Like I'm Gonna Lose You
15 Capítulo 13 - Jace
Notas iniciais
P.O.V Clary
Eu encarava a mulher a minha frente há pouco mais de trinta minutos. Eu conseguia ouvir o som dos ponteiros do relógio a cada segundo ou minuto que se passava; o som que a cada gota de água fazia contra pia; o som da minha respiração, o som da respiração dela; pois estes eram os únicos sons que existiam naquela casa. Trinta minutos haviam se passado, e nenhuma palavra havia sido dita.
Maryse, a Sereia mais rígida que eu conhecia. Maryse, aquela que seguia cegamente as leis. Maryse, quem era temida pelas Sereias mais rebeldes. Maryse… A mãe da Isabelle. Eu não conseguia acreditar que de todas as Sereias do mundo, ela seria aquela que cometeria aquele crime terrível contra a própria espécie. Ela… Ela abandou duas crianças em terra, privou-os do Mar. Ela… Ela não merecia a calda que tinha.
— Quando sua mãe te contou? — Ela foi a primeira a se manifestar. — Jocelyn sabe o que isso vai lhe custar.
— Não ouse ameaçar a minha mãe! Ela não me disse absolutamente nada! — Disse com a voz firme. — Eu não sou idiota, Maryse! Você simplesmente empalideceu ao ver a Isabelle esta noite, como se a simples ideia de que ela a visse a desse mais medo que qualquer outra coisa no mundo.
— Mas…
— Isabelle é você sem todos esses séculos em suas costas. — Mesmo que ela quisesse, não conseguiu segurar o sorriso que abrira em seu rosto.
— Eu sei. — Ela murmurou e baixou o olhar. De alguma forma, a Maryse parecia sentir por tê-los deixado. — Você realmente acha que eu queria abandonar os meus filhos, Clary? Eu… Eu não tive escolha! Simplesmente não tive escolha! E… Não espero que você entenda, mas…
— Por quê? — Ela balançou a cabeça em negação com a cabeça ainda baixa. — Maryse…
— Eu sei que Isabelle é parecida comigo, Clary. Assim como sei que Alec tem os olhos idênticos aos de Robert. — Ela ergueu o olhar para mim e eu vi que estavam marejados. Aquela foi a primeira vez que eu a vi tão frágil, tão exposta, tão… humana. — Eu sei tudo sobre eles. Desde suas cores favoritas até as médias escolares. Eu sei tudo sobre eles porque… — Ela não conseguiu terminar a sentença, e as lágrimas banharam seu rosto.
— Porque eles são seus filhos. — Completei a frase por ela vendo-a balançar a cabeça em afirmação, seus longos cabelos escuros e pesados, tão parecidos com o da Isabelle, cobriram a lateral de seu rosto, lembrando uma cortina.
— Eu… Eu vou te contar o que aconteceu.
…
Uma semana se passou desde a noite do jogo. Uma semana havia se passado desde que eu havia descoberto que a Maryse era mãe da Isabelle. Uma semana que aquela Sereia havia me contado sua história. E havia uma semana que eu passara a entender os motivos dela para ser tão fria e rígida quanto era. Havia uma semana que aquela Sereia tão distante, não via mais motivos para usar sua máscara vinte e quatro horas por dia; se permitindo sorrir e gargalhar comigo e com a minha família. Uma semana que eu encarava a Izzy e pensava se um dia a mãe dela teria coragem o suficiente para contá-la a verdade; e sequer conseguia imaginar qual seria a reação da Lightwood mais nova. Bom, a mais nova que ela conhecia.
Eu jamais havia perguntado à Isabelle ou ao Alec sobre a mãe deles. Não achava necessário. E agora que sabia a verdade, ficava em dúvida se deveria perguntar ou não. O que será que eles achavam ter acontecido com os pais deles? Como eles foram parar com o Hodge? Será que eles um dia haviam se feito alguma dessas perguntas?
Eu havia passado a maior parte do meu tempo pensando na Isabelle, mas também havia o Alec. Como o primogênito dos Lightwoods reagiria se um dia descobrisse que a mãe estava viva? E, que Poseidon me proteja, era uma Sereia? Eu sabia que Alexander Lightwood era um cara extremamente ligado aqueles que os cercavam, ainda que nem sempre demonstrasse aquilo. Mas eu sabia que ele gastava de fazer as pessoas se sentirem aceitas no meio em que estavam, talvez, por já ter passado por alguma situação em que havia sido excluído de certa forma. Ou por algum outro motivo, mas… Será que ele poderia saber alguma coisa? Talvez o Hodge, por ele ser o mais velho, tenha dito algo a ele.
