Notas iniciais
Oiee coisas mais lindas e maravilhosas da minha vidaaa! Como estão levando o último mês do ano? Espero que bem e que aproveitem muitoooo as férias. Como devem imaginar (por causa da demora) as coisas estão bem corridas pra mim... mas é a vida. Felizmente terminei esse cap e ele ficou enoorrmmeee (acho que está virando rotina, é a vida²) Como prometido é um cap que foca inteiramente no passado de um personagem, que rufem os tambores e vamos ver a estreia do Kane reinando supremo na narrativa. Quero dedicar esse cap em especial para a Menta, não só pelo carinho dela com a fic e porque o Kane é o preferido dela, mas porque foi niver dela recentemente então isso é meio que um presente atrasado uahsuahs (Parabeeennns minha linda!) Claro que não posso deixar de agradecer a todo mundo que comentou no cap passo, então obrigada: Mahilia, Briar, isnotme, Aquarius, Mary Noleto, NandaNascimento e Menta. Vcs sabem que tem um lugar especial no meu coração. Eu considero que esse capitulo tem umas boas revelações sobre o Kane, desde essa coisa que ele tem com a Natalie, a relação dele com o irmão, aquela olhada suspeita para a placa de Alexandria... Ficou grande porque era muita coisa pra contar e eu demorei um pouco para descobrir o melhor jeito de fazer isso (tá aí o motivo da demora) Espero mesmo que gostem! Boa leitura! PS: A atriz no banner é a Chloe Bennet, minha Alexandra Talbot.

• KANE BENNET •

Já parou pra pensar em como as pessoas a sua volta moldam você? Quer dizer, você é aquilo que quer ser, ou é apenas um produto do que conexões casuais e obrigatórias fizeram de você?

Família, amigos, aquele alguém que você conheceu por acaso em uma noite de bebedeira... até que ponto os caminhos que você trilha são escolhas somente suas? Talvez cada passo que damos seja influência de outra pessoa...

Começa com a família, aquelas pessoas que você não escolheu e com as quais você é obrigado a conviver a maior parte da vida. E tudo a partir daí são consequências... Suas escolhas perante atitudes deles, e suas atitudes perante as escolhas deles, que levam a mais atitudes e mais escolhas, em um ciclo que nunca termina e não pode ser controlado.

Não pode? Passei toda a minha infância com essa pergunta em minha mente. Aprendi cedo que não podemos controlar as outras pessoas, mas as atitudes e escolhas delas vão sempre influenciar você de alguma forma. Todavia você pode controlar suas reações, pode controlar seus próprios impulsos e, se for esperto o bastante, pode prever todas as variáveis do grande efeito borboleta que é o jogo da vida.

O jogo... Assim que você entende que ele existe, assim que percebe que o chão sob os seus pés é um grande tabuleiro, você tem duas escolhas, ser só mais uma peça, ou ser um jogador.

Eu escolhi ser um jogador muito cedo, não me lembro ao certo quando. Certamente foi em algum momento entre meu nascimento e minha infância. O primeiro indício que eu tive de que estava jogando foi aos onze.

Eu ainda me lembro do sangue; da poça se formando no chão lentamente; do barulho que o corpo fez quando caiu; ver seu irmão gêmeo matar seu pai é mesmo uma das coisas que fica presa na mente.

Quer dizer, o velho não era nenhum exemplo paterno, muito pelo contrário, ele era do tipo opressor, controlador e violento, mas isso se limitava as paredes da nossa casa, para o exterior erámos uma família perfeita que ia para a igreja todo o domingo. O senhor Bennet era o marido modelo que tratava a esposa como uma rainha e nunca deixava faltar nada em casa, um homem trabalhador, um ótimo oficial da narcóticos, respeitado por todo o Bronks.

Qual é, quem desconfiaria que o responsável por toda a droga apreendida no bairro era um viciado?

Ele era tão ciumento que não deixava minha mãe trabalhar, a maior parte das brigas deles eram por isso. Ted Bennet era um controlador compulsivo, tudo sempre teve que ser do jeito dele.

Se eu acho que as drogas que ele usava eram as responsáveis pelo comportamento e pelo surto de violência? Nem pensar, qualquer idiota sabe que essas merdas não mudam quem você é, elas só liberam o seu lado mais sombrio. E no caso do meu pai, esse lado sombrio era um bréu completo.

O engraçado é que eu não me lembro exatamente porquê ele estava brigando comigo naquele dia, pelas notas da escola, por alguma tarefa que eu não fiz, por não ter ficado de olho na minha mãe, eu não sei... Mas eu me lembro de responder, lembro erguer as mãos para me defender quando ele tentou dar o primeiro golpe, e certamente lembro da fúria que veio depois e das mãos dele ao redor do meu pescoço, enquanto o ouvia dizendo que ia me matar.

Se ele realmente cumpriria a promessa? Duvido, pensando nisso depois de anos, tenho plena certeza que era uma ameaça vazia, ele soltaria o meu pescoço, me daria uma surra que não deixasse qualquer marca evidente para ser vista pelos vizinhos, e me colocaria de castigo. Provavelmente brigaria com a minha mãe por não nos educar direito, bateria nela também. Depois pediria perdão, ele sempre pedia. Eu colecionava uma porção de "me perdoe, não vai acontecer de novo" na memória. Sempre acontecia de novo...

Mas eu nunca saberia se aquela seria apenas outra vez, a próxima coisa que me lembro é de ver o corpo dele no chão, Kelvin tinha batido na cabeça dele com uma estátua horrorosa de gato, que mamãe usava para segurar a porta da garagem, era pequena, mas feita de cimento, leve o bastante para que o artilheiro do time mirim de futebol americano levantasse, pesada o bastante para matar alguém.

Aos olhos de Kelvin ele tinha salvado minha vida, de novo, aos meus olhos ele tinha feito uma grande burrada.

Aquele sentimento de ver tudo desabar, como um castelo de cartas soprado pelo vento, fez toda minha mente entrar em alerta. Eu me tornei um jogador de verdade naquele dia. Toda a mentira que acobertou o assassinato do meu pai saiu da minha boca.

Pedi para Kelvin me ajudar a derrubar o grande armário de ferramentas em cima do meu pai, limpei o gato com cândida, liguei para a polícia.

O oficial Bennet tinha morrido em um acidente estúpido, quando ao tentar pegar uma ferramenta no topo do armário todo ele caiu em cima do seu corpo, fazendo sua cabeça bater no chão com violência. Instruí Kelvin a não falar nada, e pensaram que ele estava em choque, minha atuação foi convincente o bastante para que pensassem que estava confuso e traumatizado demais. Ninguém desconfiaria do garoto de onze anos. Ninguém desconfiaria da perfeita família Bennet que morava no fim da rua, afinal ninguém sabia os horrores que aconteciam ali dentro.

A verdade é que minhas mentiras salvaram a gente de uma bela enrascada, mas foi a forma que o meu pai jogava aquele jogo que fez minha vitória ser tão fácil.

Aquele evento impactou minha vida de várias formas diferentes: Mamãe obviamente percebeu tudo e nos tirou da cidade, assim que possível, mudamos para os arredores da Virginia. Kelvin nunca me agradeceu por limpar a barra dele, porque daquele incidente restou apenas o "eu matei o papai pra salvar sua vida". E eu... bom, eu aprendi que quando jogamos do jeito certo podemos manipular e controlar quase todas as situações. Eu me tornei viciado no jogo com a mesma facilidade e intensidade com a qual Kelvin foi se tornando parecido com o nosso pai.

