Ligadas pelo destino
1 Capítulo 1- A loira fatal.
Notas iniciais
Sabe aqueles dias que você torce para que a noite nunca acabe e possa dormir, mais ou menos, uma década? Pois é... É exatamente isso que do que estou falando. Nos meus 23 anos de idade, nunca estive mais entediada com a minha vida. Com o passar dos anos percebi que o que eu tentei ser só me transformou em alguém que não é nada. É engraçado eu falar de mim mesma dessa forma, mas é o que sinto e não posso fingir o contrário, senão eu juro que explodo.
Me chamo Santana Lopez. Nasci e fui criada no Texas com dois irmãos e um cabrito. Sim um cabrito. Esse malfadado se chamava Fred III, pois acredite ou não, ele tinha um pai que pertenceu ao meu pai, que também tinha um pai, que pertenceu ao meu avô. Confuso, não? Enfim, parece que esses troços fazem parte da nossa linhagem tão hostil. Eba! Quando completei 18 anos saí de lá que nem um foguete e fui para um lugar melhor e tranquilo. Mentira... Me mudei para a cidade mais barulhenta e poluída do universo... Nova York. Esse lugar devia ser chamado de Rato York, por que sinceramente, nunca vi lugar para ter tanto dessas pragas com dentinhos que amam um sapato. Creio que aqui deva ter mil ratos para cada cidadão.
Estudo engenharia na Columbus. Faculdade boa que eu tive que vender meu sangue para conseguir uma bolsa e como todo ser humano quebrado financeiramente, tenho que me escravizar para me manter. Eu até que poderia viver melhor com a herança que meus avós deixaram, mas meus irmãos passaram a mão em tudo e não deixaram uma migalha sequer para a coitada aqui aproveitar. Porém eu deixei isso de lado e resolvi seguir com a minha animada vida. O que eu aprendi com tudo isso? É que herança é aquilo que os mortos deixam para que os vivos se matem.
Creio que você é o que conquista, mas estou longe de ser alguma coisa. Na verdade não tenho ideia do que eu possa ser, talvez só faço parte da porcentagem de seres inúteis que só estão nesse planeta confinado para servir de peso de papel para os outros.
Então vamos ao que interessa... Como eu vou me descobrir... E tudo começa assim:
Xxxxx
De repente o famigerado do despertador começou a gritar loucamente na cabeceira ao lado da minha cama e minha vontade era de jogá-lo pela janela para fazer jus aquela frase ‘’as horas passam voando’’, mas infelizmente ele faz isso por um motivo... Não deixar que os idiotas se atrasem.
Porém eu, como um ser humano normal, tento aquela regrinha dos mais cinco minutinhos e já vou. Acabo caindo no sono novamente e acordo em um pulo quando noto que estou atrasada quase uma hora. Levantei da cama com quase um mortal e me dirijo a duzentos por hora para dentro do banheiro. De banho tomado, corri para procurar alguma roupa limpa naquele monte de quase quinze metros de roupas sujas, que sinceramente, chego tão cansada em meu apartamento que não tenho nem uma gota de ânimo para passar na lavanderia para lavar.
Ao pegar meus livros e objetos pessoais, saí como um jato do meu apartamento (lê-se apertamento), por que creio que uma caixa de sapatos deve ter mais espaço que aquele ninho que eu morava.
Quando sai daquele formigueiro em que eu morava, dei de cara com a minha eterna paixão, a única coisa boa que me restou na vida, Francyne... Meu carro. Pode até parecer estranho, mas eu amo esse carro mais que a mim mesma. Ele pertenceu ao meu avô e meus irmãos só não me tomaram por que eles julgavam que nunca mais funcionaria. Porém eu me apaixonei perdidamente por ela (ela sim, meu carro é fêmea), e para minha sorte, meu avô me ensinou umas paradas de mecânica... Manutenção, checagens, ajustagens e muitos outros métodos de se consertar um carro sem gastar exageradamente.
Eu a restaurei quase que perfeitamente, pois sua idade um tanto avançada me impediu de ir mais a fundo, porém ela ficou simplesmente maravilhosa. Francyne era um Ford Maverick 1969 de 3.3 e 91 cv, com seis cilindros em linha e associados a um câmbio automático de três marchas com alavanca na coluna de direção. A lixei por completo e passei algumas camadas de tinta preta por toda sua extensão. Fiz adesivos em formato de chamas laranja e colei em suas laterais, juntamente com caveiras consideradas meios assustadoras por algumas pessoas ignorantes que não reconhecem uma obra de arte quando veem uma. Ficou minha cara, só que em uma versão mais bonita de mim. (Risos).
