Ligações Clandestinas
4 Capítulo 4
Notas iniciais
O cheiro adocicado chegou a seu nariz. Blake captou parcialmente a voz de Ruby em algum lugar a sua frente.
Como ela foi estúpida! Se sua voz e sua descrição física anterior junto com a bendita foto não tivessem confirmado sua identidade para Raven, sua cara de idiota deve ter lhe entregado.
—… então, eu estava testando novas receitas, quer experimentar um? — Ruby se virou tirando de dentro do forno da cozinha uma bandeja com vários cupcakes. — Hey! Blake? Você tava ouvindo alguma coisa do que eu tava dizendo?
— O quê? Claro… Desculpa, eu não estava ouvindo. — Blake desistiu de mentir para a amiga, era inútil, ela realmente não ouviu nada.
— Você tá bem? — Ruby deixou a bandeja de lado e se aproximou com preocupação estampada em seu rosto.
— Tô ótima, não há motivos para eu estar estranha. — Blake se apressou a dizer.
— Sério? Não parece… — Ruby procurou seu olhar, seus olhos prateados sempre tão afetivos, era difícil encontrar forças para mentir para ela.
Blake se virou, não podia sustentar o olhar. Ela olhou pela janela da cozinha e do outro lado do vidro estava a festinha de aniversário de Yang, ela captou imediatamente sua amiga no canto mais afastado, conversando com Raven.
— Eu sei que você sempre foi mais amiga de Yang, mas você também pode contar comigo, sabe disso, não é? — Ruby tentou mais uma vez e Blake sentiu seu coração apertar um pouco, ela era uma pessoa horrível escondendo seus problemas das amigas, mas dada a sua situação, contar provavelmente só pioraria.
— Aquelas duas, agora estão se dando bem? — Blake apontou para a janela e não precisava mencionar nomes para Ruby entender de quem ela estava falando.
— Espero que sim, Yang prometeu que ia tentar dar uma chance, eu espero que dê tudo certo. — A jovem ruiva se voltou para seus cupcakes e começou a colocá-los em outra bandeja.
— Você a convenceu disso? — Blake teve a decência de ir ajudar Ruby com a comida, apesar de ter sido uma desculpa qualquer, ela não ficaria de braços cruzados vendo a mais nova fazer tudo sozinha.
— Eu fiz o meu melhor. Mamãe e papai também ajudaram. — Ruby disse com uma expressão entristecida.
— Isso deve ser difícil para ela, digo, deixar o passado para trás.
— Nunca vai acontecer! — Ela disse bem séria, surpreendendo Blake.
— O que você quer dizer?
— Yang é muito ferida por ter sido deixada pela própria mãe, todas as inseguranças dela devem vir daí, ela pensa que tem algo errado com ela e por isso as pessoas a deixam.
Blake pensou em todas as vezes que ela ouviu a amiga loira se queixando sobre suas inseguranças em seus relacionamentos. Ela se sentiu culpada novamente, todas as oportunidades e Blake nunca fez nada para ajudar, ela sempre foi mais autocentrada, e quando começou seu namoro com Adam as coisas só pioraram, ela foi incapaz de pensar em ninguém que não fosse ela mesma durante todo esse tempo.
— Ela… Ela deve ter tido um bom motivo para ter deixado a própria filha, não é? — Blake perguntou hesitante, seu lábio inferior começando a tremer e ela não sabia mais o porquê.
Ruby parou no meio do caminho, um cupcake amarelo em sua mão e seu rosto em uma máscara rígida. Ela se virou para olhar Blake nos olhos e sua voz saiu séria e dura:
— Ela não queria ser mãe.
O queixo de Blake caiu e ela piscou algumas vezes como se isso fosse ajudar a processar aquilo que Ruby acabou de lhe dizer.
— Não pode ser verdade.
— Isso é difícil de engolir para nós, imagina para a Yang? Mas é a verdade. — Ruby voltou a exibir um semblante abatido e a ajustar os pequenos bolinhos na bandeja.
