastar pela areia, a Isabelle e o Alec demoraram alguns segundos para começarem a se mover. Eu ouvia o som dos choques das lâminas e gemidos de dor, em sua maioria femininos já que o Sebastian era o único homem presente.

— Não podemos deixá-los sozinhos. — Eu protestei ao me dar conta de que estávamos todos dentro do carro. A Seelie, fechou a porta me impedindo de sair.

— Eles não estão. — Ela respondeu antes de afastar o cabelo que lhe caia no rosto, colocando os fios para trás da orelha, e naquele momento eu percebi o formato delas, e arregalei os olhos. — Sim, eu sou uma fada. — Ela admitiu revirando os olhos. — Isabelle, sumam daqui. — Foi a única coisa que ela falou antes de sair correndo para a areia novamente.

Fazia pelo menos vinte minutos que nós estávamos parado na frente da casa da Clary esperando um sinal de vida, ou notícia de um dos três. O Lewis estava sentado no banco de trás com as pernas penduradas para o lado de fora, o Alec estava sentado na calçada olhando para a estrada, e eu estava em pé encostado no carro enquanto a Isabelle andava de um lado para o outro comendo as unhas.

— Andar de um lado para o outro não vai adiantar. — Eu comentei.

— Cala a boca, Jace. — Ela rebateu irritada sem me olhar.

— Ele está certo, Isabelle. — O Alec comentou sem desviar os olhos da estrada. A minha irmã parou e o encarou incrédula.

— Você. — Ela apontou para o Alec. — Não o defenda! E você! — Ela se virou para mim. — Não fale nada e não aja como se importasse, Herondale! — Eu respirei fundo tentando não perder a paciência com a Isabelle, mas foi em vão.

— Não me importo? Se não me importasse estava indo para casa e não esperando um sinal de vida deles! Não é só porque eu não amo a Clary, que eu não posso me preocupar com o bem-estar dela, ou o do irmão dela, Lightwood! — Ela fechou a cara.

— A Clary está, literalmente, arriscando o pescoço dela por sua causa agora, e há, também literalmente, sete séculos! E você tem a cara de pau de ser egocêntrico a ponto de não se permitir amar ninguém além de si mesmo! — Ela colocou o dedo contra o meu peito. — Ela está morrendo! Morrendo, Jace! E você é o único que pode fazer alguma coisa, e sequer se esforça para tal!

— Você acha que eu não sei?! Acha que se eu pudesse eu não o faria?

— Você tem medo de amá-la! — Ela rebateu olhando em meus olhos. — Quando vai entender que nem todo mundo vai abandoná-lo ou ser tirado de você? — Ela perguntou com a voz baixa. Eu engoli em seco e fechei a cara. Nós nunca tínhamos discutido daquela forma, nunca aquele ponto, nunca naquela intensidade, e ela nunca tocava naquele assunto.

— Izzy… — O Alec começou, mas eu o cortei rapidamente.

— Você, de todas as pessoas do mundo, deveria ser aquela que me entenderia. Sentiu a mesma dor que a minha. — Ela engoliu em seco. — Acha que eu não queria ter encontrado alguém? Da mesma forma que você encontrou o Lewis, ou o Alec encontrou o Magnus? — Ambos arregalaram os olhos. — Eu não posso amá-la porque eu sei que vou decepcioná-la, vou machucá-la. Não posso me permitir ser amado porque um dia ela vai perceber que não sou bom o suficiente. E ela não será a primeira.

Isabelle baixou o olhar por alguns segundos antes de voltar a me encarar, mas daquela vez não havia raiva em seu olhar, mas algo como mágoa e compreensão.

— Não somos Amatis, Jace. — Eu engoli em seco e senti o meu estômago se revirar ao ouvir aquele nome. — Você acha que eu não estou apavorada com o fato de ter me tornado um ser imortal? Não acha que eu estou aterrorizada com a ideia de um dia acordar e perceber que o Simon não está mais do meu lado? — Uma lágrima escorreu pelo rosto dela, mas a Izzy rapidamente a limpou. — Sereias só amam uma vez, Jace. E eu tive a sorte de ser amada por quem me apaixonei. — Seus olhos desviaram para o Lewis por alguns segundos. — A Clary não escolheu se apaixonar por você, ou ser amaldiçoada. Eu a conheço há menos de seis meses, e estou cansada de vê-la sofrer, estou cansada de estar sempre no meio de um drama. — Ela se aproximou de mim. — Você pode mentir o quanto quiser para si mesmo, mas não pode mentir para mim.

