Notas iniciais
Oi minhas lindas e maravilhosas! Será que ainda dá tempo pra um presentinho de Natal? Espero que as festas de vocês estejam sendo ótimas e que estejam curtindo muito com a familia e amigos, pra quem não comemora essa data, então espero que estejam aproveitando o feriado s2 Nesse veremos Natalie em sua busca pelos filhos e é meio que o fechamento de um "arco" da fic. Eu espero que vocês gostem tanto quando eu gostei de escrever. Muita gente tá sumida dos comentários, mas eu sei que fim de ano é complicado mesmo, estou esperando vocês voltarem viu? Até lá, quero deixar um agradecimento super especial para Menta e isnotme por não me deixarem na mão, mesmo no meio da correria. Esse cap tem drama, tem um tanto de comédia, tem uns momentos "WTF?", tem tretaaa e tem algo mais uashuahsu espero que se divirtam (ou sofram, depende) Boa leitura!

• NATALIE COOPER •

Acabou. Acabou. Acabou. Continuei repetindo mentalmente, enquanto segurava o volante com tanta força que os nós dos meus dedos começaram a ficar brancos.

Meus olhos oscilavam entre a estrada, os lados e o retrovisor em um ciclo constante e apavorado, como se a qualquer momento uma caravana de Salvadores fosse me surpreender e me levar de volta para aquele inferno.

Acabou. Acabou. Acabou. Tentei convencer minha mente, eu precisava pensar com clareza, mas minha paranoia não me permitia e tudo ficava bagunçado demais para que eu traçasse um plano eficiente.

A verdade é que em todos aqueles meses, meu foco tinha sido escapar do Santuário e encontrar meus filhos, em nenhum momento eu pensei em como descobriria o paradeiro deles, ou, em por onde eu começaria. Então, depois do alivio inicial que percorreu cada átomo do meu corpo, a realidade aterrorizante de estar perdida caiu sobre mim como uma pedra.

Eu estava dirigindo sem rumo, tomando estradas adjacentes e fazendo voltas sem sentido, e eu não podia mais fazer aquilo, logo escureceria, a gasolina do carro estava no fim e minha fuga talvez se tornasse prioridade no Santuário. Eu precisava de um plano e precisava rápido.

Tentei passar por lugares onde eu e as crianças tínhamos passado no começo de tudo, mas a maioria estava infestada ou destruída. Eu tinha que confiar que Luka e Petter fariam escolhas prudentes e seguras e que tinham saído totalmente da rota dos Salvadores.

Pensei em voltar pra casa, para o nosso apartamento no centro, mas eu sabia que a cidade jamais seria capaz de servir de abrigo por mais de uma noite e, pular de lugar em lugar não era uma opção segura, eu mesmo tinha dito isso aos dois no começo.

Dirigi para o sul, para o subúrbio, passando pelos bairros tradicionais e chegando a região nobre da cidade, a casa da minha mãe era afastada o bastante para ser segura, mesmo que tivéssemos descartado aquela opção no primeiro trimestre por ser uma construção muito exposta.

E realmente era, o estilo extravagante da minha mãe se achava acima de qualquer violência, nada de muros ou cercas, Deborah Spelman sempre confiou nos seguranças que a vizinhança pagava para cuidarem dos arredores. Eu e ela já tínhamos discutido muito sobre o assunto... E, obviamente, não adiantou de nada.

O lugar tinha se tornado apenas uma sombra do que foi um dia, o jardim bem cuidado estava coberto por mato e as trepadeiras haviam tomado conta de todas as paredes externas, a casa tão luxuosa da minha mãe parecia mais um mausoléu abandonado.

A porta da frente estava arrombada e tudo por ali tinha sido saqueado. Enquanto dava passos atentos pelo chão encardido, que um dia foi de madeira clara, mil e uma lembranças percorriam minha mente.

Me lembrei da partida dela e de Daniel para a Europa. Minha mãe queria que eu me mudasse para a casa dela, mas eu sempre preferi o aconchego e a praticidade do meu apartamento no centro.

Nunca pensei que seria tão duro me despedir, jamais imaginei que seria a última vez que eu a veria pessoalmente.

Claro que a doutora Spelman estava indo a trabalho, expandir a firma e se tornar ainda mais bem-sucedida, mas eu sabia bem que, aquele plano que Daniel tinha de expandir para a Europa, nada tinha a ver com lucro. Ele estava tentando salvar o casamento dos dois. Se eu me lembrava bem, ele vinha tentando salvar o casamento dos dois há anos. Desde a morte do meu pai, para ser mais exata.

Verdade que quando eu era jovem, meu padrasto nunca foi minha pessoa preferida no mundo, ele era okay e nada mais que isso. Mas depois que eu voltei de Dawsonville, ele fez tudo que podia por mim, por Petter e principalmente pela minha mãe. Eu só podia imaginar o que tinha sido pra ele enfrentar tudo aquilo, porque enquanto minha mãe me apoiava e eu sofria, ele tentava apoiar as duas, mesmo que ninguém estivesse lá por ele.

Conforme envelhecemos vamos percebendo certas coisas, e por mais que minha mãe fosse fria e distante ele nunca a abandonou.

Talvez, em uma vida perfeita, minha mãe e meu pai tivessem ficado juntos, Peter Cooper e Deborah Spelman teriam vívido o tipo de amor que se conta em livros. Teriam... mas não viveram, a verdade era bem menos glamorosa que isso. Com o tempo eu entendi que meu pai não tinha lutado por minha mãe, simplesmente porque não quis, ele tinha medo. Assim como Daryl não tinha lutado por mim. Talvez fosse algum tipo de carma familiar ou sei lá...

Mas o Daniel lutou por ela a cada segundo, e continuou lutando mesmo quando muitos dariam a causa como perdida. Ele tinha minha admiração por isso.

