Light at the End of the World
4 Capítulo 4 – O andar de baixo
Notas iniciais
O elevador despencou pelo poço subterrâneo, engolido pela escuridão entre faixas estreitas de luz. O metal vibrou ao redor do grupo com um estrondo contínuo, e as caixas empilhadas nas estantes sacudiram como se fossem se soltar a qualquer instante.
Os gritos se atropelaram dentro da cabine.
As caixas sacudiram nas estantes. As embalagens soltas deslizaram pelo chão enquanto Steve, Robin, Dustin e Erica tentaram se apoiar onde conseguiram.
Wolf permaneceu agachada no canto desde o primeiro solavanco. Encolheu os joelhos contra o corpo e apertou a cabeça com as duas mãos, os dedos enterrados nos cabelos enquanto a cabine continuava caindo.
Ela fechou os olhos e tentou se agarrar a uma única ideia? Aquilo precisava ser um pesadelo. Só precisava acordar antes de descobrir onde aquilo terminava.
— Merda! Merda! — Steve gritou.
Erica berrou ao mesmo tempo, quase encoberta pelo rangido ensurdecedor do elevador.
— Estamos descendo! Estamos descendo! — Steve vociferou, agarrado a uma pilha de caixas.
— É, não me diga, Harrington! — Robin respondeu, com os braços abertos contra as estantes para não ser derrubada.
Dustin se comprimiu diante do painel e golpeou os botões repetidamente.
— Por que esses botões não funcionam?!
— Aperta o botão! — Erica gritou ao lado dele.
— O que você acha que eu estou fazendo?!
— Anda, aperta alguma coisa! Aperta o botão! — Steve berrou.
Dustin soltou um grito frustrado e golpeou o painel de novo.
— Aperta! — Erica insistiu.
O elevador parou.
A desaceleração brutal arrancou todos de suas posições. Caixas escorregaram das estantes, bateram umas contra as outras e despencaram sobre o piso. Robin perdeu o apoio e caiu junto às estantes enquanto várias caixas despencaram ao redor dela. Dustin e Erica foram jogados para o lado. Steve bateu contra a parede e desapareceu atrás de parte da carga, enquanto uma caixa tombou sobre suas pernas.
Wolf bateu contra a parede, mas continuou agachada no canto, com as mãos ao redor da cabeça e o corpo rígido.
O estrondo deu lugar a gemidos, respirações ofegantes e o ruído das últimas caixas se acomodando.
— Minha virilha — Steve gemeu entre as caixas. — Caiu na minha virilha.
Dustin se levantou com dificuldade e começou a retirar uma caixa que havia prendido Steve contra a parede.
— Dustin! — Steve chamou, tentando empurrar a caixa sem conseguir movê-la. — Tira isso de cima de mim!
Dustin puxou a embalagem para o lado.
— Eu não consigo me mexer.
Robin apoiou uma das mãos na estante e se levantou, ainda recuperando o fôlego.
— Todo mundo bem? — Robin perguntou.
— Estou ótimo — Steve respondeu, ofegante. — Agora que sei que os russos não sabem fazer elevadores!
Dustin continuou a libertá-lo. Erica já estava de pé perto do painel, ajeitando a mochila e o capacete torto.
Wolf não respondeu.
Robin percorreu a cabine com o olhar. Conseguiu ver os outros três, mas não encontrou nenhum movimento no canto parcialmente escondido pelas caixas caídas.
Ela se afastou da estante e contornou os obstáculos.
Wolf permaneceu agachada, exatamente na mesma posição em que enfrentou a queda, tão imóvel que parecia não ter percebido que a queda terminara.
Robin se aproximou devagar entre as caixas espalhadas. Agachou-se diante dela e pousou uma mão em seu ombro.
Wolf estremeceu como se o contato tivesse rompido alguma coisa. Ergueu o rosto de repente, ainda com as mãos ao redor da cabeça. Os olhos cinza estavam arregalados, fixos em Robin, mas demoraram alguns segundos para realmente reconhecê-la. O ar entrava e saía em respirações curtas, quase silenciosas.
Robin manteve a mão em seu ombro.
— Vamos.
Wolf soltou lentamente os cabelos. Aceitou a mão oferecida e se levantou com as pernas instáveis, apoiando-se por um instante no braço de Robin antes de encostar as costas na parede.
Steve atravessou a cabine mancando e voltou ao painel. Abriu a pequena tampa metálica e começou a apertar os botões outra vez.
Robin se afastou de Wolf, embora ainda lançasse um olhar rápido na direção dela antes de se voltar para Steve.
— Acho que já deixamos bem claro que esses botões não funcionam.
