Notas iniciais
Oieee minhas lindaaass!! Cheguei depois desse quase hiatus pra trazer outro cap duplo pra fazer o fim de semana de vocês mais feliz (eu espero que faça, pelo menos uashuahsu) Tão beeemmm grande e acontece muita coisa, espero que gostem. E falando da minha felicidade agora: Lifeline recebeu mais 2 recomendações nesse meio tempo, foi praticamente um presente de aniversário então muuitooo obrigada Duda Borges e NandaNascimento, eu ameeei demais, vcs são divas *-* Um agradecimento mais que especial pra todas que comentaram e trouxeram um pontinho de luz para os meus dias: NandaNascimento, isnotme, Menta, Mary Noleto e Duda Borges. Esse "Zwischenzug" que parece chines aí no titulo é o nome de uma jogada no xadrez, mas eu vou explicar o que significa exatamente, lá no fim uashuash Boa leitura.

• NATALIE COOPER •

Existe algo de libertador em limpar a mente, mas não é uma tarefa fácil. Minha mãe tentou me ensinar a meditar uma vez, mas eu parecia incapaz daquilo. Com o tempo, aprendi que a forma mais eficaz de me impedir de pensar em alguma coisa, era ocupar meu corpo e minha mente com outra coisa.

Trabalho, faculdade, filho, focar na realidade e manter os pés no chão, sempre me impediu de divagar sobre assuntos que eu não podia controlar. Eu aprendi a não me preocupar, me ocupando.

Infelizmente, no Santuário, minhas ocupações eram exatamente o que me preocupavam. Negan havia descoberto mais um dos meus pontos fracos; me obrigar a ser uma cretina com os Pontistas, era ainda mais eficaz que me deixar de guarda no harém. Ele abusava daquilo, me mandando supervisionar os piores trabalhos possíveis e, tudo que eu podia fazer, era aceitar com um sorriso no rosto.

Eu estava cansada. Cansada nas noites em claro, do choro, do nervoso, do abuso de Negan. De tudo. Eu só queria que acabasse, mas, não conseguia ver uma saída.

— Você está péssima. — Kane debochou, se sentando na minha frente.

Ainda era muito cedo, o refeitório vazio me dava um pouco de calma, porém Kane Bennet era quase minha sombra, principalmente depois da nossa visita a Alexandria.

Era como se o Salvador soubesse todos os meus horários, todavia aquilo me incomodava menos a cada dia, talvez fosse o costume, ou talvez eu estivesse tão cansada de suportar tudo sozinha que minha mente achasse confortável aceitar Kane como um aliado.

Mas ele não era um aliado, eu não podia confiar nele. E isso era algo que eu tinha que lembrar constantemente.

Ergui os olhos e o encarei por três segundos, pensei em rebater o deboche, mas eu estava cansada demais e preferi voltar minha atenção para o suco de laranja sobre a mesa, brincando com um dos canudos que viera no copo.

Tony deve estar de bom humor, ele sempre coloca dois canudos no suco quando está de bom humor. Provavelmente tinha feito as pazes com Simon.

— Você precisa parar com isso... — Kane suspirou em forma de advertência.

— Parar com o quê? — Perguntei, apoiando minha cabeça na mão esquerda, enquanto com a direita tirava e colocava um dos canudos de volta no copo, enquanto o outro permanecia intocado.

— Seu comportamento. — Respondeu entredentes, arrancando o objeto de mim sem nenhuma delicadeza.

Observei Kane jogar o canudo longe, pouco preocupado com quem limparia aquilo. Era como se eu pensasse em câmera lenta e não fui capaz de assimilar o que ele queria dizer, percebi que minha mente estava um tanto letárgica, talvez fosse a falta de sono. Havia apenas um canudo no meu copo agora.

Ele negou algumas vezes e se debruçou na mesa, aproximando o rosto do meu.

— Você está desistindo, você parou de jogar e, aqui dentro, é assim que você acaba morta, ou pior. Então, pare com esse comportamento. — Abaixou consideravelmente o tom de voz enquanto falava.

— E o que te faz pensar que eu estou jogando seja lá o que for? — Devolvi sem erguer a cabeça, a verdade é que eu já estava cansada daquela coisa toda; de perguntas sem resposta e de ter que adivinhar de que lado Kane estava.

— Eu tenho um tipo de sexto sentido pra essas coisas. — Ele deu de ombros e voltou a se encostar na cadeira despretensiosamente. — E sabe, eu observei você nos últimos meses e você era muito boa nisso, então aquele cara chegou... — O sorriso morreu em seu rosto. — Só não seja a garota estúpida e apaixonada, é assim que você perde.

Eu odiava admitir que Kane estava certo sobre qualquer coisa, mas ele estava, principalmente naquele assunto, Daryl Dixon era meu calcanhar de Aquiles e, cedo ou tarde, Negan descobriria o porquê...

Endireitei meu corpo e finalmente tomei o suco, eu tinha que continuar, eu não podia permitir que meus sentimentos mal resolvidos por Daryl ficassem entre mim e os meus filhos.

— Tudo bem, então... — Resolvi aproveitar a oportunidade. — Vamos supor que isso tudo seja mesmo um jogo, pra quê estamos jogando?

Kane me encarou por alguns momentos, medindo meu rosto em busca de algo que eu não fazia ideia do que era, até que pareceu se dar por satisfeito.

— Já jogou xadrez, Natalie? — Perguntou casualmente, apoiando as mãos cruzadas sobre a mesa.

— Algumas vezes. — Dei de ombros, esperando que ele continuasse.

— Ótimo! Então acho que você entende que o Santuário é um grande tabuleiro de xadrez, certo?

Assenti, eu mesma já tinha feito aquela comparação mental, foi interessante constatar que Kane pensava a mesma coisa.

— Uma vez que você entende isso, fica fácil perceber onde cada peça se encaixa e o que cada uma quer. — Curvou o corpo um pouco mais na minha direção. — Negan joga pra quebrar as pessoas, conseguir mais poder e se manter no topo, ele é o rei. A maioria do pessoal aqui desconhece que o Santuário é um tabuleiro e joga sem saber, estão apenas lutando por suas vidas, eles são os peões, descartáveis e manipuláveis. Estão temos as torres, não existem muitas torres no tabuleiro, as torres sabem do jogo, gostam do jogo e estão dispostas a proteger o rei.

— Simon é uma torre. — Completei, seguindo o raciocínio.

— Exatamente. — Kane sorriu um tanto orgulhoso, era como se ele tivesse algum tipo de prazer pessoal em compartilhar aquelas coisas comigo.

— Os bispos? — Questionei, querendo que ele continuasse. Senti que eu estava bem perto de entender os objetivos de Kane ali dentro.

— Os bispos são caras como aquele tal Rick, são peças fortes do tabuleiro, mas sem a estratégia certa nunca chegarão ao rei. — Respondeu em um tom quase desdenhoso.

Kane não parecia gostar das peças que tinham potencial, mas não sabiam jogar.

— Então você é que peça exatamente? — Continuei dando corda, crente que ele diria que era outro rei.

Mas eu estava errada.

— Eu sou um cavalo, sou imprevisível, posso fazer movimentos que nenhuma das peças podem fazer, certos obstáculos não são nada pra mim — Declarou cheio de si.

— Isso é bastante presunçoso. — Afirmei, ainda sem conseguir assimilar o significado de todas aquelas respostas, e Kane deu seu sorriso característico.

No patamar que ele colocava, era como se o cavalo fosse uma peça muito superior ao rei. Eu estava confusa, então precisava de mais informações.

— Então, deixa eu adivinhar: sou outro bispo, certo? Eu tenho potencial, mas não tenho a estratégia... — Presumi, revirando os olhos. Obviamente Kane me colocaria em uma posição inferior a dele.

Mas ele riu. O tipo de risada que usamos com uma criança quando ela diz uma besteira.

— Ah, Natalie, não menospreze seu talento... — Jogou o corpo um pouco mais pra frente e alcançou meu copo de suco, tirando o canudo e dando um gole longo, fazendo uma careta logo em seguida, provavelmente porque estava doce demais.

