Like I'm Gonna Lose You
17 Capítulo 15 - Werewolf
Notas iniciais
P.O.V Clary
— Bom dia, querida. — Minha mãe desejou quando eu me sentei na mesa para tomar café da manhã. Eu não respondi. — Clary… — Me levantei da mesa antes que ela pudesse terminar de falar. Peguei a minha mochila na sala e saí de casa.
Eu não queria falar com ela. Não queria falar com a Maryse. Não queria falar com o Sebastian. E muito menos queria ficar naquela casa. Eu ainda não conseguia acreditar que eles haviam levado o Jace até lá na noite passada! Aquilo quebrava tantas leis que não era possível contar nos dedos das mãos.
Mas o pior de tudo não era o fato de, depois de tudo o que aconteceu, a Maryse ter a cara de pau de me dizer que ela não havia descoberto nada. E eu sabia que era mentira! Podia sentir o gosto daquela mentira dançando em meus lábios toda vez que lembrava da conversa que tivemos quando ficamos sozinhas, depois que o meu irmão levou o Jace e a Isabelle para casa.
Isabelle. Ela não queria me ver nem coberta de ouro. Quando partiu noite passada eu vi a mágoa brilhar em seus olhos, pois ela sabia que havia acontecido algo ruim comigo, e aquilo envolvia o irmão dela, mas eu simplesmente não podia contar a ela; ainda não. E eu sabia que ela nunca me perdoaria por aquilo. Ela não precisou de palavras para deixar claro o aviso de fique longe.
Eu havia passado a noite inteira sentada na praia encarando o Mar, mas não tinha coragem de entrar nele. Não depois que havia sido atacada duas vezes, estando em minha forma verdadeira e em minha forma humana. Aquilo deveria ser impossível, pois aquele era o nosso lugar sagrado, não deveria haver magia capaz de nos ferir dentro d’água. Mas ainda assim, havia uma forte o suficiente para contradizer aquilo; uma magia que estava me enfraquecendo a cada dia que passava.
Eu podia sentir o meu poder adormecido dentro de mim, não conseguia mais sentir o chamado do Mar. Eu estava me tornando vazia, mais humana que Sereia, eu… Eu estava me tornando uma Esquecida. Eu podia sentir aquilo, e sabia que a minha família também; a única coisa que estava impedindo que aquilo acontecesse era a única coisa que eu não podia ter: o Jace.
O meu amor por ele me impedia de esquecer de mim mesma, mas, ao mesmo tempo, quanto mais eu me permitia amá-lo, mais forte a maldição ficava. E aos poucos, ela me tornaria uma Esquecida, e logo, eu não seria mais capaz de nadar com o meu Cardume, não reconheceria minha mãe ou o meu irmão, meus amigos; sequer lembraria que o Jace existia. Era esse o principal propósito da maldição, fazer a pessoa que eu amo me matar diversas vezes, até que eu deixasse de acreditar no amor, e a minha dor me consumisse. Até que eu meu juntasse as Esquecidas.
— Fray. — Ergui os meus olhos para a morena que se aproximava. A escola não ficava tão longe assim da minha casa.
— Izzy… — Tentei começar, mas ela não deixou.
— Eu não sei que merda aconteceu noite passada, mas não vou deixar que envolva o meu irmão nisso novamente, não enquanto não me contar o que está acontecendo! — Engoli em seco e baixei os meus olhos.
— Me desculpa, eu não posso. — Disse com a voz baixa. — Me desculpa, Isabelle.
— Foi o que eu pensei. — Ela balançou a cabeça em negação. — Apenas, esqueça de nós, okay? De todos nós. — Sem esperar uma resposta ela saiu pisando duro.
Baixei os meus olhos e respirei fundo tentando conter as lágrimas que tentavam escapar pelos meus olhos. Eu não estava planejando aquilo. Se eu pudesse teria evitado que tivessem levado o Jace até lá, se eu pudesse teria evitado aquilo tudo, mas… Eu não escolhi aquilo tudo, não sabia quem tinha feito, mas se não fosse o meu amor pelo Jace que me manteria sã, seria o meu ódio por quem havia feito aquilo comigo.
— Bom dia. — Olhei para a pessoa parada ao meu lado. — Você não me esperou hoje.
— Não quero falar com você, Sebastian. — Dei-lhe as costas. Ele começou a andar ao meu lado. — É sério, Sebastian.