Entrei nela e me ajeitei naquele banco mais que confortável de couro vermelho, que tive miseravelmente que vender minha coleção de gibis do The Walkind Dead para comprá-los, mas vamos deixar isso de lado antes que eu comece a chorar.
Sai de lá como se tivesse fugindo da polícia, rumo a minha faculdade.
Chegando no estacionamento, procurei desesperadamente por uma vaga e xinguei o lugar de todos os palavrões já inventados pelo ser humano por não encontrar uma. Bom, essa sou eu e meu azar desgraçado. Acredito fielmente que ando tão sem sorte, que se eu pegar o pote de ouro no fim do arco íris ele vai estar com feijão congelado.
Achei uma vaga finalmente e estacionei em uma manobra deveras espantosa, fazendo algumas adolescentes que passavam o tempo por lá, me olharem espantados.
— Uhm... Muito vídeo- game- brinquei com eles enquanto trancava todas as portas me certificando que meu bebê estaria seguro- Hey, vocês, cuidado com essa belezinha- os alertei.
Saí correndo que nem uma maluca pelos corredores da faculdade. Agradeci em pensamento pelos alunos já estarem em suas devidas salas, pois assim ficaria mais fácil eu chegar a minha sem derrubar ninguém pelo caminho. Parei cinco segundos na frente da sala de química onde seria minha primeira aula, buscando um pouco de fôlego que perdi pelo caminho. Acho que corri tudo o que eu nunca havia corrido antes na minha vida. Abri a porta receosa, já aguardando aquela bronca do meu professor e que pena que eu tinha razão, pois o mesmo parou o que estava fazendo para me encarar, enquanto franzia a testa e olhava para o relógio em seu pulso cabeludo (sério, acho que em outra vida ele deve ter sido um macaco ou um parente peludo próximo).
—Senhor... – eu tentei argumentar, mas ele me interrompeu.
—Isso não são horas de se chegar para a aula, senhorita Lopez- ele disse com uma postura durona , que já estava me assustando.
—Me desculpe por isso, professor, mas tive uns probleminhas... – tentei inventar alguma coisa, mas nada inteligente saia.
—Escute, Santana. Você é uma das alunas mais brilhantes dessa faculdade- Como é que é? Ele estava me elogiando. Fiquei confusa já esperando por aquele famoso ‘’mas’’ indicando que eu estaria ferrada.
— Mas... – está aí, não falei?- É muito preguiçosa e irresponsável.
—Professor, eu juro que tento fazer certo, mas as coisas não estão fáceis- disse ainda procurando o meu fôlego.
—Não me venha com papo furado, minha cara. Ou você se dedica mais ou eu reprovo você e creio que com isso perderá sua tão amada bolsa de estudos- ele disse em um tom sarcástico, me fazendo querer arrancar todos aqueles dentes amarelos de sua boca.
—Prometo que irei, professor Snape.
—É State- me corrigiu visivelmente irritado, por isso eu fazia de propósito. Ele me lembrava muito aquele professor dos filmes do Harry Potter, tanto na chatice quanto fisicamente.
—Foi o que eu disse, State- dei de ombros- Será que eu posso ir para o meu lugar agora?- perguntei cutucando a onça na minha frente com um olhar de inocência (que eu só tinha a cara) e ele me encarou como quem busca paciência.
—Vamos, saia logo da minha frente- State autorizou e eu saí dali em disparada antes que ele mudasse de ideia.
Caminhei até a bancada que eu dividia com a minha única amiga (pelo o menos ela dizia ser), mas no caminho um par de olhos me encarava. Na verdade todo mundo na sala me encarava, mas só esses olhos chamaram minha atenção. Brittany Susan Pierce. Britt para os íntimos, que não era o meu caso. Me hipnotizei com eles a ponto de tropeçar nos meus próprios pés e quase me estatelar no chão. Ouvi o riso geral da turma e tratei logo de me sentar.
—Menina estranha- Kate, uma das amigas de Britt comentou.
—Até que ela é bonitinha- Brittany disse olhando para trás, me enviando um aceno e um sorriso, o que em fez derrubar meu caderno.
—Sério que você acha isso?
—Sim- ela respondeu dando de ombros.
—Então acho que não estamos vendo a mesma pessoa- Kate disse voltando sua atenção para Britt- Ela não tem um pingo de senso de moda e esses óculos? A coisa mais ridícula que vi na minha vida.
—Você que diz. Agora vamos prestar atenção na aula- Brittany encerrou.
—Onde você estava, sua maluca?- Tina, minha amiga de olhos puxados, perguntou sussurrando para que o professor escutasse- Não tem noção de perigo?
