Lifeline — Destiny Don't Give Up
20 Verdades e Desafios - parte II
Notas iniciais
• DARYL DIXON •
Pesadelo...
Eu sempre fui habituado a essa particularidade do sono. Com o passar dos anos, o impacto dos pesadelos perdeu o efeito em mim. Suponho que tenha a ver com o costume e, talvez, com a certeza de que, por pior que, fosse eu acordaria. Mesmo que a realidade fosse uma merda e que tudo estivesse desmoronando, a certeza de acordar causava uma sensação de segurança, afinal, antes a tragédia conhecida do que a aflição desconhecida de um pesadelo.
Quando eu abria os olhos todo acabava. Era mais fácil daquele jeito. Fazia as coisas se tornarem suportáveis.
Mas, e quando acordar não é mais possível? E quando todos os seus pesadelos se tornam reais?
Era isso que eu estava vivendo naquele momento, sozinho no quarto... Não importava quantas vezes eu abrisse e fechasse os olhos, sair daquela situação era impossível. Não era um pesadelo, embora fosse a personificação do pior deles...
Todas as palavras de Natalie continuavam rodeando a minha cabeça, em um loopping infinito que me causava náuseas. Era até difícil dizer qual parte daquela conversa me atingiu mais profundamente.
"Você pode me culpar e me odiar, tudo bem. Nossa história acabou, nós não precisamos ser nada um do outro..."
Tinha como ser pior? Eu quis dizer que eu nunca faria aquilo... Mas eu não consegui, e sejamos honestos, de que adiantaria?
Natalie estava certa, aquilo não era sobre nós dois, e já era complicado o bastante sem ser, adicionar meus sentimentos conturbados e mal resolvidos na situação não adiantaria de nada.
"Você é o pai dele."
Eu não podia fazer aquilo. Essa era minha única certeza. Eu não podia ser pai. Quer dizer, eu não podia ser o tipo certo de pai...
Eu não era como Rick, como Hershel, ou como o Glenn... Tudo que eu traria para a vida daquele garoto seria dor e destruição.
Minha cabeça dava voltas, era como se eu tivesse sido jogado em alto mar sem saber nadar. Eu nunca imaginei que sentiria tanto pânico como sentia naquele momento. Era algo inexplicável, quase irracional. Me impedia de pensar, me deixava paralisado.
A pior parte era o conflito, quer dizer, eu não me sentia capaz, preparado ou digno de ser pai, mas, ao mesmo, tempo eu já era pai, certo? Não tinha como mudar isso...
Então, quais eram minhas opções? Fingir que eu não sabia de nada? Me negar a assumir minhas responsabilidades? Agir como se a Natalie tivesse feito aquele filho sozinha?
Sim, eu tinha dito que não queria ser pai, não me lembrava desse momento especifico da briga, mas soava como algo que eu diria, porque era verdade, eu não queria ser pai, eu não queria ter um filho, mas dizer isso quando você ainda não tem um filho é uma coisa, dizer quando já tem, é outra.
Eu jamais teria dito aquelas coisas se soubesse, eu não era tão filho da puta assim. Mesmo naquela época, eu sabia que uma criança não era como uma coisa que a gente podia devolver por insatisfação.
Nunca banalizei essa coisa de filhos, principalmente a responsabilidade que vinha com isso, exatamente por esse motivo eu nunca quis ser pai. Eu sempre soube o que significava. Eu sempre soube que não podia...
Mas eu não teria deixado Natalie sair de Dawsonville se eu soubesse a verdade. Ou pelo menos preferi pensar assim.
E, mesmo no meio daquela avalanche de pensamentos confusos, eu entendi o quanto Natalie tinha se sacrificado naquela época... Com todas as informações no lugar eu fui obrigado a encarar a verdade: Eu destruí a vida dela, eu deixei as coisas dez vezes mais difíceis e fiz de tudo um pesadelo. E a minha Bochechas não merecia nada daquilo.
Ela tinha todos os motivos pra me odiar, não o contrário. Então como eu podia ser pai do filho dela depois de tudo aquilo? O que de bom eu podia trazer pra vida deles?
Talvez, se eu nunca a tivesse mandado partir as coisas tivessem sido diferentes... "Tudo que eu queria era uma família com você..."
Minha mente vagou para uma realidade alternativa, e por um segundo as coisas deram certos, mas foi um segundo apenas, a verdade era uma só, com filho ou sem eu e Natalie estávamos destinados a ruina.
Ter crescido longe de mim foi o que garantiu para o garoto ter uma infância decente. Porque eu não precisava especular sobre esse assunto, eu simplesmente sabia que Natalie tinha sido a melhor mãe que alguém poderia ser. Eu sabia que o menino tivera tudo que eu nunca poderia dar.
Com criança ou sem, realmente mandar Natalie embora foi a melhor coisa.
No entanto, naquele momento "a melhor coisa" e "a coisa certa", não eram a mesma coisa. Porque apesar de melhor, não tinha sido certo ou decente deixar Natalie criar um filho sozinha, afinal ela não fez aquele bebê sozinha.
Passei as mãos pelo cabelo e só então me dei conta que eu estava andando de uma lado para o outro. Eu tinha encontrado o ponto de conflito, eu sabia que não podia fugir daquilo, mas ao mesmo tempo não sabia como fazer dar certo.
No fim, eu ainda era um Dixon, nada bom viria de mim. Qualquer pessoa seria um pai melhor que eu, mas não dava pra fugir, não era certo, não naquele ponto.
Deixar Natalie partir com o garoto sem ter dito nada, era uma coisa, afinal eu não tinha direito de fazer parte da vida dele, se a própria mãe não quisesse. Mas a partir do momento em que ela ficou, a partir do momento em que ela explicou tudo, eu não tinha mais desculpas pra continuar com a negação.
Eu era pai daquele garotinho e não fazia ideia do que faria sobre isso.
Suspirei e neguei algumas vezes, para piorar toda a situação estávamos no meio de uma guerra, nem o básico, que era prover a segurança de uma criança, eu conseguiria. A lista de pessoas que eu tinha deixado morrer só aumentava...
O som de alguém no andar de baixo me obrigou a voltar para a realidade. Limpei o rosto e arrumei a postura antes de sair do quarto, seguindo para as escadas, logo depois de dar uma olhada rápida na pequena Bravinha.
— Hey, Daryl, a Natalie já foi? — Rick saudou assim que me viu. — Michonne disse que ela estava com a Judith.
— Eu disse pra ela ir. — Respondi sem vontade, olhando a porta de saída, dando um passo naquela direção, quando Rick me interrompeu.
— Eu estava pensando em usarmos os mortos como vantagem... — Começou um monólogo sobre seus planos.
Além do meu mundo estar desmoronando a realidade não tinha parado pra esperar isso acontecer. Ainda tínhamos uma guerra para vencer.
E foi quando a ideia me ocorreu: havia uma coisa que eu podia fazer pra cumprir meu papel de pai...
— Claro. — Eu assenti de imediato, mesmo antes que Rick concluísse sua explicação. — Pode me colocar na linha de frente de qualquer plano. Qualquer coisa que você decidir, eu estou dentro.
Assenti rapidamente, tentando desviar de Rick. Qualquer plano do xerife que me colocasse próximo o bastante de Negan seria um ótimo plano, eu só precisava de uma brecha para matar o cretino e, naquele instante, nem importava mais se eu sairia daquilo vivo ou não.
