Notas iniciais
Boaa noite lindíssimos e lindíssimas, querem capitulo novo? Eu dou! (Antes tarde do que nunca neh?) Finalmente tô de volta, eu sei que eu tô em debito com vocês, com capitulos cada vez mais demorados, se fosse apenas pela minha vontade eu postaria todo dia, mas tá complicada a vida, e a única coisa que eu posso garantir é que eu tô me esforçando ao maximo pra não colocar nenhuma das minhas fics em hiatus. Não vejo a hora de chegar as férias, honestamente... Mas, dramas da vida real a parte, vamos logo pra esse capitulo de Lifeline, que eu posso dizer que amei escrever, sério. Antes, claro que eu não posso deixar de agradecer as minhas amadas comentaristas, que são sempre o incentivo necessário pra eu não deixar a peteca cair. Então obrigada Belky, NandaNascimento, Reader Girl, Rafa Black, isnotme, Mary Noleto, Aquarius, Briar e Mrs Claflin. Agora vamos que vamos! Boa leitura!

• NATALIE COOPER •

Foco. Foco. Foco. Isso era tudo que eu repetia em minha própria mente incontáveis vezes... Foi o que fiz durante a noite e era o que eu fazia naquele momento, enquanto Rick falava sobre seu planos para uma parte do grupo.

No entanto, foco era tudo que eu não tinha.

Mal ouvia as palavras de Rick, eu mantinha meus olhos nele, mas minha mente vagava na velocidade da luz.

Eu sei, tinha prometido a mim mesma que, depois de resolver o "problema" com Petter, eu focaria totalmente naquela maldita guerra. E eu sabia que devia fazer isso, era algo importante demais para confiar apenas na sorte e, mesmo assim, era como se eu estivesse vivendo em um mundo paralelo, como se eu assistisse os eventos de fora, sem interesse, como quando deixamos a TV ligada, mas, na verdade, estamos fazendo outra coisa...

As coisas tinham acabado bem no fim, quer dizer, tinham acabado o melhor possível, considerando todo o drama que envolvia meu filho. Daryl tinha feito a escolha certa e estava se esforçando, eu conseguia ver isso perfeitamente. Ele não sabia como agir perto do Petter, mas tentava, tentava com mais afinco e vontade do que eu já tinha visto ele se envolver com qualquer coisa na vida.

Talvez esse fosse o motivo da minha falta de foco, estava difícil me encaixar de verdade naquela nova realidade, por um lado Petter estava radiante, amava ficar perto do pai e adorava o fato de Daryl ter revelado a verdade para algumas pessoas mais próximas e eu estava feliz por ele, mesmo que uma parte de mim sentisse um pouco de ciúmes. Uma reação natural, que até me deu certo alivio.

O grande problema era o outro lado da questão, aquele lado que tinha que equilibrar a convivência com Daryl, ainda era difícil separar o pai, do homem que eu tinha amado um dia. Mas, mesmo no meio de toda aquela confusão de sentimentos e pensamentos, eu tinha certeza que aquela distinção era a coisa mais certa a fazer no momento.

Estava claro que Daryl e eu ainda tínhamos muitos sentimentos mal resolvidos um pelo outro, em um mundo perfeito usaríamos aquela ponte que Petter tinha feito entre nós dois e consertaríamos as coisas, todavia, sejamos honestos, o mundo nunca foi um lugar perfeito, mesmo antes do apocalipse... E, mesmo depois daquele dia de calmaria onde Daryl vinha sendo incrível, ele ainda era o mesmo homem de Dawsonville, as coisas não tinham mudado da noite para o dia.

O passado ainda estava lá, ele ainda possuía todos aqueles problemas, ele ainda era o homem que tinha me mandado embora e, eu não podia mais viver um relacionamento como o que tínhamos em Dawsonville anos atrás. Eu ainda me lembrava. De tudo.

Eu não podia lidar com a bagunça que Daryl era, não podia lidar com toda aquela complicação, não se eu estivesse envolvida também. Eu precisava ser racional, pelo meu filho.

Sendo assim, eu sabia que eu e Daryl estaríamos sempre na vida um do outro, tínhamos um vínculo inquebrável e sempre seriamos pais. E por esse exato motivo não podíamos ser um casal.

Se algo desse errado de novo, Petter seria o primeiro afetado na avalanche que eu e Daryl causaríamos. Então, pelo bem do meu filho, eu precisava manter aquela distância emocional de Daryl Dixon.

Talvez isso tirasse meu foco, ou talvez, fossem todas as coisas que eu tinha passado até ali...

Medo. Tudo girava em torno do medo, de uma coisa ou de outra. Um medo paralisante que me tirava a atenção do que realmente importava.

Foco. Foco. Foco.

Forcei minha mente a permanecer na realidade. Rick ainda discursava. Estava com um mapa da região, falando sobre seus planos, contando com informações fornecidas por ninguém mais que Dwight.

Da minha parte eu não confiava no homem, e esse era apenas mais um dos motivos para que eu me obrigasse a ficar alerta.

O plano de Rick era simples: já que Dwight tinha dado a localização dos pontos de vigia e dos postos avançados, ele queria acabar com os Salvadores nesses lugares primeiros, então seguir para o Santuário com uma horda de errantes, que teria que ser atraída e desviada na estrada.

Assim toda a construção ficaria cercada. Senti que eu tinha perdido parte da explicação, porque não se encaixava na minha mente como cercar o Santuário de mortos nos ajudaria a ganhar aquela guerra.

— Por que nós simplesmente não entramos e acabados com tudo? Bombas nos lugares certos e fim. — Rosita, que tinha saído da enfermaria apenas para estar na reunião, questionou, claramente de mau-humor. Ela ficaria de fora de toda a ação, assim como Michonne, pois ainda estavam de repouso.

— Tem trabalhadores lá dentro, prisioneiros... Nem todo mundo compactua com Negan, eles merecem a chance de se render. — Jesus retrucou antes mesmo de Rick, mas eu não tive tempo de ponderar sobre aquilo, uma pequena silhueta chamou a minha atenção, se esgueirando pelo outro lado da sala.

Fiz o meu melhor para não revirar os olhos ou sorrir, enquanto cruzava o cômodo, indo em direção ao meu filho peralta e desobediente.

A conversa continuou acontecendo sem interrupções e Petter parecia tão entretido, que não reparou que eu o tinha pego no pulo. Limpei minha garganta audivelmente apenas para chamar a atenção dele.

Talvez outra pessoa não tivesse notado sua presença silenciosa e furtiva, mas era como se eu tivesse um sexto sentido quando se tratava do meu filho.

Assim que me viu, Petter arregalou os olhos por um segundo, naquela expressão de quem é pego fazendo coisa errada, mas não durou nada, pois ele mudou para algo inocente e infantil como se pudesse mesmo me enganar.

— Senti saudades. — Abriu o sorriso mais cara de pau de todos e eu cruzei meus braços sem dizer uma só palavra. Ele olhou para Daryl do outro lado da sala, que tinha desviado os olhos para nós naquele momento.

Petter fez cara de dó, e eu neguei algumas vezes.

— Eu vou ficar quietinho, prometo. — Juntou as duas mãos em forma de súplica e eu lhe lancei um olhar sério, dando um passo para o lado, concedendo a permissão que ele queria.

Não era como se eu pudesse impedir que Petter soubesse que teríamos uma guerra, eu teria que me acostumar com isso, assim como tive que me acostumar com todo o resto.

Adaptação era a palavra chave afinal de contas.

Petter atravessou a sala em passos largos e parou perto de Daryl, que chegou um pouco para a esquerda, assim nosso filho podia se sentar ao lado dele no batente da janela.

Nosso filho, isso ainda soava estranho...