—Dormi demais- expliquei começando a notar o que o professor já havia escrito na lousa.
—Você tem que tomar cuidado, Santana. Já é a terceira vez só essa semana.
—Eu sei, mas Tina... Eu ando exausta ultimamente, não durmo direito, não como direito e tenho que trabalhar dobrado naquela pocilga daquele restaurante para manter aquela droga de apartamento e essa droga de faculdade- argumentei de saco cheio com tantas cobranças. Eu sei que não sou uma coitadinha, mas pelo o que passo todo dia poderiam me dar um voto de confiança.
—Eu entendo você em partes, mas tenta se esforçar mais, San. Eu me preocupo com você- ela disse tocando meu braço com um ar de sinceridade.
—Pois você é a única, por que nem eu ligo para mim- brinquei e ela me deu um tapa no braço.
—Quer compartilhar alguma coisa com a turma, Lopez?- o professor cara de lampreia se dirigiu a mim, claramente percebendo que Tina e eu conversávamos.
—Eu só estava dizendo a Tina que adorei essa blusa vermelha que o senhor está usando. Ela assenta sua juventude cordial- brinquei ouvindo a risada dos meus colegas e o professor apontou o dedo em minha direção em sinal de advertência.
É... O dia só estava começando para mim.
Xxxxx
Depois que minha aula acabou, segui para meu querido emprego (ironicamente falando). Eu trabalhava em um restaurante, que ficava na esquina com a Broadway, servindo mesas. Até que o lugar era organizado, mas não diminuía minha raiva por ele.
Além do mais o dono era um chato de galocha filhinho de papai e mais outros “adjetivos” que eu tenho muita educação para não sair dizendo por ai.
Antes de ir para o restaurante, parei para abastecer meu carro. Enquanto o atendente enchia o tanque, eu dei uma passada na lojinha do posto para comprar algo para mastigar já que sai da casa sem nem tomar água. Quando saí da loja, alguém esbarrou em mim com força e pareceu que meu pulmão trocou de lugar como coração durante a batida.
—Não olha por onde anda, não?- eu disse me recompondo, pegando meus óculos fundo de garrafa de tequila que havia caído no chão- Quase me atravessa.
—Calminha aí, latina zangada. Foi só uma distração- a mulher se defendeu, consertando seu vestido deveras curto, me fazendo sem querer querendo reparar nas suas pernas (sim, eu me atraio por garotas, mas Nova York é uma cidade gay, então pro inferno quem achar ruim. Vão caçar lavar uma louça que é melhor).
—Uhm, tudo bem, só preste mais atenção da próxima vez- eu disse desconsertada desviando meu olhar, já notado, das pernas dela.
—Prometo que irei- ela disse com um sorriso cínico em seus lábios também atraentes (mas que raios é isso? Estou parecendo aqueles cachorros no cio quando só tem uma cadela na vizinhança e mais de 200 cachorros para disputá-la )- Até mais, irritadinha.
—Até- nos despedimos e ela saiu em um rebolado que não querendo mentir, mexeu comigo. Sem falar naqueles olhos cor de avelã dela... Uau, ela era simplesmente de tirar o ar.
Paguei o rapaz da gasolina e segui para meu emprego entediante como todo resto da minha vida.
—Está atrasada!- ouvi meu chefe enfadonho dizer. Será que é só que vou ouvir hoje?
—Parei para abastecer- disse passando direto por ele, sem o encarar.
—Pois saiba que você não tem privilégios a mais que seus companheiros aqui e que... – ele começou a cacarejar perto de mim e eu pedi aos céus que me desse paciência, porque se me desse força, eu enfiaria meu pé na garganta daquele musgo.
—Tudo bem, meu chefinho tão amado- ironizei, era o que eu mais fazia ultimamente- Prometo não fazer de novo.
—Acho bom mesmo, pois se não eu corto 10% do seu salário, queridinha- ele ameaçou com aquela voz de gay enrustido dele.
—10% de zero continua sendo zero- comentei baixo, acho que ele escutou.
—O que foi que disse?
—Que agradar o senhor é o que eu quero- menti descaradamente e ele só me encarou dando em seguida um volta meio diva saindo dalí- Gay- chamei quando ele estava longe.
Coloquei meu avental horroroso e comecei a servir as mesas. E como sempre, foi o pior dia da minha vida. Uma criança jogou sorvete em mim, uma senhora me fez refazer três vezes o pedido dela, um cara bêbado vomitou em meus sapatos mastigados por ratos. Enfim, um dia perfeitamente digno do quinto dos infernos.
