Lifeline — Destiny Don't Give Up
22 Tudo Que Eu Perdi
Notas iniciais
• DARYL DIXON •
Eu sempre soube que as coisas podem dar errado em uma simples piscada. Na verdade, sempre que as coisas corriam bem na minha vida eu esperava pela desgraça. Depois de tanto tempo tinha virado um costume até.
E, de alguma forma, eu também estava esperando pela queda no que se tratava de Natalie e Petter. Cedo ou tarde eu faria uma burrada e estragaria tudo, então, desde o momento em que as coisas deram minimamente certo, eu me preparei pra que dessem errado...
Não era nada com o garoto, na verdade ele era um garoto incrível, não era difícil ficar perto dele, assim como não era difícil ficar perto da mãe dele quando nos conhecemos em Dawsonville. O problema não era ele ou ela, era eu.
Sim, eu tinha prometido que tentaria e que daria meu melhor, mas qual é? Eu sou um Dixon e os Dixons são PhD em estragar tudo. Era o rumo natural das coisas...
Cada pequeno segundo, cada palavra, cada gesto, eu estava esperando falhar desde o princípio. Por isso foi tão apavorante quando Natalie me deu o poder de decisão sobre Petter ir ou não conosco.
Eu não era estúpido, claro que era mais seguro para o garoto voltar para Alexandria. Mas como eu poderia negar algo que ele pediu? Que direito eu tinha pra impor minha vontade? Seria ridículo aparecer depois de dez anos dando ordens... E, para ser honesto, eu não queria ser o carrasco, eu não queria ser esse tipo de figura na vida do garoto.
Então eu disse que sim. E esperei que as coisas dessem errado por isso, mas a cada segundo que passava eu ficava mais imerso naquele clima... Algumas coisas podem contagiar a gente, e Petter certamente tinha essa influência sobre mim, ele era um garoto fácil de gostar.
E depois ele quis um cachorro, então eu pensei "que tipo de pai nega um cachorro para o filho?", mas é claro que eu nunca bateria de frente com a Natalie, não na frente do menino, ela era a mãe dele e eu era só o cara que chegou dez anos atrasado. Eu não tinha direitos ali. Mesmo assim eu precisava tentar, e fiz isso, mas não esperava que desse certo.
Ficar tão perto da Natalie daquele jeito, tendo que relembrar coisas do passado, me tirava o foco e eu esqueci que as coisas podiam dar errado, esqueci que ela tinha deixado claro que não existia "nós" fora do âmbito "pais".
Eu entendia a decisão dela, falei pra mim mesmo que respeitaria, afinal ela estava certa em querer aquela distância. Mas era difícil manter isso em mente com aquela proximidade toda e com aquele clima ameno...
E eu esqueci que as coisas podiam dar errado. Um segundo.... E tudo desmoronou. Uma horda tomou conta de tudo, Petter tinha se separado de nós por conta do cachorro e Natalie tinha se separado de mim para ir atrás do filho.
Um piscar de olhos e o dia mais agradável que eu tive em muito tempo virou o inferno. E lá estava eu, com a caminhonete parada na rua, impossibilitado de entrar na cidade porque tudo estava cercado. Tinha cara de barreira do exército.
Mas que merda!
Eu não demorei três segundos pra decidir pular aquela porcaria. Eu tinha que achar Petter e Natalie. Tinha que encontrá-los antes que minha série de decisões erradas se transformasse em uma tragédia irreversível.
Voltei ao ferro-velho o mais rápido que eu podia, mas não tinha ninguém lá. O asfalto tornava difícil rastrear, ou talvez fosse minha mente a milhão que cismava em perder o foco.
Não era como procurar Sophia na floresta. Não era como correr atrás do carro que tinha levado a Beth... Era mil vezes pior, eu nunca tinha sentido nada como aquilo. Era como se meu coração batesse tão rápido que fosse parar de bater a qualquer momento, como se meus pulmões não captassem oxigênio o bastante. Minhas mãos tremiam tanto que eu mal conseguia segurar a besta.
Tentei pensar com clareza. Eles iriam para as barreiras, tinham que ir. Então fiz o caminho de volta o mais rápido que minhas pernas permitiam, levando em conta que elas formigavam tanto que estavam dormentes.
Cheguei no ponto da caminhonete e nada. Eu tinha andado em círculos e nem sinal deles. Deviam ter feito outro caminho...
E se eu não os encontrasse? E se... A simples sombra do pensamento me deixou aterrorizado.
