Ligadas pelo destino
9 Capítulo 9- Sem sossego
Notas iniciais
–Água gelada do caramba- eu resmunguei enquanto tomava banho, depois da minha ‘’conversa civilizada’’ com Quinn. Nota-se claramente uma certa ironia em minhas palavras. Acredito fortemente que aquela loira pancada e eu nunca íamos ter uma conversa tranquila, sem que nenhuma das duas acabasse se xingando no final. Aquela doida teimava em me esconder as coisas e isso não era nada bom. Como eu conseguiria ficar ao lado de uma pessoa em que eu não conseguia depositar o mínimo de confiança possível nela? Ela só me tratava com patadas e mais patadas, mantendo aquele jeito mau humor de ser. Sério... Eu odiava aquilo.
Como eu queria que aquela água gelada levasse consigo as coisas que me atormentam o consciente. Não havia um minuto sequer depois que sai de Nova York que eu não pensasse no meu pai e em como fui injusta pensando o pior dele. Logo eu, que nunca me deixei levar por nada nem ninguém, teria pensamentos desse tipo sobre meu pai. O meu herói, meu suporte, minha coluna, meu... Ele era meu tudo. Eu o defendia com unhas e dentes quando alguém o acusava, porém em meu coração tinha aquela ponta de confusão, pois de nada eu sabia sobre sua morte, muito menos o porquê dela.
Na verdade eu ainda não sei muito o que pensar sobre isso. Tudo o que eu achava saber acabou se tornando um borrão sem sentido em minha mente. Sabe quando você leva a si mesmo a acreditar no que você inventa para enganar a si próprio? Parece confuso, eu sei, mas convenhamos que tudo na vida é. Se fosse descrever a vida em apenas uma palavra, diria que é ‘’confusão’’. Quando achamos que sabemos alguma coisa, na verdade não se sabe de absolutamente nada. É como se eu vivesse em uma roda de hamster e quanto mais eu corresse nela achando que escaparia, mais me distanciava dos meus objetivos, apenas me cansando a toa. Eu me enganei esses anos todos e agora me encontrava perdida de mim mesma. Nas profundezas do que me constituía.
E Quinn? Aquela mulher era como se fosse uma espécie de punição que a vida me mandou por ser tão idiota. Ela só podia ser um carma dos brabos que eu peguei pelo o caminho, que se grudou feito carrapato em minhas costas e não havia pesticida ou fogo que o arrancasse de mim. Vai ser azeda assim lá numa plantação de limão! Aquele jeitinho autoritário e superior dela me dava muita raiva. Eu tinha vontade de pegar aquele narizinho perfeito e arrebitado dela e dar um belo de um puxão até aprender a me tratar corretamente. Ela achava que era quem? A rainha da Inglaterra, dona Elizabeth? Eu aposto que aquela velhinha, que parece mais a princesa do jogo Mário só que com uns 150 anos a mais, era bem, mas bem mais simpática que aquele trambolho loiro.
E sabe o que é pior nisso tudo? Não? Não têm nem uma ideiazinha do que se já? Certeza? Vou dar uma dica pequenina só pra ajudar. Vamos lá! Começa com ‘’vou’’ termina com ‘’me ferrar’’.
Pois bem, já que ninguém acertou, eu vou dizer. Vai me doer, mas fazer o que? É a realidade, meus compadres e comadres. Ela, Quinn Afetada Fabray, era... Simplesmente... LINDA! Caramba, como pode em um só ser existir tanta beleza? O que ela tinha de chata, ela tinha de linda. Então daí vocês tiram a beleza daquele troço. Sei lá, tudo nela me eletrizava de uma forma que eu não sei explicar. E aqueles olhos? Santa mãe, nunca vi igual! Eram do tipo que dava vontade de mergulhar neles e parar em uma dimensão paralela a nossa, bem mais intensa e surreal. Mas o que diabos está acontecendo comigo? Eu nunca... Eu nunca... Eu... Ah, aquilo tava me deixando muito pilhada e eu não estou gostando nadica de nada. Bom, deve ser pelo o jeito dela. Acho que me dá tanta raiva que eu acabo por me impressionar demais com ela e fico... Ah, que se exploda! Fiquei tempo demais debaixo dessa puta água gelada do caramba e agora está congelando meu cérebro, me impedindo de raciocinar como deveria.