Antes da maldita epidemia se espalhar totalmente nos falamos pelo telefone uma última vez. Não foi uma despedida. Eu estava cansada de despedidas e me recusei a passar por mais uma, preferi pensar que ela encontraria um jeito de sobreviver e, de alguma forma, minha mãe sempre soube que eu ficaria bem. Ela achava que eu iria para Georgia, na verdade eu mesma achava isso...

Meu riso seco se espalhou pela construção vazia, eu era uma pessoa muito iludida, mesmo quando o mundo estava desabando, mas depois de três anos naquela vida, eu tinha aprendido algumas coisas sobre manter os pés no chão.

Daryl não era o meu salvador, ele nunca tinha sido, e na verdade eu descobri que odiava essa coisa de "Salvador" a palavra se tornou um xingamento, isso sim.

Vasculhei todos os cômodos e além de não encontrar nada útil, a não ser algumas peças de roupas, o mais preocupante foi que não encontrei qualquer sinal dos meus filhos. Por último deixei aquele que um dia tinha sido meu quarto.

Abri a porta, que rangeu pela falta de manutenção, o cômodo estava empoeirado e revirado como a maioria das coisas na casa.

Caminhei até a janela de onde praticamente não dava mais para ver o exterior, graças as trepadeiras que haviam crescido sobre o vidro.

Quantas vezes eu tinha me sentado naquela mesma janela? Quantos dias olhando o nada pensando que talvez viver sequer valesse a pena?

Passei a mão sobre a poeira do peitoral, revelando a madeira gasta onde vários riscos podiam ser vistos. Um para cada dia que eu consegui sobreviver a dor.

Quando retornei de Dawsonville, eu costumava contar os dias fazendo riscos no peitoral, como um prisioneiro faria na cadeia. E me lembrar de tudo aquilo naquele instante só me fez pensar em como eu era tola.

Nos primeiros seis meses eu arrisquei minha saúde de todos os jeitos idiotas possíveis, eu mal tinha cuidado do meu próprio filho, porque Daryl era a única coisa que importava, ele era o centro do meu mundo, eu me sentia um planeta que não tinha mais Sol, eu estava na escuridão, caindo no vazio sem ter em torno de quê orbitar. Tão estúpida e fraca.

Embora eu quisesse o bebê, naquela época eu o queria por motivos errados, confesso. Eu queria meu bebê, porque pensava que Daryl ligaria, viria atrás de mim... Eu queria aquele bebê, porque não podia suportar a dor de outra perda, porque ainda sentia falta do meu pai o bastante pra entender que eu queria uma família. E demorei todos aqueles meses pra entender que queria aquilo mesmo que Daryl não estivesse lá pra compartilhar comigo.

Claro que eu paguei bem caro pelos meus seis meses de negligencia, Petter nasceu de sete meses, nós quase morremos, aprendemos a lutar pela vida juntos. E esse era um dos motivos pelos quais eu sabia que ele estaria vivo. Ele tinha que estar. Meu Petter era um sobrevivente desde o primeiro dia.

Limpei uma lágrima pesada que escorria pelo meu rosto e decidi seguir em frente. Se eles não tinham passado por ali, então era hora de voltar ao começo de tudo: Sherwood.

Eu sabia que era arriscado, mas se tinha qualquer chance de ter uma pista do paradeiro dos meus filhos na minha antiga comunidade, então era pra lá que eu tinha que ir.

Olhei o nível de gasolina no painel do carro e soube que ele não me levaria longe, talvez eu tivesse que andar da metade do caminho em diante, mas não me importei, dei a partida mesmo assim. Achar Petter e Luka era meu único objetivo.

A verdade é que aqueles últimos dez anos só tinham sido possíveis porque eu sempre estava perseguindo um objetivo. O primeiro semestre foi sobre minha tristeza e estar sem rumo, claro, mas depois disso eu sempre tive um objetivo em mente e quando eu o alcançava eu já tinha outro em vista.

Quando o mundo entrou em colapso manter meus filhos vivos era meu foco, e então tornar Sherwood habitável e próspera. Mesmo no Santuário eu tinha um objetivo, foi o que me fez suportar tudo que acontecia lá...

Como eu tinha previsto, o carro ficou sem combustível e tive que seguir a pé parte do caminho. Conforme a paisagem se tornava conhecida e os limites de Sherwood ficavam mais claros um sentimento horrível tomava conta de mim.

Flashes de tudo que tinha acontecido ali, tentavam vir à tona, enquanto eu me forçava a manter o foco. Mas foi impossível permanecer centrada quando finalmente cheguei na antiga comunidade.

Parte do lugar estava coberto por destroços que o fogo tinha deixado, haviam árvores e casas carbonizadas e, o pior de tudo, gente com quem eu tinha convivido, vagando por ali, mortos, mas vivos o bastante para serem uma ameaça.

Senti uma súbita vontade de vomitar e minhas mãos tremeram, eu tinha que ser silenciosa e muito furtiva pra não ser notada, mas eu mal conseguia ver um palmo a frente do meu nariz, porque minhas lágrimas nublavam minha visão.

Foco no seu objetivo Natalie. Foco, repeti mentalmente. Segui por entre as árvores tentando não me abalar ao notar que qualquer rastro já teria sumido depois de seis meses.

Eu não podia me desesperar. Talvez nas casas ainda de pé. Matei alguns errantes no caminho, preferindo não focar em seus rostos decompostos. Isso não é sobre você, é sobre o Petter e a Luka.

Três casas vasculhas e nada.

— O que eu faço? O que eu faço? — Murmurei pra mim mesma, sentindo tudo rodar ao meu redor.

Eu havia chegado até ali, havia passado por cima de tudo que eu era e então não tinha nada, nem sequer um rastro pra seguir.