— São botões — Steve retrucou, pressionando mais um. — Eles têm que fazer alguma coisa.
— Fariam, se tivéssemos um cartão.
Steve olhou para ela.
— Um quê?
Robin indicou o leitor com a luz vermelha ao lado das portas.
— É uma trava eletrônica. Igual à porta do cais de carga. Sem um cartão, o elevador não funciona, o que significa...
— Que estamos presos aqui — Dustin concluiu.
Steve deixou a mão cair ao lado do corpo.
— É — Robin concordou
Erica apoiou uma das mãos na cintura.
— Só para vocês nerds saberem, eu deveria estar passando a noite na casa da Tina, e a Tina sempre me acoberta. Mas, se eu não estiver em casa para a festa do tio Jack amanhã e minha mãe descobrir que vocês quatro são responsáveis, ela vai caçar cada um de vocês e cortar suas gargantas.
Wolf se afastou da parede de uma vez e a voz dela explodiu dentro da cabine
— Cala a porra da boca! — gritou.
A violência da voz reverberou pelas paredes metálicas. Erica virou o rosto para ela, surpresa.
Wolf avançou apenas meio passo, mas toda a contenção que recuperara ao se levantar pareceu se partir de novo.
— Você ainda não compreendeu a gravidade dessa porra de situação?
Steve bateu as mãos contra a caixa à sua frente.
— Eu não ligo para a Tina! — Steve explodiu antes que Erica respondesse. — Nem para a festa do tio Jack! Sua mãe não vai conseguir encontrar a gente se estivermos mortos num elevador russo!
O silêncio que veio depois foi cortado apenas pela respiração pesada dos cinco.
Wolf recuou até a parede e cruzou os braços com força, apertando o próprio corpo, os dedos prendendo o couro da jaqueta junto aos cotovelos. Robin fez quase o mesmo ao lado do painel, abraçando-se enquanto tentava controlar a respiração.
Dustin ergueu a cabeça.
— Ei.
Todos olharam para ele.
Dustin apontou para a escotilha quadrada no teto da cabine.
— E se a gente saísse por cima?
Wolf acompanhou a direção do dedo e encarou a tampa por um instante.
— A gente caiu, no mínimo, o equivalente a uns trinta andares — disse, com um deboche seco que não chegou a esconder o medo. — Mesmo que desse para subir por uma corda, ninguém teria fôlego para fazer o caminho todo.
Dustin continuou olhando para a escotilha.
Mesmo assim, arrastou uma caixa para baixo dela.
Steve entendeu o que ele pretendia e se aproximou. Nenhum dos dois contestou Wolf. A queda durara tempo demais para que qualquer um acreditasse que a superfície estava próxima, mas permanecer dentro da cabine sem verificar a única abertura disponível seria aceitar a derrota antes de tentar.
Dustin subiu sobre a caixa, alcançou a trava e empurrou a escotilha. A tampa cedeu com um rangido. Ele passou os braços pela abertura e se içou para fora, soltando pequenos grunhidos de esforço que logo ganharam eco.
Steve subiu atrás dele.
Do teto da cabine, Dustin se levantou com cuidado sobre a estrutura metálica do elevador. Steve emergiu logo depois e apoiou uma das mãos na borda da escotilha antes de ficar de pé.
Os dois ergueram os olhos.
O poço se estendia acima deles como uma garganta de concreto e aço. Trilhos, vigas e cabos atravessavam a estrutura de concreto em níveis sucessivos, desaparecendo na escuridão. As paredes subiam até que as linhas metálicas se comprimiam umas contra as outras e um retângulo distante de luz azul parecia pouco maior que uma fresta. O caminho até a superfície não tinha fim visível.
Dustin permaneceu imóvel, o pescoço inclinado para trás.
Steve acompanhou a altura do poço, inclinando a cabeça cada vez mais para trás.
— O que você estava dizendo sobre subir?
A voz dele subiu pelo poço e voltou em ecos cada vez mais fracos.
A voz de Dustin ecoou pelas paredes intermináveis do poço.
— Código vermelho, repito, código vermelho. Alguém na escuta?
Ele caminhou pelo teto do elevador com o rádio junto à boca, observando a escuridão acima enquanto a antena balançava a cada passo. As lâmpadas brancas instaladas ao longo das paredes se repetiam até desaparecerem na distância, iluminando os cabos, as vigas e as superfícies de concreto sem revelar qualquer sinal da entrada do Starcourt.
— Isto é um código vermelho, repito, um código vermelho. Alguém na escuta? Somos crianças inocentes e estamos presos embaixo do Starcourt. O Exército Vermelho infiltrou Hawkins e, se nos encontrarem, vão nos torturar e matar.
