Lifeline — Destiny Don't Give Up
9 Culpa
Notas iniciais
• DARYL DIXON •
A alta velocidade da motocicleta, nas curvas da estrada, me mantinha focado no presente. Era meu dever ficar atento a cada detalhe, no intuito de saber se eu estava sendo seguido.
Eu não fazia ideia se estaria tão focado daquela forma, se não estivesse plenamente ciente do peso do meu passageiro no banco de trás.
Paul Rovia tinha aparecido no último minuto, dando um direcionamento para minha fuga repentina. Eu não sabia o que ele estava fazendo no Santuário e não tinha tempo de perguntar naquele instante.
Talvez a vida fosse isso mesmo: um compilado de perguntas sem resposta.
Apertei a manopla e exigi tudo do acelerador, certamente Salvadores viriam atrás de mim e eu tinha que ganhar o máximo de dianteira possível.
No entanto, durante todo o caminho, não houve qualquer indício de que estávamos sendo seguidos. Seja lá quem tivesse me mandando aquele bilhete de fuga, devia estar atrasando os Salvadores.
Me lembrei do papel amarelado, passado por debaixo da porta, junto com a chave, e do sentimento que veio com ele. Aquela esperança e alívio de pensar que, talvez, Natalie Cooper não tivesse mudado tanto assim.
Mas, tão logo bati os olhos na caligrafia, eu soube que não era dela. Sua letra floreada e levemente inclinada tinha ficado presa na minha mente no decorrer dos anos, e eu reconheceria em qualquer lugar.
Aquelas palavras não eram dela e, mais do que a oportunidade de fuga, aquele bilhete de apenas duas palavras me trouxe a certeza de que a Natalie que eu conhecera em Dawsonville estava morta, ela era uma Salvadora e, como a própria tinha dito, não me queria ali.
Então, deixei tudo aquilo para trás e parti. Era o certo a fazer.
— Estamos em casa! — Paul Rovia exclamou alegre, atrás de mim, acenando para o garoto que estava de guarda nos portões de Hilltop.
Senti um arrepio na espinha, a última vez que estivéramos ali tinha sido com Glenn. Tínhamos nos oferecido para lidar com os Salvadores, pensando que fossem apenas um grupo pequeno.
Eu mesmo, no auge da minha petulância, dissera que podíamos vencê-los, até me gabei de ter acabado com vários deles na estrada.
Era como se tudo tivesse acontecido há meses, mas fazia apenas algumas semanas...
— Vou te levar para o trailer, daí você pode ficar à vontade pra se limpar... — Eu já tinha aberto a boca pra resmungar uma negativa, quando Jesus terminou a frase. — Maggie vai ficar feliz de te ver.
— Maggie? — Repeti incrédulo.
Eu tinha visto o túmulo dela em Alexandria, Rick dissera que ela não tinha suportado a morte de Glenn. Era mais uma vida perdida na minha conta.
Paul devia estar falando de outra Maggie.
— É, ela está aqui. — Ele afirmou calmamente, como se aquilo não fosse novidade alguma. — E a Sasha e a Enid.
Por um momento era como se ele estivesse falando grego, eu estava pronto para exigir respostas, quando Enid saiu de um dos trailers.
— Daryl! — Ela sorriu, como se fossemos amigos ou algo assim.
Se eu tinha falado que ela três vezes era muito.
— Maggie está aqui? Como? Por quê? — Me voltei para Jesus, querendo focar no assunto mais importante.
Ele franziu as sobrancelhas como se não entendesse realmente a pergunta.
— Ela e Sasha vieram pra cá depois... — Enid começou, mas fez uma parada melancólica evitando citar o ocorrido. — Depois de tudo, e estão aqui desde então, as covas em Alexandria eram falsas, Padre Gabriel mentiu pra manter Maggie segura.
Um sentimento puro de alívio se espalhou pelo meu corpo, mas demorou apenas um segundo para que ele se misturasse a um frio desconfortável no estômago.