— Tudo bem, mas como você pretende propor uma rendição sem ser alvejado? Sem todos vocês serem alvejados? — Rosita prosseguia em seu debate com Rick, o que me provou que o restante de pessoas na sala não estavam preocupadas com a minha movimentação.

Aparentemente eu era a única ali preocupada com qualquer outra coisa que não fosse aquela maldita guerra.

— Esse é um bom ponto, e eu não tinha certeza de como faria até ontem, quando Luka, Carl e Enid me apresentaram um projeto deles. — Rick apontou para os três, que estavam juntos em um dos cantos. — É um carro modificado para servir de escudo, vai ser o bastante pra deter os tiros por um tempo, então voltamos em segurança.

Eu sorri para Luka, a engenhosidade dela tinha sido útil como sempre, cada vida salva por aqueles carros seria mérito dela.

Rick continuou falando do plano, mostrando o posicionamento dos carros, ordem de ataque e todas essas coisas. Era uma operação de três etapas: Postos de vigia, com guardas solitários e fáceis de abater primeiro; depois o Santuário seria cercado, mas diferente do que Rosita ou Jesus acharam, o objetivo não era rendição, Rick queria que a pressão fizesse os próprios trabalhadores entregarem Negan...

Uma ideia estúpida que nunca daria certo, mas nos forneceria o tempo necessário para a terceira etapa da operação: com o Santuário cercado, atacaríamos os postos avançados, um deles tinha armamento pesado, que ficaria em nossa posse.

No fim, depois dos postos abatidos, voltaríamos ao Santuário e acabaríamos com tudo.

Eu não gostava do plano, tinha muitos pontos de falha e era subestimar demais os Salvadores. Fora que a parte em que Rick disse que conseguiria a aliança com o grupo do lixão de volta, foi ridícula. Você não refaz acordos com quem te traiu.

Olhei ao redor e ninguém parecia discordar de Rick, todos ali estavam confiantes com aquela merda de plano e bom, regra da democracia, a maioria sempre vence.

Eu não era apenas a minoria, eu era a única que parecia ter qualquer coisa contra aquilo, então mantive minha boca calada, não só pela desvantagem óbvia, mas porque pensei que minha falta de foco tivesse me feito perder alguma parte importante.

— O problema é que só temos material o bastante para modificar mais alguns carros, muito menos que o necessário. — Luka deu um passo à frente e assumiu a narrativa. — Teríamos que destelhar Hilltop e, talvez não tivéssemos o suficiente mesmo assim.

Rick estava sério, mas aquela revelação não pareceu ter abalado em nada a confiança dele, assim como não abalou a da minha filha, seja lá qual fosse o problema, ela já tinha encontrado a solução.

— Foi então que tive uma ideia que vai nos poupar tempo... — Petter interrompeu a irmã, quando pigarreou alto, e ela se viu obrigada a retificar: — Petter teve uma ideia que vai nos poupar tempo e garantir todo o material que precisamos.

Ele abriu o maior sorriso de todos, orgulhoso de si mesmo, como se tivesse acabado de salvar o mundo.

Eu estava tão tensa que mal conseguia respirar, era como se tivesse algo zumbindo no meu ouvido, dizendo constantemente que tudo daria errado a qualquer momento.

— Tem um ferro-velho mais ou menos aqui. — Luka apontou o lugar no mapa e eu o reconheci imediatamente. — Posso sair hoje e voltar com tudo que precisamos antes no anoitecer. Carl e Enid podem ir comigo, assim ninguém precisa abandonar suas funções e os preparativos não vão atrasar.

— Você não vai! — Retruquei no mesmo momento e isso atraiu olhares de todos na sala.

Percebi imediatamente que era a abordagem errada, dar uma de mãe super protetora seria péssimo para a credibilidade de Luka e pior ainda para o nosso relacionamento. Eu não aceitava ordens da minha mãe quando tinha aquela idade e sabia que minha filha não aceitaria de mim.

Resolvi ser mais branda, e mais lógica, dar valor ao que ela estava fazendo e mostrar outra solução. Dei um passo pra frente e amenizei minha postura.

— Quer, dizer, você não pode ir, nenhum de vocês pode, são necessários aqui... Você mesma disse que tem material para mais alguns carros ainda, se saírem, isso vai atrasar os preparativos do mesmo jeito. — Gesticulei casualmente e o meu argumento pareceu convencer alguns.

— Eu vou! Eu não estou fazendo nada. — Rosita se ofereceu imediatamente e foi quase como se ela estivesse desesperada pra sair de Alexandria e se enfiar na ação.

— Você está ferida e, sem ofensas, mas você nem sabe onde fica o ferro velho... — Luka negou alguma vezes e encarou Carl e Enid por um segundo, resolvi agir antes que ela tivesse outra ideia perigosa.

— É por isso que eu vou. — Coloquei a mão espalmada sobre o mapa. — Eu sei exatamente onde fica, e não tenho nenhuma função. Sou a pessoa perfeita pra ir.

Luka me encarou contrariada, então revirou os olhos e deu um passo para trás, vencida.

— Eu posso ir com você! — Petter deu um pulo de onde estava sentado e agiu como se eu fosse sair de férias.

— Não. Não pode. — Fui categórica. — Isso não está em discussão.

Ele murchou na mesma hora, e voltou a se sentar.

— Resolvido então. Eu vou. Antes do anoitecer devo estar de volta e amanhã vocês já vão poder trabalhar com o material novo, além de terem adiantado outros carros hoje. — Dei aquele assunto por resolvido.

— Parece uma boa ideia pra mim. — Rick assentiu um tanto aliviado, claro que ele também não queria o filho em uma missão nas ruas.

— É seguro? — Maggie perguntou com certa preocupação.

"Seguro" não era uma palavra que podia ser aplicada na realidade em que vivíamos, nada era seguro. Tudo era vida ou morte. Mas dentro das probabilidades eu sabia que tinha tudo pra ser uma missão calma.

— Fora da rota dos Salvadores, eu vou ficar bem, conheço a região como a palma da minha mão. — Tranquilizei, preferindo guardar pra mim que o ferro-velho ficava entre meu apartamento e a central dos escoteiros mirins que Petter frequentava.

A reunião terminou ali para mim, eu tinha preparativos pra fazer e quanto mais rápido saísse, mais rápido voltaria. E não, eu não queria ficar longe dos meus filhos de novo, mas era melhor que eu fosse do que a Luka.

Menos de uma hora depois eu tinha tudo pronto, joguei uma mochila com o básico em uma caminhonete e Rick me deu uma arma, mesmo assim preferi me munir de facas, eram mais silenciosas.

Luka me entregou uma lista com tudo que precisava.

— Você fez aquilo outra vez. — Ela acusou, cruzando os braços e se encostando na caçamba da caminhonete.

— Aquilo o que? — Me fiz de desentendida, colocando a lista do bolso de trás do meu Jeans.

— Me proibiu de fazer uma coisa, agindo como se fosse uma negociação, como se eu tivesse poder de escolha. Você disse "não", mas ao mesmo tempo não disse. — Ela cruzou os braços, mas estava calma, neutra.

Graças a Deus que Luka não tinha o meu temperamento com dezoito anos, porque convenhamos, eu tinha sido uma filha péssima pra minha mãe.

— Eu não sei do que você está falando... — Ergui as duas mãos, mas ela me lançou um olhar tão certeiro que eu tive que ceder. — Okay, talvez eu não quisesse três crianças lá fora sozinhas, mas admita que o meu argumento faz sentido, vocês são mais úteis aqui.

— Claro que faz sentido. Por isso é tão frustrante. Eu nem posso me rebelar, porque você está certa! — Ela jogou as duas mãos para o ar e também se deu por vencida.

Acabamos rindo.

— Desculpa, eu não podia arriscar. — Eu a trouxe para um abraço.

— Eu não gosto de arriscar também. — Luka devolveu e tive que sorrir para a preocupação dela.