Kane empurrou o copo na minha direção e me encarou por alguns segundos, avaliativo. Percebi que ele tinha olhos negros, mas diferente dos meus, os dele tinham a íris misturada com um tom de castanho, que brilhava mais, ou menos, dependendo da luz. Ele tombou um pouco a cabeça e pareceu se dar por convencido.

— Você é muito mais especial que isso. Você é a rainha. — Havia um certo tom de admiração na voz dele enquanto as palavras eram pronunciadas. — Você pode fazer qualquer coisa, porque você é a única peça do tabuleiro que tem influência sobre o rei.

Aquilo ficou rodando na minha mente sem fazer muito sentido, enquanto todas as outras peças se encaixavam com suas personas, a minha parecia quase irreal.

— Eu soube que você era especial quando olhei pra você, naquele primeiro dia. Mas sim, eu pensei que você era só um bispo, contudo quando você saiu daquela cela e se tornou uma Salvadora, eu soube que você é uma rainha. — Kane continuou, e toda nossa interação começou a ganhar significados diferentes. — A única rainha no tabuleiro. É você quem vai destruir o rei, você só precisa da oportunidade, e então estaremos prontos para o xeque-mate.

"Estaremos" a palavra que nos colocava como aliados não me passou despercebida, e tudo se encaixou no lugar naquele instante: enquanto nas histórias a rainha era protegida por seus aliados, no xadrez ela era frequentemente usada como uma arma pra derrubar o rei. Era isso que Kane via em mim.

— Ah, 'tá... — Ri sem humor, mas decidi deixar que ele continuasse, afim de terminar aquele quebra-cabeças. — E você ganha o que com isso?

— Eu ganho o tabuleiro. — Kane abriu os braços, mostrando o Santuário.

— Então, você quer ser o rei... — Completei e ele novamente riu.

— Certamente não, reis são limitados e estúpidos, eu nunca quis ser um rei, você não ganha um jogo pra ser o rei... — Retrucou sério, com um deboche evidente em sem tom quando se referia ao rei. — Você ganha o jogo pra fazer suas próprias regras.

E tudo ficou claro. Kane queria o Santuário. O poder e a glória que vinha com ele, mas além disso, ele queria destronar o rei. Pelo visto Negan tinha inimigos por toda a parte.

— E falando no rei... — Bennet mudou totalmente a postura, apontando discretamente a entrada do refeitório com um movimento de cabeça.

Me virei a tempo de ver Negan entrando no recinto, com a pose superior de sempre e Daryl a tiracolo. Dei um suspiro profundo, imaginando o que viria, enquanto Kane se colocava de pé em uma postura solícita. Era impressionante a facilidade com a qual ele interpretava aquele papel.

— Natalie, minha Salvadora preferida! Vem cá! — O líder do Santuário ordenou, usando aquela máscara de bom-humor costumeira.

Porém o mesmo sorriso falso não se estendeu a Kane, a quem o déspota olhou de cima a baixo, antes de mandar com desdém palpável:

— Você, redirecionamento com os outros.

Kane Bannet olhou de mim para Negan e assentiu prestimoso. Antes de sair do refeitório ele lançou o mesmo olhar desdenhoso para Daryl, que mantinha a cabeça baixa.

Negan acompanhou a partida do meu parceiro com um olhar divertido, se aproximando ainda mais de mim logo em seguida.

— Eu tenho um trabalhinho importante pra você hoje, Coração. — Enlaçou minha cintura e me fez caminhar com ele em direção a saída do refeitório. — Já que seus amigos vão para o redirecionamento hoje, o Daryl aqui... — Apontou Daryl que seguia alguns passos atrás. — Ficou sem babá.

Claro que Negan me faria ver a desgraça do Daryl de camarote, ele tinha percebido que aquilo me afetava. Meu único alivio é que ele não sabia o real motivo.

— Qual é o trabalho, chefe? — Perguntei, como se não me importasse com a situação.

— Eles juntaram os detritos da cerca viva lá no fundo, pra poderem queimar hoje... — Comentou, se referindo a revisão periódica pela qual a cerca passava sempre, para garantir que os errantes não estivessem deteriorados demais e se soltassem, causando qualquer problema.

Os mortos eram tirados aos pedaços e amontoados atrás da fábrica para serem queimados, tudo feito por Pontistas iniciantes, ou seja, aqueles que Negan trouxera como prisioneiros e faziam praticamente trabalho escravo em busca de pontos.

Esse tipo de Pontista, usava roupas feitas de um tecido grosseiro, uma versão de Negan das vestes de um prisioneiro.

— Mas a Josie foi dar uma de curiosa e derrubou um dos brincos dela lá no meio. — Negan continuava falando, puxando meu corpo cada vez mais para perto do dele. — E porra! Ela tem um apego emocional com esse brinco, sabe? Ela realmente quer de volta. E qualquer desejo de uma das minhas esposas é uma ordem!

Paramos, Negan me soltou para ficar na minha frente, perto demais para que eu não me sentisse desconfortável.

— Então você vai monitorar o Daryl, enquanto ele procura o brinco, pra que ele não faça nenhuma maldita estupidez. — Aquela ordem foi mais como uma ameaça, se Daryl saísse da linha, eu pagaria. — Depois o próximo grupo vai colocar fogo naquela porcaria.

— Sim, senhor! — Assenti na intenção de me livrar de Negan e sair dali, mas ele segurou meu braço em um movimento repentino.

— Ah, já ia esquecendo! — Sorriu mordaz, fazendo um gesto para Fat Joe que nos seguia de perto.

O Salvador se aproximou todo sem jeito e entregou uma arma para Negan, uma colt phython prateada, e também o que me pareceu um chicote improvisado de corda. Tremi involuntariamente dos pés à cabeça.

— Essa aqui... — Se aproximou ainda mais de mim, colocando a phyton no coldre da minha cintura. — É para caso ele seja muito descuidado a ponto de ser mordido.

Os olhos de Daryl faiscaram para a arma e eu entendi que aquilo tinha algum valor para ele.

— E esse aqui... — Ele balançou o chicote e meu estômago se revirou em torno dele mesmo. — Caso ele precise de um incentivo pra ir mais rápido. — Escorregou a mão pelo meu braço, prolongando o máximo que podia o contato dos dedos com a minha pele, e me fez estender a palma, pra que pudesse colocar o chicote nela. — Não se preocupe, Dwight disse que aquelas costas ali já estão acostumadas com esse tipo de coisa.

Negan lançou um olhar jocoso para Daryl, e eu cerrei meus punhos o suficiente para que minhas unhas da mão esquerda ferissem minha palma, aquela era minha maneira de manter o asco e a raiva que corriam pelas minhas veias sobre controle. Mas a risada debochada do déspota para algo que eu sabia como feria Daryl me fez perder o controle.

— Não! — Neguei decidida, estendendo aquela porcaria de volta para Fat Joe. Todos ao redor pararam para me encarar, meio chocados com a minha negativa.

Negan deu um sorriso de lado, o tipo perigoso de sorriso.

— Não? — Perguntou, balançando aquele maldito taco ameaçadoramente.

Mas que merda. Eu teria que concertar aquela estupidez impulsiva.

— Não — Repeti, com o máximo de controle e frieza que eu consegui reunir. — Chicotes requerem força e uma segunda parte imobilizada pra serem eficazes. Se me permite a ousadia, eles são a escolha errada contra atos rebeldes. — Dei um passo para frente e invadi o espaço pessoal de Negan.

Três Salvadores, que tinham parado para ver a cena, deram um passo ameaçador na nossa direção, mas o líder ergueu a mão direita para que parassem.

Mantive meus olhos nos dele e dei outro passo para frente, usando minhas duas mãos para procurar a faca que eu sabia que Negan sempre carregava. O olhar satisfeito daquele cretino me causou náuseas.

— Eu prefiro facas. — Declarei, dando um passo para trás quando encontrei a lâmina. — São mais rápidas e eu sou muito boa com elas.

