Lifeline — Destiny Don't Give Up
26 Com Grandes Poderes...
Notas iniciais
• PETTER COOPER •
Quando eu tinha cinco anos mamãe me explicou pela primeira vez porque eu me chamava Petter, ainda me lembro que, enquanto ela pensou que a parte mais difícil seria me explicar sobre a morte do meu avô, eu estava mesmo era preocupado com outra coisa...
Na minha cabeça não era difícil aceitar que meu avô estava no céu, a morte não me assustou, porque, da forma como mamãe explicou, me pareceu apenas uma viagem que todos teríamos que fazer um dia.
Minha verdadeira preocupação foi: Se Peter era o pai da minha mãe e, portanto, meu avô, o que aconteceria então com o meu vovô Daniel? Ele não poderia mais ser meu avô? Tive medo que não ter o sangue dele o faria gostar menos de mim...
Foi exatamente nessa época que mamãe explicou que família nem sempre significa ter o mesmo sangue. Aprendi que Daniel sempre seria meu avô, porque o que fazia uma família era o amor que as pessoas sentiam umas pelas outras. Família era muito mais que sangue, era cuidado, carinho e preocupação.
Mamãe também disse que às vezes uma pessoa tem nosso sangue, mas não é nossa família. Se alguém te faz mal e te deixa triste então não é família, mesmo que tenha seu sangue.
Parecia importante para ela que eu entendesse essa última parte, tanto quanto era importante que eu entendesse a primeira.
Essa coisa de família ficou ainda mais clara pra mim depois que Luka chegou. Ela não tinha meu sangue, mas isso nunca a fez menos minha irmã.
Depois de Luka mamãe me ensinou que família também tinha que respeitar, amparar e apoiar.
Em seguida o mundo virou uma bagunça digna de um jogo de videogame, eu acrescentei mais uma coisa na minha lista: Família protegia um ao outro...
E, enquanto eu estava sentado na varanda de uma das casas de Alexandria, naquela tarde, vendo Bolt correr atrás do próprio rabo e fazendo uma listinha mental de tudo que faria de alguém minha família, eu me lembrei da conversa que tivera com a minha irmã um pouco depois que meu pai saiu de Alexandria e um pouco antes do segundo grupo também deixar os portões:
▪ ▪ ▪ ▪ ▪
Eu estava chateado porque Daryl tinha ido embora sem ver minha mãe e parecia triste com isso, ao mesmo tempo que minha mãe também estava triste pelo mesmo motivo.
Não fazia muito sentido, me deixava confuso... Se estavam triste por não terem falado um com o outro, porque apenas não falavam um com o outro?
Não era daquele jeito que eu tinha imaginado que as coisas seriam.
Pensei que eu poderia ter meu pai, minha mãe, minha irmã e meu cachorro, todo mundo feliz e junto... Não tinha nada de errado em querer algo assim, certo?
Eu estava sentado no sofá, encarando meus cadarços desamarrados e Luka sentou ao meu lado e me analisou por um tempão, totalmente calada.
— O que é que você tem? — Ela perguntou, estreitando os olhos na minha direção como se pudesse ler meus pensamentos.
— Nada... — Dei de ombros chateado e soltei um longo suspiro.
— Quem nada é peixe. — Luka retrucou batendo o ombro no meu, para me incentivar a falar.
Se tinha alguém que podia me ajudar a entender aquela situação com os meus pais, certeza que era a minha irmã.
— Acho que a mamãe e meu pai brigaram. — Revelei, me ajeitando no sofá, para poder encará-la.
— Por que você acha isso? — Perguntou neutra.
— Eles pareciam chateados e não se despediram... — Contei em um tom preocupado.
E se eles se afastassem de novo? E se algo realmente ruim tivesse acontecido e eles não pudessem fazer as pazes nunca?
— Faz sentido... — Luka assentiu algumas vezes e também se ajeitou no sofá, de modo que pudesse ficar de frente para mim. — Mas eu acho que você está se preocupando à toa.