Um silêncio estranho caiu naquela cozinha de cores tão vivas em branco, amarelo e vermelho enquanto os cupcakes eram empilhados pelas mãos monótonas de Ruby e Blake.
— Será que ela está arrependida? Será que foi por isso que ela voltou?
— Eu não sei, Blake. — Ruby soltou um longo e pesado suspiro. — Ela não queria uma família, nem nada disso. Meu tio disse que a irmã era forte e ambiciosa, e isso estaria em seu caminho, ela acreditava que amor a tornava fraca.
Blake tentou associar essas novas informações a persona de Raven que ela conhecia. Não, ela não conhecia nada da mulher na qual ela estava se envolvendo com base em segredos e meias-verdades.
— Já o papai falou que ela tinha suas falhas, acho que ele só queria que Yang não pensasse que sua mãe era uma pessoa horrível. — Ruby fez uma pausa como se estivesse pensando no que acabou de dizer. — Eu não acho que ela seja uma pessoa horrível, de jeito nenhum, mas… Ela deve ter o coração duro e fechado, isso é mais triste do que revoltante.
Um coração fechado? Por que aquilo lhe soava tão familiar?
— Talvez ela esteja arrependida, talvez não, da última vez Raven não pediu desculpas nem nada assim, por isso Yang ficou furiosa e expulsou ela aos gritos. — Ruby continuou. — Acho que ela não é do tipo que volta atrás em suas decisões, ela deve ser cabeça dura igual a Yang. — Ela riu um pouco. — Foi o que papai disse.
— Ruby, minha filha? Cadê os cupcakes? — A senhora Summer abriu a porta da cozinha abruptamente.
As duas jovens deram um pulo de susto, ambas estavam tão envolvidas na conversa que nem perceberam que já tinha se passado um tempo considerável desde que saíram com a missão de pegar as guloseimas açucaradas.
— Ah, desculpa, mãe, já estão prontos, vamos levar agora! — Ruby respondeu sorrindo.
Blake seguiu as duas sem vontade de voltar para o local onde Raven estava.
~**~
Aquilo só podia ser uma piada de mal gosto. Por que ela tinha que passar por aquilo? Talvez fosse algum tipo de castigo divino por ela agir como uma depravada. Sim, deveria ter alguma divindade sádica se divertindo com seu sofrimento, rindo da tortura psicológica e da angústia que a sufocava.
Cada tique insuportavelmente lento do ponteiro de seu relógio de pulso era uma novo pensamento paranóico que germinava em sua mente.
Blake ainda fez o mínimo de esforço para disfarçar e interagir, suas habilidades sociais nunca foram notáveis, pelo contrário, ela se considerava uma introvertida incorrigível. Apesar disso, ela se meteu em uma mesa onde alguns amigos da época da escola estavam. Jaune e Pyrrha estavam falando sobre os planos para noivarem, e Blake ensaiou um parabéns para o casal, mas saiu tão superficial como uma folha seca flutuando em uma poça d'água.
Seus olhos continuavam desobedientemente a procurarem por Raven. A mulher estava ali, agindo de forma perturbadoramente normal, alimentando as paranóias na cabeça de Blake. Ela sabia mesmo? Será que ela a ignoraria de agora em diante? Estaria brava com Blake? O que Raven faria? Brigaria com ela? Deixaria esse assunto de lado para ser esquecido? Continuaria levando isso adiante como se o fato de Blake ter a enganado não fosse nada?
Ela estava enlouquecendo. O monstro da ansiedade estava se contorcendo dentro dela e parecia morder seu interior como um cachorro faminto devorando um osso velho.
Ela se afastou indo até a mesa central onde os comes e bebes estavam, um pouco mais de refrigerante não lhe faria mal.
Ela estava lá, tinha de estar. Blake a viu conversando com o senhor Taiyang. Ela olhou em volta, todos pareciam ocupados.
Ruby estava conversando com a amiga Penny sob a varanda, Yang estava em algum tipo de discussão com a mãe adotiva, Summer, e seu tio Qrow. Pelo que ela entendeu, o homem tinha dado de presente a sobrinha um kit de bartender e a senhora Summer não gostou nada da ideia.