— Eu vou ficar bem.

— Eu sei que vai, mas ainda não gosto de você lá fora sozinha... — Ela mal tinha acabado de falar, quando o baque de outra mochila sendo jogada na caçamba atraiu nossa atenção.

— Ela não vai sozinha. — Daryl declarou, colocando a besta junto com a mochila.

Okay, aquilo certamente não estava nos meus planos. Nem morta.

Encarei Daryl dos pés à cabeça e ele devolveu meu olhar de modo firme, não era um pedido, tampouco uma negociação. Aquilo me irritou um pouco.

— Não preciso de companhia. — Devolvi e só quando as palavras saíram da minha boca, percebi que soavam infantis.

— Na verdade eu acho que precisa sim... — Luka comprimiu os lábios, como se me pedisse desculpas.

Olhei para aquela traidora vira-casaca totalmente incrédula.

— Eu posso me cuidar sozinha. — Reforcei lhe lançando um olhar que era mais um "que merda você está fazendo?" do que qualquer outra coisa.

Luka riu meio de canto e ajeitou o rabo de cavalo.

— Ninguém duvida disso, mas você ainda vai precisar de ajuda pra colocar as placas de ferro aqui em cima. Telhas, chapas... Precisa de duas pessoas pra carregar essas coisas. — Ela enumerou com a maior cara de pau, claramente me copiando.

— Eu sei o que você está fazendo... — Acusei, estreitando os olhos.

— Eu não sei do que você está falando. — Ela ergueu as mãos e copiou minhas exatas palavras: — Mas admita que meu argumento faz sentido.

Touché. Era isso que eu chamava de virar o jogo, acabei rindo da situação.

— Que seja. Mas eu dirijo. — Deixei claro para Daryl e ele deu de ombros, como se não fizesse diferença.

Havia algo de diferente nele, um tipo de tensão, mas ao mesmo tempo uma leve euforia. Aquela decisão de ir comigo era ultrapassar os limites, como pai ele devia ficar em Alexandria de olho no Petter.

Pensei em voltar e arrancar Rosita da cama pra ir comigo, mas me pareceu imaturidade da minha parte, a verdade é que eu tinha que aprender a conviver com Daryl, sem perder o foco, o juízo ou as roupas, afinal aquela seria nossa vida dali pra frente.

— Já cheguei, família! — Petter apareceu todo saltitante e percebi que ele carregava uma mochila pequena nas costas. — Seu assistente de bordo preferido está na área, pronto pra embarcar.

Daryl olhou do menino para mim e eu me limitei a revirar os olhos, segurando Petter pela mochila antes que ele avançasse mais.

— Onde você pensa que vai, mocinho? — Questionei e recebi um daqueles sorrisos amarelos como resposta. — Eu disse "não". Você espera aqui com a sua irmã, vou estar de volta no fim de dia, nem vai dar tempo de sentir saudades.

Os ombros de Petter caíram em desapontamento e Luka riu, soltando um "eu disse" que fez com que o irmão lhe mostrasse a língua com gosto.

— Então tchau, Daryl. — Ele acenou todo cabisbaixo. — Tchau, Mãe.

Deu um abraço meia boca em mim e se afastou alguns passos e claro que isso me partiu o coração.

— Ele supera, relaxa. — Luka deu de ombros. — Boa sorte lá fora.

Nos abraçamos uma última vez e eu dei meia volta, encarando Daryl por um momento antes que ele entrasse na caminhonete.

— Sorte não tem nada a ver com isso... — Suspirei pra mim mesma e assumi o volante.

Nos despedimos de Rick no portão, parando um minuto pra trocar algumas palavras de dentro da caminhonete mesmo.

Nesse meio tempo Luka conseguiu uma lona, para que o material voltasse coberto caso chovesse.

Percebi que eu estava protelando, ficando ali o máximo de tempo que eu podia, porque sair, significava ficar sozinha com Daryl.

Quanto mais rápido eu for, mais rápido eu volto... convenci a mim mesma, enquanto acelerava para fora dos portões.

Observei Alexandria ficando para trás pelo retrovisor e engoli em seco, da mesma forma que o silêncio engolia nossas vozes dentro da caminhonete.

Ajeitei minhas mãos no volante, sentindo a tensão se espalhar rapidamente por minhas veias, como um veneno sem antidoto.

Me recusei a olhar para Daryl sentado ao meu lado, descartei qualquer desejo de perguntar seja lá o que fosse.

Percebi rápido que ficar a sós com Daryl Dixon não era algo que eu queria fazer com frequência, não fazia bem para minha sanidade. Estar com ele daquele jeito era como travar uma guerra dentro de mim mesma, e eu tinha que repetir como um mantra o lembrete constante que me render não era uma opção.

Aqueles dez anos longe de Daryl tinham sido doloridos, mas naquele instante, dentro daquela caminhonete que eu acelerava o máximo na estrada, estar sozinha com ele era ainda pior.

A verdade é que eu era como uma viciada, sentada ao lado da minha droga preferida, depois de muito tempo de abstinência, eu estava limpa, desintoxicada. Dez anos sóbria, e eu pensei que estivesse livre daquele vicio, mas estar limpa, não significa deixar de sentir falta, não é?

Deve ser assim que um viciado se sente, deve ser por isso que as recaídas são piores, quer dizer, você ainda quer aquilo que te destruiu, quer tanto que mesmo sabendo que vai te matar, você insiste, você volta para um comportamento autodestrutivo. Viciados tem um quê de loucos e o que é o amor senão a mais pura loucura?

A maior parte dos reincidentes morrem de overdose... Prive alguém de algo por muito tempo e crie uma compulsão.

É como estar na beirada de um precipício e pular apenas pela adrenalina da queda, sem se importar com o que está te esperando lá embaixo.

E lá estava eu, flertando com o abismo, e cair parecia tão tentador, parecia tão certo. Talvez aquele cretino do Will Dixon estivesse certo no fim das contas: Daryl era a minha ruína...

— O que você está pensando? — A voz dele abriu uma comporta de nostalgia. Eu costumava fazer aquela pergunta.

Voltei meus olhos na direção de Daryl, pela primeira vez desde que tínhamos saído de Alexandria, e apertei um pouco mais o volante, como se isso pudesse evitar que eu fizesse alguma besteira.

Foi só então que eu percebi, não, na verdade eu senti, senti fluindo pelas minhas veias algo que deu sentido a todo o resto das minhas atitudes e reações a Daryl nos últimos dias.

Eu ainda o amava, era inegável, aquele tipo de amor não morria, ainda estava lá, como carvão em brasas fazendo com que todo o meu interior virasse cinzas, e esse era o ponto...

Aquele abismo que eu tinha aberto entre mim e Daryl não era sobre Petter somente, não era apenas sobre a segurança física e emocional do nosso filho. Era sobre a minha segurança. Eu tinha medo. Havia passado pelo inferno por causa dele, e isso me quebrou de formas inimagináveis, destruiu partes de mim que nunca se curaram.

E no fim, o grande problema era que Daryl não tinha mudado, ele ainda era o mesmo homem com problemas para aceitar o amor, o mesmo homem que não tinha lutado por mim, e três palavras não mudariam isso.

Sim, eu sabia o que Daryl queria me dizer aquela noite... Era irônico que eu tivesse passado a minha vida toda desejando ouvir aquilo dele e, quando Daryl finalmente estava disposto a dizer, eu não quis escutar. A verdade era que o amor não tinha sido o bastante para nós dois antes e não havia nada que me fizesse acreditar que seria o bastante naquele momento.

Então a verdade nua e crua era também feia e dolorida: Daryl Dixon era o homem da minha vida, eu o amava e ele me amava também, eu confiaria a vida do nosso filho nas mãos dele se preciso fosse, mas jamais confiaria nele com o meu coração, não outra vez.