— Eu não estou mentindo para ninguém.

— Você não é o único a ser machucado. — Naquele momento um farol iluminou a rua, e todos nós desviamos o olhar para a caminhonete que se aproximava. Isabelle se afastou de mim quando o carro parou ao nosso lado. Assim que a ruiva saltou do carro a minha irmã prendeu a ruiva em um abraço de urso gigantesco que foi rapidamente retribuído pela Clary.

— Estão todos bem? — O Simon perguntou saltando do carro e olhando para os outros dois que saltaram do carro.

— Não. — A namorada do Sebastian respondeu raivosa e passou o braço do Sebastian sobre os seus ombros, a medida que eles se aproximavam de nós com dificuldade, eu percebi que o Tritão possuía um corte profundo na perna. — Idiota. — A fada resmungou o fazendo rir, mas no fim o Sebastian fez uma careta e resmungou alguma coisa.

— Isabelle. — A voz da Clary fez com que eu desviasse o olhar do casal que começou a seguir a passos lentos para a casa. — Você já pode me soltar, está me sufocando.

— Ah, desculpa. — Minha irmã a soltou e a ruiva sorriu. Notei que havia um pequeno arranhão em seu braço esquerdo, e sua camisa estava suja de sangue, mas não parecia ser dela. — O que aconteceu?

— É o que eu vou descobrir. — Ela murmurou e começou a andar a passos duros para casa.

P.O.V Clary

Abri a porta sem um pingo de delicadeza, chamando atenção das duas mulheres que olhavam a perna do meu irmão de forma preocupada. Ambas me encararam com feições preocupadas, e ao ver a minha expressão o meu irmão sussurrou alguma coisa para a Seelie, e a mulher logo o ajudou a seguir para o quarto.

— Clary, você está bem, filha? — Minha mãe perguntou enquanto se aproximava. Eu bati com a lâmina que estava em minha mão sobre a mesa. Eu havia roubado aquela adaga de uma das Esquecidas, me lembraria de devolver depois, com sorte só no próximo século.

— Vou ficar bem no momento que vocês me explicarem por que Esquecidas estão nadando livremente pelo nosso território! — Minha mãe travou um passo e olhou para a Maryse sobre o ombro, a mulher de cabelos escuros arrumou a saia do vestido elegante que usava e se preparou para falar, mas eu não a deixei sequer começar. — Eu não quero nenhuma desculpa esfarrapada, eu quero a verdade! Isabelle foi atacada há poucos meses, antes de eu sequer saber que ela era sua filha! — Maryse arregalou os olhos e desviou o olhar para algo atrás de mim, provavelmente era a própria Isabelle. — Uma Esquecida atacou um humano, quem sabe quantos outros não foram atacados também?! Isabelle teve sorte de eu estar na água, mas e se eu não estivesse? — Maryse engoliu em seco. — Eu quero respostas! E eu as quero agora! Por que eu tenho certeza que as duas estão mentindo para mim há meses! E não vou aceitar nenhuma outra mentira agora! — Minha mãe suspirou e balançou a cabeça em afirmação.

— Vá tomar um banho, e nós vamos ajudar o seu irmão. — Minha mãe falou, mas antes que eu pudesse protestar ela ergueu uma das mãos pedindo silêncio. — Está suja de sangue, Clarissa. Quando terminar, o seu irmão estará melhor e poderá ouvir tudo. Ele tem o direito de saber.

— Saber o que? — Perguntei cruzando os braços.

— Quem está tentando matar você há 700 anos.

Notas finais
Eu sei que teve muito diálogo e que isso é chato, mas não tava saindo nada melhor do que isso (sim tiveram piores) e eu não queria demorar mais. Acho que por hoje é só isso. Por favorzinho, não desistam de mim e nem da fic. Kissus Lightwood