Ele gostava de ter o controle das pessoas, de mim principalmente, cada vez que eu tentava me afastar, ou queria coisas diferentes dele, Kelvin usava a morte do nosso pai como desculpa, quando ele via que nem isso surgia efeito, ele usava o argumento mais emocional. "Tem uma parte minha dentro de você, somos um só, mano".

Eu tinha nascido com os dois rins ferrados, Kelvin com os dois rins bons, claro que os médicos fizeram um transplante, mas meu irmão tratava aquilo como se fosse uma decisão totalmente dele, como se um bebêzinho pudesse mesmo decidir...

É impressionante as artimanhas que as pessoas usam para controlar umas às outras.

Eventualmente eu percebi que aquilo não era motivo o bastante para me submeter a uma convivência que fazia mal. Eu me afastei, sem remorso devo dizer.

Mãe, irmão... Família é superestimada. Os laços de sangue são tratados como se fossem sagrados, mas até quando ficar perto de alguém que te faz mal, apenas porque compartilham o mesmo DNA é saudável, correto e justo?

Decidi que a resposta não importava. Eu cortei os laços. De todas as escolhas erradas que eu fiz na vida, aquela certamente não foi uma delas.

Eu me tornei um golpista. Kelvin se tornou um policial. Seriamos dois lados da mesma moeda, isso se meu irmão não tivesse seguido exatamente os passos do nosso pai, e se tornado um viciado, e além disso virado o mais corrupto que alguém podia ser naquele meio.

Eu era o jogador, golpista e mentiroso, mas era Kelvin quem vivia de aparências, é quase irônico se pensar bem... Eu me tornei o outro Bennet, a ovelha negra, desvirtuado... e Kelvin era o perfeito, melhor filho, melhor homem.

Pode ser bastante destrutivo olhar no espelho e saber que alguém com a mesma cara que você, nascido no mesmo lugar e com a mesma criação, pode ser tão diferente. Não dá pra viver com essa sombra, esse foi um dos motivos pelos quais eu parti.

Aquele foi, provavelmente, o segundo grande evento na minha vida. Você descobre um tipo novo de força quando deixa certas coisas para trás.

Mas foi o terceiro grande evento da minha vida que mudou tudo, como eu disse antes: Cada passo que damos pode ser apenas influência de outra pessoa...

Falamos sobre família, e sobre como isso impactou na minha vida e nas minhas escolhas, mas a minha pessoa, aquela que mudou tudo realmente, não tinha o meu sangue. Por ela eu dei muitos passos que eu não teria dado por mais ninguém.

Eu vivia em Las Vegas, depois de alguns golpes, aquele era o lugar ideal para mim. Vegas era um sonho, o paraíso para qualquer golpista e, para um garoto que, como eu, tinha nascido no Bronks de Nova York, era um Oásis.

Mas mesmo o céu na terra pode ficar entediante, e isso resumia muito bem aquela noite quente de verão. Tédio.

Eu tinha grana, as garotas me davam mole e eu devia estar animado, mas não estava. Eu queria algo mais, como quando você quer muito comer alguma coisa, mas simplesmente não sabe o que é.

Sentia falta de outros tipos de jogos, que não fossem os de azar que os cassinos da cidade ofereciam.

Golpistas no geral são viciados no jogo. E isso quer dizer uma situação especifica onde vemos claramente uma oportunidade de ganhar. Existem muitos jogos na vida: os de azar, os por dinheiro, os de poder, os do amor... E eu nunca tinha abandonado nenhum sem ganhar primeiro.

E depois de ganhar? Ah, depois não importa. Seja lá quanto poder, dinheiro, ou amor eu tivesse no final do jogo, depois que ele acabava, nada disso valia e eu saía em busca de outro jogo.

Esse era eu, nunca menti sobre isso. Pode chamar de criação, infância deturpada, problemas psicológicos, não me importo. Eu sempre vivi pelo jogo, e isso é tudo.

Era isso que me faltava, era hora de deixar Vegas e voltar à ativa, e foi quando eu a conheci...

Ainda me lembro perfeitamente do primeiro momento em que nossos olhos se encontraram... Ela parou em frente à minha mesa e perguntou se podia se sentar.

Era uma garota de vinte e poucos, traços exóticos, descendência filipina ou havaiana talvez, os olhos castanhos levemente puxados diziam isso. A pele bronzeada de seu rosto delicado era emoldurada por fios castanhos que clareavam para o dourado em direção as pontas, longos e em ondas perfeitas.

Olhei dos pés a cabeça, antes que dissesse uma só palavra, parei nos sapatos, você descobre muito de uma pessoa olhando para os pés e mãos dela, a moça na minha frente, por exemplo, usava sapatos caros e tinha mãos delicadas, que sabiam exatamente como segurar uma taça. Martini, muitas azeitonas, pontuei mentalmente. Era rica, sem dúvida.

Apontei a cadeira como quem diz "Por favor" e ela sorriu. Havia um toque de pecado em seu sorriso, algo que não se via facilmente em garotas daquele nível. A noite tinha acabado de ficar interessante.

Alexandra Talbot, Lexie como gostava de ser chamada, apenas Baby pra mim.

Nosso primeiro encontro não foi um acaso do destino, ela estava procurando alguém para um trabalho, ficou sabendo da minha existência depois de conhecer uma das minhas vítimas de Seatle; um corretor de seguros gurducho de quem eu tinha tirado o valor de um carro. Nada grande. O tipo de golpe que fazia uma vítima daquelas se sentir idiota demais para denunciar.

O fato de Lexie ter me encontrado, mesmo que eu usasse um nome falso, provava que ela tinha recursos, o que não se encaixava no perfil de uma mulher que quer dar golpes.

Existe algo interessante sobre ser um golpista: quando uma oportunidade aparece, nossa mente trabalha como um computador multitarefa, então enquanto ela ainda falava, eu descobri três coisas; primeiro, o alvo era muito rico; segundo, era um alvo difícil; terceiro, tinha alguma coisa muito mal contada naquela história.

Às vezes era uma merda ser viciado no jogo, você vê o tabuleiro todo, sabe que não tem chances, que vai se ferrar e mesmo assim continua ali. O lance é que ganhar ou perder raramente importa, a adrenalina está nas jogadas, não na vitória.

Mas claro que sair vencedor era bom também.

Quando aceitei a proposta de Lexie, não pensei apenas no jogo óbvio que teríamos que montar, para conseguir todo o dinheiro que ela queria de um empresário chamado Robert Harrington, eu pensei naquele outro joguinho paralelo que estávamos jogando, aquele que incluía os flertes e os sorrisos. Alexandra passou a ser o prêmio que eu cobiçava.

Afinal é sempre mais interessante jogar com alguém que também sabe as regras.

Meu alvo era um figurão da capital do país, o que significava que eu teria que voltar para a Virginia, perto demais do meu irmão, mesmo assim, o que seria da vida sem um pouco de riscos, não é?

O plano era simples, mas requeria paciência. Para quem visse de fora eu começaria como o novo motorista, que faria fortuna em tempo recorde, investindo em um fundo de ações muito lucrativo. Tudo mentira, é claro. Nos bastidores Lexie estaria bancando minha ascensão, para que o Senhor Harrington se interessasse o suficiente no investimento do meu "amigo" e desse uma fortuna de livre e espontânea vontade.

As chances de dar errado? Todas, na verdade. Mas como eu disse: o jogo raramente era sobre ganhar...

Nos primeiros três meses, sob o nome falso de Kurt, apenas mantive minha rotina e observei meu "chefe".

