Ligadas pelo destino
29 Capítulo 29- Feeling good
Notas iniciais
Passaram-se incríveis trinta minutos onde Quinn ainda estava agarrada a filha como se nunca mais fosse soltá-la. Beth jazia abraçada a nuca da mãe enquanto suas perninhas enlaçavam sua cintura. Ambas estavam em um silêncio que eu julguei confortante. Acho que se travava daqueles momentos que só se precisava sentir a outra longe do restante do universo, ou sei lá. Não sei bem como são essas receptividades amorosas com a mãe, já que com a minha eu mal trocava uma frase amigável. Não me achem fria ou qualquer outra coisa negativa. Só não me sinto à vontade com ela depois de tudo que me disse, que me fez e por agora saber que a mesma de alguma forma compactuou com essa mentira que minha vida havia se tornado. A confusão em minha mente só aumentava ainda mais a raiva em minha mente. Era como se eu pudesse derrubar um carro com um soco de tanta raiva. Eu odeio mentiras e agora descobri que eu sou a mentira em pessoa. E sabe o pior? Não sei o que fiz para merecer tudo isso. Seria estranho demais achar que é um erro eu ainda estar vivendo? Minha integridade me impedia de aceitar algo desse tipo.
O murmuro de pessoas ao meu redor me fez despertar desse debate comigo mesma. Eu estava encosta a lateral de Francyne de braços cruzados e olhar perdido para o céu. As estrelas estavam tão brilhantes essa noite que meus olhos queriam acompanhar sua intensidade, já que a escuridão teimava em querer me tomar a mente.
–Tudo bem, pessoal. O show já acabou. Amanhã é outro dia, então boa noite a todos- Nilo disse, começando a guiar o pessoal para fora. Houve muitos resmungos da parte de nossos familiares, mas de nada adiantou para ele- Vamos lá, galera. Mando peru no natal pra todo mundo.
–Santana Lopez!
–Abuelita!- lancei um sorriso saudoso para a senhora mãe de meu pai. Ela vinha mais sorridente que nunca a minha direção, me apertando como um ursinho de pelúcia em um abraço assim que me alcançou- Hey, como estás?
–Bién, pequeña.
–E aí, vou ganhar palmada por sumir?- ela me encarou, sorrindo levemente.
–Depois de cinco anos sem ver minha neta preferida, palmada é a última coisa que eu vou pensar em lhe dar.
–Neta preferida? Abuela, e eu?- Nilo reclamou, se aproximando fazendo bico.
–Aprenda a viver com esse fato, Danilo- provoquei, cruzando os braços e lhe enviando um olhar de superioridade.
–Metida!- ao invés de me acertar na cabeça, ele me abraçou pela lateral- Por onde andou, sua maluca?
–Isso é uma longa história.
–Ótimo, adoro histórias longas. Mas fica pra depois, tenho que deixar a abuela em casa- disse, colocando as mãos uma em cada ombro de nossa avó- Vamos?
–Vamos, só me deixe apertar minha neta mais uma vez. Pro caso dela sumir novamente- seu semblante era de angústia e eu me detestava cada vez mais por deixá-la assim. Mas o que eu podia fazer? Dona Alma me apertou mesmo, como um tubo de pasta de dente, deixando um beijo casto em minha testa- Será que dá tempo de eu lhe fazer aquele bolo de chocolate com morangos?
–Claro que dá, amo seus bolos.
–Tudo bem, então não suma antes que eu faça um pra você- eu ri, lhe dando mais um abraço.
–Palavra de Lopez.
–Eu acredito- ela amaciou minhas costas- Te quiero, pequeña.
–E eu a ti, abuela- sem querer me soltar, ela se afastou e seguiu Danilo até seu carro. Ela me lembrava tanto o papai, que uma vontade sórdida de chorar quis me alcançar, porém felizmente recuou. Mais a frente minha mãe conversava alegremente com Quinn e sua cria, a pequena Elizabeth Fabray Karofsky. Deus sabe a pena que estou agora daquela garotinha doce ter o sangue de alguém tão desumano quanto o tal David. Eu poderia odiá-la. Sim, estaria sob meu direito, pois seu pai além de ajudar a destruir o meu, ainda está tentando me matar. Poderia muito bem tê-la deixado naquele lugar insano, mas não, não tive coragem. Deus, ela é uma criança e está envolvida nessa merda toda. Na verdade ela é um dos frutos dessa merda toda. Agora eu fico me perguntando como alguém como Quinn teve coragem, e estômago devo convir, de ficar com um ser grotesco daquele. E olha que eu nunca nem o vi e já sinto tanta repulsa por ele, que dá vontade de arrancar os olhos e comê-los só para não olhar em sua cara se por acaso nos trombarmos por aí. E isso não está em um futuro tão distante, devo ressaltar.
