Lifeline — Destiny Don't Give Up
25 Você Fica, Eu Fico
Notas iniciais
• NATALIE COOPER •
O cérebro é um órgão muito complexo, bilhões de células nervosas compõem uma rede de comunicações que é o ponto de largada para tudo o que sentimos, pensamos ou fazemos. Algumas dessas comunicações levam ao pensamento e à ação consciente, ao passo que outras produzem respostas automáticas.
O medo é algo que acontece no cérebro, ele responde a uma situação estressante enviando sinais que fazem o corpo todo reagir; o coração dispara, a respiração acelera e todos os músculos recebem uma descarga de energia, os instintos de sobrevivência são acionados, tudo isso em um segundo, uma reação em cadeia totalmente involuntária que começa no cérebro, mas toma conta do corpo todo...
Às vezes a situação de perigo é real, mas às vezes não, infelizmente nem sempre o cérebro distingue o que é realidade do que não é, principalmente quando já houve um trauma ali.
Pois é, em resumo, as coisas que acontecem no cérebro, ditam a forma como reagíamos a qualquer situação, por isso transtornos psicológicos como ansiedade, depressão, bipolaridade e anorexia conseguem tomar conta da vida de uma pessoa e devem ser levados tão a sério como um câncer, por exemplo.
Alguns estados mentais podem nos levar a agir, pensar e reagir de formas que não são nosso usual. Quando nosso psicológico está abalado ou comprometido tudo ao nosso redor pode ganhar uma intensidade maior do que tem realmente e não é nossa culpa, não está dentro do nosso controle.
E acredite, saber de tudo isso nem sempre ajuda, talvez até piore as coisas...
Eu sabia que havia algo errado comigo, o medo irracional que tinha tomado conta da minha vida e a forma exagerada como eu reagia a coisas mínimas não eram meu comportamento normal.
Claro que eu não era uma especialista, mas provavelmente minha estadia no Santuário tivesse me levado a um caso de estresse pós-traumático. Porém, todos ali não estavam enfrentando uma merda atrás da outra também?
Talvez esse fosse o grande problema, eu sabia que tinha algo errado comigo, mas ao mesmo tempo eu também sabia que todo mundo ali estava passando pelo inferno, se todos resistiam eu também devia, não é?
Não. Não é.
Devia ter me lembrado que cada pessoa tem seu próprio tempo e maneira de processar as coisas, cada um sente de formas diferentes e com intensidades diferentes. E tudo bem, é importante respeitarmos nosso próprio tempo...
Eu gostaria de ter respeitado o meu. Mas naquele momento, enquanto todos que eu amava estavam empenhados em entrar de cabeça em uma guerra, eu achei que o certo fosse deixar minhas necessidades e limites de lado, afinal eu tinha que estar ali por eles.
E a primeira batalha estava ganha, o Santuário estava cercado de mortos e Negan estava preso, o plano de Rick tinha dado certo.
Luka dirigia o carro ao meu lado, o projeto dela foi uma das coisas mais úteis naquela batalha, tinha salvado muitas vidas certamente, ela estava orgulhosa, empolgada com a vitória.
Mas eu não sentia nada disso, eu não me sentia vitoriosa, na verdade, todo o meu corpo ainda agia como se eu estivesse em perigo, como se algo terrível fosse acontecer a qualquer momento e, por mais que eu soubesse que eram só reações involuntárias do meu cérebro, eu não conseguia relaxar ou controlar.
Meu coração ainda estava disparado e minhas mãos ainda tremiam, era como se eu ficasse revivendo meu reencontro com Negan de novo e de novo.
Ele estava há metros de mim, não tinha como me alcançar ou fazer mal, mesmo assim eu sentia os olhos dele queimando minha pele através dos bloqueios dos carros.
Era como se tudo ainda estivesse rodando, Luka me afastou dali e assumimos uma posição mais no fim da formação, enquanto Rick assumia o controle de tudo, contudo mesmo a voz longínqua de Negan era como um pesadelo pra mim.
— Natalie? — Eu ouvi a voz urgente de Luka e tive a impressão que ela já estava me chamando há algum tempo. — Está me ouvindo?
Pisquei algumas vezes, como se isso fosse me ajudar a recobrar o foco e vesti um sorriso calmo, que em nada era verdadeiro.
— Desculpe, eu estava... distraída.
— Percebi. — Ela alternou os olhos entre mim e a estrada. — Pensando no bonitão que salvou nossas vidas?
— O que? Quem? — Meu cérebro bagunçado e desfocado não conseguiu encontrar lógica nas palavras dela.
— O cara no terraço do Santuário... — Luka explicou casualmente e eu me senti estúpida por não ter entendido logo de cara.
Ver Tony apontar uma arma para mim e depois despencar do terraço não era o tipo de coisa que dava para esquecer.
— Ah, o Kane... — Assenti algumas vezes e isso me fez voltar para a realidade. — Espera, você acha que ele é bonitão?
— Você não? — A pergunta tão casual e despreocupada entrou em choque com toda aquela situação que vivíamos.
As coisas eram tão extremas e frenéticas que algo simples, como reparar na aparência de alguém, parecia fútil.
— Eu nunca pensei sobre isso, na verdade... — Respondi, ponderando sobre o assunto mesmo sem querer.
Sim, Kane era um homem bonito. Não que isso importasse naquele momento.
— Então, quem é ele?
Outra pergunta complicada. Encarei Luka por alguns segundos e pensei sobre aquilo.
Quem era Kane?
Revivi nossos momentos juntos e mesmo no meio de toda a confusão mental que eu vivia, percebi uma coisa:
— Um amigo, eu acho... — Foi estranho dizer aquilo em voz alta, mas ao mesmo tempo simplesmente pareceu certo. — Um que provavelmente está encrencado por minha causa. Mas não, eu não estava pensando nele.
A verdade é que eu devia achar errado Kane ter assinado Tony daquele jeito, mas no meio de uma guerra, depois de ficar na mira de uma arma, eu não conseguiria pensar imparcialmente sobre aquele assunto. A única coisa que me vinha a mente é que Kane tinha se encrencado ainda mais por minha causa.
Simon nunca deixaria aquela morte passar batido...