De reuniões de negócios, a encontros românticos com garotas com a metade da idade dele, eu assisti a cada ato desprezível de camarote. Robert Harrington era do tipo que fazia qualquer coisa para que seus negócios prosperassem, desde subornar funcionários de outras empresas por informação, até pagar para tirar a concorrência do páreo com acidentes falsos. Mas claro que tudo era feito por terceiros, Harrington nunca sujava as mãos.

Foi nesse meio tempo que eu descobri a informação mais importante sobre aquele caso. A informação que Lexie tinha escondido de mim. Os dois estavam muito mais ligados do que eu previra, Harrington era padrasto dela.

Aquilo não era um simples golpe, aquilo era vingança, mesmo que Alexandra dissesse que era tudo justiça. A mãe tinha morrido e Harrington dera um jeito de ficar com toda a herança, que tecnicamente seria para a enteada. Testamentos falsos, advogados e juízes comprados, ele tirou tudo dela legalmente e a mandou para um colégio interno na Alemanha.

Felizmente, Harrington não tinha conseguido fazer o mesmo com o dinheiro que o pai de Alexandra deixara para ela, depois de morrer no Iraque. O General Talbot tinha garantido o futuro de sua filha mesmo à distância.

A verdade era que Alexandra não precisava do dinheiro de Robert Harrington, mas era questão de honra pegá-lo de volta. Eu não podia dizer que entendia todo aquele sentimento de vingança e eu certamente não concordava com um golpe motivado por isso, mas aquele foi um dos momentos da minha vida em que tomei decisões baseadas nas pessoas que me cercavam.

Eu estava envolvido demais com Lexie pra sair do jogo, e, de alguma forma, não era mais pelo jogo em si, era por ela.

Pode parecer estúpido que eu tenha decidido isso sem ter qualquer garantia de que a moça seria minha um dia, provavelmente era estúpido mesmo, mas eu gostava dela e não precisava explicar aquilo pra ninguém.

E podia ser presunção minha, mas talvez ela gostasse de mim também...

A partir daquele momento, nosso joguinho de flerte e provocação se tornou uma constante. E isso era ótimo, afinal o plano principal era longo e exigia muita paciência, precisamos respeitar o tempo de espera se quiséssemos que nossas mentiras parecessem criveis.

Duas semanas depois Lexie deixou escapar perto de Robert que tinha investido com o meu "amigo" também, precisávamos que ele visse a coisa dando certo com alguém próximo e fora de suspeita. Claro que o fato do maldito Harrington se achar o espertalhão, nos dava uma vantagem, ele nunca suspeitaria que a enteada pudesse tramar algo como o que vinha se desenrolando bem debaixo do nariz dele.

Em qualquer jogo o que derruba um jogador são suas próprias jogadas, eu pensei mesmo que as jogadas de Harrington o derrubariam, mas eu esqueci de me preocupar com as minhas próprias...

Mais três meses bancando o motorista dos Harrington e eu vi a oportunidade de dar mais um passo no nosso plano. Um dos projetos dele estava prestes a ser lançado, um tipo de bairro projetado, cheio de frescura, ele estaria atarefado com isso, então não pensaria muito sobre a veracidade das informações que receberia.

Haveria uma festa para a inauguração do lugar, uma visita aberta com exposição e mais algumas coisas sem importância. Era impressionante a capacidade das pessoas ricas em gastarem dinheiro com futilidades.

Levei Robert até lá e percebi que, embora fosse tratado assim, o local era menor que um bairro, estava mais para um condomínio. Tudo seria autossustentável e cada casa seria vendida por uma fortuna.

Enquanto Robert Harrington se misturava entre os convidados, bancando o preocupado com o meio ambiente e sendo o babaca que era sempre, eu avistei Lexie bebendo uma taça de champanhe.

Era visível a insatisfação dela, estava dentro da casa dos Harrington por tempo o bastante pra saber que aquele projeto que Robert tratava como sua menina dos olhos era, na verdade, outra coisa que ele tinha roubado da mãe de Lexie.

Toda a ideia central do lugar e todos os projetos que o tornariam autossustentável tinham sido feitos pela senhora Harrington.

Eu ainda me lembro daquele sentimento de impotência ao ver Lexie chateada, foi a primeira vez que entendi parcialmente sua sede de justiça. Aquele dia marcou nossas vidas para sempre e ainda é como se eu pudesse passar cada cena na minha mente como um filme.

— É bom ver que você está se divertindo, madame. — Me aproximei discretamente e apontei a taça de champanhe que Lexie segurava.

— Você tem uma ideia errada do que me diverte. Não vejo a hora disso tudo acabar. — Ela deu um longo suspiro e esvaziou a taça em um só gole.

Estamos em público, por isso era importante que ficássemos distantes e não trocássemos muitos olhares, afinal eu era apenas o motorista e ela a filha do patrão.

— Acho que podemos dar o próximo passo hoje. — Murmurei, parado em uma posição formal.

— Não acha que é cedo demais? — Lexie passou na minha frente, mas estava virada de costas para mim, agindo como se sua atenção estivesse na mesa enorme de petiscos.

— Talvez, mas eu estou cansado desse uniforme e acho que vale a pena arriscar. — Respondi, olhando ao redor para ver se não estávamos sendo observados por alguém.

— É uma pena, eu meio que gosto do uniforme. — Ela passou bem ao meu lado e sussurrou no meu ouvido, havia um sorriso travesso em seus lábios.

Eu amava aquele joguinho.

— Eu acho que você gostaria bem mais do que está por dentro dele. — Rebati, trocando um olhar com ela que dizia muito das minhas intenções.

Lexie riu, ela sempre ria quando queria que o clima ficasse mais leve, ou simplesmente para fugir das minhas investidas. Voltamos a nos portar discretamente e em poucas palavras eu ensinei qual seria o melhor jeito de puxar aquele assunto.

Um comentário casual e um tanto irônico sobre comprar uma daquelas casas muito caras, já que o investimento com o "amigo do motorista" estava sendo bastante lucrativo, e talvez um pequeno deboche como "se continuar assim, eu logo vou estar mais rica que você". Aconselhei que tudo fosse dito como se ela estivesse um tanto bêbada, para que a cena toda indicasse que não era algo que ela queria dizer realmente, apenas uma informação que tinha escapado por causa do álcool.

Depois disso me afastei e apreciei de longe, enquanto Lexie fazia seu treatrinho, e quanto mais eu observava, mais interessado naquela mulher eu ficava.

Ela era boa no jogo, o modo como ela ria e gesticulava, expansiva, como se realmente estivesse bêbada, não deixou qualquer espaço para desconfiança. Eu percebi que Robert deu um sorrisinho falso, enquanto tentava contê-la discretamente, temendo que a enteada desse algum vexame, mas ao mesmo tempo seus olhos adquiriram aquele brilho predatório.

Eu conhecia homens como ele bem o bastante, para ter certeza que Robert Harrington tinha mordido a isca. Bastava esperar...

Depois que Lexie se afastou, ele foi chamado ao palco improvisado no meio do lugar, era hora do discurso de inauguração.

Ele se ajeitou como faria um político prestes a dar um discurso, podia ser apenas meu interesse por Lexie falando mais alto, porém Robert Harrington, como um todo, me causava uma certa aversão.

