Like I'm Gonna Lose You
24 Capítulo 22 - Ah ... I wanted to talk to Clary
Notas iniciais
P.O.V Clary
Encarei o meu reflexo no espelho e fiz uma careta ao notar que o corte em meu braço havia sido mais profundo do que eu imaginara; a pele estava avermelhada ao redor, e seria preciso a água do Mar para que eu evitasse mais uma cicatriz.
Ignorei aquele corte e segui para o lado de fora do meu quarto. Encontrei a minha mãe e a Maryse em pé na sala, e ambas pareciam apreensivas como o que estavam prestes a revelar. Minha mãe usava um dos braços de apoio para o outro, este que, erguido, ela roía as unhas da mão; já a Maryse andava de um lado para o outro, volta e meia olhando ao redor como se procurasse por algo.
Isabelle estava sentado ao lado do Simon, e Alec estava um pouco afastado deles no sofá, e nenhum dos três parecia estar confortável com aquela situação. Eu havia esquecido que os dois ainda não haviam conversado com a Maryse desde a noite que descobriram que a Sereia era mãe deles. Sebastian estava sentado no outro sofá, com as costas encostadas ao peito da namorada, e tinha uma das pernas esticadas sobre o móvel.
Sentei-me no único outro lugar disponível, a poltrona. Aparentemente eu era a única faltando no recinto. Puxei os meus joelhos contra o meu peito e me encolhi no móvel. A tensão era palpável, era como se a minha mãe fosse revelar que o meu pai era o responsável por aquilo, ou que ela mesma fosse a culpada.
— A senhora já pode começar a falar. — Mesmo com o banho o meu humor não havia melhorado em nada. Eu ainda estava irritada por ter Esquecidas nadando livremente pelo nosso território, e irritada por elas parecerem saber algo que eu não sabia, e irritada por ter tanto a minha mãe, quanto a Maryse mentindo para mim por tanto tempo; e principalmente irritada comigo mesma por ter deixado aquela mentira se estender por tanto tempo. — Se vocês colocarem uma vírgula fora do lugar, eu vou saber. E uma das duas vai me dizer o local certo dela.
— Tudo bem. — Minha mãe suspirou e passou a mão pelos cabelos. — A culpa é minha. — Ela abriu um sorriso amargo. — A culpa é minha de você estar passando por isso. Minha e da Maryse. — Franzi o meu cenho, e imediatamente olhei para o meu irmão, mas ele parecia estar tão confuso quanto eu.
— Nós não jogamos a maldição em você, Clarissa. Mas a culpa é nossa. — A Maryse cruzou os braços e olhou nos meus olhos.
— Vocês não estão fazendo sentido algum. — Eu disse, pois todos nós estávamos confusos. — Por que é culpa de vocês?
— Nós irritamos uma pessoa há séculos. Antes mesmo de você ou do seu irmão nascerem. E ela descontou o que fizemos em você. — Minha mãe começou a explicar. As palavras saiam com dificuldade pelos seus lábios, e os seus olhos estavam marejados, como se doesse admitir aquilo.
— Quem vocês irritaram? — O meu irmão se manifestou pela primeira vez.
— O nome dela é Lilith. — A resposta veio da Maryse, e foi como se ela respondesse algo que eu vinha me perguntando há séculos — que não deixava de ser verdade -, e ao pronunciar aquele nome, foi como se algo em sua boca tivesse adquirido um gosto amargo.
— Lilith é a Rainha das Esquecidas. — Minha mãe passou a mão pelos cabelos escuros, ela parecia estar cansada demais para a ocasião. — Ao contrário do que muitas Sereias pensam, as Esquecidas conseguem pensar clara e racionalmente, e elas são muito inteligentes. São fortes porque não tem medo da morte, são rápidas porque não tem nada a perder com o ataque, e são ferozes porque estão magoadas. Todas as Esquecidas obedecem a uma única Sereia, Lilith. Ela é Rainha das Esquecidas desde que eu consigo me lembrar.
— E por que ela iria querer me amaldiçoar? Minha maldição data de antes de nossa guerra contra elas.