— Então você estava pensando no Daryl? — A voz de Luka me pegou de surpresa novamente.
Soltei um riso sem muito humor. Meus problemas com Daryl pareciam até piada de mau-gosto naquele momento. Quer dizer, ele tinha feito eu me sentir um lixo depois de um sexo maravilhoso e ainda por cima tinha partido no outro dia sem me procurar. Eu podia ter dado o primeiro passo para resolver as coisas, mas no fundo eu achei aquele comportamento tão "Daryl" que só me senti cansada demais pra lidar com o assunto.
Talvez eu estivesse em um daqueles momentos em que a gente só vai empurrando os problemas com a barriga porque estamos esgotados demais pra lidar com eles.
Pelo menos ele tinha se despedido do Petter. Não ter problemas com o lado paterno do Daryl era um grande alivio.
— Eu estava pensando no Negan... — Resolvi ser honesta sobre meus pensamentos.
— Eca! — Luka fez uma careta de asco.
— É, esse é exatamente o sentimento. — Concordei e soltei um suspiro.
Eu não queria preocupá-la com minhas neuras, afinal Luka estava feliz com o rumo das coisas, mas eu senti que se não falasse eu explodiria.
— Eu só... Eu odeio ser a estraga-prazeres, mas eu não acredito nessa vitória. Eu sei, eu sei, tudo correu perfeitamente bem, do jeitinho que o Rick falou que seria, mas eu ainda tenho esse... esse pressentimento que o Negan vai virar esse jogo e coisas horríveis vão acontecer... — Desabafei, encarando os outros carros pelo retrovisor.
Luka pousou os olhos em mim por alguns segundos e me deu um sorriso compreensivo.
— Eu sei como é... — Ela assentiu algumas vezes e demorou um tempo para prosseguir. — Às vezes eu ainda tenho esse pesadelo idiota, sabe? Um onde o senhor Davis aparece, me leva pra longe e o terror começa outra vez. É um medo ilógico e idiota, eu sei, porque ele provavelmente está morto uma hora dessas. Ainda assim, às vezes esse medo me acorda a noite...
— Você nunca me contou isso... — Declarei, surpreendida com o quando aquilo me soou aterrorizante e ao mesmo tempo foi dito com tanta calma.
— É porque não é real... — Luka deu de ombros. — É só um pesadelo, só o meu subconsciente querendo sabotar toda a proteção e segurança que você me deu. Não podemos controlar quando sentimos medo, só podemos controlar como reagimos a esse medo...
— Eu te disse isso. — Lembrei, e abri um meio sorriso.
Era irônico que naquele momento eu já não soubesse mais se era possível ou não controlar como reagimos ao medo...
— Eu sei, e agora estou usando contra você. — Luka se gabou, prestando atenção na estrada por alguns minutos.
Ela era a prova viva de que a cura era possível, ninguém precisava se sujeitar a viver mergulhado na dor emocional para o resto da vida. Luka era um exemplo de força e perseverança e aos poucos eu ia descobrindo que estar do lado ferido era muito mais difícil do que eu pensava...
— Se você não estava pronta para encarar o Negan de novo, por que veio? Por que não ficou com o Petter em Alexandria, ou foi com o Daryl? — Ela questionou depois de algum tempo.
— Nem pensar! — Respondi de imediato. — Você veio, eu vim. Você fica, eu fico, lembra?
Ficar segura, enquanto Luka arriscava a vida em uma guerra nunca tinha me passado pela cabeça, ou todos nós ficávamos de fora daquilo, ou eu iria com ela aonde quer que seja.
— É, eu lembro... — Ela assentiu com um sorriso calmo.
Eu conhecia os limites de Luka, aquele pequeno problema que ela ainda tinha em confiar que não seria deixada para trás. Era meu dever como mãe garantir que ela nunca se sentisse sozinha ou abandonada e isso era mais importante pra mim do que qualquer outra coisa.
— Estamos juntas nisso. — Afirmei com convicção na voz. — Agora para de bancar a mãe, essa é a minha função.
Luka riu e eu me permiti rir com ela por alguns segundos, quase como se fosse uma fuga de tudo que estávamos vivendo naquele momento...
Infelizmente não demorou muito para que chegássemos ao ponto de encontro e para eu fosse obrigada a encarar a realidade de novo, mesmo que aquele clima de comemoração se espalhasse entre as pessoas.
Talvez fosse uma coisa horrível de se dizer, mas eu achava cedo para comemorações, ainda tínhamos que atacar os postos avançados e, considerando que tínhamos que nos dividir pra isso, ainda havia uma grande probabilidade das coisas darem errado.
Reparei quando Daryl chegou com Carol, Tara e Morgan, eles tinham ficado responsáveis por redirecionar os mortos na estrada.
Por mais que uma onda de alivio tenha tomado meu corpo eu não fui falar com ele, uma parte de mim até quis fazer isso, mas honestamente eu não senti vontade nenhuma de ceder a esse impulso.
Eu estava cansada, o tipo de cansaço que parecia impregnado no meu corpo e na minha mente e por mais que eu amasse Daryl, lidar com ele podia ser algo muito cansativo. Senti que não tinha forças para isso naquele momento.
Nem o discurso dos líderes me empolgou, enquanto todos os grupos vibravam antecipando a vitória, eu permaneci sentada no capô de um carro, observando a cena de longe, enquanto Luka se enturmava com os amigos do reino.
Eu conseguia reconhecer que era o dever deles incentivar e motivar o pessoal, principalmente no meio de uma guerra, mesmo assim eu achava tudo meio exagerado do meu ponto de vista...
Rick dizendo que já tínhamos ganhado, Maggie dizendo que o mundo era nosso... Será que realmente queríamos aquele mundo tomado por mortos e que despertava o pior de cada ser humano?
Estávamos no meio de uma guerra, a caminho de executar várias pessoas e correndo o risco de sofrer baixas também. Isso era vitória?
Se o mundo era nosso, por que simplesmente não ir para outra parte dele? Lutar por alguns muros que podiam nem resistir àquela guerra fazia mesmo sentido?
Eu sempre vi sentido em minhas lutas diárias, em minha mente havia um motivo para expor aqueles homens e leva-los a justiça, mas naquele momento mesmo essa minha missão de vida parecia sem sentido.