Maggie estava ali, viva, e por mais que eu agradecesse aos céus por isso, se soubesse do fato, jamais teria colocado os pés em Hilltop.
Ela devia me odiar.
Como eu teria coragem, e direito, de olhar para ela depois do que eu tinha feito. Glenn estava morto por minha causa. O marido dela, pai do bebê em seu ventre. Ela me odiava, com certeza. Maggie nunca me perdoaria.
— Mostra onde é o trailer, eu vou falar com a Maggie. — Vi Jesus se afastar e olhei para a saída, decido a partir.
— É por aqui. — Enid apontou, chamando minha atenção.
Por algum motivo não consegui partir, eu devia, era o certo, mas não consegui. Talvez ela me expulsasse. Talvez ela se negasse a me ver ou me desse um tiro na cara, eu mereceria.
— Você viu o Carl? — A garota perguntou, enquanto caminhava um pouco na frente. — Ele veio comigo, mas entrou em um dos caminhões e acho que foi para a base de Negan. Era lá que você estava?
Acenei positivamente enquanto ela abria a porta do trailer.
— Negan voltou com ele para Alexandria, eu acho. Mas nunca dá pra saber o que aquele filho da puta vai fazer! — A raiva fez minhas mãos tremerem incontrolavelmente.
Enid não continuou a conversa, embora parecesse preocupada, colocou algumas roupas em cima de um sofá que tinha por ali e me indicou o banheiro, saindo em seguida.
Fiquei encarando a porta recém-fechada, como se estivesse parado no tempo. A adrenalina da fuga estava se esvaindo da minha corrente sanguínea e, aos poucos, o estado de alerta dava lugar ao cansaço.
Olhei ao redor, mas não prestei realmente atenção em nada, minha mente já estava longe, revivendo cada minuto no Santuário. Eu ainda podia sentir cada coisa, a dor, a vergonha, fome, frio, toda a humilhação...
Não é hora de bancar o maricas. Acabou. Não importa mais. Você já passou por coisas piores.
Peguei a roupa que Enid deixou e, com movimentos bruscos, entrei no banheiro.
E ali estava outro tipo de lugar que apenas me lembrava merdas do passado. Apenas outra coisa que eu tinha empurrado para o fundo da mente e me forçado a esquecer. Eu faria o mesmo com aquela estadia no Santuário...
Mas como se minha própria mente me sabotasse as imagens protagonizadas por Natalie me vieram a cabeça. Como eu esqueceria aquilo?
Todas as vezes que eu presenciei Negan tocá-la; a proximidade dos dois; saber que tinham estado juntos em algum ponto do passado... Meu sangue fervia incontrolavelmente nas veias. Não era ciúmes nem nada disso, eu sabia que ela tocaria a vida, e eu não me importava com isso, mas com Negan? Um assassino psicopata? Como ela podia ficar do lado dele vendo o que o desgraçado fazia dia a dia, ela mesmo sofria nas mãos dele e não fazia nada!
Aquelas coisas simplesmente não faziam sentido, eu só conseguia sentir ódio todo o tempo. Minha mente era uma confusão de imagens e sentimentos, coisas que eu tinha visto acontecer e coisas que eu podia imaginar que tinham acontecido entre os dois, o que eles tinham feito juntos.
Meu estômago embrulhou e senti todos os meus nervos contraindo dentro de mim. Entrei debaixo da água gelada como se aquilo fosse me acalmar de alguma forma, mas quanto mais eu pensava no assunto mais revoltado eu ficava.
Ela gosta dele. Não tem outra explicação. Por qual outro motivo aceitaria tudo aquilo sem fazer nada?
Talvez ela se tornasse uma das esposas logo, não que ela fosse mesmo precisar de um título para dormir com Negan...
Soquei a parede em um rompante de raiva, me esquecendo por um momento que eu estava no banheiro de um trailer e vendo a "parede" ficar com a marca do meu punho.
