Lifeline — Destiny Don't Give Up
12 Asas e Estilingues
Notas iniciais
• PETTER COOPER •
Mamãe sempre disse que era saudável brincar de faz de conta, me pergunto o que ela diria sobre o fato de eu estar vivendo em um... Porque viver no Reino é exatamente isso. Exceto que o tigre é de verdade verdadeira e isso é muito legal!
Temos um rei, por isso o nome da comunidade, mas Ezekiel é mais legal que um rei, bom na verdade eu acho, porque nunca conheci um rei de verdade, mas considerando que nas histórias eles são velhos gordos que só mandam e que não tem tigre nenhum, Ezekiel ganha de lavada.
Eu vivo no reino com a minha irmã Lucena (não chama ela assim que ela não gosta, é só Luka), mas nem sempre foi assim, sabe? Eu vivia em outra comunidade antes. Acontece que o marido da minha professora virou um super vilão, destruiu minha casa, raptou minha mãe, e eu e Luka tivemos que fugir. Longa história, sei que parece legal quando eu conto, mas na verdade foi bem assustador. Todos os meus amigos morreram...
Talvez eu e Luka estivéssemos mortos também, mas ela é uma garota teimosa que cismou em contrariar as ordens que recebemos e saiu da casa onde deveríamos estar, eu acabei saindo atrás dela e isso salvou nossas vidas.
Fugimos depois de ver minha mãe sendo levada, ela prometeu que nos encontraria, e eu sei que vai fazer isso, porque minha mãe sempre cumpre suas promessas.
Acabamos no Reino depois que um homem chamado Richard nos encontrou, claro que a Luka não confiou nele de cara, afinal é a Luka, mas depois de o seguirmos até aqui e espionarmos por alguns dias vimos que o lugar era mesmo seguro, e o melhor, Negan não aparece aqui.
Quer dizer ele ainda manda no Reino e faz os moradores darem coisas pra ele, mas Ezekiel não conta isso pra ninguém e os Salvadores não podem entrar na comunidade.
Deixamos uma mensagem em uma árvore pra minha mãe, uma que os Salvadores não entenderiam, afinal eles não conhecem a Luka, Negan nunca a viu e acha que minha mãe só tem euzinho de filho.
Então esperamos, afinal qualquer outra coisa poderia piorar a situação...
A única coisa que eu podia fazer enquanto isso era treinar minha mira e me tornar o melhor matador de zumbis de todos os tempos.
Preparei o estilingue e respirei fundo, então esperei o feioso ficar na mira... Estava usando bolinhas de gude naquele dia, talvez, se os zumbis não fossem cadáveres podres eu não conseguisse resultado com esse tipo de munição, mas já que são...
— Robin...
Na mosca! Eu sou muito bom com o meu estilingue!
— Robin!! — Só então percebi que tinha alguém me chamando. Era o Henry, um dos amigos que fiz no Reino.
E sim, por aqui eu me chamo Robin, Robin Davis. A mudança de nome foi ideia da Luka, ela pode ser meio paranoica às vezes, mas até que foi esperto, nenhuma precaução é demais quando se trata da segurança da mamãe.
Escolhi Robin por causa da conexão de Robin Hood com Sherwood, e não por causa do Robin do Batman, só pra constar.
— Achei que não pudesse ficar aqui nos muros. — Henry comentou assim que desci, dando um salto no chão.
— Não posso. Mas o que a Luka não sabe, não deixa a Luka brava. — Respondi, caminhando ao lado dele.
— Sei... — Henry não me deu muita credibilidade. — Estamos atrasados pra aula dela. Melhor correr.
— Tenta me alcançar então! — Gritei, correndo na frente.
Desnecessário dizer que eu ganhei, certo? Afinal eu sempre ganho, mas quando chegamos no gramado, onde Luka sempre dava suas aulas e onde ela já esperava junto com o resto do pessoal, eu percebi que ganhar não me livraria da bronca.
— Oi... — Acenei, com o melhor sorriso que eu tinha, enquanto Henry parava ao meu lado ofegante.
Luka olhou de mim para o meu amigo, com a desconfiança estampada na cara.
— Estão atrasados. — Começou, medindo as nossas reações.
— É que o mundo acabou, sabe? Os relógios meio que caíram em desuso. — Abri ainda mais o sorriso e dei de ombros como se não fosse nada.
Luka revirou os olhos e respirou fundo.
— Você estava nos muros, não é? — Acertou de primeira. Luka sempre acertava, às vezes era como se ela lesse meus pensamentos.
— Bom... é... — Tentei desconversar, mas eu sabia que era inútil. — Eu estava?
Saiu meio que como uma pergunta, ao mesmo tempo que eu fazia uma careta arrependida.
— Já conversamos sobre isso, lembra? Nada de ficar nos muros, você pode cair, quebrar uma perna, ser devorado por um zumbi... — Ela foi me puxando para longe das pessoas enquanto falava, antes de sussurrar a última parte — Ou pior, você pode ser visto.
Ser visto pelos Salvadores colocaria tudo a perder, mesmo que eles respeitassem o acordo de se manter nos limites do Reino, nunca dava para ter certeza. Ser visto colocaria todo mundo ali dentro em risco, além de prejudicar minha mãe.
— Desculpa... — Pedi, fazendo minha melhor carinha de "cachorro que caiu da mudança".
Geralmente funcionava com a minha avó, mas Luka era mais difícil de dobrar. Ela só respirou profundamente e fez um movimento displicente com a mão.
— Vamos começar essa aula logo. — Voltou para o centro do gramado.
Luka ensinava defesa pessoal para os mais jovens. Ela era boa naquilo e isso não tinha nada a ver com o apocalipse.
Um pouco depois que ela chegou em casa mamãe a colocou nesse tipo de aula, para que ela se sentisse mais confiante e segura, depois disso, ela passou para o boxe e outros tipos de luta. Minha mãe gostava de mantê-la ocupada.
Eu era um escoteiro e Luka uma guerreira, éramos a dupla perfeita naquele mundo destruído.
Estávamos quase no fim da aula, quando vi Richard passar com um pessoal estranho. Notei que Luka os seguiu com os olhos também, mas não havia nada que podíamos fazer naquele instante.
Ela deu nossas atividades por terminadas um pouco depois disso. E eu vi que Benjamin já esperava ali por perto.
Benj era o irmão mais velho de Henry, ele estava sempre perto do Rei e até que era legalzinho. Mas aparecia muito nas aulas da Luka e eu sabia que isso não tinha nada a ver com o irmão dele.
— Então, como Henry está se saindo?
Era impressionante a falta de criatividade do Benj, quer dizer, todos os dias ele pegava o Henry na aula, todos os dias ele fazia a mesma pergunta. Gostaria que a Luka respondesse "ele está do mesmo jeito que estava ontem", mas acho que ela era educada demais pra isso.
— Ele está se saindo bem. Henry é um bom aluno.
Às vezes eu me perguntava por que aquela conversa tonta dos dois tinha sempre aquele clima estranho...
─ Aposto que é porque você uma ótima professora... ─ Benjamim elogiou e eu posso jurar que vi Luka ficar corada. ─ Você é bonita.
Benj arregalou os olhos como se tivesse acabado de falar uma besteira e Luka prendeu a respiração. Eu segurei o riso, como todo bom irmão faria.
─ Quer dizer... é... o que você ensina é bonito, sabe? Ahn... Você ensina as pessoas a se defenderem e isso é bonito, era isso que eu estava falando, não de você. ─ Ele se apressou em corrigir e se atrapalhou totalmente com as palavras. Minhas bochechas estavam quase explodindo de tanto segurar o riso. ─ Quer dizer, não é que você não seja bonita, é só que...