Mas… Aquelas eram o tipo de perguntas que apenas o tempo poderia responder. E eu não tinha certeza se preferiria que essas respostas viessem logo ou que demorassem ainda mais.
Infelizmente, a decisão também não era minha.
P.O.V Jace
Eu havia prometido a mim mesmo que não iria até lá. Tinha dito que aquela era a última vez, mas quem eu estava querendo enganar? Aquilo era mais forte que eu. Havia uma força que me arrastava até aquela casa todos os anos desde a noite do acidente. E mesmo que eu fizesse mil promessas, eu quebraria cada uma delas, pois havia uma parte de mim que tinha a necessidade de ir até aquela casa e alimentar aquela esperança ridícula de que um dia eles estariam me esperando lá dentro. O cheiro de mangas ao passar pelo portão e adentrar o pequeno jardim que possuía uma Mangueira como árvore principal; e ao entrar na casa, encontraria ambos sentados no sofá, abraçados ao assistir algum programa de TV, provavelmente algum telejornal; e eles sorriram ao perceber a minha presença ao atravessar a porta e juntar-me a eles.
Mas parado na frente da casa que tinha um abandono aparente, expulsei aqueles pensamentos para um canto escuro da minha mente. Aquilo jamais aconteceria, e eu sabia disso. Mas não conseguia parar de criar mil fantasias diferentes em que de alguma forma; em algum universo alternativo ou paralelo, elas se concretizariam, e que eu eles estariam vivos e que… E que eu conseguisse, pelo menos dizer adeus.
Mas já haviam se passado seis anos. E os meus pais continuavam mortos.
Sem dúvida alguma o primeiro ano havia sido o mais difícil. Havia noites em que eu fugia da casa dos Lightwoods apenas para passar a noite inteira em claro sentado na sala olhando para todas aquelas fotos espalhadas e pedindo para qualquer entidade que os trouxesse de volta, ou que pelo menos, fizesse aquele vazio sumir.
Mas enquanto eu abria a porta da casa e me deparava com aquela sala tão conhecida, percebi que embora o meu pedido houvesse sido atendido, ele não havia sido realizado por completo. Os meus irmãos haviam suprido grande parte do vazio e da dor que eu sentia, mas ainda havia um pedaço de mim que não estava completo, e… Eu até pensei que poderia finalmente preenchê-lo, mas eu estava enganado. Aquela ruiva, definitivamente não queria nada comigo.
A única pessoa que eu realmente havia me interessado na minha vida, não queria nada comigo. Agora eu entendia porquê as pessoas reclamavam tando de suas vidas amorosas em suas redes sócias, principalmente em uma específica. Sentir algo por alguém, e perceber que não é recíproco, era realmente uma droga. Mas eu esperava superar aquilo tão rápido quanto superava qualquer outra paixonite que eu havia tido em toda a minha vida. Mesmo que algo me dissesse que daquela vez, o buraco era mais embaixo.
— Jace, não é o momento para isso. — Murmurei para mim mesmo. O que era verdade.
Havia ido até a casa dos meus pais com dois objetivos. 1º era aniversário de óbito deles, e eu simplesmente ia até lá, sentava na sala por algumas horas e relembrava alguns momentos que tivemos juntos. 2º eu precisava reunir todos os documentos que eu conseguisse encontrar ali, pois havia tomado uma decisão.
Mesmo que eu fizesse promessas, eu iria até lá no ano seguinte, e talvez aquilo não fosse saudável para mim, então, eu faria a única coisa que me impediria de voltar aquela casa: Eu a venderia.
…
Três horas. Havia três horas que eu estava procurando por toda casa pelos documento, e não havia achado metade dos que contavam na lista. Havia procurado no quarto dos meus pais, no escritório da minha mãe, na garagem, e estava naquele momento sentado no meio da poeira do sótão revirando várias caixas. Eu jurei para mim mesmo, que a partir daquele dia, manteria todos os meus documento em um único lugar, e que ele fosse arejado para evitar aquele cheiro de papel guardado e toda aquela quantidade de poeira.