Eu não sabia o que fazer agora, mas acho que subir para o meu quarto, tomar um longo banho e quem sabe me afogar naquela banheira seria um bom começo. Estava com uma dor de cabeça chata e cheirando a gasolina. O corpo pedia socorro de cansaço, e a cabeça pesava uma tonelada de pensamentos questionadores. Estava a ponto de correr com tudo em direção a meu quarto, sem ousar encostar perto de Quinn para diminuir o risco de tomar uma voadora britânica, quando Beth olhou em minha direção, sorrindo abertamente para mim. Foi então que ela soltou a mão de Quinn e correu até mim. Os cabelos loiros compridos balançavam pela correria, cobrindo seu rosto e ela os afastava impaciente. Me ajoelhei no chão para poder recebê-la paralelamente a seu olhar de euforia.
–Hey, vai com calma, bonequinha- lhe interceptei antes que perdesse o freio e me acertasse.
–Spasibo, San. Mamãe é mais linda do que eu via pelas fotos- ela me agradeceu, com aquele seu sotaque russo. Sinceramente, eu achava o sotaque russo a coisa mais enjoada do universo, só perdendo para o francês. No entanto, Beth fazia isso parecer totalmente formidável, digo até fofo- Você é um anjo, San. Spasibo.
–Não precisa agradecer. Foi um prazer ajudar- eu disse desconcertada pelo elogio.
–Mas é claro que eu preciso. Será que eu posso lhe dar um abraço? Pozhaluysta, San (Por favor, San)- ela pediu, juntando as mãos ao peito como se implorasse, com um biquinho pidão.
–Não- disse séria, fazendo seu sorriso morrer. Em questão de segundos eu comecei a rir, deixando-a confusa- É brincadeira. Pode me abraçar sim, nem precisava pedir.
–Bog, você realmente me enganou- Bog, nome engraçado de Deus em russo. Eu gargalhei por sua expressão, aceitando seu abraço demorado de agradecimento. Era como estar abraçando uma bonequinha de pano por pele tão macia e delicada- San, eu vou precisar ir?
–Por que?- nos afastei para encará-la. Beth tinha um olhar confuso.
–Porque eu pertenço ao papai. Ele sempre me disse que a mama abriu mão de mim assim que nos deixou. Será que ela me quer aqui? Porque se ela se foi, significa que não me queria- fiquei atordoada por suas palavras, não nego. O que dizer a ela quando nem mesmo eu sabia os motivos de Quinn tê-la deixado com o pai? Abaixei e levantei o olhar diversas vezes na tentativa de encontrar alguma palavra que pelo menos tranquilizasse a garota, que já me olhava confusa por não obter um retorno na conversa.
–Olha, Beth... – pausei para me levantar. Delicadamente a ergui pela cintura e a sentei no capô de Francyne. As palavras corriam em minha mente, como um jogo de tiro ao alvo em que eu tinha que tentar acertar a correta entre as milhares voando de um lado para o outro, dando piruetas, mortais, sambando, surfando e por aí vai- Eu não sei ao certo o que aconteceu entre seus pais, logo porque eu também nem conheço seu pai pessoalmente- ‘’mas queria arrancar a cabeça dele e enfiá-la em seu próprio rabo’’– ... Mas sei que Quinn ama você e sempre te quis. Uma coisa que deve ter certeza é que: 1- Sua mãe anseia por você e quer reconquistá-la e 2-Adultos são seres complicados, totalmente idiotas e que só servem para fazer besteiras e passar a vida tentando consertá-las. Vai por mim, ela quer você.
–Você acha mesmo?- perguntou duvidosa.
–É uma das poucas coisas em minha vida que tenho a profunda certeza- a fitei segura. Ela franziu o cenho e passou a encarar suas mãozinhas sobre o colo- Hey, não acredita em mim?
–Bem, sim, você é uma super heroína, então devo acreditar em você- eu ri de seu argumento- Mas...
–Mas... – a incentivei continuar.
–Mas como pode ter tanta certeza disso?