Steve surgiu pela abertura entre as estruturas metálicas do teto, apoiando-se numa das vigas enquanto subia.
— Ei. Vai com calma com isso. Você vai acabar com a bateria.
Dustin baixou o rádio por um instante.
— O shopping já abriu.
— E daí?
— Alguém pode estar ao alcance.
Steve apontou vagamente para o poço acima deles.
— O quê? Você acha que o segurança do shopping vai descer de rapel até aqui e salvar o dia?
Dustin sustentou o olhar dele por alguns segundos.
— Por que você está tão rabugento depois de passar a noite com... — abaixou a voz, inclinando-se na direção de Steve — duas garotas?
— Shh! Jesus Cristo.
Steve levantou uma das mãos gesticulando para acompanhar o som de silêncio.
— Você pode desistir logo dessa sua fantasia esquisita?
— Eu ouvi vocês conversando a noite toda.
Steve andou pelo teto do elevador, desviando das vigas metálicas.
— Porque estávamos tentando descobrir um jeito de abrir a porta enquanto vocês, crianças, dormiam. Depois de oito horas, nós ainda não chegamos a lugar nenhum, o que provavelmente explica por que eu estou só um pouquinho...
Ele se afastou até um canto do teto e começou a abrir o zíper do uniforme.
— ...rabugento.
Dustin franziu a testa.
— O que você está fazendo?
Steve virou o rosto para ele.
— O que parece que eu estou fazendo? Eu vou mijar. Olha para o outro lado.
Dustin se virava lentamente, ainda segurando o rádio.
— Olha para o outro lado! — repetiu Steve, mais alto, fazendo sua voz ecoar pelo poço.
Dentro da cabine, Robin continuou diante do painel aberto, examinando os fios e componentes expostos com a mesma expressão cansada de quem já havia tentado todas as combinações possíveis. Alguns passos atrás dela, Wolf permaneceu sentada contra a parede, os braços cruzados sobre o corpo e a cabeça apoiada no metal. As olheiras aprofundaram o olhar cinza, e a longa trança repousava de qualquer maneira sobre seu ombro.
Um filete de líquido começou a escorrer pela parede ao lado do painel.
Robin acompanhou o caminho com os olhos e ergueu o rosto para o teto.
— Você pode redirecionar o jato, por favor?
Wolf soltou um resmungo baixo e revirou os olhos, sem se dar ao trabalho de mudar de posição. Depois de uma noite inteira tentando abrir a porta, discutir alternativas e escutar Steve e Robin discordarem sobre cada fio do painel, urina escorrendo pela parede pareceu apenas mais um item numa lista de humilhações que já havia ultrapassado qualquer limite razoável.
Um ruído metálico repetido chamou sua atenção.
Erica estava perto dos grandes tambores, segurando um dos cilindros retirados da maleta e batendo a extremidade dele contra a borda de metal. O líquido verde brilhava dentro do recipiente transparente enquanto ela batia a extremidade metálica contra a borda de um tambor.
Wolf virou o rosto na direção dela, os olhos se estreitando, mas Robin reagiu primeiro.
— Ei, ei! Cuidado, cuidado, cuidado!
Ela atravessou a cabine e tirou o cilindro das mãos de Erica.
— A gente nem sabe o que é isso.
— Exatamente — Erica respondeu. — Pode ser útil.
Robin observou o conteúdo luminoso com desconfiança.
— Útil como?
— A gente consegue sobreviver aqui embaixo por muito tempo sem comida, mas, se o corpo humano não receber água, ele morre.
— Odeio ter que te contar isso, mas isto não é água.
Wolf falou do canto sem descruzar os braços:
— Tecnicamente, o ser humano consegue viver, no mínimo, dois dias sem água.
Erica sequer olhou para ela.
— Não, mas é um líquido. E, se eu tiver que escolher entre beber essa porcaria ou morrer de sede, eu bebo.
Wolf ergueu a cabeça da parede, encarando-a com o mau humor acumulado por toda a noite.
— Uh, não. Se isso for uma arma química, você vai acabar levando todo mundo junto quando abrir essa merda.
Um ruído baixo e contínuo, distante, atravessou a cabine.
Robin foi a única a perceber Virou-se lentamente para a parede, ainda segurando o cilindro.
Erica recuperou o recipiente das mãos de Robin, que se aproximou do metal e pressionou a palma da mão contra a superfície. Em seguida, encostou o ouvido na parede, concentrando-se no ruído que aumentava gradualmente.
Robin desviou o olhar para a escotilha.