Eu juro que não fui eu, foi o Henry que começou a rir primeiro e acabou fazendo o irmão dele se calar, eu só o acompanhei na risada, afinal que tipo de pessoa horrível eu seria se deixasse meu amigo rindo sozinho?
Luka nos lançou um olhar mortal e nos calamos no mesmo instante, porque Benj podia até ser inofensivo, mas a minha irmã... bom, digamos que não é inteligente arrumar briga com Lucena Davis.
— Mas então... — Ela desconversou, como se buscasse alguma normalidade para o clima que tinha ficado. — Com foi seu treinamento com o novato?
— Morgan? — Benj entrou na conversa com entusiasmo demais. — Ah, ele é ótimo, eu estou ficando muito bom com isso. — Rodopiou o bastão na mão. — Acho que em breve eu até posso vencer você em uma disputa.
O que?? Jamais! Somos Coopers, nunca quebramos uma promessa e sempre ganhamos qualquer desafio. E sim, tecnicamente a Luka tem o sobrenome Davis, por causa de algum tramite legal que eu nunca entendi, mas ela é uma Cooper. Ninguém ganha dela!
— Ah, mas não mesmo! Não importa se você está sendo treinado pelo Mestre Yoda, minha irmã é a melhor, você não teria chances. Nunquinha! — Acabei me metendo na conversa dos dois, que automaticamente voltaram seus olhares pra mim. Opa, acho que me dei mal...
Abri o meu melhor sorriso e dei um passo para trás, antes que alguém resolvesse puxar minhas orelhas, mas, ao invés disso, Luka tombou a cabeça de um lado para o outro, como se pensasse e por fim assentiu com um sorriso.
— Na verdade o Robin está certo mesmo. Você não teria chances contra mim, Benjamim. — Ela declarou, com um sorriso de canto.
Isso! Isso! Bum, Toma! É assim que se aceita um desafio!
Benj sorriu, não um sorriso do tipo "eu aceito o desafio", ou um sorriso do tipo "você só pode estar brincando", na verdade eu nem sabia que tipo de sorriso era aquele, mas eu sabia que não era o que devia ter acontecido.
— É, eu não teria chances mesmo...
Ele continuou com aquele sorriso idiota e por algum motivo mais idiota ainda Luka fez a mesma coisa. Então os dois ficaram se olhando como se fossem protagonistas daqueles filmes melosos que passavam na TV às vezes.
Que decepção, Lucena. Que decepção...
Felizmente aquela melação foi interrompida por Morgan, que chamou Benjamim para uma reunião com o Rei. Pelo visto, as pessoas estranhas que eu tinha visto antes estavam ali para aquilo.
Assim que ficamos sozinhos, eu puxei Luka para um canto e me certifiquei que não tinha nenhuma pessoa ouvindo.
— Viu aquelas pessoas novas? — Perguntei em um sussurro.
— Vi, acha que são homens do Negan disfarçados? — Luka sempre pensava no pior primeiro, podia soar como paranoia, mas estávamos vivos por causa dela, então eu aprendi a nunca subestimar sua desconfiança.
— Não, sei. Mas tem um jeito de descobrir... — Sugeri, mesmo sem falar abertamente e claro que minha irmã captou minha ideia no ar.
— Não. Nada disso. Você não vai bancar o pequeno espião! — Ela advertiu bastante séria e eu deixei meus ombros caírem.
— Qual é, Luka? Você entende que saber das coisas em primeira mão é fundamental para a nossa sobrevivência, você mesmo disse isso. Além do mais, e se eles falarem qualquer coisa sobre a mamãe?
Luka ponderou, mas não pareceu convencida.
— Eu posso ouvir tudo escondido e se me pegarem, eu sou só uma criança travessa, ninguém desconfia do menino de dez anos... — Argumentei e ela revirou os olhos.
— Por que eu sempre deixo você me convencer das suas loucuras?
— Por que minhas ideias são fantásticas e você me ama, ué! — Respondi animado e ela negou algumas vezes.
— Tome cuidado, é sério. — Advertiu e, por um instante, pareceu a mamãe.
— Eu sempre tomo. — Garanti, antes de sair correndo.
Não foi difícil conseguir acesso ao auditório, afinal Jerry não estava fazendo a guarda do lado de fora. Entrei pela parte traseira e fiquei ali escondido, aproveitando que as cortinas me ocultavam e me davam uma boa vantagem.
O Rei Ezekiel estava com Shiva no palco, sentado em seu "trono" (na verdade era só uma cadeira chique, mas tudo bem), ao lado direito dele estavam Benj e logo depois Jerry, enquanto Richard estava do outro lado.
Então, finalmente, pude ver os forasteiros melhor: Paul Rovia, um cara que já tinha estado no reino antes e eu sabia que era de uma comunidade chamada "Hilltop", estava mais perto do palco, enquanto os outros pareciam manter uma distância segura.
Logo atrás de Rovia estava um homem cabeçudo, que foi apresentado como Rick Grimes de Alexandria. Também havia uma mulher de dreads, com o que parecia uma espada nas costas; um garoto cabeludo com chapéu de xerife e um curativo enorme no olho ─ Essa gente é estranha... ─ e mais duas mulheres, além de outro homem com cabelos cumpridos ─ e bem sujos também.
Pelo que eu entendi, eles eram de outra comunidade que tinha problema com os Salvadores e estavam ali porque queriam a ajuda do Reino para combatê-los.
Alguém avisa eles que a gente já tentou isso e não deu certo.
Também eram amigos, ou ao menos conhecidos, do Morgan e eu sabia disso pois uma das mulheres estava falando com ele sobre as mortes que tinham ocorrido.
─ Os Salvadores tinham levado o Daryl também, mas ele escapou...
Daryl? Não, não pode ser... Perdi parte da conversa quando minha mente seguiu seu próprio rumo: Um nome que eu li em um diário no qual eu não podia ter mexido.
Para com isso Petter, é só um nome, muitas pessoas têm esse nome, não seja paranoico, essa é a função da Luka, não sua.
Tentei focar na conversa, mas o cara com a cabeça do tamanho de uma melancia estava contando uma história qualquer e eu não consegui prestar atenção.
Acontece que "Daryl" era exatamente o nome do meu pai. Minha mãe não falava muito dele, apenas detalhes e algumas histórias, sobre como ele gostava de caçar ou sobre a besta dele... Ela costumava dizer que meu pai era um homem bom, mas que tinha passado por uma infância difícil e que isso deixava marcas, por isso ele era um homem complicado.
Ela contou que o amava muito, mas que, às vezes, isso não é o bastante e os dois seguiram rumos opostos. Ela nunca explicou exatamente porque eu não podia conhecê-lo, quer dizer, eu entendia que eles não estavam juntos, mas eu tinha muitos amigos possuíam pais separados e podiam conviver com os dois.
Mamãe disse que me contaria tudo quando eu fizesse dez, ela prometeu isso quando eu fiz sete, mas depois teve a doença, ela chegou a dizer que estávamos indo para a Geórgia, onde eu sabia que meu pai morava, mas nunca chegamos até lá. Então, quando eu finalmente fiz dez, ela já tinha sido levada.
Ela me contava coisas dele sempre que eu perguntava, nada que envolvesse o relacionamento dos dois, nem o fato pelo qual ele não estar com a gente, mas ela contava sobre o irmão maluco dele, sobre a moto e coisas assim...
Mas ela nunca disse o nome dele, eu perguntei, claro, mas minha mãe era jornalista e me conhecia melhor que todo mundo, ela sabia bem que eu só queria o nome pra procurar pistas na internet, e eu queria mesmo, por isso mexi nos diários antigos dela e encontrei o nome "Daryl Dixon", infelizmente minha investigação deu em coisa alguma. Talvez eu não servisse pra ser agente do FBI (em minha defesa eu melhorei bastante depois dos oito).