Merda!
Vesti a roupa, colocando a arma de Rick na minha cintura, eu havia recuperado o item quando matei Fat Joe ao escapar. Logo depois, fiz uma nota mental para botar fogo em toda aquela porcaria que eu estava vestido antes eu não precisava de lembranças do Santuário, era melhor não pensar em nada do que tinha acontecido comigo lá dentro.
Novamente me senti perdido, parado do meio do lugar encarando o nada, o que viria depois? Precisamos nos unir e lutar, era o certo, tínhamos que acabar com o Santuário e com Negan.
Mas e a Natalie?
Duas batidas na porta e eu continuei olhando o vazio, mais duas batidas urgentes e eu avisei que estava aberto.
— Daryl? — Era Maggie. Minhas mãos tremeram, eu evitei o olhar dela e baixei a cabeça. Como eu seria capaz de olhar para aquela mulher outra vez? Ela devia me odiar. — Graças a Deus!
Ela soou aliviada, antes de cruzar o espaço entre nós dois e me abraçar apertado. Fiquei totalmente sem reação.
— Eu estava muito preocupada com você. — Ela sorriu.
Como Maggie podia sorrir? O marido dela estava morto por minha causa.
— Eu estou bem. Você? — Eu sabia que não tinha o direito de perguntar, mas eu precisava saber.
— Estou, o bebê também. — Maggie se apressou em responder, mas aquilo não me fez bem algum, só me lembrou que eu tinha destruído uma família, que eu tinha deixado um bebê sem pai.
Tentei dizer alguma coisa, mas minha boca não emitiu som algum. Eu devia ajoelhar aos pés dela e pedir perdão, mas nem para isso eu tinha coragem.
E o pior de tudo era aquele olhar, aquele olhar leve e amoroso que os Greene tinham. Hershel tinha, mesmo quando queria dar algum sermão o velho tinha aquele olhar e Beth também. E todos eles estavam mortos, de uma forma ou de outra era culpa minha.
Sasha entrou seguida de Enid e Jesus, questionou se eu estava bem e me bombardeou com perguntas sobre o Santuário, ela queria lutar, estava em cada palavra o quanto queria vingança e ela estava certa. Precisamos de vingança.
E Maggie continuava ali como uma fortaleza inabalável. Me serviu comida e eu me questionei outra vez como ela conseguia. Quanto mais eu me orgulhava da força dela, pior me sentia por Glenn não estar ali para ver aquilo.
— Eu vou continuar trabalhando naquela saída nos muros. — Jesus avisou, fazendo menção de sair.
Sasha estava pronta para falar alguma coisa, mas ele a deteve com um gesto.
— Sim, Sasha, eu vou fazer um mapa. Tudo a seu tempo. — Apaziguou com aquele jeito de diplomata.
A atiradora não pareceu muito satisfeita, mas Maggie interveio:
— Ele está certo, aquela saída é nossa prioridade agora, se os Salvadores voltarem e sabemos que eles vão, não podemos depender do Gregory outra vez.
Sasha se calou, Jesus assentiu e Enid concordou. Maggie era a líder ali, ficou claro naquele momento, mesmo que ela não parecesse ter muita noção daquilo.
— Faço o mapa quando acabar. — Paul Rovia declarou antes de sair.
— Vou com você. — Me apressei a oferecer, eu simplesmente não conseguia ficar no mesmo ambiente que Maggie, era como se eu fosse indigno de respirar o mesmo ar que ela.
Não dei tempo de ninguém responder e saí atrás de Jesus.
A saída estratégica nada mais era que um tipo de túnel que passava por debaixo do muro, então tínhamos que cavar. E confesso que, mesmo sob aquele Sol escaldante, fazer aquilo era muito melhor do que qualquer outra coisa que eu tinha feito no Santuário.