Sejamos honestos, seria melhor para todo mundo que eu não saísse...
Matar Negan e todos aqueles Salvadores era o único jeito de manter Natalie e Petter seguros, era o que eu tinha que fazer, não importava se isso colocava minha vida em risco ou não.
— Daryl, você está bem? — Rick perguntou, me detendo antes que eu passasse.
Murmurei uma afirmativa e segui para a porta. Eu só queria sair daquela casa o mais rápido possível, era como se eu estivesse sufocando.
— Você não parece bem. — O xerife retrucou enquanto me seguida.
— Mas eu estou... — Dei de ombros e percebi que Rick não me deixaria sair da casa, então segui para a cozinha, no intuito de fugir dele.
Não adiantou, Grimes me seguiu, ele queria conversar e algo me dizia que não era sobre os planos de guerra...
— Falou com a Natalie, já sabe que ela vai ficar? — Perguntou de supetão, enquanto eu fingia procurar algo pra comer nos armários.
— Isso não é da minha conta. — Retruquei seco.
Nada contra o Rick, mas eu não queria falar de Natalie com ele, ou melhor, eu não queria falar de Natalie com ninguém.
— Talvez não seja mesmo... — Deu de ombros e eu pensei que o assunto morreria ali. — Mas talvez ela precise de você.
A frase me pegou de surpresa, então eu acabei me virando na direção de Rick.
— Do que você está falando? — Será que a Natalie tinha dito alguma?
Ele parou naquela postura costumeira, uma das mãos na cintura e o peso apoiado em uma perna só, então encarou os sapatos por um ou dois segundos.
— Estamos passando por um monte de coisas, todos nós. Mas nós temos uns aos outros, somos mais fortes por isso. Mas a Natalie... — Soltou um suspiro preocupado, e instantaneamente aquilo me deixou alerta. Será que havia algo ali que eu não estava vendo? — Bom, ela foi traída pelo próprio grupo, perdeu tudo, inclusive os filhos, e esteve nas mãos do Negan por seis meses. Não sabemos o que ela passou lá dentro.
Meu corpo travou, acho que ele entendeu o significado daquilo antes mesmo da minha própria mente consciente. Todos os alarmes dispararam.
— Eu sei que você até pode imaginar, mas você esteve lá por alguns dias Daryl... E você não é uma garota pela qual um homem como aquele é obcecado. — Rick estava sério, preocupado. Seu tom tornava as coisas impossíveis de ignorar.
— Para. — Pedi em um tom urgente. Minhas pernas tremiam e eu tive que andar de um lado para o outro no intuito de disfarçar isso. — Nada assim aconteceu.
Meus pulmões arderam. A visão que começou a se formar na minha mente era aterrorizante demais, impossível de suportar. Rick me encarou de modo compassivo, mas não recuou.
— Eu sei que você não quer encarar isso, Daryl. Mas aconteceu. Aconteceu bem na frente dos nossos olhos. — Ele se referiu àquele beijo asqueroso. — A gente só não sabe se já tinha acontecido antes, e de outros jeitos, jeitos piores...
Tive que parar e me encostar na bancada da pia, antes que minhas pernas me traíssem. Engoli em seco. Eu sabia exatamente o que aquele tipo de violação significava e, imaginar que Natalie tinha passado pelo mesmo, despertava coisas em mim com as quais eu não era capaz de lidar.
— Ela precisa de apoio. E não vai falar sobre essas coisas com os filhos. — Rick deu alguns passos para a esquerda, se encostando no balcão e cruzando os braços. — Eu pedi pra Maggie falar com ela, mas não deu muito certo, ela não confia na gente o bastante ainda, considerando o que o grupo dela fez, é até compreensível.
Eu entendi onde ele queria chegar. Rick queria que eu falasse com a Natalie, ele pensava que, por causa do meu passado com ela, seria mais fácil pra mim. Mas não era, porque aquele assunto tocava nas minhas próprias feridas.
Feridas que nunca tinham curado. Aquele tipo de ferimento que tinha que ser tratado e deixado aberto para cicatrizar, mas preferimos esconder com um curativo enorme, pensando que isso vai ajudar de alguma coisa, sem saber que, quanto mais aquilo ficar abafado, pior vai ser...
— Eu não sou a pessoa que ela precisa. — Lutei para que minha voz saísse. — Eu não posso ser essa pessoa...
Rick me encarou por alguns segundos antes de negar, sua desaprovação era evidente. Mas o xerife não conhecia o meu passado. Ninguém conhecia. Ele não tinha como saber o que aquela situação significava pra mim.
E era ainda pior, considerando todos os assuntos que eu tinha inacabados com a Natalie...
— Você é o meu melhor amigo, Daryl. Eu te considero da família, e eu já te vi ser mais corajoso do que qualquer pessoa que eu conheço. Mas, com todo o respeito, agora você está sendo estúpido e covarde. — Rick foi bem direto, o que acabou me pegando de surpresa. — Porque eu te conheço faz só três anos, mas está claro como água pra mim que você ama aquela mulher e você precisa dela, tanto quanto ela precisa de você agora... Todo o resto são apenas desculpas.
— Não é assim tão simples. — Devolvi, mais por impulso do que por convicção.
— Mortos voltando a vida, não é tão simples. Ver nossos amigos morrerem pra um maluco com um taco, não é tão simples. Uma guerra no meio de um apocalipse, não é tão simples... — Ele enumerou dando alguns passos pra fora da cozinha. — Como eu disse, todo o resto são apenas desculpas.
Deixou o cômodo logo em seguida, sem esperar por uma resposta minha. Foi em direção ao quarto de Judith no andar superior e eu aproveitei para deixar a casa, pegando minha besta perto da porta por puro costume.
Não vou mentir, minha intenção era correr para a floresta e me perder por lá, só pelo tempo necessário para esfriar a cabeça e tomar uma decisão definitiva sobre a minha vida, no entanto, senti que minhas pernas não seriam capazes de me levar ao meu destino, então apenas me sentei na varanda. Deixei meus ombros caírem e mantive meus olhos perdidos no nada, enquanto minha mente mergulhava de novo em toda aquela complicação.
Eram mesmo complicações ou, como Rick dissera, eram apenas desculpas?
Não tive tempo de pensar em uma resposta, menos de cinco minutos depois Carol apareceu descendo a rua e se sentou do meu lado.
Ficamos em silencio por um tempo, apenas sentados um do lado do outro. Eu não conversava com Carol desde que estivera no Reino, ocasião na qual eu havia mentido para ela sobre os Salvadores, Glenn e todo o resto. Certamente eu devia um pedido de desculpas por isso.
— Eu não te contei sobre o que aconteceu aqui porque... — Tentei começar uma explicação, mas Carol me interrompeu erguendo uma das mãos.
— Eu sei porque você não me contou, Daryl. — Ela deu de ombros enquanto olhava a rua na nossa frente. — Eu não estava pronta pra ouvir a verdade. Eu não queria ouvir a verdade. Mas eu estou aqui agora, vamos resolver isso.
Assentimos um para o outro e isso foi o bastante. Agradeci mentalmente por aquele assunto ter se resolvido fácil, a última coisa que eu precisava naquele momento era outro tipo de situação complicada...
Continuamos ali, sentado lado a lado. Carol tirou um maço de cigarros do bolso e me estendeu um deles, que eu aceitei de bom grado. Ela acendeu o dela primeiro, me entregando o isqueiro.