— Eu não vou pedir desculpas por levar o Herondale até lá ontem. — Parei no meio do corredor e o encarei. — Diferente de você, eu vou colocá-la em primeiro lugar nisso, Clary. Isso significa que se chegar ao ponto de precisar escolher entre um dos dois, você sabe qual será a minha escolha. — Ele tinha uma expressão séria no rosto. — Eu vou fazer de tudo para manter ambos vivos, Clary. Mas não me peça para desistir de você. — Ele me estendeu uma garrafinha azul. — O que foi? — Perguntou ao me ver encarar a oferta por alguns instantes.
— Eu odeio brigar com você. — Ele sorriu, e eu peguei a garrafa. — Isso não significa que está perdoado. — Abri a garrafa e bebi um gole generoso do líquido que estava dentro, me arrependendo amargamente no mesmo segundo. — Que merda é essa? — Perguntei depois de engolir forçadamente aquilo. Tinha gosto de peixe podre.
— Isso é parte do protocolo “Impedir que a Clary vire uma Esquecida”. — Fiz uma careta. — Eu não sei o que é, foi a Maryse quem fez, mas eu vi alga na cozinha mais cedo.
— Isso é horrível. — Ele sorriu e passou o braço pelos meus ombros.
— Espere até ver o jantar.
(…)
O sinal que marcava o fim da aula tocou, e automaticamente todos começaram a juntar seus respectivos materiais e sair da sala. Não estava com pressa, e não me preocupei em ser rápida, e por isso, acabei sendo a última dentro da sala, quero dizer, a última aluna.
— Senhorita Fray. — Olhei para o meu professor de história. — Será que podemos conversar? — Balancei a minha cabeça em afirmação enquanto passava a alça da minha mochila sobre os ombros.
— Aconteceu alguma coisa, professor Garroway? — Perguntei quando me aproximei da mesa dele, o homem a minha frente balançou a cabeça em negação.
— Me diz você. — Franzi o meu cenho para ele. — Está estranha; cabisbaixa, quieta… Aconteceu algo em que eu possa ajudar? — Encarei os seus olhos, algo em suas íris brilhantes me dizia que eu podia confiar nele, mesmo que eu não soubesse o motivo.
— Coisas pessoais. — Murmurei. — Desculpa se isso atrapalhou a aula.
— Não, de maneira alguma. Mas fiquei preocupado com você.
— Obrigada, mas está tudo bem. — Tentei abrir um sorriso para ele.
— Se você diz. — Ele deu de ombros. Entendi aquilo como uma deixa para que eu pudesse ir embora, mas assim que eu estava atravessando a porta, ele me chamou. — Não tenha medo. A Lua sabe o que faz. — Franzi o cenho, mas a expressão que tomou o rosto dele estava mais confusa do que a minha. — O que aconteceu com você?
— Eu estou bem. — Garanti. — Eu preciso ir, professor.
Quando saí da escola decidi que iria a pé, e pegaria o caminho que me levaria a passar pela praia. Coloquei os meus fones e comecei a minha caminhada ao som das minhas músicas favoritas, mas quando a segunda começou a tocar eu percebi que todas elas eram músicas que a Isabelle havia me apresentado, e que todas elas me lembravam da minha amiga, ex amiga, eu não sabia dizer. Por fim, decidi colocar em uma playlist de rock que o meu querido irmão havia feito há semanas atrás.
Passei na frente do Java Jones e percebi que o carro da Isabelle estava parado ali, assim como o do restante. Tentei não deixar que aquilo me afetasse. Continuei a seguir o meu caminho em paz. Pelo menos durou por alguns minutos a mais, até que estivesse consideravelmente mais afastada do Java Jones; e consequentemente no meio do caminho até a minha casa.
— Hey! — Reclamei sentir alguém passar por mim e puxar os meus fones. Olhei para a figura que parou na minha frente e me controlei para não fazer uma careta. — Oi, Lydia. — Ela sorriu.
— Sozinha, Clarissa? — A forma que ela pronunciou o meu nome foi esquisita, mas não me importei com aquilo.
— É. — Respondi. Seus olhos azuis tinham um brilho estranho, quase selvagem.
— É perigoso andar sozinha por aqui, principalmente para uma pessoa tão distraída quanto você.
— Vou levar isso em consideração. — Ser assaltada era a menor das minhas preocupações. E eu não achava que a Lydia estava realmente preocupada comigo quanto aquilo. — Tem algo em que eu possa ajudá-la?
— Me diz você. — Levei pouco mais de alguns segundos para entender o que ela queria dizer, mas por fim, deixei um suspiro cansado escapar pelos meus lábios.