Sai debaixo daquele chuveiro caindo aos pedaços e comecei a me enxugar antes que pegasse um resfriado ou morresse de hipotermia. Já imaginaram um picolé de Santana? Já?! Credo, gente! Isso é canibalismo. Meu Deus! Dá cadeia, viu? Eu poderia ser a nova princesa do filme Frozen. Só que não. Quinn se encaixaria melhor nesse papel. Ela sim parece uma princesa, e... Mas que DROGA! Lá vem essa mulher entrando nos meus pensamentos de novo. Que saco!
Me xinguei de todo palavrão existente quando percebi que só havia trago minha lingerie. Tinha esquecido o meu pijama. Bom, vou ter que sair assim mesmo. Dei de ombros e vesti minhas peças íntimas e sai do banheiro para terminar de me trocar. Ouvi a porta sendo destrancada e a voz de Quinn conversando com alguém:
–Então será que você poderia nos arrumar mais toalhas? As daqui me parecem... – ela parou de falar e eu virei, me deparando com a mesma olhando pra mim boquiaberta- Santana!
–O que foi?- perguntei franzindo o cenho. Ela me deu um olhar de repreensão por eu estar apenas de lingerie ali no meio do quarto, mexendo em minha mochila.
–UAU!- exclamou a recepcionista doida, exageradamente, batendo palmas- Estou precisando fazer uma viagem urgente para o México. Que saúde, filha! Ui- ela se abanava dando olhares pecaminosos em minha direção. Eu apenas olhei pra meu corpo, dando uma risadinha danada. Quinn bufou pesadamente, começando a empurrar a mulher maluca porta a fora- Ué, você não ia me dizer o que estava precisando?
–Depois eu ligo pra informar. Agora adeus- bateu a porta com força, virando-se pra mim com um olhar mortal- Você não presta mesmo.
–Meu pai! Mas o que foi que eu fiz? Eu nem disse nada- me defendi, levantando as mãos em sinal de confusão. Não estou dizendo que essa mulher tem problemas sérios?
–Não se faça de sonsa- a loira disse colocando algumas sacolas, provavelmente com o nosso jantar, em cima da mesa que ficava próxima a janela.
–Quinn, pelo amor de Deus, o que você tem contra mim?- perguntei enfim, fazendo-a virar-se pra mim. Nos olhamos em silêncio por um tempo, Quinn se aproximou com o dedo levantado tentando dizer alguma coisa, porém nada veio. Eu esperava um xingamento ou até um tapa dela, porém apenas passou seu braço pelo lado da minha cintura para pegar algo que estava atrás de mim. Seu braço tocou de leve em minha pele descoberta e pareceu que eu havia voltado para debaixo daquela água amaldiçoada de gelada. Minha espinha toda gelou.
–Não tenho nada contra você. Apenas me deixe em paz- murmurou calmamente, quase como um sussurro, próxima a mim. Optei por ficar em silêncio, apenas retribuindo o olhar. Ela mordeu o lábio inferior ainda me fitando de uma forma até estranha. Apertou as mãos com força e saiu dali, indo em direção ao banheiro.
–Santa madre de mi diós! Estou vendo uma hora essa mulher me matando- comentei baixo pra mim mesma. Passei a mão nos cabelos, tentando espantar a sensação estranha que ela me causou com aquele olhar. Caramba, eu não consegui me afastar dele. Porcaria de olhos esverdeados! Uma anotação rápida: Me lembrar de quando tudo acabar, procurar um ótimo psiquiatra, por que eu tenho sérios problemas com olhos, principalmente os da loira pancada. Sem falar que a minha intuição já estava me dizendo que no final de tudo isso eu ia acabar totalmente maluca. Do tipo que chama urubu de meu louro, pula amarelinha nos trilhos de algum trem, acha que carne de zebra é listrada como ela e não usa meias coloridas por que acha que os pés vão ficar da mesma forma. Se bem que isso não está muito longe da minha realidade.