Depois de revirar todas aquelas caixas de papelão, e pastas aviste, escondido atrás de várias outras caixas, e diversas outras coisas, como um patinete antigo, um baú. E não estou dizendo um baú que as pessoas estão acostumadas a ver, aquela coisa bonitinha e envernizada que se vê por aí, geralmente em miniatura. Aquele baú era antigo, e eu me perguntei como aquilo ainda existia. Não que eu fosse formado em nada que me desse base para afirmar tal coisa, mas aquele baú deveria ter séculos de idade.
A madeira era escura, e diferente de tudo o que eu havia visto, ainda que a mesma estivesse nitidamente desgastada. Havia desenhos de alguns pássaros nas bordas, e a fechadura era um pássaro que eu jamais havia visto antes. Na tampa do mesmo havia escrito “Herondale” com letras cursivas que pareciam ter mais idade que o próprio baú. Felizmente não havia nenhum cadeado, então, tomado pela minha curiosidade, eu o abri sem pensar duas vezes.
Se eu tivesse imaginado ouro e joias eu não os teria encontrado. Dentro do baú havia uma infinidade de moedas de todas as épocas, além de colares de pérola, anéis com solitárias, colares brilhantes e várias outras coisas que sustentariam muitas famílias por décadas; além de mapas e pergaminhos antigos. Mas o que mais me chamou atenção naquilo foram os cadernos com capa de couro que estavam colocados no centro do baú, como se fossem as peças mais importantes.
Peguei um deles e me sentei no chão para poder ler. Ao abrir a primeira página notei que era um diário, e aparentemente um diário de viagem. Jonathan Herondale-1316. Okay, meu ancestral se chamou Jonathan também, o que era bastante normal. As primeiras páginas ele narrava o dia a dia em uma embarcação frágil, e que todos os dias rezava para que não naufragassem em auto Mar. Até que…
“Eu conheci uma Sereia, e estou prestes a matá-la.”
Eu não tinha certeza se aquilo poderia ser apenas uma história de marinheiro, ou se há 700 anos atrás realmente poderia ser verdade que Sereias existissem. Mas a cada página que eu lia, era uma pouco mais da minha dúvida que sumia, e um pouco mais da minha crença que crescia.
“Hoje, faz cinco anos desde que eu a matei. Desde aquela noite, nunca consegui esquecer seus olhos esverdeados como as árvores nas ilhas que avisto e comemoro por encontrar alguma terra firme depois de meses na embarcação. Seus cabelos vermelhos, que lembravam o sangue dos inimigos de meu capitão, serpenteavam os meus sonhos. E eu ainda conseguia ouvir perfeitamente o seu canto hipnotizador.”
Jonathan morreu anos depois, e passou suas histórias para seus descendentes. Até que elas chagaram aos ouvidos de Jonathan II, seu neto. Cinquenta anos depois, aquele neto, que jamais teve contato com seu avô, narrou a mesma criatura de antes.
“Ao aportar meu navio próximo aquela ilha e permitir que os meus homens descansassem a noite na pria, para apenas pela manhã a explorarmos, não imaginei que encontraria com aquela Sereia das histórias de meu avô. Ao olhá-la foi como se já tivesse a visto antes, e eu entendi porque o meu avô se apaixonara por ela. Era o ser mais incrível que eu já havia visto em toda minha vida.”
“Na noite em que voltamos para o navio, vi sua calda negra bater contra a água momentos antes de eu me erguer para alcançar a embarcação. Ela me olhou por vários momentos, e o sol poderia se pôr e nascer novamente que eu não me importaria. Pois eu me sentia acorrentado a ela de alguma forma.”
Meu celular tocou me assustando e me fazendo derrubar. Amaldiçoei a pessoa que me ligava naquele instante. As pessoas sabiam que eu sumia naquele dia e detestava ser importunado. Ao ver o nome da minha irmão refletir na tela eu soltei um suspiro. Alec era o tipo de pessoa que odiava mandar mensagens.
— O que foi, Alec? — Perguntei ao atender. Passei a folha do caderno, e continuei a ler.
— Você sabe que o aniversário do Izzy é no sábado, não sabe? — Revirei os meus olhos enquanto voltava a ler.
— Claro que sei! — Isabelle já estava deixando indiretas de possíveis presentes em todos os lugares, fosse nas redes sociais, nos bilhetes que ela escrevia para o Hodge, ou em qualquer momento que ela encontrava oportunidade.