E, pela primeira vez naqueles meses, eu realmente pensei na possibilidade de ter sido tudo em vão. E se eles estivessem mortos?

Meu estômago revirou, senti que podia vomitar a qualquer momento, eu não conseguia controlar minhas próprias pernas.

Saí da casa onde eu estava, me apoiando na porta e tentando respirar profundamente, era como se os meus pulmões não absorvessem ar algum e eu estivesse sufocando. Por alguns segundos realmente acreditei que não conseguia respirar, era como se eu me afogasse lentamente em um mar de lama.

E se...

Aquelas duas simples palavrinhas abriram um leque de opções macabras na minha mente, e todas as possibilidades me atingiam de uma só vez, de novo e de novo em um looping agoniante.

E se tudo que eu tinha feito fosse por nada? E se eu nunca os encontrasse? E se não houvesse mais alguém pra ser encontrado...

Cada pensamento puxava outro ainda pior, trazendo com eles tudo que eu tinha vivido nos últimos meses. A verdade é que eu tinha me impedido de pensar ou sentir, tinha passado pelo Santuário no automático, fingindo que cada coisa lá dentro não me afetava de formas diferentes.

Eu havia usado a minha obstinação de encontrar meus filhos como um escudo e como uma arma, mas no momento em que a dúvida derrubou minhas defesas, não havia mais nada que podia me proteger da dor do que eu tinha vivido e, principalmente, da dor pelas coisas que eu tinha feito.

Pela primeira vez eu pensei nas consequências: mesmo que eu encontrasse Petter e Luka como eu poderia encará-los novamente, depois de tudo que eu tinha feito; todas as mentiras e manipulações; que tipo de exemplo eu tinha me tornado?

Escapei das mãos podres de um morto por muito pouco, derrubando-o com uma faca que eu sempre levava comigo.

Eu estava esgotada, e era bem mais que cansaço físico, eu me encontrava exausta de lutar... Mas lutar para encontrar meus filhos era, ironicamente, a única coisa que me mantinha de pé.

Eu só queria parar, queria que todo aquele sofrimento acabasse. Queria os meus filhos nos meus braços e então deixaríamos toda aquela merda de comunidades e salvadores pra trás...

Tomada por um misto de raiva e desespero eu fui acabando com cada um dos mortos próximos. Depois de um tempo nem sabia mais por que estava fazendo aquilo, eu só queria colocar tudo pra fora. Conforme eu enfiava minha faca nos crânios putrefatos eu deixava toda a dor ser expelida dos meus pulmões.

Não importava mais se eu tinha conhecido a maior parte daqueles cadáveres, não importava se eu estava coberta de sangue e tripas, porque meus atos não eram racionais, era só o desespero de seis meses sendo expurgado de mim.

Quanta dor alguém pode suportar e ainda ficar de pé?

No fim das contas o que eu tinha de diferente de todos aqueles cadáveres sob os meus pés?

Dei alguns passos pra trás tropeçando em um dos corpos, enquanto tentava ver se mais alguns estavam vindo, mas tinha acabado, no fim tinha sobrado apenas eu mesma, caída no meio de um monte de sangue podre.

Fique parada ali olhando para o nada por algum tempo. Você não pode desistir Natalie... Você tem que continuar, porque isso é o que você diria para os seus filhos fazerem. Levanta e vá encontrá-los. a voz do meu pai soou em minha mente, como se fosse minha própria consciência. Ele estava certo, eu não podia desistir.

Petter e Luka não desistiriam, eles se apoiariam e se protegeriam, e eu tinha que continuar convicta de que eles estavam esperando por mim, eu precisava dessa convicção, eu precisava deles.

Comecei a contar mentalmente e respirar em conjunto, até que tirei meus olhos do céu e consegui me levantar, no entanto algo entre os destroços e cinzas do meu lado direito chamou minha atenção: Era uma boneca.

Peguei o brinquedo do meio das cinzas e limpei seu rostinho manchado de fuligem, sangue e tripas, por alguma razão aquela simples boneca desencadeou em mim uma crise de choro incontrolável.

Era como se ela fosse o símbolo de toda a inocência perdida, de todo o esforço em vão que eu tinha feito por Sherwood, ela era o símbolo de todas as minhas falhas.

— Mas que cena mais comovente... — Uma voz conhecida colocou todo meu corpo em alerta.

Kane...

Eu sequer consegui ficar surpresa com a presença dele, aquele encontro só estava acontecendo porque eu mesma dei bobeira. Voltar para Sherwood naquela altura, depois de uma tarde inteira que eu havia deixado Kane para trás, era burrice. Lógico que eu acabaria dando de cara com ele ou com algum salvador.

Mas eu achei que valeria o risco. Se houvesse qualquer pista teria valido.

— Eu não pensei que seria tão previsível. Acho que eu estava errado sobre você... de novo. — Havia uma nota clara de desapontamento em sua voz, que vinha junto com algo novo, raiva.

Mas o ódio de Kane também não me surpreendia, na verdade até tinha demorado.

Apenas me coloquei de pé, analisando minhas saídas e pensando em um plano. Minha apatia nada tinha a ver com qualquer tipo de frieza, eu simplesmente estava cansada de tudo, era como se eu vivesse um ciclo infinito dos meus erros.

Kane Bennet me apontou a automática e nem isso me abalou.

— Eu te disse que isso não é pessoal. — Ergui os braços apaziguadora, eu estava exausta de toda aquela luta. — Você não devia ter vindo atrás de mim.

— Isso não é pessoal? — Ele perdeu totalmente a paciência e deu alguns passos na minha direção. — Não é pessoal Natalie?! Eu confiei em você e você me traiu! Como isso não é pessoal? Você sabe o que aconteceria comigo se você fugisse sob a minha supervisão?