Senti uma brisa gelada entrar pela janela e me encolhi de frio, me lembrando de que ainda estava apenas de roupas íntimas. Tratei logo de fechar a janela e procurar vestir meu pijama. Eu teria uma noite bem longa.
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POV: TINA
Eu estava morta. Caramba, meu corpo todo gritava por um descanso prolongado. Ando tão ocupada com trabalho e faculdade que nem estou dando a atenção merecida a meu namorado. Tadinho do meu loirinho. Depois da surtada de Santana com Norton, ele acabou tendo de fechar o restaurante e mudar-se da cidade quando descobriram o seu dedo podre. Ou colorido, se é que vocês me entendem. A minha sorte foi que o novo dono é um amor de pessoa e me contratou junto com os demais que trabalhavam comigo. Por falar em Santana, apesar de ela dizer que estava bem, que ia dar um jeito naquilo tudo, etc e tal, nada me tirava da cabeça minha preocupação com ela metida naquilo. Meu Deus, só a Santana pra se meter nessas coisas. Apesar de ela ter me dito que era por seu pai e sua inocência, me dava uma vontade de dar umas palmadas naquela latina, oh se dava. Já vi gente pra quebrar a cara mais que ela e não prestou. Santana sempre lutou pelos seus ideais e sofreu muito depois que saiu de sua cidade natal.
Lembro como se fosse ontem quando a conheci. Estava sentada em um banco da biblioteca com a cabeça encostada aos joelhos, chorando muito. Parecia perdida. Não no significado ‘’não saber onde está’’, mas perdida de si mesma. Era como se nem ela soubesse quem era naquele instante. Eu nunca fui de conversar com estranhos, principalmente dos que estavam como ela, mas algo em mim gritava para eu ir até lá e de alguma forma ajudar aquela garota que parecia tão desolada, tão... Confusa. Toquei em seu ombro e ela se assustou com minha presença. Juro que quando ela me encarou senti meu coração doer pela profunda tristeza que me deparei em seus olhos. Santana acabou por me contar de sua vida. Acho que o álcool a ajudou a se abrir comigo naquele momento, já que ela aparentava ter tomado umas a mais.
Me contou de como foi difícil ter se assumido gay pra família, sendo amparada apenas por seu pai, que acabou sendo morto alguns meses depois em alguma missão, pois o mesmo era militar. Disse também que depois da morte de seu pai tudo se tornou ainda mais difícil para ela. Ele era o único que a entendia e que lhe ajudava a enfrentar seus medos e incertezas. A frieza de sua família até me assustou, por que quando o pai de Santana, Antony, falecera, eles só se preocuparam em receber o auxílio monetário do governo. Foi uma boa quantia em dinheiro e seus familiares quase entraram em guerra para terem cada um sua parte. Apenas Santana não quis nada. O que ela mais queria era tê-lo consigo, pois depois de sua partida a latina só foi destratada e julgada por aqueles que diziam ser seu sangue. A única coisa que Santana pediu foi o cordão de identificação que Antony usava. Era como se ela pudesse senti-lo mais próximo com aquele simples adereço que os soldados usam para serem identificados. Quando completou dezoito anos, ela saiu daquele lugar quase que fugida. Não aguentava mais ser tratada como um animal. Chegou em Nova York com apenas algumas mudas de roupa na mochila, o cordão de seu pai no pescoço, um carro antigo e sua força de vontade para enfrentar o que viria.
Fui contra todos os meus princípios e regras e a chamei para morar comigo. Ela havia acabado de chegar na cidade, há umas duas ou três semanas e vivia por pousadas, motéis e eu sei lá mais por onde. Minha família quase me crucifica por isso, mas algo dentro de mim dizia que era o certo ao se fazer. Nos demos super bem, apesar dela ser um pouco piradinha e eu perfeccionista demais. Aquela latina era uma perfeita bagunceira e odiava seguir regras, no entanto soube se portar comigo e lutar por seu futuro, ganhando em alguns meses depois (com grande mérito) uma bolsa em uma das melhores faculdades de engenharia e ciências de Nova York, a Columbus Academy. Isso me deu um orgulho tão grande, que eu sentia como se fosse minha filha que estava recebendo isso. Não que eu seja tão mais velha que a Santana (apenas dois anos), mas me orgulhei de ter apostado em sua capacidade e caráter. Ela é um ótimo ser humano, sem dúvidas alguma.