Traguei profundamente, jogando a fumaça no ar e suspirando. Eu não podia protelar pra sempre, eu tinha que tomar uma decisão.
— Tem alguma outra coisa incomodando você? — Carol perguntou, depois de um tempo analisando meu perfil.
Neguei sem tanta convicção assim, apenas força do hábito, e Carol estreitou os olhos, algumas vezes eu odiava a perspicácia dela.
— Nem a Salvadora, que supostamente odeia o Negan, andando entre o nosso grupo? — Lançou, se referendo a Natalie com mais desconfiança do que seria seguro.
A última coisa que eu queria naquele instante era Carol com qualquer dúvida quanto a Natalie, era uma questão básica de sobrevivência. Minha amiga podia ser implacável e isso assustava até mesmo a mim. O mínimo que eu podia fazer era garantir a segurança da mãe do meu filho.
— Ela não é uma Salvadora, nunca foi. — Respondi convicto e percebi que era a primeira vez que eu defendia Natalie daquele jeito.
E aquilo pareceu tão certo, tão natural, que eu me senti péssimo por não ter feito antes. Percebi que tinha algo muito errado comigo, quer dizer, eu tinha acabado de defender Natalie facilmente porque ela era "a mãe do meu filho", mas fui incapaz de fazer o mesmo quando ela era apenas "a mulher que eu amei".
Amei, ou ainda amo?
Rick estava certo, tudo que eu fazia era arranjar desculpas pra esconder meus sentimentos. Eu não passava de um covarde.
— É, eu ouvi as histórias. Mas será que é verdade? Quer dizer, a moça tem filhos e isso simplesmente a coloca acima de qualquer suspeita? — Carol começou a gesticular, minha afirmativa não tinha sido de grande valia. — Acho que Rick e Maggie confiaram na mulher rápido demais. Ela é muito esperta, talvez seja melhor falar com o garotinho e...
— Ele é meu filho. — Falei de repente, antes mesmo de pensar sobre, Carol precisava saber que Natalie e as crianças não eram ameaça.
Já havia muitas coisas ameaçando a segurança deles fora dos muros. Dentro de Alexandria eles tinham que ser intocáveis, era meu dever garantir isso.
Carol paralisou, seu queixo caiu por um momento enquanto ela me encarava em choque. Só então o peso daquelas palavras me atingiu de verdade.
Meu filho.
Ainda soava assustador, mas ao mesmo tempo dizer aquelas duas palavras em voz alta despertou algo dentro de mim que eu não soube descrever naquele momento. Era como um senso de responsabilidade, porém era mais poderoso. Me senti tremer dos pés à cabeça.
— Você nunca me disse que tinha um filho... — Carol soltou ainda surpresa, a voz sumindo aos poucos, aquilo tinha mexido com ela.
— Eu não sabia. — Resolvi ser honesto.
Ela continuou me encarando por mais alguns segundos até que assentiu devagar e várias vezes, como se aos poucos fosse entendendo tudo.
— Eu diria que é bastante conveniente um filho ser revelado agora, mas pensando bem, ele é sua cara, não tem como ser mentira. Na verdade, isso explica muita coisa... — Ela sorriu e agiu como se o mundo todo tivesse se aberto pra ela. — Muita coisa mesmo! Eu devo te dar os parabéns?
Por algum motivo aquela última frase me transportou para uma realidade alternativa, uma em que as coisas eram perfeitas e eu contaria para as pessoas que Natalie estava esperando um filho meu, então elas ficariam felizes por mim. Merle me daria alguns tapas nas costas e faria uma piada de duplo sentido, e Natalie riria, porque ela sempre ria dele. E meu pai também estaria lá...
Meu sonho utópico se partiu em mil pedaços como um espelho quebrado, revelando uma realidade sombria onde eu nunca daria conta de sustentar uma família. Eu estaria sempre estressado, então beberia demais. Natalie não suportaria isso. As brigas seriam constantes. E Petter nunca teria a infância que merecia, ele não seria feliz, não comigo. Eu seria a imagem do meu próprio pai e nada poderia salvar o garoto, ele se tornaria um reflexo de mim, era tudo um ciclo inquebrável e vicioso.
— Eu não posso ser o pai dele... — Deixei escapar e tive que conter as lágrimas, mas isso não foi o bastante pra impedir o desespero de escorrer pelo restante das minhas palavras. — Eu não posso ser o pai de ninguém. Não sirvo pra isso. Ele está melhor sem mim.
Senti que meus pulmões estavam tão secos que podiam rachar a qualquer instante. Cogitei estar no meio de um ataque cardíaco, mas a voz irritada de Carol me trouxe de volta para a realidade, assim como um salva-vidas tira alguém do fundo do mar.
— Besteira! — Ela bufou como se eu fosse um moleque que acabou de dizer a maior das besteiras. — Eu te conheço há três anos, Daryl, e tudo que eu tenho visto nesse tempo é você sendo extremamente paternal em toda e qualquer oportunidade.
— Que? — Me perguntei se eu tinha ouvido direito, ou se ainda estava no meio de alguma divagação maluca.
— Quando a Sophia se perdeu, você se esforçou mais que qualquer um por ela, e mal a conhecia. Você não quis desistir, mesmo quando eu mesma quis. — Ela voltou ao começo de tudo e eu pude ver a dor em seus olhos claros. — Quando a Judith nasceu, você estava lá, antes mesmo do Rick estar pronto pra isso. Você estava lá pelo Carl também... Você é muito protetor Daryl, você se dá bem com crianças e gosta delas. Você será um ótimo pai. Tenho certeza.
Apesar da dor, ela disse cada palavra com tanta convicção que uma parte minha acreditou, afinal eu confiava plenamente na Carol. Porém, ainda era uma batalha interna.
— É diferente... — Respondi em uma tentativa de argumentação. — Eles não são meus. Não são minha responsabilidade.
— Me parece que você está arrumando desculpas... — Carol retrucou de imediato. Exatamente a mesma coisa que Rick tinha dito.
— Você não entende... — Neguei algumas vezes e fui um tanto mal-educado, mas isso não intimidou Carol, nunca intimidava.
— Talvez... Afinal eu não posso entender algo que você nunca contou. Mas quer saber o que eu entendo? — Senti que viria uma lição de moral pela frente, ela estava usando aquele tom "educativo". — Enquanto todo mundo aqui está perdendo pessoas e vendo a família diminuir, você ganhou um presente. Não desperdice isso, se não pode fazer por você e pelo seu próprio filho, então faça por nós, faça por todo filho que perdeu o pai, faça por todo pai e mãe que perdeu um filho...
Carol se colocou de pé, parecia um tanto revoltada. Cada palavra dela me atingiu como um tapa e me senti egoísta, um verdadeiro garoto mimado que só pensa em si mesmo.
— Se fosse a Sophia, eu não estaria sentada nesse degrau. Glenn não estaria aqui sentando nesse degrau. — Ela apontou me encarando de cima. — Eu te disse aquele dia, em Atlanta, que quando eu te conheci você era um garoto, e que agora você é um homem, então aja como tal, Daryl. Deixe o passado no passado e faça um futuro melhor pra você.
Soou como uma ordem, talvez porque tivesse sido uma, então eu assenti, ainda assustado com a intensidade daquelas palavras. Eu tinha merecido ouvir aquelas verdades.