O gesto banal que ela fez com a mão e o tom despreocupado que usou, me deixaram confuso.
Luka não era o tipo de irmã que fazia pouco caso das coisas que eu dizia, se ela estava tão calma, então ela sabia de alguma coisa que eu não sabia.
— Você acha? Por quê? — Perguntei, mal contendo a minha curiosidade.
— Está na cara que eles são complicados e tem muito pra resolver, mas acho que também está na cara que eles são tipo... — Ela parou por uns segundos como se estivesse pensando na palavra certa. — Almas gêmeas...
— Almas gêmeas? — Repeti, lembrando que a palavra não era estranha e tinha ligação com romance. Mas eu nunca soube exatamente o que significava. — E o que é uma alma gêmea?
Luka apoiou o cotovelo no encosto do sofá e então pousou o queixo sobre a mão;
— É tipo... — Ela pareceu pensativa por alguns momentos. — É tipo melhores amigos, só que mais... É aquela pessoa no mundo que te conhece melhor do que qualquer um; É aquela pessoa que aceitou e acreditou em você antes de qualquer um. Uma alma gêmea é alguém que você carrega consigo pra sempre e não importa o que aconteça, é alguém que você sempre vai amar, nada pode mudar isso, nunca.
Minha irmã pareceu satisfeita com a própria resposta, mas eu estreitei os olhos desconfiado.... Ela era minha irmã, conhecer os truques dela era tipo meu superpoder secreto.
— Isso parece bom... — Concordei meneando a cabeça, mas então estreitei os olhos desconfiado. — De que série você tirou, hein?
A gargalhada de Luka ecoou pela sala e ela fez um gesto com a mão como quem diz "me pegou".
— Dawson's Creek. — Admitiu, erguendo as mãos em rendição. — Mas em minha defesa é uma ótima definição de alma gêmea. Eu não teria explicado melhor.
Respirei fundo e a encarei por alguns segundos, decidindo se acreditava naquela definição ou não. Luka nunca tinha mentido pra mim, por isso resolvi dar um voto de confiança.
— E você acredita nisso? — Perguntei, querendo uma confirmação de verdade. — Acredita mesmo que eles são almas gêmeas?
— Acredito. — Ela assentiu, sem precisar de tempo para pensar daquela vez.
— Então acha que eles vão ficar juntos? — Questionei empolgado.
Luka respirou fundo e negou algumas vezes. Previ que a resposta não seria boa.
— O que eu acho é que eles se amam, mas.... — Eu não precisei que ela terminasse a frase, afinal eu conhecia aquela sentença muito bem.
— Mas nem sempre o amor é o suficiente... — Completei chateado.
— Exato, mas eu tenho certeza que independente do que aconteça eles sempre vão estar lá pra você. Os dois. Eles não vão desistir de você, nem te abandonar. — Ela garantiu e ao menos aquilo me acalmou um pouco.
Pelo visto vovó estava errada quando dizia que eu podia ter tudo que eu quisesse... Ver meus pais juntos não era tão simples quanto comprar uma bicicleta ou um videogame.
— Adultos são complicados... — Cruzei os braços e bufei.
Era como naqueles filmes chatos onde o mocinho ama a mocinha, mas os dois não ficam juntos, por causa de um motivo estúpido. Como naquele do navio afundando... Qual é?! Tudo mundo sabe que tinha espaço para o Jack em cima daquela porta...
Mas a vida real não era como um filme, pelo menos isso me dava alguma esperança.
E, naquele momento, eu sabia que tinha outras coisas com as quais eu devia me preocupar, logo mamãe e Luka partiriam com o resto do grupo para enfrentar Negan e eu ficaria em Alexandria sozinho. Bom, não sozinho, sozinho, um monte de gente ficaria por lá, mas não a minha família, eles estariam fora e isso me deixava preocupado.