— Isso é sobre o Jace? — Perguntei enquanto colocava os meus fones no bolso da calça, sem me importar em pausa a música. — Nós não temos nada, okay? O caminho continua livre para você, então, não precisa perder o seu tempo comigo. — Tentei passar por ela, mas sua mão me impediu. A Lydia usou mais força que o necessário para me impedir, e sua longas unhas me arranharam um pouco. Espera! Ela tinha aquelas unhas antes? — Lydia…
— Sereia, estúpida. — Murmurou e me empurrou contra a parede. — Eu vou cuidar daquele humano… Mas eu gosto de iniciar a minha refeição com peixes. — Engoli em seco ao ver as presas que cresceram em sua boca; seus olhos azuis mudaram um tom totalmente prata, e suas unhas tornaram-se garras.
— Metamorfo. — Murmurei, e vi a criatura sorrir. Metamorfos eram criatura que não tinham um forma, não tinha um corpo, mas podiam tomar a forma do que ou de quem quisessem e bem entendessem. E o pior, você não sabia o que eles eram até que eles se mostrassem para você. Havia seres em terra que cuidavam deles, mas isso não fazia deles seres menos letais. Clarissa, sai daí! Você não está em condições de brigar. — Mandarei suas escamas a sua mãe. — Urrei com o golpe que recebi, e o mesmo me fez voar alguns metros e cair com tudo no chão. Deixei um gemido escapar pelos meus lábios antes de começar a me levantar. O Mar estava longe demais, e não havia ninguém naquela estrada, além de eu simplesmente não ter para onde correr. — Eu esperava mais de você.
— Quem enviou você? — Ela sorriu.
— Você vai morrer logo, então não se preocupe com isso. — Ela puxou o meu cabelo com força pela raiz e olhou em meus olhos. — Mas saiba que o seu querido Jonathan está com a morte encomendada faz tempo. E você vai desejar que seja eu a matá-lo. — Eu não tinha forças para convocar a minha espada, mas ainda me sobrava forças para tentar lutar com ela. Fiz as minhas garras crescerem e as passei em seu abdômen, rasgando tecido e pele, ela me soltou e se afastou alguns passos.
Rosnei para ela deixando a ver as minhas presas. O sangue pingava de seu ferimento, mas não parecia incomodá-la. A forma mais rápida de matar um metamorfo era esquartejando-o; uma Sereia com força normal lidaria com ele de forma rápida, e eles raramente nos atacavam; porém, eu não estava com a minha força normal, e tinha segundos antes de começar a levar uma surra.
Aproveitei aquela força que me restava e a ataquei, a criatura defendeu-se dos primeiros golpes, mas assim que as minhas garras voltaram a arranhá-la eu consegui uma vantagem… Que durou cinco segundos. O soco que eu levei foi o suficiente para fazer que eu sentisse o gosto de sangue na minha boca; em seguida ela segurou os meus ombros e acertou o joelho no meu estômago, o suficiente para fazer a bile subir pela minha garganta. Ela girou e me acertou um chute que fez com que eu voltasse ao chão.
— Se eu soubesse que seria tão fácil, teria atacado pela manhã. — Tentei me apoiar nos meus cotovelos, mas recebi um chute no maxilar que me fez voltar ao chão e cuspir sangue no chão. A criatura tirou uma adaga de algum lugar escondido em suas vestes e começou a se aproximar de mim, mas assim que ela atravessou a rua uma caminhonete surgiu do nada e passou por cima dela, em seguida deu ré e passou uma segunda vez.
— Clary, entre no carro. — Encarei o homem que estava atrás do volante. — Agora, Clarissa. — Com dificuldade eu me levantei e peguei a minha mochila antes de me sentar ao seu lado. — Está ferida gravemente? — Balancei a cabeça em negação enquanto o encarava. — Você…
— Quer me contar o que diabos está acontecendo?! — Ele sorriu enquanto pegava o celular e iniciava uma chamada. — Professor Garroway, você acabou de atropelar a Lydia. — Ele gargalhou. — Alaric, temos um metamorfo do lado de fora do Java Jones, está inconsciente no momento, mas não vai durar muito. — Observei enquanto ele falava com a pessoa do outro lado da linha. — Envie o alguém para limpar a bagunça, e peça para Maia manter as pessoas dentro do estabelecimento. — Maia… Maia a garota que estudava comigo? — Eu explico mais tarde. — Ele encerrou a ligação e voltou a prestar atenção na estrada. — Odeio esses metamorfos, sempre fazem bagunça.
— Espera! Eu quero saber para onde está me levando e o que diabos está acontecendo! E eu quero saber agora! — Exigi!