–Porque eu consigo ver o coração de Quinn- seus olhos esverdeados me fitaram em intriga- Sabe, Beth, quando você for mais velha, entenderá que nem sempre irá encontrar alguém que a entenda ou compartilhe de seus pensamentos. Mas, quem sabe, apenas uma pessoa por toda sua vida vai poder ver, ler e entender seu coração desde o primeiro momento que o dele se unir ao seu- a pequena franziu mais ainda o cenho, tendo agora um semblante de confusão. Eu sorri por sua ainda tamanha inocência, alcançando sua cabeça para bagunçar-lhe os cabelos de uma forma brincalhona. Enquanto Beth ria da brincadeira, meus olhos foram atraídos para a loira que eu inspirei há segundos as palavras a sua filha. Eu sei, ela era intrigante, cheia de segredos e teimosa feito uma mula empacada, mas de nada eu podia fazer se meu coração estava refém de seus encantos (que eram infinitos) a ponto de se esquecer de como se bate.
–Santana? Hey!- Beth me tirou de minha leseira olhando pra Quinn.
–Oi? O que foi?
–Você que dormiu aí de pé- cocei a cabeça sorrindo em desconcerto por ter sido pega a um dos estados que aquela loira pancada me deixava. Ainda bem que Beth ainda não entende dessas coisas.
–Desculpa, é o cansaço. Mas é o que falei a você: adultos complicam tudo e não valem nada, mas alguns ainda tentam dar sua parcela de coisas boas para a humanidade e acredito que Quinn e o russo nojento,digo, seu pai, deram a deles colocando você no mundo. É linda e muito simpática- ela abriu um sorriso lindo, ficando vermelha.
–Não entendo muito dessas coisas, e agora descobri que você tem visão de raio x porque consegue ver o coração da mama, mas, ahmm, spasibo.
–Dobro pozhalovat’, kukla (Não há de quê, bonequinha)- demos um high Five quando a voz de Quinn ecoou próximo.
–Beth?
–Ah, oi, mama. Estava conversando com a San sobre você.
–Foi?- ela perguntou, se aproximando da filha e envolvendo sua cintura.
–Aga (sim)- Beth respondeu, abraçando o pescoço de Quinn- Você tem uma amiguinha legal, mama.
–É, filha, uma amiga bem legal- ironicamente ela me encarou, com aquele narizinho arrebitado e olhar fuzilador. Beth quebrou aquele massacre via olhar.
–Você mora aqui, mama?
–Não, bebê, aqui é a casa dos pais de Santana- ela respondeu calmamente, me deixando de lado para fitar a pequena curiosa.
–É uma fazenda?
–Similar- foi minha vez de responder- Tem vários animais por aqui, amanhã posso te mostrar todo o lugar.
–Eu posso?- ela pediu animada a Quinn e a loira apenas sorriu, gesticulando que sim com a cabeça- Obaaaaa!- nós rimos da animação da loira mais nova, até ela começar a tossir e Quinn se preocupar.
–Está gripada?
–Não, ela tem pneumonia- expliquei correndo até o porta-malas para pegar os remédios que comprei para sua tosse- Toma, de acordo com a farmacêutica, ela tem que tomar isso três vezes por dia e a próxima dose é daqui a uns dez minutos.
–Obrigada- eu acenei com a cabeça- Será que eu poderia levá-la para seu quarto e dar banho nela?
–Claro que pode. Nem precisava pedir. Ah, espera- pedi, indo até uma mochila no banco traseiro do carro- Comprei algumas coisas para ela durante a viagem, já que nada trouxe de onde a encontrei- retornei entregando a mochila para Quinn- Tem algumas peças de roupas, coisas de cabelo, frascos extras de remédios e por aí vai. O restante a gente compra amanhã. Ah, e isso- peguei a toca cor de rosa com um grande sorriso estampado nela, no painel do carro e coloquei na cabeça de Beth, que riu porque cobriu seus olhos.
–Hum, agradeço imensamente pela ajuda, Santana- ela encarava a mochila meio impressionada e depois retornava a mim tentando colocar a toca na cabeça de Beth sem que ela se mexesse e acabasse tomando sua cabeça e bagunçando seus cabelos. Eu ria feito uma idiota- Mas pode deixar que de agora em diante fica por minha conta.
–Tudo bem, não precisa agradecer- dei de ombros, conseguindo colocar com sucesso a bendita toca em Beth. Quinn tomou meu lugar e desceu a pequena de Francyne , indo de mãos dadas com ela até a casa. Pelo o semblante indiferente de Quinn, eu já imaginava o que me esperava mais a frente. Ela realmente parecia chateada, e pelas marcas escurecidas que notei próximo a seus olhos, ela provavelmente não dormiu direito e chorou mais do que deveria. Bati levemente a cabeça na lateral da porta de Francyne, torcendo para que o dia seguinte me trouxesse bons resultados e mais ainda... Que Quinn pelo menos entendesse meus motivos de partir.
