Light at the End of the World
5 Capítulo 5 - Hospitalidade soviética
Notas iniciais
O ruído grave da máquina atravessava as paredes e fazia o piso vibrar sob os pés do grupo. Do outro lado dos vidros, cientistas russos ocupavam as plataformas e os painéis de controle ao redor de uma estrutura colossal, enquanto um feixe de energia branco-azulado atingia a parede de pedra e alimentava a abertura incandescente que pulsava no centro dela. O brilho alaranjado do outro lado se espalhou pela sala de observação e recortou os cinco contra o vidro, imóveis diante do que os russos conseguiram construir sob Hawkins.
Steve e Dustin reconheceram aquilo no mesmo instante e disseram juntos:
— O portal.
Robin desviou os olhos da abertura e encarou os dois enquanto o grupo deixava a sala de observação e começava a descer os degraus.
— Eu não entendo. Vocês já viram isso antes?
— Não exatamente — Steve respondeu.
— Então o que, exatamente?
— Tudo o que você precisa saber é que isso é ruim — Dustin disse.
— É muito ruim — Steve acrescentou.
— Tipo, fim-da-raça-humana-como-a-conhecemos de ruim — Dustin completou, seguindo à frente deles.
Robin lançou um olhar diretamente para o garoto.
— E como vocês sabem disso?
Wolf olhou de Steve para Dustin.
— Era isso que vocês estavam escondendo?
Steve se virou para ela e abriu a boca, já erguendo uma das mãos para começar a se justificar, mas Erica falou antes que qualquer palavra saísse.
— Gente? Onde está o amigo russo de vocês?
Todos pararam. Steve e Wolf olharam para o lugar onde deixaram o guarda caído e encontraram apenas uma pequena mancha de sangue no piso claro. Os dois se entreolharam, e o alarme irrompeu pela instalação antes que alguém dissesse alguma coisa. A luz vermelha começou a piscar sobre as paredes, acompanhada pelos gritos distantes dos soldados.
Steve correu até a passagem, com Wolf logo atrás. Ele abriu a porta o suficiente para espiar o salão principal, e ela observou por cima de seu ombro quando os soldados se viraram na direção deles. Um dos homens gritou para que parassem, outros ergueram as armas e começaram a avançar.
— Merda.
Steve fechou a porta e se virou bruscamente.
— Vão, vão, vão!
Dustin e Erica dispararam na frente. Robin correu logo atrás das crianças, Wolf permaneceu a poucos passos dela e Steve fechou a fileira, olhando repetidamente para os soldados que se aproximavam. Eles atravessaram outra sala de controle em meio ao alarme; cientistas se afastaram dos painéis, uma cadeira girou para o lado e os primeiros guardas surgiram pela porta que o grupo acabou de cruzar.
— Merda — Dustin soltou, sem diminuir a velocidade.
— Andem! Vamos! — Steve gritou atrás deles.
Erica passou primeiro pela porta seguinte, seguida por Dustin e Robin. Wolf cruzou a passagem logo depois, mantendo-se perto da retaguarda, e Steve entrou por último.
— Vão! Merda! Merda, merda, merda!
O grupo alcançou as passarelas construídas ao redor da máquina. Dustin desceu correndo pela primeira escada, agarrado ao corrimão, enquanto Erica avançava perto dele. Robin veio em seguida, Wolf manteve-se logo atrás dela e Steve continuou no fim da formação. Soldados apareceram nas plataformas superiores e começaram a persegui-los entre os trabalhadores vestidos de vermelho.
O feixe da máquina cortou o espaço à frente com um clarão violento. Todos se abaixaram e se desviaram por pouco, banhados pela luz azulada que atravessou a plataforma.
— Puta merda! Puta merda! Puta merda! — Dustin gritou, quase perdendo o equilíbrio enquanto corria. — Puta merda! Puta merda!
Steve alcançou a plataforma e olhou rapidamente ao redor. Soldados se aproximavam por um lado, enquanto o feixe bloqueava o caminho pelo outro. Ele procurou uma saída até localizar uma escada que descia pela lateral da estrutura.
— Guardas! Vão! Por aqui!
As crianças mudaram de direção primeiro. Robin acompanhou as duas, Wolf deixou que ela passasse e correu logo atrás, enquanto Steve permaneceu por último. Ele desceu a escada, chegou ao piso inferior e quase bateu contra uma pilha de tambores metálicos disposta ao lado da passagem.
— Merda! Merda!
Steve apoiou as duas mãos no primeiro tambor e empurrou com toda a força. A pilha tombou sobre os soldados que vinham atrás deles, e os cilindros rolaram pelo piso com um estrondo, derrubando os homens e bloqueando temporariamente o caminho.
— Vamos! Vão, vão, vão! — Steve gritou.
Robin assumiu a dianteira quando as crianças contornaram outra estrutura e seguiram entre os equipamentos.
— Vamos!
Ela avistou uma passagem aberta na parede lateral e apontou para ela.
— Por aqui!
Erica e Dustin entraram primeiro. Robin atravessou a porta logo depois, seguida por Wolf, enquanto Steve continuou na retaguarda.
— Vamos, rápido! — Robin chamou.
O grupo entrou em uma sala de serviço escura, atravessada por tubulações e estruturas metálicas. Robin avançou alguns passos, olhando de um lado para o outro à procura de outra saída, enquanto Dustin e Erica correram até uma pequena escada que levava à parte inferior da sala. Wolf cruzou a passagem e se voltou quase imediatamente para verificar a retaguarda.
Steve entrou por último, puxou a porta e usou o próprio corpo para mantê-la fechada quando os primeiros soldados se chocaram contra o outro lado.
— Ei, garotas! Me ajudem!
Wolf já estava virada para ele e chegou primeiro. Ela se colocou no centro da porta e firmou o corpo contra o metal, enquanto Steve permaneceu à direita, agarrado à maçaneta e fazendo a maior parte da força para impedir que os soldados entrassem. Robin abandonou a busca, correu de volta e ocupou o lado esquerdo, completando a barreira.
A porta estremeceu sob outro impacto. Os três se comprimiram contra ela, os pés deslizando alguns centímetros pelo piso a cada investida dos homens do outro lado.
— Aqui! Vamos, vamos! — Erica chamou da parte inferior da sala ao encontrar a abertura do sistema de ventilação.
Dustin chegou à escada, mas parou antes de descer. Ele olhou para Erica e depois para os três que continham a porta.
— Vamos!
— Vão! Saiam daqui! — Steve respondeu, apertando ainda mais os dedos ao redor da maçaneta.
— Vão! Vamos, agora! — Dustin insistiu.
Outro golpe sacudiu a porta. Steve perdeu o apoio por um instante, mas recuperou a posição com Wolf ainda sustentando o centro e Robin pressionando o outro lado.
— Não! Só vão buscar ajuda, está bem?
Dustin continuou parado junto à escada.
— O que você está fazendo?! — Steve gritou.
Steve e Robin olharam para ele e berraram juntos:
— Vão!
Dustin recuou em direção à abertura, ainda com os olhos presos nos três.
— Eu não vou esquecer vocês!
A porta voltou a se mover, abrindo uma fresta antes que Steve conseguisse puxá-la novamente. Ele e Robin gritaram juntos mais uma vez:
— Vão!
Dustin finalmente desapareceu pela passagem atrás de Erica. Os soldados se lançaram contra a porta com força renovada, e o metal rangeu diante dos três. A abertura repentina os jogou para trás; Steve, Wolf e Robin perderam o equilíbrio e caíram no piso quando os guardas invadiram a sala.
Steve ficou à esquerda e Robin à direita, com Wolf caída entre os dois. Os soldados os cercaram imediatamente e apontaram as armas. Steve levantou as mãos, e Robin fez o mesmo ao seu lado.
Wolf não os imitou.
Ela manteve as mãos baixas, ergueu apenas o rosto e encarou os homens à sua frente com uma raiva contida sob o desgosto, atravessada por uma irritação fria. Os guardas conservaram as armas apontadas para os três, e o estalo seco dos mecanismos sendo engatilhados encerrou qualquer possibilidade de resistência.
Os soldados russos avançaram em formação pelos corredores da instalação, com os rifles mantidos junto ao corpo e o som ritmado das botas reverberando entre as paredes e as tubulações. Abaixo deles, escondidos no sistema de ventilação, Dustin e Erica permaneceram em silêncio até que os passos se afastaram, então continuaram pelo espaço metálico e estreito, iluminados apenas pelas lanternas presas ao capacete improvisado de Erica.
O trajeto terminou diante de outro ventilador industrial que ocupava toda a passagem. As pás giravam depressa demais para que eles pudessem atravessar, impulsionando uma corrente contínua de ar contra os dois. Dustin se acomodou ao lado do equipamento e começou a remover os parafusos da caixa elétrica instalada na parede, enquanto retomava a explicação que já vinha dando a Erica pelo caminho.