E era nisso que eu tinha medo. Essa sua bondade toda e amor pelo pai pode vir a ser sua ruína futura. Eu nunca cheguei a ver essa tal Quinn de que ela me falou, mas pela forma que a descreveu algo em minha cabeça apitou e brilhou com os dizeres ‘’PERIGO’’ bem forte. Eu temia pela minha irmãzinha de coração. Mas se era aquilo que ela acreditava, eu irei apoiá-la em tudo, porém nunca ficaria um segundo sem alertá-la do perigo que isso tudo me cheirava. Foi nessa linha de pensamentos tão distantes que eu senti alguém tocando em meu braço, me trazendo de volta para a realidade:
–Tina? Está tudo bem com você?- Brittany perguntou me olhando um tanto confusa.
–Ah, estou sim, Brittany- balancei a cabeça, esboçando um sorriso leve.
–Uhm. Eu fiquei na dúvida se você estava dormindo em pé ou tendo um AVC- a loirinha fez uma careta, deveras engraçada, me fazendo rir.
–Nada. Eu estava só pensando aqui com meus botões- brinquei começando a passar um pano sobre o balcão- Deseja alguma coisa, senhorita Pierce?
–Um hambúrguer com fritas e um refri de uva, por favor- eu anotei seu pedido e o entreguei a um dos garçons para que fosse levado até nossa chefe de cozinha.
–Okay! É só aguardar alguns segundo que seu pedido será entregue- informei, me afastando para atender outros clientes, porém ela me parou:
–Tina, eu posso te fazer uma pergunta?
–Ah, claro. Só que tem que ser breve. O restaurante está meio cheio hoje- ela fez um gesto de cabeça concordando e eu me aproximei- O que você quer saber?
–Uhm, você por acaso tem notícias da Santana?- ela perguntou um tanto agoniada. Por sua expressão percebia-se que ela talvez estivesse realmente gostando da latina, o que fez meu coração apertar de pena da menina- Sabe onde ela está?
–Olha, Brittany eu... Não sei te dizer onde ela está, mas sei que está bem- tentei parecer convincente, mas acho que não estava adiantando. Ela fez uma carinha confusa, dando um profundo suspiro.
–É culpa minha, não é? Eu devo tê-la assustado aparecendo do nada em seu apartamento. Nossa, como eu sou idiota- se lastimou colocando as mãos no rosto. Eu rapidamente me sentei ao seu lado, pegando suas mãos.
–Não, Brittany, não é nada disso. Você não tem culpa de nada, só que...
–Só que o que, Tina? Você está sabendo de algo e não está querendo me contar?- ela me interrompeu, e sua pergunta me fez gelar, por que sou péssima com mentiras.
–Na- Não. E-Eu não estou sabendo de nada, Brittany- gaguejei como uma doida e ela me olhou desconfiada- Ela só me ligou e disse que estava bem. Teve que fazer uma viagem de emergência por um trabalho que ela foi escalada na faculdade e...
–Isso está me cheirando a coisa errada- murmurou cruzando os braços. Brittany me fitava intrigada, como se estivesse me lendo. Bati a mão na testa, buscando argumentos e ela arregalou olhos, constatando algo- Tem mais nisso, não é? A Santana viajou com outra mulher, é isso? Só pode. Caramba, como eu fui idiota... A loira do outro dia. Foi por isso que a talzinha lá ficou com tanta raiva quando me viu. Eu sabia que elas tinham ou já tiveram alguma coisa, mas que...
–Hey, Brittany! Não é nada disso que você está pensando. Ela viajou sim com essa tal loira, mas...
–Então eu acertei?- ela me interrompeu e começou a me bater o desespero, por que eu fui ajudar e tava lascando mais as coisas- Ah, eu mato a Santana quando a encontrar. Eu aqui preocupada e ela curtindo com aquela vadia oxigenada.
–Brittany...
–Dê um recado a sua amiga, Tina- me interrompeu novamente, levantando-se e pegando sua bolsa- Diga a Santana que eu, Brittany S. Pierce, vou acabar com ela quando a encontrar. Que aquela latina me aguarde- saiu soltando fumaça pelos ouvidos.