Foi com esses pensamentos que deixei Francyne e fui para casa, sendo recebida com um abraço esmagador de Rob. O moleque quase chorou quando me viu.
–Maluca inconsequente- ele me apertava forte em seus braços, me elevando do chão para quase me partir no meio.
–Está bem, está bem... Agora chega, vou precisa da coluna mais tarde quando Quinn for despedaçá-la em um hadoken- brinquei, soltando-me de seus braços- Como vão as coisas?
–Do jeito que você deixou: atormentadas e bagunçadas.
–Diós, isso me persegue- fiz careta, afundando na poltrona da sala preguiçosamente. Esse conforto fez falta. Certo que os bancos de Francyne eram um máximo, sexys e confortáveis, mas nada melhor que uma boa poltrona gigante e preguiçosamente chamativa para descansar um corpo maltratado.
–Alguma novidade?
–Além do fato de você ter sumido do nada sem dar explicações e aparecer quase um mês depois com uma mini-Quinn? Tudo normal.
–Tudo bem, você está cheio das indiretas. O que foi?- questionei, me sentando melhor para encará-lo. Rob sentou na mesa que ficava de frente a poltrona.
–Você é maluca, Santana.
–Conta outra que essa já está manjada.
–Não sabe o quanto isso foi perigoso e inconsequente de sua parte? Poderia ter morrido.
–Mas não morri e ainda de quebra devolvi a filha roubada de Quinn. Não vejo o por quê de tanto barulho- rolei os olhos, voltando para minha posição de preguiça, toda largada na poltrona.
–Ela quase surta com sua fuga. Não deixou de chorar um dia sequer, estava exatamente se acabando de chorar assim que ouvimos o barulho de Francyne chegando- eu suspirei profundamente para rebater.
–Quinn está ciente de como estou com o que me contou. Preciso de respostas para essa questão enorme que é minha vida e ficando aqui encarando o teto eu nunca as encontraria.
–Mas ir sozinha, San, e sem avisar foi loucura. Estamos os três juntos nisso, não vê. Um protege o outro- ele gesticulava freneticamente, já me dando dor de cabeça.
–Robert Lopez, será que dá pra deixar o sermão para amanhã? Estou quebrada, ferrada, com dor de cabeça e precisando de um banho de no mínimo uma hora. Alivia pra mim, vai- ele balançou a cabeça negativamente e me puxou para mais um abraço esmagador.
–Sua idiota, quase me mata de preocupação- deitei a cabeça em seu ombro, acariciando seu braço.
–Desculpa, tá? Eu precisei.
–Tudo bem, mas não é a mim que deve desculpas. Mas sim a sua namorada que está muito decepcionada com você. Não exagero quando digo que ela ficou destruída com o seu sumiço- me soltou para me encarar- Se duvidar que a loira ama você mais uma vez, juro que te bato até criar juízo.
–Ui, violento. Ok, entendi o recado, Lion dos thundercats. Por falar nisso, está na hora de cortar essa juba- afundei a mão em seus cabelos e ele se afastou fazendo careta.
–Fique longe de meus cabelos. Herança de meu avô, um lord escocês.
–Tem certeza que não era da sua avó? Sei não, hein, Penélope Charmosa.
–Vá se ferrar- ele apontou na minha direção e foi para a cozinha, me deixando rindo de sua cara.
–Moleque besta!- me deitei desajeitada na poltrona, olhando para a escada atrás de mim de cabeça pra baixo. Subir ou não subir, eis a questão. Ou eu subia e enfrentava o lado satânico de Quinn querendo comer meus órgãos ou me alojaria na casa da prima da Rachel, dona vaquinha. Ela até que era jeitosinha- Pois é, podem me chamar de São Jorge, porque Quinn... Estou indo enfrentar seu dragão. Eita, se me escuta chamando ela assim... Seria dois caixões: um pra mim e outro pra minha língua- fiz careta e me levantei. Vinte minutos depois eu estava na porta de meu quarto, hesitando entrar e dar de cara com a mulher da minha morte.
O quarto estava escuro, apenas a luz de um abajur ao lado da cama estava acesa indicando que Beth já dormia tranquilamente ali. Ela realmente parecia uma bonequinha, principalmente naquele pijaminha de morangos que comprei a ela em uma loja na beira da estrada. Foi barato, mas ela havia gostado tanto dele que quase surta quando eu o comprei. Devo admitir, Karofsky pode ter nascido do arroto do capeta, mas era um cara de sorte, pois já foi casado com Quinn e era pai dessa criatura tão adorável. Deus escreve mesmo certo por linhas tortas. Procurei Quinn pelo o quarto, encontrando-a na sacada, concentrada em algo que eu não tinha ideia, mas que ela se perdia olhando.