O mais lógico era que não fosse o meu pai, apenas um Daryl qualquer. Resolvi voltar minha atenção para a conversa bem quando o Rei Ezekiel disse que pensaria no assunto, e que daria resposta pela manhã.
Saí correndo pela lateral, a tempo de chegar na frente do auditório quando eles saiam. Eu precisava de mais respostas.
— Oi! — Acenei amigável, surgindo na frente deles.
— Hey, Robin... — Morgan respondeu, olhando ao redor. — De onde você saiu?
— Daqui. — Dei de ombros, usando uma resposta que sequer era uma resposta de verdade. As vezes ser criança era minha maior vantagem. — E quem são os novatos?
— São visitantes para o Rei. — Morgan respondeu apoiado em seu cajado, que pra mim mais parecia um cabo de vassoura. — Pessoal esse é Robin Davis, ele vive aqui com a irmã.
O grupo acenou pra mim, mesmo que não parecessem muito no clima de fazer amizades, na verdade o tal Daryl nem se deu ao trabalho de me encarar. Já disse que essa gente é estranha?
— O que acha de me ajudar a achar uns dormitórios para o pessoal, hein, Robin? — Às vezes Morgan me tratava como se eu tivesse cinco anos, mas preferi ignorar aquilo e assentir me fazendo de solícito. — Ótimo, você fica com essas duas senhoritas aqui... — Apontou as moças morenas. — E com o senhor Dixon.
Eu sabia! Fica calmo Petter, fica calmo Petter... Não funcionou, quando o homem que eu tinha acabado de descobrir que se chamavam realmente Daryl Dixon me encarou, eu estava todo duro e com os olhos arregalados.
Eu tinha imaginado ficar cara a cara com o meu pai mil vezes, mas nenhumas das minhas histórias imaginarias tinha uma cena como aquela. Não era um bom jeito de começar. Não mesmo. Então eu fiz a única coisa que um garoto de dez anos podia fazer em uma situação como aquela: Eu fugi.
— Acho que eu ouvi alguém me chamar. — Apontei uma direção qualquer. — Boa sorte com os dormitórios. Tchau!
Eu já estava metros longe enquanto acenava e pude jurar que vi o cabeça de melancia rindo de mim.
Quando eu finalmente cheguei no dormitório que dividia com a minha irmã, ela, como esperado, estava andando de um lado para o outro no limite da preocupação.
— O que aconteceu? Você está branco feito um fantasma, Petter, o que houve? Pegaram você? Pior, os Salvadores estão aqui? Diz alguma coisa, menino! — Ela despejou todas as perguntas de uma vez só, e eu teria respondido depois da primeira, mas ainda estava meio chocado pela minha descoberta.
— Meu pai está aqui! — Falei de uma vez, e senti minhas mãos tremerem. Eu nunca tinha estado tão perto dele em toda a minha vida.
— Que? — Luka parou, visivelmente confusa.
— Ele 'tá aqui... — Repeti, meio perdido no significado daquela informação.
E foi quando a ficha finalmente caiu, meu pai estava ali, bem pertinho, ele queria lutar, e podíamos fazer isso juntos. Podíamos salvar a mamãe.
— Meu pai 'tá aaquiiiiii! — Comemorei, sacodindo o braço de Luka, mas não tinha qualquer empolgação no rosto dela.
Então eu tive que contar tudo que tinha acontecido, as pessoas estranhas, o nome do meu pai, o fato de eu ter lido o diário da minha mãe, e também sobre ele ter sido um prisioneiro do Negan. Falei tão rápido e sem pausas que eu mal conseguia respirar entre as palavras.
— ... E agora que ele está aqui, podemos parar de nos esconder e contar tudo pra ele, tenho certeza que ele vai ajudar a gente, e vamos vencer o Negan, e talvez a gente possa até reconstruir Sherwood, sabe? Vai ser legal, vamos ficar juntos e vamos...
— Petter. — Luka segurou os meus ombros, me fazendo parar de falar, ela ainda não parecia nada empolgada ou feliz com a novidade.
— Por que você não está feliz? — Questionei, me desvencilhando dela e franzindo as sobrancelhas.
Tinha algo de estranho ali, eu só não conseguia entender o que exatamente.
— Eu só acho que você devia desacelerar um pouco. — Luka usou um tom que me deixou ainda mais desconfiado. — É só um nome, pessoas tem nomes iguais, você pode ter lido errado no diário, pode... pode ser um monte de coisa, não temos certeza de nada. Quer mesmo acabar com o nosso disfarce por causa de uma suspeita?
— É ele, eu estou falando pra você! — Respondi de imediato, reunindo toda a convicção que um garoto de dez anos podia reunir.
Lucena deu um passo para trás e pareceu desconfortável, ela tinha aquela mania de esfregar os dentes uns nos outros quando ficava inquieta, ou quando algo a estava incomodando. Levou vários segundos até que finalmente se pronunciasse:
— E se você estiver errado?
— E se eu não estiver? — Retruquei prontamente e ela suspirou contrariada.
— Vale o risco? Além do mais, eu acho que se... — Era quase como se Luka estivesse brava, e eu não conseguia entender. Ela devia estar feliz por mim... — Deixa pra lá. A única coisa que você tem que pensar é se vale mesmo a pena arriscar não só a nossa segurança, mas a da sua mãe, por causa da sua desconfiança. Está pronto pra arcar com as consequências das suas atitudes, se contar tudo pra ele?
Não era justo, ela estava jogando um monte de dúvidas em mim. As irmãs mais velhas não deviam apoiar?
Às vezes eu desejava que Luka não fosse tão paranoica com a nossa segurança, e eu realmente achava que muita coisa era exagero dela, mas não dava pra negar que era exatamente aqueles pontos da personalidade da minha irmã que tinham servido para nos manter vivos até ali.
Decidi que não tomaria qualquer decisão antes de ter uma prova. Quer dizer, se o problema era que podiam existir dois Daryls Dixon por aí, então eu tinha que provar que o que estava no Reino era meu pai e tudo se resolveria, certo?
No entanto, não vimos os novatos de noite, por isso, logo no início da manhã seguinte, fiquei atento para qualquer conversa do Rei Ezekiel com eles e descobri que não tinha acordo, o Reino não entraria em combate com os Salvadores, o que era bom até certo ponto, afinal não teríamos que ir embora. Mas, ao mesmo tempo, qualquer chance de aquilo acabar logo ficava fora da nossa zona de decisão.
E por outro lado era péssimo, meu suposto pai iria embora com o grupo dele, e qualquer chance que eu tinha de descobrir a verdade iria embora com ele.
Mas felizmente Ezekiel estava, mesmo sem saber, jogando no meu time e ofereceu refúgio ao Daryl. Ele ficaria no Reino, afinal estava sendo procurado pelos homens do Negan.
Eu ainda estava pensando se Luka estaria mesmo certa, quer dizer, normalmente ela estava, sabe, mas eu não podia dar o braço a torcer antes de, pelo menos, tentar ter certeza. Por isso coloquei um plano muito inteligente em ação...
Verdade que eu não sabia muito sobre o meu pai, mas eu sabia o básico, então podia fazer alguns testes. E já tinha o plano perfeito.
Me aproximei de Richard enquanto ele mexia em algumas armas, ele sempre estava cuidando desse tipo de coisa, como se precisasse desesperadamente lutar e, naquele dia, isso era uma boa coisa pra mim.
— Oi Richard, que está fazendo de bom? — Perguntei inocentemente.