Se durante aqueles anos com Rick e os outros eu tinha chegado a pensar que tinha algum valor, dentro do Santuário naqueles últimos dias eu me lembrei que não valia nada, ainda era o mesmo caipira da Georgia, sem rumo e sem utilidade.
Negan não me quebrou, ele só me lembrou que eu sempre estive aos pedaços.
Enquanto o suor escorria pelo meu rosto e fazia meu cabelo grudar na pele, eu batia a enxada contra o chão cada vez mais forte, como se aquilo pudesse descarregar minha raiva ou afastar todas as lembranças que me assombravam.
Glenn tinha me pedido para voltar, ele nem devia estar naquela maldita floresta...
Continuei cavando, com mais ímpeto a cada batida, eu ainda podia ouvir o som do crânio dele rachando. E então minha mente voltava para meus dias naquele inferno....
Para o dia em que Negan tinha colocado Natalie na minha frente e me mandado comer comida de cachorro. Por que ela estava chorando? Suas lágrimas não combinavam com todo o resto, ás vezes ela parecia odiar aquilo, mas outras ela era totalmente conivente.
As mãos dela no corpo dele. O sorriso satisfeito de Negan...
Eu tinha esperado por ela. Porra! Eu tinha esperado por ela a vida toda se fosse honesto, tinha esperado por ela naquela maldita pedreira e pra quê? Pra quê preservar a memória dela, me negando a deixar qualquer outra mulher tocar meu corpo naqueles últimos dez anos, enquanto Natalie estava nos braços de Negan seguindo com a vida dela?
Aquilo perturbava minha mente mais do que eu gostaria de admitir. Eu não conseguia pensar com clareza, tudo se misturava como em um pesadelo sem fim. As imagens dos dois juntos, as reais e as inventadas, tinham grudado no meu subconsciente, vívidas o suficiente para embrulharem meu estômago.
Bati com a enxada tão forte contra o chão que o cabo se quebrou em dois pedaços.
— Tudo bem? — Jesus perguntou, parando o próprio trabalho para me observar. Assenti rudemente, pegando os pedaços da ferramenta do chão.
— Vou arrumar esse cabo. — Avisei, me afastando.
Claro que eu não fazia ideia de onde arrumar outro cabo, estivera em Hilltop uma vez apenas e isso não era o bastante para saber daqueles detalhes. Por isso, enquanto procurava, acabei em frente a dois túmulos, recentes o bastante para me chamarem atenção.
Tremi encarando a terra batida e as cruzes improvisadas, as mortes brutais de Glenn e Abraham voltaram a minha mente, era como se eu pudesse sentir o cheiro de sangue.
Fiquei parado ali, sem conseguir me mexer, a não ser pelo tremor de raiva que percorria meu corpo.
— Eu e Sasha cavamos, Maggie estava desacordada. Eu acho que ela não suportaria uma coisa dessas. — Jesus me encontrou, ele já estava com um cabo novo nas mãos.
Não respondi, eu simplesmente não encontrei palavras para isso. A única coisa que eu tinha absoluta certeza é que Negan tinha que pagar por tudo aquilo!
Precisamos lutar, ficar ali construindo saídas não resolveria o problema, tínhamos que revidar com força, nada mais de deixar inimigos vivos como tínhamos feito com o Governador. Eu nunca devia ter desistido de caçá-lo e não podia desistir de derrubar o filho da puta do Negan.
A voz de Maggie chamando Sasha e Enid no portão de entrada nos colocou alerta, mesmo que sua entonação fosse de felicidade e não indicasse problema algum, eu e Jesus seguimos naquela direção.
E, quando eu avistei o portão, nada poderia ter me preparado para aquela surpresa, todo o grupo estava ali; Rick, Michonne, Carl, Rosita, Tara...
Grimes caminhou até mim, os olhos marejados enquanto eu próprio tentava conter a emoção daquele reencontro. Eu queria pedir perdão, perdão por ter decepcionado todos eles, mas aquilo não parecia fazer diferença naquele momento, Rick me recebeu de volta como receberia um irmão. Éramos irmãos.