Chame de medo ou proteção, mas eu não estava pronta para dar aquele salto de fé. Eu já tinha feito isso uma vez e não acabou bem pra mim.

— Daryl... — Tentei colocar em palavras, que lembrar nossa frase mais comum não mudaria minha decisão, mas ele foi mais rápido que isso para corrigir.

— Sobre o plano, eu quero dizer... — Desviou os olhos de mim, como se a primeira pergunta fosse apenas um impulso. — Acha que vai dar certo? Você ficou lá dentro por um tempo, então deve ter um palpite se eles vão se render um não.

Voltei os olhos para a estrada, eu odiava negação, mas talvez fosse a melhor coisa naquela situação, negar nossos sentimentos como se eles não existissem. Talvez, se mentíssemos bem o bastante, conseguíssemos convencer nossos corações.

— Eu não sei... — Tentei manter uma conversa normal. Fingir não era exatamente uma novidade para mim. — Antigamente eu diria que sim, que todo mundo ali só estava esperando pra fazer a coisa certa, mas eu já vi partes muito ruins da humanidade pra acreditar nisso...

Era quase engraçado que aquele assunto tão sério estivesse sendo usado como uma coisa banal, para nos distrair de nós mesmos.

— Talvez aquele idiota do Dwight convença o pessoal. — Daryl soou um tanto rancoroso.

— Dwight não tem a melhor reputação lá dentro. Ele fugiu e voltou, deu a mulher dele como se ela fosse um objeto e passou todo esse tempo fazendo tudo que Negan mandava, ou seja, sendo um escroto com os Pontistas. Rick precisaria de alguém bem visto pelo baixo escalão. — Dei minha opinião sincera, afinal eu também não era a maior fã de Dwight.

Daryl apoiou o queixo no punho direito e manteve os olhos na paisagem que passava depressa do nosso lado.

— E tem alguém assim lá dentro? — Ele estava jogando conversa fora, era um comportamento atípico para Daryl Dixon, o que significava que aquele silêncio também o tinha incomodado.

— Na verdade tem... — Meu pensamento colocou um sorriso no meu rosto, Kane seria um agente duplo muito melhor que o Dwight, contudo, assim que o sorriso brotou ele sumiu, dando lugar a uma certa culpa. — Mas acho que minha fuga o colocou em maus lençóis com o Negan...

Daryl me analisou por alguns segundos, tinha tirado os olhos da estrada pra focar em mim.

— De quem você está falando? — Havia algo mais que desconfiança em sua voz, mas não tive tempo de pensar nisso, porque um certo movimento na caçamba atraiu minha atenção para o retrovisor.

— Mas que merda! — Xinguei, batendo no volante enquanto freava a caminhonete.

Daryl franziu as sobrancelhas na minha direção, sem entender o que estava acontecendo, mas foi obrigado a me seguir para fora do veículo, afim de conseguir sua resposta.

Ele veio com uma faca em punho, mas eu não precisei esperar que ele estivesse em posição para puxar a lona que cobria parte da caçamba.

E não foi nenhuma surpresa quando meu filho peralta e desobediente estava lá, com a maior cara de inocente do mundo.

— Minha nossa! Como será que eu vim parar aqui? — Ele se fez de surpreso, totalmente teatral, como se aquela atuação fosse enganar alguém.

— Sério, Petter? — Cruzei os braços e bati o pé esquerdo freneticamente no chão. — Eu disse claramente que você não viria.

— Mas, mãe... — Ele fez um bico enorme. — Eu não queria ficar lá sozinho...

— Sozinho? Esse é o seu argumento? — Mantive meu tom de voz controlado e sério. — Sua irmã estava lá, tinha três comunidades juntas, a última coisa que aconteceria era você ficar sozinho.

Petter veio se arrastando para a ponta da caçamba, bem perto de mim, enquanto Daryl ainda encarava tudo aquilo atônito.

— Eu te amo, queria ficar pertinho. — Petter continuou se fazendo de anjo, com aqueles olhinhos brilhantes e piscantes que causariam inveja no Gato de Botas.

Eu criei um monstro. Um monstro adorável, mas ainda assim um monstro...

— Luka deve estar te procurando! Aliás, como você subiu aqui sem ser visto? — Continuei em minha pose, porque meu filho era perfeito em ser adorável, mas eu era ainda melhor em fingir não ligar pra aquela carinha pidona.

— Ela não está me procurando, ela me ajudou... — Confessou, falando entre os dentes e eu revirei os olhos, por não ter previsto aquilo. — Foi assim que eu subi sem ser visto.

Ouvi Daryl segurar a risada, mas ele se recompôs rapidamente e eu ignorei.

— Está dizendo que convenceu sua irmã a te deixar vir? — Tentei um tom repreensivo, mas eu nunca fui muito boa naquela coisa de repreensão e bronca, não era à toa que Petter era um serzinho tão mimado.

— Minha mãe e meu p.. Daryl estão aqui. — Ele corrigiu tão rápido que eu tive dó. — O que de mau poderia acontecer?

Então era isso, ele queria sair com o pai e a mãe... Em que mundo eu estava criando o meu filho? Estavamos no meio de uma guerra e tudo que ele queria era uma viagem com os pais.

— Quer saber? — Joguei os braços pra cima em rendição. — Você está certo, o Daryl está aqui, então ele vai decidir se você pode ir, ou se vamos voltar.

— O que? Eu? Não? — Daryl soou apavorado, como se eu tivesse pedido que ele cometesse um crime.

Na verdade, se eu pedisse por um crime ele teria reagido melhor.

— Não dá pra eu ser a louca mandona que proíbe tudo o tempo todo. É sua vez. — Argumentei prática, enquanto me afastava de Petter, para dar aos dois alguma privacidade e para não influenciar em nada.

— Mas eu... — Daryl começou a andar atrás de mim um tanto apressando e abaixou consideravelmente o tom de voz, como se não quisesse ser ouvido. — Eu não faço ideia do que fazer.

Parei a alguns metros da caminhonete e encarei Daryl, ele ficava uma graça todo atrapalhado com aquela coisa de ser pai. Eu só quis me aproximar, beijá-lo e dizer que tudo ficaria bem.

Obviamente, não foi isso que eu fiz.

— É simples, fale com ele, escute os argumentos, pese os prós e contras e diga "sim" ou "não". — Dei de ombros como se fosse a coisa mais simples de todas. Daryl engoliu em seco.

— Você não pode só me falar o que dizer e pronto? — Jogou a mão no ar, daquele jeito brusco que ele tinha, o que só me deu mais vontade de beijá-lo.

— Não, não posso. — Respondi, tanto para Daryl, quanto para o meu próprio desejo. — Exerça sua autoridade paterna, você só tem que lembrar que não tem certo ou errado, só tem você, fazendo o melhor que você pode.

Ele olhou de mim para Petter que nos esperava, sentado na ponta da caçamba balançando os pezinhos, como se aquela situação fosse a coisa mais natural do mundo. Daryl assentiu finalmente e se afastou em direção ao nosso garoto.

Fiquei parada onde estava, atenta aos sons da floresta que rodeava a estrada, pronta para qualquer errante ou sobrevivente que pudéssemos encontrar. Felizmente não tivemos nenhuma companhia.

Volta e meia eu encarava Daryl e Petter conversando, sentados lado a lado na caçamba da caminhonete e tentei não prestar atenção na conversa. Era como um exercício de autocontrole. Se eu pudesse conter minha curiosidade, talvez eu também conseguisse conter meu desejo, afinal não dava pra conviver com o Daryl querendo atacar a boca dele a todo momento.

Demorou alguns segundos para que a conversa acabasse, então Daryl veio andando na minha direção em passos lentos e incertos.

— Ah, eu... — Ele coçou a nuca por um momento e eu entendi tudo.