— Ótimo! — Carol concordou. — Então levanta essa bunda daí. Se quando eu voltar aqui você ainda estiver sentado nesses degraus, você vai se ver comigo!
Ela não estava brincando, eu sabia bem, mesmo assim eu tive que retrucar:
— Vai pedir para o seu reizinho me tirar daqui?
— Eu não preciso dele pra isso. — Ela deu as costas toda superior e eu apenas neguei.
Certamente ela não precisava do Rei, na verdade, devia ser o contrário, era o Rei que precisava dela.
Observei Carol se afastar e mesmo assim não consegui me levantar. Era como se eu estivesse paralisado de medo.
Você é um maricas, irmãozinho. A voz de Merle soou alta e clara na minha mente. Seja homem.
Respirei fundo e me coloquei de pé, ajeitando a besta nas costas. Talvez estivessem todos certos, eu tinha que parar de dar desculpas para a minha covardia.
Com passos incertos eu caminhei até a casa em que Natalie estava instalada. Observei a fachada da moradia por alguns segundos. Seria mais fácil se Natalie estivesse ali fora e me dissesse o que fazer em seguida, mas não havia ninguém.
A tarde estava no fim, talvez fosse melhor deixar para o dia seguinte, eu tinha que ajudar nas patrulhas que fariam a segurança do muro... Dei um passo para trás. Covarde.
Parei. Eu estava em conflito dentro da minha própria mente, e não só comigo. Era uma batalha com as várias personas que eu tinha projetado no meu inconsciente, era como uma caminhada da vergonha, onde vários rostos conhecidos apontavam meus defeitos e minhas falhas, todos os motivos pelos quais eu não podia fazer aquilo e, o irônico, era que eles também me condenavam por não ter coragem o bastante pra fazer. Era uma faca de dois gumes, de todo o modo eu estaria errado, ficando ou indo.
"Você só tem que tentar" a voz de Natalie soou mais alto do que as outras, quase como um raio de luz na minha consciência sombria. E ali estava a resposta: tentar faria de mim um homem mais decente do que fugir, por que era a coisa a certa e eu sabia disso.
As escolhas pareceram mais claras e eram só duas. Eu podia ser o pai ausente que decepcionou o filho, ou eu podia ser o cara que teria que lutar pra sempre contra ele mesmo, e mesmo assim correria o risco de ser um péssimo pai.
Pensei em Petter, nos poucos momentos que tínhamos passado juntos no Reino e eu simplesmente soube que não queria decepcionar o menino. Então, se eu teria que lutar contra as minhas piores tendências para ser, no mínimo, um pai decente, então... que seja. Eu escolho lutar.
Dei o primeiro passo para dentro da varanda e encarei a porta por longos segundos. Minha convicção minguou um pouco. Deus, o que eu estou fazendo? Eu pensei em erguer o punho e bater, mas meu cérebro não obedeceu ao comando, então eu continuei parado ali, petrificado pelo meu próprio medo.
Péssima ideia, péssima ideia. Eu bateria na porta e diria o que? Comecei a discutir comigo mesmo, sem me dar conta que eu ainda estava parado na varanda.
O que se diz para um filho que você não sabia que existia nos últimos dez anos? Ou melhor, o que um pai normal diz pra um filho no geral?
— Você sabe que tem que bater na porta pra alguém abrir, certo? — A voz feminina logo atrás das minhas costas acabou me assustando. — Ainda não inventaram essa coisa de campainha telepática.
Luka me encarou de cima a baixo e ajeitou o cesto com algumas maças que trazia.
— Eu só... — Tentei encontrar uma desculpa, mas nada compreensível saiu dos meus lábios.
A garota revirou os olhos como se eu fosse algum tipo de idiota e simplesmente abriu a porta, apontando com a mão como quem diz "vai entrar ou não?".
Honestamente eu quis sair correndo, mas não acho que minhas pernas obedeceriam, então não tive outra escolha a não ser dar um passo para o lugar mais perto, ou seja, dentro da casa de Natalie.
Luka me encarou de novo, um longo olhar que eu não entendi o significado, vi o canto de seus lábios se flexionarem no esboço de um sorriso que não se formou totalmente, porque ela virou as costas, caminhando pela sala como se a minha presença ali não fosse nada incomum.
— Petter, você tem visitas! — A menina gritou de uma hora pra outra, seguindo em frente e me deixando ali sozinho.
Não. Não. Não. Eu tinha que ver a Natalie primeiro. Dar de cara com o menino não era o meu plano. Entrei em pânico, mas não havia tempo para nenhuma atitude.
— Eu já disse Jerry, é uma coisa de família, depois eu... — Ele surgiu da cozinha, passando pela irmã que estava entrando naquele cômodo e só então focando os olhos em mim, deixando que a frase morresse em sua garganta sem ter um fim.
Petter estancou onde estava no mesmo instante. Seus olhos azuis escuros se arregalaram de modo exagerado e no momento seguinte toda a postura surpresa se transformou em eufórica, ele abriu um sorriso enorme, um dos sorrisos da mãe dele, no entanto a segunda postura também não durou, ele fez o possível pra ajeitar o corpinho pequeno e parecer sério, quase como se minha visita fosse algo perfeitamente normal.
— E aí? — Acenou amigável e foi bastante evidente que ele estava contendo o sorriso, porque suas bochechas se contorciam de modo engraçado.
Engoli em seco. O que eu devia dizer? Petter ainda me encarava e eu continuava mudo. Olhei ao redor e nada de Natalie. Minhas mãos suavam.
— Ahn, eu... — Engasguei com as minhas próprias palavras e percebi que o garoto me encarava como se eu estivesse prestes a revelar o segredo da vida. Dizer que eu estava apavorado era amenizar e muito as coisas. — Vocês parecem ocupados, eu... eu volto depois.
— Não! — Petter retrucou imediatamente, mas pareceu mais assustado que eu com a própria reação, deu um passo pra trás e tentou soar normal, mesmo que seus ombros tenham caído visivelmente. — Quer dizer, você não precisa ir embora... se você não quiser.
Não decepcione o garoto, Daryl... repeti mentalmente e acenei devagar, colocando a besta perto da porta, dando a entender que eu ficaria.
Petter voltou a sorrir e eu soube que Carol estava errada, ele não tinha nada de mim, era um garoto adorável, eu não chegava nem perto.
Balancei as duas mãos ao lado do corpo, sem saber o que fazer a seguir e comecei a ficar tenso, quer dizer, "tenso" era minha postura natural naquele momento.
Uma parte de mim desejou que o garoto quebrasse aquele silêncio incômodo que tinha se formado entre nós, por outro lado, agradeci que ele também não soubesse o que dizer, porque, honestamente, eu estava morrendo de medo das perguntas que ele faria.
A Natalie tinha que chegar logo, eu não podia fazer aquilo sem ela.
Eu já estava a ponto de rezar por um milagre, quando percebi que Luka nos encarava da cozinha, os olhos alternando entre mim e Petter, com uma expressão que eu não soube decifrar... Por fim, ela negou algumas vezes, como se tivesse desistido de uma luta interna e deu um passo pra frente.
— Hey, vocês dois. — Chamou com um aceno, agindo de forma tão natural que eu senti inveja. — O que acham de descascar umas maçãs? Eu não vou fazer todo esse serviço sozinha!
Graças a Deus!
Eu assenti imediatamente, e seguir Petter até a cozinha, Luka preencheu o silêncio com algumas instruções, mas se afastou em direção a pia logo em seguida e nos deixou "sozinhos" de novo.