Ao menos eu tinha trazido sua Colt Python de volta, de alguma forma aquela arma era o símbolo da força de Rick, não que ele precisasse daquilo, contudo, naquele instante, quando eu a devolvi, foi como se ele recuperasse o controle da situação.
Estamos prontos para a batalha, prontos para revidar!
Rick queria o apoio de Hilltop, e ficou claro que realmente precisávamos daquele apoio. Fizemos uma pequena reunião antes de falar com o líder idiota do lugar, falei dos números do Santuário, dos trabalhadores que ele mantinha praticamente reféns, das instalações e da cerca viva, eu não sabia muito sobre coisa alguma de horários ou dos postos avançados, mas já eram informações suficiente para sabermos que estávamos em desvantagem.
Para piorar a situação Alexandria não tinha armas, Hilltop não tinha munições e Gregory foi um bundão que deu pra trás. A única coisa de positivo em tudo aquilo, foi que, apensar da negativa do covarde em nos ajudar, Enid tinha conversado com os moradores e eles aceitaram participar, confiavam em Maggie.
Como eu tinha pensando antes, Maggie Greene tinha conquistado uma posição de liderança e estava começando a se dar conta disso.
Estávamos prestes a começar uma guerra e por mais que eu soubesse que era o certo e o justo, afinal tínhamos que vingar todas as vidas que Negan tinha tirado, eu sabia que não seria fácil, que ainda mais gente morreria.
Não podíamos perder mais ninguém.
Mesmo com a ajuda de Hilltop ainda estávamos em desvantagem. Michonne estava confiante que encontraríamos mais pessoas, mas Sasha e Rosita achavam que mesmo assim não seria o bastante.
Elas estavam certas, quanto mais gente colocássemos em um confronto direto, mais vidas estaríamos arriscando. Maggie tinha um bebê na barriga, Rick tinha Judith e Carl e acabara de começar uma vida com Michonne... Perdas estavam fora de cogitação.
— Se encontrarmos as coisas certas talvez não precisemos dos números. — Sugeri, com um plano se formando em minha mente. — Vamos explodir tudo, incendiar o lugar.
— Mas você disse que não tem apenas soldados lá, que existem trabalhadores que não tinham escolha. — Tara argumentou.
Também não tínhamos escolha, esse era o ponto, tínhamos chegado em um momento que era eles ou nós. E, mesmo sabendo quem eu estaria condenando lá dentro, escolhi meu lado. Eu devia isso ao Glenn... Natalie Cooper tinha feito a escolha dela.
— Precisamos vencer. — Respondi, tentando ser firme.
Eu não queria escolher entre ela e meu grupo, mas ela tinha escolhido Negan primeiro, Natalie era uma Salvadora, ela tinha escolhido ser Negan.
Meu coração doeu com aquela constatação, porém não podia me iludir com um passado do qual eu tinha aberto mão. Eu e ela éramos apenas estranhos que um dia se conheceram bem demais. Era passado.
Depois de tudo que tinha acontecido no Santuário, era como se aquele pedestal que eu tinha montado para ela na minha mente estivesse desmoronando. A lembrança de Natalie sempre tinha sido sinônimo de felicidade e calmaria, um porto seguro escondido na minha cabeça pra onde eu podia correr se algo ruim acontecesse. Ter mandado ela partir só não doía mais, porque no fundo eu me sentia salvando toda aquela doçura e bondade da escuridão que era a minha vida.
Saber que Natalie era uma Salvadora destruía tudo isso, não existia mais porto seguro, não existia mais alivio por saber que eu tinha salvado a coisa que eu mais amei no mundo. A minha Bochechas estava morta, Natalie Cooper fez questão de matá-la e ela tinha me destruído junto.
Era hora de seguir em frente, de parar de esperar por ela inconscientemente.