Blake voltou sua atenção para a mulher de vermelho. Raven estava usando um vestido todo carmesim de mangas que iam até seus cotovelos, havia grandes botões presos na frente e a saia era cheia indo até a altura dos joelhos, um visual bastante conservador que não deixava se imaginar o tipo de coisa que Raven gostava e era capaz de fazer.
Ela sorriu para algo que Taiyang disse, que estranho, agora ela parecia tão branda... quantas facetas de Raven Blake desconhecia? Quem era ela afinal? A mulher pervertida e voraz com quem ela falava por telefone? A galanteadora e exigente QueenBird no site? A pessoa de coração duro e fechado que abandonou a própria filha?
Por quê ela era assim?
Blake passou por um relacionamento horrível, isso a fez ser uma pessoa mais frígida e se fechar consigo mesma. Será que Raven também passou por um relacionamento abusivo como ela?
Então era por isso que aquilo lhe soava tão familiar. Talvez não houvesse um abismo tão grande a separando de Raven.
— Hey!
Ela pulou no lugar, o copo de vidro parcialmente cheio com refrigerante de cola foi parar no chão e se quebrou em um som alto e característico.
— Yang! Você me assustou!
— Desculpe! Nossa, Ruby estava certa, você tá estranha ultimamente.
— Não inventa! — Blake se abaixou para recolher os cacos de vidro.
— Deixa comigo. — De repente o senhor Taiyang estava ali ao seu lado limpado o local onde o refrigerante havia caído.
— Me desculpe, eu não queria… — Blake gaguejou nervosa, ela odiava quando acabava sendo desajeitada.
— Tudo bem, não precisa se preocupar com isso. — Taiyang disse, rindo. O homem era como uma versão masculina de Yang, um cara grande, boa praça, bronzeando, loiro e com a barba por fazer. — Eu criei duas filhas elétricas, difícil era passar um dia sem nada quebrar.
— Hey! — Yang exclamou protestando.
— Nem vem com essa, você era como um foguete descontrolado. — O homem passou o braço ao redor da filha e apertou em um braço, Yang resistiu e ambos entraram em uma brincadeira rindo.
Blake olhou a cena como se uma névoa estranha estivesse cobrindo seus olhos. Seu cérebro estava em outra estação, totalmente fora de sintonia com o que estava acontecendo bem ali na sua frente, mas ainda a interferência da realidade estava ali, chiando no canal de forma intrusiva.
O que ela estava fazendo ali? Blake não conseguia prestar atenção a seus amigos, nem estar realmente presente, sua mente continuava flutuando para pensamentos que envolviam Raven.
— Blake? Para onde você tá indo? — Yang gritou e ela parou.
Quando foi que seus pés decidiram andar sozinhos? Não importava, talvez eles fossem mais sensatos que ela própria.
— Desculpa, Yang, eu tenho de ir, realmente, me desculpe. — Blake sentiu suas pernas se movendo rapidamente para dentro da casa, ela zanzateou por entre os corredores e móveis.
Por que ela estava fugindo? De quê ela estava fugindo? De Raven? Mas por quê? Ela nem sequer tinha realmente certeza se a mulher tinha descoberto sua farsa, na melhor das hipóteses nada de ruim aconteceria, na pior… não! Blake não queria pensar nisso. Ela só queria sair dali, ficar longe daquele bagulho, ficar longe de todo mundo. Ela precisava de alguns minutos para respirar.
Mas ar era o que mais lhe faltava.
Assim que Blake colocou o pé na porta da frente ela percebeu seu erro, pois seu carro estava estacionado do outro lado da casa. Ela tentou dar meia volta quando sentiu-se sendo empurrada contra a parede.
Um grito de medo escapou dela enquanto ela tentava entender o que aconteceu. Quando Blake levantou a cabeça, ela deu de cara com seus medos materializados a sua frente.