— Então, quando ateamos fogo no centro, atraímos os Democães para longe e a El conseguiu fechar o portal. Mas agora, por algum motivo insano, os russos parecem estar tentando abri-lo de novo, o que simplesmente destrói tudo pelo que arriscamos nossas vidas.
Erica, sentada ao lado dele com a mochila apoiada perto das pernas, estreitou os olhos.
— Quando diz “nós”, você está incluindo o Lucas?
— Sim, é claro.
Dustin retirou a tampa da caixa e expôs os fios em seu interior, mas Erica continuou olhando para ele.
— Então, em toda aquela merda que você me contou, o Lucas estava lá?
— Estava.
— Meu irmão, Lucas Charles Sinclair?
Dustin desviou os olhos dos fios por um instante.
— Sim!
— Não acredito em você.
Ele parou, ainda segurando a chave de fenda, e encarou Erica com a testa franzida.
— Espera. Então você acredita em tudo sobre a El, o portal, os Democães e o Devorador de Mentes, mas questiona o envolvimento do seu irmão?
— Exatamente.
Dustin sustentou o olhar por mais um segundo antes de voltar para a caixa elétrica.
— Faz todo sentido.
Ele começou a testar as ligações no interior do painel. Erica acompanhou o movimento da chave de fenda entre os fios por alguns instantes, até perceber que nada acontecia com o ventilador.
— Você precisa de ajuda com isso?
— Não.
— Bem, quero dizer, está demorando, então...
— É, não me diga, Sherlock.
Erica se endireitou.
— Certo. Se a gente não encontrar um método mais eficiente de parar esses ventiladores, nunca vamos conseguir ajuda e seus amigos do sorvete estão ferrados.
— É, com essa atitude, estão mesmo. Meu Deus!
— Só estou sendo realista. Nós percorremos cerca de 0,3 milha em nove horas. Antes disso, tivemos que andar por três horas naquele túnel, então eu estimaria que são dez milhas de volta até o elevador, o que deve levar aproximadamente doze dias e meio.
A mão de Dustin parou dentro da caixa. Ele virou lentamente o rosto para Erica.
— Você acabou de fazer tudo isso de cabeça?
— Sou boa com números.
Dustin ficou olhando para ela, como se uma peça que estivera diante dele durante todo aquele tempo finalmente tivesse se encaixado.
— Puta merda. Você é uma nerd.
Erica inclinou a cabeça.
— Como é?
Ele se virou um pouco mais em sua direção e pronunciou cada palavra separadamente.
— Você... é... uma... nerd.
— É melhor retirar o que disse, nerd.
— Não dá para colocar a verdade de volta na caixa.
— Mas isso não é verdade.
Dustin abandonou o painel por um instante e se voltou para ela.
— Vamos examinar os fatos, certo? Fato número um: aparentemente, você é um gênio da matemática.
— Aquela foi uma equação bem simples.
— Fato número dois: você é viciada em política.
— Só porque eu não concordo com o comunismo como ideologia...
— Fato número três: você ama My Little Pony.
Dustin pegou a mochila rosa de Erica e virou a parte da frente para ela, exibindo os pôneis estampados no tecido.
— E o que My Little Pony tem a ver com isso?
— Vamos relembrar a última aventura dos pôneis, certo? O centauro demoníaco Tirek transforma Applejack em um dragão no Castelo da Meia-Noite, e Megan e os outros pôneis precisam usar a magia de Moochick para derrotar o arco-íris de trevas dele e salvá-los de uma vida inteira de escravidão.
Erica permaneceu em silêncio, observando Dustin continuar com uma segurança que deixava evidente o quanto ele conhecia aquela história.
— Todo o rosa do mundo não consegue disfarçar o fato irrefutável de que centauros, castelos, dragões e magia são todos clichês nerds. Logo, My Little Pony é nerd. Logo, você, Erica, é uma nerd.
A expressão contrariada de Erica foi substituída lentamente por um sorriso, como se tivesse encontrado a falha que procurava no argumento.
— E como você sabe tanto sobre My Little Pony?
Dustin abriu a boca, mas hesitou por um instante.
— Porque eu sou...
Ele devolveu a mochila a Erica, tornou a se aproximar do painel e levou a chave de fenda até uma das ligações.
— ...um nerd.
Dustin encostou os fios. Uma descarga elétrica crepitou dentro da caixa, e as luzes presas ao capacete de Erica piscaram quando a alimentação do equipamento foi interrompida. O ruído grave do motor começou a diminuir, as pás perderam velocidade e o ventilador finalmente parou, deixando a passagem livre.
Dustin recolheu a chave de fenda e olhou para Erica.
— Vamos... nerd.
— Você...
Antes que ela terminasse, Dustin começou a passar pela abertura do ventilador, e Erica pegou a mochila para segui-lo.
A luz branca e fria da sala incidia diretamente sobre Steve. Ele permanecia sentado, com as mãos presas atrás do corpo, o cabelo úmido caído sobre o rosto e sangue espalhado da boca até o pescoço. Um dos soldados se afastou depois de acertá-lo, enquanto Steve tentou recuperar o ar.
Ele baixou a cabeça, respirou com dificuldade e deixou escapar um sorriso dolorido.
— Essa doeu.
O oficial parado diante dele não reagiu.
— Para quem você trabalha?
Steve ergueu o rosto o quanto conseguiu.
— Pela milionésima vez, eu trabalho na Scoops Ahoy!
O soldado ao lado avançou e o atingiu novamente. A cabeça de Steve foi jogada para o lado. Ele soltou um gemido, tornou a se endireitar e encarou os homens com incredulidade.
— Que porra é essa?! Olhem o meu uniforme! Vocês acham que eu uso isso por acaso?! Acham que sou um espião com uniforme de marinheiro?
O soldado o acertou mais uma vez. Steve se curvou sobre as próprias pernas, tentando respirar através da dor, enquanto o oficial continuou observando-o sem alterar a expressão.
— Como entrou aqui?
Steve demorou alguns segundos para conseguir responder.
— Eu já falei. Já falei antes.
Ele puxou o ar e começou novamente, procurando manter as palavras organizadas.
— Minha entrega não chegou, e meus amigos e eu achamos que ela tinha sido deixada na doca de carga. Então entramos na sala, e aí ela virou um elevador, e depois... depois nós caímos e, quando vimos, eu abri os olhos e estávamos nesta...
Steve ergueu os olhos e percorreu a sala com um movimento lento da cabeça.
— ...instalação maravilhosa.
O oficial permaneceu em silêncio. Steve se inclinou para a frente dentro do limite imposto pelas amarras.
— Mas juro por Deus, ninguém sabe de nós. Ninguém nos viu. Vocês podiam simplesmente deixar a gente ir, certo? E eu não vou contar isso para ninguém, está bem? Merda acontece, a vida segue.
Nenhum dos russos respondeu. Steve olhou de um homem para o outro, desesperado para encontrar qualquer argumento que pudesse funcionar.
— E, ah... sorvete. Sorvete, está bem? Vocês sabem o que é sorvete. Todo mundo adora sorvete.
O oficial continuou encarando-o.
— Eu não sei se vocês têm sorvete russo ou se isso é considerado gelato. Eu não sei o que é o quê, mas o que vocês quiserem, sério. Sorvete de caramelo... vocês precisam provar. É de outro mundo, estou dizendo!
O silêncio se prolongou por um instante.
Então o oficial começou a rir. Os soldados ao redor acompanharam a gargalhada, e Steve riu nervosamente com eles, tentando fingir que aquilo representava algum progresso.
O oficial se voltou para os outros homens.
— Eu gosto desse cara!
Ele se inclinou novamente na direção de Steve, ainda rindo.
— “Sorvete de caramelo.”
As gargalhadas continuaram por mais alguns instantes. Steve ainda tentou acompanhá-las com um riso nervoso, mas seu sorriso desapareceu quando o oficial tornou a se aproximar.
O riso cessou por completo.
— Para quem você trabalha? — Repetiu o oficial.
A breve esperança de Steve desmoronou.
— Ah, qual é. Não, não! Não, sério...
Antes que pudesse terminar, o soldado avançou e o atingiu novamente. A cabeça de Steve foi arremessada para o lado com o impacto.
As solas dos tênis de Steve arrastaram pelo piso enquanto dois soldados o carregavam pelos braços para dentro da sala. Os pulsos dele estavam presos à frente do corpo, a cabeça pendia sobre o peito e as pernas não ofereciam qualquer sustentação. Sangue cobria sua boca, o queixo e parte do pescoço, mas Steve não reagiu ao ser puxado para o interior do ambiente.
Outros dois soldados entraram logo depois com Robin, segurando-a pelos braços enquanto ela se contorcia e tentava se libertar.
— Tirem as mãos de mim! — Robin gritou.
Os russos lançaram os dois no chão. Steve caiu de lado e permaneceu imóvel, sem sequer tentar amortecer o impacto, enquanto Robin atingiu o piso ao lado dele, ainda presa pelas mãos. Os soldados os largaram e começaram a se afastar, deixando Steve inconsciente sob a luz branca e fria da sala.