— Assim como nós, ela também só pôde amar uma vez. E se apaixonou por um mortal há muito tempo. Por séculos, ela viveu com aquele amor dentro de si, vagando sozinha pelo Oceano; dizem que os humanos criaram até mesmo um mito sobre ela:“O homem que conseguisse fazê-la parar de chorar, teria o seu coração”. — Era triste imaginar que ela passou séculos sozinha, sofrendo por amor, mas não tinha ninguém que poderia fazer aquela dor diminuir, mesmo que momentaneamente.
— O que aconteceu? — Eu perguntei sem conseguir olhar para as duas mulheres.
— Antes que você ou o seu irmão nascessem, ela encontrou o nosso cardume. Na época, não tínhamos o conhecimento sobre as Esquecidas, não sabíamos como se pareciam, não sabíamos como agiam, ou qualquer outra coisa, eramos cegas sobre elas. Mas Lilith serviu para abrir os nossos olhos. — Pelo canto do olho, percebi que a Isabelle apertava as mãos uma na outra, um sinal claro de nervosismo, afinal, a Lightwood já havia sido atacada por uma Esquecida, e por sorte, uma tragédia não havia acontecido. — Lilith era linda. Sua calda era forte, e ela inspirava as Sereias mais novas, e me ajudava a liderar o cardume. Até que Maryse apareceu, ela perguntou se eu já tinha visto uma Sereia com um canto único e que gostava de crianças. — Meu irmão esticou a mão até a mão da minha mãe a acariciou, minha mãe abriu um sorriso e acariciou de volta, agradecendo silenciosamente pelo apoio. — Lilith fazia com que as crianças desacreditassem no amor, e antes mesmo de se apaixonarem, tornavam-se Esquecidas. Foram 9 Sereias que jamais conheceram o amor, e 7 que estavam apaixonadas. Todas elas tornaram-se Esquecidas em questão de dias.
— E o que a senhora fez?
— O que eu poderia fazer? Expulsei Lilith do cardume, e avisei a todos os cardumes conhecidos. Ela ficou tão raivosa que iniciou uma guerra, e prometeu que voltaria, e quando retornasse estaria mais forte do que nunca, e que Maryse e eu sofreríamos como nem mesmo ela havia sofrido.
— Então ela me amaldiçoou? — Perguntei com os meus olhos fechados. Eu queria chorar, mas não era de tristeza, era de raiva. U havia sido amaldiçoada por algo que a minha mãe fez para proteger o Cardume; eu não podia culpá-la, no lugar dela eu faria o mesmo.
— Há 700 anos, eu luto para que minha filha não se torne uma Esquecida. E há 18 anos, Maryse convive com o fato de não ter dois de seus filhos junto com ela. Para protegê-los. Para mantê-los seguros. — Minha mãe admitiu sem conter emoção na voz; eu podia jurar que ela estava chorando, mas me recusava a abrir os meus olhos.
— Mantive os meus filhos em terra por tanto tempo para protegê-los. — Eu conseguia ouvir a respiração da Isabelle alterar-se, ela ainda não estava bem em relação a todo esse assunto de “Mãe”. — Eu podia tê-los resgatado quando Robert e eu tivemos uma melhora, mas… — A Maryse fungou. — A ameaça de Lilith me fez mantê-los em terra. Eu sabia que morria a cada dia que passava longe deles, e que eles nunca me perdoariam por isso; mas eu prefiro que eles tenham a possibilidade de me odiar e estejam a salvo, do que correr o risco que eles sejam amaldiçoados ou pior.
— Como sabia que ela não iria a terra procurar por eles? — Eu perguntei voltando a abrir os olhos.
— Esquecidas não podem sair da água. — Encarei a Isabelle, ela balançou a cabeça em afirmação e entrelaçou a mão com a do Simon. — Mais uma coisa, Clary. — A encarei enquanto me levantava. — Lilith é a primeira Sereia que se tem conhecimento. Raziel foi o humano pelo qual ela se apaixonou. Não subestime o seu poder. — Balancei a minha cabeça em afirmação. — Ela só ficou mais forte com o tempo. É por isso que não conseguimos matá-la.
— Eu preciso de um tempo para respirar. — Anunciei e saí de casa sem olhar para trás.
(…)
Faziam três dias desde que eu finalmente descobri quem estava por trás da minha maldição. Embora eu tenha descoberto, não mudava em nada o fato de eu estar morrendo. Ainda não sabíamos como desfazer a maldição, e simplesmente não podíamos ir até Lilith. Se fosse simples assim, a minha mãe já teria feito isso há séculos.