Ele não comprou, claro que não comprou. Negan sabia que minha negativa em pegar o chicote era puramente, porque eu não seria capaz de fazer uma atrocidade daquelas, mas, por sorte minha, ele não sabia o real motivo de eu jamais pensar em ameaçar Daryl com um chicote.

Porém meu ato de aproximação ousado o desafiou o bastante para que ele gostasse.

— Pelo que eu saiba você é boa com muitas coisas... — Assentiu, sem tirar os olhos de mim, apontando para Fat Joe novamente, que lhe estendeu um dos rádios do Santuário.

Negan cortou o espaço que eu tinha colocado entre nós e levou as mãos ao meu corpo novamente, colocando o rádio no meu bolso traseiro, enquanto sussurrava no meu ouvido:

— Me liga se precisar de alguma coisa.

— Certamente — Respondi, sem tirar os olhos dele.

Mais três segundos e Negan se afastou, fazendo um gesto com o dedo indicador para que nossa plateia circulasse.

Deu meia volta e caminhou até Daryl.

— Ela é perigosa, cuidado. — Saiu rindo, acompanhado de Fat Joe.

Mantive a pose e apontei o caminho para Daryl, que passou por mim com os punhos cerrados e ódio no olhar. Por fora eu era impassível, mas por dentro eu estava aos pedaços.

Eu tinha que parar de ser tão impulsiva por causa de Daryl Dixon. Kane tinha razão, ele era meu ponto fraco...

No fundo da fábrica, o chão era apenas um amontoado de corpos podres em decomposição, várias cabeças separadas do restante dos membros e batendo as mandíbulas. O cheiro insuportável, ainda mais forte por causa do calor, e os gemido dos mortos vivos, tornavam aquele maldito lugar o pior tipo de tortura.

Geralmente seria apenas tacar fogo e pronto, mas eu não duvidava nada que Negan tivesse mandado Josie jogar o brinco lá de propósito.

Daryl trabalhava sem olhar pra mim, usando um cabo de madeira pra remexer entre a gosma de sangue e podridão. Ele estava com raiva, eu ainda o conhecia o suficiente para entender aquilo.

Não conseguia presumir que tipo de ideia ele tinha de toda aquela situação, mas, considerando que era Daryl Dixon, ele certamente havia tirado a conclusão errada sobre tudo.

Comecei a ficar um tanto desesperada com aquelas cabeças tão perto da perna dele e decidi que, já que a maior parte dos Salvadores estava fora, ninguém me surpreenderia ajudando.

Pulei do degrau em que eu estava e sujei minha bota em toda aquela podridão, alcançando outro cabo e fincando nos crânios mais próximos.

— Mas que porra você está fazendo? — Daryl perguntou, nada amigável.

— Procurando um brinco perdido... — Dei de ombros, chutando um pedaço do que parecia um braço e remexendo entre a massa gosmenta do chão com o cabo de madeira.

— Eu não preciso da sua ajuda! — Ele retrucou rudemente e eu fingi que não tinha ouvido, continuando com aquela merda, como se fosse mesmo um trabalho importante.

Ouvi o suspiro profundo de Daryl, quase uma criança birrenta que bufa quando é contrariada, em seguida ele cortou a distância entre nós tão rápido e violentamente que eu mal tive reação quando ele puxou o cabo da minha mão.

— Eu disse que não preciso da sua ajuda, merda!

Foquei meus olhos nele por alguns segundos e percebi que estávamos perto demais e, ainda assim, nunca estivéramos mais distantes.

— Vamos acabar mais rápido se fizermos juntos... — Argumentei neutra, sendo o mais racional que eu podia naquela situação.

— Esse trabalho é meu, não seu. Não tem essa coisa de "juntos". Só porque nós conhecemos, não significa que sejamos amigos. Pode me tratar como você trata qualquer um nesse inferno. — A resposta veio rápida, ríspida, Daryl já tinha pensando o bastante sobre aquilo.

Foi minha fez de suspirar, não de birra, apenas de puro cansaço, no meio de toda aquela confusão eu havia me esquecido que lidar com Daryl Dixon podia ser bastante exaustivo.

Mesmo depois de tudo que presenciou ali dentro, ele ainda conseguia tirar conclusões erradas e, a verdade é que eu estava de saco cheio demais pra prestar esclarecimentos sobre minha posição dentro do Santuário, se Daryl era cego o bastante para não ver o óbvio, aquilo não era problema meu.

De toda forma, ele sequer parecia fazer questão de saber os meus motivos, já que tinha voltado a trabalhar e me ignorava totalmente.

E eu odiava aquilo, odiava o fato dele estar ali e todos os olhares de julgamento, como se ele não tivesse visto o quão pesado Negan pegava comigo.

— Por que você é tão orgulhoso? — Acusei, sem conseguir me conter.

— Como é? — Daryl parou e me olhou, franzindo as sobrancelhas.

— Não quer ajuda. Preferiu estar aqui do que pedir para o Negan te deixar ficar em Alexandria. Eu não entendo você. — Cruzei os braços, me irritava profundamente que Daryl não tivesse um pingo de jogo de cintura.

— Não é orgulho, é a coisa certa! — A resposta veio em forma de criminalização, era como se ele estivesse apontando o dedo na minha cara dizendo o quão bom e correto ele era em comparação a mim.

— É burrice, você está sofrendo por nada!

Ser humilhado daquela forma não era um trufo, nem pra ele, nem para ninguém em Alexandria. Toda aquela honra não levaria Daryl a lugar algum, só a um ciclo de sofrimento sem fim. Desejei que ele não tivesse nenhuma honra, mas estivesse a salvo.

— Claro que pra você é burrice, você é uma Salvadora! — E ali estava a acusação direta, aparentemente ser uma Salvadora era o pior pecado que alguém poderia cometer.

— Não é tão simples assim... — Passei a mão pelo rosto. Eu já tinha bastante problema em aceitar que o que eu fazia era para um bem maior, eu não precisava de outra pessoa me julgando.

— Então por que você não explica?! — Daryl subiu o tom de voz, andando de um lado para o outro, de um jeito que me trouxe certa nostalgia, enquanto perfurava o crânio de qualquer coisa que se mexesse. — Explica por que você deixa aquele filho da puta tocar em você, por que você deixa ele mandar em você e por que você atura toda essa merda, se não gosta disso?

E por um segundo enquanto ele me encarava eu quis contar, eu quis dizer tudo, desde o começo, mas isso me levou a Petter e a minha última conversa com Daryl e ao fato dele não querer tudo aquilo na vida dele.

A realidade me atingiu como uma bomba: Daryl tinha razão, "juntos" não existia mais, nos conhecíamos, mas não éramos amigos. Não mais. E o mais importante... eu não sabia se podia confiar nele. Não com tanta coisa em jogo.

— Eu faço o que eu preciso fazer. — Fui seca. — Não tem outro jeito.

— Claro que tem! — Daryl apontou, dando alguns passos na minha direção. — Você já podia ter matado ele, se quisesse. Você tem uma faca, anda colada com ele. Pelo menos admita a verdade: você não quer matar aquele maldito, você está apaixonada por ele!

E eu ri, um riso seco que cortava minha própria carne por dentro, porque era tão irônico que justo Daryl Dixon me acusasse de estar apaixonada por outra pessoa e porque toda aquela bosta me pareceu um drama longo e desnecessário. Eu não precisava daquilo na minha vida.

— Tem razão, Daryl. Não é interessante pra mim que ele morra, o caos dele tem uma ordem. Eu não quero matar o Negan. — Soltei apática, sentindo que aquela conversa não levaria a nada, apenas a mais exaustão mental e emocional.

Daryl não entendia o jogo...

— Você fala igualzinho ele. Então o que é que você quer hein, Natalie? Invadir comunidades? Ver pessoas inocentes esmagadas por um maldito bastão de basebol? Roubar coisas pra queimar na estrada? — Ele continuou acusando e apontando, enquanto tudo que eu queria é que acabasse logo.

Eu tinha passado anos para me livrar de toda a carga emocional que Daryl trouxera pra minha vida, e reviver aquilo era idiotice.