— Precisamos de mais gente. — Rick interveio. — Outro grupo, eles têm postos avançados e isso coloca distância e localização contra nós.
Rick tinha um bom argumento, mas o fato é que não tínhamos outro grupo, então teríamos que nós virar, ou esperar. Eu certamente não queria esperar.
A pior parte é eles teriam que voltar para Alexandria, se os Salvadores fossem procurar por mim, e sabíamos que eles iriam, tanta gente longe, além de levantar suspeita, deixaria a comunidade desprotegida.
Mas Jesus tinha outros planos, ele roubara um dos rádios dos Salvadores. Equipamento de longo alcance. Poderíamos saber dos planos com antecedência e isso finalmente nos dava alguma vantagem.
— É hora de eu apresenta-los ao Ezekiel. Rei Ezekiel. — Quase ri quando ele falou.
O tal "Rei" era líder de outra comunidade, também tinha acordo com os Salvadores, mas segundo Paul Rovia eram gente de bem, eles tinham os números e o treinamento, tinham algumas armas também. Estavam conectados a Hilltop em um tipo de rede de comércio.
Embora os outros tenham ficado confiantes, o fato de um cara se autodenominar Rei me deixava com os dois pés atrás.
De toda forma, não tínhamos outra escolha, a não ser ver a situação com nossos próprios olhos. E, para ser honesto, bem lá no fundo, eu fiquei aliviado de Rick não dar ouvidos aquela minha proposta de colocar fogo no Santuário.
Eu sabia que era o certo, mas isso não significava que era fácil agir, sabendo que eu estaria condenando Natalie também. Dizer que eu tinha que seguir em frente era fácil, realmente seguir em frente era outro assunto. Eu tinha tentado e falhado nos últimos dez anos.
Talvez eu ainda a amasse. Talvez? Foi como se eu pudesse ouvir a gargalhada de Merle debochando de mim.
Estávamos todos em um utilitário. Rick no volante com Jesus ao seu lado, Michonne, Carl e eu no segundo banco, Rosita e Sasha no terceiro.
Natalie precisava sair da minha cabeça, ou eu nunca faria o que era preciso.
— Daryl? — Rick me fez encará-lo pelo retrovisor. — O que você sabe sobre uma Salvadora alta, de cabelo castanho na altura dos ombros e olhos escuros.
Meu coração gelou. Rick tinha acabado de descrever Natalie e eu não fazia ideia do motivo.
— O nome dela é Natalie. — Carl respondeu por mim.
Pela olhada que Rick deu no filho ele, assim como eu, não sabia como o moleque obtivera aquela informação.
— Negan me disse. Eu vi os dois conversando quando estava lá, pelo que parece ela pediu pra ele pegar leve comigo ou algo assim, porque ele disse: "Parece que a Natalie gosta de você, garoto..." — Carl explicou meio que dando de ombros.
— Ainda vamos conversar sobre essa sua ida ao Santuário, algo terrível podia ter acontecido. — Rick repreendeu o filho e eu percebi que a aparição do menino naquele lugar horrível, tinha sido um ato de rebeldia, não algo planejado.
Não que eu pudesse condená-lo por isso, mas eu não era pai, tampouco tive um bom exemplo de paternidade, para saber como agir em uma situação como aquela.
Carl não respondeu, talvez ele mesmo tivesse percebido que a atitude tinha sido errada, ou talvez apenas não quisesse discutir. Da minha parte achei ótimo que o assunto tivesse mudado.
A última coisa que eu queria naquele momento era falar sobre Natalie Cooper, ou ouvir coisas terríveis que ela podia ter feito em Alexandria. Acho que eu não suportaria mais decepção.
— Mas então, Daryl, o que você sabe sobre essa Natalie? — Rick voltou a questionar vendo que o filho não queria prosseguir com o assunto anterior.
Merda!