— Estou pensando em fazermos uma festa surpresa o que acha?
— Acho uma boa ideia, mas sabe que ela vai nos matar por a ignorarmos no aniversário dela, não sabe?— Comentei enquanto lia um pedaço que ele voltava a descrever, e aparentemente era a mesma Sereia, ou a mesma ilusão. Olhos verdes e cabelos ruivos. Não existia nome?
— Eu sei, mas essa ela vai gostar. O que acha? — Considerei a ideia enquanto lia as últimas linhas da página. — A Clary já concordou em ajudar.
— Clarissa. — Eu li em voz alta. Aquele era o nome da Sereia.
— Sim, Jace, eu sei que o nome dela é Clarissa.
— Espera… O que? — Havia esquecido por dois segundos que estava no telefone com o Alec.
— Você disse Clarissa. O nome da Clary.
…
Meu reflexo no espelho mostrava um rapaz mais animado do que eu realmente me sentia. Depois que encontrei aqueles diários,, há dois dias, comecei a lê-los em todos os momentos que encontrava tempo. Já havia terminado o primeiro deles, e o mesmo terminava com os relatos de um Jonathan que havia sido um Padre. Esse foi o primeiro deles que havia relatado a Sereia como anomalia. Como se ela tivesse sido enviada por Deus como uma forma de testá-lo. Isso foi em 1416.
Mas a real questão era que, pelo que eu havia percebido, de 50 em 50 anos aquela Sereia, se fosse realmente real, encontrava os homens da minha família, na verdade os Jonathans da minha família. Havia folheado os outros livros, e todos eles eram narrados por um Jonathan diferente. Estava começando a me perguntar se eu deveria escrever naquelas páginas, ou se em algum momento começaria a ter alucinações sobre Sereias ou… talvez, elas realmente existissem.
— JACE! — Meus pensamentos foram cortados pela voz da Isabelle do outro lado da porta. — Vamos nos atrasar! — Peguei a minha jaqueta sobre a cama e caminhei até a porta. Ao abrir a mesma, encontrei a minha irmã usando um vestido preto sem decote, feito de um material que se ajustava ao corpo e que terminava no meio de suas coxas; uma bota de cano longo em um tom de cinza chumbo e um casaco grosso e longo da mesma cor das botas; seus cabelos estavam soltos e, como sempre, seus lábios estavam pintados de vermelho. Isabelle Lightwood, como sempre, estava pronta para arrasar corações. — Hum… Planejando levar alguém para um passei nas pedras hoje, Herondale? — Revirei os meus olhos e ela passou as unhas pintadas de prata pela parte do meu peito que os botões abertos da camisa deixavam amostra. O restaurante ficava perto da praia, perto do Java Jones, e eu arrumaria alguma desculpa poder levá-la até lá.
— Talvez. — Ela riu e começou a andar para fora da casa.
Era sábado. Ou seja, era aniversário do Isabelle. Ou seja, havíamos ignorado a minha irmã o dia inteiro com alguma desculpa esfarrapada, e a mesmo havia ficado bastante triste, pelo que eu percebera. Eu sabia que a Izzy gostava de comemorar o aniversário, por um motivo que só ela sabia, e fingir ter esquecido da data me entristecia, e a deixava bastante cabisbaixa.
Alec havia dito que convidara as pessoas da escola, o que significava que mais da metade do corpo estudantil da mesma estaria presente; além de algumas pessoas fora da escola que a Isabelle gostava de ter por perto. E a sua fiel escuderia para aquela festa havia sido a Clary. Distrair-me com os diários dos meus antepassados fez com que eu esquecesse do fora sutil que ela havia me dado na noite do jogo. Esperava que aquilo não afetasse a relação que tínhamos com nossos amigos.
A minha missão aquele dia havia sido manter a Isabelle dentro de casa, ou o mais longe possível do Java Jones. E ao mesmo tempo, fingir ter esquecido do aniversário dela. Minha irmã estava cabisbaixa quando há algumas horas eu avisei a ela que o Hodge havia dado a ideia de irmos jantar em um restaurante caro da cidade. Disse a ela que ele tinha algo para nos contar quando a mesma perguntou o motivo.
Embora a minha irmã estivesse animada com o aniversário, ela não disse nada quando o Alec anunciou que tinha algo para resolver na rua mais cedo, e eu disse que precisava estudar para o teste de Cálculo que teria na semana; essa parte era verdade, porém, eu havia passado a tarde inteira jogando videogame. A Izzy passou o dia inteiro no quarto, e reclamando no Twitter.