A verdade é que eu estava perdida. O passado parecia um filme antigo, como se eu o tivesse assistido, mas não fosse a protagonista, as cenas iam se esvaindo com o tempo e o presente era caos, um grande aglomerado de coisas sem sentido que eu parecia vivenciar de fora. O futuro era incerto... Lutar valia mesmo a pena?
Eu só queria que acabasse logo, mas honestamente não via fim pra tudo aquilo. Eu estava cansada, isso era tudo.
— Hey... — A voz de Daryl me tirou do mundo caótico que era a minha mente.
Ele dava alguns passos incertos na minha direção e eu me limitei a retribuir o cumprimento com um aceno de cabeça.
Daryl me encarou por alguns momentos, como se esperasse que eu dissesse alguma coisa. Talvez ele quisesse que eu quebrasse o gelo, tornasse a conversa mais fácil e eu até podia ter feito isso, mas a verdade é que eu não estava disposta a conversar naquele momento, tinha muita coisa acontecendo.
— Então... — Ele deu um passo para frente e dois para trás. — Como foi lá?
Por um segundo, eu senti uma vontade imensa de me deitar no ombro dele e contar toda a verdade, dizer como tudo aquilo estava sendo horrível e como piorava a cada momento, falar que eu só queria que tudo acabasse logo e chorar até que toda a dor fosse embora.
Mas eu sabia que não era o que Daryl precisava ou queria ouvir, falar tudo aquilo não adiantaria de nada. Ele não podia me ajudar.
— Bem... — Respondi, desviando os olhos dele.
— Eu hãn... — Daryl arrumou alça da besta nas costas e pigarreou. — Eu estava pensando que talvez seja melhor você ir comigo e com o Rick agora, o que acha?
Voltei os olhos pare ele por uns três segundos e me dei conta que aquela pergunta era ridícula e não só porque ele estava agindo como se nada tivesse acontecido...
— Não. — Minha voz saiu limpa e decidida.
— Não? — Ele franziu as sobrancelhas, havia surpresa e um tanto de raiva, ou seja lá que sentimento agressivo fosse aquele, em sua voz.
— Não vou com vocês, eu vou com o Reino. — Completei de forma neutra. Era o plano afinal.
Daryl ficou visivelmente desapontado, respirou fundo e trocou o peso de perna.
— Olha, Natalie, se você ainda está brava comigo por causa daquela noite eu... — O interrompi assim que vi que rumo aquela conversa tomaria.
Eu não queria fingir que nada aconteceu, não queria que ele fingisse que nada aconteceu, mas, eu também não queria dar a uma briguinha tão boba mais atenção que o necessário. Mesmo que dentro de mim as coisas fossem sentidas de modo exagerado, eu sabia que nossa briguinha pós-sexo podia ser considerada algo bem infantil.
— Não estou. — Garanti em um tom neutro, preferindo ser honesta sobre aquele assunto. — Eu fiquei meio desapontada na hora, mas depois eu percebi que foi uma pergunta besta e você reagiu como reage sempre...
Dei de ombros como se não fosse nada demais. Na hora eu reagi de modo exagerado, deixando que toda a carga emocional do nosso passado viesse à tona, mas a verdade é que eu já devia esperar por algo daquele tipo. Daryl levava aquela coisa de lealdade muito a sério e não, eu não era prioridade dele, mas honestamente, me dei conta que ele também não era a minha.
— Quando você me perguntou aquilo eu não... — Ele tentou se explicar, mas a frase ficou perdida e sem um fim. Olhou ao redor e prosseguiu de forma diferente: — E eu não devia ter ido embora daquele jeito.
— Não devia mesmo. — Eu concordei com um movimento de cabeça. — Mas agora não é hora pra falarmos disso...
Pulei do capô do carro e bati minha roupa para tirar o pó, enquanto Daryl me observava atentamente. O encarei por alguns segundos até decidir que uma explicação clara seria menos trabalhosa do que lidar com as conclusões erradas dele.
— Eu vou com o Reino, e isso não tem a ver com você Daryl. Luka está aqui por eles e eu estou aqui por ela, é simples, não é sobre você. — Expliquei o mais calmamente que podia.
Daryl procurou Luka com o olhar, para então voltar a atenção para mim e moveu a cabeça em concordância, ao mesmo tempo que eu prossegui:
— Talvez você pudesse ter respondido diferente e entrado na onda das minhas divagações pós-sexo, mas você não é esse tipo de cara e eu já devia saber disso... — Revirei os olhos e neguei algumas vezes. — Ter ido embora daquele jeito também não foi legal, mas que atire a primeira pedra quem nunca saiu correndo depois de uma boa transa...
Daryl franziu as sobrancelhas e me encarou de uma forma bem estranha por alguns segundos, senti que ele até queria retrucar sobre aquilo, mas não o fez.
— Bom... A gente se vê mais tarde, então? — Ele questionou como se aquilo fosse uma confirmação de que estávamos bem.
Estavamos bem? Como eu podia estar bem com ele, se não estava bem comigo?
De toda forma, novamente eu preferi simplificar as coisas e empurrar problemas com a barriga, por isso assenti.
Me afastei alguns passos, mas Daryl segurou meu braço e me impediu de prosseguir
— Natalie...? — Chamou, capturando minha atenção e me puxando um pouco mais perto.
Meu braço formigava no ponto em que ele segurava e eu nunca me senti tão fraca como naquele momento. Eu só queria que Daryl me abraçasse e dissesse que tudo ficaria bem, mesmo que isso fosse mentira.
— Eu... Eu só... — Ele tentou dizer, mas as palavras pareciam presas em sua garganta, piscou algumas vezes e encarou a mão que ainda segurava meu braço, mudando repentinamente de assunto: — Você está sem a faixa de identificação.
Não precisei olhar pra saber que era verdade, eu sabia que não estava usando uma. As faixas de identificação tinham sido um jeito que as comunidades acharam de se reconhecer no meio de um possível tiroteio.
Hilltop usava as faixas de tecido verde amarradas no braço, o Reino as vermelhas e Alexandria as brancas.