–Ih, caramba- fiz uma careta de ‘’lascou-se tudo’’e me sentei onde Brittany estava- Putz, Santana... Você está ferrada, amiga.
POV Tina OFF
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Quinn enfim havia desenfurnado do banheiro e agora jantávamos em silêncio, uma de frente pra outra em uma mesa que estava em falso. Tive que colocar um livro embaixo de um dos pés da mesa para que pudéssemos comer sem parecer que ela estava no modo vibratório. Em nenhum dos minutos que se passou ela voltou seu olhar a mim. Estava extremamente quieta e concentrada em seu prato, comendo devagar, como se obrigasse ela mesma a comer. Eu resolvi deixar que o silêncio imperasse naquele momento. Enquanto a fera de cabelos loiros estivesse calma, eu estaria na mais perfeita segurança.
Tentava a todo o momento manter o mínimo de contato visual possível com ela, por que apesar de estar em um transe com o prato, possuía um sensor que apitava quando eu a olhava. No entanto era uma tarefa quase impossível. Eu quase sempre me pegava a estudando... O que? Estudando sim, que admirando o que? Uma das táticas que eu aprendi com meu pai foi estudar o inimigo. Bem, Quinn apesar de ser aquela dipirona toda, ainda não podia ser considerada uma inimiga. No entanto é escondendo as pedras que se evita uma pedrada na cabeça. Hein? Nem tente. Nem eu entendo o que eu falo.
–Hum... Quinn, será que você poderia...
–Não- me cortou seca sem ao menos saber o que eu iria pedir.
–Mas...
–Me deixe comer em paz, por favor- sério, essa mulher tem problemas!
–Caramba, eu só ia pedir pra você me passar o sal- resmunguei me levantando para eu mesma pegar o sal, que estava ao lado de Quinn- Nossa!- bufei voltando para o meu lugar. Nós ficamos mais alguns minutos em silêncio. A loira o quebrou:
–Precisamos nos preparar para a viagem- eu a encarei.
–Pra quando?
–O mais rápido que pudermos- continuou brincando com a comida no prato, por que comendo ela não estava.
–Tudo bem, eu só preciso de um tempo para fazer uma revisão na Francyne. Nunca viajei tão longe com ela assim.
–De quanto tempo precisa?
–Três a quatro horas, por aí- dei de ombros, tomando um pouco de suco.
–Então amanhã quando você terminar, partiremos.
–Por mim tudo bem- ela concordou com um gesto de cabeça, retirando-se em seguida do quarto.
–Calma, Santana, faltam só cinco chips... Apenas cinco desgraçados chips- eu dizia a mim, vendo-a se afastar- Das duas, uma... Ou ela me mata ou eu me mato.
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O despertador do meu celular soou e eu rapidamente o desliguei para não acordar Quinn. Por dois motivos: Um, que eu queria começar a revisão da Francyne mais cedo e não queria acordar a princesinha ali e ela viesse com seu incrível mau humor matinal pra cima de mim. Dois, por que incrivelmente eu tinha acordado mais uma vez de conchinha com ela. Aquilo era muito estranho, pois eu não tinha o hábito de me mexer enquanto durmo. Nos meus 23 anos de vida nunca havia feito isso e tenho absoluta certeza que eu não havia feito em nenhuma das vezes que acordamos assim. Vai entender.
Me soltei cuidadosamente de seus braços que, como antes, estavam segurando firmemente os meus. Fiz minha higiene matinal e tomei um belo de um banho gelado pra começar bem o dia (sempre me ajudava). Coloquei uma roupa já surrada, que eu sempre deixava no porta-malas de Francyne para quando eu tivesse que fazer algo nela, peguei a caixa de ferramentas e abri o capô pra começar a analisar minha menina. Chequei suas peças principais, sua lubrificação, os freios (de suma importância), filtro de combustível, velas, filtros de óleo, tampas do distribuidor, filtros de ar e etc. Tive que trocar a válvula de PCV (ventilador positivo do cárter), pois a mesma estava obstruída e poderia causar problemas da marcha no pegar ou até mesmo emperrar. Limpei os terminais da bateria, ajustei a embreagem e troquei algumas correias gastas. Cara, como eu me divertia fazendo isso! Acabei me sujando toda e aquela manhã estava até um tanto quente. Optei por tirar minha blusa, ficando apenas de top e calça jeans, ficava mais relaxada para trabalhar. Estava tão concentrada no carro que não vi a recepcionista se aproximar:
–Oi, gatinha- ela disse próximo a meu ouvido. Me assustou, ocasionando uma batida da minha cabeça no capô erguido do carro.