Eu nunca tinha encontrado pessoalmente com Lilith, mas sabia que a Rainha das Esquecidas era alguém que deveria ser temida, afinal, ela tinha um exército de Sereias selvagens para protegê-la, e era a primeira Sereia que se tinha conhecimento. Minha mãe me contou que quando entramos em guerra com as Esquecidas fora para tentar reduzir os seus números; a tática até funcionou, mas hoje, elas haviam dobrado o número. Enquanto nós, Sereias comum, mal havíamos crescido um terço. O que era preocupante.
Poderíamos ser treinadas e até, em alguns casos, ser mais fortes, mas não possuíamos números para detê-las. Talvez com a ajuda dos Tritões, mas estes também não tinham grandes números. Éramos uma raça em extinção, isso era um fato. E aquilo nunca havia me preocupado, ou a qualquer outra Sereia como vinha preocupando nos últimos séculos.
Minha mãe havia pedido para que eu não me preocupasse com Lilith, afinal, aquilo era problema dela. Mas era impossível!
Isabelle e Alec foram uma boa distração naqueles últimos dias, pois eu estava ajudando-as com suas habilidades recém-descobertas; e ao mesmo tempo, tentando descobrir qual era o dom deles. Passávamos bastante tempo em terra, treinando de simples apertos de mãos até alguns golpes — Isabelle havia insistido para aprender a lutar —; como também em água para ajudá-los a aprender a utilizar a calda.
Na escola nós passávamos bastante tempo juntos, o que acabou afastando o Jace. Desde a noite em que encontramos com as esquecidas, que eu não o via. Ele ia para a escola, mas parecia um fantasma. Alec havia dito que ele sequer estava comparecendo aos treinos do basquete, e que o próprio treinados estava demonstrando preocupação com as faltas dele, já que eles estavam se aproximando de um grande jogo.
Eu me preocupava com ele. As Esquecidas haviam dito que Lilith o queria, e ainda que não pudessem sair da água, elas poderiam conseguir alguém para fazer o trabalho delas em terra, como o metamorfo que havia me atacado; ou poderiam atacá-lo em água, se ele fosse à praia. E não saber do paradeiro dele só dificultava as coisas.
— O que você acha? — Voltei a minha atenção para a Isabelle. — Não estava ouvindo?
— Desculpa. — Ela balançou a cabeça em afirmação. Aceitei o copo que o Simon me estendia. Eles haviam passado no Starbucks e trouxeram Chá de Morango para mim — eu ainda estava na dieta da Maryse, mas ela não precisava saber que eu estava bebendo aquilo —, o Alec também havia vindo com eles, mas estava sentado no sofá com fones nos ouvidos e rolando o dedo pela tela do celular; volta e meia ele ria de alguma coisa.
— Estou começando a desconfiar que eu e Alec podemos não ter dom algum. — Balancei a cabeça em negação enquanto engolia o gole do chá.
— Vocês têm sim. Faz o que? Uma semana que vocês descobriram sobre suas caldas? Tenha paciência Isabelle, o corpo de vocês ainda está se adaptando à nova natureza. — Ela suspirou e deitou no colo do Simon, que bebericava o café e olhava para a televisão.
— Olá crianças! — Minha mãe cumprimentou ao entrar em casa, seguida pela Maryse. Elas carregavam algumas sacolas, e a Maryse tinha uma sacola que não parecia ter vindo de um mercado; provavelmente eram os ingredientes da minha dieta especial. — O que estão assistindo?
— Versailles! — Respondi. A Maryse me encarou com os olhos semicerrados, o que me fez esconder o copo do chá atrás do corpo. Ela balançou a cabeça em negação.
— Não reclame quando colocar tudo para fora. — Assenti.
Batidas na porta fizeram com que todos olhassem para a mesma. Maryse foi quem se dirigiu para atender, e quando abriu a porta, todos ficaram em silêncio, como se o próprio Poseidon estivesse parado ali.
Seus cabelos claros estavam penteados para trás, mas uma brisa fez com que eles caíssem na lateral de seu rosto; percebi que a sua barba estava um pouco grande, dando a impressão de que ele era mais velho, e pior, me lembrava uma de suas versões. A camisa azul de botões que usava contrastava com a pele um pouco bronzeada e o cabelo dourado.