— Nada demais, só cuidando de deixar essas armas prontas. — Comentou, sem parar seu serviço e eu vi o que queria bem ali em cima da bancada.
— Isso é uma besta? — Apontei dando uma de criança curiosa e enxerida (o que na verdade eu era mesmo, embora naquele momento fosse só fingimento).
— Sim, sim. Um dos vasculhadores achou em uma ronda, talvez seja útil pra alguém, embora o pessoal prefira a leveza de um arco e flecha ou a facilidade de uma arma. — Explicou amigável. Richard gostava de mim, talvez ele tivesse um lado paterno aflorado, ou talvez eu simplesmente fosse uma criança irresistível mesmo.
Era isso que a vovó dizia, pelo menos.
— Fiquei sabendo que o forasteiro novato é muito bom com uma dessas... — Comentei como quem não quer nada.
— Como sabe disso? — Richard me observou entre desconfiado e surpreso e eu soube que era hora da evasiva.
— Um bom jornalista nunca revela suas fontes, só transmite a informação. — Usei uma das frases da minha mãe e abri meu sorriso mais inocente. — Tenho que ir, acho que ouvi a Luka me chamar. Tchau!
Depois disso me restou esperar e seguir Richard de longe, pra ver se ele mordia a isca. Não sei bem o que aconteceu, mas acho que ele usou minha informação para benéfico próprio, afinal ele realmente deu a besta para o Daryl, mas o arrastou em alguma missão. Infelizmente eu não estava perto o bastante para ouvir a conversa, então tive que esperar.
Porém ele estava com a besta, e realmente parecia ter familiaridade com a arma, então isso queria dizer alguma coisa, certo? Quer dizer, dois Daryls Dixon que usam uma besta espalhados por um mundo destruído seria coincidência demais, não é?
Ele é meu pai. Ele é sim!
Fiquei esperando escondido do meu lugar estratégico dos muros, mas nada de nenhum dos dois chegar. Eu já estava mais que impaciente, quando Richard apareceu ao longe.
Até que enfim.
Mas logo que ele acenou para que abrissem os portões, percebi que tinha algo errado. Richard estava sozinho e totalmente arrebentado.
Saí correndo ao encontro dele. Sentindo meu coração bater tão rápido que era quase como se eu estivesse tendo um treco.
— O que aconteceu? — Perguntei, sem me importar em como aquilo pareceria aos olhos de Richard.
— Coisa de adulto. — Devolveu, passando por mim. Ele estava bravo.
— Cadê o forasteiro? — Cadê meu pai??? Fala logo!
Meu Deus, será que uma criança de dez anos pode morrer de infarto?
Me coloquei na frente de Richard, praticamente exigindo uma resposta, no que ele acabou revirando os olhos.
— Aquele ingrato está por aí na floresta, logo deve estar de volta. Não tem necessidade de se preocupar com ele. — Respondeu, claramente desgostoso.
— Eu não estou preocupado... — Fingi, dando de ombros, enquanto meu interior suspirava de alivio. — Eu sou apenas um garoto curioso, só isso.
— A curiosidade matou o gato, Robin. Fique longe de encrenca. — Advertiu, me deixando pra trás e seguindo, provavelmente, para a enfermaria.
Acho que não gosto mais de você tanto assim... Cruzei os braços e fiquei vendo Richard seguir mancando.
Depois disso eu me afastei, e sim, eu juro que tentei ficar lá bem quietinho nos muros, esperando pacientemente. Mas não deu certo, e quando me dei conta, eu já tinha saído por uma brecha escondida e estava caminhando na floresta com nada mais que o meu estilingue.
E se o meu pai estivesse ferido, não é?
Sempre fui bom em andar na mata, depois do fim do mundo fiquei ainda melhor, mamãe me ensinou o que sabia e eu aperfeiçoei minhas habilidades. Por isso não foi difícil achar uma trilha pra seguir.
Eu estava em um caminho tranquilo, quase não haviam zumbis por ali, porque a patrulha do Reino estava sempre limpando a área.
Após alguns minutos de caminhada, acabei encontrando meu pai, fiquei observando de longe por um tempo. Ele estava bem, parecia em busca de algo.
Estávamos perto da estrada e eu percebi que ele parecia irritado com alguma coisa.
Claro que eu podia ter voltado, afinal Luka não sabia da minha saída e eu já tinha me certificado que Daryl estava bem, mas aquela era uma oportunidade que eu não podia perder. Então me aproximei por entre as árvores.
É agora ou nunca, Petter. Tenha coragem.
— Oi. — Cumprimentei, com um aceno tímido.
Daryl se virou bruscamente, com a besta em punho e apontada para mim. Então olhou ao redor e pareceu confuso, mas abaixou a besta vagarosamente.
— Eu não ouvi você chegando. — Declarou, em uma voz rouca com sotaque levemente puxado. Era mais uma nota pessoal, do que algo dito para mim.
Eu estou falando com meu pai. Socorro! Respira Petter, e vê se não estraga tudo.
— É porque eu sou muito bom em andar na floresta. Eu era escoteiro mirim e você? — Sorri, tentando puxar um assunto.
Ele olhou ao redor e depois de volta para mim, como se não soubesse exatamente como agir.
— Você devia estar aqui fora sozinho, garoto? — Perguntou, colocando a besta nas costas.
— Eu não estou sozinho. — Afirmei como se fosse óbvio e Daryl olhou ao redor pela terceira ou quarta vez. — Estou com você.
Ele franziu as sobrancelhas e depois negou algumas vezes, antes de dar alguns passos pra frente e pra trás como se buscasse o que dizer.
— Você devia voltar, sua mãe deve estar preocupada...
Dei alguns passos para mais perto e acabei por ficar na sua frente, o olhando de baixo, por causa na nossa diferença de altura.
Aquele era o momento, minha deixa para contar tudo, mas eu simplesmente não soube como começar, e nem se devia começar...
Quer dizer, sim, ele era meu pai, isso estava bem claro na minha mente, mas eu estava com medo. Eu não sabia se aquele era o jeito certo de falar as coisas.
Como dizer pra um homem que você não conhece, que ele é seu pai?
Foi então que eu tive uma grande ideia: Eu precisava fazer com que Daryl virasse meu amigo, afinal podemos contar qualquer coisa para os nossos amigos. E então, depois que ele gostasse de mim, não tinha mais como voltar atrás, certo? Quer dizer, mesmo que eu revelasse que era um filho que ele nunca viu na vida, ele não me rejeitaria, porque já teria se apaixonado pela minha carinha fofa...
Era o plano perfeito, ou pelo menos eu esperava que fosse.
— Eu não vivo com a minha mãe no Reino. — Disse parte da verdade, esperando a brecha para continuar, se ele perguntasse eu não mentiria, é claro. A gente não mente pra família, isso é errado.
— Entendi... — Ele pareceu com pena de mim por um momento. Eu não precisava que ele sentisse pena, não era isso que eu queria. — Sinto muito, mas você devia voltar mesmo assim. Eu estou ocupado.
Daryl desviou de mim, e continuou andando. Só então eu realmente parei pra me perguntar o que estava acontecendo ali e, depois de juntar as peças de um jeito coerente, resolvi continuar a segui-lo pra testar minha teoria.
— Você está procurando pela mulher do cabelo curtinho, não é? — Perguntei, tendo que correr um pouco para alcançá-lo.
A tal mulher havia chegado junto com Morgan no Reino, à primeira vista pareceu inofensiva, mas Luka me mandou ficar longe dela, disse que havia algo suspeito sobre tudo aquilo.
Presumi que se Morgan era amigo do Daryl, a mulher também era.