–Virgem!- coloquei a mão no peito, não sabia se era a cabeça ou o coração que doía do susto.
–Oh, gatinha, me desculpe. Não foi minha intenção assustar você- ela sorria simpática.
–Tudo bem- retribui o sorriso por educação, passando a mão na cabeça. Aquilo ia doer bastante mais tarde- Algum problema?
–Não. É que eu notei você aqui há horas nesse sol malvado, toda suadinha, ajeitando seu carro, em uma cena deveras... Ui e vim te trazer esse suco. Não vamos querer desidratar esse corpo dado pelos deuses, não é?- eu fui tentar sorrir simpática, mas acabei fazendo uma careta estranha meio assustada com aquilo, principalmente pelo olhar pesado dela sobre meu corpo.
–Tudo bem, obrigada pela gentileza- aceitei o suco, cheirando discretamente a boca do copo para reparar algum cheiro de drogas ou algo ilícito, porém aparentemente estava normal. Pode parecer falta de educação, mas na minha condição tinha que desconfiar até das crianças com chupetas. Sei lá, me assusta isso. Acho que a quantidade de filmes de terror que eu assistia sozinha em casa está começando a me afetar. Eu me lembro que o último filme que eu assisti se chamava ‘’Procura-se uma babá’’. Era de uma coitada que foi fazer faculdade em outra cidade e arrumou um emprego de babá em uma fazenda. Daí tudo normal, só que tem um porém... Ela descobre no decorrer do filme que o menininho que ela cuidava tinha por debaixo do chapéu, que ele não tirava por nada, nada mais nada menos que chifres. Isso mesmo: CHIFRES. Mermão, literalmente o moleque era o capeta. Não como força de expressão, mas sim como o próprio coisa ruim. Tipo assim: A versão kid do capeta. Enfim, voltando à maluca doida:
–De nada, gatinha- disse animada enquanto eu tomava o suco. Olhei bem pra ela e até que não era de se jogar fora. Não que eu me leve pelo o lado da beleza, mas aquela mulher me assustava pela forma que me olhava. Eu fico agoniada se alguém me encara por muito tempo. Ela era ruiva, olhos castanhos claros e algumas sardas pelo nariz. Devia ter seus trinta anos ou próximo a isso. Tinha um sorriso bonito, admito, mas ainda me assustava.
–Bom, obrigada novamente- lhe entreguei o copo, pegando em seguida minha blusa pra enxugar o canto da boca, porém ela me parou:
–Hey, deixe que eu faça isso. Vai sujar sua blusa com óleo- dei de ombros e ela se aproximou com um paninho verde de rosto. O tocou delicadamente pelos meus lábios, em todos seus contornos. Quando eu achei que estaria finalizado, ela começou a deslizar o pano por meu maxilar, pescoço e só parou em meu abdômen por que eu segurei sua mão.
–Okay, okay... Já chega- fui me afastando sorrateiramente, com aquela cara de sapo acertado por sal, mas ela não se deu por vencida e me puxou pela mão. Eu acabei tropeçando na caixa de ferramentas, parando encostada à frente do carro com ela grudada a meu corpo.
–Ui, destino trabalhando a meu favor- deu um gritinho, grudando as mãos na minha nuca e puxando meu rosto na direção do seu. Consegui desviar, mas não sabia por quanto tempo aguentaria, aquela mulher parecia um polvo. Quantos braços essa mulher tem, virgenzinha de Guadalupi?- Fica quieta, gatinha. Como é que eu vou te beijar se você fica se mexendo?
–Essa é a intenção da coisa... Me larga, sua troça- eu pedia, ainda dando uma de Neymar na copa do mundo se esquivando dos jogadores que queria seu sangue. Oh, coitado. Só que não.