Depois que todos saíram do transe, os olhares voltaram-se para mim, e eu tive certeza que o meu rosto estava da cor de meus cabelos; o que o fez abrir um pequeno sorriso e coçar a nuca como se estivesse em uma situação embaraçosa. O que EU realmente estava.
Da última vez que havíamos nos visto, havíamos brigado, mas não parecia que o meu subconsciente estava ligando para aquilo. E pior, a minha mãe não sabia da metade que acontecia entre nós dois, ou seja, todas as vezes que ela encontrava uma das versões do Jonathan ela simplesmente parava e o analisava, como se procurasse por alguma coisa.
— Ah… Eu queria falar com a Clary. — Seus olhos finalmente encontraram os meus e foi como se uma explosão de sentimentos tivesse me atingido. Fazia três dias que eu não o via, e parecia uma eternidade. — Será que… — Ele fez sinal com a cabeça e eu balancei a cabeça em afirmação.
Passei pelos presentes com cuidado, e rezando para que ninguém falasse absolutamente nada. Apenas peguei um casaco no cabideiro antes de fechar a porta atrás de mim. Como nós morávamos perto da praia, havia sempre uma brisa fria durante a noite, o que também significava que tínhamos bastante lugar para andar.
Ele começou a andar como se conhecesse perfeitamente aquele lugar, e soubesse exatamente para onde ia. Eu não questionei, apenas o segui após vestir o casaco. Estava arrependida de estar usando um short tão curto, e ter pego um casaco tão fino, mas não havia tempo de voltar para casa apenas para mudar de roupa.
A pouca iluminação que vinha da rua, e a lua eram as únicas fones luminosas em nosso caminho — que eu ainda não sabia para onde levava —, e o Mar estava mais calmo do que a noite anterior, e isso era bom, não teríamos o barulho das ondas quebrando na praia, pelo menos não tão alto quanto poderia ser.
Paramos de caminhar depois de alguns bons minutos. Não estávamos mais na praia, estávamos parados na frente de uma casa, que pela aparência parecia estar abandonada, ou pelo menos, era pouco frequentada. Sem ainda dizer uma única palavra o Jace abriu o portão e fez sinal para que eu entrasse.
Parei na varanda esperando por ele e o mesmo tirou uma chave do bolso, destrancando a porta e dando espaço para que eu entrasse. Assim que entrei na casa tive a confirmação de que era muito pouco frequentada, mas não estava abandonada. Havia poeira em alguns móveis, mas não era nada que uma simples faxina não resolvesse.
— Por que me trouxe aqui? — Perguntei sem olhá-lo.
— Venho aqui sempre que preciso pensar. — Ele disse, mas não era uma resposta para a minha pergunta. — Era onde os meus pais moravam. — Virei-me para ele. O Jace estava apoiado em uma parede e segurava um livro em uma das mãos.
— Por que me trouxe aqui? — Tornei a perguntar.
— Queria conversar com você em um lugar que ninguém atrapalharia. — Cobri os meus olhos quando ele acendeu as luzes sem avisar. Quando voltei a abri-los ele estava a centímetros de distância de mim, e me estendia um livro.
Depois de alguns segundos de relutância eu aceitei o livro, e ao abri-lo percebi que não era um livro e sim uma espécie de diário. Jonathan Christopher Herondale. Ao ler aquele nome o meu coração falhou em uma batida. Ergui os meus olhos para ele e o mesmo fez sinal para que eu continuasse.
As primeiras folhas contavam que o Jace teve um antepassado que contava histórias sobre Sereias, que havia conhecido uma Sereia. Clarissa. E que se encantara por ela no momento que os seus olhos repousaram sobre ela, mas por medo ele a matou, e viveu com aquela mágoa e arrependimento até o fim de seus dias.
A cada palavra que eu lia era uma lágrima que escorria pelo meu rosto; era como se toda a minha vida estivesse naquele livro. Todas as versões do Jonathan haviam escrito sobre mim, e passado aquela história adiante pelas gerações de suas famílias. Até mesmo as vezes que ele não havia me visto como Sereia.