–Só espero que não esteja cogitando em pular- brinquei, falando baixinho para não acordar Beth. A viagem tinha sido muito enfadonha, principalmente para ela que era tão pequena. Quinn apenas me olhou brevemente e voltou para sua posição. Cocei a nuca, respirando fundo para o que viria.
–Onde encontrou Beth?- ela perguntou depois de um tempo em silêncio. Os braços cruzavam-se, segurando os cotovelos.
–Em Toronto.
–O que ela fazia no Canadá? David não a deixaria sair de Moscou por nada do mundo.
–Carter havia a pego para experiências- Quinn virou-se abruptamente aterrorizada com a revelação.
–Aquele canalha fez experiências com minha filha?
–Shii, vai acordá-la- alertei, apontando para a pequena na cama. Quinn puxou o ar com força para se manter calma- Quanto a isso eu não tenho certeza, mas eu a levei em um posto médico ainda no Canadá e nada foi encontrado em seu sangue. Tinha apenas alguns sedativos em seu organismo, mas estes foram liberados em menos de um dia. Fique tranquila.
–Como quer que eu fique tranquila sabendo que meu bebê pode ter sido usada em algum tipo de experiência doentia de Carter? Eu não quero que ela fique como...
–Como eu?- ela me encarou controversa.
–San, eu...
–Não diga nada. Eu sei- me encostei ao guarda corpo, encarando o céu ressentida- Eu também não ia querer isso pra ela, viver dessa forma sem saber o que é ou o que pode fazer. Ela é muito especial para ser uma abominação.
–Não é bem assim- ela repetiu meu gesto, afastando alguns fios de cabelo que caía sobre o rosto por conta do vento, que apesar de não estar forte, ainda era capaz de bagunçar levemente nossos cabelos- Você não é uma abominação.
–E o que eu sou então? Me explique- busquei seu olhar numa intranquilidade compartilhada- Por favor?
–Você é Santana Lopez.
–Grande novidade!- zombei ironicamente, me apoiando pelos antebraços no guarda corpo- Mas se nem quem me criou me deu as respostas, quem dirá você.
–Como assim?- ela tinha o cenho franzido em minha direção.
–Encontrei Carter e ele nada me disse. Apenas que eu era o ‘’progresso’’ e blá blá blá- fiz aspas com as mãos, revirando os olhos ao me lembrar nas palavras sem sentido daquele maluco fumador de capim estragado- Aquele cara chega a ser mais chato que o Enzo e o Bob Esponja Calça Cagada juntos.
–Como conseguiu encontrá-lo?
–Bilbo me levou até lá.
–Bilbo? Como conseguiu que ele lhe ajudasse? Aquele homem é extremamente egoísta e egocêntrico- arqueou a sobrancelha questionadoramente.
–No começo por certas palavras ‘’amigáveis’’ de minha parte e uma certa ameaça de explodir sua cabeça como uma abóbora podre- Quinn fez careta de nojo- Mas depois que viu Beth amarrada a uma cama de experiências, acho que algo de bom cutucou aquele peste e ele me ajudou a sair de lá com ela. Disse que ficaria por lá pra acalmar a situação. Confesso que não esperava isso vindo dele.
–Bilbo já foi um bom homem. Éramos muito amigos quando eu era mais nova e morava com minha mãe e o marido dela- ela explicou abraçando o corpo, a noite ficava cada vez mais fria- Ele era amigo de infância do meu padrasto e quando este viajava a negócio, Bilbo cuidava de minha mãe, de mim e do enteado dela.
–Era como um pai postiço?
–Pode ser colocado assim- deu de ombros, continuando- Quando eu me casei, Bilbo foi morar comigo e David para ficar de olho em meu marido. David só piorava o temperamento e quando seu pai morreu, ele ficou perturbado e quis destruir quem chegasse perto. Foi por isso que fui embora com meu pai. Ao tentar fugir, fui pega por Bilbo, que me deixou ir com a condição de que deixasse minha filha com ele, pois sem ela David enlouqueceria de vez e me seguiria nem que fosse até o fim do mundo para me matar. Não há coisa de que eu mais me arrependa do quer ter deixado minha filha com aquele monstro- Quinn já tinha lágrimas formadas nos olhos prontas para escorregarem por seu lindo rosto. Estava cada vez mais frio naquela sacada e ela estava apenas com um vestido leve. Eu tirei minha jaqueta e coloquei sobre seus ombros para aquecê-la- Obrigada.