— Quer saber o que eu queria de verdade, Daryl? — Perguntei fria e distante. — Eu queria que você nunca tivesse aparecido no Santuário, queria que você tivesse ficado na sua comunidade perfeita, onde tudo é preto no branco. Eu queria não ter que olhar pra sua cara todo dia aqui dentro.

Silêncio. Apenas mais uma rachadura no chão que estava desmoronando sob os nossos pés. Eu já estava aos cacos, não dava pra permitir que Daryl destruísse o pouco que tinha sobrado de mim... Eu não era mais a garotinha de Dawsonville que se quebrava para mantê-lo inteiro.

Peguei o rádio e chamei pelo Fat Joe, pedi para que trocássemos de lugar e inventei uma desculpa que provavelmente faria Negan pegar mais ainda no meu pé.

Definitivamente Kane estava certo, Daryl era meu ponto fraco mais evidente e ele não podia ficar no Santuário. Eu só precisava de uma oportunidade boa o bastante para tirá-lo de lá...

E a minha oportunidade surgiu em forma de menino na manhã seguinte.

O garoto de Alexandria havia se escondido em um dos caminhões, chegou metralhando alguns Salvadores, mas logo foi rendido. Eu vi os olhos desesperados de Daryl e também a satisfação de Negan. Mas naquele momento eu ainda não tinha visto a oportunidade, eu estava apavorada demais com o fato de ter um garoto dentro daquele inferno.

— O que você acha que vai acontecer com ele? — Kane me deu um cutucão enquanto eu via Negan entrar com o menino, logo após ordenar qualquer coisa para Dwight e Daryl, algo sobre servir o almoço no harém.

Claro que o déspota maldito não perderia aquela chance de humilhar Daryl mais ainda.

— Minha nossa relaxa! Você está branca feito um papel! Negan não vai fazer nada com o moleque. — Bennet revirou os olhos.

— Como você pode ter tanta certeza? — Desconfiei da presunção do meu "parceiro".

— O garoto é filho do tal Rick borra-botas, Negan não vai perder essa oportunidade. Ele vai fazer o joguinho dele, impressionar o garoto com alguma demonstração de poder, mexer com a cabeça do coitado um pouco e depois levar o moleque pra casa. — Kane explicou, como se aquilo fosse um filme clichê que ele já tinha visto mil vezes.

Eu achava que conhecia o Negan, mas certamente Kane Bennet conhecia melhor.

— Você não sabe disso... — Devolvi, sem me dar por satisfeita.

— E você costumava ser bem mais esperta antes do seu namoradinho virar nosso hóspede. — Ele debochou, como se eu tivesse dado liberdade. — Matar o garoto não é proveitoso para os negócios. Mas que meio mais eficaz de quebrar seu inimigo do que conquistando o filho dele?

Tive que admitir que Kane tinha razão, mas não gostei de constatar que eu vinha dando muita razão pra ele nos últimos dias.

— Aprenda com o mestre, Coração. — Sussurrou enquanto passava ao meu lado, me infernizando com o apelido de Negan.

— Não me chama de Coração. — Devolvi imediatamente, estreitando meus olhos de raiva.

— Como quiser, minha Rainha. — Kane fez uma reverência falsa e exagerada e eu revirei os olhos.

— Ei! Vocês dois aí, vamos parar de papinho e trabalhar, que hoje o dia está cheio. — Simon ordenou de um dos caminhões. — Cooper, leva essa caixa para minha sala, foi só o que restou das bebidas.

E foi lá, na sala do Simon, que eu percebi a oportunidade.

Em um painel na parede, onde todas as chaves dos veículos ficavam penduradas e devidamente identificadas, uma coisa me chamou a atenção.

"Moto do Daryl".

Enquanto eu olhava a identificação e relembrava a visita de Negan à Alexandria, um plano todo se montou na minha mente como um quebra-cabeças. Dois coelhos com um só tiro. Eu só precisava que cada peça estivesse em seu devido lugar.

Ou melhor, eu só precisava que Negan estivesse no lugar certo, desse modo todas as outras peças também estariam, como o efeito dominó perfeito.

Era hora da jogada final.

A partir daquele momento, todos os meus movimentos e ações naquele dia foram calculados e executados com uma frieza assustadora.

Substitui a chave da moto do Daryl por outra e guardei a original comigo. O próximo passo seria encontrar Negan e confiar que Kane estaria certo sobre as atitudes do déspota com o garoto de Alexandria.

Encontrei o líder do Santuário na plataforma principal, finalizando um de seus discursos e prometendo refeições de graça para todos.

— Ah, olha só quem está aqui! Viu Carl, o Santuário tem mulheres bonitas por toda a parte. — Negan cutucou o garoto, assim que percebeu minha aproximação.

O filho de Rick se virou para mim e me encarou, um de seus olhos estava coberto por um enorme curativo, mas o outro era frio e raivoso, em um tom gelado de azul.

— Ele não é uma graça, Coração? Te lembra alguém? — Negan comentou, fingindo empatia, mas aquilo não me atingiu, na verdade era exatamente o tipo de jogada que eu esperava dele. — Eu adoraria apreciar mais da sua companhia, infelizmente eu e o Carl aqui ainda temos assuntos pendentes.

A comparação de Carl com Petter apenas me deixou mais decidida a seguir em frente no meu plano, mesmo que pra isso eu tivesse que ultrapassar mais alguns limites.

Se tudo desse certo seria a última vez, e todos os envolvidos terminariam bem, ou o mais perto possível disso.

Negan se virou para seguir com o garoto, mas eu dei dois passos pra frente e segurei seu braço, firme, porém delicadamente.

Os olhos do líder do Santuário foram dos meus, para minha mão em sua jaqueta, ele estava surpreso o bastante para ficar curioso.

— Um minutinho, Carl... — Ergueu o dedo da mão livre em riste e se aproximou um pouco mais de mim, abaixando o tom de voz: — Eu não sei o que foi isso, mas eu adorei.

Deixei o tanto certo de emoção transparecer, o filho de Rick era só uma criança e eu realmente queria o bem dele, então não foi difícil.

— É só um menino, Negan... Por favor... — Pedi, apertando um pouco mais o braço dele.

Percebi que o déspota conteve um sorriso, era um prazer pessoal dele me ver implorando, mas ele também jogava, então tudo se tratava de mentiras e hipocrisias.

— Um menino que matou dois dos seus companheiros. — Respondeu duro, sério, como se os homens mortos importassem de verdade.

Mas Negan não se importava com ninguém além dele mesmo, e eu sabia disso.

— Eu sei, é só que... — Desci minha mão pelo braço dele e segurei seus dedos dentre os meus, eu só tinha que fazê-lo acreditar que eu estava mexida com a situação, seria importante para as jogadas posteriores.

Me deixar vulnerável era algo que ele queria há tempos, então usar isso ao meu favor era o movimento certo.

— Eu sei, eu sei. — Segurou a ponta do meu queixo e a ergueu, fazendo nossos olhos se encontrarem e acariciando minha bochecha com o polegar. Negan fingia que se importava, ele acha que estava no controle. — Não se preocupe, Coração. Você pode confiar em mim. Vai dar tudo certo, eu sou muito bom com crianças.

Sorriu, antes de me soltar e se afastar, segurando o ombro de Carl e forçando-o a andar.

O garoto que me encarou com ódio, apenas mais uma pessoa me julgando, mas eu não me importei, aquilo daria certo e todo o resto não faria a menor diferença.

Assim que os dois sumiram da minha vista, passei as costas da mão pelo rosto, sentia que baratas tinham caminhado onde Negan tocou.

Quando tudo isso acabar eu vou tomar um banho de cândida, pensei, seguindo para o lado externo.

Havia duas ou três coisas que eu ainda precisava fazer antes de colocar todo meu plano em prática.

A moto de Daryl precisava estar no lugar certo, e eu precisaria de uma distração, algo que mantivesse alguns Salvadores entretidos. E mais tarde a oportunidade perfeita para cuidar de tudo isso também veio, de uma forma cruel e sádica, mas veio.

Negan fez uma "cerimônia de punição" só mais um dos jeitos dele demonstrar poder, Mark, ex de uma das esposas, tinha quebrado uma das regras e se aproximado dela. Traição era punível com o ferro.