— Como você sabe disso? Aquele cretino te mandou aqui pra rir de mim depois de ter me dado a localização errada? — Ele estava bravo, e eu dei um passo para trás por puro instinto, e Daryl fez o mesmo quando percebeu minha reação.
Nos encaramos por três segundos, até que eu decidi que o temperamento dele não tinha nada a ver comigo, e resolvi continuar.
— Não... Richard deve estar bem ocupado da enfermaria agora. — Dei de ombros — Mas eu sou um garoto esperto: Você é amigo do Morgan, o Morgan era amigo daquela mulher...
Mostrei minha linha de raciocínio, e embora Daryl tenha parecido convencido, não me deu muita bola.
Ele apenas deu alguns passos para trás e saiu andando como se não precisasse ouvir o fim do que eu estava dizendo.
O segui por mais algum tempo, mas percebi logo que ele não era do tipo que gosta de conversa. Tudo bem... Todo mundo tem seus defeitos, não é?
— Eu sei onde ela mora. — Revelei e Daryl finalmente me deu atenção. — Posso te levar lá.
O paradeiro da mulher não era nenhum segredo, principalmente porque o Rei tinha deixado todos de sobreaviso, como se quisesse proteger a moça.
— Ou você pode me dizer onde é e eu vou sozinho. — Daryl retrucou arisco.
Como é que eu faria amizade com alguém que era praticamente a personificação do Grinch?
Respirei fundo e revirei os olhos, estava na cara que não seria fácil, mas tudo bem, eu não era do tipo de garoto que desistia.
— Não, não. Melhor eu te levar. Sou péssimo explicando as coisas. — Declarei com naturalidade.
Okay, aquilo não era bem verdade, porque eu era sim bom em explicar coisas, mas, às vezes, você tem que contar uma ou outra mentirinha branca para o bem da outra parte. Como da vez que eu tive que dizer para o meu amigo Mike que o Papai-Noel tinha deixado aquela bicicleta para ele, quando na verdade eu sabia desde os cinco que não tinha Papai-Noel nenhum.
— Achei que você fosse um garoto esperto... — Devolveu desconfiado e um tanto debochado.
Touché! Mas aquela resposta era um bom primeiro passo na nossa amizade, então eu sorri e tomei a dianteira.
— E eu sou. — Respondi simplesmente, me virando para trás por um segundo. — Você vem, ou não?
Daryl bufou e mesmo que parecesse contrariado começou a me seguir. Achei engraçado, os adultos não costumavam bufar daquele jeito.
Enquanto andávamos pela floresta eu descobri algumas coisas interessantes sobre o meu pai. Primeiro: Ele não gostava de conversa, o que era uma desvantagem pra mim, afinal eu adorava falar. Segundo: Ele era muito bom naquilo, e eu não falo só em andar na mata, ele era realmente bom em caçar, porque naquele curto espaço de tempo encontrou três esquilos que não tiveram a menor chance de escapar de suas flechas.
— Então, onde aprendeu a usar a besta? — Tentei puxar assunto pela décima vez.
— Eu já usava antes. — A resposta foi como todas as outras, curta e seca.
Mas eu não me importei, tinha sido complicado fazer amizade com Luka também, ela tinha aquela mania de respostas monossilábicas no começo. Foi quando mamãe me ensinou que cada pessoa tem seu próprio tempo e que temos que respeitar isso, ela disse que aos poucos Luka cederia, e isso realmente acabou acontecendo.
Então eu sabia que, cedo ou tarde, eu e meu pai seriamos grandes amigos, assim eu poderia contar qualquer coisa pra ele. Era um plano sem falhas.
No entanto, tive que deixar minhas divagações de lado, quando três zumbis saíram de sei lá onde (sério, às vezes era como se aquelas coisas brotassem do chão).
— Fique atrás de mim. — Daryl mandou, colocando o corpo na frente do meu. — E não ouse correr pela floresta.
Pensei em perguntar por que eu faria uma estupidez daquela, mas não era hora para perguntas, mamãe sempre me instruiu a nunca baixar a guarda quando tivesse mortos por perto.
Além disso, eu não queria mesmo impedir meu pai de me proteger.
Ele cuidou dos dois primeiros tão rápido, que se eu tivesse piscado teria perdido. Quando estava a armando a besta para o terceiro, um desgarrado surgiu pela esquerda, perto demais para que fosse seguro. Antes que Daryl tivesse tempo de se virar, o corpo do zumbi na estava no chão, eu o tinha atingido certeiramente com o meu estilingue.
Daryl se virou no momento em que o cadáver espatifou no chão, então olhou na minha direção e novamente para o cadáver, assentindo algumas vezes.
— Belo tiro. — Comentou, retirando as flechas dos outros dois.
Meu pai acabou de me fazer um elogio! Engole essa, mundo! Eu teria feio uma dancinha da vitória, mas seria uma coisa estranha naquele momento. O importante é que aquilo era o primeiro passo para nossa amizade verdadeira e duradoura.
— Isso são bolinhas de gude? — Perguntou, depois de analisar a cena por alguns segundos.
— São sim. — Comecei empolgado, enquanto voltávamos a caminhar. — Às vezes eu uso pedrinhas também, mas geralmente os vasculhadores encontram bolinhas de gude por aí e não tem utilidade pra elas, então...
— Engenhoso.
Eu não me importava mais com as respostas curtas. Minha mãe fazia panquecas horríveis, mas eu a amava mesmo assim, podia amar meu pai mesmo que ele tivesse aquele jeitinho de Grinch.
Estendi meu estilingue pra ele, que pareceu realmente interessado.
— Minha mãe me deu esse, porque, você sabe, com os caseiros eu não conseguiria derrubar mais que alguns pássaros e uns zumbis muito podres. Esse é mais potente. — Expliquei, saltitando um pouco enquanto caminhava ao lado dele.
— Você é um garoto esperto mesmo. — Daryl me devolveu o estilingue e eu sorri o maior sorriso da vida, maior até do que quando ganhei minha última medalha de escoteiro.
Depois disso continuamos caminhando em silencio, eu sabia que estávamos perto.
De repente algo importante passou pela minha cabeça: por que Daryl estava tão interessando em ir atrás dela?
— Ela é sua namorada? — Perguntei, logo que o pensamento surgiu na minha mente.
— Como é? — Daryl agiu como se tivesse levado um tapa inesperado na cara.
— A mulher do cabelo curto... é sua namorada? — Repeti, realmente interessado na resposta.
Quer dizer, não que eu tivesse qualquer esperança de que meu pai e minha mãe ainda pudessem formar um par, ou qualquer coisa assim, eu só.... (Mentira, eu tinha esperanças sim, tinha todas as esperanças)
— Não... — A primeira resposta veio meio incerta, até que Daryl pareceu entender o que a pergunta significava e foi mais enfático. — Não! Por que essa pergunta estranha?
— Eu sou um garoto curioso. — Dei de ombros e agi naturalmente.
— Percebi... — Ele me encarou como se eu fosse um tanto louco.
Finalmente saímos da mata e eu avistei nosso destino do outro lado da rua.
— Ela mora ali. — Apontei e parei onde estava, enquanto Daryl seguia na frente.
Assim que percebeu que eu não estava mais andando, ele parou também.
— Você não vem?
Eu neguei algumas vezes. Claro que eu estava curioso pra ver o encontro dos dois e ouvir a conversa deles, mas tinha alguns empecilhos.
— A minha irmã vai ficar possessa se eu não voltar logo, além do mais, sua amiga me assusta... — Sussurrei a última parte como se fosse um segredo e Daryl quase sorriu. Quase...
— Sabe como voltar? Não vai se perder pela floresta, vai? — Perguntou, parecendo realmente preocupado, assim como um pai devia estar.