— Você está com medo? — Perguntei quando Luka já tinha dado o assunto encerrado e estava levantando do sofá. — De amanhã, sabe... Ir até o Santuário e tal?
— Não. De alguma forma é mais fácil segurar uma arma agora, do que foi sentar naquele tribunal anos atrás... — Ela respondeu e parecia tão segura de si, que eu fiquei mais confiante também.
— Eu queria ir com vocês. Não queria ficar aqui sozinho. — Resmunguei. Claro que eu nunca diria aquilo para minha mãe, mas eu podia dizer pra Luka.
— Você não vai ficar sozinho, vai ter um monte de gente aqui e o Bolt. — Ela pontou o cachorro enorme que dormia no chão, com a barriga pra cima e a língua pra fora.
— É diferente. Eles não são minha família. — Retruquei neutro. — O Bolt é, mas é diferente também.
Luka voltou a se sentar no meu lado.
— Ah, não sei, eles... — De novo ela pareceu saber de mais do que eu e isso me deixou interessado. — Ah, deixa, melhor não falar nada não.
— Que? Ah, não! Nem vem! Pode falar tudo agora! — Exigi no limite da minha curiosidade.
— Tem certeza? Porque você sabe o que dizem sobre informação, certo? — Luka agia como se fosse algo importante, o que me deixava ainda mais empolgado.
Mas, não, eu não sabia o que as pessoas diziam sobre informação, então apenas neguei com movimentos rápidos de cabeça.
— Informação é poder. — Ela revelou, como se fosse um segredo. — E com grandes poderes...
— Vem grandes responsabilidades! — Completei imediatamente, claro que eu sabia sobre qualquer coisa do meu xará, Peter Parker.
— Exatamente, isso significa que se eu te disser o que eu sei, você vai passar a ter responsabilidades sobre isso. — Minha irmã explicou e eu podia até pular de tanta euforia.
— Eu sei, eu sei, pode contar, estou pronto para responsabilidades! — Assenti várias vezes.
— Bom... Me parece que algumas pessoas aqui são a família do seu pai, por tabela, sua família também... — A revelação veio em um tom que fez parecer muito importante, mas assim que eu ouvi tive a leve impressão que Luka estava fazendo de propósito, para me manter interessando. O que obviamente deu muito certo.
— Sério? — Comecei a divagar nas possibilidades...
Eu nunca tivera um pai, quem dirá uma família por parte de pai, então claro que aquela novidade me deixava ansioso e animado.
— Pelo que eu percebi Rick e Daryl são tipo eu e você, não tem o mesmo sangue, mas são irmãos. — Ela explicou e eu me senti meio burro de não ter pensado naquilo antes.
— Então o Cabeça de Melancia é meu tio? — Duvidei e Luka assentiu algumas vezes. — Eu nunca tive um tio... Mas ele não vai estar aqui...
Cruzei os braços, eu tinha acabado de ganhar um tio e ele também estaria fora da comunidade, era só mais alguém para me preocupar.
Não tinha responsabilidade nenhuma ali, nem nada de grandes poderes, aquilo era só minha irmã tentando fazer uma coisa chata ser empolgante...
— Mas o Woody vai, e ele é filho do Rick. Acho que isso faz dele seu primo certo? — Luka revelou e eu me senti estúpido por não ter feito a associação primeiro.
A coisa mais próxima de um primo que eu já tinha tido era o Mike, mesmo assim era diferente, porque ele não era família por parte de pai, e de alguma forma aquilo pareceu fazer toda diferença na minha cabeça
— É, acho que isso faz dele meu primo... — Repeti, enquanto concordava, ainda meio atordoado pela revelação e ainda sem entender onde estava a responsabilidade ali.
— Ouvi dizer que ele vai ficar no comando, vai estar cuidando de todo mundo e tals. Sabe o que eu acho? — Luka comentou em um tom casual e eu movi minha cabeça como quem pergunta "o que?" — Ele vai precisar de alguém pra tomar conta dele. Alguém discreto e que não chame muita atenção... Alguém da família. Mas eu entendo se você não puder e...