Raven pressionou seu corpo contra o dela, a impedindo de escapar, uma mão voou direto para seu pescoço e o rosto da mulher mais velha pairou perigosamente perto do seu. Blake semicerrou os olhos, sentindo a respiração suave e constante de Raven batendo contra sua face.
— Oi, gatinha. — Ela disse em uma voz sedutora que fez Blake suspirar e ter vontade de se agarrar e beijar a mulher mais velha imediatamente. — Você se divertiu… — Raven deixou seus dedos brincarem na gola de sua camisa para logo em seguida se fecharem ao redor de seu pescoço em um aperto leve. — Se divertiu me fazendo de trouxa?!
Blake estremeceu e se encolheu em covardia quando Raven esbravejou na sua cara, a voz alta e carregada de raiva que ela obviamente estava reprimindo a noite inteira.
— Responda o que eu te perguntei! — Raven ralhou exigente.
— E-eu… eu não queria te enganar! — Blake tirou forças para empurrar a mulher, se liberando de seu perto.
— Ah, você não queria me enganar? — Raven debochou. — Então foi tudo sem querer? Você ligou para mim fingindo não me conhecer por acidente?
— Eu…
— Pare de tentar me fazer de idiota!
Blake podia ver o rosto dela retorcido de raiva, o vermelho de seus olhos brilhando perigosamente. Era estranho ela achar isso atraente também?
— Eu posso explicar, eu juro que eu posso explicar, por favor. — Ela implorou.
Raven a fitou de forma julgadora, ela olhou para a porta e soltou um bufo aborrecido. A mulher agarrou seu braço novamente e a arrastou na direção do jardim.
Blake a acompanhou até a rua. Do outro lado da calçada estava um sedã preto, e ela viu Raven puxar a chave a destravar as portas com um bipe.
— Entra no carro! — Ela ordenou e Blake deu a volta abrindo a porta do passageiro e se sentando.
Raven se acomodou no banco do motorista. Blake reparou que ela não colocou a chave na ignição, isso mostrava que a mulher não tinha intenção de sair dali. Era apenas para as duas terem privacidade.
— Muito bem. — Raven agarrou o volante com força desnecessária. — Você disse que podia explicar, então me deixe ouvir suas explicações. — Ela terminou revirando os olhos, descontente.
— Eu… eu estava com tanto medo.
Raven virou a cabeça, intrigada, parecia que ela não esperava ouvir aquilo.
— Medo de quê?
Blake soltou um riso nervoso.
— Medo de como você reagiria ao saber que uma amiga de sua filha estava interessada em você, eu… eu achei que alguém como você nunca se interessaria por alguém como eu. — Blake disse afundando no banco de couro do carro de Raven.
A mulher mais velha estalou a língua parecendo um tanto desapontada.
— Eu entendo seu lado, mas isso não justifica o que você fez.
— Eu sei… — Blake olhou para a escuridão no chão do veículo. — Me desculpe por isso, eu realmente não fui honesta com você… eu sou uma covarde.
— Não tanto. — Ela se surpreendeu ao ouvir a voz se Raven mais suave e até compreensiva. — Você me achou, ligou para mim, isso exigiu coragem, só não sei como ou o porquê tomou tamanho risco.
— Eu… — Blake se ajeitou no banco virando um pouco seu corpo para olhar melhor para Raven. — Eu estava louca por você. — Ela sentiu seu rosto queimar de vergonha ao admitir aquilo. — Desde que te vi naquele dia eu não tirei você da cabeça, e eu tentei, eu juro que tentei! Era uma atração quase incontrolável, algo que eu nunca senti antes.
— Então você resolveu dar uma de maluca e bisbilhotar minha vida? — Raven voltou a usar um tom de desaprovação. — Como me achou?
Blake estava certa que dependendo da resposta, Raven a odiaria ou a perdoaria. Ela decidiu contar a verdade.
— Algumas semanas atrás, eu estava no Coffer Blitz, aquela cafeteria no centro leste, apenas há algumas quadras da biblioteca municipal. — Blake começou. — Então você entrou, eu pensei em ir falar com você, mas então percebi que você estava em um encontro. Não pense que eu estava escutando sua conversa! — Ela se apressou a se justificar. — Mas como estava sentada perto, acabei ouvindo sobre o site e gravei o nome.