Subiu sobre uma das caixas e passou a cabeça pela abertura.
— Temos companhia.
Dustin e Steve se entreolharam com a notícia.
Poucos instantes depois, os cinco estavam escondidos sobre a cabine. Robin e Erica permaneceram juntas de um lado, enquanto Steve e Dustin ficaram contra a estrutura oposta. Wolf se sentou diretamente sobre a escotilha fechada, mantendo o peso do corpo sobre a tampa e as mãos apoiadas nas vigas ao redor.
O veículo surgiu no corredor abaixo, produzindo o zumbido que Robin havia escutado. Dois homens com uniformes azuis ocupavam o pequeno carro de carga vermelho, que parou diante da porta do elevador. Um deles desceu, aproximou um cartão do leitor eletrônico e esperou a luz mudar de vermelho para verde.
As portas se abriram.
Os homens entraram na cabine sem perceber as figuras escondidas acima deles. Steve se inclinou cuidadosamente sobre uma das grades para observar enquanto começavam a retirar as caixas e transportá-las até o veículo.
Um dos russos parou de repente e inspirou o ar.
— Está sentindo esse cheiro? — perguntou em russo.
O outro, com uma caixa nos braços, olhou para ele.
— O quê?
O primeiro cheirou novamente antes de reconhecer:
— Mijo.
Wolf virou os olhos lentamente para Steve.
O olhar que lançou contra ele foi duro o bastante para atravessar a estrutura metálica entre os dois. Steve percebeu a reprovação, mas apenas franziu a testa, sem compreender por queestava recebendo aquela expressão naquele momento.
Os trabalhadores continuaram retirando a carga, ainda incomodados com o cheiro, mas sem procurar sua origem. Depois de acomodarem as últimas caixas no veículo, saíram da cabine, passaram novamente o cartão pelo leitor e partiram pelo corredor subterrâneo.
O som do motor se afastou.
Steve esperou mais alguns segundos e quando não ouviu mais nada, afastou-se da grade.
O mecanismo das portas começou a funcionar.
Todos se moveram ao mesmo tempo.
Wolf saiu de cima da escotilha e abriu a passagem. Steve arrancou o cilindro das mãos de Erica e desceu primeiro, correu até a abertura e o colocou de pé entre as duas placas metálicas.
A porta pressionou o recipiente e parou por um instante, deixando apenas uma fresta de passagem.
O metal rangeu ao redor do vidro.
— Vamos! — Steve ordenou.
Erica se jogou no chão e atravessou primeiro pelo espaço estreito.
— Vai, vai, vai, vai!
— Eu estou indo! — ela protestou enquanto se arrastava para o outro lado.
Dustin veio logo atrás.
— Henderson, anda!
Robin ajoelhou-se e passou depois dele. Assim que alcançou o corredor, virou-se para acompanhar os outros.
Wolf se abaixou em seguida. Deitou-se no chão e deslizou pelo vão enquanto o cilindro começou a se deformar sob o peso da porta. O vidro estalou acima dela.
Ela atravessou, rolou para o lado e se levantou rapidamente.
Steve permaneceu sozinho na cabine.
As primeiras rachaduras apareceram no cilindro, espalhando-se pelo vidro em linhas finas e brilhantes.
— Steve, vamos! — Robin gritou.
Ele se jogou no chão e tentou passar. A porta cedeu mais alguns centímetros, comprimindo o recipiente até que o líquido verde começou a escapar pelas fissuras.
Steve empurrou o corpo para a frente e conseguiu atravessar no último instante. Robin segurou um de seus braços e o puxou para longe enquanto a porta se fechava completamente atrás dele.
O cilindro se partiu.
O líquido verde se espalhou pelo chão com um chiado violento. Uma fumaça espessa se levantou da superfície, e o metal começou a se dissolver diante deles, abrindo uma cavidade irregular sob a porta.
Steve, Robin, Dustin e Erica se aproximaram para observar.
Wolf permaneceu alguns passos atrás, mais próxima da entrada do corredor e longe da fumaça.
— Jesus Cristo — Steve murmurou.
Robin olhou para Erica.
— Ainda quer beber isso?
Erica encarou o buraco fumegante e não respondeu.
Wolf inclinou levemente a cabeça.
— Isso ainda pode ser tóxico. Vocês não deveriam se aproximar. Nem respirar perto dessa merda.
Dustin se endireitou, afastando-se da fumaça, e então percebeu o que existia além do elevador.
— Santa mãe de Deus.
Os outros seguiram seu olhar.