–Disponha- sorri levemente em retorno, voltando para meu lugar. Ela parecia frágil pelas lembranças, mas eu deixei que continuasse. Talvez desabafando a fizesse melhorar daqueles sentimentos doídos que tanto gritava em seu peito- Eu busquei minha mãe para lhe contar sobre o que acontecia com David, como ele estava agindo, como estava doente de ódio e ganância e sobre como me tratava ultimamente. Ele... – pausou buscando forças para continuar- ... hum... Ele chegou a me agredir. E não foi só uma vez, na última que fez, deslocou meu braço porque eu não quis fazer sexo com ele. E ao sair da cama, me puxou com tamanha violência que provocou isso- eu estava boquiaberta e em choque pelo o que ela me contava. Meu Deus, que esse homem tem no peito? Cocô?
–Nossa! E o que sua mãe fez sobre isso, Quinn? Ela ajudou você?- Quinn riu ironicamente.
–Ela me chamou de louca. Disse que seu ‘’filhinho’’, como ela o considerava, nunca faria tal coisa. Que seu marido soube criá-lo.
–Espera... O pai de David era seu padrasto?
–Sim, Roger Karofsky é seu nome. Pai de David e meu padrasto. Foi ele quem me criou- se eu pudesse arregalar mais os olhos, meu cérebro seria visto a léguas de distância.
–Puta que pariu o Picachu!- exclamei assombrada com a revelação. E eu achando que tinha problemas na família- Mas e quanto sua mãe? Ela não notava seus machucados ou algo parecido?
–Minha mãe nunca ligou pra mim, eu era mais alguém que ela aturava por ser sua filha e porque o marido de fato gostava de mim. Roger, apesar dos crimes e derivados, me tratava como uma filha. Me dava carinho, pagava ótimas escolas e me dava os presentes mais legais e mais caros que nenhuma criança sequer sonha em ganhar- ela limpava uma lágrima ao falar- Foi nesse meio de desfrutes e crimes que fui me criando. Passei a adolescência regrada a desfrutes e uma vida leviana. Perdi a pureza aos quatorze anos com alguém que eu sequer me recordo. Engravidei de Beth com dezoito anos, quando eu achei estar apaixonada por David. Ele esbanjava tanto poder, virilidade, e até um certo jeito carinhoso comigo que fiquei extremamente encantada. Fui uma bela idiota isso sim. Príncipe encantado, eu dizia- riu do próprio comentário- Aquele ser sequer pode ser chamado de humano.
–Bom, olhando por esse lado, minha desilusão amorosa foi um conto de fadas. Me lembre de agradecer Rachel por isso- comentei brincalhona e vi que ela tentou se segurar para não rir.
–Apesar disso tudo, há apenas uma coisa de que não me arrependo, mais ainda agora que a vi tão crescida e linda como um pequeno anjo elétrico- olhou para a filha dormindo tranquilamente em minha cama. Eu acompanhava tudo com um sorriso leve, vendo Quinn fitar a filha com um imenso amor- Minha filha é tudo pra mim. Mas se eu pudesse escolher com quem me tornaria mulher, pra quem eu entregaria meu corpo, minha pureza... Esse alguém com toda certeza seria você, Santana- meu sorriso desabou perante a revelação. Não que aquilo fosse ruim, porque não era, só que fiquei invocada, sei lá... Boba?- Demorei muito para perceber o quanto você me atraía e mexia comigo, me sentindo uma completa idiota por isso quando me entreguei de vez ao que sentia por você. Nossa primeira noite foi perfeita e só foi melhorando cada vez que nos tocávamos, nos explorávamos melhor e eu pude ter cem por cento de certeza de que era com você que eu queria ficar, apesar de tudo que está nos acontecendo.
–Uau!- exclamei afagando os cabelos em nervosismo, me sentindo encabulada.
–Seu jeito carinhoso de me tratar mesmo eu tratando-a mal me fez perceber que se realmente existe alguém perfeito no mundo, esse alguém é você.
–Você está enganada- disse, voltando a encostar os antebraços no guarda corpo, fitando o vazio de meu ser ao fechar os olhos- Não sou perfeita, Quinn.
–Mas faz com que eu me sinta assim, então é igualmente perfeita- nos encaramos por instantes sem dizer nada. Ela abraçava minha jaqueta ao corpo buscando calor enquanto meus olhos a explorava por completo e a mente absorvia tudo já dito até agora- Eu sei que está sendo difícil pra você aceitar tudo que lhe foi entregue, tudo que descobriu ser ou obstante a seus medos e incertezas, mas não desconta isso em mim, por favor. Não sabe o quão quebrada e temerosa fiquei depois de sua partida. O medo que tive de que algo acontecesse a você quase me aniquila.