Luka tinha me entregado uma das vermelhas, Rick uma das brancas, e no fim, no meio da correria, eu não tinha colocado nenhuma delas no braço. No entanto, talvez meu esquecimento tivesse sido proposital, porque no fim das contas aquelas faixas diziam de que comunidade a pessoa fazia parte e eu não me sentia parte de nenhuma delas, estar com o braço vazio ilustrava bem isso.
— Pois é, acho que eu esqueci. — Dei de ombros.
Daryl continuou me olhando por alguns segundos, como se houvesse algo em mim para ser decifrado, então soltou meu braço, tirando a própria faixa e a dividindo em dois, para então amarrar uma das metades em mim.
— Não queremos que atirem em você por engano. — Ele declarou sério, enquanto ainda dava o nó. O rosto tão próximo ao meu, que eu poderia beijá-lo se quisesse.
E eu queria. Eu sempre queria... mas não era hora.
— Todo mundo sabe que eu sou uma Salvadora, se atirarem em mim pode ter certeza que não foi engano. — Tentei um humor ácido que não fez Daryl sorrir, muito pelo contrário.
— Você não é uma Salvadora. Você está comigo agora. — A frase veio rápida e séria, de modo que Daryl só percebeu o significado depois que as palavras saíram de sua boca e tentou consertar: — Quer dizer, você está com a gente... Com Alexandria. Nós confiamos em você, ninguém vai te machucar.
Pensei em dizer que eles não deviam confiar em mim, porque naquele momento nem eu mesma confiava em mim, mas achei que era uma coisa idiota pra dizer, então fiquei calada.
— Pronto. — Ele deu um passo para trás e nosso contato foi desfeito. — Nos vemos mais tarde. Eu, você, Petter e Luka, certo?
Senti que aquele era o jeito do Daryl dizer que tudo ficaria bem, e foi inevitável sorrir, porque a imagem mental que eu fiz daquilo foi perfeita demais.
— Certo. — Concordei, mas o impedi de continuar, quando segurei sua mão. — Toma cuidado, 'tá bom?
— Você também. — Ele respondeu e demorou alguns segundos para continuar a andar, como se quisesse prolongar aquele contato das nossas mãos por mais um tempo.
Terminamos assentindo um para o outro e seguindo para lados opostos.
Eu desejei mesmo que aquilo fosse um sinal de que todos os nossos problemas tivessem evaporado, mas eu sabia que não era assim, porém no momento teria que bastar.
Era como se eu estivesse levando uma vida baseada no "quando". Quando a guerra acabar...; quando as coisas melhorarem...; quando eu não estiver tão cansada...; quando, quando, quando...
Até quando?
Respirei fundo e segui na direção em que o pessoal do Reino estava, mas tive que parar ao encontrar com Rick no caminho.
— Oi! — Ele me deteve, usando um tom empolgado. — Eu mal te vi na hora do ataque. Como você está?
— Bem. — Respondi mecanicamente, porque estava na cara que Rick não queria a verdade, ele queria algum otimismo florido.
— Eu disse que tudo daria certo. Agora Negan está preso no Santuário, vamos vencer isso, pode confiar em mim. — Afirmou com segurança e eu duvidei de cada palavra, sentindo um arrepio frio percorrer meu corpo, mas assentindo mesmo assim.
Rick me deu um tapinha amigável no ombro e seguiu para o lado oposto.
Fiquei parada ali mais um tempo, tentando não ser arrastada para as probabilidades apavorantes que minha mente insistia em ilustrar.
Não demorou muito e os grupos começaram a partir para as suas missões; com exceção do pessoal liderado por Maggie, que voltaria para Hilltop, todos os outros deixaram os carros para trás, deste modo nossa chegada nos postos avançados não seria descoberta antes da hora.
O sucesso do plano dependia, e muito, do elemento surpresa.
Segui com o pessoal do Reino que era liderado por Ezekiel e Carol, a vantagem é que todos ali tinham certo treinamento e trabalhavam bem em conjunto, por outro lado isso me fazia sentir ainda mais deslocada... Mas no fim não importava, eu estava ali por causa da Luka e me mantive perto o bastante dela o tempo todo.
Tínhamos andado cerca de uma hora e estávamos saindo de uma área comercial quando eu fui a primeira a notar que havia algo errado.
— Alguém passou por aqui e é recente. — Apontei um papel do que parecia chocolate jogado no chão, que não estava ali há muito tempo.
Ezekiel e Carol trocaram um olhar comigo no mesmo instante, nada precisou ser dito, apenas um aceno do Rei e todos estavam atentos. Sabíamos que encontrar a pessoa era nossa prioridade, afinal deixar alguém escapar, significava correr o risco de perder nossa vantagem.
Felizmente eu não era a única com a tarefa de rastrear, ter um tigre do nosso lado era de fato um grande diferencial.
Estávamos entre duas construções, no que um dia fora um pequeno estacionamento, quando avistamos o inimigo atrás de um dos carros abandonados.
Era mesmo um Salvador. Eu não fui a única a disparar, Carol e Luka fizeram o mesmo, enquanto Ezekiel ordenava um ataque. Estávamos perto demais dos carros quando eu percebi que o homem tinha algo na mão esquerda.
Mal tive tempo de pensar direito, quando alguém deu a confirmação verbal:
— Granada!
Não tive tempo pra nada, além de puxar Luka para o lado e protegê-la com o meu corpo.
A granada levantou uma quantidade absurda de poeira, e seu estrondo desnorteou meus sentidos e fez meus ouvidos zunirem como se houvesse um enxame de abelhas neles.
Assim que os destroços pararam de voar ergui a cabeça para me certificar que Luka estava bem.
Eu não conseguia ouvir minha própria voz, tampouco enxergar com clareza, mas a vi assentir freneticamente, enquanto também procurava se assegurar do meu estado.
Meu coração batia tão rápido e alto que mesmo os gritos de Ezekiel pareciam distantes.
Tudo que minha mente conseguia fazer no meio do caos era acusar "eu avisei" em um looping infinito, que me deixava ainda mais tensa.
— Vocês estão bem? — Carol estava perto o bastante e a voz dela se destacou das outras.
Assentimos em conjunto e aos poucos minha audição e outros sentidos foram normalizando, mesmo que meu coração parecesse prestes a entrar em colapso.
— Você? — Questionei para Carol, que também parecia um tanto desnorteada.