Um corredor subterrâneo se estendia diante deles até desaparecer no horizonte. Fileiras de tubulações corriam pelas duas paredes, iluminadas por uma sequência interminável de luzes azuladas que se refletiam no piso polido. A estrutura parecia grande demais para existir debaixo de Hawkins, muito menos sob um shopping inaugurado havia poucas semanas.
Por alguns segundos, ninguém se moveu.
Steve respirou fundo e deu o primeiro passo.
— Bom... espero que vocês estejam em boa forma.
Ele passou por Dustin e tocou o peito do garoto com a palma da mão.
— Estou falando de você, rosbife.
Steve começou a seguir pelo corredor.
Wolf, que já estava afastada do líquido e mais próxima da passagem, acompanhou-o logo atrás, observando as tubulações e os pontos escuros entre as colunas.
Robin colocou uma mão no braço de Dustin e outra no de Erica, encaminhando os dois para a frente.
— Vamos. Andem.
Erica pegou a mochila e o capacete. Dustin lançou um olhar para Robin antes de seguir.
— Por que eu?
O corredor se prolongou diante deles sob uma sucessão interminável de lâmpadas azuladas. Tubulações grossas percorreram a parede esquerda, enquanto fileiras de canos mais estreitos ocuparam o lado oposto, todos presos a estruturas metálicas que se repetiram até desaparecerem na distância. O piso escuro refletiu as luzes do teto e os passos do grupo ecoaram pelo espaço vazio.
Dustin caminhou na extremidade esquerda, Robin seguiu ao lado dele, Erica ocupou o espaço seguinte e Steve permaneceu à direita. Os quatro avançaram praticamente alinhados, ocupando a largura disponível do corredor.
Wolf veio atrás deles, separada por poucos passos. Manteve as mãos enfiadas nos bolsos da jaqueta e acompanhou a conversa sem se aproximar o bastante para integrar a formação. Seu olhar percorreu as tubulações antes de se voltar para Dustin quando ele ergueu a cabeça, admirando a estrutura.
— Quer dizer, vocês têm que admitir que, só como obra de engenharia, isso aqui é impressionante.
— Do que você está falando? — Steve rebateu. — Isso é um perigo de incêndio. Não tem escada, não tem saída. Só tem um elevador que joga você até a metade do caminho para o inferno.
— Eles são comunistas — Erica disse. — Você não paga as pessoas, elas fazem tudo de qualquer jeito.
Robin lançou outro olhar para as fileiras de tubos.
— Para ser justa com os nossos camaradas russos, não acho que este túnel tenha sido feito para pessoas caminharem. Pensem bem. Eles desenvolveram o sistema perfeito para transportar aquela carga.
— Tudo entra no shopping como uma entrega qualquer — Dustin continuou.
— Depois colocam nos veículos e levam por aqui sem que ninguém desconfie de nada — Robin completou.
Steve franziu a testa.
— Você acha que eles construíram esse shopping inteiro só para transportar aquele veneno verde?
— Duvido seriamente que seja alguma coisa tão sem graça quanto veneno — Dustin respondeu. — Deve ser muito mais valioso. Promécio ou alguma coisa assim.
— Que diabos é promécio? — Steve indagou.
— É o que o pai do Victor Stone usou para criar os componentes biônicos e cibernéticos do Ciborgue — Robin respondeu de imediato.
Erica apertou uma das mãos contra o estômago.
— Vocês são tão nerds que estão me deixando fisicamente enjoada.
— Não, não, não — Steve protestou imediatamente. — Não me coloca no meio deles. Eu não sou nerd, está bem?
Robin virou o rosto para ele.
— Por que está tão na defensiva, Harrington? Está com medo de perder pontos de popularidade com uma criança de dez anos?
— Não. Eu só estou dizendo que não sei porra nenhuma sobre Prometeu.
— Promécio — Dustin corrigiu. — Prometeu é uma figura da mitologia grega, mas tanto faz. Só estou dizendo que provavelmente estão usando aquilo para construir alguma coisa.
— Ou alimentar alguma coisa — Robin acrescentou.
Dustin olhou para ela.
— Tipo uma arma nuclear?
— Totalmente.
Steve encarou o corredor à frente.
— Caminhando na direção de uma arma nuclear. Ótimo. Seria ótimo.
Wolf continuou atrás deles, observando silenciosamente quem falava a cada momento. As mãos permaneceram nos bolsos enquanto seus olhos passaram das tubulações para o grupo.
— Mas, se eles estão construindo alguma coisa, por que aqui? — Robin perguntou. — Hawkins, sério? Entre todos os lugares possíveis? Na melhor das hipóteses, somos uma parada para usar o banheiro no caminho para a Disneylândia, mas talvez seja justamente isso. Talvez seja a nossa...