Grandes poderes de espião! Responsabilidade!
— Eu posso fazer isso! — Retruquei no mesmo instante.
Parecia o tipo de trabalho perfeito pra mim.
— Se você diz... — Ela deu de ombros...
Ainda nos falamos mais uma vez antes que ela e mamãe deixassem a comunidade, e depois de uma lista imensa de recomendações das duas eu e Bolt ficamos sozinhos em Alexandria, com uma grande responsabilidade e toda essa coisa de missão secreta.
Alguém da família pra proteger.
▪ ▪ ▪ ▪ ▪
Contudo percebi logo que Luka tinha me tapeado, Carl não precisava de proteção.
Não tinha nenhuma responsabilidade em ficar de olho nele.
Tudo que o Woody tinha feito desde que todo mundo saíra era ficar com aquela Naniquinha e cuidar de Michonne, que não parecia muito feliz de estar na enfermaria.
Na verdade, ninguém em Alexandria parecia muito feliz, todos tinham aquela cara de preocupados e isso me deixa muito nervoso e assustado. Daryl não estava de volta ainda, nem minha mãe e Luka, eu não sabia se aquela demora era normal ou se era pra eu começar a pensar que alguma coisa ruim tinha acontecido.
— Não. Não. Nada aconteceu. Mamãe deixou claro que podia demorar, mas que ficaria tudo bem. — Lembrei em voz alta e Bolt veio balançando o rabo na minha direção.
Resolvi caminhar um pouco e procurar alguma coisa pra fazer, ficar pensando coisas ruins não ajudaria o tempo a passar mais rápido.
Quando a Luka chegar ela vai ver só, não vou deixar ela se safar, me tapeou mesmo com a coisa de "com grandes poderes..." fui pensando, enquanto seguia pelas ruas, com Bolt logo atrás de mim.
Andamos por algumas casas e eu percebi que não tinha muita gente na comunidade, a maioria estava na luta contra os Salvadores, mas o pouco que estava ali parecia aflito, como se estivessem esperando por uma tragédia.
Gente adulta era sempre muito preocupada.
Eu estava recolhendo algumas pedrinhas quando uma das mulheres passou carregando a Naniquinha.
Estranhei, afinal Carl devia estar com a irmã...
— Você sabe onde está o Carl, moça? — Perguntei para a mulher que eu não fazia ideia do nome.
— Ele deve estar com a Michonne na enfermaria, deixou a pequena Judy comigo, quer brincar com ela? — A mulher sacodiu a menina no colo, como se ela fosse um chocalho, e eu temi que a Naniquinha colocasse todo o almoço pra fora.
Dei alguns passos para trás e neguei várias vezes. Eu não tinha nada contra bebês, mas honestamente também não tinha nada a favor, eles não falavam, choravam demais e às vezes ficavam fedidos.
Judith não era exatamente um bebê, mas mal falava ainda, o que eu ia ficar fazendo com ela?
'Tô fora! Bem fora!
— É que eu 'tô procurando o Carl mesmo. — Abri um sorriso amarelo e fui saindo de fininho.
Não fazia sentido que o Woody tivesse deixado a Naniquinha pra ir ver Michonne...
Senti que tinha algo estranho ali e segui na direção da enfermaria. Fui discreto e silencioso, Michonne e Rosita estavam acordadas e preocupadas como todo o resto, mas Carl não estava com elas e eu achei aquilo muito estranho.
Resolvi me revelar e elas mudaram de assunto no mesmo instante, como se não quisessem me preocupar com aquela coisa de guerra. Joguei um pouco de conversa fora e perguntei do Carl.
Michonne disse que ele estava com Judith. Mas eu sabia que não estava...
Desconfiado, eu me despedi delas e resolvi procurar por toda a comunidade, algo me disse que eu devia procurar rente ao muro e foi isso que eu fiz.