— Não muito, ela é uma das Salvadoras de Negan... — Respondi vago.
Sim, eu devia ter contado que já a conhecia, mas honestamente aquilo não mudaria nada, e estar associado com Natalie, depois de tudo que Negan tinha feito com Glenn, Abraham e o restante do grupo, não era algo que eu queria na roda de discussão.
Eles não precisavam saber.
— Acha que ela é fiel a ele? — Rick continuou e me encarou outra vez pelo retrovisor. Eu não fazia ideia de onde ele queria chegar.
— Deve ser, caso contrário ela já podia ter matado o cara se quisesse, afinal vive do lado dele. — Toda a minha raiva acabou transbordando pelas palavras, mesmo assim preferi omitir o que sabia sobre o relacionamento passado dos dois. Eu certamente não desejava entrar naquele assunto. Falar em voz alta tornava tudo mais real.
— Nem sempre é tão simples... — Michonne comentou neutra. — Rendi uma mulher que trabalhava para ele na estrada, ela agia como se não houvesse outra saída.
— Discordo, ela cedeu porque quis, podia ter se negado, podia não andar colada com ele. Ela disse que "o caos de Negan tem uma ordem" e que a morte dele não é interessante pra ela. — Despejei minha revolta, acabando por falar mais do que devia.
— Então você falou com ela? — Rick continuou naquela conversa que eu não entendia o propósito. — Ela teve algo a ver com a sua fuga?
— Falamos vagamente enquanto ela supervisionava um serviço que Negan deu. E não, ela não teve nada a ver com a minha fuga. — Lembrar daquelas coisas só me deixou mais amargurado, porque na verdade eu queria que Natalie tivesse tentando me ajudar, isso mostraria que ela ainda se importava, pelo menos um pouco. — Por que está me perguntando todas essas merdas, Rick? — Perdi a paciência. Queria mudar de assunto logo.
— Ela falou comigo em Alexandria. — A revelação me pegou de surpresa. — Ela escondeu a Judith, quando revistaram a nossa casa, não adiantou muito já que Negan viu ela hoje, mas foi um ato de boa-fé, eu suponho. E quando falamos ela parecia bastante interessada em te tirar de lá.
Que?
As novas informações ficaram dando voltas e voltas na minha mente, e me fazendo rever as atitudes de Natalie naquele dia, a cara que ela estava no quarto da Judith, um tipo de apreensão latente a cada segundo.
— Seria bom que alguém lá de dentro estivesse disposto a ajudar, passar informações, recrutar aliados lá dentro. — Rick continuou falando, inerte ao que se passava na minha mente.
Será que eu tinha entendido tudo errado?
Eu não conseguia clareza o bastante para repassar tudo, minha mente ficou ainda mais confusa.
— E você confiou nela? Pode ser só uma armação. — Sasha se pronunciou, nada satisfeita com o que Rick estava propondo.
Era uma boa pergunta. Rick confiava na Natalie?
— Eu não sei... — Ele respondeu seguindo uma das instruções de Jesus e virando à esquerda. — Por isso perguntei ao Daryl o que ele achava dela.
E todas as atenções se voltaram para mim novamente, estava nas minhas mãos.
Como um filme tudo que eu tinha vivido com Natalie passou na minha mente... Os melhores momentos da minha vida, a oficina, a caixa d'água, a pedreira, minha decisão de mandá-la partir e o grande vazio que ficou depois. Eu queria confiar nela, com todas as minhas forças eu queria. Mas então todos os meus erros também passaram em retrospectiva, erros que tinham custado a vida de outras pessoas, a vida de Glenn... Eu tinha deixado Maggie sem família e o bebê dela sem pai, eu não podia arriscar.
— Acho que não temos mais o luxo de ceder o benefício da dúvida a ninguém... — Declarei, porque, no fim das contas, minha culpa pesava mais que meu sentimento por Natalie Cooper.
Torci pra estar fazendo a escolha certa.
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