Robin recuperou o ar, ergueu a cabeça e se arrastou até ele. Ela apoiou as mãos presas no ombro de Steve e tentou fazê-lo reagir.
— Ei... Steve? Steve?
Ele não respondeu. Robin se inclinou mais perto de seu rosto, mas o sinal eletrônico da porta soou antes que ela pudesse chamá-lo novamente. Um soldado aproximou-se da entrada e acionou o mecanismo; através do pequeno visor de vidro, Robin viu o oficial esperando do outro lado.
A porta se abriu, e o oficial entrou acompanhado por outros soldados. Robin permaneceu ajoelhada ao lado de Steve, com as mãos sobre as costas dele, e acompanhou a aproximação do homem sem se afastar.
— O que vocês fizeram com ele? O que fizeram? — ela exigiu.
O oficial parou diante de Robin e a atingiu com as costas da mão. O tapa a lançou para o lado, fazendo-a cair novamente sobre o piso. Sem demonstrar qualquer alteração, o homem se voltou para os soldados e ordenou em russo:
— Coloquem os dois nas cadeiras.
Dois soldados agarraram Steve pelos braços e o ergueram, ainda inconsciente, enquanto outros puxaram Robin do chão apesar de sua resistência. Eles levaram os dois até as cadeiras posicionadas no centro da sala e os colocaram de costas um para o outro. Steve tombou para frente assim que foi colocado no assento, obrigando um dos guardas a sustentar seu peso enquanto os demais passavam as primeiras faixas ao redor dos dois.
O oficial acompanhou o procedimento por alguns instantes antes de chamar um dos soldados e perguntar em russo:
— E a terceira?
O guarda lançou um olhar para a porta antes de responder no mesmo idioma:
— Está dando mais trabalho.
O sinal eletrônico soou novamente. Quando a porta se abriu, um grupo de soldados entrou carregando Wolf. Dois homens mantinham seus braços presos, enquanto outros seguravam suas pernas e tentavam impedir que ela atingisse qualquer um ao alcance. Wolf se debatia com força suficiente para interromper o avanço do grupo a cada poucos passos, obrigando os guardas a reajustarem repetidamente as mãos para não perdê-la.
— Seus porcos imundos! Nojentos! Tirem as mãos de mim! — Wolf os xingou em russo.
A trança do cabelo estava meio desfeita e cobria parte de seu rosto, havia sangue seco no canto da boca e um corte junto à sobrancelha, além de um hematoma que começava a escurecer sua face e marcas avermelhadas ao redor dos pulsos. Apesar dos sinais do que havia sofrido desde que foi separada dos outros, Wolf permanecia consciente, alerta e determinada a tornar cada passo mais difícil para os homens que a carregavam.
A resistência cessou apenas quando ela viu Steve. Por menos de um segundo, Wolf deixou de lutar e fixou os olhos no sangue que cobria o rosto dele, na cabeça caída e no corpo sem reação enquanto os guardas o prendiam à cadeira. O choque desapareceu sob uma raiva imediata, e ela lançou todo o peso para o lado, arrancando um braço do aperto de um dos soldados antes que outro homem conseguisse segurá-la novamente.
— O que vocês fizeram com ele, seus filhos da puta?! — Wolf gritou em russo.
O oficial indicou a cadeira clínica posicionada à esquerda da sala e deu uma nova ordem aos guardas:
— Coloquem-na naquela cadeira. Amarrem-na bem.
Os soldados arrastaram Wolf até a cadeira. Ela tentou firmar os pés no piso para interromper o movimento, mas os homens que seguravam suas pernas a ergueram enquanto os outros a empurraram contra o encosto. O metal rangeu sob o impacto, e Wolf tentou se levantar antes que um guarda puxasse seus braços para trás da cadeira e prendesse seus pulsos.
Outro soldado passou uma faixa larga ao redor de seu torso e a apertou contra o encosto. Wolf arqueou o corpo com força suficiente para fazer a cadeira estremecer sobre a base, mas os guardas mantiveram a pressão e acrescentaram uma segunda faixa sobre sua cintura. Enquanto dois homens imobilizavam suas pernas, outros prenderamseus tornozelos aos suportes da cadeira com novas faixas largas.
— Soltem-me, seus vermes! — Wolf continuou em russo, torcendo os pulsos contra as amarras.
Enquanto os soldados terminavam de imobilizar Wolf, Robin tentou se virar no assento para enxergar Steve. As faixas ao redor de seu torso limitaram o movimento, mas ela forçou o ombro contra o corpo dele na tentativa de despertá-lo.
— Steve, acorde. Steve? Steve, acorde!
Steve continuou sem responder, com a cabeça caída sobre o peito. Os guardas concluíram as contenções de Robin e Steve ao mesmo tempo que os outros se afastaram da cadeira de Wolf. Assim que ficou livre das mãos deles, Wolf voltou a testar as amarras; os músculos de seus braços se contraíram atrás do encosto e as faixas ao redor de seu torso se esticaram, porém nada cedeu.
O oficial observou Wolf de onde estava. Seu olhar passou pelas roupas comuns que a distinguiam dos dois funcionários da Scoops Ahoy, pelas marcas da resistência e pelas contenções que mal impediam a cadeira de estremecer. Em seguida, ele se dirigiu a Robin em inglês, comentando sobre Wolf como se ela não estivesse presente.
— Sua amiga é interessante.
Wolf encarou o oficial com desprezo e respondeu em russo:
— Vá para o inferno.
Sem lhe dar resposta, o homem se aproximou da estrutura central e parou diante de Steve. Ele agarrou Steve pelos cabelos e ergueu sua cabeça para examinar o rosto inchado e coberto de sangue, fazendo Robin puxar as próprias amarras.
— Não toque nele! — ela gritou.
Wolf se lançou contra as faixas no mesmo instante, e a base de sua cadeira vibrou sobre o piso. O oficial ignorou as duas, soltou Steve depois de avaliar os ferimentos. A cabeça dele caiu novamente sobre o peito.
— Steve! Steve, consegue me ouvir? — Robin insistiu, pressionando o ombro contra as costas dele.
O oficial contornou lentamente as cadeiras juntas e parou diante de Robin.
— Eu acho que seu amigo precisa de um médico. Que bom, nós temos o melhor.
Ele se inclinou até deixar o rosto próximo ao dela, e Robin, com um olhar feroz, cuspiu diretamente nele. O oficial fechou os olhos por um instante, retirou um lenço do bolso e limpou lentamente a saliva sob o olhar imóvel dos soldados. Quando terminou, tornou a se aproximar de Robin.
— Você vai se arrepender disso, sua vadiazinha.
O olhar de Robin murchou lentamente diante da ameaça. O oficial se endireitou, guardou o lenço e fez um gesto para que os homens o acompanhassem. Os soldados deixaram a sala atrás dele, e a porta permaneceu aberta apenas até o último atravessá-la antes de se fechar com um ruído pesado.
Robin puxou as contenções e virou o rosto na direção da saída.
— Desgraçados! Tirem a gente daqui! Tirem a gente daqui!
Wolf voltou a forçar os pulsos contra as amarras enquanto Robin continuava gritando, mas as faixas permaneceram firmes ao redor de seu corpo. Entre as duas, Steve continuou inconsciente, com a cabeça caída e o sangue secando sob a luz fria da sala.
A placa metálica do piso se ergueu alguns centímetros antes de deslizar para o lado. Dustin colocou a cabeça para fora da abertura e permaneceu imóvel, procurando qualquer sinal de soldados. O corredor estava vazio.
Ele se apoiou nas bordas e subiu para o piso gradeado. Erica surgiu logo atrás, ainda com as lanternas presas ao capacete, e os dois se levantaram devagar enquanto observavam o espaço ao redor.
Fileiras de estruturas envidraçadas ocupavam toda a sala. Dentro delas, pequenos cilindros cheios da substância verde brilhante estavam presos em suportes metálicos, repetindo-se até o fim do corredor.
Dustin encarou o estoque.
— Bingo.
Ele se abaixou para recolocar a placa sobre a abertura. Erica examinou os cilindros por mais alguns segundos antes de acompanhá-lo para fora da sala.
Os dois desceram uma pequena escada e encontraram um veículo utilitário vermelho estacionado junto à parede. Dustin caminhou diretamente até o lado do motorista e entrou na cabine.
Erica parou ao lado do veículo.
— Você sequer sabe dirigir?
Dustin se acomodou no banco e segurou o volante.
— Quão difícil pode ser? A Max conseguiu.
Ele procurou a chave junto à ignição e encontrou apenas a entrada vazia. Tentou girá-la com os dedos, como se isso pudesse resolver o problema, antes de olhar ao redor da cabine.
— Ah, qual é.
Erica observou a ignição vazia.
— Você realmente achou que eles deixariam as chaves aí?
Dustin saiu do veículo.
— Tem que haver uma reserva.
Erica soltou um suspiro enquanto ele começou a procurar pela sala. Dustin abriu compartimentos, verificou uma bancada e encontrou uma pequena caixa metálica embutida na parede. Retirou a chave de fenda do bolso e removeu o parafuso da tampa.