–Quinn, eu precisei. Você sabe muito bem disso.
–Eu sei, e lhe entendo, mas não devia ter me abandonado daquela forma, mesmo que fosse voltar semanas depois. Eu fiquei angustiada e definhando de preocupação por você, a mulher que amo, estar por sei lá onde correndo perigo atrás de sabe-se lá Deus o que- Quinn cuspia tudo em minha cara, com um crescente tom de mágoa- Deveria ter pelo menos me avisado, não apenas deixando dizeres assombrosos a um quadro. Você disse que me respeitava.
–E respeito, amo mais ainda, mas não queria pôr você em perigo. Pra onde fui, o que enfrentei e presenciei não é algo que eu iria querer que você visse- me aproximei dela, mas a mesma deu um passo pra trás- Por favor, entenda.
–Não, estou magoada com você- cruzou os braços emburrada-Me excluir de uma situação que eu escolhi estar participando para ajudar meu pai e agora a você como sua namorada, é nada mais nada menos que egoísmo de sua parte.
–É a suja falando da mal lavada- disse fortemente com sarcasmo- Quem foi mesmo que me escondeu uma filha, um casamento com o ser mais desprezível e vomitável do universo e sobre eu ter sido criada em um terreiro de macumba por um bando de cientistas fumadores de tijolos de cocô, sendo que um deles é por acaso meu querido sogro-só que não?– perguntei contando nos dedos cada coisa listada- Não me venha falar de egoísmo aqui, Quinn Fabray, senão eu te amarro nas costas do Fred III e dou repolho a ele até que passe o dia inteiro soltando pum até você ficar mais amarela do que já é por natureza.
–Grossa!- deu as costas a mim, com aquela famosa pose britanicamente superior- Eu fico me perguntando o que diabos vi em você para me sentir tão atraída. É tão delicada quanto o Shrek.
–Eu posso listar muito bem o que você viu em mim para ficar caidinha, Fabray- eu disse maliciosamente tentando uma aproximação perigosa.
–Ah não, não me olhe assim, Santana Lopez. Não pense que eu a perdoarei tão facilmente para dar-lhe o que quer, sua despudorada- Quinn desviou de mim, indo para o outro lado.
–Minha loira, me entenda, por favor e me deixe te amar- e mais uma vez ela desviava de mim, seguindo para o sentido oposto- Diós, e eu achando que Rachel era dramática. Sinceramente, vocês estão páreo à páreo.
–Como? Você não está por acaso me comparando aquela desfrutada, está, Santana Lopez?- ela colocou a mão na cintura de uma forma intimidadora. Fiz careta de ‘’ferrou tudo’’ e me mantive sem nenhum movimento brusco, como se tivesse de frente a serpente mais venenosa do universo, que se ela me picasse, cresceria um terceiro peito em mim.
–Nãooooo? Eu? Putz, eu nunca faria isso, meu bem. Rachel é... – Quinn tirou um dos tamancos e arremessou em mim, que por sorte consegui desviar- Precisa trabalhar essa mira.
–Pode deixar, eu vou pessoalmente aí acertá-lo em sua cabeça- dito isso, Quinn correu até mim e passou a me desferir tamancadas. Oh pai, obrigada por meus reflexos de felinos- Sua idiota, nunca mais me compare àquela anã de nariz desproporcional a seu rosto e totalmente desfrutada. Fica pensando nela, não é? Eu vi como olhou pra suas pernas outro dia... Ahhhhhhhhhh!- eu não sabia se corria ou se morria de tanto rir da histeria de Quinn com ciúmes de Rachel. Ela iria me matar, já que me alcançaria logo levando em conta de minha quase falta de ar de tanto gargalhar da situação. Eu tentei que não ficasse algo escandaloso por causa de Beth, mas era impossível com Quinn daquela forma, parecendo uma maluca.
–Não, pára, eu vou acabar morrendo de tanto rir- eu parei, segurando seus braços para que não me matasse de uma tamancada.
–Santana, me solte- ela gritou com raiva. Em um puxão nada delicado eu colei nossos corpos, fazendo que seu rosto e o meu ficasse muito, mas muito próximo.
–Shiii, sua filha está dormindo, sua doida- Quinn estava ofegante, porém parecia que ia se alcamando aos poucos.
–Você é uma imbecil.
–E você é muito linda com raiva- como eu tinha as mãos segurando as dela, acariciei seu rosto com a ponta do nariz, não deixando de ser romântico esse gesto.