–Quando você provar do meu beijo vai pedir bis- ela quase consegue, mas desviei nos 45 do segundo tempo e pude ouvi a torcida gritando ‘’OPA!”- Calma, deixa de ser tímida. Meus lábios são sabor morango.
–Não, obrigada. Tenho alergia a morango. Vai que eu tenho um choque anafilático?- segurei seus braços nas costas e ela não desistia. O pior que eu estava com óleo nas mãos e elas estavam lisas, diminuindo minhas chances de ganhar aquela batalha de tentativa de me salvar daquela tarada beijoqueira. Quando ela já estava quase conseguindo o que queria, escutamos um pigarreio. Quinn nos olhava de braços cruzados, com uma expressão nada boa. Pronto, se uma quer me agarrar, a outra quer me matar- Não é o que você está pensando- eu me defendi largando a doida, que finalmente desistiu de mim.
–Só por que você não quis, bebê- a doida piscou pra mim maliciosamente, desviei meu olhar pra Quinn. Ela ainda estava na mesma posição ameaçadora nos encarando- Eu adoro as difíceis- se aproximou mais uma vez. Dei um passo pra trás por segurança- Te vejo por aí, gatinha. Miau- jogou um beijo no ar. Eu retribui com uma careta- Tchauzinho, querida- dirigiu-se a Quinn, que a ignorou.
–Hey, eu não... Eu... Quinn, ela que veio e...
–Eu sei. Vi pela janela- ela interrompeu meus argumentos, um tanto retardados, me surpreendendo por sua calma. Eu a olhei procurando vestígios de raiva, mas nada. Quinn estava estranhamente tranquila, apesar de segundos atrás estar com cara de serial killer versão Xuxa- Já acabou?
–Quase. Falta colocar algumas peças de volta. Coisa de trinta minutos, no máximo- respondi enxugando um pouco de suor da minha testa. Caramba, aquela mulher me cansou!
–Okay- ela deu um sorriso fraco, dando meia volta. Eu a olhei por uns segundos, balançando a cabeça pra afastar a confusão que se formava em minha mente sobre essa mulher. Comecei a finalizar meu trabalho, juntando algumas peças que eu retirei de Francyne para colocá-las em seu devido lugar. Percebi pelo reflexo no carro que Quinn estava parada me olhando. Virei meu rosto lentamente em sua direção e nos fitamos por um tempo. Eu enviei um sorriso educado para ela, que apenas mordeu seu lábio inferior e se retirou, voltando para o motel. Cara, aquela mulher me deixa confusa!
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Eu já estava devidamente cheirosa e pronta pra zarpar. Quinn e eu juntamos nossas tralhas, entocando tudo no porta-malas de Francyne. Paguei a maluca doida e sai correndo de lá com ela atrás de mim novamente. Quase que eu atropelo a doida quando entrou na frente do carro dizendo que eu não iria embora com Quinn por que ela não era mulher pra mim e que a doida sim era a escolhida pra ficar comigo por ser melhor que a loirinha. Tive que fazer altas manobras pra fugir dali sem amassar ela nas rodas de Francyne. Depois que consegui despistá-la, segui com nosso caminho rumo a Washington. Caminho longo esse nosso. Quase dois dias de carro.
Quinn, como sempre, uma tagarela. Pode rir, eu deixo. Ela ficou naquela quietude toda e só fazia as mesmas poucas coisas: Dormir, analisar o aparelho rastreador (que tinha um ótimo GPS), olhar a paisagem pela janela, me encarar, mexer nas estações de rádio, me encarar, olhar o aparelho rastreador, me encarar, dormir, me encarar, mexer em sua bolsa, me encarar, ler um livro, me encarar, enfim, ela ficava me encarando uma hora ou outra e minha concentração ia pro beleléu. Já disse que me dá agonia quando alguém me encara?