Raven sustentou o olhar o tempo todo, avaliando cada palavra que Blake dizia. Ela estava mais do que certa que a mulher saberia se ela mentisse na sua frente.
— Então eu pesquisei na internet. — Blake engoliu a seco e passou a unha distraidamente por sua calça de cor roxa. — Eu sei que fui meio stalker, procurei seu perfil e olhei seus posts, achei seu número e fiquei dias debatendo se ligava para você ou não.
Blake olhou para o parabrisa, o vidro temperado e escurecido por uma película fumê clara deixava quase impossível ver a rua do lado de fora sem o auxílio dos faróis que estavam desligados naquele momento.
— Eu fui movida pelos meus desejos, as pessoas podem achar isso errado, você pode achar isso errado! Mas era o que eu queria, eu me sentia tão bem, você não sabe o quanto nossas ligações me faziam bem!
— Garota…
— Eu entendo meu erro de não ter aberto o jogo com você desde o começo, e entendo que esteja brava com isso. Você me perdoará?
Raven se virou para frente evitando os olhos de Blake. Ela parecia ponderar sobre tudo que a mais jovem disse.
— Escute uma coisa, eu odeio que mintam para mim, odeio! Nunca mais faça isso! Prometa! — A mulher se virou e a olhou de forma muito séria.
— Eu prometo. — Blake alimentou uma faísca de esperança.
— O que você fez foi irresponsável, se jogando assim em um mundo que você não conhece por causa de tesão. Você podia ter se dado muito mal, e se eu fosse um doido perigoso? Tem ideia da enrascada que você poderia ter se metido?
— Eu estava atrás de você! — Blake acabou soando mais alta do que ela gostaria, ela abaixou a voz para continuar. — Por que a mãe da minha melhor amiga seria uma criminosa?
— Como você sabe que eu não sou? O que sabe da minha vida? Não se pode confiar assim em ninguém! — Raven disse irritada.
— E não é perigoso para você?!
Raven abriu a boca para responder, mas fechou rapidamente, ela franziu o cenho claramente incomodada pela resposta mal criada de Blake. Mas a verdade era que Blake não era tão mansa e passiva como a Kitty era.
— Saia. — Raven disse friamente.
Blake piscou sem reação.
— Saia! — A mulher mais velha repetiu mais exigente.
Ela abriu a porta e saiu do veículo. Blake ficou parada na calçada e viu o carro ligar e se mover pela rua se afastando rapidamente.
O que iria acontecer? Ela não fazia ideia, mas agora a noite parecia mais fria e solitária, parecia até um reflexo de sua vida.
~**~
Os dias seguintes foram estranhos, era como se tudo estivesse diferente, mas ao mesmo tempo era tudo sempre igual. Menos as noites, as noites eram completamente estranhas.
Blake deitava em sua cama, seu telefone caído ali no colchão, ela olhava de forma apática para a tela. Se acostumou com sua rotina de ligações no meio da noite, ouvir a voz de Raven falando coisas imorais em seu ouvido, se tocar imaginado estar com a mulher mais velha e sentir o prazer carnal sacudir seu corpo e fazer seus olhos virarem.
Claro que ela pensou em ligar, ou mandar uma mensagem, mas Blake também tinha sua cota de orgulho, ela não ia implorar atenção e se essa era a sua realidade agora, então ela aceitaria. Uma coisa era certa, aquele telefone não era mais o mesmo.
Gambol caminhou languidamente pela cama, Blake sentiu suas patinhas afundando no colchão, mas ela não teve ânimo para olhá-lo. O felino se deitou na frente de seu rosto arrancando um dos fones de ouvido que ela estava usando para escutar uma música instrumental um pouco agressiva.
Ela ensaiou uma bronca, mas os olhos grandes e expressivos dele minaram sua força para fazê-lo, Blake deitou a cabeça no travesseiro e acariciou a parte se cima de sua cabeça, bem entre as orelhas. Gambol ronronou com prazer.