–Sua conquistadora barata. Acha que ficando assim toda carinhosa e romântica comigo eu vá perdoar você por ter fugido sem dar explicações?- ela indagou ainda em chateação, porém mais relaxada.
–Não sei, mas tenho certeza que irá tentar deixar que eu me redima com você.
–Com que certeza tem isso?
–Com essa- rapidamente colei nossas bocas em um beijo profundo e de desejo. Ela no início ficou relutante, mas se entregou fervorosamente a isso, deixando-me sentir toda a saudade que tinha no peito e que a deixava com raiva. Encontrei sua língua e a fiz dançar com a minha, em uma sensual e deliciosa onda de prazer, sentido-a ir amolecendo o corpo em meus braços. Soltei seus braços, pois ela fazia força para tentar tocar meu rosto e eu concedi isso, recebendo aqueles dedos macios deslizando por minha pele e enviando ondas de prazer por todo meu corpo cansado. Levei as mãos para seus braços e os acariciei de cima a baixo, transformando aquele beijo sensual e cheio de desejo em algo carinhoso e calmo. Elas agora subiam para seus ombros e deslizavam pelas costelas até alcançar a cintura e a apertar com firmeza, fazendo-a gemer sobre meus lábios. No momento que o ar nos faltou, foram nossas testas que se conectaram e quando dei por mim, estava beijando-a agora encostada ao guarda corpo, com ela abraçada a minha cintura enquanto eu repetia o gesto por seus braços. O beijo estava tranquilo agora, era mais aqueles preguiçosos e intercalados, que hora ou outra eu parava para lhe fazer uma carícia no rosto.
Eu me perdia naqueles lábios e ainda mais naqueles olhos, principalmente quando me fitavam com tanto carinho.
–Prometo fazer de tudo para merecer o seu perdão.
–Só não fuja mais sem mim, por favor. Eu morri por dentro sem você.
–Eu sei, meu amor. Desculpa- lhe dei um selinho demorado- Mas você sabe que muitas coisas nos cercarão agora.
–Tenho tanto medo disso, San- ela se agarrou a mim, visivelmente assustada.
–Hey, eu estou aqui agora. Não vou deixar que nenhum mal alcance você, ta? A nenhuma de vocês- apontei com a cabeça para a pequena Fabray neutra a qualquer barulho próximo.
–Nem sei como lhe agradecer, San. Você conseguiu algo que há cinco anos eu luto para pelo menos ter contato.
–Isso não é algo aleatório, Quinn. Algo ou alguém quis que eu fosse àquele lugar e encontrasse sua filha- acariciei seu rosto com extremo carinho- Acredita em uma ligação pelo destino?
–Não sei, San. Mas acredito em você.
–E eu em você, minha loira- beijei a ponta de seu nariz e isso a fez sorrir- Sabe que as coisas só ficarão mais difíceis a partir de agora, não sabe?
–Infelizmente sei sim- voltamos a nos abraçar, mas agora ficamos em completo silêncio, onde apenas se ouvia as respirações em conjunto- Você precisa descasar.
–Nós precisamos- ela se afastou, me oferecendo a mão- Que tal um banho?
–Eu adoraria- sorriu lindamente para mim e eu aceitei a sua mão.
Tomamos um banho demorado e quentinho juntas, regado a puro carinho e cuidados que só quem ama sabe que o outro precisa. Nada de malícia existia ali, apenas o zelo e a ternura que todos precisamos para sobreviver e lidar com os conflitos internos e externos que vem e vão sem aviso ou a forma indolor que necessitamos para não desistir de vez de viver e se entregar ao demônios invisíveis que só nós sentimos. Minutos depois estávamos em nossas roupas confortáveis de dormir e sorrisos comparsas pelas brincadeiras que trocamos até chegar na cama. Deitamos uma de cada lado de Beth, a deixando no meio. Ela se inclinou cuidadosamente sobre a filha para me dar um selinho demorado de boa noite.
–Eu amo você- sussurrou me encarando no profundo dos olhos.
–Te quiero, mi amor- outro selinho selava nossa despedida para uma boa noite de sono e ela retornara para seu lugar, com um sorriso largamente feliz em seus lindos lábios rosados. Alcançou minha mão para puxar pra si um pouco mais acima da cintura da pequena loira adormecida e beijou-me cada dedo, como eu sempre faço com ela. E foi nessa maratona de carinhos que eu fui a primeira a adormecer, ainda sentindo que ela me encarava, mas dessa vez eu não me importei. Agora eu estava deliciosamente ferrada por duas loiras, de cabelos tão cor de ouro quanto seus corações. Haverá cura para o amor algum dia?
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