Na parte de trás eu percebi que um deles tinha um pino na placa e uma marca de um sapato ali. Nem precisei pensar muito pra descobrir tudo: Carl não estava na comunidade.
Eu não sabia porque ele tinha saído, não sabia quando ele ia voltar, mas de uma coisa eu tinha certeza: deixar ele lá fora sozinho não era uma boa ideia.
Luka tinha dito pra eu ficar de olho no meu primo, então, com grandes poderes ou não, com responsabilidade ou não, era exatamente isso que eu faria.
Voltei correndo para casa e coloquei tudo que eu podia precisar em uma mochila. Também peguei uma faca de caça, que eu tinha visto minha mãe esconder com fita em baixo da mesa, na sala, o meu estilingue e todas as bolinhas que meu pai tinha me dado.
Eu podia precisar.
Coloquei a mochila nas costas e saí discretamente, tomando cuidado para não ser visto por ninguém. Eu já estava perto do muro quando Bolt me alcançou e me deu um susto com um latido estridente.
— Shhhh! — Pedi com o indicador nos lábios. — Vai me fazer ser pego.
Bolt não se deu por satisfeito, era como se ele soubesse o que eu faria e não estivesse muito satisfeito com isso.
Eu sabia que não havia como sair com ele, eu não era forte o suficiente para passar um Husky enorme por cima do muro, assim como ele era um cachorro, por isso não podia escalar.
— Escuta... — Pedi acariciando a cabeça dele. — Você tem que ser bonzinho e ficar aqui. Carl pode estar precisando da minha ajuda lá fora.
Não adiantou muito, afinal, assim que coloquei o pé no muro Bolt latiu outra vez.
Eu teria que ser firme, ou ele não me obedeceria.
— Vai deitar! — Mandei no tom mais autoritário que eu podia. Mas foi horrível, porque isso partiu meu coração.
Bolt abaixou a cabeça e foi em passos lentos e tristes, e eu fiquei ainda mais chateado, mas prometi a mim mesmo que quando eu voltasse daria algo bem grande e gostoso pra ele comer. Eu o deixaria feliz de novo.
Pulei o muro metálico com facilidade e a partir daí não foi difícil achar o rastro do Carl. Ele não tinha passado por ali há muito tempo, ou seja, se eu apertasse o passo podia alcançá-lo.
Mas não foi tão fácil assim, eu já tinha andado por quase uma hora inteira e nada do Carl. Comecei a pensar que estava seguindo um rastro errado, mesmo que nunca tivesse errado nesse tipo de coisa na vida.
Além disso, não havia um motivo para meu primo estar ali.
Quando cheguei a um posto de gasolina na estrada eu resolvi que era hora de voltar, rastrear pra dentro da cidade era uma péssima ideia. E, com sorte, Carl já estaria de volta.
Parei e bebi um pouco de água, estava pronto para seguir quando o som de alguns podres me alertou e eu resolvi evitar um confronto direto e fugir.
Entrei na floresta pelo lado oposto ao que eu tinha vindo e procurei não fazer barulho para não ser notado. Não eram tantos, mas mamãe sempre ensinou que devíamos evitar uma luta com eles se pudéssemos.
Se machucar com um dos podres era sempre um risco, já que um simples arranhão era o bastante para que a febre tomasse conta do nosso corpo.
Eu já tinha visto acontecer em Sherwood. Um dos meninos tinha saído pra brincar na floresta e resolveu provocar um dos podres, ele fugiu, mas o morto tinha segurado em seu braço antes disso.
Ele chegou na comunidade com um simples arranhão, disse que não era nada e em menos de dois dias estávamos fazendo o enterro dele.
"Pessoas morrem e tragédias acontecem, temos que aprender a lidar com esse tipo de coisa" foi o que minha madrinha, Naomi Park, disse, mas mamãe nunca foi muito boa em lidar com esse tipo de coisa.