Petter seguia concentrado no trabalho, e ele sabia como manejar a faca, de modo que a casca da fruta saia em um espiral perfeito. Ele alternava o olhar entre mim e a tarefa algumas vezes e eu percebi que ele esperava que eu dissesse algo.
O que eu digo? O que eu digo?
— Então... — Comecei, mal reconhecendo a minha própria voz. Como era possível que uma criança me deixasse tão intimidado? — Cadê a sua mãe?
Soou quase como um pedido de socorro, mas Petter não pareceu notar, ou simplesmente não se importou, se mostrando satisfeito em poder falar alguma coisa.
— Lá em cima. Ela não estava muito bem, então eu enchi a banheira e a Luka 'tá fazendo a torta preferida dela. Uma surpresa pra ela ficar feliz. — Eu nem sabia que um menino podia falar tão rápido.
Duas coisas passam pela minha mente depois da resposta. Que adorável era a preocupação deles com Natalie e que ela não estava bem.
— Ela está com dor? Temos remédios na enfermaria... — Sugeri imediatamente e Petter me olhou de um jeito estranho... Admiração?
— Natie não está bem... emocionalmente — Luka esclareceu, virando na nossa direção e parecendo nada contente. — Ela está chateada.
Eu soube que era minha culpa, aquela conversa não tinha sido fácil pra mim, mas só então eu me dei conta que também não tinha sido nada fácil pra ela.
— Mas a gente vai paparicar ela bastante e vai ficar tudo bem de novo. — Petter se apressou em emendar, me lançando um sorriso encorajador.
Não soube o que responder, então apenas voltei minha atenção para as maçãs. Petter terminou de descascar a dele, mas não a colocou no pote, ao invés disso, cortou um pedaço e o colocou na boca.
Percebi que Luka lhe lançou um olhar nada amigável e ele fez uma careta engraçada, cortando outro pedaço da fruta e o oferecendo a mim, que neguei com um movimento de cabeça.
O clima tinha ficado estranho de novo, era como se eu não me encaixasse ali, me senti um intruso. Eles estavam melhor sem mim. Natalie estava melhor sem mim.
Nesse meio tempo as duas crianças pareciam travar uma conversa muda com gestos e caretas, o tipo de coisa que eu era incapaz de decifrar.
— Você devia fazer aquela pergunta agora, Gafanhoto... — Luka sugeriu em voz alta e por muito pouco eu não cortei o dedo.
Meu coração disparou e eu comecei a suar frio, eu não estava pronto para perguntas.
— Por que você mesma não pergunta? — Ele cruzou os braços, e eu simplesmente soube que Natalie mimava aquele menino até o infinito. E gostei de saber disso, crianças mereciam ser mimadas e paparicadas.
Luka fez uma careta entediada e foi a primeira vez que eu entendi sua postura. Petter tinha que perguntar, porque Petter era o meu filho.
Ele pareceu entender também, e se virou na minha direção com um sorriso perfeitamente inocente, como se eu não tivesse acabado de presenciar toda a briga dele com a irmã.
— Posso te fazer uma pergunta, Daryl? — Soou neutro, quase como se aquela fosse uma conversa banal.
Ele não me chamou de pai. Uma parte de mim constatou em alivio, se ele me chamasse daquele jeito, logo de cara, eu certamente enfartaria. Se bem que o fantasma daquela pergunta talvez me fizesse enfartar do mesmo jeito.
Assenti sem convicção alguma e esperei pelo pior.
Por que você não me queria? Por que mandou minha mãe embora? Por que nunca procurou por ela? Tem certeza que não sabia sobre mim e só quis fugir disso? Minha mente tratou de fazer uma lista de perguntas apavorantes.
Mas não foi nada disso que eu ouvi do pequeno ao meu lado:
— O que aconteceu com o olho do Carl?
Aquilo realmente me pegou de surpresa. Levei alguns segundos pra processar a frase e pra sentir o alivio se alastrar pelo meu corpo. E, eu sei, não era meu direito falar sobre aquele assunto, mas me pareceu mais fácil responder aquilo do que qualquer outra coisa que minha mente tinha inventado.
— Ele levou um tiro. — Declarei neutro, pegando outra das maçãs para descascar.
— Ele levou um tiro na cara?! — Luka deu três passos na nossa direção, trazendo a forma, em que ela estava colocando a massa de torta, para a nossa bancada.
— Eu te amo Luka, mas você nunca vai vencer disso... — Petter opinou, erguendo as mãos em rendição e eu não entendi bem qual era o assunto.
— E eu nem quero! — Ela negou no mesmo instante.
— Como isso aconteceu? — Petter se virou na minha direção novamente, bastante interessado e eu percebi que tinha a atenção de Luka também.
Certamente existiam muitas coisas que eu talvez nunca conseguisse fazer como pai. Muitas coisas que me aterrorizavam... E talvez eu não fosse do tipo falante, mas, dentre todas aquelas opções assustadoras de tarefas e responsabilidades paternas, contar como Alexandria tinha sido invadida por uma horda de errantes era uma coisa que eu podia fazer.
Na verdade, foi algo que eu gostei de fazer.
Petter esqueceu totalmente as maçãs, se debruçando no balcão com os olhos enormes brilhando a cada palavra minha, como se eu estivesse contando alguma história fantástica sobre heroísmo.
Até Luka prestou atenção, mesmo que ela tenha terminado a torta e colocado no fogo nesse meio tempo, usando as maçãs que eu tinha descascado enquanto falava.
Terminei meu relato contando sobre o lago em chamas.
— Uouuu! Imagina que da hora! Buuumm! — Petter fez um movimento expansivo com as duas mãos, empolgado com aquilo como se fosse um feito de outro mundo. — Você foi muito esperto de ter colocado fogo no lago! Quem pensaria nisso? Fogo na água!
Ele estava tão eufórico que foi impossível não sorrir. Eu gostei daquilo, de ser o motivo da alegria dele. E aquele sentimento era novo e estranho, mas era... bom.
— Foi meio que um desperdício de gasolina, na verdade. — Dei de ombros, não era nenhum filme de ação, era a realidade em que vivíamos. — Mas deu certo.
— Deve ter sido muito legal! — Luka lançou encostada em um dos armários e senti que havia um leve subtexto do tipo "para com a modéstia" escondido em suas palavras.
Eu até abri a boca pra responder, mas a voz que vinha da escada me fez calar imediatamente.
— Dá pra sentir esse cheirinho lá de cima. E meio que dá pra ouvir os gritos também. — Ouvi Natalie se aproximando e meu estômago pareceu um buraco negro cheio de borboletas. Era uma reação idiota, mas eu não consegui controlar. — Posso saber porque tanta empolgação...?
A última palavra dela saiu entrecortada pela surpresa de me ver ali, isso ficou evidente em cada pequeno traço da postura de Natalie. Ela parou onde estava e pude jurar que a vi ofegar, seguiu com os olhos negros na direção dos filhos logo depois.
— Surpresa! Queríamos que você ficasse feliz, então Luka e eu fizemos torta de maçã, seu preferida! — Petter gritou no limite da empolgação. — E o Daryl veio me ver!
Senti os olhos negros pousarem em mim novamente e foi como ser tocado pela brisa amena do entardecer. A surpresa de Natalie foi dando lugar a uma serenidade quase aconchegante. Eu podia ficar preso naqueles olhos para sempre e seria como morar no paraíso.