Isso a distraiu por um momento, mas um bipe a fez arregalar os olhos. Blake havia colocado um toque diferenciado para a QueenBird, então ela soube na hora que era Raven lhe enviando uma mensagem.
Ela ainda hesitou um instante antes de abrir a mensagem, depois de tantos dias de silêncio, Blake teve certo receio sobre o que a mulher mais velha tinha a dizer.
“Quero ter uma conversar séria com você. Aceita me encontrar sábado à noite no Wabi-Sabi?”
Blake não se deu tempo para pensar muito, ela sabia que sua mente traiçoeira iria arrumar desculpas. Ela digitou sua resposta.
“Tudo bem, te encontro lá às 8 horas.”
Ela jogou o celular de lado e deitou de costas na cama, Gambol pulou na sua barriga e se enrolou em uma bola de pêlos preta começando a dormir. Blake simplesmente colocou o fone do ouvido e aumentou o volume da música.
~**~
Blake teve um pequeno auxílio de seu GPS para encontrar o local, ficava em um bairro mais afastado de onde ela morava. Os imóveis pareciam muito bons, deveria ser porque era longe do centro da cidade, tornando os terrenos mais em conta.
Ela parou o seu carro no estacionamento que o local oferecia de forma gratuita. Blake caminhou até a entrada vendo a placa simples em vermelho com o nome Wabi-Sabi seguido de uma série de caracteres orientais.
— Um restaurante japonês? — Ela murmurou para si mesma.
Ao entrar, Blake notou a estética bonita e simples do lugar. Lanternas de papel salmon pendiam no teto, o chão era de madeira escura e as paredes vermelhas com quadros de ideogramas japoneses. As mesas eram pequenas, cabiam duas pessoas de forma confortável, mas uma família ficaria apertada demais.
Blake encontrou Raven rapidamente, ela já estava acomodada em uma mesa afastada.
Ela se aproximou e a mulher levantou o olhar para ela, e Blake se sentiu estranha ao vê-la novamente. Raven estava usando uma camisa social cinza, o blazer vermelho estava descansando nas costas da cadeira, uma saia de cintura alta com um cinto de couro combinando com a meia-calça de fio negro e um salto alto médio.
De repente Blake ficou curiosa para saber o que Raven fazia da vida, pelas roupas ela parecia ter acabado de sair de um escritório de advocacia ou algo do gênero.
— Está oito minutos atrasada. — Raven disse soando entediada.
Blake franziu o cenho, ela não gostou de ouvir aquilo, de qualquer forma ela se sentou e deu sua desculpa pífia.
— Não ando muito por esse bairro. — Ela olhou a mesa, não estava vazia, havia um bule de cerâmica verde sobre um pequeno suporte aquecido, uma pequena bandeja com alguns utensílios combinando.
— Foi difícil de achar? — perguntou Raven levando um copo sem alça aos lábios, sua expressão ficou mais suave e ela olhou de forma cuidadosa para Blake.
— Não tanto, usei o GPS. — Seus olhos correram para o bule, um cheiro levemente adocicado foi captado por seu olfato.
— É chá, quer?
— Sim. — Blake respondeu em uma voz tão miúda que se não fosse o silêncio do restaurante ela não teria sido ouvida.
Raven pegou o bule e despejou calmamente o líquido no copo. Tinha uma aura diferente no ar, Blake não sabia se vinha do ambiente ou da própria mulher a sua frente, mas era calmante.
— Obrigada. — Blake disse pegando o copo, ela sentiu o calor e o cheiro intenso do chá.
Ela levou aos lábios e imediatamente se contraiu com o amargor do líquido verde chamativo.
Raven soltou um riso muito baixo, mas Blake se surpreendeu mesmo assim. A mulher a olhou com um ar presunçoso e disse:
— Que foi? Forte demais para você?
Blake fez uma leve careta, fosse para a bebida amarga ou para a provocação da outra.
— Que tipo de chá é esse? — Ela disse começando a sentir um sutil ardência em seu paladar, parecia familiar, mas Blake não conseguiu identificar o que era.