Meu pai se preocupa comigo. Meu pai se preocupa comigo! Cantarolei mentalmente enquanto segurava o sorriso.
— Claro que eu sei voltar, ando aqui fora o tempo todo. — Contei mais uma das minhas mentirinhas brancas, fazendo um movimento displicente com a mão. — Me perder? Não ouviu o que eu disse antes? Eu sou um escoteiro treinado. E eu tenho uma bússola.
Tirei minha bússola do meu bolso, um presente do meu vô Dan, uma das últimas coisas que eu tinha conseguido manter comigo desde que tínhamos deixado nosso apartamento, quando o mundo virou uma bagunça.
— 'Tá certo então... — Daryl assentiu algumas vezes, dando alguns passos em direção a casa, mas parou e se voltou para mim novamente. — Obrigado pela ajuda.
— É isso que os amigos fazem. — Sorri, acenando em despedida.
Logo, logo eu poderia contar tudo para o meu pai, e as coisas se resolveriam.
Voltei para o Reino correndo e torcendo pra não me meter em nenhum problema pelo caminho, afinal eu tinha ariscado muita coisa naquele passeio e sabia bem disso. Mas tinha valido a pena.
Eu não via a hora de contar para minha irmã o que tinha acontecido. Ela estava no nosso dormitório, mexendo no que parecia um quadro ou algo assim. Luka era muito boa em arrumar coisas também, mas isso era algo que ela já tinha chegado em casa sabendo.
— Onde você estava? — perguntou neutra, não era estranho eu sumir no meio da tarde para ajudar em alguma tarefa dos adultos. Crianças não tinham tarefas fixas, por isso eu sempre estava caçando o que fazer.
— Com meu pai. — Respondi orgulhoso.
— Ainda isso? — Luka pareceu um pouco entediada e sequer levantou os olhos na minha direção, bastante concentrada no que estava fazendo.
— Ele é meu pai, Luka, eu tenho certeza. Ele caça, ele usa uma besta... é ele! Estávamos lá fora e ele... — Comecei a falar sem parar, até que Luka ergueu a cabeça de repente e eu percebi que ela não estava nada empolgada como eu.
— Espera, você estava fora dos muros, sozinho com ele? — Me interrompeu em tom urgente e eu previ uma tempestade em um copo d'água.
— Eu estou bem, nada aconteceu. — Deixei claro, mas não foi o bastante para Luka, ela já estava de pé a essa altura.
— Você só pode estar brincando! — Passou a mão pelo rosto. — Você não percebe que está colocando tudo em risco? Os homens de Negan podiam ter encontrado você e então todo o sacrifico da sua mãe teria sido em vão!
— Meu pai não deixaria nada acontecer comigo! — Retruquei, erguendo meu tom de voz.
Eu não conseguia entender o problema da minha irmã as vezes, ela podia ser irritante.
— Meu Deus, Petter, para de ser ingênuo... — Tenho certeza que ela usou um tom condescendente, mesmo que eu nem soubesse exatamente o que essa palavra significava. Até deu uma risada seca e sem humor, como se o fato do Daryl ser meu pai não contasse nem nada para a minha segurança.
— Ele é meu pai, quando eu contar tudo vai ser diferente, por que você não pode ficar feliz por mim? — Gritei ainda mais, não me importando se eu estava parecendo um menino mimado ou não.
Era injusto, o meu pai estava bem ali e Luka agia como se eu estivesse errado.
— Porque você está sendo estúpido! Você nem conhece esse cara! Mesmo que ele seja seu pai, quem te garante que ele é bom? Quem garante que ele não vai te usar como trunfo pra conseguir vantagem com o Negan? — Jogou os argumentos na minha cara, como se fossem acusações. Ela estava perdendo a paciência e também tinha aumentado um pouco o tom de voz.
— Ele não é assim, ele é bom! — Bati o pé no chão, tentando fazer Luka entender a verdade na marra, mesmo que isso só tenha servido pra tirá-la do sério.
— Ah é, como é que você sabe? Se ele é tão bom assim, por que a Natalie te criou sozinha?
As palavras dela causaram um silêncio imediato no quarto, ela deu um passo para trás como se estivesse arrependida e eu senti que ela tinha me batido, seria melhor que tivesse.
Continuei parado ali, por mais alguns segundos, tentando encontrar uma resposta boa o bastante, quando Luka deu um passo na minha direção.
— Petter...
— Você não sabe de nada, você sim que é estupida! — Gritei em um rompante de raiva e saí correndo, enquanto as lágrimas rolavam pelo meu rosto.
E se Luka estivesse certa? E se meu pai e minha mãe não tivessem ficado juntos porque ele não quis assim. E se ele nunca fosse gostar de mim?
Corri para meu esconderijo secreto, que nada mais era que o último banco de um ônibus escolar que ficava perto dos muros.
Ela não podia estar certa, quer dizer, mamãe sempre disse que meu pai era um bom homem, que ele era complicado, mas que as pessoas tinham tempos diferentes. Ela nunca disse que ele era ruim, ou que ele tinha abandonado a gente, ela nunca disse nada mau sobre ele... E teria dito se ele fosse o homem que a Luka falou, não é?
Quer dizer, eu tinha um amigo com pais separados na escola e ele sempre me disse que a mãe falava mal do pai o tempo todo. Minha mãe nunca fez isso, então meu pai era diferente dos outros.
Ela o amava, eu sabia disso, mesmo que "nem sempre o amor fosse o bastante"... Se tinha amor não podia ser ruim, nem mau, nem errado, certo? É certo.
Eu voltaria lá e diria tudo isso pra Luka e ela veria que eu estava certo, meu pai não era igual aos outros pais. Aquilo era só a mania da minha irmã não confiar nas pessoas falando mais alto, eu tinha certeza disso.
Fiquei no meu esconderijo mais um tempo, até que eu me acalmasse e parasse de chorar. Mamãe sempre disse que chorar fazia bem e que não tinha problema nenhum fazer isso, não importava se fosse menino ou menina, todo mundo chora.
Eu já estava mais calmo e tinha decidido voltar para o dormitório, quando dei de cara com o meu pai.
— Oi! Você já voltou! — Acelerei meu passo para andar ao lado dele. — Como foi com a sua amiga?
Daryl assentiu e resmungou alguma coisa que eu presumi ser uma resposta positiva. Luka também fazia aquilo quando estava concentrada. Eles eram bastante parecidos, tenho certeza que quando se conhecerem melhor vão ser muito amigos também.
— Achei que você estaria dormindo. — Daryl foi o primeiro a quebrar o silêncio daquela vez e eu sorri de orgulho.
— Eu sou um menino de dez anos, não uma galinha, não tenho que dormir junto com o Sol. — Respondi divertido e acho que Daryl riu, quer dizer, não dava pra ter certeza no escuro, mas eu prefiro achar que ele riu sim.
— Justo... — Assentiu algumas vezes, colocando a mão no bolso esquerdo e me entregando um pacotinho. — Aqui, eu te trouxe isso.
— São bolinhas de gude! Obrigado! — Comemorei, não me importando em parecer contente demais.
Afinal, aquilo era alguma coisa, certo? Ele tinha realmente me escutado e me trazido um presente. Meu pai tinha me dado um presente!!
— Nada de mais, eu só encontrei pelo caminho. — Ele deu de ombros, como se aquilo não significasse coisa alguma.
Eu provavelmente teria ficado confuso com aquilo, se Luka não fizesse a mesma coisa. Ela tinha uma mania estranha de diminuir qualquer conquista ou acerto quando chegou em casa, como se nada do que fazia fosse bom o bastante, mas se eu tinha ensinado minha irmã a ser confiante e orgulhosa de si mesma, então eu podia ensinar meu pai também (tecnicamente não fui eu quem ensinou a Luka, mas dá na mesma).