— Quando eu tive a ideia de um bairro todo que pudesse gerar a própria energia e tivesse os próprios sistemas de água e esgoto, minha esposa disse que eu era louco. E aqui estamos agora, apenas alguns anos depois e minha loucura se tornou realidade. — Ele começou e de cara tomou todos os créditos daquele projeto para si, invalidando totalmente qualquer participação da mãe de Alexandra.

Procurei-a com o olhar para vê-la parada no meio da plateia, ela tinha a cabeça erguida, a atitude do padrasto não a tinha surpreendido. Lexie provavelmente já tinha passado por coisa pior.

— Eu queria que minha amada Joanne estivesse aqui para ver isso. Ela amaria. — Robert continuou, se fazendo de comovido, eu não sabia o que era pior, ele tomar todos os créditos por algo que não tinha planejado, ou começar a usar a memória da esposa como alavanca de vendas... — Para Joanne a família sempre foi o mais importante, ela foi a mulher mais valorosa e a mãe mais atenciosa, que alguém poderia desejar. Quero que esse lugar se torne um bairro próspero, para que suas famílias cresçam seguras aqui. Por que isso é o que minha esposa gostaria, e é em honra a Joanne que eu resolvi batizar esse pequeno paraíso autossustentável como uma homenagem ao presente mais importante que ela me deu, nossa filha Alexandra.

Eram inacreditáveis a cara de pau e a hipocrisia daquele homem. Todos esperavam pela revelação do nome com certa comoção.

— Então, amigos. Sejam bem-vindos à Alexandria! — Robert Harrington finalizou.

Uma placa, que provavelmente ficaria na estrada, foi revelada com o nome do lugar, e enquanto todos aplaudiam, alguns até emocionados com aquela balela toda, Lexie tinha um olhar de puro ódio. Cheguei a acreditar que ela daria um tiro no padrasto se tivesse uma arma.

Ele tinha feito aquilo para provocá-la, era claro. O maldito Robert tinha tantos advogados, e talvez até juízes, na folha de pagamento que, mesmo que aquele lugar tivesse tecnicamente o nome de Lexie, ela nunca veria um centavo daquele dinheiro.

Mas eu finalmente tinha entendido que não tinha a ver com o dinheiro realmente, Lexie só queria tirar aquele sorrisinho da cara de pau de Robert Harington. Ela queria ganhar. Eu entendia aquilo totalmente...

Depois do discurso, não demorou muito para que Robert estivesse as voltas com uma alpinista social qualquer.

— Eu trago o carro até aqui, senhor. — Avisei, quando o vi se aproximar da saída com a mulher.

— Fiquei e espere pela minha enteada, ela estava bêbada e não sei onde se meteu. Certifique-se que ela não dê vexame no fim da minha festa. — Ordenou, sem precisar dizer que iria com a mulher para outro lugar.

Os dois se afastaram em direção ao carro dela, mas Robert, após abrir a porta para sua acompanhante, voltou na minha direção.

— Kurt, será que eu posso falar com você um segundo? — Perguntou, infinitamente mais cortês do que o de costume.

Eu soube imediatamente que era sobre meu "amigo investidor", mas me fiz de sonso.

— Sim senhor, eu fiz algo que te desagradou, senhor? — Abaixei minha cabeça, como um empregado submisso faria.

— Não, não. Muito pelo contrário. Eu só queria o contato daquele seu amigo, talvez eu esteja interessado em fazer negócio.

Reprimi o sorriso, enquanto passava os dados imediatamente.

Assim que Robert estava com o telefone em mãos, voltou a agir como se eu não fosse digno do ar que ele respirava e se dirigiu ao carro de sua acompanhante, sem se despedir.

Claro que não tinha amigo nenhum. Eu era o próprio investidor, com um celular extra e todo meu talento para imitações de vozes e sotaques.

Você não passa muito tempo naquele tipo de jogo, se não souber um ou dois truques e, modéstia à parte, eu sabia muitos.

Com a segunda parte do plano concluída, resolvi procurar por Lexie, ela certamente estava precisando de uma boa notícia. Não foi difícil encontrá-la em uma das casas, sentada no primeiro degrau da escada, no meio de uma sala completamente vazia.

O local parecia um palacete, provavelmente depois de mobilhado ficaria ainda mais luxuoso, mas naquele momento o vazio era um tanto deprimente.

— E então? — Lexie perguntou, assim que me viu passar pela porta.

Havia um olhar urgente em seu rosto, mas seus ombros, mais baixos que o de costume, me mostravam que ela não acreditava totalmente no sucesso do que estávamos planejando.

— Tudo conforme planejado. Ele está com o telefone em mãos. — Fechei a porta atrás de mim e adentrei o local, me apoiando na grande bancada de mármore da cozinha.

Lexie podia me ver perfeitamente bem de onde estava, graças ao ambiente totalmente aberto, que transformava sala e cozinha em praticamente um cômodo só. Mesmo assim ela se colocou de pé e caminhou na minha direção.

— Serio? Quer dizer que ele caiu? Tão fácil assim? — Ela soou um tanto incrédula, mas um sorriso de empolgação surgiu em seus lábios, colocando um brilho diferente em seu olhar.

Ela ficava ainda mais sexy quando estava feliz.

— Bom saber que você me dá tanto crédito. — Ironizei, sem me sentir realmente afetado pela falta de confiança de Lexie. Confiança ganhamos com o tempo. — Foi só o primeiro passo, ele ainda precisa ligar e, claro, ainda precisa querer "investir". — Fiz aspas com os dedos.

Lexie parou há uns três passos de mim e assentiu, ela tinha recuperado a fé que Robert tirou dela com aquele discurso estúpido. Dei o dia como vencido simplesmente por aquilo e desfrouxei a gravata no meu pescoço, abrindo o botão do colarinho em um movimento totalmente despretensioso.

Alexandra focou os olhos em mim por pouco mais de cinco segundos, totalmente em silêncio e, assim como um interruptor que se liga em um toque, todo o clima do ambiente mudou.

Eu nunca fui um idiota desligado, sempre soube quando uma mulher me encarou com cobiça, e a tensão sexual naquela sala era tão densa e palpável quanto uma ereção matinal.

— Melhor irmos agora. — Ela desconversou, desviando os olhos para a porta.

— O que? Sem comemorar? — Dei alguns passos rápidos e a detive colocando meu corpo no caminho do dela.

— Eu já disse que não misturo negócios com prazer. — Lexie soltou uma risadinha sarcástica, enquanto dava alguns passos para trás, mas mantinha os olhos fixos nos meus.

— Existe uma primeira vez pra tudo... — Devolvi, e as costas de Alexandra se encontraram com a parede atrás dela, apoiei minha mão ali para que nossos rostos ficassem no mesmo nível.

— Eu ainda sou a garota rica e você apenas o motorista, eu podia gritar, sabia? — Havia uma dose grande de lasciva no seu deboche, e sua mão esquerda já segurava minha gravata.

Aquele era um daqueles momentos em que o jogo acaba em empate. Ou eu devia dizer que era o momento em que tudo acabava em foda?

— E você vai gritar, Baby, pode apostar nisso... — Garanti, enquanto capturava seus lábios em um beijo ardente.

Descobrimos aquele dia que éramos bons planejando golpes juntos, mas éramos melhores ainda em outros assuntos. Tínhamos inteligência e astúcia, mas, principalmente, tínhamos muita química. E eu me viciei nas curvas daquele corpo, tanto quanto era viciado no jogo.