Assim que entramos no carro mandei uma mensagem para o Alec avisando que estávamos saindo de casa, e como iríamos encontrá-lo de qualquer maneira, ela sequer ligou. Rezei internamente para que Alec visse a mensagem antes de chegarmos lá. Isabelle ainda estava cabisbaixa enquanto eu dirigia, mas se animou um pouco quando eu liguei o rápido; logo ela começou a cantar as músicas que tocavam no rádio. Quando eu parava em um sinal a acompanhava nas dancinhas, exatamente como fazíamos quando éramos mais novos, e faríamos até envelhecermos.
Eu gostava de momentos como aqueles. Fosse com a Isabelle, ou fosse com o Alec, ou fosse com os dois. Momentos que me lembravam a importância que ambos tinha em minha vida. Momentos que me lembravam de tudo o que eles representavam, e talvez mais. Dançando no carro com a Isabelle, ou jogando basquete com o Alec, ou quando nós três sentávamos juntos para vermos um filme e, geralmente terminava com uma guerra de pipoca ou com os três dormindo um sobre o outro. É claro que o Hodge nos mandava limpar tudo na manhã seguinte.
— Por que estamos parando no Java Jones? — Ela perguntou enquanto eu estacionava.
— Por dois motivos, aqui é muito mais fácil de estacionar; e eu combinei de pegar um jogo com o Simon aqui, então… Você pode esperar no carro ou vir comigo. — Eu sabia o quanto ela detestava esperar no carro; então não foi surpresa vê-la sair do carro e vir atrás de mim. Deixei que ela passasse a minha frente e abri um sorriso quando ela começou a me xingar quando alguns grãos de areia começaram a sujar sua bota.
Quando subimos os degraus do estabelecimento pude ver que a Isabelle franziu o cenho, afinal era sábado a noite e a lanchonete deveria estar lotada, mas aparentava estar vazia, mesmo com a tonelada de carros parada do lado de fora. Assim que atravessamos a porta uma multidão, simplesmente, surgiu e gritou um “SURPRESA”. Enquanto todos começavam a cantar a tradicional música de aniversário, a minha irmã me lançou um olhar acusatório e eu apenas dei de ombros. Por fim ela sorriu quando eu abri os braços oferecendo um abraço.
— É impossível esquecer de você, Isabelle Lightwood. — Murmurei enquanto a abraçava. — Parabéns, caçulinha. — Ela riu e me apertou com mais força. — Seu presente está em casa.
— O que é?
— Vai descobrir quando chegar em casa. — Ela revirou os olhos e foi falar com os demais convidados.
— Droga! — Olhei para a pessoa que acabara de atravessar a porta. — Não acredito que me atrasei. — Acabei rindo da expressão em seu rosto.
— Acabamos de chegar. — Ela finalmente se virou para mim. Aquela noite a Clary estava linda. Eu já havia visto sem um pingo de maquiagem recém saída do Mar, e sei que ela é linda de qualquer maneira, mas naquela noite em especial, ela tinha algo diferente. Ela usava uma uma camisa preta sem gola e mangas longas; uma saia preta e branca e botas pretas e longas, como as que a Isabelle usava. Seus fios ruivos estavam presos em um coque alto, e algumas mechas haviam ficado propositalmente soltas; ela não usava maquiagem forte, apenas um delineador nos olhos e um batom claro nos lábios. Mas não era a roupa ou a maquiagem que a estavam deixando diferente, mas sim algo nela, na própria Clary. Talvez um brilho diferente no olhar, eu não sabia explicar, mas sabia que ela estava diferente.
— Ah… Oi, Jace. — Ela me ofereceu um sorriso. — Sebastian esqueceu de passar em casa para me buscar. — Ela revirou os olhos. — Acha que ela vai perceber que eu me atrasei?
— Não se for até ela a tempo.
— Okay. — E com isso ela partiu em direção a minha irmã, que assim que a viu a abraçou.
…
— Magnus! — A Izzy se lançou no pescoço do homem que se aproximava de nós. Fazia algumas horas que estávamos todos sentados em uma mesa bebendo e conversando enquanto os demais dançavam. Simplesmente optamos por ficar ali. — Não achei esses dois patetas iriam esquecer de convidá-lo! — Impossível. Lancei um olhar sugestivo para o Alec, que estava do outro lado da mesa. Ele me chutou sobre a mesma, o que me fez gargalhar.