Mortes sempre a abalaram demais...
Resolvi subir em uma das árvores e esperar os mortos passarem, mesmo assim mantive o estilingue em punho e a faca de caça a fácil acesso.
No entanto, depois de poucos minutos, percebi que eles mudaram de direção do nada.
Presumi que tivessem ouvido algo que eu não podia e decidi que era boa ideia segui-los a uma distância segura, afinal o rastro de Carl estava por perto.
Esperei alguns minutos e desci da árvore, depois disso só tive que seguir o rastro dos mortos. Era bem mais fácil, por conta dos passos arrastados.
Não demorou e eu percebi que entre as árvores havia uma briga acontecendo, a primeira pessoa que eu vi foi um homem, que lutava com um dos mortos, mas não parecia em grandes problemas, porque era como se todos os podres ali estivessem ocupados seguindo para outra coisa, no chão.
Vi um cavalo em pedaços e então algo que fez meu coração disparar. Carl tinha caído sobre o corpo do cavalo e um dos mortos já estava sobre ele, enquanto mais dois se aproximavam.
Eu não pensei, eu apenas respirei e mirei meu estilingue, naquele tipo de situação eu sabia muito bem que um segundo era a diferença entre vida e morte.
Atingi a cabeça do morto certeiramente com uma das bolinhas de gude e o corpo apodrecido caiu sobre Carl. Passado o segundo de surpresa, ele reagiu rápido e atirou em outro errante que estava perto demais.
Infelizmente o tiro começou a atrair mais e mais errantes, ao passo que eu, Carl e o homem desconhecido não tivemos tempo de trocar uma palavra.
Me ocupei dos que estavam mais perto de mim, e tive que improvisar com a faca de caça e alguma agilidade, já que eles eram mais altos que eu e entrar em uma briga corpo a corpo era sempre desvantagem para mim.
Carl não podia mais se dar ao luxo de não usar a arma e eu não podia me dar ao luxo de prestar atenção em mais ninguém, já que me encontrava bem encrencado cercado por três podres.
Comecei a ficar assustado, não era divertido como caçar um ou outro na floresta. E, acima de tudo, eu estava por minha própria conta ali, nem minha mãe nem Luka apareceriam pra me proteger.
Um dos errantes se jogou sobre mim e o peso foi demais para o meu corpo, caímos juntos e eu tentei me esquivar para não ser mordido.
Olhei ao redor rapidamente e Carl estava ocupado com os próprios podres, assim como o homem desconhecido.
Consegui fincar a faca na cabeça do errante, mas o corpo dele caiu inerte sobre o meu e me deixou preso no chão, enquanto um segundo errante se jogava sobre nós.
Eu não conseguia me mexer ou usar a faca, fechei os olhos com força prevendo a mordida que eu levaria no rosto, mas isso não aconteceu.
Um som que pareceu um rosnado ecoou bem perto do meu ouvido e de repente parte do peso sobre meu corpo cedeu.
Abri os olhos e vi que Bolt tinha a cabeça do errante entre os dentes. Eu não sabia como ele tinha me achado, nem como ele tinha saído de Alexandria, mas eu sabia que ele tinha acabado de salvar minha vida.
Com algum esforço consegui escapar do corpo sobre mim, enquanto Bolt acabava com mais dois podres e Carl usava a arma em mais alguns.
Ainda tive que acertar um com o estilingue, mas isso foi tudo. Tínhamos vencido.
Ufa! Se eu fosse devorado vivo a minha mãe ia me matar.
Corri até Bolt e o acariciei, enquanto ele lambia meu rosto.
— Bom garoto! Não sei como você saiu, mas parabéns, nunca mais escute minhas ordens mesmo. — Agradeci, enquanto fazia festa pra ele.
— Petter? — Carl veio caminhando na minha direção e eu notei que a roupa dele estava toda ensanguentada. — Como foi que você chegou aqui?