— Ele dobrou você, não é? — Apontei tentando não rir.

— Ele tinha bons argumentos, e ele é teimoso, como você. — Daryl tentou se defender e pareceu mais um garoto de dez anos do que o próprio Petter.

Não pude evitar sorrir, será que eles viam o quão parecidos eram?

— Não foram os argumentos Daryl, foi a carinha. Aquela que ele faz que lembra um cachorrinho abandonado... — Devolvi neutra, caminhando de volta para a caminhonete.

— Eu disse que não ia conseguir e... — Ele começou a tentar se explicar, como se tivesse feito alguma coisa tão errada.

— Daryl, relaxa. — Parei por um segundo e pousei a mão esquerda em seu ombro como um gesto de apoio. — Ele ganhou da gente no momento em que se escondeu na caçamba. O importante é que ele acha que só vai continuar essa viagem, porque você permitiu, isso fortalece os laços de vocês.

Daryl franziu as sobrancelhas e então assentiu, como se entendesse aos poucos o que eu tinha acabado de dizer. Então caminhamos para a caminhonete lado a lado, enquanto Petter nos esperava com uma empolgação aparente no olhar.

— Posso dirigir? — Perguntou dando pulinhos enérgicos, assim que nos aproximamos o bastante.

— Não quer liderar Alexandria também? — Ironizei apontando a entrada do passageiro.

— O Cabeça de Melancia não é tão ruim assim, tem algumas coisas que eu mudaria, mas... — Ele ainda estava falando quando subiu na caminhonete.

Apontei o lugar do motorista para Daryl, ficaríamos melhor acomodados daquele jeito. Eu iria no banco do passageiro com Petter, deixando-o se sentar entre mim e o pai.

— Espera. Rick é o Cabeça de Melancia? — Daryl questionou, enquanto ligava o motor, como se tivesse acabado de se tocar daquilo.

— Talvez... — Petter respondeu devagar, abrindo um sorriso amarelo para esperar a reação do pai.

Daryl negou algumas vezes e acabou rindo. Rindo de verdade. Eu apenas sorri enquanto focava na paisagem, havia algo de hipnótico em ver Daryl rir, talvez porque eu passei muito tempo tentando fazê-lo feliz... Vai ver, fosse hora de aceitar que eu nunca fui a cura de Daryl Dixon, mas ainda haviam esperanças que Petter pudesse ser.

E ter nosso filho ali no meio amenizou totalmente o clima, não apenas porque Petter preenchia totalmente o silêncio, mas porque as coisas se tornavam mais leves perto dele, mais simples. Como se o mundo ainda pudesse ser um lugar bom. Como se ainda houvesse salvação.

— Eu adoro viajar de carro, você gosta, Daryl? — Ele questionou animado, em certo ponto da viagem.

Era quase como se eu pudesse sentir a alegria do meu filho emanando de seus poros. Ele amava o pai e, ás vezes, eu tinha que conter o ciúmes por isso. Mas eu tive Petter só pra mim por dez anos, acho que tinha chegado a hora de dividir...

— Prefiro moto, mas gosto, sim. — Daryl respondeu neutro, alternando os olhos entre a estrada e o garoto.

— Mamãe levava a gente pra almoçar na praia às vezes, assim do nada, eram as minhas viagem preferidas. — Petter começou a contar, daquele jeito rápido e empolgado de sempre. — Fomos pra Disney uma vez, foi o presente de um mês da Luka, mas viajamos de avião, porque era muito, muito longe. Mamãe é a melhor planejadora de viagens do mundo!

Daryl focou os olhos em mim por um instante, havia uma certa calmaria nele, algo diferente da tempestade que sempre habitou suas íris azuis.

— Ela é... — Concordou e eu soube imediatamente que ele tinha dito aquilo, porque se lembrava bem de uma de nossas viagens.

Aquela afirmativa não passou desapercebida por Petter.

— Vocês já viajaram juntos? — Ele olhou de mim para o pai algumas vezes, esperando a resposta.

— Pra uma pedreira lá na Georgia. — Daryl respondeu e senti um tanto de nostalgia em sua voz.

— A mesma pedreira que a gente ia, quando as coisas viraram uma bagunça? — Petter fez a ligação depressa e Daryl ficou surpreso com a revelação.

Ambos esperavam por minha resposta, Petter por pura curiosidade infantil, sem saber o que aquela pedreira significava realmente, enquanto Daryl me encarava de modo intenso, como se minha resposta fosse desvendar um mistério universal. Assenti devagar, incapaz de colocar minha afirmativa em palavras, porque, no fundo, eu temia o significado delas.

— É ali! — Petter apontou de repente, tirando nossas atenções daquele momento, para o bem da minha sanidade.

O ferro-velho de Brookmont, era uma área de um quarteirão, com cercas de arame e todo tipo de porcaria que uma pessoa pode imaginar. A estrada em que estávamos nos deu acesso a saída dos fundos, própria para caminhões. Eu sabia que do outro lado do quarteirão, no acesso da cidade, encontraríamos a entrada comercial, onde o escritório ficava, mas não era necessário dar a volta, podíamos encontrar o que tínhamos vindo buscar ali mesmo.

Metros e metros de ferro acumulado, dezenas de carros amassados e empilhados por toda a parte, era um paraíso das coisas que precisávamos, mas também era um labirinto.

— Fique perto da gente e nem pense em desobedecer. — Ordenei muito séria e Petter assentiu.

Daryl deu uma olhada geral nas proximidades e estendeu a mão na minha direção para ver a lista.

— Eu não gosto daqui. — Declarou enquanto lia os pedidos de Luka.

— Nem eu. — Assenti e a partir de então nos empenhamos pra recolher o que precisamos o mais rápido possível.

Deixei Petter encarregado de riscar os itens conseguidos da lista, era apenas uma tarefa fictícia que o deixava perto da caminhonete e longe de qualquer confusão.

A primeira meia hora correu como planejado, nenhum contratempo ou imprevisto, tínhamos passado da metade da lista, terminaríamos tudo dentro do tempo previsto.

Petter se aproximou de nós, procurávamos peças mais especificas dentro dos carros, ferramentas e esse tipo de coisa...

— Eu disse pra você ficar na caminhonete, lembra? — Avisei, colocando algumas coisas na mochila.

— Pensei que vocês podiam estar com sede... — Balançou uma garrafinha de água e eu o olhei desconfiado.

Se não conhecesse meu filho até acreditaria que aquele era mesmo um gesto de boa vontade, mas convenhamos, era o Petter, ele não dava ponto sem nó.

Foi dito e feito, ele só precisou de uma brechinha pra começar a seguir Daryl por entre os carros.

— Você devia fazer o que sua mãe mandou e voltar pra caminhonete... — Passei a ouvir a conversa dos dois de longe, enquanto prosseguia com minha tarefa.

— É chato lá... — Petter resmungou, chutando uma pedrinha no caminho.

Tive que mover minha cabeça alguns centímetros para o lado, de modo a enxergar o que os dois faziam. Daryl encarava Petter como se ponderasse sobre algo, foram vários segundos, nos quais ele roía a lateral do polegar esquerdo.

— Não saí de perto de mim, então. — Advertiu por fim.

Petter tinha conseguido o que queria de novo. Pelo visto Daryl era incapaz de negar qualquer coisa para o menino. Era uma atitude que colocava um sorriso no meu rosto, claro, porque quem imaginaria Daryl Dixon naquele papel de pai coruja?

Mas eu sabia que a incapacidade de impor limites tinha muito a ver com seu medo de ser um pai ruim, teríamos que conversar sobre isso. Levei algum tempo também, pra aprender que ser uma boa mãe, não era sinônimo de ser uma mãe permissiva. Às vezes dizer "não" era necessário, Daryl precisava treinar esse lado.