Steve e Dustin diminuíram o ritmo ao mesmo tempo.
Robin e Erica continuaram caminhando sem perceber de imediato que os dois haviam ficado para trás. Wolf, que vinha logo depois do grupo, passou pelo espaço aberto entre Steve e Dustin.
Ela não parou.
Enquanto acompanhou o mesmo ritmo das duas garotas à frente, Wolf virou o rosto por cima do ombro. Seus olhos permaneceram nos dois garotos, e a testa se contraiu discretamente ao vê-los se inclinarem um na direção do outro para conversar longe dos demais. Depois de alguns segundos, voltou a olhar para Robin e Erica e continuou andando atrás delas.
— Você acha que os russos sabem? — Dustin perguntou em voz baixa.
— Sobre... — Steve começou.
— Eles podem saber.
— Então está conectado?
— Talvez.
— Como?
Dustin hesitou.
— Eu não sei, mas é...
Os dois concluíram juntos:
— Possível.
Mais à frente, Robin e Erica pararam. Wolf, que seguia logo atrás delas, também se voltou para os garotos.
Robin ergueu as sobrancelhas.
— Perdão, mas tem alguma coisa que vocês gostariam de compartilhar com a turma?
Antes que qualquer um respondesse, um chiado atravessou o corredor. Uma voz masculina surgiu entre as interferências, falando em russo.
Steve e Dustin se entreolharam.
— Walkie — disseram ao mesmo tempo.
Os dois correram para alcançar os outros. Erica tirou a mochila das costas, agachou-se e abriu o zíper às pressas. Encontrou o rádio entre seus pertences e o entregou a Robin, que estendeu a antena enquanto todos se reuniram ao redor do aparelho.
Wolf se agachou com os demais.
A transmissão continuou em russo. Ela concentrou o olhar no rádio e permaneceu imóvel enquanto escutou as palavras abafadas pela estática. Quando a frase terminou, Wolf ergueu os olhos para o grupo.
— É o mesmo código de antes.
Robin segurou o aparelho mais perto.
— De onde quer que essa transmissão esteja vindo...
— Está perto — Dustin completou.
— E, se existe uma coisa que sabemos sobre esse sinal...
Dustin olhou para ela, compreendendo.
— Ele alcança a superfície.
Robin se levantou com o rádio nas mãos.
— Vamos.
O carrinho elétrico vermelho atravessou o corredor com um ruído baixo de motor, desaparecendo por uma das passagens laterais. Pouco depois, dois trabalhadores russos surgiram na direção oposta, caminhando lado a lado entre as tubulações que cobriam as paredes.
Steve espiou por trás de um grande gabinete metálico e esperou até que os dois dobrassem a esquina.
— Certo, limpo.
Ele avançou mais um pouco, verificou os dois lados do corredor e fez um gesto apressado para os outros.
— Está limpo. Vamos, venham.
Steve tomou a dianteira, seguido por Robin, Dustin e Erica. Wolf deixou que as duas crianças passassem antes dela e fechou a fileira, mantendo-se próxima o bastante para alcançá-las caso alguma coisa surgisse atrás do grupo.
Eles seguiram cautelosamente pela passagem estreita. Robin respirou fundo quando deixou o gabinete para trás.
— Essa foi por pouco.
— Perto demais — concordou Dustin.
— Relaxa — disse Steve, sem diminuir o passo. — Está bem? Relaxa. Ninguém viu...
A frase morreu quando ele chegou à abertura seguinte.
O corredor desembocava em uma área muito maior, atravessada por trabalhadores, soldados e pequenos veículos carregados com caixas e equipamentos. Homens de uniforme circulavam pelos dois níveis da estrutura enquanto cientistas de jaleco passavam entre as portas. Uma voz feminina anunciou alguma coisa em russo pelos alto-falantes, misturando-se ao barulho dos motores e das conversas.
O grupo permaneceu imóvel por um instante, exposto diante de toda a movimentação.
— Merda — soltou Steve.
O grupo recuou depressa para trás de um grande bloco vermelho próximo à entrada e se agacharam no espaço apertado entre o equipamento e a parede. Steve ficou mais perto da quina, com Robin comprimida ao lado dele. Erica se abaixou à frente de Dustin, enquanto Wolf se acomodou por último, mantendo o corpo voltado parcialmente para o corredor por onde tinham chegado.
Erica espiou por uma abertura entre a caixa e a parede.
— Jesus! — disse Steve.
— Amanhecer Violento — murmurou Dustin.
— Eu vi — comentou Erica.
Erica continuou olhando para a instalação.