Não era só aquilo, não era só pelo jogo que eu tinha destruído, tampouco por ferrar com ele perante ao Negan, tinha algo mais ali, a raiva de Kane era alimentada por outra coisa.

— Você não entende, Kane... — Suspirei pesado, eu estava cansada de machucar pessoas, eu tinha me tornado júri, juíza e executora e odiava aquilo.

Eu tinha lutado por justiça a minha vida toda, mas aquilo que eu fazia há meses não era justiça. Eu não sabia mais quem eu era...

— Então comece a explicar, porra! — A exasperação de Kane acabou por me dar um susto, porque eu estava tão inerte em mim mesma que não esperava por aquela reação.

— Eu não quero te machucar, Kane, mas eu vou, se for preciso. Não fique no meu caminho. — Tentei soar convicta, mas não faço ideia de como minhas palavras saiam.

Sim eu era capaz de fazer aquilo e encarar como verdade absoluta, me fez ver o quanto de escuridão tinha dentro de mim.

— Eu posso dizer exatamente a mesma coisa, com exceção do final onde eu diria "não tente me ferrar!" — Kane debochou da minha frase, mas não havia qualquer humor em sua voz.

Ele ainda mantinha a arma apontada na minha direção e de repente eu percebi que não me importava, eu nunca voltaria para o Santuário, mesmo que minha vida dependesse disso.

— Essa briga não vai dar em nada. Você não vai atirar em mim, então eu vou embora agora e você volta para o seu jogo no Santuário. Tenho certeza que você pode pensar em uma mentira para se safar do Negan. — Era uma aposta alta, talvez eu não tenha pensado direito no que estava fazendo.

Dei o primeiro passo, pronta para dar meia volta e o estampido da arma ecoou por toda a área que um dia fora Sherwood.

A dor veio primeiro, era como fogo queimando a minha pele, depois veio a incredulidade. Kane tinha mesmo atirado em mim? Era como se tudo acontecesse em câmera lenta. Meu grunhido de dor sequer pareceu meu.

Olhei para baixo e vi o sangue escorrendo pela minha perna esquerda, na altura da minha coxa, há um palmo do quadril.

O filho da puta atirou mesmo em mim! Perdi o equilibro por um segundo e no outro eu já estava no chão. A dor deixou todo o meu cérebro alerta.

— Mas que merda! — Ouvi Kane xingar.

O encarei por alguns segundos, pensando em como eu mataria o desgraçado, mas os grunhidos vindos da floresta atraíram minha atenção para as árvores.

Claro que o tiro atrairia os mortos das redondezas. Tinha como aquela merda ficar pior?

— Isso é o que você ganha por ser tão teimosa! — Kane chutou a faca da minha mão e me obrigou a levantar do chão, com um só braço apoiando o meu peso.

Espera ele está me ajudando? Minha mente parecia em pane com o que estava acontecendo.

— Não se preocupe, você vai ficar bem, o Doutor Carson vai dar um jeito nisso. Eu não atingi nada importante. — Eu até podia acreditar que ele estava arrependido e preocupado... se ele não tivesse acabado de atirar em mim! — Precisamos nos esconder, até os errantes darem o fora.

Eu tentei socar a fuça daquele cretino, mas ele deteve minha mão no ar, me imobilizando e praticamente me carregou pelo resto do caminho.

— Já chega, Natalie, foi prejuízo demais por um dia. — Ralhou, em voz baixa, como se eu fosse uma criança que precisa de uma bronca.

Ele entrou em uma das poucas casas e me colocou em um sofá, enquanto bloqueava a porta com outro.

Eu estava sem minha faca, então comecei a procurar por algo que eu pudesse usar como arma. Me estiquei um pouco e encontrei um pedaço de madeira no chão, era o que parecia uma perna de cadeira ou algo assim.

Fiz algum esforço pra me colocar de pé, vendo que o sangue já tinha empapado toda a minha calça, estava prestes a dar com a madeira na cabeça de Kane quando ele novamente segurou minha mão no ar.

— Mas que merda, mulher, você não desiste? — Tirou a minha arma improvisada de mim e a jogou longe. — Vamos cuidar dessa perna.

Sério que ele ia agir como se não tivesse acabado de atirar em mim?

— Você atirou em mim, eu não vou esquecer disso. — Tentei diminuir o som, conforme os errantes foram batendo nas portas e janelas.

— É eu atirei. — Ele deu três passos na minha direção e ficamos cara a cara. — Eu atirei em você e não me orgulho disso, você me traiu, me prendeu e... e eu não espero que entenda o tipo de coisa que desencadeou em mim, não importa na verdade. Eu atirei em você mesmo, pode me odiar depois que conseguirmos sair daqui vivos. Agora vai pra cozinha.

Pensei em uma resposta boa o bastante pra dar a ele, mas a dor falou mais alto. Se eu não cuidasse daquela merda eu acabaria desmaiada por falta de sangue.

Fiz o possível para chegar na cozinha sozinha, enquanto Kane me seguia de perto. Tentei encontrar qualquer coisa pra ser vir de arma no caminho, mas foi em vão.

— Senta aí. — Ele apontou a bancada de madeira no centro do cômodo, mas eu não me movi.

Kane parou também e respirou fundo, guardou arma no coldre.

— A última vez que alguém me traiu eu perdi o que de mais importante eu tinha na vida, então eu perdi a cabeça. — Ele tentou argumentar.

— Deixa eu adivinhar perdeu dinheiro, é? — Supus ácida, e Kane não respondeu.

Havia um tipo de dor em seu olhar que quase me fez sentir pena dele... quase, quem sabe se ele não tivesse atirado em mim!

— Eu não espero que acredite, ou aceite, mas eu sinto muito, de verdade. Se vale de alguma coisa, eu me arrependi assim que puxei o gatilho. — Pareceu verdadeiro, mas eu ainda estava com muita raiva pra simplesmente deixar aquilo me comover.