Observei os dois novamente, Petter analisava os movimentos do pai, copiando certos trejeitos. Daryl ficava de olho no garoto constantemente, não dava pra negar que ele ficava ótimo bancando o papai.

Decidi que podíamos adiar a conversa sobre "nãos". No fundo eu gostava de vê-lo mimar o nosso filho.

Daryl tinha acabado de abrir a porta de um dos carros, quando puxou Petter pelo braço, ocultando-o com seu próprio corpo em um gesto protetor, ao mesmo tempo em que armava a besta para algo que haviam encontrado no veículo.

Eu já estava no meio do caminho até os dois, quando o sorriso de Peter atingiu níveis estratosféricos.

— Espera! — Ele deu um passo pra frente. — É só um cachorro... Ele só está com medo.

Finalmente o veículo entrou em meu campo de visão, e eu pude ver o animal dentro do carro, ele estava no assoalho, cabeça baixa, posição de ataque, enquanto um rosnado discreto era emitido como um aviso.

Era um cão enorme, seu pelo estava coberto de barro e sujeira, duro e embolado pelos maus tratos, eu sequer conseguia distinguir a cor do pobre animal.

Petter deu mais um passo pra frente, como se estivesse encantado.

— Não ouse! — Adverti em um tom que não permite discussões e ele parou imediatamente onde estava.

Daryl tinha a besta pronta, a postura alerta e preparada, se o cachorro ameaçasse sair do carro eu sabia que ele não hesitaria.

O animal latiu, um aviso claro para que ninguém se aproximasse. Percebi que eu já tinha a arma em punho, antes mesmo de pensar sobre isso.

— Ele vai te atacar, Petter, é um bicho selvagem. — Daryl falou e seu tom era mais como uma desculpa do que como uma advertência, percebi que ele só não tinha acertado o cachorro ainda, porque Petter estava ali.

Petter tinha a mão na mochila, como se procurasse por algo.

— Ele só está com medo, você está apontando uma arma pra ele. — Respondeu com convicção, como se ele fosse o único ali que sabia de alguma coisa.

Eu não era a favor de matar animais. Aprendi a abrir uma exceção quando se tratava de caça, depois que o mundo desabou, mas cachorros certamente eram um assunto delicado pra mim. No entanto, minha arma permanecia erguida, quando se tratava da segurança de Petter meus limites morais eram inexistentes.

— Aqui amigo, você está com fome? — Petter estendeu o que parecia um pedaço de pão caseiro para o cachorro, uma das mordomias que Alexandria nos permitia.

Ele jogou o alimento no assoalho e eu destravei a arma, ao passo que Daryl tinha uma postura quase predatória.

O cão farejou o que lhe foi ofertado e devorou em uma bocada só, quase desesperado. Olhou de mim para Daryl desconfiado, então para Petter, saindo do carro lentamente, enquanto outro pedaço de pão era jogado do lado de fora.

Ele devorou o pão com a mesma rapidez e vontade que da primeira vez, o que fez com que Petter lhe jogasse um terceiro e último pedaço, esse foi pego no ar.

Claro que eu fiquei com dó do bichinho, mas ele ainda era um risco, de modo que eu e Daryl permanecíamos alerta.

Vi Petter puxar um pedaço de ferro qualquer do chão, era uma peça cilíndrica que serviu como cumbuca de água. O cachorro se aproximou mais, bebendo desesperadamente.

Eu e Daryl trocamos um olhar, era óbvio que o animal morava no ferro velho há algum tempo, tinha entrado no carro através do vidro quebrado. Era um milagre que ainda estivesse vivo, dada a escassez de água e comida.

Mas, por mais que eu tivesse dó, ainda era um animal vivendo sozinho há tempo demais, ele podia ser imprevisível e selvagem, por isso, quando Petter ergueu a mão para tocá-lo, meu dedo tocou o gatilho, pronto para dar o tiro.

Mas o animal se aproximou, seu rabo balançando discretamente. Daryl percebeu alguma coisa que o fez relaxar um pouco a postura.

Petter acariciou o cão, ignorando minha advertência muda.

— Tudo bem amigo, ninguém vai machucar você. — Declarou amigável e o rabo do cachorro balançou freneticamente, fazendo todo seu corpo tremular junto.

Daryl abaixou a besta e eu mantive a arma erguida, mas acabei me dando por vencida, quando o cachorro deitou aos pés do meu filho, como se pedisse mais carinho.

Daryl deu de ombros e eu neguei algumas vezes, revirando os olhos.

— A gente pode ficar com ele? — A pergunta não demorou a aparecer e nem sei por que me surpreendeu.

Petter sempre quis um cachorro, e foi uma das poucas coisas que eu neguei a ele, não só porque morávamos em um apartamento e passávamos um tempo considerável fora... Digamos que eu ainda tinha um certo receio do que a perda de um animalzinho de estimação podia fazer com uma criança.

E, no mundo caótico que vivíamos naquele instante, onde "perda" era a única certeza, ter um cachorro parecia uma imprudência.

— Petter... — Tentei encontrar as palavras certas. Estávamos no meio de uma guerra afinal. — As coisas não diferentes agora. É perigoso e... Nós não temos um lugar pra ele. A gente nem sabe como as coisas vão terminar... — Petter baixou os olhos para o cãozinho, que agora recebia atenção não só dele, como de Daryl também, que tinha se abaixado ali. Meu filho estava decepcionado.

Eu conseguia ver tantas implicações ali, quer dizer, pessoas não tinham cachorros de estimação no fim do mundo. Que bem faria deixar meu filho se apegar a um animalzinho que acabaria morto? Fora que, sequer sabíamos a procedência do cachorro, o estado de saúde dele... Não sabíamos de nada.

— Você tem que cuidar de si mesmo e um cachorro é... complicado. — Tentei justificar e Petter pareceu ainda mais decepcionado.

Daryl alternou o olhar entre nosso filho e o cachorro por alguns instantes, antes de se levantar e vir na minha direção.

— Ele lidava com um tigre, ele pode lidar com um cachorro. — Começou em tom baixo, parado muito próximo a mim para que Petter não nos ouvisse. — Podemos achar um lugar para o animalzinho em Alexandria, eu ajudo.

Encarei Daryl por alguns segundos, surpresa com a sua atitude, ele estava defendendo os interesses do nosso filho. Era novo e estranho estar naquele tipo de situação, quer dizer, por muito tempo eu tinha sonhado com momentos banais como aquele... Discutir com o pai do meu filho se teríamos um cachorro ou não. Decisões simples do dia a dia, que eu sempre tive que tomar sozinha.

Minha utopia imaginaria tinha momentos como aquele: Eu e Daryl sendo mãe e pai, sendo uma família... Enquanto as pessoas sonhavam em ganhar na loteria, eu só queria uma casa com dois filhos, um cachorro e o amor da minha.

Mas isso era antes, antes do mundo acabar. Aquelas coisas não importavam mais, pelo menos eu me esforçava pra pensar que não.

— Estamos no meio de uma guerra, Daryl... — Tentei argumentar.

— Eu sei. — Ele assentiu neutro. — Mas uma garota com bochechas adoráveis me disse uma vez que, às vezes, tudo que a gente precisa é de um pouco de esperança. Ela estava certa, ela sempre esteve certa...

Um segundo. Todas as lembranças.

Parecia outra vida. Percebi que era tudo sobre a famigerada esperança e eu já não tinha nenhuma, era só luta e dor, eu não acreditava mais em esperança. E isso era triste. Era como a morte, antes de morrer de fato.

— Talvez ela esteja certa agora também. — Devolvi apenas por devolver.

Daryl negou algumas vezes e encarou o chão.

— Ou talvez ela precise ser um pouco mais Bochechas e um pouco menos... — A frase ficou lá, sem fim.