Embora achasse tudo aquilo horrendo, não podia me dar ao luxo de me importar, enquanto todos estavam ocupados assistindo aquele filme de terror continuei dando seguimento ao meu plano.

Levei a moto de Daryl para um lugar de fácil acesso e voltei até a sala de Simon. Ele tinha um pequeno esconderijo para bebidas, que ele "tirava" do inventário, algo que desfrutava com Tony em seus encontros secretos.

Roubei uma das garrafas de tequila e a escondi em outro lugar de fácil acesso. Depois de tudo pronto voltei para o saguão a tempo de ver o fim do show de horrores.

— Aonde você estava? — Kane perguntou, quando parei ao lado dele.

— Depois eu te conto. — Respondi simplesmente, fingindo prestar atenção na cena.

Mark estava desmaiado, o rosto deformado pelo ferro enquanto Negan debochava e encontrava tempo para humilhar Daryl um pouco mais, fazendo-o limpar o chão cheio de urina.

Está acabando, está acabando, repeti mentalmente, sabendo que havia outro peão que eu tinha que mover, para que tudo desse certo.

Aguardei que tudo acabasse pacientemente, esperando o momento de abordar a pessoa com quem eu precisava falar.

Assim que Negan subiu novamente com Carl, eu me misturei na multidão que deixava o saguão e dei um tempo nas escadas do harém, como quem não quer nada.

Eu precisava que Sherry aparecesse, e estava quase desistindo, quando ela finalmente surgiu, com uma cara péssima, para fumar um cigarro no seu lugar habitual.

— Como a Amber está? — Perguntei, para puxar assunto e chegar onde eu queria.

Naquela altura, eu estava tão fria com relação a tudo que acontecia ao meu redor, que sequer me importei com a situação da garota. E o pior foi que isso não me assustou nem um pouco.

— Mal, muito mal. O Negan é... — Sherry não terminou a frase, como se tivesse medo do que diria a seguir.

— Implacável. — Completei, com uma palavra que podia tanto ser um elogio quanto uma crítica, era importante aparentar neutralidade.

Sherry me ofereceu um cigarro, que eu aceitei prontamente, dando alguns segundos para então prosseguir com o assunto.

— Viu o que ele está fazendo com o seu amigo? — Joguei, como quem comenta sobre o tempo, torcendo para que Sherry fosse influenciável o bastante para tudo que viria a seguir.

— Daryl não é exatamente meu amigo. — Ela desconversou, sem graça, dando um trago cumprido no próprio cigarro.

— Mas ele te ajudou, não é? — Dei de ombros, encostando na parede e brincando com a fumaça que saia da minha boca. — Quer dizer, você tem uma dívida com ele...

— Onde você quer chegar? — Sherry desceu dois degraus, para ficar mais próxima e eu soube que ela tinha mordido a isca.

Eu estava prestes a envolvê-la em um jogo perigoso e simplesmente não conseguia me importar o bastante.

— Eu ouvi uma conversa... — Dei de ombros, agindo como se não quisesse dar uma de fofoqueira.

— Que conversa? — Seu tom preocupado me dizia que eu podia continuar.

— Negan não acha que está funcionando. Ele acha que é perda de tempo. — Fui um tanto enigmática, mesmo que quisesse acabar com tudo aquilo logo.

Eu sabia que a luz no fim do túnel estava próxima, mas se corresse demais para alcançá-la, eu acabaria tropeçando no caminho e colocando tudo a perder.

— O que isso quer dizer? — Questionou, provavelmente prevendo onde aquilo chegaria.

Sherry era uma boa moça, ela tinha consciência e se importava, naquela história eu era a vilã e ela a heroína, mas contanto que ela salvasse Daryl daquele inferno eu não me importava.

— Ele acha que seu amigo Daryl seria mais útil nas cercas. — Menti, tornando a situação bem pior do que era de verdade, eu sabia que apenas situações extremas tiravam reações extremas das pessoas.

Esperei Sherry digerir aquilo, e vi em seus olhos que aquela possibilidade realmente a assustava. Saber que a pessoa que tinha salvado sua vida estava prestes a morrer, tinha mesmo aquele efeito em pessoas boas.

— Bom, não me interessa na verdade, eu só achei que devia saber, sei lá, caso tenha alguma intenção de pagar sua dívida, essa é meio que sua última chance. — Dei de ombros uma última vez, descendo alguns degraus de forma lenta.

Vamos lá, Sherry, dê o próximo passo!

— E como eu devia fazer isso? Ele não me ouve! — Ela sussurrou, me detendo e eu sorri. Uma garota estava prestes a arriscar a vida por uma manipulação minha e eu sorri. Que tipo de pessoa eu tinha me tornado? — Ah meu Deus! Eu nunca devia ter voltado para esse inferno. Dwight está enlouquecendo, ele não se importa, mas eu não... Não sei o que fazer.

Ela estava à beira do desespero e isso quase me comoveu, desejei confiar o bastante para contar a verdade, mas eu não podia arriscar, não naquela altura.

— Homens como ele não servem pra viver em cativeiro. — Comentei, ainda em meu tom neutro, torcendo pra que Sherry pescasse a ideia implícita.

— Se tivesse como tirá-lo daqui... — Ela deixou os ombros caírem, derrotada.

Bingo! Meu objetivo ali estava concluído. Eu precisava tirar o time de campo pra que Sherry tivesse tempo de remoer a culpa e o desespero, para que ela estivesse pronta para medidas extremas.

— Uma pena... — Dei de ombros como se realmente não desse a mínima.

Mudei de assunto para qualquer outra amenidade, como se Daryl não fosse algo que me interessasse e fiquei ali mais alguns minutos.

Não demorou muito e Negan, como Kane previu, quis levar Carl de volta para Alexandria.

Claro que o maldito me colocou na equipe e isso era péssimo para o meu plano. Eu tinha que inventar uma desculpa e precisava fazer aquilo depressa e de um jeito que não levantasse suspeitas.

Estava carregando as armas no caminhão, enquanto pensava e preferi recorrer ao óbvio e torcer que Arat me odiasse o suficiente pra pensar que eu era estúpida. Tropecei propositalmente e todas as armas foram parar no chão.

— Ah, qual é? Você é estabanada assim mesmo ou tem os dois pés esquerdos, Cooper?! — A bronca feio rápida e feroz.

— Desculpe... — Fiz menção de me colocar em pé e fingi não conseguir, simulando uma dor no tornozelo que não existia.

Arat revirou os olhos e pediu para alguém chamar o Doutor, mas o médico estava ocupado com Mark, e claro que eu sabia disso.

— Ah, ótimo! Melhor você ficar. — Arat lançou a contragosto, ao mesmo tempo em que Negan aparecia com Carl.

Era hora do meu showzinho.

— Não. Eu vou. Eu quero ir. — Me forcei a ficar de pé, mancando um pouco, tudo fingimento, é claro. — Não quero falhar com meu trabalho.

— Posso saber o que está acontecendo aqui? — Negan indagou olhando de uma para a outra e me medindo de cima a baixo.

Arat explicou meu acidente em poucas palavras e Negan me observou desconfiado. Eu mantive meus olhos em Carl por um momento, minha preocupação com ele era real, mas eu tive que dar um pouco mais de ênfase nela com aquele olhar.

— Tudo bem chefe, eu estou ótima, sério, não é nada, até chegarmos lá eu vou estar cem por cento. — Afirmei solícita, pegando tudo no chão, enquanto tomava cuidado para mancar, parecendo que eu não queria mancar.

Era como jogar um jogo, dentro de um jogo. Negan tinha que pensar que eu queria ir, que estava comprometida com aquilo, preocupada com o garoto de Alexandria.

Se ele pensasse que eu sofreria mais ficando, então era exatamente o que ele me mandaria fazer.

— Arat disse pra você ficar, então você fica. — Ordenou, como se eu não tivesse a menor importância. — Kane. Cuide de sua parceira.

Bennet assentiu prontamente e se colocou ao meu lado, enquanto os caminhões saiam e Negan ordenava que Dwight levasse Daryl de volta para o quartinho.