Ela assentiu algumas vezes enquanto, assim como os demais, olhava ao redor.
— Ele fugiu... — Constatou insatisfeita.
Era como se eu pudesse sentir a tensão se espalhando pelo grupo como uma praga.
— Temos que voltar, se ele tiver avisado os outros já perdemos toda a nossa vantagem. — Carol foi a primeira a dizer qualquer coisa sensata desde que tudo aquilo tinha começado. Eu quase suspirei de alívio.
Mas Ezekiel discordou, ele achava que devíamos continuar e acabar com tudo aquilo, que podíamos alcançar o Salvador e prosseguir com o plano.
Torci para que a maioria fosse contra aquela loucura, mas foi o oposto, todos ali confiavam no líder do Reino como se ele de fato fosse um rei.
— A Natalie pode rastrear o cara. Ela é ótima nisso. — A sugestão de Luka me pegou totalmente de surpresa.
Por mais que a coragem dela fosse admirável, aquela era uma péssima ideia... No entanto, todas as atenções estavam em mim, dezenas de olhos esperançosos, incluindo o da minha própria filha.
Claro que minha mente dava todos os alertas e apresentava uma lista imensa de motivos, provando que aquilo era a pior ideia de todas, mas eu era mãe, não desapontar meus filhos venceria qualquer argumento, então me forcei a não aceitar nenhuma sabotagem da minha própria mente.
— Eu posso tentar. — Declarei, tomando o cuidado de não garantir nada.
Luka abriu um sorriso imenso e Ezekiel assentiu.
Não foi difícil para ele motivar o pessoal de novo, o vi mandar Shiva na frente e eu assumi a dianteira para rastrear o Salvador que tinha desaparecido em direção a mata.
Percebi que Carol não estava muito segura do que fazíamos e torci para que ela colocasse um pouco de juízo na cabeça do Rei, já que estava claro que os dois tinham algum tipo de cumplicidade.
Segui na minha busca por um rastro, mas o Salvador fujão era bom, talvez no fundo eu não quisesse achar nada, afinal se não encontrássemos o homem, voltar e reagrupar seria nossa única opção.
Olhei para Luka por alguns segundos e a vi empenhada no que estava fazendo. Foi um daqueles momentos em que eu realmente duvidei de mim mesma, quer dizer, deixar minha filha entrar no meio de uma guerra, sabendo, não só que a vida dela estava em risco, mas que, mesmo que alcançássemos a vitória, as mãos dela estariam sujas de sangue para sempre, era mesmo uma boa ideia?
Em que momento era meu papel como mãe deixar de apoiar a luta da minha filha por justiça e dizer "não"? E o que mudava nos meus direitos e deveres como mãe em um mundo destruído como o que vivíamos?
Eu já não conseguia mais saber se estava fazendo a coisa certa...
Foi nesse exato momento que eu achei algo que podia fazer a diferença. Não era apenas o rastro do Salvador, era sangue fresco, o que significa que ele estava ferido e por isso mais lento. Era a vantagem que todos queriam.
Então eu me vi em um impasse, contar a verdade e arcar com as consequências, que podiam ser boas ou ruins, ou mentir e talvez voltar para casa.
Ter apenas um segundo para tomar uma decisão tão importante era uma coisa injusta.
Honestamente tudo em mim exigia que eu mentisse, todos os meus instintos de sobrevivência gritavam para que recuássemos. Era um daqueles momentos confusos em que eu não sabia se podia confiar na minha própria mente. Aquilo era eu mesma ou só o estresse pós-traumático falando?
Eu tinha ensinado meus filhos a não mentirem e então seria hipócrita o bastante para mentir para eles. Isso era certo?
Não, não era.
— Achei uma coisa! — Foram minhas exatas palavras.
Eu devia ter mentido...
Depois disso todo o grupo se animou, Ezekiel usou o fato para motivar ainda mais o pessoal e continuamos seguindo o rastro.
Depois de alguns minutos o meu rastreamento se tornou uma caçada, o Salvador ferido estava na floresta metros a nossa frente. Tínhamos a vantagem.
Carol tinha o homem na mira, mas Ezekiel a fez abaixar a arma, atitude que deixou a mulher atônita, mas foi perfeitamente explicada quando Shiva saiu da floresta e atacou a jugular do Salvador.
Era isso. O homem estava morto e nosso elemento surpresa estava resguardado. Pelo menos foi isso que pesamos até que uma transmissão de rádio revelou que estávamos sendo aguardados.
Tínhamos que voltar. Era o certo e o mais seguro, e dessa vez não era apenas o meu receio falando mais alto, a maioria ali compartilhava dos meus medos.
Mas Ezekiel não quis recuar, com um discurso ridículo apoiado no "e ainda sim eu sorrio" ele recuperou o apoio de todos, até mesmo de Carol que era a mais cética ali desde o começo.
Voltamos a marchar pela floresta, com um plano ousado de emboscada, era inteligente até, mas não contava com imprevistos e não calculava os prós e contras. Era uma péssima ideia e eu podia sentir isso nos meus ossos.
Talvez fosse sabotagem da minha mente, mas pela primeira vez eu quis dar ouvidos a isso.
— Devíamos voltar. — Declarei, puxando Luka de canto, enquanto caminhávamos um pouco atrás no grupo.
Era a primeira vez que eu colocava minhas dúvidas em voz alta e foi como se um peso saísse das minhas costas.
— Não podemos voltar agora... — Luka retrucou, como se eu tivesse acabado de falar uma besteira. — Ezekiel fez o plano contando com todos nós.
Respirei fundo, eu entendia os argumentos e obstinação dela, afinal eu mesma tinha ensinado Luka a nunca desistir, mas naquele momento eu queria que ela fosse menos teimosa.
— Eu entendo que você queira apoiar seus amigos, mas é perigoso, os riscos são... — Tentei argumentar, mas fui rapidamente interrompida.
— Não era perigoso desde o começo? É uma guerra, claro que é perigo, por isso eles precisam de nós, se partirmos agora e alguém morrer vai ser nossa culpa, eu não quero essa culpa pra mim. — Luka rebateu com tanta coragem, que era quase impossível pensar em alguma coisa pra dizer quando eu estava tão orgulhosa da força dela.