“De todas as provações que Deus poderia ter imposto para mim, aquela, com certeza seria a que me condenaria. Uma mulher com calda de peixe. Uma encantadora mulher com calda de peixe.”- Jonathan, 1516
— Por que está me mostrando isso? — Perguntei enquanto passava as páginas, até parei em uma foto. Estávamos eu, o Sebastian, o Jonathan e alguns conhecidos nossos da época. Foi impossível não deixar ainda mais lágrimas rolar. Era como se tudo estivesse voltando à minha cabeça, como um filme que eu sabia todo o enredo, e odiava cada final.
— Estou pensando em vender a casa, e… Estava mexendo nas coisas do sótão; encontrei isso em meio há várias coisas antigas, achei que fosse um livro velho, ou um diário ainda mais velho, mas não achei que fosse ser tão importante para a minha família. — Passei a página e encontrei um papel. Quando o abri arregalei os olhos, era o rosto do Jonathan pintado por mim, e mesmo que eu não reconhecesse os meus próprios traços os a minha própria arte, havia a minha assinatura no desenho. — Foi assim que eu descobri sobre você. Eu li os diários, todos eles. Antes mesmo de você se revelar para mim, eu já criava teorias sobre você ser a Sereia ou não. Mas eu acreditava ser coisa da minha cabeça. — Balancei a cabeça em afirmação enquanto folheava o diário. — Pode ficar com ele. — Ergui os meus olhos. — Não vai me servir de nada, de qualquer maneira. — Ele balançou os ombros. — Parece ser mais importante para você.
— Por mais que eu esteja… — Fechei o diário e abri um sorriso para ele. — Bom, bastante emocionada. Não posso ficar com ele. — Deixei o objeto sobre uma dos móveis. — Obrigada por me mostrar. — Passei as mãos pelo meu rosto enquanto caminhava em direção a porta. Antes que eu pudesse alcançar a mesma, sua mãos segurou o meu braço, fazendo com que eu ficasse parada ao seu lado. — Jace…
— Eu gostaria de amá-la como os meus antepassados a amavam. — Ergui os meus olhos para ele. — Me desculpe, Clary.
— A maldição é minha… Não tem nada para se desculpar. — Acariciei o seu rosto sentindo a barba rala contra a palma da minha mão.
— Mas ainda assim, você vai morrer.
— Morreria de qualquer maneira. Nem mesmo seres imortais vivem para sempre. — Aproximei meu rosto do dele e depositei um beijo casto em sua bochecha. — Tenha uma boa vida, Jace. — Murmurei olhando em seus olhos.
— Pode ficar mais um pouco? — Assenti sentindo a sua respiração bater contra o meu rosto. — Pode me contar sobre eles? — Abri um sorriso enquanto me afastava.
— É uma história bem longa. — O Jace se afastou e puxou o plástico que cobria um dos sofás.
— Eu tenho tempo.
(…)
A minha consciência despertou antes do meu próprio corpo. Eu tive a plena certeza de que estava dormindo, mas que algo me dizia que eu precisava acordar, mesmo que eu não soubesse o motivo exato. E, embora, eu recebesse aquele aviso, era como se o meu corpo estivesse pesando o triplo, e eu estivesse em modo câmera lenta.
Movi os meus braços antes de sequer abrir os olhos, e quando o fiz, estranhei a falta de luz em meu quarto, afinal, os primeiros raios de sol sempre costumavam atravessar a janela logo cedo, mas aquele dia, poucos a atravessavam. A segunda coisa que me chamou a atenção foi o fato de eu estar sentada, o que causará uma dor incômoda em meu pescoço, bem perto da nuca, como se estivesse dormido em uma posição ruim; o que era verdade.
A constatação de que havia algo errado veio quando eu fitei a escada à minha frente. Pelo que eu me lembrasse não havia uma escada no meu quarto, tenho certeza que se houvesse eu já teria notado.
Sentei-me olhando em volta, e me arrependendo no segundo seguinte, pois o meu pescoço reclamou do movimento repentino. Depois, com calma olhei finalmente para o ambiente em que me encontrava; e constatei que alguma divindade, com certeza estava querendo piorar a situação que me encontrava.