— Estou te levando para casa. — Ele me olhou. Seus olhos não tinham mais o tom de antes, na verdade tinham um brilho verde sobrenatural; aquilo foi o suficiente para me fazer relaxar no banco e apoiar a minha cabeça contra o mesmo.
— Você é um lobisomem. — Concluí.
— Jocelyn pediu para que eu ficasse de olho em você. — O encarei. — Faz alguns anos que nos conhecemos.
— Por favor, eu tenho 700 anos, precisa ser um pouco mais específico.
— Três séculos. — Suspirei no banco enquanto encarava a estrada. — Desculpe por tê-la seguida; mas fiquei preocupado.
— Se não tivesse me seguido é bem provável que eu estivesse virando comida de metamorfo no momento, então… Obrigada. — Abracei a minha mochila tentado ignorar a dor que começava a se instalar em meu rosto.
— Enquanto houver um lobo da alteia da Califórnia, os filhos de Jocelyn estarão protegidos. — O encarei. Claro que ele era o alfa. — Estamos chegando.
Assim que estacionamos na frente da minha casa a minha mãe abriu a porta e saiu correndo em minha direção ao me ver. Meu estado deveria estar pior do que eu imaginava. Ela me abraçou assim que eu saltei do carro, e eu não consegui conter um gemido de dor, no mesmo instante ela me soltou.
— Você está bem?
— Vou viver. — Respondi. — Obrigada, novamente professor Garroway. — Olhei para o homem que havia dado a volta na caminhonete.
— Apenas Luke. — Assenti e comecei a entrar em casa. Eu precisava de um banho, e da minha cama, e em seguida dormir pelo resto da minha eternidade.
— Obrigada, Luke. — Minha mãe sussurrou quando eu atravessei a porta. Não fiquei para ouvir o que eles falaram, e não tinha poderes o suficiente para ouvir a distância. E sinceramente, não queria saber, não naquele momento.
(...)
Quando o jantar chegou, eu descobri o motivo de Sebastian ter dito o que disse mais cedo. Maryse havia preparado o pior jantar de todos. Eu preferia beber mil litros daquela coisa horrível que ela também havia feito no café da manhã do que comer aquilo. Mas, segundo a mesma, aquilo me faria bem, e eu não tinha direito algum de contestar.
Meu estômago embrulhou apenas de sentir o cheiro. E quando eu provei, quis cuspir. E enquanto eu comia aquela gororoba com algas e ostras, o resto da família comia uma refeição normal preparada pela minha mãe. Eu quis matá-los. Mas, pelo menos, não coloquei tudo para fora. O golpe que havia recebido aquela tarde, me fez pensar que eu nunca mais comeria algo sem precisar vomitar minutos depois novamente.
— A partir de amanhã, você está proibida de andar sozinha. — Olhei para a Maryse, desde quando aquela mulher ficou tão protetora comigo? — Sebastian vai cuidar de você na escola, e quando ele não puder estar com você fique com o Garroway; o mesmo vale para passeios.
— Isso é uma ditadura agora? — Perguntei enquanto me sentava no sofá da sala. — Eu posso me cuidar sozinha. E se eu for morrer, vou fazê-lo sozinha ou acompanhada.
— Clary… Só vamos tentar evitar, okay? — Não queria brigar, não tinha cabeça para brigar, não tinha estômago para brigar, então, acabei assentindo. — Sebastian, tudo bem para você?
— Com uma condição. — O encarei. — Você vai começar a treinar comigo amanhã. Vai aprender a se defender melhor como humana, vai aprender melhor o seu dom, se for morrer, vai morrer lutando, okay?
— Mas… — Respirei fundo. Eu havia levado uma bela surra, e tinha um rosto machucado e um abdômen arroxeado para provar. — Okay. Depois da escola.
— Por mim, tudo bem. — Ele disse dando de ombros enquanto s levantava. — Só tente não morrer ou ser atacada, ou levar uma surra durante a noite.
— Babaca. — Revirei os meus olhos.
— O que aconteceu com a Clary? — Me levantei ignorando a dor.
— Não preciso mais dela. — Respondi enquanto passava por ele e entrava no meu quaro.
Eu havia passado muito tempo como aquela garota humana. Havia criado um perfeito disfarce adolescente, quieta o suficiente para que ninguém se importasse, mas ainda assim não totalmente ignorável. Doce, gentil, tímida e tentando sempre agradar as pessoas mesmo que aquilo não me agradasse. Havia me tornado aquela personagem e esquecido de mim mesma. Mas para enfrentar aquilo tudo, eu não podia ser uma humana.
Eu precisava ser uma Sereia.
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