— Quer ver uma coisa bem legal? — Convidei, não esperando resposta para segurar a mão de Daryl e levá-lo por outra direção.
Eu estou segurando a mãos do meu pai!!! Tentei não surtar, mas a minha mente não era muito obediente.
Entramos por uma porta lateral do auditório e seguimos por um corredor que deu numa sala ampla, onde Ezekiel tinha construído uma jaula para manter a Shiva de noite.
— A gente podia estar aqui? — Daryl perguntou, encarando a tigresa com um certo brilho de curiosidade nos olhos.
— A gente não pode soltá-la ou irritá-la, nem vir quando ela está comendo, essas são as regras, e também não podemos entrar quando a porta está trancada. — Expliquei e ele levou o canto do polegar à boca, como se estivesse pensando naquilo, até que se deu por convencido e se aproximou.
Nos primeiros minutos ficamos apenas em silêncio, esperando que Shiva se acostumasse com a nossa presença e se sentisse à vontade para se aproximar.
Pelo visto a tigresa tinha algumas coisas em comum com o meu pai também... Pra ser honesto, naquela altura do campeonato todo mundo parecia ter coisas em comum com Daryl, menos eu, e isso era tanto engraçado quanto frustrante.
Acabamos nos sentando perto da jaula e esperando que a felina se aproximasse. Quando cheguei no Reino demorei meses pra poder chegar perto da Shiva, afinal a desconfiança da minha irmã não era só com pessoas, com animais também (tudo bem que o animal em questão podia me devorar com uma mordida só, mas...). Quando finalmente obtive permissão para entrar nos aposentos da tigresa, ela ainda levou alguns dias para me deixar passar a mão nela.
Mas com Daryl ela não se fez de difícil, colocou o focinho nas grades esperando pelo carinho dele e foi totalmente dócil.
Aquela era a maior prova de que meu pai era um cara legal, afinal, os animais sabem dessas coisas melhor do que qualquer um.
Eu contaria tudo isso pra minha irmã e as coisas se resolveriam, então ela me ajudaria a falar com o meu pai da melhor forma e faríamos um ótimo plano para tirar minha mãe das garras do Negan.
Tudo estava perfeito na minha mente, quando notei que tinha um pequeno detalhe que não estava se encaixando: Daryl também tinha sido prisioneiro do Negan, eu mesmo ouvi a conversa, e eu sabia que minha mãe também era prisioneira por lá. Então por que os dois não tinham fugido juntos?
E como um pesadelo incontrolável, todas as possíveis respostas para minha pergunta começaram a me assombrar. E se Luka estivesse certa? E se meu pai não fosse bom e tivesse deixado minha mãe para trás de propósito?
— O que é isso? — A voz de Daryl chamou minha atenção e eu vi que ele estava apontando para o meu pescoço, prestes a tocar no que eu tinha ali.
Era um colar, um cordão de couro e um pingente de asas, minha mãe tinha me dado quando fiz seis anos e disse que foi o primeiro presente que meu pai deu a ela. Eu usava a peça o tempo todo, por isso acabava me esquecendo que ela estava ali pendurada no meu pescoço.
Minha mãe tinha trocado o cordão, mantendo apenas o pingente e o banhando em prata, mas eu sabia que meu pai podia reconhecer o objeto se olhasse com mais atenção. Se é que já não tinha reconhecido...
Aquela era minha oportunidade pra contar tudo, mas eu hesitei, meus questionamentos anteriores e o que Luka tinha me dito, acabaram me deixando com medo. Não era medo do meu pai exatamente... era medo de que, dizer quem eu era, acabasse colocando minha mãe em perigo...
"O simples bater da asa de uma borboleta pode causar um furacão em algum lugar", minha avó disse isso uma vez.
E se desse tudo errado? E se Daryl não gostasse mais de mim depois disso? E se minha mãe fosse pega pelo furacão?
— Ah, não é nada. Eu achei por aí, antes de vir pra cá. — Desconversei, colocando o colar pra dentro da camiseta, onde ele ficava costumeiramente.
Eu não queria mentir para o meu pai, mas decidi que aquela decisão era muito importante pra ser tomada por um garoto tão pequeno quanto eu (Não que eu seja um anão, na verdade tenho um tamanho normal pra um menino da minha idade).
Daryl me encarou em silêncio por alguns segundos e então assentiu, como se uma ideia tivesse passado pela mente dele, mas sido descartada logo depois.
— Ah, aí está você! — Uma voz nos interrompeu, e eu dei um leve pulo com o susto, ao mesmo tempo em que Morgan entrava na sala. — A sua irmã estava te procurando por toda a parte, Robin.
Ele se encostou no batente, e Luka apareceu logo depois, a ponta de seu nariz estava vermelha, por isso eu soube que ela tinha chorado.
Ela passou os olhos por Daryl, antes de focá-los em mim e baixar a cabeça em seguida.
— Acho que eu tenho que ir agora. — Falei, me colocando de pé.
— Encrencado? — Daryl murmurou, tirando a mão de Shiva.
— Eu tenho dez anos, 'tô sempre encrencado. — Brinquei, enquanto dava de ombros e caminhava em direção a minha irmã. — Boa noite, Daryl. Boa noite, Morgan.
Os dois acenaram pra mim, mas ficaram pra trás, como se precisassem conversar.
Eu e minha irmã voltamos em silêncio. Eu não gostava quando Luka ficava quieta daquele jeito. Ela era muito quieta quando chegou em casa, quase não falava comigo ou com a minha mãe, estava sempre isolada. Na verdade, eu só ouvia a voz dela de noite, ela sempre acordava gritando, ou chorando. Mamãe começou a arrumar desculpas para que dormíssemos todos juntos na sala, ou porque estávamos vendo filmes, ou brincando com cartas e jogos de tabuleiro.
Quando chegamos no quarto, ela fechou a porta e me encarou por algum tempo. Eu estava pronto pra começar a falar, mas ela foi mais rápida.
— Me desculpe ter dito aquilo pra você... — Se aproximou para se sentar ao meu lado na cama. — Foi errado.
— Foi errado gritar com você também, então acho que estamos quites. Somos irmãos, brigar é a nossa configuração padrão. — Sorri e ela vez o mesmo, assentindo algumas vezes.
— É só que... — Luka hesitou alguns segundos, e encarou o nada. — Ainda é difícil aceitar quem nem toda figura paterna vai agir como o Senhor Davis. Eu esqueço daquela época às vezes, porque eu não tenho mais pesadelos, e tem tanta coisa mais importante pra pensar atualmente, mas certas situações elas... Elas me fazem lembrar de tudo. Acho que eu surtei, me desculpe por isso.
O Senhor Davis era dono do orfanato onde Luka tinha crescido, mamãe explicou que ele fazia coisas ruins com as crianças, por isso ela e a minha avó, com a ajuda da Luka, fecharam o lugar.
— Não tem que se desculpar, você geralmente está certa sobre as coisas... — Cheguei mais perto dela e me encostei em seu braço.
— Mas eu não estou sobre o seu pai. Sua mãe o amava, isso deve significar alguma coisa... — Luka tentou soar otimista, ênfase no tentou, porque pra mim não deu certo, não.
— Você acha que o Daryl deixou a mamãe para trás, por isso ele fugiu sozinho? — Perguntei na lata, eu precisava saber, a dúvida doía.
— O que?? — Minha irmã ficou genuinamente surpresa, e eu tive que desencostar por causa do movimento brusco. — Por que você acha isso?