Enquanto ele trabalhava, Erica se afastou alguns passos. Uma grande estrutura gradeada ocupava o outro lado da sala, semelhante a uma cela de contenção. Ela parou diante dela e examinou o espaço interno.
— Ei, Dustin?
— Sim?
Erica não desviou os olhos da jaula.
— Qual era o tamanho daquele Demogorgon?
Dustin continuou procurando dentro da caixa.
— Grande. Uns três metros. Por quê?
Ela permaneceu em silêncio.
Dustin encontrou uma chave presa a uma etiqueta vermelha marcada com o número três. Ele a retirou e se virou, erguendo-a para Erica.
— Achei.
Quando olhou na direção dela, Erica já havia desaparecido de diante da jaula.
Dustin voltou para perto do veículo, mas um estalo elétrico o fez se virar. Erica reapareceu segurando uma haste metálica comprida com as duas mãos. A extremidade do objeto crepitava com descargas azuladas.
Dustin recuou.
— Que porra é essa?!
Erica examinou a arma com evidente satisfação.
— Uma arma mortal. Pode ser útil.
Ela aproximou a extremidade eletrificada dele, e Dustin ergueu as mãos.
— Pra quê?
Erica o encarou como se a resposta fosse óbvia.
— O que você acha? Derrubar comunistas, salvar seus amigos.
— Erica, temos que sair daqui.
Ela começou a passar por ele, mas Dustin continuou:
— Nem sabemos onde eles estão e, mesmo se soubéssemos, há um milhão de guardas lá em cima com armas muito mais mortais do que isso. A melhor coisa que podemos fazer por eles é sair daqui e buscar ajuda.
Erica manteve a haste erguida enquanto se aproximava do veículo. Dustin se afastou da ponta eletrificada.
— Cuidado com isso.
Ela entrou na cabine e se acomodou no banco ao lado do motorista.
— Nossa chance de sobreviver, e a deles, aumenta substancialmente — continuou.
Dustin sentou-se diante do volante e olhou para ela.
— Só confie em mim dessa vez. Por favor?
Erica sustentou o olhar com evidente desconfiança, mas não respondeu.
Dustin colocou a chave na ignição e a girou. O motor ganhou vida com um ruído crescente que se espalhou pela área de serviço.
As amarras de couro rangeram quando Wolf torceu os pulsos e puxou os braços com toda a força que ainda conseguia reunir. A faixa larga ao redor do tórax manteve seu corpo preso contra o encosto da cadeira clínica, mas ela continuou se debatendo, forçando os ombros para a frente em vão.
Sua respiração saía curta e descompassada, atravessada por ofegos sufocados que se aproximavam de um choro sem que nenhuma lágrima escapasse. Wolf apertou os olhos por um instante, tentando conter os sons que a própria garganta produzia, e tornou a puxar as mãos, apesar da dor que queimava a pele marcada e avermelhada ao redor dos pulsos.
Alguns metros à frente, Robin virou a cabeça na direção do barulho, embora a posição das cadeiras mal permitisse que enxergasse Wolf. Steve continuava desacordado atrás dela, preso costas com costas à sua cadeira, e o peso inerte do corpo dele limitava ainda mais seus movimentos. Mesmo quando forçou o pescoço para o lado, Robin conseguiu distinguir apenas parte da cadeira clínica e alguns fios negros que tinham escapado da trança parcialmente desfeita.
— Ei, ei, ei. Wolf! Se acalma. Você vai acabar se machucando ainda mais assim.
Wolf puxou as amarras com mais força, como se a advertência tivesse apenas aumentado sua urgência.
— Como você quer que eu me acalme? Como você poderia estar calma nessa situação?
A voz saiu mais alta do que ela pretendia, apertada pelo medo e pela falta de ar. Por alguns segundos, Wolf parou de se debater, embora o peito continuasse subindo e descendo depressa enquanto seus olhos percorriam a sala fria, passando pela grande luminária suspensa e pelos carrinhos metálicos distribuídos ao redor.
— Somos prisioneiras de soldados inimigos. Você sabe o que soldados fazem com reféns? Principalmente mulheres?
Robin permaneceu em silêncio, porque não havia promessa que pudesse oferecer sem mentir nem argumento capaz de diminuir o que Wolf acabara de dizer. A possibilidade se instalou em sua mente com uma nitidez que não existia antes, e ela desviou os olhos por um instante enquanto tentava pensar em alguma coisa que pudesse fazer daquela posição.
Atrás dela, Steve continuava imóvel. Wolf voltou a tencionar um dos pulsos contra a amarra, e Robin respirou fundo antes de tornar a falar.
— Ok. Ok.
Ela fez uma breve pausa, procurando uma direção diferente para a conversa, e suavizou a voz quando a encontrou.
— Em que momentos você canta?
O movimento de Wolf cessou, não porque tivesse se acalmado, mas porque a pergunta pareceu deslocada demais para ser ignorada.
— Quê?
— Quero dizer, você canta em momentos aleatórios? Ou apenas nas suas apresentações? Ou mesmo quando está feliz?
Robin tentou gesticular enquanto falava, porém as mãos presas permitiram apenas pequenos movimentos dos dedos e dos antebraços contra as tiras de couro. Wolf continuou ofegante, mas permaneceu parada na cadeira, prestando atenção nela com as sobrancelhas arqueadas.
— Meio que em todas essas situações.
— Existe alguma música específica?
Wolf demorou um pouco mais para responder, pensativa apesar da confusão que ainda marcava sua expressão.
— Não exatamente... Muitas vezes eu só começo a cantarolar alguma que está na minha cabeça. Às vezes eu estou tão distraída que nem percebo que estou cantarolando.
Robin assentiu devagar, embora Wolf mal pudesse vê-la.
— Tem alguma música na sua cabeça agora?
Wolf franziu a testa.
— Esse não é momento nem lugar para cantar.
— Eu sei.
Robin não insistiu nem tentou explicar o que estava fazendo. Apenas virou a cabeça para o outro lado e procurou Steve por cima do próprio ombro, encontrando o rosto dele ainda inclinado e parcialmente escondido pelo cabelo. Um dos olhos permanecia inchado, enquanto o sangue seco cobria parte da boca e do queixo.
— Steve?
Ele não respondeu.
— Steve, acorda.
Wolf observou Robin durante alguns segundos e só então percebeu que não estava mais tentando se libertar. Seus pulsos continuavam doloridos, presos contra a cadeira, mas os braços tinham parado de puxar as amarras, e a respiração, embora ainda irregular, já não escapava com a mesma violência.
Robin não queria uma apresentação nem esperava que ela fingisse estar tranquila. Havia conduzido a conversa por um caminho aparentemente aleatório apenas para afastar sua mente do que poderia acontecer quando os soldados voltassem, e, durante aquele curto intervalo, conseguira fazê-la parar.
Enquanto Robin chamou Steve novamente, Wolf desviou os olhos para ele e deixou o silêncio se prolongar por mais alguns segundos antes de abrir a boca. Os primeiros versos de Dream a Little Dream of Me saíram baixos e suaves, sua voz ainda carregou pequenas falhas provocadas pela respiração instável até encontrar o ritmo da melodia.
— ...Stars shinin' bright above you...
Robin continuou tentando acordar Steve enquanto a música se espalhava discretamente pela sala, contrastando com as superfícies metálicas, as amarras e o cheiro de sangue. Wolf não cantava para os outros, nem procurava transformar aquele momento em algo menos grave; apenas se prendeu às palavras conhecidas e ao controle da própria voz, mantendo os olhos atentos à dupla à sua frente.
— ...Night breezes seem to whisper, I love you...
Depois de duas frases, Steve mexeu a cabeça. A testa se contraiu, e ele tentou erguer o rosto, mas desistiu antes de completar o movimento e tornou a deixá-lo pender.
— Ei... dá para vocês pararem de falar?
Robin se virou o máximo que as amarras permitiram, e o alívio atravessou imediatamente sua expressão.
— Steve! Meu Deus. Steve...
Ele abriu o olho menos inchado e piscou algumas vezes, ainda desorientado, enquanto a voz de Wolf continuava baixa ao fundo.
— Quem está cantando?
Robin soltou uma risada curta e quase sem ar.
— É a Wolf. Eu pedi para ela cantar para se distrair e parar de se debater nas amarras.
Steve respirou pela boca e deixou a cabeça recostar contra a de Robin.
— Ah, ótimo.
Wolf manteve os olhos nele e continuou cantando sem aumentar o volume, usando a melodia para sustentar o ritmo da respiração enquanto acompanhava cada movimento que ele conseguia fazer. Robin ainda levou alguns segundos para recuperar o fôlego antes de perguntar:
— Você está bem?
Steve fechou os olhos por um instante, como se precisasse reunir energia até mesmo para avaliar o próprio estado.
— Meus ouvidos estão zumbindo, e eu não consigo respirar direito. Meu olho parece que vai saltar do crânio, mas, tirando isso, estou ótimo.