— Claro, afinal você já tinha puxado o gatilho mesmo... — Cheguei ao limite de todo meu sarcasmo. — Você tem noção que esse é o tipo de desculpa escrota que todo agressor usa, não é?

— É, eu sei bem... — Ele baixou a cabeça e se afastou, procurando por algo nas gavetas. — Precisamos parar sua hemorragia.

— Eu não preciso da sua ajuda. Você já fez o bastante por uma vida toda. — Tentei me colocar de pé e a dor se espalhou pelo meu corpo, como se eu tivesse levado um choque.

Kane tentou me segurar, mas eu fui mais rápida e dei um tabefe na mão dele, mancando para longe, para procurar um kit de primeiros socorros ou algo assim.

Achei linha e agulha na sala, e reparei que os errantes se jogavam contra a porta e as janelas freneticamente, talvez aquilo segurasse por um tempo, mas teríamos que ficar calados pra que qualquer outro barulho os atraísse para longe.

Felizmente Kane tinha sido "legal" o bastante e me deu um tiro de raspão, sequer havia um projetil na minha pele. Fiz o que foi possível com a linha, agulha e uns pedaços de tecido, que tirei de algumas peças de roupa, mesmo que não fosse muita coisa. Os Salvadores tinham saqueado a comunidade enquanto colocavam fogo em tudo.

Me joguei em um canto qualquer da sala, e tudo que eu queria naquele momento era um bom analgésico, ou qualquer coisa pra dor.

Kane veio logo depois, ficou de pé me olhando de longe. Ele tinha aquele olhar de quem sabe que fez merda, mas sem chances que eu perdoaria um homem que tinha atirado em mim.

— Isso é estupidez, sabe disso, não é? Não tem nada pra você aqui fora, nem mesmo aquele caipira fedido... O Santuário precisa de você, podemos vencer o Negan, e isso vai ajudar até o seu namorado idiota. — Kane começou como quem não queria nada.

Meu Deus, esse homem não desiste?

Fazia sentido ele pensar que tudo aquilo tinha sido desencadeado pela chegada de Daryl no Santuário, ele não sabia dos meus filhos, e nunca saberia.

— Isso não é pelo Daryl, nunca foi. — Preferi ser honesta sobre aquela parte, ou talvez eu precisasse me convencer de que Daryl realmente não tinha influência sobre nenhuma das minhas decisões naqueles últimos dias.

Kane deu alguns passos na minha direção e puxou uma cadeira pra se sentar na minha frente.

— Então qual é o motivo? Me diga o que está havendo e assim que suas atitudes fizerem sentido eu vou te ajudar, mas eu não posso fazer isso, quando tudo que você faz simplesmente não se encaixa. Confia em mim Natalie, eu vou ajudar você. — Disse com tanta convicção, que eu quase aceitei, quase.

A verdade é que era muita coisa pra uma pessoa sozinha aguentar, em momentos como aquele, quando tudo desmorona, tudo que precisamos é de alguém pra compartilhar nossa dor, alguém pra dizer que vai ficar tudo bem e pra debater as opções e saídas. Saber que tinha alguém lá por nós, podia sim fazer a diferença.

Mas eu já tinha feito a idiotice de confiar em um cara quando minha vida desmoronou... Confiei no Daryl quando meu pai morreu e ele me deixou sozinha quando eu mais precisava dele, ou melhor, ele me obrigou a partir e ficar sozinha, ele mesmo terminou de destruir qualquer tipo de suporte que eu tinha.

Por isso eu não confiava mais, e depois daquele maldito apocalipse era ainda pior. Mas posso ser honesta o bastante e dizer que sim, eu desejei que as coisas fossem diferentes e eu pudesse confiar no Kane, talvez se ele tivesse começado não atirando em mim...

— Eu não posso... — Respondi e ele pareceu um tanto decepcionado, mas recuperou aquela postura superior bem rápido.

— Você realmente tem problemas de confiança, não é? — Comentou em tom de brincadeira, mas ele me analisou bem demais e aquilo me deixou desconfortável.

— Você não tem? — Devolvi a pergunta, como se a falta de confiança fosse o requisito básico para sobreviver ao fim do mundo.

— Não quando se trata de você... — Kane se levantou e me deixou sozinha, enquanto eu tentava entender o que exatamente aquilo significava.

Não conversamos mais depois disso, estávamos presos dentro daquela casa e ficaríamos assim, até que os mortos resolvessem ir embora. Nesse meio tempo eu tinha que pensar no que fazer a seguir, sobre Kane querer me arrastar de volta para o santuário e sobre onde procurar meus filhos depois.

A dor na minha perna podia ser uma merda, mas me mantinha centrada e não me deixava divagar e criar hipóteses apavorantes; eles não estavam mortos, Petter tinha herdado aquele dom de se virar em uma floresta do pai, e Luka se mostrara uma sobrevivente e tanto. Eles estavam bem, estavam juntos e bem. Eu só tinha que encontrar uma pista qualquer...

Conforme as horas foram passando, comecei a lutar contra o sono, meu corpo todo parecia mole e minha cabeça latejava, a dor na perna se tornou tão constante, que era quase como se fosse parte de mim.

— Não achei nenhum remédio... — Kane me estendeu um cantil.

— Isso é porque vocês fizeram o favor de saquear tudo por aqui. — Fui rude, mas isso não pareceu afetá-lo. — Tem veneno aí dentro?

Kane revirou os olhos e me fez pegar o cantil.

— Vê se cresce, Natalie. — Copiou algo que eu costumava dizer e se afastou alguns metros.

Sacudi levemente o cantil e olhei seu conteúdo, claro que era água, mas vai saber.