— Primeiro andar, noroeste.
Steve desviou a atenção do movimento à frente e olhou para ela.
— Viu o quê?
— A sala de comunicações.
Steve franziu a testa.
— Você viu a sala de comunicações?
— Correto.
— Tem certeza? — Dustin perguntou.
— Positivo. A porta abriu por um segundo e eu vi um monte de luzes, máquinas e outras merdas lá dentro.
— Isso pode ser um monte de coisas diferentes — argumentou Dustin.
Robin sustentou o olhar de Steve.
— Eu aceito essas chances.
Steve soltou o ar pelo nariz e voltou a espiar pela lateral do bloco. Entre eles e a porta indicada por Erica havia um trecho aberto, atravessado constantemente por funcionários e soldados. Caixas, reservatórios negros e painéis de controle ofereciam coberturas parciais e o movimento ao redor da sala continuou sem que ninguém olhasse em sua direção.
Ele esperou até que um grupo de trabalhadores desaparecesse por uma passagem lateral e se virou para os demais.
— Certo. Vamos andar rápido e ficar abaixados. Entenderam?
Robin assentiu.
— Certo.
Assim que o caminho ficou livre, Steve deixou o esconderijo e correu agachado até um grande reservatório negro. Robin o acompanhou. Erica foi logo atrás, com Dustin quase pisando nos calcanhares dela. Wolf saiu por último, atravessando o trecho aberto com passos baixos e rápidos antes de se abaixar junto aos demais.
Todos atravessaram a área agachados, tentando usar os veículos, os equipamentos e os grandes recipientes metálicos como cobertura. Enquanto os outros precisavam corrigir o equilíbrio ao mudar de direção, Wolf se manteve baixa sem perder velocidade, movendo-se com passos leves e precisos até alcançar o esconderijo seguinte.
O grupo se reuniu atrás de um grande reservatório cercado por uma grade metálica. Steve espiou pela lateral, viu a entrada da sala de comunicações e ergueu a mão, pedindo que esperassem.
Uma porta próxima se abriu com um sinal eletrônico.
Steve se encolheu imediatamente contra o reservatório. Um cientista saiu da sala com uma prancheta nas mãos, passou diante deles sem desviar os olhos dos papéis e seguiu pelo corredor.
Assim que ele se afastou, Steve fez um gesto urgente.
— Andem.
Ele alcançou a porta antes que se fechasse e a segurou pela maçaneta.
— Shh. Vamos.
Dustin e Erica passaram primeiro. Robin entrou logo depois, e Wolf atravessou a abertura antes de Steve fechar a porta atrás de si.
A sala era menor do que parecia pelo corredor, cercada por painéis de controle e luzes indicadoras. Um homem uniformizado estava sentado diante dos aparelhos, com fones nos ouvidos e as costas voltadas para a entrada.
Steve parou junto à porta. Robin segurou Erica pelo braço, e Dustin ficou imóvel atrás delas.
O homem percebeu o movimento e girou a cadeira.
Ao encontrar cinco desconhecidos parados dentro da sala, levantou-se de imediato. Seu olhar passou pelos uniformes da Scoops Ahoy, pelas roupas das crianças e pela mulher de jaqueta escura que já avançava para a frente do grupo.
A mão dele desceu em direção ao coldre.
Wolf deu um passo e se colocou entre o guarda e os demais.
— Descanse, soldado — ordenou em russo.
O homem hesitou ao ouvir o próprio idioma, mas a surpresa não apagou a desconfiança de seu rosto.
— Quem são vocês?
Wolf indicou a si mesma antes de mover a mão na direção das pessoas atrás dela.
— Somos familiares do comandante.
O guarda percorreu o grupo outra vez. Os olhos dele demoraram nos crachás americanos presos aos uniformes de Steve e Robin, passaram por Dustin e demoraram um instante a mais sobre Erica. Quando voltou a encarar Wolf, a mão tornou a descer, agora fechando-se ao redor da arma no coldre.
Wolf avançou antes que ele conseguisse puxá-la.
Ela abaixou o corpo, atingiu o guarda com o ombro e o empurrou até que as costas dele se chocassem contra o painel de controle. Os botões estremeceram sob o impacto. Wolf recuou apenas o necessário para abrir espaço e acertou um soco no rosto do homem.
O golpe virou a cabeça dele, mas não foi suficiente para derrubá-lo. O russo reagiu quase no mesmo instante devolvendo o soco. O impacto no rosto a fez cambalear, e ela perdeu o equilíbrio ao recuar, caindo de costas no piso metálico.