— Oi... — Seus lábios se moveram em um sorriso discreto, enquanto ela ajeitava alguns fios do cabelo molhado.
Era quase como se ela estivesse orgulhosa de mim... E eu sabia disso, porque era exatamente daquele jeito que ela me olhava quando eu fazia algum progresso naqueles "exercícios hipotéticos" anos atrás em Dawsonville.
— Oi. — Respondi e esqueci totalmente que tinha crianças ao nosso redor. Eu podia olhar para Natalie Cooper eternamente e nunca ficaria enjoado.
— "Luka e eu?" — Ouvi a jovem repetir a fala do irmão. — Eu fiz a torta!
— Eu ajudei! Descasquei todas as maças! — Petter retrucou imediatamente.
As crianças pareciam prestes a começar uma guerra e eu não conseguia desviar os olhos de Natalie, e o fato dela também não tirar os olhos de mim não ajudava em nada.
— Você? — Luka devolveu com uma risada sem humor. — O Daryl descascou as maçãs.
— Eu também! — Ouvi o protesto um pouco mais perto de mim. —Não é verdade, Daryl?
Eu tinha entrado em um mundo particular com Natalie, mas a mão de Petter no meu braço acabou me puxando de volta.
Assenti sem ter muita certeza de qual tinha sido a pergunta.
— Você descascou uma maçã. E comeu ela inteira! — Luka acusou e percebi que ela estava contendo o riso.
Voltei os olhos para Natalie, mas sua atenção era toda das crianças, ela tinha uma expressão te total divertimento no rosto e aquilo foi tão hipnótico quanto tê-la olhando diretamente pra mim.
Ela estava feliz, e a felicidade ficava muito bem nela.
— Eu estava com fome, 'tô em fase de crescimento, eu sinto fome! — Petter continuou protestando e até eu achei graça. Ele estava mesmo empenhado em ganhar aquela briga.
— Okay, já chega. — Natalie ergueu as duas mãos pedindo calma, mas teve que conter o riso pra isso. — Daryl vai pensar que vocês são babuínos bobocas balbuciando em bando.
As crianças caíram na risada, mas eu não entendi bem a graça.
— É de Harry Potter. — Petter explicou ao ver minha cara de confusão.
Tentei puxar a informação na memória e tive quase certeza que era alguém tipo de filme.
— Eu agradeço aos três pela torta. — Natalie olhou cada um de nós, então caminhou até Luka e beijou a testa da garota. — Muito obrigada.
Natalie tinha nascido para aquilo, eu podia ficar ali calado o dia todo, apenas assistindo à interação dela com os filhos.
— Se nós três fizemos a torta, por que só a Luka ganhou beijo? — Petter cruzou os braços e fez um bico engraçado. Acabei rindo do ciúmes dele e isso atraiu o olhar de Natalie diretamente pra mim.
Eu não entendi o significado, embora aquele tipo de olhar não fosse novo, na verdade ela olhava pra mim daquela mesma forma em Dawsonville. Eu só sabia dizer que gostava, era aquele tipo de olhar que tinha me feito ceder a ela.
— Porque eu fiz a maior parte do trabalho, é obvio! — Ouvi Luka responder, mas era como se ela estivesse bem longe. — Você sabe cozinhar por acaso?
Natalie desviou os olhos, reagindo a filha com um sorriso e apontando para Petter como quem diz "ela tem um bom argumento".
— Justo... Vou deixar você ganhar essa, só porque você é a única aqui que cozinha. — Petter deu de ombros e se virou para mim novamente. — Minha mãe é maravilhosa, mas ela cozinha muito mal.
Natalie estreitou os olhos na direção no menino, e ele fez uma cara de sapeca hilária.
— Ainda? — Deixei escapar. Não era novidade pra mim que Natalie era uma péssima cozinheira, mas aquilo tinha sido dez anos antes, achei interessante que esse aspecto não tivesse mudado com os anos.
Meu comentário fez Petter rir abertamente, enquanto Luka se segurou pra não fazer o mesmo.
Natalie olhou de um filho para o outro, então negou, se fingindo de ofendida.
— Muito obrigada pelo apoio... — Falou diretamente pra mim e eu me dei conta que sentia saudades de cada um dos meus dias com ela.
Luka atraiu a atenção de Natalie depois disso, falou sobre o tempo que a torta ainda ficaria no forno e se retirou para um banho ou algo assim, não achei certo ficar prestando atenção nas duas, e nem daria, afinal, Petter estava contando sobre os terríveis biscoitos que a mãe tinha feito e que nem o cachorro do vizinho quis comer.
Assim que a jovem deixou a cozinha senti o clima ficar mais sério. Era claro que ainda tínhamos assuntos pra resolver e, mesmo depois de termos quebrado todo o gelo, eu voltei a ficar tenso.
— Por que você não leva o Daryl pra sentar na sala com você, Pequeno Gafanhoto? — Natalie sugeriu. — Eu vou dar um jeito nessa bagunça.
Eu não soube dizer se ela queria nos dar um tempo sozinhos, ou se ela própria precisava daquele tempo, mas segui com Petter para a sala e assim que nos sentamos o assunto do menino sumiu totalmente.
Voltei a ter dúvidas e questionamentos, voltei a tremer e a suar frio, era horrível, como se eu estivesse esperando que algo péssimo acontecesse a qualquer instante.
— Eu fiz um suco pra vocês. — Natalie entrou no cômodo poucos minutos depois e nos entregou os copos.
Alexandria tinha uma quantidade considerável daqueles sucos em pó, não eram gostosos como os naturais, mas era o fim do mundo, não dava pra escolher.
Petter olhou da mãe para mim e virou o copo inteiro de uma vez só, quase desesperadamente.
— Ai, nossa! Meu suco acabou... — Lamentou e não pareceu nada natural. — Vou pegar mais.
Saiu correndo para a cozinha, me deixando sem entender nada, encarei Natalie, mas ela estava tão confusa quanto eu.
— Quem diria que ele podia ser tímido... — Ela comentou meio incerta.
— Talvez ele não tenha gostado de mim... — Opinei, porque depois de ver a família de Natalie de perto, eu soube que eles eram perfeitos, não precisavam de mim, eles eram felizes e falantes e eu era só... eu mesmo.
Natalie riu pelo nariz e se levantou da poltrona em que estava, para se sentar ao meu lado no sofá. A proximidade dela me deixou atordoado por alguns instantes.
— Ou talvez ele esteja com medo de dizer alguma coisa e você sair correndo... — Ela sussurrou com um sorriso compassivo e tocou minha mão que estava sobre o encosto. — Relaxa, Daryl.
Natalie sempre teve aquele dom de me fazer acreditar em qualquer coisa, mesmo que fosse apenas por alguns minutos. E daquela vez não foi diferente, mesmo depois de dez anos ela ainda tinha o mesmo efeito em mim e eu acreditei nela. Por um momento eu esqueci de tudo e senti que podíamos fazer qualquer coisa juntos.
Mas o encanto perdeu grande parte do efeito quando ela se levantou e voltou a se sentar na poltrona, esperando que Petter voltasse.
O garoto não demorou a aparecer, voltando com outro copo de suco e parando na entrada da sala. Ele estava tenso e eu percebi que se eu, que era um marmanjão, estava tenso e assustado com tudo aquilo, para ele devia ser ainda pior.