Estava na sala da casa dos pais do Jace, estava em uma posição pouco confortável apoiada no sofá e com as pernas sobre o móvel, havia tirado as sandálias apenas por serem rasteirinhas. Estranhei a falta do dono da casa e procurei por ele com os olhos, até que senti algo atrás de mim se mover, e ao olhar para trás encontrei-o recostado no sofá.
Eu estava apoiada nele, com a cabeça em seus ombros e as costas contra o seu peito, e suas pernas estavam sobre um puf aparentemente confortável que estava há alguns centímetros do sofá. O Jace, para a minha felicidade, dormia tranquilamente, e se dependesse de mim, permaneceria daquela mesma forma até que eu conseguisse sumir dali.
Levantei-me tentando fazer o mínimo de movimento, e quando estava de pé me afastei do sofá. Os seus fios claros caiam sobre o sofá e sua respiração parecia serena; notei que sua camisa estava torta e amarrotada em seu corpo, e parte da mesma estava erguida no quadril, deixando assim à mostra parte de seu abdômen.
Em silêncio eu comecei a caminhar para a porta e quando toquei na maçaneta, ele se moveu no sofá, o que me fez congelar, mas felizmente ele continuou dormindo. Sem perder mais um segundo, saí da casa sem olhar para trás, tentando esquecer o que havia acontecido, e tentando não pensar que poderíamos ter dormido abraçados durante toda a noite. Mesmo que o cheiro de seu perfume em meu casaco dificultasse bastante as coisas.
— Clary? — Ergui os meus olhos para o meu irmão. Seus cabelos platinados estavam amassados, e o seu rosto avermelhado e um tanto marcado, o que significava que ele havia acabado de acordar. — Não dormiu em casa?
— Saí para ver o sol nascer. — Menti.
— Ah... Tudo bem. — Abri um meio sorriso e passei por ele indo em direção ao meu quarto.
Por pura sorte o Sebastian estava tão sonolento que não havia reparado que eu continuava com as mesmas roupas da noite anterior, e eu faria de tudo para não deixá-lo perceber isso. Não precisava dar mais um motivo para o meu irmão ficar falando na minha cabeça pela próxima semana, se é que eu tinha todo esse tempo.
Tirando aqueles pensamentos ruins da minha cabeça eu entrei no banheiro com o pensamento de tomar um bom banho. Não me importei em molhar os meus cabelos, precisava relaxar e aquela era a melhor forma, mesmo que eu perdesse um pouco de tempo depois para escová-lo.
Vesti uma camisa azul de alcinhas e uma jardineira manchada de tinta sobre a lingerie simples. Escovei os meus cabelos e me dei como pronta e livre de perguntas constrangedoras. Tudo o que eu precisava fazer era tomar um bom café da manhã e passaria o resto do domingo trancada no meu estúdio.
Ao abrir a porta fui inebriada pelo cheiro do café que vinha da cozinha, provavelmente minha mãe havia acordado e preparado o café enquanto eu tomava o meu banho. E se eu bem conhecia a dona Jocelyn ela faria alguma pergunta sobre o meu bom humor matinal, além de estranhar o fato de eu ter acordado cedo em um domingo.
— Bom dia! — Desejei ao chegar na cozinha. Minha mãe estava terminando de fritar os ovos com bacon, enquanto o meu irmão estava quase dormindo sobre a panqueca que estava à sua frente. — BOM DIA SEBASTIAN! — Gritei após parar ao seu lado bem no seu ouvido, fazendo com que ele arregalasse os olhos e tampasse os ouvidos, para em seguida me lançar um olhar raivoso.
— Vá à merda, Clary!
— Sebastian! — Minha mãe o repreendeu ao se aproximar da mesa com o último item do nosso dejejum. — A que devemos esse bom humor, querida?
— Nada. — Dei de ombros enquanto me servia com uma xícara de café. — Preciso de… — A campainha nos interrompeu. — Eu atendo. — Anunciei ao vê-los me olhar.
Caminhei até a porta da sala e abri a mesma balançando a cabeça enquanto ria. Encarei-o por alguns segundos até conseguir formular uma frase completa. Não havia motivo algum para que ele fosse até lá, muito menos que aparecesse aquela hora, sendo que eu tinha certeza de que ele estava dormindo quando deixei a casa.
— O que está fazendo aqui? — Ele sorriu e colocou as mãos nos bolsos da parte da frente da bermuda, a mesma que usava na noite anterior.