A ironia não combinava com a aparência dele. O rosto continuava inchado, um dos olhos mal se abria e o sangue seco havia escurecido ao redor da boca, mas Robin deixou escapar outra risada nervosa antes de tentar oferecer a única notícia que poderia chamar de boa.
— Bem, a boa notícia é que estão chamando um médico.
Steve demorou alguns segundos para processar a informação e, quando conseguiu erguer um pouco mais a cabeça, observou o ambiente ao redor. Faixas verticais de luz branca atravessavam as paredes metálicas, enquanto uma grande luminária clínica pendia sobre eles e carrinhos de aço permaneciam distribuídos pela sala com uma organização fria e inquietante.
— Esse é o lugar onde ele trabalha?
Robin lançou um olhar para a luminária suspensa, e Steve acompanhou as superfícies limpas e os equipamentos ao redor com o único olho que conseguia manter aberto direito.
— Adorei o clima. — Steve comentou. — Encantador.
Robin riu baixo.
— Pois é.
Wolf continuou cantando enquanto observava Robin mudar gradualmente o foco para o restante da sala. O alívio de ouvir Steve consciente não eliminou o perigo, mas permitiu que a garota procurasse alguma coisa ao alcance deles, e seus olhos logo se fixaram numa mesa metálica posicionada a alguns metros das cadeiras.
Robin inclinou o corpo para um dos lados, testou o pouco movimento permitido pelas amarras e tentou orientar Steve sem conseguir apontar com as mãos.
— Então, certo... está vendo aquela mesa ali, à sua direita?
Ainda atordoado, Steve virou a cabeça lentamente para o lado oposto.
— Não. A outra direita — Robin orientou rapidamente.
Ele corrigiu o movimento, e o olhar de Wolf acompanhou o dele até a mesa enquanto sua voz permaneceu baixa, deslizando pela música sem que ela deixasse de prestar atenção ao plano que começava a se formar.
Steve corrigiu o movimento da cabeça e encontrou a mesa indicada por Robin, onde uma bandeja metálica mantinha diversos instrumentos organizados sob a iluminação branca. Entre eles, uma tesoura repousava próxima à borda, ao alcance apenas se conseguissem reduzir a distância que os separava dela.
— Está vendo aquela tesoura? — Robin perguntou.
— Estou.
— Se a gente se mover ao mesmo tempo, conseguimos chegar até lá. Então eu chuto a mesa e derrubo a tesoura no seu colo.
Steve manteve o olhar preso ao objeto enquanto completava o raciocínio:
— E eu corto as amarras.
— Isso. E a gente sai daqui.
A voz suave de Wolf continuou preenchendo o fundo da sala enquanto ela observava os dois com atenção, acompanhando o olhar de Steve até a bandeja e a explicação de Robin sem interromper a música.
— Certo — Steve concordou, antes de uma expressão incrédula atravessar seu rosto ferido. — Aqueles imbecis deixaram uma tesoura aqui?
Robin riu baixo.
— Deixaram.
— São uns completos imbecis.
O sorriso permaneceu no rosto dela por mais um instante, mas logo cedeu lugar à concentração enquantoajeitava os pés sobre o chão e testava o pouco movimento permitido pelas amarras.
— Certo, então... no três, a gente pula.
— No três? — Steve repetiu.
— Isso.
Steve também firmou os pés, ainda que a posição das cadeiras e os corpos presos costas com costas impedissem que qualquer um dos dois acompanhasse visualmente a preparação do outro. Restava confiar na contagem e na pressão que sentiam através dos encostos.
— Um, dois, três.
Os dois impulsionaram os corpos ao mesmo tempo. As bases das cadeiras se ergueram apenas o suficiente para avançarem num movimento brusco, e os apoios rasparam o chão antes de voltarem a tocá-lo com um ruído metálico. A distância percorrida foi pequena, mas aproximou-os da mesa.
Robin olhou novamente para a tesoura.
— Funcionou.
— É.
— Vamos de novo.
— Certo.
A música permaneceu baixa ao fundo enquanto eles se preparavam para repetir o movimento. Dessa vez, ambos acompanharam a contagem:
— Um, dois, três.
As cadeiras saltaram juntas e avançaram mais alguns centímetros, balançando quando os apoios tocaram o chão. Robin conteve uma risada de entusiasmo ao perceber que a mesa já estava consideravelmente mais próxima.
— Isso vai funcionar!
Steve avaliou a distância restante com o olho que conseguia manter aberto.
— Estamos perto. Pronta?
— Certo.
Robin firmou os pés mais uma vez, enquanto Steve fez o mesmo atrás dela. As cadeiras permaneceram pressionadas uma contra a outra, ligeiramente desalinhadas pelos movimentos anteriores.
— Um, dois, três!
Os dois se impulsionaram com mais força, tentando cobrir de uma vez a distância que ainda faltava. As bases avançaram, mas uma das cadeiras girou quando os apoios atingiram o chão, deslocando o peso dos dois para o mesmo lado. Robin soltou um grito ao sentir o equilíbrio desaparecer, e Steve tentou apoiar os pés, porém a inclinação já os arrastava para baixo.
As cadeiras tombaram juntas, levando os dois ao chão ainda presos costas com costas. O metal atingiu a superfície com um estrondo, seguido pelos gemidos de Robin e Steve quando seus corpos foram lançados de lado sem que pudessem usar as mãos para amortecer a queda.
O impacto arrancou gemidos dos dois, que permaneceram caídos de lado, ainda presos às cadeiras tombadas e pressionados costas com costas pelas faixas largas ao redor do tórax. Steve apertou os olhos enquanto a dor atravessava o corpo já castigado, e Robin manteve o rosto encostado no chão frio, respirando entre os dentes até o desconforto imediato começar a ceder.
Quando os gemidos diminuíram, restaram apenas a respiração pesada dos dois e os pequenos ruídos das amarras sempre que tentavam encontrar uma posição menos dolorosa. Foi nesse silêncio que um som baixo escapou de Robin, fraco e entrecortado o bastante para Steve interpretá-lo como choro.
— Tudo bem. Tudo bem — murmurou, ainda com a lateral do rosto apoiada no chão. — Não chora, Robin.
O som se repetiu, porém, em vez de se transformar num soluço, cresceu até se revelar uma risada abafada. Steve franziu a testa e tentou virar a cabeça na direção dela, embora as cadeiras e a posição dos corpos mal permitissem qualquer movimento.
— Você está rindo?
Robin continuou por mais alguns segundos antes de conseguir responder.
— Estou.
— Jesus!
Ela ergueu um pouco o rosto, mas a tentativa apenas aumentou a pressão das amarras contra o peito, obrigando-a a recostar a cabeça novamente. O riso ainda atravessava suas palavras quando pediu:
— Desculpa.
Steve soltou o ar pelo nariz, dolorido demais para compartilhar do humor.
— Eu sinto muito — Robin insistiu, tentando controlar a própria respiração. — É só que... eu não acredito que vou morrer numa base russa secreta com Steve "Cabelo" Harrington.
Steve abriu o olho menos inchado e fitou o chão diante dele.
— É surreal demais, cara — Continuou Robin.
— A gente não vai morrer — respondeu, com a voz arrastada, mas firme. — Vamos sair daqui, está bem? Só...me deixa pensar por um segundo.
Robin ficou quieta enquanto ele fechava os olhos e tentava reunir alguma ideia entre a dor, o zumbido nos ouvidos e a pressão da cadeira contra o corpo. Nenhuma solução surgiu, e, depois de alguns instantes, foi ela quem rompeu o silêncio novamente.
— Você se lembra da aula de história do segundo ano da senhora Click?
Steve franziu ainda mais a testa, balançando a cabeça.
— Quê?
— Senhora Clique-Clique — explicou Robin, com um sorriso voltando lentamente à voz. — Era assim que nós, os otários da banda, chamávamos ela.
Steve soltou um suspiro cansado, apoiando de volta a testa no chão frio, sem entender por que ela tinha escolhido aquele momento para falar da escola, mas não a interrompeu.
— Era no primeiro período, às terças e quintas. Você sempre chegava atrasado — continuou Robin. — E sempre trazia o mesmo café da manhã. Bacon, ovo e queijo num bagel com gergelim.
A lembrança parecia distante demais daquela sala, mas saiu de sua boca com uma facilidade surpreendente, carregada de detalhes que permaneceram guardados durante anos sem qualquer utilidade aparente.
— Eu sentei atrás de você, duas vezes por semana, durante um ano. — Robin fez uma pausa. — Senhor Engraçadinho. Senhor Descolado. O próprio rei da Hawkins High.
Steve abriu os olhos, mantendo o rosto voltado para o chão enquanto escutava.
— Você sequer se lembra de mim naquela aula?
O silêncio dele se prolongou.
Robin soltou uma risada pequena, sem qualquer surpresa.
— Claro que não.
Steve apertou os lábios, mas não tentou inventar uma resposta.
— Você era um babaca de verdade, sabia?
— É, eu sei.