Depois de nossa primeira noite em Alexandria, levamos as coisas para o próximo nível, não precisávamos de jogos quanto aquilo, Lexie me queria e eu a queria também, era simples, as coisas evoluíram naturalmente. Claro que ainda tínhamos que manter tudo às escondidas na mansão Harrington, porque o golpe ainda era nosso objetivo. Talvez algum empregado tenha percebido, afinal não perdíamos uma oportunidade de dar vazão aos nossos desejos, porém um motorista pegando a filha do patrão, não era exatamente uma novidade naquele meio.

E ter Alexandra fazia daquela realidade animada o bastante, para que o tempo passasse rápido... Robert realmente entrou em contato com o meu "amigo", nossa primeira conversa saiu exatamente como eu queria, dispensei o dinheiro dele e disse que meu investimento estava fechado, isso fez o interesse dele aumentar, mas eu continuei me negando a fazermos negócio por um tempo. Era importante que ele quisesse investir o valor certo, por isso minha esquiva.

Cada vez que Alexandra dizia que tinha ganhado mais dinheiro e cada vez que meu "amigo" se negava a colocar o senhor Harrington no quadro de investidores, mais interessado ele ficava.

Alguns meses depois, perto do Natal, ele finalmente estava pronto para o lance certo, eu tinha ganhado o fim de semana de folga e estava no apartamento que eu e Lexie tínhamos alugado um pouco afastado da cidade, claro que o contrato estava no meu nome para que qualquer investigação de Robert não resultasse em suspeitas.

Ele me ligou pela manhã, ou melhor, ligou para o meu "amigo", e eu falei que pensaria no assunto e daria um retorno.

Toda aquela demora em aceitar negócio, Alexandra mostrando que estava ganhando cada vez mais dinheiro e eu como motorista, também investindo, aliado a algumas mentiras estratégicas, foram o bastante para enrolar Robert sobre conhecer o investidor por todo aquele tempo, mas sabíamos que, cedo ou tarde, teríamos que arrumar uma terceira parte para um encontro presencial, felizmente com a quantia certa qualquer um era comprável e isso não seria um problema.

Então, marquei retorno para segunda de manhã e dei aquilo por resolvido, partindo para uma bela ducha antes de me juntar a Lexie para o café da manhã.

Ela estava sentada à mesa, cercada de torradas, pães e ovos com bacon, mas nem dava bola para a comida, seus olhos estavam fixos no Washington DC post.

Para uma mulher jovem, ela gostava muito de ler jornal, era até engraçado.

Puxei o assunto sobre Robert e finalizei dizendo que podíamos passar para o próximo passo, ele estava disposto a dar o valor que queríamos.

— Pelos menos está ouvindo o que eu estou falando? — Questionei, vendo que não tinha um pingo de sua atenção.

— Não... — Ouvi sua risadinha por trás do jornal e puxei uma cadeira para me sentar. — Eu estou lendo a "Nua e Crua".

— É algum tipo de conto erótico? Por que se for, tenho boas histórias nossas pra mandar. — Debochei, observando enquanto ela abaixava o jornal e revirava os olhos.

— Claro que não, seu bobo. É uma coluna, assinada por uma tal de NL Cooper, ela ganhou o pulisher mês passado. — Tentei acompanhar o raciocínio e me interessar pelo assunto, mas a verdade é que eu estava mesmo é interessado no belo par de seios, parcialmente expostos pelos três botões abertos na camisa que Lexie usava. Minha camisa. — As coisas que ela fala... Os idiotas que ela expõe... As causas pelas quais ela luta... Cara, essa mulher ainda vai mudar o mundo!

Eu já tinha me levantado a essa altura e estava atrás da cadeira de Alexandra, ajeitando seu cabelo para o lado, afim de conseguir acesso ao seu pescoço.

— Então eu fui rebaixado pra "cara" agora? Bom saber. Será que eu tenho que ter ciúmes dessa tal de NL Cooper? — Perguntei, distribuindo beijos por toda a pele exposta.

— Não sei, ela boa com as palavras, provavelmente tem dedos ágeis... — Lexie finalmente deixou o jornal de lado e se levantou para jogar os braços ao redor do meu pescoço. — Mas não sei... Acho que você tem coisas que ela não tem.

Ela sorriu, aquele sorriso capaz de deixar qualquer homem louco, então desceu a mão direita afim de segurar "as coisas que eu tinha e a jornalista não".

— Baby, que se foda "mudar o mundo", eu conquisto o mundo pra você, basta pedir. — Segurei em sua cintura e a levantei no ar, jogando-a no sofá depois de alguns passos.

Acho que não existe o momento em que você olha para o lado e pensa "caramba, essa vai se tornar a mulher da minha vida", mas certamente existe o momento em que você olha para o lado e sabe, com toda a certeza, que aquela pessoa já é a mais importante da sua vida.

Quando você conhece alguém, isso não vem com um aviso, não é como um livro que você pode ler a última página para saber onde vai dar.

Algumas pessoas são uma decepção e outras são a melhor surpresa de todas.

— Eu quero mais dinheiro... — Lexie declarou olhando o teto, enquanto estávamos deitados no carpete, ainda nus, abraçados um ao outro, depois de um sexo particularmente incrível.

— O que? — Não entendi bem do que ela estava falando.

— Eu quero mais, esse valor não vai fazer nem cocegas na fortuna que Robert fez com o dinheiro e ideias da minha mãe, ele vai repor em dois tempos, eu quero mais, quero o dobro. — Ela se apoiou nos cotovelos para me encarar.

— Esse não é o plano, Lexie... — Tentei argumentar.

Eu já estava naquele jogo a bastante tempo para saber que algumas coisas podiam destruir todo um planejamento. Mudar o plano de última hora e ser ambicioso demais eram duas dessas coisas.

— Mas vai dar certo, confia em mim, podemos fazer isso. E depois estamos fora, vamos pra bem longe juntos. — A frase ficou rondando na minha cabeça por algum tempo antes que eu conseguisse entender o real significado dela.

— Juntos? — Quis confirmar, ainda incerto.

Eu e Lexie nos entendíamos, eu gostava dela. Okay era mais do que gostar, mas isso não vem ao caso. Porém eu nunca quis criar quaisquer expectativas sobre aquilo.

Estávamos em um golpe juntos, não era um pedido de casamento ou uma promessa pra vida toda, pelo menos não, até aquele momento...

— Só eu e você, podemos comprar um Iate e viajar o mundo em busca do Sol, estaremos sempre no verão. Primeiro você me dá isso, e depois você me dá o mundo... — Alexandra sorriu e eu soube que diria sim.

Foi exatamente naquele instante, que eu percebi que eu faria qualquer coisa por ela, não importava se seria arriscado ou loucura, eu nunca diria "não". Lexie queria perseguir o Sol em um barco, e eu também queria isso, mas no caso, ela era meu Sol.

No entanto, como eu disse antes, mudar o plano pode fazer tudo desmoronar e o primeiro problema veio algumas semanas depois, quando Kelvin apareceu na minha porta.

Ele estava bravo, como sempre ficava quando as coisas não saiam como ele queria. Eu nunca fui capaz de entender aquele sentimento de posse que meu irmão tinha sobre mim. Talvez ele tivesse medo de ficar sozinho, talvez ele achasse nossa conexão forte demais para ser quebrada... A verdade é que não importava. Eu já tinha quebrado aqueles laços e não estava disposto a construí-los novamente.

E claro que Kelvin sabia que minha volta a cidade não era uma mera coincidência sem motivo, ele me conhecia bem o bastante pra saber que eu estava planejando alguma coisa, e queria fazer parte do esquema.