— Você devia dormir um pouco, vai te fazer bem. — Kane sugeriu, me encarando de longe.

— Eu não acho que confio o bastante em você pra dormir agora, você me deu um tiro, lembra?

Não ouve resposta, e continuamos calados. Talvez eu tenha adormecido em algum ponto da madrugada, porque quando abri os olhos, a jaqueta de Kane estava sobre o meu corpo e ele dormia encostado no sofá que não escorava a porta.

Fiz o possível para me colocar de pé, levando em conta a maldita dor na minha perna, que parecia ainda pior naquele momento. Os pontos mal feitos que eu tinha dado, não aguentariam se eu forçasse muito a perna.

Me aproximei dele o mais silenciosa que pude. Kane ressonava baixinho e tinha uma expressão calma. Talvez se eu não estivesse com tanta raiva por causa do tiro, eu teria admitido pra mim mesma que ele era um homem muito charmoso.

Mas eu estava com raiva, então...

Analisei sua figura por um momento e notei a arma no coldre, preso na lateral de seu corpo. Eu só tinha que alcançar a automática e...

E então o quê Natalie? Vai matar alguém que está dormindo?

O pensamento acusatório me fez parar. Claro que eu já tinha matado pessoas, mas matar alguém durante uma luta, em uma situação em que você sabe plenamente que é questão de vida ou morte, era diferente.

Eu não seria capaz de atirar no Kane daquela forma, mesmo que ele tivesse atirado em mim primeiro. Além do mais, eu o enganei, prendi, abandonei e sujei a barra dele com o Negan, tudo isso de caso pensando, ele meio que tinha motivos pra atirar em mim...

Eu podia entender, no entanto, perdoar e aceitar era outra coisa.

Fiquei ali parada por mais um tempo, encarando o corpo de Kane adormecido no sofá e com o pensamento perdido nas coisas que eu tinha feito pra sobreviver até ali.

— Isso é estranho, mas é meio que excitante também... — A voz de Kane me alertou e eu sequer sabia que ele já tinha acordado.

— Estava pensando se te matava enquanto você dormia ou não. — Fui irônica e joguei a jaqueta na cara dele. — E toma essa merda, ela fede.

— Pelo menos você ainda estava pensando, acho que é um progresso. — Deu um sorriso presunçoso, enquanto cheirava a peça de roupa.

Talvez tivéssemos continuado aquela briga infantil, mas o barulho de um veículo, que acabou atraindo os errantes, chamou nossa atenção.

— Tem um carro parando aqui — Kane alertou o óbvio e ficamos tensos. — São Salvadores.

Observei através da cortina três homens descerem do carro: Billy, Otto e Devon, eram Salvadores de patente mais baixa, provavelmente Negan tinha mandado uma equipe por causa da nossa demora.

— Merda! — Xinguei fazendo minha mente trabalhar rápido em busca de uma solução. — Me dá a arma Kane, eu falei sério, não vou voltar para aquele lugar.

— Acho que você não tem escolha agora. 'Tá vendo aquele time? — Apontou discretamente. — Devon é um ótimo atirador, eu nunca vi ele errar; Billy é um brutamontes, você certamente não vai querer entrar em um combate corpo a corpo com ele; e o Otto é um ogro, ele não joga limpo. Então a menos que você seja a Mulher Maravilha, vamos continuar jogando pra salvar a nossa pele.

Não retruquei, claro que eu não concordava com Kane, mas precisava pensar e não podia fazer isso enquanto discutia com ele.

Observei os três Salvadores se livrarem dos errantes que nos cercavam, com facilidade e constatei que Kane estava certo sobre Devon, ele não errava uma.

Pensa, Natalie, pensa.

Vi Billy falar com alguém no rádio, chamando reforços, enquanto Kane tirava o sofá da porta. Ele quis agir como se estivesse tudo bem, e como se só estivéssemos ali seguindo o rastro de Daryl, talvez desse certo, talvez não.

Os três entraram na casa em que estávamos um tanto desconfiados e eu percebi que tinha que agir naquele instante, não haveria outra oportunidade.

— Eu estou cansada desses jogos. — Declarei, puxando a arma do coldre de Kane, em um movimento rápido, e acertando um tiro em Devon.

Bem na cabeça.

O restante dos eventos se desenrolou muito rápido. A adrenalina nas minhas veias era tanta que eu mal sentia minha perna.

Billy bloqueou a porta e Otto tentou me atingir com um tiro, mas eu me escondi atrás da parede da cozinha bem a tempo.

— Mas que merda, Natalie! Você tem que aprender a trabalhar em equipe! — Ouvi Kane gritar por cima dos tiros e vi quando ele entrou em uma luta corpo a corpo com Billy.

Otto não parava de atirar um segundo, então eu apenas esperei, munições não eram infinitas, no entanto ele usou aquela vantagem para avançar a distância restante e acabamos os dois na cozinha.

— Não banque a espertinha comigo! — Otto riu, segurando minhas mãos e fazendo o tiro que eu daria nele ricochetear no teto.

Ouvi o barulho de vidro se quebrando na sala, mas eu não podia focar naquela briga. Otto era muito mais forte que eu e minha arma voou para algum lugar no chão, quando ele me bateu meu corpo e minha mão contra a parede. Senti minhas costelas praticamente furando meu ossos, e meu pulmões reclamando por ar.

Tentei me livrar dele, usando os pés como impulso para afastá-lo, mas minha perna se contraiu de dor e o movimento foi em vão. Otto segurou nos meus cabelos e bateu minha cabeça contra a bancada da cozinha tão forte que eu vi tudo rodar.

O gosto de sangue quente invadiu meu paladar e Otto apertou meu rosto ainda mais contra a madeira da bancada, me imobilizando totalmente com seu corpo.