— Bom dia para você também, Clary. — Revirei os olhos diante de sua ironia.
— Bom dia. — Desejei. — Agora pode me dizer o que veio fazer aqui? — Ele assentiu com um sorriso brincando nos lábios enquanto tirava alguma coisa de dentro do bolso esquerdo.
— Deixou isso para trás quando fugiu de mim essa manhã. — Naquele momento tive certeza que o meu rosto estava mais vermelho que os meus cabelos. Aceitei o celular que ele me estendia e o coloquei no bolso traseiro do short da jardineira.
— Ah, obrigada. — Respondi sem graça.
— Isabelle ligou pelo menos umas quinze vezes, devia retornar. — Eu sabia o motivo das ligações. Aquela noite, Isabelle nadaria pela primeira vez com o Cardume, e minha mãe a aceitaria como parte dele, se aquele fosse o desejo dela; só que dessa última parte a minha amiga não sabia.
Depois de nos contar sobre Lilith, ela havia feito o “convite” para os Lightwoods, e Isabelle havia me esperado em casa para contar a novidade. E eu estava mais que feliz pela minha amiga, e desejava que nenhuma Esquecida resolvesse aparecer para atrapalhar o momento dela.
— Nós sabemos sobre o que eram as ligações, Jace.
— Eu sei. Ela me chamou para ir. — Ele deu de ombros. — Sabe, tentar assistir da praia, fazer companhia ao Lewis, esse tipo de coisa. Não tenho muita certeza se devo ou não ir. — O seu olhar fez uma pergunta silenciosa, como se ele quisesse saber a minha opinião sobre.
— Acho que deveria ir. Alec também estará lá, e ele vai nadar com os Tritões, sei que vocês são próximos. Vocês três, na verdade. Vai ser importante para eles que você esteja presente.
— E quanto a você?
— Eu? — Arregalei os olhos.
— Clary, quem é? — Virei para trás com os olhos arregalados, e eu tinha certeza que tinha uma expressão culpada no rosto, como uma criança arteira que acabou de fazer alguma besteira e está com a arma do crime nas mãos. — Jonathan. — Minha mãe o encarou. — Desculpe, é Jace, não é? — Baixei os olhos envergonhada, mas antes vi que o mesmo abriu um sorriso na direção da minha mãe.
— É, isso mesmo. — Percebi que a mão que ele havia me entregue o celular, voltava para o bolso. — Eu só vim devolver o celular da Clary… — Encarei-o antes que o mesmo pudesse falar mais alguma coisa. — Ah… Enfim, eu acho que já vou indo. Foi bom vê-la, Senhora Fray. — Minha mãe cruzou os braços e abriu um sorriso, para qualquer um era um sorriso comum, mas eu sabia que haveria um sério interrogatório quando ele partisse.
— Jace, você vai hoje à noite? — Os olhos do loiro caíram sobre mim e eu balancei a cabeça em afirmação.
— Ele vai sim, mãe. — Respondi. — Já pode deixá-lo ir?
— Foi um prazer, Jace. — Ergueu uma das mãos para dar um “tchau” para ele quando o mesmo se afastou. Fechei a porta calmamente como se fosse um encontro comum e voltei à cozinha.
— Vocês demoraram. — Meu irmão protestou. O Sebastian já tinha terminado a panqueca e comia um sanduíche de queijo. — Quem era?
— Ninguém.
— Jace. — Eu e minha mãe respondemos ao mesmo tempo. Revirei os olhos e beberiquei o meu café, já estava frio. — Quer nos contar algo, Clary? — Deixei um suspiro cansado escapar pelos meus lábios e os olhei.
— Nós conversamos, o Jace me mostrou um diário dos antigos Jonathans, contei a ele sobre eles, dormimos e eu voltei para casa! Não nos beijamos, não transamos, ou qualquer coisa do tipo! Eu continuou a mesma e ele também, será que posso terminar o meu café agora?! — Perguntei irritada.
— E lá se vai o bom humor. — Meu irmão murmurou fazendo com que eu levantasse da cadeira pegando o meu sanduíche e enchendo uma outra caneca com café.
— Tenham um bom dia. — Desejei ao deixá-los sozinho. Um dia comum em uma família nada comum.
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