Você já conheceu alguém que simplesmente não aceita não como resposta? Kelvin era do tipo de fazia uma lista de argumentos, ele começava com o mais óbvio, que era ele ser da polícia, e seguia por aí, até ver que não estava dando certo e apelar pra chantagem emocional.

"Você tem meu rim". "Eu matei o pai por você". Naquela altura da vida eu já conhecia o repertorio dele de cor e salteado, se antes aquilo realmente me comovia e fazia efeito, naquele momento era simplesmente exaustivo discutir com Kelvin, ele era aquele tipo de pessoa que dá preguiça de conviver, mas que ao mesmo tempo você sabe perfeitamente que é melhor não provocar.

Deixar Kelvin com raiva não seria bom, então resolvi empurrar a situação com a barriga e dizer que o plano não era inteiramente meu e que falaria com meu parceiro.

Eu sempre fui um bom jogador, mas nunca quando se tratava do meu irmão gêmeo, por alguma razão eu jamais consegui jogar com ele. Talvez porque aquele tipo de atitude exigia uma um nível de frieza que eu simplesmente não conseguia manter perto de Kelvin. Se na nossa infância e adolescência eu o amava o bastante para enfrentar até a polícia por ele, durante os anos seguintes as atitudes dele para comigo, me fizeram cultivar uma raiva que cresceu a tal ponto que eu simplesmente não conseguia controlar meus nervos quando ele estava por perto. Ouso dizer que se Kelvin salvasse uma caixa de filhotinhos abandonados do meio da rodovia, eu falaria que ele só queria atenção.

Às vezes eu até me sentia culpado, afinal Kelvin era meu irmão gêmeo, eu tinha o rim dele do lado esquerdo meu abdômen... Devíamos ser parceiros e amigos, mas eu simplesmente não conseguia, eu até tinha tentado, mas Kelvin extrapolava os limites do aceitável todas as vezes.

Por isso, quando o mandei embora, prometendo contato, eu sequer senti remorso. O plano com Robert estava na reta final, logo eu e Lexie sairíamos dali e Kelvin seria apenas uma lembrança deixada para trás.

Mas talvez Deus seja uma criatura cruel que ri enquanto fazemos planos...

Há um passo da negociação final, Robert Harrington simplesmente desistiu, disse que o tempo de investir tinha passado e matou todas as esperanças de qualquer contato futuro.

Aquilo não era sobre perder o jogo somente, era sobre perder Lexie, a decepção foi tão clara nos olhos dela que foi como se ela tivesse me dado um soco.

Eu nunca fui o tipo de cara que se sente um fracassado, mas naquele momento, quando ela deu as costas e saiu do apartamento, foi exatamente como eu me senti.

O gosto da derrota era amargo e o afoguei em doses cavalares de álcool. Certamente eu seguiria em frente depois, mas naquele momento eu precisava de um tempo pra processar tudo que aquela derrota significava.

Eu não esperava ver Alexandra outra vez, mas isso aconteceu mais cedo do que eu podia imaginar, naquela noite pra ser mais preciso.

— Passou um furacão por aqui? — Perguntou neutra, recolhendo algumas garrafas de cerveja espalhadas por toda parte.

Eu não respondi, apenas ri sem humor, encarando o teto enquanto estava deitado no tapete da sala.

Vê-la ali certamente mexeu comigo, mas eu já era um homem adulto, manter as expectativas baixas sobre o retorno dela era o mais seguro a fazer naquele momento.

— Você está bêbado?

Presumi que a pergunta era retórica, quando ela se deitou no sofá, virando o rosto na minha direção.

Era estranho sentir por alguém o que eu sentia por ela...

— Se está aqui, porque acha que ainda vai rolar uma guinada nesse golpe, esquece. Parte de ser um bom jogador é sobre saber perder também. — Desviei os olhos dela.

Tínhamos que desistir, naquele ponto a negativa de Robert poderia significar uma desconfiança real.

— É eu sei... Mas é o que dizem: o jogo nunca acaba até todas as peças estarem na mesa. Eu coloquei a última carta na mesa, ou melhor, no correio. — Ela sorriu. O sorriso de jogadora dela...

Aquele que me fazia lembrar que Alexandra não era uma simples garotinha rica, ela era uma jogadora também, por esse motivo éramos perfeitos um para o outro.

Ela tinha um plano e minha curiosidade já tinha sido totalmente atiçada.

— Você sabe que cartas são coisa do século passado, não é? As pessoas usam e-mails. — Me levantei do tapete para me sentar ao lado dela, que me cedeu espaço no sofá.

— E-mails podem ser rastreados e eu não queria que nada nos ligasse ao que vai acontecer a seguir. Estaremos bem longe daqui... no nosso Iate. — Ela tirou um panfleto com alguns barcos da bolsa, e me mostrou um dos modelos.

— Você comprou um...? — Lexie assentiu antes mesmo que eu terminasse a pergunta. Eu tentei conter a empolgação imediata que se espalhou pelas minhas veias. Eu precisava de uma explicação primeiro. — Por que? Pensei que...

— Você estava certo da primeira vez que nos vimos, eu não preciso do dinheiro do Robert, eu só queria vingança... Nós tentamos, não deu, eu não posso te arriscar mais, não vou deixar que o Robert tire outra pessoa que eu amo de mim. — Ela declarou muito decidida sobre tudo.

Assenti e foi impossível evitar o sorriso, eu não podia estar mais orgulhoso dela. Alexandra Talbot era perfeita.

— Acabei de dizer que te amo, seu maldito, não vai nem ficar surpreso? — Levei um tapa no braço pela minha inercia, e rimos juntos.

— Claro que não, olha pra mim, sou o máximo, claro que você me ama, como não amaria um cara charmosão feito eu? — Abri os braços totalmente presunçoso, mas claro que era só pose, eu sequer conhecia palavras o bastante pra expressar o que eu estava sentindo no momento. O plano, o jogo, tudo isso ficou em segundo plano.

Minha presunção me rendeu algumas almofadadas, e eu tive que revidar. Acabamos cobertos de enchimento e eu puxei Lexie para o meu colo.

— Não vai dizer que me ama, não? — Ela me deu outro tabefe, se fazendo ofendida.

— Eu disse que vou te dar o mundo, não é prova de amor o bastante? — Passei meus braços ao redor da sua cintura e aproximei nossos rostos.

— Não. — Lexie fez um biquinho adorável e eu o beijei com carinho.

— Eu te amo, Baby, amo mais do que já amei qualquer pessoa nessa vida. — Declarei, segurando o rosto dela com uma das mãos.

Aquela era a coisa mais verdadeira que eu já tinha dito para alguém.

— Melhor assim. — Ela sorriu vitoriosa e empinou um pouco o nariz.

— Então, vai me contar que carta misteriosa é essa? — perguntei, querendo saber o que Alexandra tinha em mente.

Ela desceu do meu colo e se jogou no lugar ao meu lado do sofá, para conversarmos mais seriamente.

— Acontece que Robert não é só um canalha que rouba o dinheiro de riquinhas órfãs. Como você bem sabe, ele assedia as funcionárias da empresa e da casa, chantageia meio mundo... A lista de crimes dele é extensa, ele até traía minha mãe...

Não era como se eu não soubesse de tudo aquilo, mas saber e realmente poder fazer algo a respeito eram duas coisas em realidades bem distintas.

— E você tinha provas esse tempo todo? — questionei, porque provas de tudo aquilo realmente mudariam tudo. Uma boa chantagem era sempre eficaz naqueles casos.