— É seu aniversário, querida, e estaria presente mesmo que eles não tivessem me convidado. — Ela sorriu ao se afastar dela. — Seu presente está na loja, passe lá e poderá pedir o que quiser.
— O que eu quiser? — Minha irmã o lançou um olhar malicioso.
— Desde que seja permitido para a sua idade. — Ela riu.
— Ah… Bom, Magnus, esses são os meus amigos, Clary, Simon, Sebastian e os meus irmãos você já conhece. Bom, gente, esse é Magnus Bane, a única coisa boa que o Hodge nos deu. — O que era quase uma verdade absoluta. Hodge sempre foi uma pessoa rígida conosco.
— Prazer em conhecê-los. — Ele disse a todos e olhou para mim. — Fico feliz que tenha voltado. — E então olhou para o Alec. Mesmo com a pouca luz, eu consegui ver que o meu irmão corou até o último fio de cabelo sob o olhar do Bane. — É sempre bom revê-lo, Alexander. — Magnus Bane e o seu poder de deixar, Alexander Lightwood, desconcertado em público. — Bom, eu vou procurar algo para beber.
— Tem Sexy on the Beach, Magnus. — Eu disse ao homem, e recebi outro chute sobre a mesa.
— É o meu favorito. — Ele piscou um dos olhos e nos lançou um olhar sugestivo, o que nos fez rir. — Com licença. — Antes de se virar eu percebi o olhar discreto que ele havia lançado para o Alec. 10… 9… 8… 7… 6… 5… 4… 3… 2… 1…
— Eu vou pegar outra bebida, alguém quer alguma coisa? — Dei um gole na minha própria bebida para evitar gargalhar na mesa. Discreto como uma placa neon.
— Eu vou com você. — Murmurei enquanto me levantava. Passei o meu braço por seus ombros antes de começarmos a andar. Assim que atingimos uma distância segura eu comecei a rir, e ele bufou ao meu lado. — Deixou a discrição em casa?
— Não me julgue. — Pediu cabisbaixo.
— Jamais. — Parei na fila para pedir outra coisa para beber. — Pode ir, eu te dou cobertura. — Ele me encarou por alguns segundos. — Vai logo! — Ele abriu um pequeno sorriso antes de passar por mim e sumir no meio da multidão. Quando voltei a olhar para a mesa, percebi que todos conversavam normalmente, mas havia um outro lugar vago, além do meu e do Alec. Onde estava a Clary?
Eu sabia para onde o Alec estava indo, e sabia que se alguém descobrisse as coisas ficariam muito complicadas para ele. E mesmo que fosse a Clary… Eu só queria uma noite tranquila com os meus irmãos, e uma noite que eles pudessem curtir seus respectivos amores secretos. E com sorte, eu não sairia no zero, porque já faz um tempo desde a última vez que…
Cabelos ruivos atravessando a porta me fizeram arregalar os olhos. Saí da fila e a segui para o lado de fora do estabelecimento. Avistei a mesma parada na frente de um carro prata, conversando com uma mulher de cabelos escuros. Tomado pela impulsividade eu desci as escadas em silêncio, tentando não chamar atenção. Uma parte de mim que lembrava os meus antigos vizinhos, queria saber sobre o que elas estavam conversando.
— Eu sei, mas… Não pode ficar aqui. — A ruiva disse e a mulher assentiu.
— Como eles estão? É o único dia do ano que eu os vejo. — A Clary soltou um suspiro cansado e baixou o olhar.
— Estão ótimos. Estão felizes. Eu prometo isso. Prometo que terá outra noite para vê-los, mas hoje não. Deixe-os desfrutar dessa noite, Maryse. — A mulher balançou a cabeça enquanto abria a porta do carro.
— Você deveria fazer o mesmo, Clarissa. — Ela abriu um sorriso sem mostrar os dentes enquanto entrava no carro. Segundos depois o carro começou a se afastar, e eu esqueci de me esconder antes que a Clary se virasse.
— Jace? — Engoli em seco. — O que está fazendo aqui?
— Ah… Nada. — Respondi nervosamente. — Eu…
— Oh, meu Deus! Você está me seguindo? — Perguntou enquanto cruzava os braços. — Você estava!