Luka era muito parecida comigo quando tinha a idade dela, era irônico que eu entendesse minha mãe melhor que nunca naquele momento...
— Eu entendo se você tiver que voltar, mas eu não posso, Natalie. — Ela terminou em um suspiro pesado.
Acho que uma parte de Luka nunca entenderia que eu nunca a deixaria ali sozinha.
Foi minha vez de respirar profundamente, pelo visto eu não tinha escolha, a menos que eu estivesse disposta a levar Luka dali arrastada, o que convenhamos, nunca daria certo.
— Tudo bem? — Carol voltou alguns metros, quando viu que estávamos ficando para trás.
Luka focou os olhos em mim por alguns segundos, esperando por minha resposta, como se isso fosse o veredito de um júri. Eu assenti com um sorriso simples e fiz um gesto com a mão que indicava que ela podia seguir.
Eu nunca fui o tipo de mãe que sabe dizer "não"...
— Está tudo bem sim. — Afirmei, vendo minha filha abrir um sorriso satisfeito, antes de se afastar em direção ao grupo.
Eu e Carol passamos a andar lado a lado. Não éramos exatamente amigas, mas o clima tenso da primeira vez que nos encontramos tinha ficado para trás. Carol era, de todos dentro dos três grupos, a que parecia ser mais realista sobre a situação que vivíamos, nada de otimismo exagerado, nada de péssimo também, ela tinha um certo equilibro e isso me agradava. Fora que, ela e Daryl eram muito próximos, Carol ganhava pontos por isso, afinal manter uma amizade com Daryl Dixon era um grande desafio.
— Adolescentes? — Ela supôs enquanto observávamos Luka assumir um lugar ao lado de Ezekiel.
— Pois é... Obstinação e hormônios, combinação explosiva. — Dei de ombros, tentando colocar um pouco de humor naquele momento tenso. — Sempre me faz pensar se estou fazendo a coisa certa...
— Você está sim. — Carol garantiu focando os olhos em mim por poucos segundos.
— Queria ter essa certeza...
— Você sabe que estava fazendo a coisa certa, quando abre os olhos pela manhã e os seus filhos estão, lá. Vivos. — Ela declarou com um tanto de amargor na voz, parecia uma experiência bastante pessoal.
Carol não esperou minha resposta, apenas ajeitou a arma e apertou o passo para se unir ao grupo.
Mantive aquela simples frase na minha mente, talvez eu estivesse mesmo exagerando, havia uma possibilidade de tudo dar certo, não é?
Esse vestígio de otimismo ficou comigo durante a execução de todo o plano. Quando nos escondemos e atacamos os Salvadores de surpresa, eu realmente pensei que tudo ficaria bem e que todo aquele medo e pessimismo eram apenas vestígios de uma mente não tão saudável.
Estávamos em frente ao posto avançado, cercados de cadáveres de Salvadores e mesmo aquele ambiente macabro não esfriou os ânimos do grupo. A vitória era algo a ser comemorado. Pelo menos para eles... Pra mim era apenas mais algumas mortes pra colocar na listinha do remorso, a vitória não tinha gosto de nada.
Olhei ao redor e vi Luka e Jerry fazendo um tipo de toque de mão ensaiado enquanto riam. Tentei sorrir por ela, mas meu coração ainda batia no ritmo dos tiros que eu tinha disparado.
— Eu vou verificar aquele galpão. — Carol apontou uma das construções e Ezekiel concordou.
— O que acha que darmos uma olhada naquele ali, Natie? — Luka apontou o galpão oposto. — A gente já está aqui mesmo...
A informação que tínhamos era que as armas de grosso calibre estavam no posto avançado que Daryl e Rick invadiriam, então, tecnicamente, não precisávamos revistar os prédios, mas depois de ter dito sim para toda a situação de risco aquele dia, revistar um prédio me parecia bobagem.
Assenti brevemente e segui com Luka naquela direção, não tivemos problemas em passar pelo portão ou para entrar no galpão, era um amplo espaço cheio de canos e reservatórios do que me pareceu gás natural, reparei nos avisos de inflamável espalhado pelo lugar, mas não tive tempo de dar atenção a esse detalhe, porque nem bem colocamos o pé lá dentro e o som ensurdecedor de milhares de tiros de espalhou pelo lado de fora.
Não eram simples tiros, aquilo era armamento pesado, metralhadora de alto calibre, o tipo de arma que deveria estar no outro posto avançado...
Luka tentou correr pra fora, mas eu a segurei antes disso.
— Eles precisam de ajuda! — Ela tentou passar por mim, mas eu não permiti.
— Eles estavam em campo aberto e foram alvejados, se sair agora você vai morrer e não ajudar. — Foi direta, um pouco mais fria do que eu pretendia, mas era a verdade.
Apenas pelo som eu já sabia que não tinha como haver sobreviventes, não no terreno aberto em que eles estavam, que não tinha qualquer lugar onde conseguir abrigo. Estavam mortos e seria crueldade demais deixar que minha filha visse os corpos dos amigos daquela forma.
Sem contar que isso a colocaria na linha de tiro também. Tínhamos que ser mais espertas que isso.
Luka focou os olhos em mim por alguns segundos, seu corpo inteiro tremia e eu percebi que ela segurava as lágrimas.
— O que a gente faz agora? — Ela perguntou, tentando aparentar um controle que não tinha.
Foi nesse momento que eu soube que nunca deveríamos ter continuado com aquela missão. Mas eu não podia transmitir qualquer dúvida, não naquele momento. Estava pronta pra dizer que tínhamos que encontrar Carol e nos preparar para um possível confronto com os Salvadores restantes daquele posto avançado, quando uma voz masculina respondeu primeiro que eu.
— Agora a gente se diverte um pouco, docinho. — O deboche veio acompanhado de outra risada masculina.
Eu e Luka agimos depressa, armas preparadas e destravadas, mas os dois Salvadores que eu não conhecia também eram rápidos, de modo que também estávamos na mira, era um impasse...
Olhei ao redor a procura de qualquer coisa que servisse de cobertura, e percebi que todo o lugar era como uma grande bomba, por causa dos reservatórios de gás, começar um tiroteio ali teria um resultado catastrófico.