Não houve defesa nem indignação na voz dele. A admissão veio simples, quase cansada, e Robin deixou alguns segundos passarem antes de continuar.
— Mas nem importava. Não importava que você fosse um babaca. Eu ainda era...
Ela hesitou, como se a palavra seguinte exigisse mais esforço do que toda a lembrança anterior.
— Obcecada por você.
Steve permaneceu imóvel, absorvendo a confissão enquanto Robin prosseguia:
— Mesmo que todos nós, os perdedores, fingíssemos estar acima de tudo aquilo, a gente ainda queria ser popular... aceitos... normal.
As palavras saíram mais devagar no fim, já sem o mesmo humor. Robin olhou para um ponto indistinto diante dela, com a bochecha apoiada no chão e os cabelos espalhados ao redor do rosto, enquanto Steve desviava os olhos para cima, pensativo.
— Se isso faz você se sentir melhor, ter essas coisas não é tudo isso — disse ele.
Robin permaneceu em silêncio.
— É sério. Isso me deixa pasmo. Tudo que as pessoas dizem que é importante, tudo que falam que você deveria valorizar... é tudo... mentira.
Steve soltou uma risada curta e sem alegria antes de acrescentar:
— Mas acho que a gente precisa errar pra conseguir entender as coisas, não é?
— Espero que sim — respondeu Robin. — Sinto que minha vida inteira foi... um grande erro.
Um sorriso discreto surgiu no rosto de Steve.
— É.
Robin também sorriu, deixando a cabeça recostar melhor contra o chão.
— Pelo menos não tem como ficar pior do que isso.
Os dois riram baixo, e o som se espalhou brevemente pela sala antes de desaparecer outra vez. Steve manteve o sorriso por alguns segundos, olhando para o nada, até tornar a falar num tom mais leve.
— Sabe, eu queria ter conhecido você na aula da Click.
Robin ergueu as sobrancelhas, inclinando o quanto podia a cabeça para tentar encará-lo.
— É?
— De verdade, queria mesmo.
Ela soltou outra risada curta, mas Steve continuou:
— Talvez você pudesse ter me ajudado a passar na matéria. Talvez, em vez de estar aqui, eu estivesse a caminho da faculdade agora.
— E eu não ia fazer ideia de que existem russos malignos debaixo dos nossos pés — respondeu Robin agora trazendo um pequeno tom de deboche — E eu estaria feliz da vida servindo sorvete com algum outro idiota.
Steve sorriu, trazendo uma leve risada junto.
— Tenho que admitir que gostei de ser o seu idiota.
Robin ficou em silêncio, ainda sorrindo.
— Foi divertido enquanto durou — completou ele.
— Foi.
A resposta saiu baixa e sincera. Durante alguns segundos, nenhum dos dois acrescentou mais nada, e a sala pareceu pequena o bastante para conter apenas aquela conversa, apesar das amarras, do sangue e da ameaça que continuava esperando do outro lado da porta.
Então um sinal eletrônico rompeu o silêncio.
Robin perdeu o sorriso no mesmo instante. Steve abriu os olhos e tentou erguer a cabeça enquanto o mecanismo da porta se destravava com um ruído pesado. O painel metálico deslizou para o lado, deixando a luz do corredor invadir a sala antes que o oficial russo entrasse acompanhado por vários soldados e por um homem magro de jaleco branco.
O oficial interrompeu o passo ao encontrar Steve e Robin caídos no chão, ainda amarrados às cadeiras tombadas. Seu olhar passou pelas bases metálicas deslocadas e pela mesa que os dois tentaram alcançar antes de retornar aos rostos deles.
Mais ao fundo, Wolf continuava presa à terceira cadeira, silenciosa.
O oficial inclinou levemente a cabeça, saboreando a cena diante dele.
— Aonde vocês dois pensavam que iam?
Steve apertou a mandíbula, mas não respondeu. Robin também permaneceu calada enquanto dois soldados se aproximaram e agarraram as cadeiras pelos encostos e pelas bases. Eles as ergueram sem qualquer cuidado, arrancando novos gemidos dos dois quando as estruturas voltaram bruscamente à posição vertical e o peso de seus corpos caiu outra vez contra as amarras.
Enquanto os guardas mantinham Steve e Robin imobilizados, o homem de jaleco branco avançou alguns passos para dentro da sala. Era calvo, usava pequenos óculos redondos e carregava um frasco estreito cheio de um líquido azul intenso, que examinou contra a iluminação antes de encaixá-lo cuidadosamente num instrumento metálico.
O oficial se aproximou de Steve e apertou uma das mãos contra seu rosto, pressionando, propositalmente seus machucados e obrigando-o a manter o corpo erguido apesar da dor.
— Tentem dizer a verdade desta vez, sim?
Steve levantou o olho menos inchado para encará-lo.
O oficial sorriu.
— Vai tornar a visita de vocês ao doutor Zharkov menos dolorosa.
O oficial manteve o sorriso enquanto apertava os dedos contra a lateral ferida do rosto de Steve, pressionando o polegar próximo ao corte na boca até arrancar dele uma careta de dor. Steve fechou os olhos e tentou afastar a cabeça, mas o homem acompanhou o movimento sem aliviar a pressão, observando com satisfação o esforço inútil antes de soltar uma risada baixa.
Foi nesse momento que Wolf percebeu o médico alguns passos próximo do oficial, com o frasco azul encaixado na parte superior de um instrumento metálico. De sua posição no canto da sala, ela conseguiu acompanhar cada movimento das mãos dele enquanto ajustava o recipiente e verificava a agulha fina projetada na extremidade. Sua respiração falhou assim que compreendeu o que eles pretendiam fazer.
O olhar, até então endurecido pela raiva, permaneceu preso ao líquido azul. Seus olhos se arregalaram, e toda a agressividade desapareceu de sua expressão enquanto ela puxava os braços de uma vez, fazendo as amarras rangerem contra os pulsos já feridos. A faixa ao redor do tórax segurou seu corpo contra o encosto, mas Wolf continuou se debatendo, empurrando os pés contra a parte inferior da cadeira clínica tentando recuar ainda mais.
Dessa vez, não havia desafio em seus movimentos. Ela não encarava os soldados como se esperasse uma oportunidade para atacá-los, nem tensionava o corpo com a fúria que havia demonstrado antes. Wolf tentava fugir da cadeira como um animal amedrontado, respirando rápido demais enquanto acompanhava o frasco e a agulha sem conseguir desviar os olhos.
O oficial ouviu o couro das amarras e virou o rosto na direção dela, permanecendo por alguns instantes apenas observando a mudança. Ao reconhecer no olhar de Wolf o medo que não havia conseguido arrancar dela até então, uma satisfação breve atravessou sua expressão, e seu sorriso se aprofundou antes que voltasse a atenção para Steve e soltasse o rosto do rapaz, abrindo espaço para que o médico se aproximasse.
Zharkov atravessou a sala com a mesma tranquilidade com que havia preparado o instrumento. Steve acompanhou o movimento e fixou o olhar no frasco azul, percebendo a agulha à medida que o homem parou diante dele.
— Espere um segundo. Espere. Calma aí.
Sem responder, o médico apenas ajustou a posição do instrumento entre os dedos e manteve os olhos em Steve enquanto se aproximava mais. O rapaz ergueu a cabeça e tentou recuar contra Robin, mas as faixas que prendiam os dois às cadeiras impediram qualquer afastamento.
— Espere, espere, espere! O que é essa coisa?!
Zharkov inclinou levemente a cabeça, como se a pergunta fosse quase divertida.
— Vai ajudar você a falar.
Ao fundo, Wolf continuou puxando as amarras com movimentos curtos e desesperados, sua respiração se misturou ao rangido do couro enquanto o médico erguia o instrumento até a altura do pescoço de Steve.
Ele tentou virar o rosto para o lado oposto, mas o médico agarrou seu cabelo e o manteve na posição. Conforme a ponta da agulha se aproximava da pele, Steve fechou os olhos com força e elevou a voz numa última tentativa de fazê-los parar.
— Você ao menos limpou essa coisa?!
Zharkov ignorou a pergunta e introduziu a agulha na lateral de seu pescoço. Steve gritou e tensionou o corpo inteiro contra as faixas, tentando se afastar enquanto o médico mantinha o instrumento firme e aplicava a substância azul.
A sala estava vazia quando Steve deixou a cabeça pender contra a de Robin, os dois ainda estavam presos costas com costas às cadeiras. O grito provocado pela injeção já tinha desaparecido havia algum tempo, assim como os passos dos russos, e agora restavam apenas o zumbido baixo das lâmpadas e a respiração dos três prisioneiros.
Steve piscou algumas vezes, procurando em si qualquer sinal do que o médico havia aplicado, mas não encontrou nada que soubesse identificar. Seu corpo continuava dolorido, o rosto latejava sob o sangue seco e o olho inchado mal se abria, porém nenhuma sensação nova parecia diferente o bastante para justificar toda aquela preparação.