— Não! Eu só… — Pensei em uma resposta decente. — Okay, eu estava te seguindo! — Ela fico boquiaberta.
— Inacreditável! Por que está me seguindo?
— Eu… — Ela arqueou uma das sobrancelhas me esperando responder. — Queria ver você…? Nós ficamos mal resolvidos da última vez que nos vimos. Então… Achei que poderíamos nos acertar.
— Não temos nada para resolver.
— Claro… Até porque você já me deu um fora. — Ela arregalou os olhos.
— Eu não te dei um fora! — Foi a minha vez de cruzar os braços. Por alguma razão desconhecida eu queria brigar com ela. Queria vê-la ficar com as bochechas tão vermelhas quando seus cabelos. — E isso não era o principal assunto!
— Para mim é! — Ela bufou e saiu batendo os pés. — Espera! Por aí não! — Ela me ignorou e continuou a andar até a parte de trás do Java Jones. A Clary andava bastante rápido com aquele salto todo. — Clary!
— Não! Você não tem o direito de ficar me seguindo por aí… Isso é… — A puxei pelo braço e a colei contra a um carro e coloquei o meu dedo sobre os seus lábios. — O que… — Com o dedo que estava sobre os seus lábios eu apontei para o meu lado esquerdo, o direito dela. Alguns segundos depois a Clary desviou o olhar para onde eu apontava.
Há alguns metros de nós dois, um outro casal estava tendo o momento deles. E eu não deixaria ninguém arruinar aquele momento. Abri um pequeno sorriso ao vê-los, mesmo que parte de mim pedisse para que eu me afastasse, pois estava invadindo a privacidade do meu irmão.
Alec estava parado entre dois carros, e o Magnus estava com ele. Eles se abraçavam, de uma forma única, pois eles se entendiam naquele abraço. Alec tinha a cabeça apoiada no peito do Magnus e enlaçava a cintura dele, enquanto o Bane tinha o queixo apoiado no topo da cabeça do Alec, e ambos tinham os olhos fechados apenas desfrutando o momento. Percebi que a ruiva a minha frente arregalou os olhos quando o meu irmão levantou a cabeça e uniu os lábios dele com os do Magnus.
Quando o Alec me contou que era gay, ele ficou os três dias seguintes sem falar comigo. Por vários motivos, mas na época acreditei que três fossem os principais: um, ele confessou que ficou dos quinze aos dezessete anos alimentando um amor platônico por mim; dois, ele havia me dito que havia beijado o Magnus, e precisa de alguém para conversar, e não tinha certeza se queria contar à Isabelle ainda; três, ele teve medo que eu reagisse de uma forma ruim, uma forma totalmente homofóbica. Eu entendi e respeitei a reação dele, mas deixei claro desde o primeiro momento que o fato dele ser gay era apenas mais uma característica dele, e que para mim, continuava o mesmo, afinal, ele não tinha “virado” gay, ele era daquela forma, eu só não sabia, e o fato de saber não alterava nada.
E vê-lo com o Magnus me deixava feliz. Embora eles tivessem uma diferença maior do que a maioria de idade, e tivessem ponderado muitas vezes aquele namoro por causa daquilo, eles não conseguiam ficar muito tempo sem o outro. E o meu irmão ficava mais feliz e mais leve com o Bane, e se aquilo os fazia bem, e eles sabiam se respeitar, eu não via porquê não ter uma relação, ainda que escondida.
— OH M…
— Shiiiiii… — Ela se calou e continuou a observá-los. Algo nos seus olhos se transformou; como se ela finalmente tivesse entendido um problema que há muito a incomodava. — Eles precisam um pouco de privacidade. — Afastei-me dela e dei espaço para que a mesma passasse. — Vamos. — Ela passou por mim, voltando para o local que estávamos antes.
Nos primeiros três minutos ela se manteve em silêncio, observando as ondas do Mar que quebravam há alguns metros de nós. A saia que ela usava era justa ao corpo, e terminava no meio de suas coxas, e as suas botas alcançavam um pouco acima de seu joelho, o que deixava apenas um pedaço de pele da sua perna exposto. Se a Clary soubesse, como aquilo era ridiculamente tentador, eu tinha certeza que o seu rosto ficaria da cor de seus cabelos.