Tudo estava acontecendo como planejado.

— Vai me dizer o que está acontecendo agora? — Kane perguntou discretamente.

— Aproveitando uma oportunidade... — Respondi, enquanto enfrentava o olhar que Daryl me lançava.

Ele ainda estava com raiva, e aquilo era bom, eu precisava que ele não se importasse comigo para que tudo corresse como devia.

Assim que Daryl e Dwight entraram, soltei um suspiro profundo, tudo eram apenas planos até ali, mas era hora de agir de verdade.

— Gosta de tequila? — Perguntei, enquanto Kane ainda me encarava tentando entender minha jogada.

— Todo mundo gosta de tequila. — Ele deu de ombros.

— Eu consegui uma garrafa, o que acha de darmos uma aumentada na sua popularidade? — sugeri animada e recebi um olhar desconfiado.

— É isso? — Kane tombou um pouco a cabeça para o lado e eu assenti.

Claro que ele não acreditou, mas para a minha sorte Kane Bennet gostava do jogo o bastante para deixar que as coisas rolassem, de um jeito estranho ele parecia confiar em mim.

— Eu vou reunir o pessoal. — Declarou, com aquele sorriso presunçoso e eu fui atrás da garrafa.

Mas, claro que era só uma desculpa, primeiro eu tinha outro lugar para ir. Peguei a chave da moto e um papel e subi até o harém.

Sherry estava na escada como de costume.

— Tem que ser agora. — Declarei um tanto ofegante, apenas para parecer que tudo aquilo era às pressas.

— Tem que ser agora o quê?

— A fuga do seu amigo. — Expliquei, e a esposa de Negan arregalou os olhos assustada. — Consegui a chave de uma das motos, escreva pra ele partir imediatamente e jogue debaixo da porta dele. Eu mantenho os Salvadores ocupados. Negan está fora, as chances dele são maiores agora. A única chance é agora.

Estendi o papel com a caneta e Sherry ficou estagnada em dúvida.

Claro que eu podia fazer sozinha, mas eu me comprometeria demais, e precisava de um álibi pra hora da fuga, para que as outras partes do plano funcionassem perfeitamente.

— Não posso fazer isso... E se me pegarem?

Ah, qual é Sherry, não é hora de fraquejar.

— Não vão. Você vai embora também. — Revelei a segunda parte do esquema. — Daryl vai primeiro, assim que souberem mandarão equipes atrás dele, então será sua hora de partir também, é a oportunidade perfeita.

A fuga de Sherry garantiria que as equipes se dispersassem e daria o dobro de chances para Daryl. Era essencial.

— O que?! — Ela negou, dando alguns passos para trás.

Eu já estava preparada para aquela negativa, então teria que atacar onde doía mais.

— Você disse que não aguenta mais e que nunca deveria ter voltado, então, não aja como se nunca tivesse pensado nisso. Você e Dwight estão acabados. Você continua se submetendo por ele, mas será que ele ainda faz tudo isso por você? Até quando você vai transar com um homem que você odeia, por migalhas? — Minhas frases foram quase acusações, afiadas e venenosas.

Tinha que machucar o bastante para que Sherry tomasse uma atitude.

— Bom, você que sabe... — Dei de ombros e desci alguns degraus. — Eu vi uma oportunidade de te ajudar, mas se você não quer, por mim não faz diferença. Algumas pessoas nasceram para essa vida, outras não.

Fingi que tinha desistido, queria que ela sentisse que qualquer oportunidade de felicidade estava escapando dos dedos dela.

Esperava que a relação dela com Dwight estivesse balançada o bastante para que tudo aquilo desse certo. E, nem por um segundo pensei em como o loiro sofreria com aquilo, ou melhor, pensei sim, eu só não me importei. A casa cairia para o lado do Salvador e era quase como se eu quisesse ver isso acontecer.

— Natalie? — Sherry chamou e foi a segunda vez que eu sorri naquelas escadas. — Você está certa, algumas pessoas não nasceram pra essa vida. Eu estou pronta.

Ela puxou o papel da minha mão e escreveu algo nele, logo depois grudando a chave. Eu expliquei onde ficaria a chave da porta e a instruí a colocar tudo exatamente no mesmo lugar.

— Eu vou distrair o pessoal pra você. — Avisei, ao me despedir e desci os degraus correndo.

Para facilitar meu trabalho, sequer precisei me preocupar com Simon, que estava em um dos pontos de vigia, em um encontro íntimo com Tony. Eu apenas precisaria tirar os Salvadores do portão traseiro e era pra isso que a tequila servia.

Peguei a garrafa que eu tinha escondido e a popularidade de Kane cuidou do resto. Alguém trouxe algumas Pontistas e logo minha distração tinha virado uma festinha na saleta que os Salvadores usavam para se reunir.

Tudo estava indo bem, até que...

— Onde você vai, Fat Joe? — Perguntei, quando vi o gordinho deixando a sala.

— Vou fazer um sanduíche, já volto.

Não. Não. Não. Encarei a phyton prateada em seu coldre, a mesma que eu dei a ele pela manhã quando trocamos de lugar, e soube que um só tiro poderia colocar tudo a perder.

— Eu vou pra você. — Ofereci prestimosa.

— Claro que não. Não precisa. — Ele riu como um porquinho e deixou a sala.

Fiquei encarando a saída, não dava pra voltar atrás sem estragar tudo. O jeito era torcer...

E eu esperei pacientemente, ouvi as risadas e fingi me divertir, bebi para acalmar os nervos, mantive as aparências o máximo possível, mesmo preocupada com a demora de Fat Joe. Nenhum alarme, nenhum tiro, era um bom sinal.

Mas não era um bom sinal, o plano havia saído totalmente do controle. Momentos depois, quando os ânimos se acalmaram e aquela festinha teve que acabar antes que Negan chegasse, um pequeno grupo achou Fat Joe morto perto do portão traseiro.

Daryl Dixon havia fugido.

Um burburinho sem fim começou a explodir lá dentro no mesmo momento em que os caminhões de Negan entravam pelo portão.

Tudo que eu conseguia fazer era encarar o cadáver estraçalhado de Fat Joe no chão. Aquela morte era minha culpa...

Ele podia ser um Salvador, mas não era uma má pessoa, eu sabia disso.

A confusão com a fuga e a chegada de um novo prisioneiro vindo de Alexandria evitaram quaisquer perguntar comprometedoras. Além disso, Dwight, por ser responsável pelo Daryl, recebeu toda a culpa

Negan exigiu que todos voltassem ao trabalho e mandou que cada canto do Santuário fosse revistado.

Kane estava de olho em mim de novo e provavelmente já sabia que eu estava envolvida em tudo aquilo, mas ele estava mais preocupado em bajular Negan do que em me dar sermão. Ele nunca me entregaria, porque isso arruinaria o jogo dele.

Aproveitei a missão que Negan me dera e voltei ao harém para tirar Sherry de lá.

A levei para o lugar em que Josie tinha me feito passar pelo teste e a ajudei a sair por ali.

Ela estava tensa, com medo, desconfiada. Mas era tarde demais para voltar atrás, tinha a letra dela no bilhete de fuga, ela estava envolvida demais e tinha que deixar o Santuário sem olhar para trás.

Claro que eu podia ter fugido por ali também, mas isso, além de me dar pouco tempo de vantagem, colocaria a fuga de Daryl em risco, eu precisava de todos os Salvadores dispersos, e principalmente de Dwight fora da jogada.

E tudo ocorreu como planejado, voltei para minha ronda sem levantar suspeitas e, assim que Negan soube da fuga de uma das suas esposas, ficou possesso demais para pensar em outra coisa, que não fosse uma traição de Sherry.

Ele mandou Dwight atrás dela como eu tinha previsto. Duas equipes de busca, uma equipe ainda no redirecionamento, e outra em uma missão de recolhimento em uma das comunidades que o Santuário extorquia, e Simon liderando uma busca à Alexandria. Todos os tenentes estavam fora.