— Não o bastante, Robert é escorregadio como uma cobra, mas eu enviei todas as minhas suspeitas para alguém que vai saber como lidar com isso. E não se preocupe, excluí totalmente nossos nomes da narrativa, assim nada vai respingar na gente, enquanto estivemos navegando em busca do Sol, a não ser a água cristalina do mar. — Lexie estava plenamente confiante no que tinha feito, mas eu ainda tinha minhas dúvidas...

Digamos que, por ter crescido bem perto de policiais, vendo toda a corrupção e sujeira de perto, eu era bastante cético sobre justiça.

Aquela coisa de justiça não existia, tudo que importava era o dinheiro, poder e influência de uma pessoa, aquelas três coisas sempre conseguiam burlar o sistema.

— Você enviou isso pra polícia? Porque odeio desapontar você, Baby, mas a polícia é mais corrupta que o seu padrasto. — Comente,i franzindo os lábios.

— Eu enviei para o DC post, aos cuidados de NL Cooper. — Lexie respondeu, e do jeito que ela falava era como se tivesse acabado de chamar o Batman.

— A da coluna pornográfica? — Recebi uma revirada básica de olhos antes que Alexandra assentisse

— Ela vai pegar ele, eu sei disso!

— É, ela vai. — Concordei, sem colocar muita convicção nas minhas palavras.

Eu não entendia a confiança de Lexie na jornalista misteriosa, mas se ela precisava daquela esperança para seguir em frente, então eu não seria a pessoa a colocar dúvidas em sua mente.

Os próximos dias foram sobre os preparativos para a nossa partida, demissão, malas, eu estava desistindo de um jogo pela primeira vez na vida e por mais que parecesse estranho eu estava feliz.

Talvez parte de amar alguém fosse aquela euforia que brota no seu peito, aquele sentimento empolgante de que se você estiver com a pessoa amada você pode qualquer coisa.

Eu me sentia assim com Lexie, aquele velho clichê "nós dois contra o mundo" fazia sentido, porque com ela ao meu lado eu tinha plena certeza de que podia conquistar o mundo.

E foi essa certeza que me impediu de questionar quando Robert Harrington me telefonou uma noite antes da nossa partida, dizendo que tinha mudado de ideia, ele queria investir. Queria investir o dobro.

Pensei que minha demissão tivesse impulsionado isso, ver o motorista pé-rapado enriquecer devia ter esse tipo de reação nas pessoas.

Eu não contei para Lexie, resolvi fazer surpresa. Ainda interpretando meu "amigo investidor" eu disse a Harrington algumas outras mentiras e o convenci a dar a maleta com dinheiro para Kurt, eu mesmo, no caso.

Disse a Alexandra que tinha uma última coisa para fazer antes de partirmos e combinei com ela de nos encontrar no barco, no fim do dia.

Saber que eu podia finalizar o jogo antes de partir me deu uma sensação de dever cumprido que nenhuma outra coisa podia proporcionar.

Talvez se eu não fosse tão viciado no jogo eu tivesse visto os sinais.

A maleta foi entregue sem qualquer problema e eu voltei ao barco.

— O que é isso? — Lexie perguntou assim que me viu.

— É uma surpresa. Eu te conto em alto mar. — Respondi, com meu usual sorriso vitorioso.

— Eu tenho uma surpresa pra você também. — Ela se aproximou dois passos e parecia incerta. — Eu não sei se você vai considerar uma boa surpresa, por isso vou contar agora, antes de irmos, porque você pode mudar de ideia se quiser.

Não entendi, mas não tive tempo para teorias, Lexie tirou algo do bolso traseiro e entregou nas minhas mãos. Um teste de gravidez.

— Esses dois risquinhos aqui significam... — Minha fala se perdeu em algum lugar, enquanto eu alternava o olhar entre ela e o teste.

— Positivo. — Lexie completou e havia um medo real na voz dela.

E novamente eu não entendi, porque tudo que eu consegui foi sorrir, enquanto a tomava nos meus braços e a beijava.

— Meu Deus, Baby, pensei que a gente tivesse combinado que eu te daria o mundo... Mas é você quem está me dando! Isso é trapaça, sabe? — Eu estava feliz, provavelmente mais feliz do que em qualquer outro momento da minha vida.

Não sei se Alexandra pensou que eu teria uma reação diferente, provavelmente sim, porque assim que ouviu minha resposta ela ficou aliviada e igualmente feliz logo depois.

Vai ver alguém que tivesse passado por uma infância difícil como a minha, tivesse tantos problemas mal resolvidos com o pai quanto eu, tivesse uma reação diferente. Talvez essa pessoa pensasse que nunca daria conta de tudo aquilo, mas eu não era aquela pessoa.

A única coisa que passou na minha cabeça naquele momento foi que eu tinha algo bom ali, e eu não abriria mão daquilo. Eu amava Alexandra, ela era meu farol, a promessa de que algo bom podia acontecer com alguém como eu e eu nunca desistiria dela.

Que tipo de homem louco desistiria de alguém que ama afinal?

— Parece que eu te ganhei no seu próprio jogo, senhor Bennet. — Lexie se gabou, com a boca roçando na minha.

— E eu nunca estive tão feliz por perder. — Admiti, admirando as luzes que o pôr do sol jogava em seus olhos.

— Às vezes perder significa ganhar... — Ela sorriu. Era o momento perfeito, era como agarrar a felicidade com as duas mãos e não ser capaz de imaginar nada melhor.

— E às vezes ganhar significa perder. — Ouvi a voz e me virei apenas por reflexo, eu sabia quem era.

Kelvin.

Eu não tive tempo de falar nada. Vi a arma e minha mente soou o alarme, no mesmo momento em que o som do tiro cortava o ar.

Meu irmão atirou em mim?

Esperei o impacto, mas ele nunca veio.

Kelvin tinha um sorriso sádico.

Foi apenas um segundo.

Olhei para o lado a tempo de ver o corpo de Lexie caindo, eu a segurei nos meus braços. Havia muito sangue. Eu nunca tinha sido o alvo, sempre tinha sido ela. O tiro a acertou direto no peito.

— Lexie. Não, não, não... Fica comigo, fica comigo! — Implorei, enquanto elas engasgava com o próprio sangue.

Aquela era a felicidade se esvaindo dos meus dedos. Um segundo, apenas um segundo e tudo desabou. Eu estava tão perto.

— Fica comigo, Baby... —

Ela não podia falar, havia muito sangue. Era o fim. Não podia estar acontecendo! Onde eu errei? O que eu não previ?

Sua mão em meu rosto. As lágrimas nos meus olhos. O pavor tirando todo o brilho das íris dela... Tudo estava acabado.

A mulher que eu amava tinha acabado de morrer nos meus braços, e eu simplesmente não entendia. Eu estava em choque.

Toda aquela felicidade deu lugar a uma raiva pura e agonizante. Eu gritei, como se aquilo pudesse expurgar a dor, mas só fazia doer mais.

— O que você fez, Kelvin!! — Me virei para o meu próprio irmão e não havia qualquer remorso em seu rosto.

Meu rosto. Eu estava olhando para o assassino da mulher da minha vida e ele tinha os meus olhos. Era minha culpa?

— Achou que podia me dispensar assim, irmão? E sairia da cidade com a sua grana e a sua garota numa boa, me deixaria na mão depois de tudo? Uma ligação Kane, uma só e eu coloquei todo o seu esquema a baixo! — Ele não riu, não gritou, havia um certo orgulho em sua voz, mas fora isso era apenas frieza.

Eu não conseguia entender como ou porquê tudo aquilo estava acontecendo...