À luz da Lua sua pele pálida, brilhava de uma maneira única. A Clary parecia pertencer aquele cenário, e eu tenho certeza que ela concordaria comigo se visse toda a cena do meu ponto de vista. As mechas de seus cabelos que estavam soltas, balançavam de acordo com a brisa fraca que batia. E percebi que ela poderia estar com frio pois abraçou o próprio corpo antes de se virar em minha direção.
— Foi por isso que estava me seguindo. — Coloquei as minhas mãos em meus bolsos. — Estava com medo de que eu os visse. — Balancei a cabeça em afirmação. — Por quê?
— É complicado. — Sua expressão ficou confusa.
— Eu não estendo… Quero dizer, ele sai com todas aquelas meninas e…
— Toda vez que o Alec está com alguma menina, ele literalmente está com ela. Apenas por companhia, e passar a imagem de que ele já ficou com todas elas. Mas na verdade, eles passam a tarde inteira fazendo algo: cinema, praia, parque, estudos, qualquer coisa. Ele realmente já ficou com algumas delas, mas não passou dos beijos. Foi na época que ele colocou na cabeça que arrumaria uma namorada de fachada. — Balancei a cabeça em negação. — Como pode ver não deu nem um pouco certo.
— Mas por que ele…
— Hodge. Ele tem regras para os meus irmãos, eu não sei o motivo, mas ele tem. Não é como se eles seguissem. Você sabe disso. — Ela me encarou por alguns segundos, como se perguntasse a si mesma se eu sabia de algo. É claro que eu sabia.
— Você está falando de…?
— Isabelle e Simon. — Dei de ombros enquanto me encostava em um carro. — Eles esconderam bem por um tempo, mas… Um dia ele disse que ajudaria a Izzy com uma matéria, quando eu cheguei em casa as coisas estavam espalhadas na sala, e eles estavam estudando no quarto. — Dei de ombros. — Eles nunca falaram nada, e eu respeito a decisão. Mas agora as coisas andam diferente, eu não sei.
— Entendo. — Ela se aproximou, encostando-se ao meu lado. — Alec e Magnus?
— Faz alguns meses. Alec disse que estão esperando a formatura para que ele conte ao Hodge. Fortes emoções estão por vir.
— Você não tem ideia. — Olhei para a Clary. — Isso é estranho, sabe… Tudo isso. Eu nunca tive isso antes. Amigos, quero dizer. Cresci com o meu irmão e outros três amigos, mas eles pareciam mais família. Era diferente com eles… Achei que… Achei que isso não era para mim. — Ela me olhou e abriu um sorriso envergonhado. — Desculpa, é só que…
— Eu entendo. — Bati o meu ombro no dela. — Adolescência é difícil.
— Parece que estou presa nela há 500 anos. — Acabei rindo, e ela me acompanhou. — Tem muito coisa acontecendo, mas parece que eu não estou aproveitando da maneira que deveria, eu só… Fico presa aos meus problemas e esqueço que tenho uma vida para viver.
— O que quer dizer?
— Às vezes acho que deveria arriscar mais. Fingir que não tenho uma… — Ela parou no meio da fala. — Fingir que não tenho problemas. Esquecê-los. Agir sem pensar nas consequências. Eu só… Não sei como posso fazer isso.
— Eu tenho uma ideia. — A vi erguer uma sobrancelha. — Quer fazer algo imprudente? Está falando com a pessoa certa. — Sua risada fez algo dentro de mim se manifestar. — Você é muito certinha para fazer as coisas que eu tenho em mente. — Gargalhei ao ver seus olhos arregalados. — Vamos voltar para a festa, beber alguma coisa, dançar até nossos pés doerem, beijar algumas bocas, depois sentar na areia observando as ondas.
— Nós podemos pular a parte de beber, dançar, beijar, e só sentar na areia? — Balancei a minha cabeça em afirmação. Ela sorriu e começou a tirar as botas, e logo estava caminhando em direção à praia.
— Você vem, Herondale?
Naquele momento eu percebi uma coisa. Com a luz da Lua a iluminando, com o Mar convidativo atrás dela, e imaginando os seus cabelos úmidos fazendo o contorno em seu rosto sorridente, a Clary parecia demais com uma certa Sereia sobre a qual eu havia lido nos últimos dois dias.
— Claro, Fray. — Ela começou a caminhar pela areia. E mesmo quando eu me sentei ao seu lado, e comecei a observá-la, aquele pensamento não saia da minha cabeça.
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