Ao longe eu pude ouvir mais sons de tiro, provando que alguém ainda estava vivo, provavelmente Carol.
Um dos homens cochichou algo enquanto olhava para mim e eu soube que ele sabia que eu era. Apenas imaginar voltar para o Santuário fez minhas mãos suarem frio e o ar começar a falhar nos meus pulmões, mas eu não podia permitir que meu descontrole colocasse Luka em perigo, eu tinha que achar uma saída. Por ela.
— Ela bate com a descrição. — O outro Salvador concordou e abriu um sorriso satisfeito. — Você deve ser a putinha do Negan, vamos te levar de volta e o chefe vai ficar muito agradecido... Vamos levar a bonitinha aí também, acho que vai te servir de incentivo pra cooperar.
— Joguem as armas no chão e ninguém tem que se machucar. — O outro ordenou.
Obriguei minha mente a trabalhar rápido, ceder era péssimo, mas travar uma luta ali dentro podia ser pior. Deixar que os homens nos levassem para fora em segurança, era arriscado, mas parecia mais inteligente, afinal eu sabia que, se eles tinham que nos entregar para Negan, não podiam nos machucar até lá.
Infelizmente, Luka não seguiu a mesma linha de raciocínio que eu...
— Vai sonhando! — Ela retrucou, sem esperar um segundo para disparar a arma.
Aconteceu muito rápido. Luka acertou um dos Salvadores na altura do ombro, mas o outro revidou. Agindo por reflexo eu empurrei Luka para o lado e a tirei da linha de tiro, mas isso fez com que a bala passasse direto e atingisse um dos reservatórios de gás.
Era tarde demais para qualquer reação, a força da explosão jogou meu corpo metros longe, de encontro a uma escada e eu só tive tempo de pensar que era o fim.
No meio do caos de destroços, poeira e fogo, ainda caída no chão percebi que não tinha acontecido uma reação em cadeia, talvez os outros reservatórios estivessem vazios, ou talvez fosse pura sorte, mas o fato é que uma única explosão não foi capaz mandar o lugar todo para os ares, mas destruiu boa parte dele.
Ainda desnorteada eu tentei me colocar de pé, mas falhei, e a primeira coisa que reparei foi a dor excruciante no meu ombro esquerdo, era como se houvesse vidro debaixo da minha pele, com sorte era apenas um deslocamento... Meus pulmões ardiam, talvez por causa da fuligem e fumaça ou talvez por causa do impacto com os degraus, que tinha forçado minhas costelas contra meus órgãos.
Tudo rodava, eu não conseguia ouvir nada, levei a mão direita até a testa e percebi que tinha sangue quente ali. Parte da minha jaqueta estava em chamas, então tive que me livrar da peça, mas a dor por todo meu corpo comprometia minha agilidade.
Percebi que tinha queimado alguns pontos no braço esquerdo, e que eu tinha diversos ferimentos por toda a parte, não dava pra contar ou saber qual doía mais e honestamente, mesmo em meio a todo aquele caos, eu não estava nada preocupada comigo.
— Luka! — Gritei, ou ao menos tentei, já que minha voz não colaborou com minha vontade.
Fiz a segunda tentativa para ficar de pé, com dificuldade recuperei o equilíbrio e tentei desviar do fogo que se espalhava aqui e ali. Eu mal conseguia controlar minhas pernas, a cada passo era como se meus ossos fossem ceder. Os sons chegavam aos meus ouvidos como se eu estivesse embaixo da água e era como houvesse fuligem nos meus olhos.
O desespero tornava tudo pior, porque impedia minha mente de pensar com clareza e dificultava ainda mais a tarefa de respirar. Tinha areia nos meus pulmões. Olhei ao redor e tudo que eu conseguia ver era fumaça, fuligem e fogo.
Pensei ter ouvido mais tiros ao longe, mas com minha audição precária não havia como ter certeza...
— Luka! — A segunda tentativa foi um pouco melhor, cambaleei para a esquerda, desviando dos destroços e me apoiando nas paredes.
A falta de resposta fazia meu coração bater totalmente fora do ritmo e todo meu corpo tremer, era como se o medo se alastrasse debaixo da minha pele.
Quando consegui ultrapassar um dos pedaços do reservatório, que tinha sido lançado alguns metros longe, eu me deparei com uma cena que fez meu estomago embrulhar: A cabeça de um dos Salvadores estava jogada no chão, enquanto o corpo estava em chamas do outro lado. Aparentemente uma das partes de metal do reservatório, tinha decepado o homem.
Não gastei meu tempo tentando entender ou sentindo remorso, continuei caminhando o mais rápido que a dor permitia, ainda sem enxergar muito bem, até que meu pé bateu em algo que escorregou pelo chão. Tive o vislumbre de uma arma, provavelmente a do Salvador sem cabeça e a recolhi, ignorando a dor que aquele simples movimento causou e checando a munição, deixando-a pronta para qualquer imprevisto.
Passei por mais alguns destroços, contornando o fogo e voltando a gritar por Luka. Novamente não obtive resposta, mas notei que havia movimento do meu lado esquerdo, segui naquela direção e encontrei o segundo Salvador cambaleando pelo chão.
Assim que me viu ele tentou encontrar a arma, mas eu fui mais rápida e puxei o gatilho antes mesmo de considerar outra opção. Não havia tempo para misericórdia. Minha mão tremia tanto que eu tive que descarregar o pente antes de conseguir um tiro na cabeça.
— Luka! — Gritei novamente, usando todo o ar nos meus pulmões. Eu não queria acreditar no pior, eu não podia acreditar no pior.
Tentei manter a calma e controlar uma crise de choro que estava prestes a me dominar, quando o som de metal se chocando com metal chamou minha atenção.
Segui naquela direção deixando um suspiro de alivio escapar dos meus pulmões. Eu teria corrido de se pudesse, mas minhas pernas não me obedeciam.
Quando mais próximo o som ficava, mais o meu coração disparava. Logo depois de outra parte do reservatório, ocultada por uma pila de entulho e destroços que despencara do teto, eu encontrei Luka, deixada no chão, com uma pequena placa de metal na mão, batendo com dificuldade em uma parte bem maior do reservatório.
— Aqui... — Ela murmurou assim que me viu.