— Chata? — Completei envolvida no momento, porque no fundo eu sentia falta da garota de Dawsonville também, da garota na pedreira que acreditava em amor e esperança.

— Eu não ia dizer isso, mas se a carapuça serviu. — Daryl deu de ombros, sorrindo de canto.

Deus, eu realmente amava aquele sorriso. Acho que sorri também.

— Quer saber? Eu sinto falta do meu Baby Dix, o Papa Dix é muito bunda mole. — Debochei, empurrando o braço dele de leve, para só então perceber o que eu tinha acabado de dizer.

Havia um pronome possessivo naquela frase. Meu. Os olhos de Daryl estavam presos em mim. Pupilas dilatas, olhar intenso. O abismo nunca tinha parecido tão sedutor. Talvez a ruína não fosse tão ruim assim...

Engoli em seco, forcei a realidade a entrar pelos meus pulmões pra que pudesse chegar mais rápido até minha mente.

— Seu pai disse que você pode ficar com o cachorro. — Declarei, tirando os olhos de Daryl e voltando minha atenção para Petter.

— Sério?! — Era como se a empolgação em sua voz fosse contagiosa. Ouviu isso Bolt? Você faz parte da família agora!

Talvez fosse contagiosa mesmo, porque o cachorro parecia tão animado quanto seu novo dono.

Entendi a referência do nome, mas pela cara de Daryl ele ficou perdido com isso, ou talvez fosse só surpresa pelo fato de Petter ter escolhido um nome tão rápido.

Daryl tirou os olhos de mim devagar, focando em Petter que fazia um tipo de dancinha da vitória com Bolt.

— Mas você tem que cuidar dele, ele é sua responsabilidade, certo? — Daryl tentou soar paternal, não combinou com ele, mas foi engraçado.

— Sim, senhor! — Petter bateu contingência, antes de correr até o pai e lhe dar um abraço. — Obrigado. Mamãe é difícil de convencer, mas acho que você é bom nisso.

Daryl assentiu meio sem jeito, coçando o rosto pra disfarçar. Petter voltou para seu novo amigo e começou uma conversa animada com ele.

— De nada, viu? — Declarei cruzando os braços, me fazendo de ofendida por ter sido esquecida.

Petter voltou correndo e me deu um abraço também.

— Obrigado, mãe. Te amo daqui até a lua!

— Ida e volta. — Completei.

— Eu te amo também, Daryl. — Petter declarou de forma bem natural, chamando o cachorro para e fazendo farra com ele.

Tinha sido uma declaração inocente e involuntária, porque era algo bem comum entre nós. Mas, obviamente, Daryl não estava preparado. Ele ficou petrificado no lugar por longos segundos, como se estivesse processando aquilo.

Resolvi não interferir, Daryl teria que se acostumar com as demonstrações de afeto do Petter e, honestamente, eu tinha ultrapassado minha cota diária de flerte com o passado. Era hora de me afastar dele um pouco, antes que me esquecesse o motivo pelo qual eu precisava fazê-lo.

E assim continuamos com nossa missão, indo mais para o fundo do ferro-velho, afim de encontrar as últimas coisas da lista. Com Petter esquecendo definitivamente que tinha que voltar pra caminhonete, e ficando as voltas com Bolt, que era um cachorro bastante amigável no fim das contas.

Eu tentei evitar Daryl o resto do dia, como se estivesse desintoxicando dele. Claro que não era uma tarefa fácil... Mas quando é que as coisas aconteciam de forma fácil pra mim?

Recolhi a última ferramenta e estava parada olhando Petter correr com o cachorro, tentando fazê-lo pegar um graveto, aquele tipo de momento único onde a gente se perde na felicidade de outra pessoa e tudo parece perfeito, não importa o que tem ao redor.

Só havia Petter e sua alegria irradiante, até me esqueci dos metros de entulho e ferro que nos cercavam, era como uma grande barreira metálica separando aquela parte do ferro velho da parte frontal. Me esqueci da guerra e de toda a dor. Até ri comigo mesma.

— Parece que ele fez um amigo. — Daryl parou do meu lado, ou talvez ele já estivesse ali há um tempo, eu só não tinha me dado conta.

— Parece que você está certo, o cachorro foi uma boa ideia. — Admiti, ainda observando Petter e novo membro da nossa família.

Nossa família. Isso soava bem demais pra não ser utópico.

— Eu só estava fazendo o que achei que você faria... — Daryl deu de ombros, como se não fosse nada demais.

Ele sempre seria o homem que nunca se dá credito o bastante...

Tirei meus olhos de Petter e virei a cabeça na direção de Daryl, ele acabou fazendo o mesmo e eu me perguntei se um dia seria menos hipnótico e magnético ficar perto dele.

— Devíamos... — Apontei uma direção qualquer, apenas pra quebrar o clima instantâneo que pairou entre nos.

— É... — Daryl concordou com um aceno, embora não tenha tirado os olhos de mim.

Tentei dar um passo para a direita, mas acabou que Daryl fez o mesmo movimento que eu e terminamos naquele momento estranho e constrangedor onde as duas pessoas sempre querem ir para o mesmo lado, não importa que lado escolham.

Na quarta vez foi impossível pra mim não rir, ao passo que Daryl segurou meus ombros, enquanto eu tinha uma ideia parecida e pousava minha mão direita sobre o seu peitoral, no intuito de fazê-lo parar.

Trocamos de lugar, e podíamos seguir em frente. O problema é que Daryl ainda estava com as duas mãos em mim e a distância do seu braço esticado era a única entre nós.

Ao invés de me soltar, ele desceu os dedos pela lateral dos meus ombros, apertando a pele do meu braço de modo firme, mas muito sutil.

Não sei dizer se Daryl me puxou, ou se fui eu mesma que resolvi dar um ou dois passos pra frente...

Um passo em direção ao abismo...

Minhas mãos estavam sobre o peitoral dele novamente, as duas daquela vez. Senti seu toque fazer o caminho entre meu braço direito e meu pescoço, enquanto ele usava a mão oposta pra segurar a minha sobre sua camisa. Eu podia sentir o coração dele bater sob os meus dedos. Rápido e forte.

Talvez eu não caísse, talvez eu simplesmente flutuasse sobre o abismo...

Seu toque na minha nuca e um arrepio persistente subindo pela minha espinha. Seus dedos se infiltrando no meu cabelo e os meus correndo na pele que a camisa de Daryl deixava exposta.

Seria mesmo tão grave se nos beijássemos ali? Fechei os olhos e soltei o ar. Não, não seria...

O baque de algo se chocando contra o metal me assustou, como se fosse um sinal do universo. Eu já tinha aberto os olhos e dado um pulo involuntário para a esquerda, enquanto Daryl me puxava pra trás.

Um errante se jogava insistentemente contra a barreira de metal que nos separava da frente do ferro-velho. Seu braço, encontrando uma brecha pequena, passando por ela deixando a carne ali, expondo seu osso enegrecido, enquanto ele tentava nos alcançar a todo custo.

Daryl acertou uma flecha em seu crânio e, quando deu alguns passos para recuperá-la, sua expressão mudou totalmente.

— Merda... — O xingamento dele me fez olhar através dos entulhos e perceber o que tinha causado tanto assombro.

Errantes, um número incontável deles vagando do outro lado, inertes e ignorantes da nossa presença graças ao metal que nos separava.

Ficaríamos bem, foi o que eu pensei no momento e, como se fosse um aviso divino, ou demoníaco, Bolt latiu.

Consegui ver os vários rostos podres virando na direção em que estávamos, antes que Daryl me puxasse pelo braço.

— Petter! — Ele chamou urgente e apontou a caminhonete.

Estavamos os três correndo em conjunto naquela direção, quando as coisas começaram a dar muito errado.