— Por que você não se senta, filho? — Natalie pediu em um tom doce e maternal. — Aposto que você quer fazer um monte de perguntas.
Petter assentiu e ocupou o lugar ao meu lado, olhando de mim para a mãe por um momento antes de se pronunciar:
— Ou vocês podem fazer perguntas pra mim...
Ele mexeu nos dedos de forma impaciente e vi o olhar de Natalie se tornar protetor e compreensivo, como se ela entendesse aquele gesto perfeitamente.
— Começa você, vai ser mais fácil assim. — Incentivou e acenou com a cabeça, em um gesto que transmitia segurança, mas também pareceu uma permissão.
Estava na cara que todos ali tinham uma relação de cumplicidade enorme, e praticamente podiam falar uns com os outros sem precisar de palavras. Me senti de fora de tudo aquilo, mas não pude deixar de admirar Natalie por ter cercado os filhos com aquele tipo de afeto e segurança.
— Hum... Eu tinha um monte de perguntas, mas eu esqueci. — Petter confidenciou depois de pensar um pouco, tinha um certo tom de culpa em sua voz. — Posso ir fazendo quando eu lembrar?
Aquilo eu consegui entender; ele estava nervoso, ou seja, tinha dado um branco. Percebi minha afeição pelo menino aumentar.
— Claro, pode perguntar a qualquer hora, eu sempre vou te responder e tenho certeza que o Daryl vai fazer o melhor pra isso também, não é? — Natalie respondeu com calma e segurança, me lançando um sorriso tranquilo quando me dirigiu a palavra.
Ela era incrivelmente boa naquilo, de modo que até eu fiquei mais calmo e assenti esboçando um sorriso para o garoto.
— Ah, então 'tá ótimo! — Petter deu-se por satisfeito, voltando a postura costumeira.
Ele estava feliz, eu podia ver isso e a felicidade dele causava um tipo de calma quase angelical em Natalie. Mesmo assim, em um certo momento, quando eu a observei enquanto estava distraída, vi algo no fundo de seus olhos que não combinava com o resto de sua postura. Ela estava escondendo alguma coisa.
E eu sabia disso, porque também tinha a minha cota de sentimentos e dores escondidas.
— Lembrei de uma! — Petter exclamou de repente, o fez meu coração voltar a bater desgovernado. — Quando você faz aniversário?
Acabei rindo, ele parecia com a mãe naquele ponto também, era simples ficar perto de Natalie em Dawsonville, o problema sempre tinha sido eu, ela abrandava tudo, eram as minhas neuras que estragavam as coisas.
Percebi que eventualmente uma pergunta mais séria surgiria, mas até lá eu teria que aprender a lidar com o meu medo e paranoia.
— Treze de julho. — Respondi e o garoto franziu a testa em surpresa.
— É exatamente um mês depois do seu, mãe! — Ele exclamou, naquela empolgação com a qual eu estava me habituando. — Eu nasci no dia da mentira. Primeiro de abril... — Revelou amigável.
— Legal...
Automaticamente a conta foi feita na minha mente e as datas não bateram. Troquei um olhar com Natalie, mas ela não disse nada. Mesmo se eu considerasse que ela ficou grávida na nossa primeira vez, Petter deveria ter nascido quase dois meses depois de abril. O que só podia significar uma coisa... Algo tinha acontecido na gravidez e ela teve o bebê antes do tempo.
— Posso ver sua besta? — Petter fez outra pergunta e eu assenti imediatamente, e assim seguimos.
Natalie tinha razão, não era difícil conviver com o garoto, no restante da noite ele fez todas as perguntas que podia sobre a minha arma, e se mostrou muito esperto.
Depois, eu fiquei para comer torta com eles e respondi perguntas engraçadas sobre minha cor preferida, minha comida preferida ou meu animal preferido. E Petter sempre deixava claro quais eram as preferências dele também.
Não foi estranho ou constrangedor, mesmo que eu obviamente fosse um peixe fora d'água ali.
Natalie era uma mãe incrível, que amava os filhos e fazia questão de dizer isso pra eles em qualquer oportunidade.
Nada foi terrível como eu achei que seria, era como se lá dentro fosse um mundo à parte, separado da dor e da guerra que se espalhava do lado esterno da casa.
Claro que, eventualmente, a realidade falou mais alto. Luka saiu para uma vigia e eu soube que era hora de voltar pra casa.
— Eu tenho que ir também. Rick quer trabalhar nos planos. — Avisei, pronto para me despedir.
— Ah... 'tá bom. — Petter pareceu um tanto decepcionado.
Me encarou por alguns segundos e eu soube que ele estava com medo de que, pela manhã, tudo fosse diferente. Ou talvez aquele fosse o meu medo refletindo nele, porque honestamente eu não sabia o que fazer no dia seguinte, lá fora, longe do ambiente acolhedor que era aquela casa.
Mas eu tinha que tentar. Eu tinha que lutar, como me comprometi a fazer quando pisei naquela varanda.
— Eu vou limpar minhas flechas e fazer mais algumas, amanhã de manhã. Você podia vir me ajudar se quiser, e se sua mãe deixar, é claro. — Sugeri, meio incerto sobre aquilo ser uma boa ideia mesmo. Isso é algo que os pais fazem com os filhos? Natalie estava neutra, como se não quisesse esboçar reação alguma que me influenciasse.
Os olhos de Petter brilharam e ele abriu um sorriso enorme, me senti aliviado, talvez eu estivesse no caminho certo.
— Posso? — Ele perguntou para Natalie.
Ela sorriu, calma, como tinha se mantido a noite toda, tive medo que ela negasse, e listei mil e um motivos para isso acontecer, mas, como dito antes, eu realmente precisava controlar minha paranoia.
— Claro. — Ela assentiu. — Agora, diz boa noite e banho.
Apontou as escadas com uma expressão divertida. E eu me perdi naquele momento. Deus, Rick estava certo, eu amava aquela mulher, e amava mais ainda quando era aquela mãe maravilhosa.
— Boa noite, Daryl. — Petter deu dois passos na minha direção e percebi que ele estava esperando por alguma coisa.
Passei os olhos por Natalie e ela estava um tanto tensa, então eu entendi o que o garoto estava esperando...
Apoiei um dos joelhos no chão e deixei que Petter me abraçasse, mesmo que eu não soubesse muito bem como corresponder de início.
— Boa noite, Petter. — Falei, enquanto ele ainda estava agarrado em mim.
— Obrigado... — Ouvi ele dizer baixinho e aquilo tocou meu coração de formar inimagináveis.
Não era certo ele me agradecer por ser quem eu devia ser pra ele, mas isso me fez perceber o quanto aquilo tinha sido importante para Petter.
Ele me soltou e eu percebi que limpou o rostinho rapidamente, para que eu não visse uma lágrima. Notei que Natalie tinha os olhos marejados também, mas piscou algumas vezes pra disfarçar, ou talvez tenha sido apenas impressão, já que os meus olhos também estavam marejados.
Petter acenou mais uma vez, antes de subir as escadas correndo, mas parou no topo e me encarou por alguns segundos.
— Você também pode me chamar de "Pequeno Gafanhoto" também se você quiser... — Ofereceu, se referindo ao apelido que a mãe e irmã dele usavam.
Senti que Petter queria minha permissão pra me chamar de pai e sei que foi cruel não ter tido nada quando assenti, mas tinha sido muita coisa em um dia só, eu não estava pronto para o próximo passo, não ainda.