Embora preocupada com Daryl, eu sabia que ele podia se virar muito bem na floresta, os Salvadores tinham poder de fogo, mas eram todos da cidade, não conheciam nada sobre a mata.

Quanto a mim: Era hora da jogada final.

Com o coração aos saltos, por saber que o sucesso de tudo que eu tinha planejado, dependia da minha atuação naquele momento, subi as escadas do Harém.

— Entra de uma vez! — A voz potente e raivosa de Negan ordenou, quando eu bati na porta. — Que porra foi agora?

Ele estava bravo, furioso eu diria, as garotas estavam todas juntas quase encolhidas em um canto, enquanto Negan bebia, balançando o taco de um lado para o outro.

Alguém como Negan não gostava de perder o controle e era exatamente isso que estava acontecendo. Eu contava com aquela instabilidade para que minhas jogadas com ele funcionassem.

— Oi. — Acenei como se estivesse sem jeito.

— O que você quer? Já aviso que hoje não é um bom dia pra me pedir porra nenhuma! — Quando estava furioso Negan não se importava em disfarçar as aparências e nem em fingir aquela cordialidade hipócrita dele.

— Eu estive pensando e acho que posso te ajudar... — Me aproximei alguns passos e peguei o copo já vazio dele para servir outro drink.

— Pode, é? Vai me pagar um boquete? Por que isso sim seria de grande ajuda uma hora dessas. — Negan se aproximou ameaçadoramente, como sempre, e eu apenas lhe entreguei o copo.

— Prestei atenção nas coisas que Dwight disse sobre o prisioneiro que fugiu, e acho que tem uma informação crucial que nenhum dos seus homens está levando em consideração durante a busca. — Fui direta, profissional.

Negan franziu as sobrancelhas enquanto bebia. Ele era um estrategista, provavelmente estava analisando que situações tinham me levado aquela atitude.

Torci para que o narcisismo dele ofuscasse o motivo verdadeiro e me desse alguma vantagem.

Cada passo naquele plano era um risco, mas cada risco valeria a pena, se eu alcançasse meu objetivo.

Os fins justificariam os meios.

— Você acha? Pois então desembuche de uma vez, porra! — Bateu o copo na mesa e se afastou.

— Ele é um caçador. — Revelei, encostando ao lado de Negan na janela.

— E?

— As equipes de busca não serão o bastante para encontrá-lo, a floresta é o habitat dele, se for um bom caçador vai cobrir os rastros, talvez criar rastros falsos e armadilhas. Vantagem numérica, não é uma vantagem de verdade nessas condições. — Falei a verdade, eu sabia das chances de Daryl na floresta, ele não seria pego pelos Salvadores.

Sim, eu estava usando a fuga de Daryl para benefício próprio, mas desde que ele não fosse pego isso nunca seria um problema.

— E como você tem tanta certeza disso? — Negan respondeu, depois de considerar por alguns minutos. A vantagem de usar a verdade como trunfo, era que eu não precisava me esforçar demais para que acreditassem em mim.

Negan era esperto o bastante pra perceber sozinho que, o que eu tinha acabado de dizer era óbvio.

— Meu pai era caçador, eu aprendi tudo isso quando era mais nova, algumas dessas habilidades me mantiveram vivas por bastante tempo. — Comentei, dando de ombros e servindo outra bebida.

Minhas mãos sequer tremeram, tudo em mim eram reações controladas, eu sabia bem que qualquer deslize era o fim, por isso mantive a imagem dos meus filhos na cabeça e segui em frente.

— E você está me dizendo tudo isso por quê? — Claro que Negan chegaria na pergunta óbvia, eu o odiava e ele sabia.

Por isso toda aquela coisa com Carl tinha vindo a calhar, era o gatilho que eu precisava para que ele acreditasse na minha mudança.

— Eu estava errada sobre você... — Entreguei o copo novamente, me aproximando o bastante para tornar aquela conversa algo privado. — Eu vi isso hoje, você cumpriu sua promessa com o garoto, e eu finalmente percebi que você nunca machucaria meu filho se soubesse.

Os olhos espertos de Negan não me deixaram um minuto, ele estava tentando ver a mentira por trás das minhas palavras, mas eu sequer pisquei.

Contei com o fato de que, para homens como Negan, mulheres eram fracas e vulneráveis. Então eu fiz o jogo dele, me apresentei como uma mulher fraca e vulnerável, uma mãe que tinha perdido o filho e buscava por alento.

Negan era narcisista o bastante para acreditar que eu podia vê-lo como um herói.

— Eu entendi o que você está fazendo aqui, a importância de tudo isso, e não quero que um cara qualquer coloque tudo a perder, aqui é a minha casa agora. — Toquei sua mão apoiada no beiral e sorri fraco, entre o triste e o compassivo.

Mentiras. Mentiras. Mentiras.

Eu sentia nojo de mim mesma, porém pensar que eu estava quase conseguindo, me dava o impulso para prosseguir.

— Hum... Sei, então você quer que eu te libere para uma missão, deixa eu adivinhar, sozinha? — Ele estava desconfiado, claro que estaria, não se construía um império como aquele confiando em pessoas como eu.

— Não. — Neguei compreensiva. — Sei que não confia em mim o bastante pra isso, e não te culpo. Se fosse possível eu guiaria alguém daqui mesmo, mas algumas coisas tenho que ver com meus próprios olhos. Então... Mande alguém comigo, alguém forte e bom de mira, um dos seus tenentes, talvez. — Sugeri sabendo que Negan não tinha pessoal disponível para aquilo.

Todos os tenentes estavam em busca ou em missão. Ele tinha apenas uma escolha.

— Chame o Kane. — Ordenou, e eu sorri internamente, era exatamente o que eu queria. — Estou te dando um voto de confiança, Coração. Não me decepcione.

— Eu não vou, Senhor. — Garanti.

Eu tinha acabado de enganar o líder dos Salvadores. Está acabando, finalmente.

Em menos de meia hora os portões do Santuário estavam se abrindo. Kane estava do meu lado no banco do motorista e eu estava prestes a dar início à última parte do meu plano. Eu nunca mais colocaria os pés naquele inferno.

— Então. Vai me explicar o que está acontecendo? — Bennet perguntou casualmente, alternando os olhos entre mim e a estrada vazia.

Claro que ele não deixaria tudo aquilo passar, era algo que eu já previa.

— Nada. — Respondi dando de ombros, apenas para analisar a reação dele com isso.

Kane focou em mim por alguns segundos e deu aquele sorriso presunçoso, pouco preocupado com a estrada que passava rápido por nós.

— Não minta pra mim, Natalie, pelo menos isso. — Voltou os olhos para a pista. Eu não conseguia deduzir se ele estava bravo, decepcionado, ou se não se importava. — Negan me deu ordens bem especificas sobre você, contou toda uma história sobre o prisioneiro ser um caçador e você estar disposta a achar o cara, mas me mandou ficar de olho. E eu até teria acreditado se não soubesse que você e o caipira são Rose e Jack afundando no Titanic, não é sua intenção trazê-lo de volta. Eu ainda nem sei se acredito se não foi mesmo você que o ajudou a fugir.

Silêncio. Eu estava tentando entender o que realmente importava ali para aquele homem, era difícil saber de que lado ele estava.

— Você me mandou me livrar dele, eu fiz isso. — Resolvi seguir com o plano.

Kane virou para o meu lado de forma brusca, certamente não era o que ele esperava ouvir.

— Eu sabia! Deus, Natalie, você é louca?! — Bateu a mão esquerda no volante e negou algumas vezes. — Isso pode acabar com tudo que você conquistou. E agora, pra piorar, vamos voltar com uma missão falha, qual é o seu problema? Podia ter me contado e planejaríamos isso melhor.

O posicionamento dele diante daquilo foi interessante, estava claro que Kane Bennet julgava o que eu tinha feito como impensado, mas não havia raiva dele, era quase como se... como se ele simplesmente quisesse participar daquilo.

Kane realmente achava que éramos um time.

Por um segundo aquilo me pegou de surpresa, eu não esperava que ele fosse me apoiar ou confiar em mim. Quando planejei tudo, apenas torci para que o vício dele naquele jogo infernal não o fizesse me delatar antes da hora.