Bolt não parava de latir, o que fazia os mortos se jogarem contra o metal que nos separava. Eu sabia que aquela divisão malfeita não aguentaria. Quando o cachorro correu para o lado oposto, eu soube que a desgraça já estava entre nós.

— Bolt! — Petter chamou, mudando o rumo também e foi quando tudo aconteceu, como em um efeito domino aterrorizante.

O cachorro passou ao lado da barreira de metal, correndo por um corredor de sucata, fazendo todos os mortos se acumularem naquele canto, Petter passou pelo mesmo lugar logo em seguida, atraindo ainda mais a atenção. Eu já estava no meio do caminho quando tudo começou a desabar.

Daryl me puxou pra trás, segundos antes que quilos de metal caíssem sobre mim.

Quando toda a poeira que aquele acidente levantou começou a dissipar, me dei conta de duas coisas apavorantes: Não tinha mais nada impedindo os mortos de passarem, eles começaram a se espalhar em todas e direções e o pior de tudo, eu e Daryl estávamos separados de Petter por uma montanha de sucata que impediria a passagem da caminhonete.

— Petter! — Gritei escalando o metal, minha mente trabalhando depressa, tentando encontrar uma saída daquele pesadelo.

As coisas tinham dado errado muito rápido.

Percebi que Daryl estava a dois passos de mim, decido a passar para o outro lado assim como eu, enquanto os mortos já começavam a nos cercar.

— O que você está fazendo? — Perguntei, sem parar para encará-lo.

— Não faça perguntas estupidas. — Ele também não parou.

Tínhamos que ser mais esperto que aquilo e eu sabia.

— Volta pra caminhonete, de a volta e encontre a gente do outro lado. — Ordenei, sem me preocupar em parecer autoritária demais.

— Nem fodendo eu vou te deixar sozinha! — Daryl retrucou no mesmo instante.

— Daryl! Agora! — Gritei, olhando para ele por cima do ombro, no momento em que eu chegava ao topo da pilha de sucata.

Ele bufou, mas não tínhamos tempo pra discutir e eu o vi dar as costas e correr para a caminhonete, usando a besta para acabar com os errantes que se colocavam em seu caminho.

Ouvi o veículo se afastando, enquanto eu corria. Daryl saiu tocando a buzina pra atrair todos que podia. Derrubei alguns mortos no caminho e continuei o mais rápido que minhas pernas conseguiam.

Eu não podia entrar em desespero, não era hora para isso. Petter era ágil e aquela não era a primeira horda que nos cercava, eu tinha que confiar que ele ficaria bem. Mas ao mesmo tempo eu sabia que se aquele cachorrinho corresse qualquer perigo Petter nunca o deixaria pra trás.

Virei por outro corredor de sucata, eu não podia ver por cima do amontoado de metal retorcido, então só me restava continuar seguindo em frente, sabendo que estava sendo seguida por cada vez mais mortos.

Quando entrei a esquerda, dei de cara com mais deles. Petter jamais teria passado por ali e aquela constatação me deixou desnorteada por um momento.

Senti uma mão no meu tornozelo e estava pronta para reagir, quando reparei que não era um morto. Embaixo de toda a sucata, oculto por uma placa de metal, eu encontrei meu filho. Graças a Deus.

Ele pediu silêncio com o dedo indicador e eu entrei em seu esconderijo rapidamente. Era um cilindro enorme de metal, dos usados em tubulação de fabricas.

— Bolt me trouxe aqui. — Petter sussurrou.

Olhei ao redor e percebi, tanto pelo cheiro, como por causa do pelo e sujeira acumulado no lugar, que Bolt ia muito ali. Então eu entendi que ele não tinha corrido de medo, ou nada assim. O cachorro queria atrair Petter para o seu esconderijo, porque julgava ali o único lugar seguro. Era um animalzinho muito esperto do fim das contas...

— Certo, temos que sair daqui e encontrar seu pai, ele vai estar lá na entrada esperando a gente. — Expliquei rapidamente, procurando alguma coisa que servisse como coleira e impedisse Bolt de correr pra longe novamente.

Felizmente, Petter tinha uma corda na mochila que ainda estava em suas costas. Acariciei o cachorro e ele não ofereceu nenhuma resistência enquanto eu o preparava.

Encarei Petter e ele assentiu. Estavamos prontos. Imaginei que não encontraríamos tantos errantes assim e saímos do tubo, mas claro que nunca seria tão simples, percebi logo que a parte da frente do ferro-velho estava infestada de mortos, isso porque aquela parte da cidade também estava.

Assim que conseguimos colocar o pé na rua, me dei conta que Daryl nunca chegaria até nós, todos os acesos estavam bloqueados por barricadas e o que pareciam cercas de arame, deduzi que o exército tinha feito aquilo no início das coisas e assim tinha ficado. Na verdade, vários errantes estavam de uniforme.

Eles tinham bloqueado a área pra se proteger e acabaram todos mortos...

Corremos por uma pequena rua lateral, desviando dos que podíamos, para encontrar ainda mais quando viramos a esquina. Era um inferno, e o pior, estávamos com um cachorro, subir nos prédios por escadas de emergência estava fora de cogitação.

Entre uma facada e outra, com o coração aos saltos, eu percebi que não íamos conseguir, não juntos, não daquele jeito... Estávamos cada vez mais longe da estrada e Daryl acabaria largando a caminhonete pra entrar na cidade e as coisas ficariam ainda piores.

Então, eu tomei a única decisão que, na minha mente, conseguiria garantir a segurança de Petter e Daryl, desconsiderando que essa decisão talvez não garantisse a minha.

— Petter, filho, me escuta. — Tirei a arma do coldre e a entreguei para ele. Não dava tempo de explicar tudo ou ter calma, todos os meus movimentos eram rápidos e desesperados. — Não vamos conseguir se estivermos juntos. Eu vou atraí-los e você corre, corre como nunca correu na vida. Encontre o seu pai, ele vai estar procurando você. Vai!

— Mãe... — Petter tentou retrucar, os olhos assustados, em pânico.

— Eu te encontro, amor, prometo. Vai pra casa! — Gritei, já me afastando.

Pensar não me ajudaria, afinal, se eu pensasse que estava deixando meu filho de novo, eu nunca faria o necessário.

Então eu corri, batendo em cada carro do caminho com o cabo da minha faca, fazendo o máximo de barulho possível, enquanto atraia todos os errantes na minha direção e torcia pra que aquilo fosse o bastante para manter meu filho seguro, até que Daryl o encontrasse, e principalmente, torcendo pra que Petter tivesse entendido minha última frase.

E mesmo naquele momento de incerteza, eu não me senti tão desesperada como quando Negan me arrastou de Sherwood e, estranhamente, eu soube que tudo ficaria bem... Petter estava com o pai dele.

Notas finais
Tenho que falar, gente, eu amo muito uma familia!!!! Daryl e Natalie juntos bancando os pais são muito amorzinho, mas eu sou suspeita kkkkkkkk se eu ainda tava com algum rancinho do Daryl, passou totalmente, eu não resisto a ele sendo tão amor desse jeito, não sei como a Natalie consegue kkkkkkkkk DixChechas tá mais vivo que nunca, vamos ver se o Daryl vence essa falta de confiança emocional da Natalie, porque fisicamente já não tem barreira ali não kkkkkkkk E antes que vcs me linchem, e infartem por causa do final, essa separação é coisa rápida, prometo, é só um meio para um fim, então não tenham um treco ainda kkkkkkkkk Daryl narra o proximo e tenho que dizer que é o capitulo que eu mais tô ansiosa pra escrever, porque tem três das minhas cenas preferidas da fic, inclusive uma do trailer. É isso, a familia cresceu um pouquinho e pra quem ficou se perguntando, Bolt é um Husky, eles vão notar isso assim que o coleguinha não estiver tão sujo kkkkkkkkkk Até o proximo! Bjss