— Sinceramente, eu não estou sentindo nada — comentou, deixando os olhos vagarem pela sala antes de perguntar: — E você?
Robin inclinou lentamente a cabeça, como se precisasse pensar na resposta.
— Quer dizer, eu... estou bem.
Ela piscou algumas vezes e voltou o olhar para o nada, demorando um pouco mais antes de concluir:
— Estou normal.
— É, eu também... estou bem — disse Steve, embora sua voz começasse a carregar uma leveza que não estava ali antes. — Na verdade, estou me sentindo bem.
Um sorriso preguiçoso se formou em seu rosto ferido, e Robin soltou uma risada baixa, quase distraída. Steve acompanhou o som, primeiro com um sopro divertido e depois com uma risada verdadeira, enquanto os dois relaxavam progressivamente contra os encostos.
No canto da sala, Wolf permanecia presa à cadeira com o corpo recolhido o máximo que as amarras permitiam. As sensações provocadas pela substância não tinham trazido qualquer leveza. Sua respiração continuava curta, os músculos permaneciam tensos e os olhos percorriam o ambiente com uma atenção inquieta, como se cada ruído distante pudesse anunciar a volta dos soldados.
Ela manteve os pés pressionados contra a parte inferior da cadeira clínica e apertou os dedos até as unhas marcarem as palmas. O terror que havia tomado sua expressão durante a aplicação da droga ainda surgia em pequenos lampejos, mas Wolf tentava escondê-lo sob uma seriedade rígida, mantendo a mandíbula travada enquanto se concentrava nas vozes de Steve e Robin.
— Quer saber de um segredo? — perguntou Robin, contendo outra risada.
— O quê? — perguntou Steve.
Robin ergueu o rosto, com um sorriso largo demais para a situação.
— Eu também estou gostando!
Os dois voltaram a rir, e o som pareceu crescer dentro da sala silenciosa. Steve fechou os olhos por um instante, deixando a cabeça repousar contra a de Robin enquanto sorria.
— Eu estou me sentindo bem.
Wolf os observou, cada vez mais irritada com a facilidade com que pareciam esquecer onde estavam. O riso dos dois ecoava alto demais, e nenhum deles demonstrava perceber a própria desinibição ou o perigo de chamar atenção dentro de uma base repleta de soldados.
— Imbecis — declarou Robin, satisfeita com a descoberta. — Eles erraram a droga.
Steve soltou outra risada.
— Erraram!
— Parem — ordenou Wolf.
Nenhum dos dois reagiu. Steve e Robin continuaram rindo, envolvidos demais na própria conclusão para sequer olhar na direção dela.
— Imbecis! — Robin chamou, elevando a voz. — Ei, imbecis!
— Imbecis! — repetiu Steve, rindo junto com ela.
Wolf respirou fundo pelo nariz, embora o ar parecesse insuficiente, e apertou ainda mais as mãos antes de voltar a falar, dessa vez com a voz mais áspera:
— Calem a boca!
Robin virou parcialmente o rosto, mas seu olhar não chegou a encontrar Wolf. O sorriso permaneceu por mais alguns segundos, até que uma pequena percepção pareceu atravessar a névoa de euforia.
— É... — murmurou, piscando devagar. — Tem definitivamente alguma coisa errada com a gente.
Steve ainda sorria quando assentiu.
— Tem alguma coisa errada.
O sinal eletrônico da porta soou antes que qualquer um deles pudesse acrescentar mais alguma coisa.
O sorriso deles desapareceu por completo, o corpo de Wolf se enrijeceu contra a cadeira quando o mecanismo começou a destravar. Steve e Robin voltaram os rostos na direção do ruído, ainda lentos demais para esconder o efeito da substância, enquanto a porta metálica se abria e os primeiros guardas entravam novamente na sala.
O primeiro guarda entrou com a arma erguida e ocupou uma posição próxima à porta, seguido pelo oficial e pelo médico. Steve e Robin acompanharam a movimentação com os olhos, ainda presos costas com costas às cadeiras, enquanto Wolf permaneceu rígida contra o próprio encosto.
O médico carregava uma bolsa escura. Ele a colocou sobre a mesa, abriu os fechos e começou a retirar de dentro dela uma série de ferramentas metálicas, posicionando cada uma cuidadosamente sobre a superfície.
Wolf observou os instrumentos surgirem um após o outro. O pouco de seriedade que havia conseguido reunir não escondeu o medo que voltou a tomar seus olhos, e o pensamento escapou de sua boca num sussurro quase involuntário:
— A verdadeira tortura vai começar...
O oficial permaneceu de costas para ela, diante de Steve, mas ouviu. Um sorriso satisfeito apareceu por um instante em seu rosto antes de desaparecer novamente.
Robin inclinou a cabeça numa forma exagerada para enxergar o médico.
— Sabe, eu realmente não gosto de doutores.
O oficial manteve os olhos em Steve.
— Vamos tentar de novo?
Steve passou a língua pelo ferimento no canto da boca, sentindo o gosto do sangue enquanto se preparava para repetirem o interrogatório.
— Para quem você trabalha? — questionou o oficial.
Steve sustentou o olhar do oficial por alguns segundos antes de responder:
— Scoops.
Ele deixou escapar uma risada.
— Scoops Ahoy.
Robin começou a rir junto com ele. O oficial não reagiu.
— Como você nos achou?
— Totalmente por acidente.
Steve terminou a resposta com outra risada, e Robin continuou acompanhando-o.
Wolf engoliu em seco. Seu olhar passou desesperadamente de Steve para Robin e depois para o oficial, tentando medir a reação dele enquanto os dois riam de respostas que soavam como provocações. As ferramentas já haviam deixado claro o que aconteceria quando a paciência dos russos terminasse.
O oficial ergueu a cabeça e olhou na direção do médico.
— Mais mentiras — disse em russo.
O médico apenas levantou os ombros, como se estivesse acostumado a ouvir prisioneiros mentirem durante interrogatórios.
— Ele está dizendo a verdade — protestou Wolf, também em russo.
O oficial não se virou imediatamente.
— Você nos deu o soro da verdade, não? — continuou ela.
Dessa vez, ele girou lentamente em sua direção. Wolf tentou permanecer imóvel sob o olhar dele, prendendo o pânico atrás da mandíbula cerrada enquanto o oficial a encarava diretamente.
— E, ainda assim, mentem.
Ele se virou novamente e voltou a ficar diante de Steve. Depois, lançou um olhar direto para o médico e inclinou discretamente a cabeça.
Zharkov escolheu uma das ferramentas organizadas sobre a mesa. Steve acompanhou o movimento até reconhecer o alicate entre os dedos dele, a diversão desapareceu de seu rosto imediatamente.
— Ei. Ei, espera. O que você vai fazer com isso?
O médico se aproximou sem responder. Steve tentou se afastar, mas as correias mantiveram seu corpo preso a cadeira. Zharkov segurou a mão dele, firmou os dedos e posicionou o alicate sobre uma das unhas.
Steve tentou puxar o braço com toda a força que conseguiu, inutilmente.
— Não, não, não. Espera!
— Havia um código! Nós ouvimos um código! — vociferou Robin.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!O médico interrompeu o movimento. Ainda segurava a mão de Steve, com o alicate posicionado sobre a unha, mas voltou o rosto para o oficial e aguardou novas ordens.
O oficial deixou Steve e caminhou lentamente até Robin, mantendo as mãos escondidas atrás das costas.
— Código. Que código?
— Uma frase em russo. Captamos uma frase estranha em russo — interveio Wolf, em russo, respondendo antes que Robin pudesse continuar.
Robin não prestou atenção nela. Seus olhos permaneceram no oficial diante de sua cadeira, e um sorriso voltou a surgir em seu rosto.
— A semana é longa. O gato prateado se alimenta quando o azul encontra o amarelo no oeste. Blá blá blá. Você transmitiu aquela merda estúpida de espionagem por toda a cidade.
— Ouvimos, sem querer, pelo rádio. Sua transmissão foi interceptada, totalmente pelo acaso, quando tentávamos nos comunicar por walkie-talkie — explicou Wolf em russo, escolhendo cada palavra enquanto misturava a verdade a uma versão cuidadosamente incompleta dos acontecimentos.
Robin continuou, sem compreender o que Wolf dizia atrás dela:
— Nós captamos com o Cerebro e a deciframos em um dia. Um dia!
— Na verdade, levou mais de um dia... — continuou Wolf.
O oficial desviou os olhos para o médico, dando um outro recado silencioso.
Zharkov soltou a mão de Steve, entendendo a ordem, deixou o alicate sobre a mesa e caminhou até Wolf. Ela percebeu a aproximação, mas as correias impediram qualquer tentativa de se afastar.
O soco atingiu seu nariz. A cabeça de Wolf pendeu bruscamente para o lado. O impacto fez o sangue preencher outra vez o rosto já machucado pelas sessões anteriores, fazendo escorrer depressa pelas narinas até alcançar seus lábios.