Mas era tarde demais para fazer aliados... Eu tinha que prosseguir com o plano.

— Não vamos voltar com uma missão falha, vamos voltar com a Sherry. — Declarei minha mentira ensaiada e Kane se interessou por ela, como eu tinha previsto.

— Como é?

— Eu a usei como um peão pra resolver o meu problema, a mandei fugir, mas sei pra onde ela vai, e Dwight não vai encontrá-la. Daryl foge e nós levamos a Sherry de volta. — Dei de ombros, fria e como se realmente tivesse bolado tudo aquilo.

Na verdade, era apenas outra mentira.

— Ah ótimo, seria perfeito, a não ser pelo fato dela saber de todas as merdas que você fez e ser uma bela ponta solta! Eu pensei que você fosse mais esperta, Natalie. — Kane jogou as mãos no ar e falou cada palavra como se eu fosse alguma criança boba que só faz merda.

— Eu sei que ela é uma ponta solta, e pontas soltas devem ser eliminadas. Então vamos, sim, levá-la de volta, contudo vamos levá-la morta. — Retruquei decidida.

Era apenas uma armadilha, minha ideia era levar Kane até um complexo elétrico das redondezas, que eu conhecia bem, pois estivera lá no começo. Era um bom lugar para despistar alguém. Apenas parte do plano.

— Às vezes você me assusta. — Ele deu um daqueles sorrisos presunçosos — Mas é. Você falou exatamente como uma rainha.

— Você estava certo, eu sou uma rainha.

Depois daquilo ele seguiu minhas instruções, para Kane aquela era uma boa jogada, eu me livrava do meu ponto fraco e ele ganhava pontos com o chefe, além de me garantir como aliada. Era perfeito. Exceto pelo fato de eu estar mentindo sobre tudo.

Falei que Sherry estaria no complexo, pois eu tinha dito a ela que escondi suprimentos ali.

O local nada mais era do que um conglomerado de torres de energia desativadas e um grande galpão, cheio de cercados de metal com grades. Eu e as crianças tínhamos ficado ali por um tempo, com um grupo pequeno antes de Sherwood, então eu o conhecia bem o bastante.

— Ela não está aqui ainda, Natalie. Depender de outra pessoa é um péssimo plano, ainda tenho muita coisa pra te ensinar. Podia ter falado comigo sobre isso, encontraríamos um jeito menos arriscado. — Kane estava de bom-humor apesar de tudo.

— Vai dar tudo certo, Kane. Ela está vindo a pé e nós viemos de carro, só isso. — desconversei e, por um instante, senti certo remorso de enganá-lo daquele jeito.

Bennet era um Salvador, e claro que era um idiota, mas dentre todos os idiotas que eu tinha conhecido nos últimos meses, depois de ser traída por pessoas que eu considerei minha família, ser julgada por um antigo amor e passar pelo inferno, Kane era a coisa "menos pior" que tinha acontecido comigo.

— Mas não se preocupe, agora que eu já eliminei meu ponto fraco você pode assumir os planos, eu estou totalmente dentro de tudo que você disser, qualquer coisa que tire a coroa de Negan é comigo mesma. — Continuei, apenas para que ele não desconfiasse.

Ou talvez eu estivesse apenas protelando.

Por que eu estava protelando? Já era para ele estar preso em um dos cercados e eu estar longe dali. O que eu estava esperando?

— Então, quer dizer que estamos nessa juntos? Você confia em mim agora, é isso? — Ele encostou o ombro esquerdo na grade ao meu lado e cruzou os braços, a menos de meio metro de mim.

Por um segundo, apenas por um segundo, tudo era perfeito, Negan tinha caído e eu e Kane tínhamos vencido o jogo. Eu era uma heroína que tinha feito todas as coisas certas.

E, nem sei ao certo como aconteceu, mas no instante seguinte estamos perto demais e os meus lábios estavam nos dele, suas mãos na minha cintura e o gosto de aventura no céu da minha boca, estávamos envolvidos em um beijo que parecia totalmente certo, mas era um erro.

Eu não era uma heroína. Eu era uma mãe.

— Talvez em outra vida, Kane. — Me afastei, já com a minha faca no pescoço dele.

— Mas que porra é essa, Natalie? — Havia um tipo de revolta palpável nas palavras dele, mas bem lá no fundo havia dor. Kane tinha confiado em mim e eu o tinha traído.

— Eu quero que dê passos lentos para trás. — Continuei, com a faca na garganta dele, e levei minha mão esquerda ao seu corpo para pegar o rádio e as armas.

— Isso é um grande erro, Cooper. — Kane me odiava, isso ficou claro em cada sílaba que saiu entre seus dentes.

— Não, não é. — Respondi, apontando a arma e mantendo a faca onde estava.

Tanta gente já me odiava mesmo, uma a mais não faria diferença.

— Você não vai atirar em mim. — Ele me enfrentou, como se estivesse tentando salvar alguma coisa.

Não entendia por que Kane gostava de mim, por que confiava em mim, eu quis perguntar, mas honestamente não faria diferença.

— Vou se precisar, e você sabe disso. Eu atirei no seu irmão. — Eu ainda guardava aquela morte no fundo da mente, todas as mortes, elas ainda me assombravam, mas pelos meus filhos eu faria tudo outra vez.

Kane riu, nenhuma raiva quando falei do irmão dele, se não fossem gêmeos eu duvidaria até que eram família. Entrou no cercado e eu tranquei as grades com corrente e cadeado. Peguei o rádio e as chaves do carro, joguei a arma no chão, do lado de fora, e o pente carregado para o outro lado, de modo que ele não pudesse pegar sem algum esforço, mas ainda tivesse uma arma ao alcance pra quando saísse dali.

— Sei que você vai encontrar um jeito de sair daí depois. Mas, de qualquer forma, vou deixar um rastro pra te encontrarem se demorar muito. — Avisei me preparando para partir. Finalmente tinha acabado.

— Você devia me matar, devia me matar agora, é melhor do que me ter como seu inimigo! — Kane sacudiu as grades com violência e eu senti que tinha aberto uma ferida nele.

O pior de tudo é que eu conhecia aquela dor.

— Então não seja meu inimigo, Kane. — Pedi, sendo sincera, infelizmente as coisas eram como eram. — Isso não é pessoal, é só um jogo e você tinha razão, eu sou uma rainha, posso fazer o que eu quiser e só precisava mesmo de uma oportunidade, não pra derrubar o rei, mas pra sair do tabuleiro.

Virei as costas e parti, enquanto ele ainda gritava meu nome. Nada mais importava.

Entrei no carro e dei a partida, então finalmente me permiti fazer algo que eu não fazia há muito tempo: eu sorri. Era hora de encontrar meus filhos.

Notas finais
Como prometido: Zwischenzug é uma jogada intermediaria do xadrez, que consiste em uma sequencia esperada de movimentos, mas que termina em um lance inesperado, é um tipo de tática adotada pra confundir o adversário e foi exatamente o que a Natalie fez aqui. "Ela é muito jogadora, ela" uashaushauhs Obviamente a Natalie fez uma lista grandinha de inimigos nesse processo, Kane incluído (e meu coração tá partido por ele, me julguem uahsuahsush) Daryl fora do Santuário depois de uma bela briga com a Bochechas dele E Natalie fora do Santuário também, mas a procura dos filhos. Pra quem estava esperando uma fuga de casal, desculpa... isso é Lifeline gente, se tem uma coisa que vocês podem contar por aqui é sofrimento aushaush Acho que o mais interessante nesse cap é que a Natalie teve várias atitudes questionáveis e chegamos em um ponto importante de dualidade pra ela aqui, ela sempre tentou ser uma heroína, mas como diria a Debby, quando você é mãe, você acaba virando a vilã. O proximo é finalmente sob o ponto de vista do Daryl, sobre a chegada dele com o Jesus em Hilltop (que era algo que eu queria muito ter visto na série) e sobre a cabecinha dele depois de tudo isso. Bjss e até. Ps: ah é, quase esqueço: RIP Fat Joe.