— Espero que Negan arrume uma bela punição pra você. Talvez ele queime esse seu lindo rostinho com o ferro... — O deboche sussurrado próximo da minha orelha me causava náuseas, mas eu percebi que conforme o corpo de Otto me pressionava em busca de me manter parada, eu podia sentir uma faça presa no seu cinto.

Fingi que estava imóvel, e simulei um choro sentido. Otto, achando que já tinha ganho aquela briga, abaixou um pouco a guarda, o suficiente para que eu alcançasse a faca e a fincasse em sua mão direita, que estava sobre a bancada.

O grito do Salvador ecoou pela casa, no mesmo momento em que reuni toda minha força para socá-lo certeiramente no nariz. Otto caiu sobre a bancada, preso a ela por causa da faca que unia a pele de sua mão com a madeira.

Usei a perna boa de impulso e subi na bancada, colocando meu joelho entre as pernas dele, em suas partes baixas, mantendo-o imobilizado por causa da dor. Continuei socando sua cara, sem parar, de novo e de novo, até que os nós dos meus dedos doessem.

Otto tentou revidar, usou a mão livre para apertar meu pescoço, mas eu girei a faca em sua mão direita e a dor deve ter tirado um pouco de sua força. Tirei a lamina dali em um movimento ágil e a finquei em seu peito. Os gritos e rosnados cessaram, ele estava morto.

Parei ofegante, a adrenalina me fazendo tremer dos pés à cabeça.

— Natalie? — Ergui a cabeça e vi Kane me encarando da porta da cozinha um tanto chocado, sua cara estava totalmente ensanguentada, seu supercilio aberto e ele tinha uma das armas do Salvadores em punho.

Nos encaramos por três segundos, sem que ninguém dissesse nada, até que ele riu.

— É, você sabe se cuidar... Parabéns, Mulher Maravilha. — Deus dois passos na minha direção e eu me coloquei em posição de ataque, por puto instinto.

Kane jogou a arma no chão e ergueu as mãos, mostrando que não queria me machucar.

— Eu. Não. Vou. Voltar. — Declarei pausadamente, entre uma respiração e outra.

— Eu sei... — Kane assentiu devagar e me estendeu a mão para me ajudar a descer da bancada.

Assim que coloquei o pé no chão, me faltou equilíbrio, eu mal consegui sentir minha perna tamanha foi a dor que se espalhou por ela. Kane me segurou antes que eu caísse.

— Você abriu os pontos. — Constatou, dando uma olhada rápida no sangue que escorria do ferimento.

— Onde está o Billy? — Questionei, desconsiderando minha perna.

— Eu não sou tão bom quanto você, mas digamos que tive sorte. — Kane me amparou até a porta da cozinha, de onde tínhamos visão da sala.

Billy estava praticamente pendurado na janela, com um pedaço enorme da vidraça transpassado em sua barriga.

Me permiti suspirar aliviada e só então percebi que todo meu corpo doía, não só minha perna, até respirar era difícil, era como se minhas costelas estivessem esmagando meus órgãos.

— O reforço que eles chamaram deve estar chegando, você sabe que as equipes de busca se dividem em times menores, que ficam sempre perto. Você tem que ir agora. — Kane colocou sua jaqueta nos meus ombros, e saiu recolhendo as armas do chão e a faca, ainda fincada no corpo de Billy.

Ele ia me deixar partir?

— Siga pela floresta, longe da estrada, eu vou atrasá-los. — Começou a falar rápido, enquanto rasgava um pedaço da blusa do cadáver e fazia um torniquete na minha perna. — Você precisa achar remédios e dar um jeito nessa perna.

— Por que quer me ajudar agora? — Perguntei, tentando entender aquela mudança.

— Eu sempre quis ajudar você, porque queria que você me ajudasse, pensei que você queria isso também. Mas já que eu não posso te fazer ficar, então eu vou te ajudar a partir. Ache um carro e saía do estado o mais rápido que puder.

Eu ainda não entendia, talvez porque estivesse acostumada a me interessar por homens que queriam decidir meu destino.

Kane segurou meus ombros antes de prosseguir, como se quisesse que eu levasse muito a sério o que ele estava dizendo:

— Não fique por perto. Negan não vai desistir de você e se ele te encontrar não vai ser bonito. Nem aquele seu namorado, ou seja lá o que ele for, vale o sacrifício. Ele e os amigos vão perder e você não vai querer estar por perto quando acontecer. Não se apaixone por um homem morto, Natalie. E o Daryl já é um homem morto.

Um arrepio estranho percorreu meu corpo, mesmo que Daryl não tivesse nada a ver com a minha fuga, talvez eu ainda me importasse o bastante para não gostar do que visualizei.

— Por que está fazendo isso? Vai ferrar tudo pra você com o Negan... — Eu não sabia se aquilo era só curiosidade, desconfiança, ou se eu simplesmente precisava saber.

— Eu não quero me apaixonar por uma mulher morta também, eu sei como é, e não é bom... O que acabou de acontecer me fez ver que você não pode ficar, porque se você ficar, vai acabar morta. Entre escolher te perder porque te vi morrer nos meus braços e te perder porque eu te deixei ir, eu prefiro a segunda opção. — Os dedos de Kane tiraram alguns frios de cabelo presos no meu rosto e eu percebi que ele estava falando sério. Ele gostava de mim.

Eu quis pedir que ele viesse comigo, mas sabia que era só o impulso do momento, Kane podia ter dado o primeiro passo na direção da minha confiança, mas ainda faltava muito para ele conquistá-la realmente. E ele tinha atirado em mim, não era algo que dava pra esquecer.

— Qual o seu plano com o Negan? Ele vai acabar com você. — Queria que Kane dissesse que fugiria para outro lugar também, não precisava ser comigo, eu não queria que fosse comigo, mas também não queria que ele ficasse lá.