Mas ele não pareceu ficar chateado com o meu silêncio, na verdade, lançou um "até amanhã" super empolgado e sumiu no andar de cima.
Natalie me acompanhou até a porta depois disso e foi impossível não notar que ficou um silêncio constrangedor entre nós.
Ela parou no batente e eu saí para a varanda, a encarei por alguns segundos, mas não fui capaz de dizer nada. Ela suspirou como se estivesse um tanto contrariada, mas fechou a porta e saiu junto comigo.
— Ele nasceu de sete meses... — Revelou, se encostando em um dos beirais da varanda. — Eu só estou dizendo, porque percebi que você fez as contas e eu só não queria que ficasse nada mal explicado. A gente não pode se dar a esse luxo, então se tiver dúvidas ou perguntas, eu prefiro que me fale, certo? Então, ele nasceu de sete meses, não fui fruto de nenhuma aventura com outro homem enquanto você estava em Malcon.
Percebi que havia uma mudança no tom dela, como se da porta pra fora nossa situação fosse outra.
— Eu não pensei isso... — Devolvi e me dei conta que eu podia ter deduzido a coisa errada, mas não fiz isso, e foi um certo alivio.
Natalie pareceu surpresa, mas assentiu.
— Você teve problemas na gravidez? — Questionei preocupado, mesmo sabendo que Deborah certamente não tinha deixado a filha passar por nada sozinha.
— Eu era uma garota tola que não sabia o que realmente importava. — Ela soou um tanto irritada e magoada. — Mas eu cresci.
Percebi que ela evitou me olhar, respirou fundo, fechou os olhos por três segundos e recuperou a postura calma.
— Eu posso te dar os detalhes da gravidez, mas não hoje, tudo bem? — Ela estava cansada, ficou evidente por seu tom de voz, e eu suspeitei que não tinha nada a ver com cansaço físico.
Senti que havia um clima estranho entre nós dois, um que não tinha transparecido em momento algum dentro da casa.
— Obrigada por ter feito isso, Daryl. — Ela desencostou do beiral e deu um passo em direção a porta. — Foi importante para o Petter e eu sei que foi difícil pra você...
Sorriu, um sorriso simples, aquele de cortesia, que não chega aos olhos.
— Ele é um bom menino. — Assenti com um meio sorriso, gostar de Petter não era difícil, principalmente porque ele se parecia demais com a minha Bochechas.
— Ele é sim... — Ela concordou e deu um sorriso de verdade, mas não foi pra mim. — Boa noite.
Passou ao meu lado e estava quase na porta, mas eu não estava pronto para deixa-la ir.
— Eu não faço ideia de como fazer isso. — Confidenciei, era a pura verdade, algo que eu não conseguiria dizer em voz alta para ninguém, a não ser para Natalie.
Ela levou três segundos pra se virar na minha direção, com um sorriso compreensivo nos lábios.
— Bom, deixa eu te contar um segredinho, que eu descobri quando me tornei mãe: cem por cento dos pais não faz ideia de como fazer isso. A gente só faz o nosso melhor e torce pra dar tudo certo. — Deu dois passos na minha direção e tocou meu braço direito em sinal de apoio. — Você fez o seu melhor hoje, Daryl, então está se saindo bem.
Fiquei preso nos olhos negros por cinco segundos inteiros, mesmo depois que Natalie já tinha deixado de me tocar.
— Se eu não estivesse você diria? — Questionei e minha voz tremeu um pouco. — Por que eu quero que você me diga, se eu fizer qualquer coisa que... se eu for como o meu... — Engoli em seco incapaz de continuar.
— Você não é o seu pai, Daryl. Você nunca vai ser, eu tenho certeza disso. Você vai cometer erros, porque isso faz parte da vida, mas você nunca será como ele. — Tinha aquela convicção nas palavras dela, e eu me permiti acreditar, porque se alguém no mundo podia me fazer acreditar naquilo era Natalie Cooper. E apenas ela.
Estávamos a uns cinco passos de distância e Natalie ainda me observava, era como minha calmaria particular no meio da tempestade... Tão Bochechas.
— Eu não te odeio. — Falei de repente, mesmo que não tivesse exatamente a ver com o assunto, porque simplesmente não tinha como continuar olhando pra ela por mais um segundo sem dizer aquilo. — Você disse que eu podia te odiar e te culpar, mas eu não vou fazer isso. Eu não conseguiria mesmo que eu quisesse. Eu sei que nada disso foi sua culpa...
Natalie desviou os olhos, engoliu em seco, mas nada disse, era como se estivesse distante, quase como se fosse uma pessoa diferente daquela que estava comigo dentro da casa.
— Você contou pra ele? Sobre as coisas que eu disse? — Tive que perguntar, porque eu não sabia como encararia o garoto caso ele soubesse.
— Não. Por que eu faria isso? — Natalie negou, como se eu a tivesse acusado de alguma atrocidade.
Ela tinha o direito de contar, mas fiquei feliz por não ter contado. Eu não queria ser uma decepção para o Petter.
Percebi os olhos de Natalie em mim por alguns segundos, então deu um passo pra frente, ficando perto o bastante para que eu não tivesse outra alternativa a não ser encará-la. Não que eu desejasse fazer qualquer outra coisa.
— Ele te ama, Daryl. Ele só quer que você o ame também. — Afirmou doce, a personificação da calmaria, então pousou a mão direita no meu ombro. — Não é difícil. Eu prometo.
Aquela foi uma promessa que me fez muito bem ouvir, e eu sabia o que promessa significavam para a Bochechas.
Não consegui tirar meus olhos dela e a necessidade de tocá-la foi mais forte que qualquer coisa. Ergui a mão e deixei a ponta dos meus dedos percorrerem a lateral seu rosto, colocando alguns fios soltos atrás de sua orelha e seguindo o caminho para o pescoço.
Natalie fechou os olhos e eu ouvi o ar sair de seus pulmões de forma sôfrega. Deus, como foi que eu vivi sem essa mulher durante dez anos?
Dei um passo para mais perto, eu queria beijar aquela boca da mesma forma que alguém quer água no meio do deserto, era mais que querer. Eu precisava.
E eu também precisava dizer algo importante, algo que eu devia ter dito em Dawsonville, porque aquela era a verdade mais absoluta da minha vida.
— Bochechas, eu...
Natalie agiu como se tivesse levado um choque e deu três passos para trás antes que eu conseguisse terminar a frase.
— Você devia ir agora, Daryl. — Soou urgente e assustada. — A gente não pode confundir as coisas desse jeito. — Senti algo se quebrar em mil pedaços. — Isso é sobre o Petter, não é mais sobre nós dois.
Então eu entendi... Era eu quem tinha confundido as coisas, a Natalie que tinha me recebido dentro da casa, a Natalie compreensiva e calma, aquela não era minha Bochechas, aquela era a mãe do Petter, ela estava fazendo aquilo por ele, não por mim.
Tudo aquilo era minha culpa, eu destruí a mulher que eu amava e tudo que tinha sobrado era distância e pedaços que não podiam ser colados.
Natalie sempre estaria ali, como mãe. E eu seria sempre o pai do filho dela, mas não mais seu Baby Dix.
— Você está certa. — Assenti dando alguns passos para trás também. — Desculpe... Boa noite, Natalie.
— Boa noite, Daryl.
Era só um "até logo", "até amanhã", mas tinha o gosto amargo de um adeus.
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