O ódio me deixou tão cego que eu nem sei como, mas pulei sobre ele, no instante seguinte o meu punho estava no seu rosto, uma vez apenas antes dele se desviar e a arma rolar no chão de modo que eu pudesse pegá-la facilmente.

Kelvin estava na mira. Meu irmão. Meu sangue. E o pior de tudo meu próprio rosto olhando de volta pra mim. Família era sim superestimada, mas como atirar em alguém que é praticamente você mesmo?

Todavia o ódio é mais forte que qualquer coisa, não é? Eu provavelmente nunca faria aquilo em qualquer outra situação, eu não era um assassino, mas eu puxei o gatilho. De novo e de novo. Nada aconteceu.

Não tinha munição naquela arma.

— Eu sei que você é covarde, Kane, você nunca mataria ninguém, mas eu nunca deixaria você pegar uma arma carregada em uma situação como essa. Eu sou um policial, acha que eu não tenho malicia? — Kelvin tirou outra arma do coldre em sua cintura. — Eu só precisava que você estivesse com ela na mão agora. Você é tão estupido, Kane, ainda é uma criança ingênua que acha que tudo é um jogo. Mas eu ganhei, você não é tão bom assim.

Havia uma arma apontada pra mim, mas não era isso que me mantinha parado, era o choque. Kelvin continuou falando enquanto cada parte daquele quebra-cabeças se formava na minha mente e enquanto eu tinha a certeza de que tudo que eu mais quis tinha sido arrancado de mim.

— Eu te segui por dois dias e descobri seu esquema. Achou mesmo que o Harrington te daria todo esse dinheiro assim do nada? Ele e eu planejamos tudo, o rastreador no meio do dinheiro, a hora certa de agir... Eu ganho uma boa bolada e ele tira uma pedra bonitinha do caminho dele... — Ele apontou o corpo de Lexie como se não fosse nada. — Você foi vencido no seu próprio jogo. E vai aprender a nunca me dispensar outra vez...

Minha recusa em deixar Kelvin fazer parte do plano o fizera entrar em contato com Robert, o maldito tinha tramado tudo com a ajuda do meu irmão. Eles tinham tramado a morte de Lexie e eu assinei o atestado de óbito quando fui buscar aquela maleta, incapaz de sair do jogo.

Meus joelhos atingiram o chão, antes mesmo que o resto da polícia invadisse o lugar.

— Kane Bennet, você está preso em flagrante pelo assassinato de Alexandra Talbot...

Meus direitos foram recitados enquanto os policiais se espalhavam pelo local. Quando fui escoltado pra fora, um dos paramédicos declarou a hora do óbito de Lexie ao meu lado.

Robert Harrington estava lá assistindo tudo de camarote, se fazendo de comovido pela morte da enteada que ele mesmo tinha mandado assassinar.

E graças ao sistema de justiça daquele pais de merda, que sempre foi controlado pelos mais ricos, ninguém jamais saberia daquilo.

Nos meses seguintes enquanto estava trancafiado em uma cela mofada, eu aprendi que Lexie estava certa, às vezes tínhamos que fazer justiça com as próprias mãos... Mas eu nunca consegui fazer a minha justiça, mesmo quando eu pude.

No entanto alguém fez por mim. Uma jornalista do DC post chamada NL Cooper, a heroína de Lexie era real, ela levou o maldito Harrington a júri por causa da carta anônima, ele não pagou pelo assassinato da enteada, na verdade ninguém ficou sabendo daquilo, nunca. Mas ele foi para a cadeia por assedio e chantagem, e ela garantiu que ele ficasse lá.

Não era fácil conseguir coisas na cadeia, mas felizmente eu ainda era um jogador bom o bastante para ganhar jornais e algumas outras coisas. Ainda me lembro do dia que eu finalmente descobri o nome da mulher... Natalie Cooper. A foto vinha junto com uma matéria do prêmio publisher dela.

Primeiro ela garantiu que Robert ficasse na cadeia, não sei se ele teria saído usando a fortuna extorquida de Lexie, mas não tive tempo de descobrir, uma epidemia tomou conta do mundo três meses depois da prisão dele.

Kelvin me tirou da cadeia quando as coisas estavam saindo do controle. E eu tive todas as oportunidades de matá-lo depois disso, mas ele estava certo em uma coisa, eu não era um assassino, eu nunca fui. Pra ele tinha sido fácil matar o nosso pai, mas eu nunca seria capaz de matar alguém que tinha meu rosto.

Eu quis, bem mais de uma vez, planejei, bem mais de uma vez. Pensei que depois que finalmente sujei minhas mãos de sangue, na estrada da sobrevivência, ficaria mais fácil. Mas não ficou.

No fim matar ou não meu irmão parou de fazer diferença, a verdade é que toda a vez em que a cena de Lexie se passava na minha mente, era eu mesmo atirando nela. Eu era o culpado.

E meu irmão continuou ao meu lado, me lembrando que o inferno era na terra, até que alguém, novamente, fez justiça por mim: Natalie Cooper.

Por um tempo eu realmente acreditei que a heroína de Lexie, fosse minha heroína também...

Quer dizer, Robert primeiro, Kelvin depois. Ela atirou no peito dele da mesma forma que ele tinha atirado no peito de Lexie.

Criei uma conexão com ela. Não sei bem quando naqueles últimos meses, mas cheguei mesmo a pensar que Natalie era minha segunda chance de fazer tudo certo. Derrubaríamos Negan, porque ele era apenas mais uma versão do Robert. De alguma forma estúpida eu imaginei que Alexandra e o meu pequeno bebezinho tinham mandado um anjo pra mim...

Heroína? Anjo? Essas merdas existem realmente? Ri meio histericamente enquanto finalmente abria o cadeado que me mantinha preso naquele cercado.

Aquilo era o maldito fim do mundo, heróis e vilões não importavam mais. Anjos e demônios era utópico demais. Tudo que importava era o jogo. E ninguém era melhor nele do que eu.

— Espero que esteja pronta, Natalie Cooper, dessa vez eu não vou ser tão legal. — Declarei, me preparando para encontrar a traidora.

Notas finais
É muita coisa pra dizer aqui e nem sei por onde começar... Quem tá no grupo deve ter entendido porque eu venho falando há uns dias que estou em um momento "amar o Kane" foi muita sacanagem o que aconteceu com ele, não só a morte da Lexie, mas o fato dele ser obrigado a conviver com o irmão depois disso. E o fato dele não ter matado o Kelvin depois do calor do momento prova que Natalie e Kane tem bastante em comum. Eles matam porque precisam, mas não apreciam isso e nem o fazem sem ser por extrema necessidade. Falando em Natalie e Kane agora sabemos de onde vem esse interesse nela... Acho que a Natalie cometeu um erro e tanto em ter traído o coitado. #SePreparaNatalie Desvendando o mistério Alexandria x Kane que muita gente já estava teorizando desde aquele olhar misterioso. E aqui estabelecemos um paralelo interessante sobre dois personagens masculinos importantes da fic. Kane nunca abriria mão da Lexie, ao passo que Daryl fez isso com a Natalie. E embora o Daryl tenha sofrido bem mais na infância foi o Kane quem conseguiu cortar os laços com a família abusiva. Natalie narra o próximo, será que ela criou um monstro quando traiu o Kane? Eu queria postar 2 capítulos antes do fim do ano, então vou tentar o máximo fazer isso. Bjss e até. PS: #RipLexie (um dia eu paro de desgraçar a vida dos personagens, eu juro uahsuahuahs)