— Graças a Deus! — Exclamei, sem me importar com o esforço que eu teria que fazer para ultrapassar os escombros e alcança-la.
Vai ficar tudo bem, vai ficar tudo bem... comecei a repetir mentalmente, a cada vez que uma pontada de dor se espalhava pelo meu corpo.
Mas assim que alcancei o outro lado e pude ver Luka por inteiro e com mais clareza, meus joelhos cederam e atingiram o chão.
— Eu não sinto minhas pernas... — Avisou com a voz fraca e cada célula minha entrou em colapso.
O pedaço enorme de reservatório em que ela batia com pequeno pedaço de metal, estava, na verdade, em cima de metade do corpo dela...
Pavor e desespero pareciam palavras fracas e simples para descrever o que eu sentia naquele momento, mas eu sabia que não podia demonstrar nada disso, eu tinha que ser forte, tinha que tirar minha filha daquele inferno.
— Não fica nervosa, amor, você está presa, mas vai ficar tudo bem... — Me coloquei de pé, reunindo uma força que eu sequer sabia de onde vinha. — Eu vou arranjar alguma coisa pra fazer uma alavanca e te tirar daí... Eu já volto.
Eu já tinha dado um passo para trás, quando ela me deteve.
— Por favor... — Parei no mesmo momento. — Não me deixa.
A urgência na voz de Luka deixou claro o que eu não queria ver. Eu não podia tirá-la de lá. Só então eu tive coragem de olhar a situação como um todo.
Todo aquele sangue... O pedaço do reservatório não estava apenas esmagando metade do corpo da minha filha, uma parte do metal estava cravada em seu abdômen. Luka não ser capaz de sentir as pernas só provava que o ferimento era muito mais fundo do que eu queria acreditar ou aceitar.
Não havia uma solução para aquilo. Não haveria no mundo normal e certamente não havia naquele inferno em que vivíamos.
Ela estava morrendo...
Deixei minhas pernas cederem. Impotente. Não importava mais a minha força, não importava quem eu matasse ou quantas balas eu atirasse, não havia nada que eu pudesse fazer pra salvar a minha filha.
E o pior de tudo é que ela sabia disso. Luka sabia exatamente o que estava acontecendo...
Limpei a fuligem de seu rosto e apoiei sua cabeça no meu colo, me ajeitando de uma forma que ela pudesse ficar confortável.
— Eu não vou pra lugar nenhum. Eu nunca iria sem você... — Garanti, acariciando seus cabelos negros. — Você fica, eu fico, lembra?
Uma lágrima pesada escorreu pelo meu rosto, mesmo que eu tentasse sorrir para acalmá-la.
— Desculpe... Eu devia ter voltado com você... — Luka teve um ataque de tosse repentino, expelindo uma quantidade absurda de sangue que eu sequer tinha como limpar, por isso usei a manga da minha própria blusa.
Uma retrospectiva de tudo que tinha acontecido para nos colocar ali passou pela minha mente: mas naquele momento nada daquilo importou, minha culpa era evidente, porém eu teria que me resolver com isso depois. Era tudo sobre Luka, sobre deixá-la confortável, calma e em paz.
— Não, querida. Você não fez nada de errado, nada. — Tentei usar uma voz calma, mesmo que por dentro fosse como se cada parte de mim estivesse quebrada em mil. — Eu estou muito orgulhosa da sua coragem, ouviu?
Luka respirava com dificuldade, de modo que o simples ato de concordar pareceu penoso. Ela reuniu todo o ar dos pulmões, como se realmente precisasse me dizer alguma coisa:
— Eles precisam de você, como eu precisei. — Sua voz estava rouca e fraca. — Não vão conseguir sozinhos...
Vê-la usar as últimas forças para me dizer aquilo teve um grande impacto em mim, era como um pedido final, que provava o quanto ela se importava com aquelas pessoas.
— Não se preocupe com isso agora, você precisa poupar suas forças. — Pedi, e percebi que minha voz também estava rouca pelo choro.
Luka fechou os olhos, como se estivesse usando todas as forças para se manter consciente. Era evidente que ela estava com dor e essa era a pior parte...
Eu tinha testemunhado diversas mortes na vida, principalmente depois do fim do mundo, mas nenhuma daquelas foi tão dolorida e injusta como estava sendo a da minha filha.
Ela não merecia aquilo. Era meu dever ter dado segurança e felicidade a ela, e eu falhei...
— Estou com medo, mãe... — Luka segurou minha mão, que acariciava seu cabelo.
Eu tinha esperado por anos para ouví-la me chamar de mãe, mas naquele momento a felicidade e orgulho de ouvir aquilo foram ofuscados pelo quanto foi devastador e triste.
Se houvesse uma só chance de trocar de lugar com ela eu faria isso sem pensar...
Luka era apenas uma criança que só merecia amor, carinho e segurança, não importava quantos anos tinha.
— Não precisa ter medo, amorzinho. Você vai ficar bem... — Tentei transmitir um pouco de calmaria através do carinho na minha voz. — Você vai para um lugar lindo, onde não tem guerra, maldade ou dor, ninguém vai te machucar outra vez. Você vai encontrar paz...
Luka abriu os olhos e sorriu de leve, ao mesmo tempo em que um filete de sangue escorreu pelo seu nariz.
— Promete? — Ela teve outro ataque de tosse e se afogou no próprio sangue, enquanto eu tentava inutilmente ajudar.
— Prometo. — Garanti, tentando manter toda a dor longe dos olhos e da mente dela. — Eu te amo...
— Daqui... até a... — A frase não teve um fim, Luka apenas fechou os olhos e deu seu último suspiro.
Era isso. Tinha acabado. Minha filha era apenas uma das vítimas em uma guerra injusta.
Ao longe pude ouvir um veículo se afastando, mas pouco importou se tinha alguém vivo ou morto, eu ainda não estava pronta para deixar o corpo da minha filha ali...
Enquanto meu grito de dor se misturava com minhas lágrimas e se espalhava pelo galpão, eu consegui montar uma lista mental de todas as coisas que eu podia ter feito para mudar aquilo. Todas as coisas que eu não fiz.
Eu tinha parado de lutar, isso matou a minha filha.
Eu tinha falhado como mãe...
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