— Eu segui seu rastro. — Dei de ombros, porque pra mim aquilo era uma coisa bem simples.
— Você seguiu o meu... — Ele deixou a frase no ar e assentiu algumas vezes, enquanto soltava um sorriso meio desesperado. — Caramba! Você só podia ser filho do seu pai.
Abri um sorriso orgulho e apontei o homem que se aproximava:
— Quem é esse?
— Esse é o Siddiq um amigo que precisava de ajuda. — Carl apontou, e eu finalmente entendi porque ele tinha saído da comunidade e estava se arriscando ali fora.
— Oi, Siddiq! — Acenei para o homem que correspondeu timidamente. — Eu sou o Petter e esse é o Bolt.
— Todas as crianças da sua comunidade são algum tipo de prodígio assim? — O homem apontou na minha direção, enquanto falava com Carl.
Eu fiquei ainda mais orgulhoso de mim mesmo. Siddiq era um carinha legal, tinha valido a pena quase perder metade do rosto pra ajudar ele. Sim, eu decidi isso em dois segundos, ele disse que eu era um prodígio e estava acariciando o Bolt, estava na cara que ele era do bem.
— Acho que você vai descobrir quando chegarmos lá. — Carl incentivou para que começássemos a andar.
— Como você sabia que encontraria ele aqui? — Perguntei, enquanto caminhávamos os quatro, lado a lado.
Então Carl me contou toda a história, como ele tinha visto Siddiq e Rick tinha tentado espantar o rapaz com um tiro, e que ele tinha voltado ali na esperança de encontrá-lo e poder ajudar, afinal de que adiantaria ter uma comunidade como Alexandria se não pudéssemos ajudar as pessoas?
Eu concordei com aquela última parte, afinal deixar uma pessoa sozinha, sem casa, sem comida e sem proteção, quando tínhamos tudo isso pra dividir, não era o tipo de coisa que um herói faria.
— Com grandes poderes vem grandes responsabilidades. — Declarei como se isso explicasse todo meu ponto de vista e Carl franziu as sobrancelhas como se não entendesse. — Nós temos grandes poderes, ou seja, Alexandria, por isso temos grandes responsabilidades, como ajudar as pessoas que precisam.
— Isso é muito sensato na verdade... — Carl assentiu algumas vezes como se não conseguisse acreditar no que eu tinha dito.
No entanto eu vi um pequeno probleminha em toda aquela história...
— Olha, não é por nada não, mas eu acho que o Cabeça de Melancia não vai ficar muito feliz de saber que você saiu sozinho pra vir até aqui... — Comentei naturalmente, enquanto seguíamos andando.
— Cabeça de Melancia? — Carl repetiu em um tom intrigado e eu percebi a burrada que eu tinha acabado de fazer.
Eu e minha boca gigante...
— Ah, eu... é... — Tentei achar algo que me tirasse daquela enrascada. — Eu trouxe salgadinho, vocês querem?
Peguei o saco na bolsa e abri, enfiando uma porção de salgadinhos na boca, assim ninguém poderia me obrigar a falar nada. Porque é falta de educação falar de boca cheia. Não estavam muito gostosos, mas salgadinho murcho e insonso era o melhor tipo de salgadinhos que podíamos encontrar depois do fim do mundo.
Pelos menos não estava estragado.
Carl riu de canto e Siddiq aceitou minha oferta, enquanto dizia que não queria se tornar um problema para nenhum de nós. Mas Carl estava decidido a levar o rapaz para a casa e de minha parte ele tinha total apoio, se ele soubesse fazer a "carinha" o Cabeça de Melancia nunca seria capaz de resistir.
Pelo menos a "carinha" sempre funcionou com a minha mãe...
Enquanto Carl ainda conversava com Siddiq ele disse algo que meio que grudou na minha mente:
— Às vezes os filhos têm que encontrar seu próprio jeito de mostrar o caminho aos pais...