— É matcha. — Raven disse em tom explicativo. — As folhas são moídas até virarem pó, é o mesmo chá usado na chanoyu, a tradicional cerimônia do chá no Japão. — Ela sorriu pretensiosa para Blake. — Tem um sabor bem forte, eu sei que não é para todo mundo isso, especialmente quando se trata de mim.
Blake captou uma analogia ali, ela estava falando de algo que ia além de um mero chá.
— Como muitas coisas na vida, nem tudo é para todos e se deve aceitar quando alguém não se encaixar em certos estilos de vida.
— Eu…
— Escute o que eu tenho para te dizer. — Blake se calou e os olhos vermelhos de Raven a encararam muito sérios. — Aquilo que você disse na outra noite, está correto, esse estilo de vida que eu levo é perigoso, os ricos se escondem a cada curva percorrida, é perigoso para mim, para você, para todos. — Ela fez uma pausa enquanto sua expressão ficava um pouco mais sombria. — Você tem de saber disso, não vou te dar lições moralistas dizendo que isso é errado, mas você precisa conhecer o lugar onde está se metendo.
Blake olhou para baixo, suas mãos enroladas no copo quente de chá verde, ela de repente se deu conta que o sabor picante que formigou em sua boca era de gengibre, Raven deveria ter adicionado a raiz forte por gosto pessoal. Era como se a mulher mais velha sempre desejasse uma ardência a mais em sua vida.
— Eu já disse que eu queria você, e ainda quero. — Blake disse firme erguendo a cabeça para olhar nos olhos de Raven. — Eu não estou interessada em sair com outras pessoas no momento, meu interesse é em você.
— E que tipo de interesse é esse?
— Como assim? — Ela não entendeu completamente a pergunta.
Raven soltou um suspiro pesado, ela voltou a levar o chá a boca e continuou:
— Vou deixar bem claro, não importa o que você sente ou venha a sentir, isso não muda em nada o que eu sou. Meu envolvimento com as pessoas se restringe ao âmbito sexual, não espere um relacionamento comigo.
— Então era com isso que você estava preocupada? — Blake foi interrompida quando um garçom chegou segurando duas bandejas.
O rapaz deixou a comida com um cumprimento cortês e se retirou. Nas duas bandejas estavam vários pratos menores com diversos tipos de sushis e sashimis, recipientes com molho e uma tigela cheia de salada de pepinos.
Os olhos de Blake brilharam.
— Ouvi que você gosta de peixe. — Raven comentou sorrindo de lado, suas expressões deveriam ser um jogo divertido para a mulher mais velha.
— Como soube disso? — Blake se surpreendeu.
— Yang mencionou isso.
— Falou de mim para a Yang? — Ela quase teve um infarto nessa hora.
— Não se preocupe, não passou de um inocente comentário sobre a melhor amiga para sua mãe. — Raven explicou ardilosa. — Ela não desconfia de nada
— Nossa, espero que sim. — Blake soltou um riso nervoso. — Ela me mataria se soubesse.
Raven pegou o hashi e se pôs a degustar a comida.
— Você não tem medo que ela descubra? — Blake perguntou imitando o gesto dela e levando um sashimi a boca.
— É minha vida, ela não tem nada a ver com isso. — Raven disse como se fosse a coisa mais simples do mundo. — Vai abrir o jogo comigo ou não? — Ela observou Blake zumbindo de contentamento ao levar a boca um bom pedaço de salmão.
— Hum? Meu interesse? — Blake tirou alguns segundos para refletir, ela olhou fixamente para um sushi com várias pequenas ovas de peixe em cima.
Agora que ela realmente parou para pensar a respeito, em nenhum momento Blake pensou em Raven de um jeito romântico, era sempre de um jeito carnal. Ela imaginava a mulher mais velha como uma parceira sexual, não uma namorada ou algo do tipo.
— Meu interesse em você é… sexual, apenas.
Raven levantou uma sobrancelha um tanto incrédula.