— Não sei... Ele está aqui, ela não... — Dei de ombros e baixei a cabeça.
— Mas isso pode ter muitos motivos. Você disse que ele é bom, então vamos fazer o que a sua mãe ensinou: dar um voto de confiança e acreditar que se houvesse qualquer oportunidade de tirar sua mãe de lá, ele teria feito isso, certo? — Ela se levantou da cama, para agachar na minha frente e segurar meus ombros em forma de apoio e me assenti mais aliviado.
Luka devia estar certa. Ela era a irmã mais velha, o trabalho dela era estar certa.
— Sinto falta dela... — Confidenciou, depois de voltar a se sentar. — Sua mãe sempre sabia o que fazer.
Luka estava certa, minha mãe sempre tinha um plano, ela nunca perdia o controle... Sherwood nunca teria existido se não fosse por ela, não tinha sido justa aquela traição da avó do Mike, mamãe não teve culpa de nada que aconteceu, muito pelo contrário, ela tentou fazer o que era certo e se colocar contra o Negan.
Mal dava para acreditar que ele tinha sido marido da minha professora Lucille. Ele não parecia um vilão quando o vi no hospital com ela.
— Eu sinto também. Mas ela prometeu, então ela vai achar a gente. — Afirmei convicto, era minha mãe, eu nunca duvidaria dela.
— Eu sei. — Luka assentiu também e ficamos mais alguns momentos calados.
— Daryl viu o colar... — Contei, fazendo minha irmã virar na minha direção. — Perguntou onde eu tinha conseguido.
Tirei o pingente de debaixo da camisa e o encarei por alguns instantes.
— E você contou?
— Não. — Neguei algumas vezes e fiz uma careta decepcionada.
— Por quê? Era a oportunidade perfeita. — Luka ajeitou a perna, para que pudesse me olhar de frente, mesmo ainda sentada na cama.
A melhor parte de ter uma irmã mais velha era que eu podia contar qualquer coisa pra ela. Estávamos juntos e podíamos confiar um no outro.
— Eu tive medo... — Me ajeitei na cama também. — Não só do que podia acontecer com a mamãe, mas eu tive medo de contar e... E se ele não gostar mais de mim?
Luka me encarou por alguns segundos e pareceu entender exatamente o que eu queria dizer, e então sorriu amigável e compreensiva.
— Impossível. Se até eu acabei gostando de você, seu pai não vai ter escolha, a não ser, te amar pra sempre! — Brincou, dando uma piscadinha.
Eu já disse que tenho a melhor irmã do mundo? Pois é, eu tenho!
— É... acho que você está certa mesmo. — Assenti algumas vezes, me preparando para implicar com ela (só de brincadeirinha, é claro). — Você é muito difícil de agradar, coitado do Benj.
— O que? Não... nada a ver... Não, não. — Ela tentou desconversar se colocando de pé e andando pelo quarto, certamente para disfarçar o quanto tinha ficado vermelha. — Você só tem dez anos, não sabe de nada.
Balancei a cabeça de um lado para o outro, como quem diz "pode ser". Eu podia mesmo ter só dez anos, mas sabia de uma coisinha ou outra...
— Eu sei que a mamãe vai gostar dele. — Afirmei amigável e Luka parou onde estava e sorriu meio de canto enquanto assentia.
— É, ela vai sim... — Concordou e a saudade era tanta que praticamente tinha se tornado uma terceira pessoa naquele quarto.
Mamãe fazia falta, mas eu tentava não perder a esperança, era apenas uma separação temporária, enquanto isso contribuíamos com o Reino o máximo possível. Assim, quando tivéssemos que contar toda a verdade, mamãe também teria um abrigo ali. Não era Sherwood, mas era melhor que nada.
— Agora já para o banho, você está fedendo igual o bafo da Shiva. Vai, vai, vai... — Luka voltou a ser a irmã mais velha chata e me enxotou para o banheiro.
— Aí já vou, credo, como você é mandona! — Resmunguei, enquanto ela me empurrava e eu jogava meu corpo pra trás.
Tudo daria certo. Logo minha mãe estaria ali, junto comigo, com a Luka e com o meu pai.
— Você acha que a mamãe vai surtar quando souber que o bichinho de estimação da comunidade é uma tigresa? — Perguntei, segurando a porta do banheiro.
— Com certeza! — Luka concordou e rimos.
➷•➷•➷•➷•➷
Infelizmente meus planos e sonhos de uma família completa e feliz, com pai, mãe, irmã e um bichinho de estimação selvagem foram frustrados na manhã seguinte, quando descobri que Daryl estava indo embora.
Luka tinha assumido uma guarda nos portões, por isso eu estava por ali, quando ele apareceu. Pensei que ele estava indo ver a amiga dele, mas recebi um balde de água gelada na cara quando ele disse que estava partindo.
— Por quê? — Perguntei decepcionado.
Não era justo. Não era como eu tinha planejado.
— O que eu vim fazer aqui não deu muito certo, e meus amigos precisam de mim. — Daryl respondeu, enquanto os portões se abriam.
Então eu entendi que a estadia do meu pai no Reino não tinha nada a ver com refúgio dos Salvadores, aquilo era apenas uma última tentativa de tornar a comunidade uma aliada contra Negan.
— Ezekiel não mudou de ideia sobre ajudar vocês? — Coloquei minhas teorias às claras, tentando ganhar qualquer tempo que fosse.
— Como é que você...? — Daryl tentou perguntar, mas eu fui mais rápido.
— Eu sou um garoto bem informado. — Dei de ombros.
— Percebi. — Ganhei um meio sorriso, mas mesmo assim ele deu o primeiro passo em direção ao portão.
— Talvez ele mude de ideia ainda. — Tentei argumentar seguindo atrás dele.
— Eu não quero que ele mude de ideia. Vocês têm uma coisa boa aqui, ele tem razão em querer proteger a todo custo.
Ele estava partindo porque queria nos proteger, porque não queria nos envolver naquela briga, mas já estávamos todos envolvidos e eu não sabia como convencê-lo a ficar.
Se era seguro no Reino, então todos deviam ficar no Reino, inclusive o meu pai.
— Tchau, garoto. — Daryl finalmente passou pelos portões.
Olhei para Luka meio em desespero, e ela fez um leve movimento com a cabeça, me incentivando a ir atrás dele.
— Daryl? — Chamei, sentindo minhas mãos tremerem.
Ele parou, já do lado de fora dos portões e ficou esperando o que eu tinha a dizer.
Engoli em seco, eu tinha apenas que dizer a verdade, então tudo se ajeitaria, ele ficaria com a gente... Mas isso era certo?
Os amigos precisavam dele. Como eu podia desejar que meu pai me amasse, sendo que eu queria impedi-lo de fazer o que era certo?
Talvez minha mãe estivesse certa, quando dizia que o amor nem sempre era o bastante...
Corri até ele e parei por um segundo antes de abraçá-lo de surpresa.
— Adeus. — Falei baixinho, enquanto constatava que meu pai era péssimo em abraços.
Mas tudo bem, minha mãe estaria de volta em breve, então a gente se encontraria de novo e eu finalmente poderia ensinar para o senhor Daryl Dixon como dar um abraço de verdade.
Me afastei alguns passos e fiquei observando enquanto ele se afastava sem dizer nada.
O cabeça de melancia precisava dele, além do mais, eu não estava sozinho, eu tinha a minha irmã, que já estava nos portões pronta pra me dar um dos melhores abraços, exatamente como a mamãe tinha ensinado.
Eu era um garoto bem sortudo no fim das contas, e sabia que as coisas acabariam dando certo. Ou pelo menos era isso que eu esperava...
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