Steve viu o golpe. Seu corpo se contraiu na cadeira, e um gemido baixo escapou de sua garganta, breve demais diante da violência que acabara de presenciar, como se o impacto também tivesse atravessado seu próprio rosto.
Wolf permaneceu com a cabeça inclinada por alguns instantes. Depois, a moveu lentamente para retornar à posição anterior e engoliu ao sentir o sangue sobre a boca. Um fio vermelho desceu até seu queixo. Ela não tentou falar novamente, entendendo o recado.
Robin ouviu o som atrás de si, mas continuou, sem saber ao certo o que havia acontecido:
— Você se acha tão esperto, mas uns garotos que trabalham servindo sorvete decifraram seu código, e agora as pessoas sabem que você está aqui.
O oficial permaneceu diante dela, atento a cada palavra.
— Quem sabe que estamos aqui, sua vadia?
— Uh... bem, Dustin sabe — respondeu Steve.
Robin virou vagamente o rosto, tentando olhar para ele por cima do próprio ombro.
— Ei, Steve?
— É, Dustin Henderson, ele sabe — Steve continuou.
Robin inclinou a cabeça, e a repreensão saiu com um deboche que mal escondia a preocupação enterrada sob o efeito da droga:
— Steve!
O oficial repetiu o nome como se acabasse de encontrar algo importante:
— Dustin Henderson.
Steve soltou algumas risadinhas ao fundo, sem perceber a gravidade da informação que tinha acabado de entregar.
Wolf manteve os olhos fixos nele. O sangue continuou escorrendo de seu nariz, atravessando os lábios e pingando do queixo, enquanto sua cabeça permanecia ligeiramente inclinada pelo peso deixado pelo golpe. Ela reconhecia com clareza o tamanho da merda que os dois estavam fazendo, mas permaneceu em silêncio, sem poder impedir. Mas profundamente preocupada.
O oficial começou a caminhar novamente até Steve.
— É seu amigo de cabelo cacheado?
— É, cabelo cacheado. Ótimo cabelo. Pequeno. É.
O oficial parou diante dele.
— Onde ele está?
Steve sorriu.
— Ah, ele já foi embora, seu cuzão. E, provavelmente, está ligando pro Hopper, e Hopper está ligando pro governo americano.
Ele soltou outra risadinha antes de continuar:
— Vão entrar aqui com soldados especiais, atirando em tudo, e vão enviar vocês de volta pra Rússia. Vocês já eram.
Steve continuou rindo depois de terminar a ameaça. O oficial se inclinou diante dele até deixar o rosto quase na mesma altura e o observou com uma expressão que oscilava entre incredulidade e diversão.
— É mesmo?
Steve sustentou o olhar dele.
— É.
A confirmação provocou outra risada, logo acompanhada por Robin. O oficial permaneceu imóvel por um instante, como se ainda tentasse decidir se havia alguma seriedade escondida naquela resposta, mas acabou começando a rir junto com os dois. Zharkov também se curvou ligeiramente ao lado do oficial e acompanhou a reação, enquanto Wolf permaneceu presa à cadeira, em silêncio, com o rosto inclinado e o sangue ainda escorrendo do queixo, incrédula assistindo a todos eles.
O alarme atravessou a sala no meio das risadas e interrompeu o momento de forma abrupta. O sorriso desapareceu do rosto do oficial, que voltou a cabeça imediatamente para a porta, enquanto Zharkov se endireitou e os três prisioneiros acompanharam o ruído. Do lado de fora, passos apressados e vozes em russo começaram a preencher os corredores.
Depois de lançar um último olhar para Steve e Robin, o oficial deixou a sala e avançou por uma das passagens da instalação. Soldados corriam em direção à área central, surgiam pelos corredores laterais e se acumulavam diante da entrada principal, falando uns por cima dos outros enquanto as luzes de emergência tingiam as paredes de vermelho. Ele atravessou o grupo exigindo respostas em russo e emitiu uma ordem curta, fazendo os homens interromperem a confusão e prestarem continência.
Abaixo deles, o chão estava em meio à fumaça e descargas elétricas. O líquido verde corroeu as estruturas ao redor e espalhou uma névoa pelo poço, enquanto cabos estalaram e peças metálicas vibraram sob a energia descontrolada.
Zharkov permaneceu na sala de interrogatório com os prisioneiros, ainda próximo às cadeiras, até que a porta se abriu bruscamente atrás dele. Dustin entrou primeiro, carregando a arma elétrica diante do corpo, e Erica apareceu logo atrás.
O médico se virou, mas Dustin avançou antes que ele pudesse reagir e pressionou a extremidade do cabo contra seu peito. A descarga explodiu sobre o avental preto, espalhando faíscas azuis pelo ponto de contato enquanto Zharkov gritava e tinha o corpo atravessado por espasmos violentos. Dustin manteve a arma firme por mais alguns segundos antes de afastá-la, permitindo que o médico desabasse desacordado no chão ao lado da mesa.
Steve abriu um sorriso assim que reconheceu o garoto, ignorando o homem caído diante deles.
— Ei! Henderson!
Dustin olhou rapidamente para ele, ainda segurando a arma.
— Que loucura, eu estava falando de você — continuou Steve, animado demais para a situação.
Atrás dele, Robin reagiu à aparição das crianças com um sorriso igualmente exagerado.
— Meu Deus!
Dustin deixou a arma de lado e se abaixou diante de Steve para começar a soltar as correias que prendiam seus braços, enquanto Erica contornou as cadeiras e se ocupou das amarras de Robin.
— Preparem-se para correr — avisou Dustin.
Steve acompanhou os movimentos dele com uma expressão satisfeita, enquanto Robin tentou colaborar com Erica apesar da coordenação prejudicada. Assim que os dois ficaram livres, Dustin se afastou de Steve e foi até a cadeira separada em que Wolf continuava presa.
Ela ainda mantinha a cabeça ligeiramente inclinada, com o sangue seco misturado ao que permanecia sobre o nariz, os lábios e o queixo. Dustin não falou enquanto soltava as amarras dos braços, retirava as correias que prendiam o corpo dela ao encosto e, por último, libertava suas pernas.
Wolf moveu os pés para o chão e se sentou na beirada da cadeira, mas a mudança de posição fez a sala girar diante de seus olhos. As luzes verticais se alongaram, as paredes pareceram se inclinar e o piso perdeu qualquer estabilidade, obrigando-a a permanecer imóvel enquanto tentava acompanhar o movimento que atravessava sua visão. As pernas estavam pesadas e não ofereciam firmeza suficiente nem mesmo para que tentasse se levantar sozinha.
Quando Dustin começou a se afastar, Wolf ergueu a mão e a apoiou sobre o ombro dele.
— Eu vou precisar de ajuda.
O garoto não discutiu nem comentou. Apenas permaneceu diante dela e se firmou para que Wolf pudesse usar seu ombro como apoio.
Ela se levantou devagar, transferindo parte do peso para Dustin enquanto procurava equilíbrio. Assim que ficou de pé, seus dedos apertaram levemente o ombro dele, e o olhar permaneceu perdido à frente enquanto esperava que o ambiente parasse de girar o suficiente para que pudesse caminhar. Dustin não tentou apressá-la e continuou imóvel, sustentando a posição até que os olhos de Wolf finalmente voltaram a se concentrar e encontraram os dele.
Ao receber o sinal silencioso de que podiam avançar, Dustin passou um braço ao redor da cintura dela. Wolf colocou o próprio braço sobre os ombros do garoto e se apoiou nele, usando-o como referência para manter o equilíbrio enquanto dava os primeiros passos.
Erica já conduzia Steve e Robin para fora da sala. Os dois seguiram atrás dela, ainda desajeitados e afetados pela substância, enquanto Dustin e Wolf fechavam a fila e avançavam mais lentamente pelo corredor. Ela manteve o braço apoiado sobre os ombros dele, e Dustin continuou com a mão firme em sua cintura, permitindo que Wolf acompanhasse o caminho sem precisar soltar o apoio ou tentar caminhar sozinha.
Erica alcançou o carrinho que ela e Dustin haviam encontrado anteriormente e orientou Steve e Robin a entrarem na parte traseira. Steve subiu primeiro e se acomodou de um lado, seguido por Robin, que ocupou o espaço oposto.
Dustin ajudou Wolf a percorrer os últimos passos e manteve o braço ao redor de sua cintura enquanto ela segurava a lateral do veículo. Com o apoio dele, Wolf conseguiu entrar no compartimento traseiro, mas não permaneceu sentada. Ela se deitou no espaço entre Steve e Robin, dividindo o espaço com os dois enquanto eles continuaram acomodados de cada lado.
Somente depois de confirmar que Wolf estava dentro do carrinho, Dustin se afastou e ocupou o assento do motorista. Erica sentou-se ao lado dele, no lugar do passageiro, enquanto Steve e Robin permaneceram sentados na parte traseira e Wolf ficou deitada entre os dois, ainda ensanguentada e incapaz de se sustentar sem apoio.
Dustin segurou o volante, e Erica voltou a atenção para o caminho à frente.
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