O guarda se afastou do painel e avançou para terminar o ataque. Ainda caída, Wolf ergueu uma das pernas e acertou a dele, interrompendo o passo sem força suficiente para derrubá-lo.
Steve viu a abertura e correu.
Ele atingiu o guarda pela lateral, tentando afastá-lo de Wolf, mas o homem absorveu o impacto, envolveu Steve com os braços e o arremessou contra a bancada. Steve bateu nos controles, apoiou uma das mãos na superfície e encontrou o aparelho telefônico preso ao painel.
Antes que o russo conseguisse agarrá-lo novamente, Steve girou o corpo e acertou o telefone contra a cabeça dele.
O militar caiu de bruços no chão e permaneceu imóvel, com uma linha de sangue surgindo junto à testa.
Steve ficou parado diante do corpo, ainda segurando o telefone. Passou a mão pelos cabelos, respirando com dificuldade enquanto tentava compreender o que tinha acabado de acontecer.
Dustin foi o primeiro a reagir.
— Cara!
Steve olhou para ele.
— Você conseguiu! — Continuou Dustin.
Ele apontou para o guarda caído, com o rosto iluminado por uma satisfação quase pessoal.
— Você ganhou uma briga!
Steve soltou uma risada curta e incrédula.
Ainda no chão, Wolf apoiou um dos braços atrás do corpo e começou a se erguer. Passou o polegar pelo canto da boca e observou o sangue deixado na pele antes de soltar uma risada breve, carregada de deboche. Olhou para Steve.
— Com ajuda...
Não havia irritação em seu tom, apenas um deboche seco acrescentado à comemoração exagerada de Dustin.
Steve largou o telefone sobre a mesa e estendeu a mão para Wolf. Ela segurou o pulso dele, e Steve a puxou até que conseguisse se levantar.
— Bom trabalho com o guarda — disse Steve.
Wolf assentiu para ele enquanto firmava os pés e ajeitava a jaqueta. Dustin já se aproximava do guarda, interessado no cartão preso ao cinto dele. Se abaixou junto ao corpo e retirou o cartão de identificação.
Erica olhou para ele.
— O que está fazendo?
— Pegando nossa passagem para fora daqui.
Ela apontou para a porta.
— Quer voltar andando o caminho inteiro?
Dustin se levantou com o cartão na mão.
— Bem, podemos ficar aqui por um tempo, relaxar, talvez fazer um piquenique.
— Fazer um piquenique? — repetiu Erica. — Nós viemos aqui pelo rádio.
Robin já tinha se afastado dos outros. Uma pequena escada na parte posterior da sala levava a outro corredor, banhado por uma luz azul mais intensa. Ela começou a subi-la enquanto Dustin continuava falando.
— Esse plano é muito melhor. Se eu soubesse que Steve conseguia derrubar um russo, esse teria sido o nosso plano desde o começo. Mas acho que você está...
— Gente.
A voz de Robin veio de uma passagem escura ao lado da sala.
Todos olharam em sua direção. Ela já subia uma pequena escada, guiada por uma luz azul que pulsava no alto.
— Tem alguma coisa lá em cima.
Os outros abandonaram a discussão e seguiram até a escada. Steve tomou a frente novamente, com Dustin e Erica logo atrás. Wolf acompanhou as crianças, enquanto Robin segurava a porta e observava o corredor do outro lado.
O espaço seguinte era estreito e muito mais escuro. Luzes azuladas corriam pelas paredes, e um pulso grave fazia o metal vibrar sob os pés. Robin avançou até outra porta e olhou pela janela.
— Vamos — sussurrou.
Robin abriu a porta apenas o suficiente para que o grupo entrasse sem chamar atenção.
Do outro lado, encontraram uma sala de observação cercada por janelas. Dois homens trabalhavam diante de uma série de controles enquanto cientistas circulavam entre painéis iluminados. O pulsar grave vinha de algum ponto além do vidro.
Robin e Erica ocuparam a janela da esquerda. Wolf permaneceu junto às duas, erguendo-se ligeiramente acima de Robin para observar o interior da instalação. Steve e Dustin se aproximaram da janela seguinte, do outro lado da divisória.
Dustin encostou-se ao vidro.
— Puta merda.
Abaixo deles, homens vestidos com trajes de proteção trabalhavam ao redor de uma máquina colossal. Arcos elétricos percorriam sua estrutura enquanto cilindros do líquido verde eram encaixados nos mecanismos. No centro, um feixe de energia azul atingia uma parede de pedra, abrindo uma fissura incandescente na superfície.
O pulso grave atravessou a sala novamente, fazendo o vidro vibrar diante dos cinco.
Fale com o autor