De repente a porta do restaurante se abre e o dia parece clarear mais quando uma pessoa entra. Era a loira do posto de gasolina mais cedo. Sorri no automático quando ela aproximou-se, sentando em uma mesa próxima ao banheiro.
—É agora, Santana, vai lá atender a loirinha fatal- disse a mim mesma tentando ganhar coragem para fazer- Eu vou é desmaiar bem na frente dela. Socorro!- Caminhei obrigando minhas pernas ao máximo que pude- B-Boa pedido, desejo, quer senhorita agora?- disse parecendo um robô, dando vontade de me bater ali mesmo por me embolar toda.
—O que foi que disse?- ela perguntou confusa. Respirei fundo.
—O que a senhorita deseja pedir, eu quis dizer. Desculpe.
Ela me olhou mais avaliativa.
—Ora, ora, ora... Se não é a latina marrenta do posto de gasolina- ela disse sarcástica, que me deu uma pontada de raiva por que aquilo doeu de verdade. Até agora sinto meu ombro doer- Anda me seguindo?
—Se alguém estiver seguindo alguém, eu diria que é você, porque eu trabalho aqui- rebati e ela sorriu. Pernas bambas, pernas bambas, por que não ajo como uma pessoa normal?
—Touché- brincou olhando o menu- Então... Santana- disse lendo meu crachá- Me traga uma omelete com bacon e um suco de laranja.
—Ok, trarei daqui a pouco seu pedido- me retirei indo providenciar a comida daquela moça que além de bonita era irônica e mexia com minha imaginação.
Depois de uns dez minutos peguei seu pedido e caminhei para sua mesa para a entregar. Ela me enviou outro de seus sorrisos que diziam muitas coisas e perguntou:
—Aquele carro ali na frente é o seu?- perguntou apontando para Francyne.
—É- respondi enquanto colocava o prato a sua frente.
—Você tem bom gosto- comentou levando um pedaço de bacon a boca da forma mais sensual que já vi na vida.
—O- obrigada- agradeci deixando seu pedido lá, saindo rapidamente em seguida.
Continuei meu trabalho tentando irrefutavelmente esquecer a loira mais que gata sentada degustando os ovos com bacon feitos pela queridíssima Mary Anny. Porém minha cabeça me traiu e eu olhei em sua direção e notei que ela ficou inquieta quando uns caras mal encarados entraram no local. Fui à sua direção para ver se estava tudo bem, mas alguém chamou minha atenção. Uma senhora reclamava dos ovos moles que lhe entregaram e eu revirava os olhos dando explicações para ela, querendo logo sair dali. Quando finalmente me livrei da Dercy Gonçalves (que Deus a tenha), sai em disparada para onde estava a loira, mas não a vi, quando de repente algo se chocou contra mim:
—Caramba- reclamei sentindo meu braço doer. Era ela, a loira mistério que se chocou contra mim novamente. Parecia que nossos corpos possuíam uma espécie de magnetismo que os unia daquela forma... Ou ela era tão destrambelhada quanto eu.
—Parece que de alguma forma você me atrai- não sei se ela disse brincando, mas aquilo me revirou por dentro. Ela me encarava profundamente, desviando para meus lábios. Senti minha respiração pesar com a proximidade- Até mais... Foi um prazer conhecer você- sussurrou próximo a meu ouvido, me fazendo ficar feito um porco espinho de tanto que fiquei arrepiada e saiu.
—Até- me despedi ainda zonza e ela foi se distanciando. Estranhei quando ela entrou no banheiro. Por que ela se despediria e entraria no banheiro? Cocei a cabeça intrigada e notei que os caras estranhos procuravam por alguém. Será que era pela loirinha? Não, só pode ser coincidência. Notei que ela demorou demais no banheiro e entrei no mesmo a sua procura, porém não a encontrei por lá.
Sai correndo dali, indo até a porta do restaurante.
— Ah, lá está ela- disse admirando ela andar pela calçada- Nossa... Que linda!- passei a mão em meus cabelos negros, suspirando- Como é lindo seu andar e como entra no meu carro... Espera aí!- disse saindo do transe- Como ela entrou no meu carro?- passei a mão no bolso da frente da minha blusa, onde guardava a chaves do carro. Ela devia ter pego quando nos esbarramos.
Me apressei em correr mais que depressa, mas algumas pessoas transitavam na minha frente e quando cheguei à calçada ela já tinha partido, levando meu bebê com ela.
— Hey, volta aqui com meu carro- gritei continuando a correr tentando alcançá-la, mas ainda não possuía super poderes para esse feito- Meu carrinho- disse parando de correr, apoiando minhas mãos nos joelhos ofegante.
Uma palavra: FUDEU!
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