— Eu vou dizer que você matou todo mundo e atirou em mim antes de ir. Simples assim. — Kane me entregou a arma e eu entendi o que ele queria que eu fizesse.

— Eu não vou atirar em você. — Fui categórica, aquilo podia ter passado na minha mente momentos atrás, mas naquele instante estava fora de cogitação.

— Eu atirei em você. — Meio que provocou, com aquele sorriso cretino que me dava vontade de socá-lo, mas não de atirar nele.

— Você disse que está arrependido. — Lembrei, ainda parada no mesmo lugar.

— E eu estou, por isso preciso que você atire em mim, isso vai equilibrar as coisas e nos deixar quites, e claro, são os detalhes que tornam as mentiras críveis... Você vai me salvar outra vez. Já é a terceira, se não me engano, mas quem está contando, não é? — Piscou, eu não entendi a última parte.

Eu não entendia parte alguma na verdade, Kane continuava agindo como se aquilo fosse um maldito jogo.

— Você é louco! Por que ainda continua esse joguinho com o Negan? — Eu queria que ele visse que ficar no Santuário ela idiotice, ele podia ir embora simplesmente.

— É o certo a fazer, além do que, ninguém me deu um bom motivo pra largar tudo isso ainda... — Deu de ombros e eu senti a indireta.

Queria poder dizer que seguiríamos juntos, como uma dupla, mas eu não podia. Não era só os meus filhos, era eu mesma, meus problemas. Depois de Daryl eu simplesmente não conseguia mais me envolver seriamente com ninguém...

— Mas é, talvez eu seja louco mesmo, as melhores pessoas são, é o que dizem. Pronta? — Kane desconversou ao ver o meu silêncio.

Ficou parado na minha frente por algum tempo, até que bateu os dedos no ombro esquerdo, me mostrando onde eu devia atirar.

— Não... — Lamentei, incapaz de erguer a arma.

— Você precisa fazer agora, Natalie, eles vão precisar me levar de volta ao Santuário ás pressas e isso vai te dar a vantagem que você precisa pra escapar. — Instruiu em voz baixa, e eu vi que realmente era a minha melhor chance, mas não ergui a arma...

Ao invés disso, o puxei para perto e o beijei, nada como aquele beijo rápido que tínhamos dado antes, um beijo de verdade, com nossos lábios se pressionando com tanta ferocidade que era quase dolorido.

Quando Kane colocou a mão entre os meus cabelos e me puxou para mais perto, eu me perguntei por que eu simplesmente não conseguia aceitar aquilo, seguir em frente com outra pessoa? Eu queria, mas era como se eu estivesse presa a outra coisa.

— Você precisa parar de me beijar quando está prestes a ir embora, isso é frustrante. — Kane riu, olhando nos meus olhos de um jeito um tanto melancólico. Era uma despedida.

— Eu odeio isso. — Confessei, sentindo meu coração doer mais que o meu corpo.

— Goste ou não essa é a realidade em que vivemos. — Jogou um pouco a cabeça de lado ao responder. Pude ouvir outro veículo se aproximando. Era hora. — Você estava certa quando disse "talvez em uma outra vida", porque, em uma outra vida, seriamos perfeitos juntos.

— É, seriamos. — Admiti, erguendo a arma, enquanto Kane se aprontava. Em uma vida em que eu não tivesse conhecido o Daryl primeiro...— Me desculpa!

Então eu atirei, vi o corpo do Kane caindo, mesmo que ele conservasse aquele sorriso nos lábios.

Tive que partir antes que fosse tarde. Me infiltrar na floresta, mancando e com dor, o tipo de dor que era física e emocional, porque o que eu tinha feito não era justo.

Eu ainda estava escondida quando o veículo dos Salvadores passou e eu só desejei que Kane estivesse bem, mesmo sabendo que aquele ferimento não o livraria da cólera de Negan.

— Talvez em uma outra vida, Kane Bennet... — Murmurei enquanto encostava em uma árvore, buscando por fôlego e coragem.

Minha perna estava sangrando de novo, e todo meu corpo parecia prestes a simplesmente desistir a qualquer momento... Foi quando eu vi, na árvore a minha frente, uma coisa que mudou tudo.

Havia um "LP" gravado na madeira e logo em cima uma coroa, eu sabia que aquelas iniciais eram "Luka e Petter" e, por ter estado no Santuário tempo o bastante para ouvir a história de outras comunidades, eu também entendi o que a coroa significava.

Eu sabia exatamente onde encontrar meus filhos, eu só tinha que permanecer viva até lá.

Notas finais
E é isso aí... Não tá fácil pra Natalie. Não tinha como ela sair do Santuário sem carregar alguma sequela e a gente ainda vai explorar esse lado. A vingança do Kane durou dois minutos, assim que ele viu a musa inspiradora dele sofrendo, ele mudou de ideia kkkkkkk (não aconselho vocês a darem lado pra um cara que agride, viu? mesmo que sem querer-querendo. Aqui tinha todo um plot pra isso, porque todo mundo mata todo mundo e é um traindo o outro, mas o Kane não é nenhum príncipe e sabemos) E por fim teve esse sacrifício do Kane pra ajudar a Natalie (amém neh Kane?) o que será que vai ser dele agora?? Quando eu falei de fim de arco, é porque a foco da história muda um pouco agora, o núcleo não e mais o Santuário e demoraremos um pouco pra ver um capitulo narrado lá de dentro. DixChechas também não vai demorar muito a se ver de novo não... E aí? Essa coroa no final, hein? Já sacaram onde os babys estão? Esse foi o último cap do ano, mas o próximo vai ser muitooooo especial, narrado por uma pessoinha muito amor. Estão prontas para conhecer o Petter? Nos vemos no próximo. Bjss e até!