— Tem certeza disso? Não me leve a mal, a quantidade de gente que eu já vi confundir as coisas é grande.
— Sim, tenho certeza, eu não sinto nada por você, a não ser atração sexual.
— Posso saber o que a faz ter tanta segurança no que diz? — Raven levou um pouco de salada com o hashi a boca.
Blake pensou se deveria ou não se abrir para a mulher, mas não era justo esconder seu passado quando havia sido feito um trato indireto sobre serem honestas uma com a outra.
— Eu não consigo criar laços afetivos com as pessoas, sentir aquilo que se chama de atração romântica.
Raven parou e a olhou atentamente, Blake não a encarou de volta, ela deixou seus olhos se turvaram quando começou um flash confuso de lembranças.
— Quando eu tinha quinze anos, conheci um cara, ele tinha dezoito na época. — Blake soltou um riso nervoso discreto. — Eu achava demais um cara mais velho se interessar por mim, eu sei, isso é super idiota, mas na época eu não sabia disso. — Ela fez uma breve pausa antes de continuar. — Eu passei um pouco mais de quatro anos com ele, era “perfeito” no início, mas a verdade é que ele era um abusador. Dominou minha vida, fez eu me afastar dos meus amigos, conquistou meus pais, me fez acreditar que eu deveria ser agradecida por ele fazer o favor de ficar comigo. Ele me fazia sentir pequena e inútil, isso acabou com minha autoestima.
Ela levantou a cabeça e viu que Raven a escutava atentamente, sua expressão era uma máscara inelegível e fria.
— Depois de acabar com meu psicológico, ele me deixou. — Blake fez uma longa pausa. — Desde então, não quero saber de gostar de alguém, eu tentei, mas não consigo. — Ela engoliu a seco. — Acho que meu coração agora é duro e fechado.
— Entendo seu sentimento. — Raven quebrou seu silêncio resignado, sua voz foi dura, mas havia algo de melancólico ali. — Sua história é bem comum, muitas garotas passam por isso, e você tem um motivo aceitável para viver assim, eu não, eu apenas sou assim. Eu só amei uma pessoa, o pai de Yang, e mesmo assim, isso não foi capaz de me fazer manter um relacionamento.
Raven deixou o hashi de lado, o prato limpo a sua frente.
— Se é isso que você quer e está ciente que não irá passar essa linha, podemos nos encontrar para uma foda casual. — Ela acenou com a mão para o garçom que assentiu.
Uma foda casual?
De repente Blake se sentiu um pouco mais quente, um desconforto em sua barriga, mas era agradável, era o mesmo que ela sentia quando ligava para Raven a noite.
— Está de acordo com isso? — Raven perguntou já impaciente com o silêncio de Blake.
Ela estava tão perto de alcançar o sol, Blake chegava a queimar de ansiedade, bastava ela dizer sim para ter o que ela mais queria há semanas.
— Sim, estou de acordo. — Ela sentiu suas bochechas se avermelharem.
— Sabe, você é fofa pessoalmente. — Raven exibiu um sorriso provocador. — Gostaria de ir até o meu apartamento agora e colocar sua historinha em prática?
Blake se enrubesceu ainda mais. O garçom chegou trazendo a conta, Raven pagou rapidamente, ela se levantou e olhou de cima para Blake.
— Então, você vem comigo ou não? — Ela disse sorrindo de um jeito que beirava ao sadismo. — Você está com cara de quem quer ser fodida.
O rosto de Blake queimou de forma intensa, ela olhou em volta para se certificar que ninguém havia ouvido, os únicos clientes estavam em mesas mais distantes, ela se sentiu um pouco mais segura, Blake se levantou e se aproximou da mulher mais velha encostando seu queixo no ombro dela, Raven apenas levantou uma sobrancelha curiosa com o que ela faria.
— Tudo que eu mais quero… — Blake sussurrou deixando sua respiração quente bater no ouvido da mulher mais velha. — É que você me foda.
Raven sorriu e se virou a olhando nos olhos.
— Gatinha pervertida, vamos cuidar desse seu assanhamento.
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