Gostei daquilo e meio que tive uma grande ideia. Podíamos esconder o Siddiq até que todo mundo se acalmasse. Falei isso em voz alta.
— Acho que o Petter está certo, podemos manter você escondido até meu pai digerir a notícia, só por precaução. — Carl concluiu e não pareceu muito bravo por descoberto que eu tinha dado um apelido para o pai dele.
Graças a Deus!
Combinamos de esconder Siddiq sob a comunidade, eram tuneis subterrâneos, que deviam ser usados pra qualquer coisa que eu não entendi bem.
Eu nunca tinha visto o lugar, mas Carl disse que podíamos entrar por fora dos portões e então sair dentro de Alexandria, quase como uma passagem secreta.
Não tem nada nesse mundo mais empolgante que uma passagem secreta, então é claro que eu concordei de cara.
Continuamos seguindo para a comunidade sem maiores imprevistos, com Siddq revelando que estava fazendo residência em medicina quando tudo aconteceu.
Eu podia ser pequeno e não saber muita coisa sobre como montar uma comunidade e sobreviver, mas até eu sabia que ter um médico era um trunfo e tanto. Então ajudar Siddiq, mesmo sem saber de nada disso, tinha sido a melhor coisa que Carl poderia ter feito.
Estavamos em silêncio por algum tempo e eu peguei Carl olhando a própria camiseta toda ensanguentada, com um olhar preocupado.
— Tudo bem? — Perguntei sentindo meu coração disparar quando percebi que tinha um furo nela.
Se Carl tivesse sido mordido...
— Eu estou... — Ele ergueu a camiseta e limpou o sangue que tinha transferido para sua barriga com a manga da camisa xadrezada. — Bem.
Não tinha nada lá, nem mordida, nem arranhão, era apenas uma camisa furada e muito sangue.
— Mas eu podia estar voltando pra casa com uma mordida agora, se você não tivesse chegado. — Ele pareceu assustado em dizer aquilo.
Na verdade, eu também estava assustado com aquela coisa de quase perder metade do meu rostinho.
Pelo visto eu e o Carl tínhamos visto a morte bem de perto e escapado por pouco. Luka estava certa quando disse que eu devia cuidar do meu primo...
— Mas eu estava aqui e acabou tudo bem, ué. — Dei de ombros como se não fosse nada demais. — Além disso, somos primos, temos que cuidar um do outro.
— Somos primos? — Carl pareceu confuso com o que eu tinha dito por um instante, mas então abriu um sorriso. — É sim, você está certo, somos primos. Eu, você a Luka e a Judith...
Como assim a Judith? Ah Não! Como assim eu teria que cuidar da Naniquinha também? Que mancada! Eu tinha me arrependido dessa coisa de "grandes responsabilidades"...
— Pode até ser, mas eu não vou trocar fraudas! — Deixei claro e Carl caiu na risada.
— A Judy não usa fraudas mais, ela já vai fazer três anos. — Ele respondeu bem-humorado.
— Graças a Deus! — Fiz um movimento exagerado e até Siddiq riu.
— Bom, mas vamos apressar o passo. — Carl incentivou de repente. — Não vai acabar nada bem, se chegarmos em casa depois dos nossos pais. Se o Daryl ou a Natalie souberem que você estava aqui fora comigo, eu estarei morto, com ou sem mordida.
Foi minha vez de rir. Eu tinha ganhado um primo muito legal e uma prima não tão legal de brinde, as coisas estavam indo muito bem e eu tinha uma ideia ótima pra deixar tudo ainda melhor:
Quando meus pais estivessem de volta, eu recrutaria Luka e meu novo primo para uma daquelas operações cupido dos filmes, afinal: "Às vezes os filhos têm que encontrar seu próprio jeito de mostrar o caminho aos pais..."
Aquilo me fez ver que eu tinha o poder de mudar as coisas para os meus pais... E com grandes poderes... Bom, vocês já sabem.
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