Depois de quase sete horas dirigindo, eu parei pra abastecer. Francyne estava com sede. Enquanto eu abastecia minha menina, Quinn foi ao banheiro e depois passaria na lojinha do posto pra comprar algo para comermos. Assim que ela chegou foi minha vez de ir ao banheiro. Caramba, sete horas sem parar em um carro... Eu tava pra explodir. Passei na lojinha também pra comprar algum CD bom pra ir ouvindo. Os meus já estavam quase todos ralados de tanto rodar naquele som. Achei uns bons de rock. Devo ter comprado uns dez. Voltei toda alegre para onde Quinn estava com o carro e reparei algo que me encheu de raiva. Uns caras estavam importunando a loirinha. Ela estava meio acuada encostada a lateral do carro enquanto um se aproximava perigosamente de seu corpo:
–Pois então, boneca, meu caminhão está bem aqui por perto. Se você quiser a gente pode se divertir um pouco- ele pegava uma mexa do cabelo dela e colocava atrás da orelha.
–Acho que não, amigo- interrompi o flerte do idiota, me pondo entre ele e Quinn.
–Ora, ora, ora... Ela tem uma amiguinha- disse maliciosamente me olhando de cima a baixo- Veja, Phill... Uma pra cada.
–Não é minha praia, parceiro- o olhei com desdém, me virando para Quinn- Oi, amor- depositei um selinho no canto de seus lábios, fazendo-a se assustar com aquilo.
–Ah, já saquei... As duas se pegam- ele apontou para nós sorrindo de forma sacana.
–Claro, né amor?- Quinn ainda estava petrificada no lugar, mas concordou com um gesto de cabeça- E como- passei meu braço direito pelas costas dela- Nós nos amamos loucamente. Fazemos sexo toda hora e em todo lugar- eu gesticulava com as mãos- Se esse carro falasse... Por dentro, por fora, no capô, no porta-malas, no teto, acho que até debaixo dele. Se pudesse até em cima do motor, mas não quero queimar o meu anjinho- apertei a bochecha de Quinn, que bateu na minha mão pra eu parar.
–Uhm, que gostoso isso- ele nos olhou com uma cara safada. Minha santa virgenzinha de Guadalupi... Me segure pra eu não fazer uma merda com esse cara aqui. Eu apertei minha mão com força para me conter. Cara, se eu perdesse com o controle...
–Santana... Vamos?!- Quinn segurou minha mão, como se já tivesse adivinhado meus pensamentos. Eu assenti, respirando fundo. Quando já estávamos nos posicionando para entrar no carro, o chato segurou a mão de Quinn:
–Hey, espera, loirinha. Ainda quero bater um papo contigo- dei um tapa na mão dele bruscamente para tirá-la de Quinn.
–Não toque nela- mandei seriamente firme, o encarando.
–Ou o que?- o idiota me desafiou e aquilo já estava me deixando muito irritada.
–Nem queira saber- ele deu uma risada potente.
–Santana, vamos, por favor- a loirinha me pediu angustiada mais uma vez e por pouco eu não acato.
–Tudo bem, vamos. Não vou perder meu tempo com esse idiota que está cheirando a álcool. Aposto que se cuspir no chão nasce um pé de cana- rebati, dando um olhar de superioridade em sua direção. Voltei a me retirar com Quinn e mais uma vez ele me parou- Cara, você ta me testando.
–Vocês não vão sair daqui.
–Ah, não?- gargalhei em tom de ironia- Vamos, Quinn- conduzi a loira pra entrar no carro e agora ele segurou meu braço- Me solta. Estou falando que não vai querer se meter comigo, seu babaca.
–Pois me mostra. Agora fiquei curioso- ele me desafiou, fazendo gestos com a mão para que eu me aproximasse. Neguei com a cabeça e me virei- Pode fugir, mas saiba que eu sei muito bem como fazer essa loirinha ter um sexo de verdade. Aposto que a faço gritar meu nome em segundos, não é vadia?- pronto, aquilo foi o bastante que eu podia aguentar. Algo dentro de mim começou a ferver e na minha frente eu só via a cara daquele idiota amassada contra o chão.
–Santana, por favor, não...
–Não, Quinn. Entra no carro- Me desvencilhei de suas mãos, ordenando de forma seca.
–San...
–Entra no carro- quase gritei, a assustando- Eu vou te ensinar a ser menos idiota- ele deu um sorrisinho gabola:
–Vai? Pois vem que eu quero ver...
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