Tive que parar um instante e me apoiar em uma árvore, tudo tinha ficado preto. Desde quando eu entrava em pânico daquele jeito?
— Pai? — Eu reconheci a voz de imediato e um alívio arrebatador percorreu minhas veias. Me virei a tempo de ver Petter vindo na minha direção.
Só então o choque do que ele tinha acabado de dizer me atingiu. Ele tinha acabado de me chamar de pai e não foi aterrorizante como eu achei que seria. Na verdade, foi bom, foi um alivio, simplesmente pareceu certo.
Ele correu na minha direção enquanto eu caminhava até ele em passos rápidos, estava coberto de sangue e meu coração entrou em pânico outra vez. Principalmente quando vi seus olhos assustados.
— Você está bem? Foi mordido? Está machucado? Doí em algum lugar? — Despejei tudo de uma vez, enquanto o examinava a procura de coisas que eu não queria encontrar.
Então o puxei pra perto em uma atitude tão instintiva que só me dei conta que eu o tinha abraçado quando ele já estava nos meus braços.
— Eu estou bem, pa.. Daryl — Petter corrigiu rapidamente e eu senti que meu nome não combinava mais ali, foi estranho.
Olhei ao redor e percebi que o cachorro estava ali, bem perto, sentado e aguardando. Totalmente coberto de sangue também.
— Bolt me ajudou com os errantes. Eu nem tive que usar a arma. — Me entregou a pistola. Era a arma da Natalie.
Eu já estava procurando por ela e todo aquele desespero voltou.
— Onde está sua mãe? — Minha voz falhou na minha garganta.
— Ela me mandou correr e atraiu todos eles... — Pânico. Pânico puro e avassalador. Minha mente entrou em curto com um milhão de possibilidades aterrorizantes em um segundo.
— O que?! — Exclamei me colocando de pé no mesmo instante.
Ela não podia ter feito aquilo! Se alguma coisa acontecesse com ela eu... eu...
— Okay. Okay. — Tentei parecer no controle da situação. — A gente vai resolver isso... — Não havia qualquer convicção nas minhas palavras. — Nós voltamos lá e...
Você não pode se jogar no meio de uma hora com uma criança de dez anos, idiota, minha mente acusou sem piedade.
— Não isso é uma péssima ideia. — Corrigi imediatamente. — Você fica aqui e...
Você não pode deixar seu filho sozinho em uma cidade estranha, cheia de mortos e com Salvadores por aí! Meu subconsciente parecia gritar.
— Não essa é uma ideia pior ainda. — Eu andava de um lado para o outro tão rápido, que era como se estivesse rodando no mesmo lugar. Nós...
A frase ficou lá sem fim. Eu não sabia o que fazer. Eu não sabia o que fazer sem a Natalie...
— Nós temos que voltar pra casa. — Petter parecia muito calmo, andou até a caminhonete e abriu a porta. — Foi o que ela disse antes de correr.
— Eu não vou voltar pra Alexandria sem a Natalie. — Devolvi no mesmo instante e só então me dei conta que eu não podia ser rude com o garoto.
Por que ele estava tão calmo. Como ele estava tão calmo?
— Ela não disse "Alexandria" ela disse "casa". — Me corrigiu e era como se eu estivesse vendo uma miniatura da mãe dele.
Chamou o cachorro para dentro da caminhonete, como se estivesse se preparando pra ir embora.
— Qual a diferença? — Não vi o ponto daquela loucura. Eu tinha que achar Natalie e tinha que achar depressa.
— Alexandria não é nossa casa... — Petter declarou dando de ombros e eu não gostei nada daquela resposta.
Claro que Alexandria era a casa deles, pra onde eles iriam se não fosse pra lá?
— Ela provavelmente estava se referindo ao nosso apartamento. — Ele explicou como se estivesse lendo meus pensamentos. — Fica aqui perto, a gente sempre passava por aqui quando eu ia para os escoteiros mirins. É por isso que conhecíamos o ferro velho.
Que?
Demorei dois segundos para entender a coisa toda e mesmo assim não me convenci, era uma ideia estúpida, Natalie não podia fazer uma coisa daquelas, não podia ficar correndo perigo daquele jeito. Ela era louca?
— Ela vai ficar bem, conhece bem a região, só temos que ir pra casa e esperar. — Por que aquele menino estava tão calmo?
Por que eu não conseguia me acalmar?
Pensando melhor graças a Deus que ele estava calmo. Eu não fazia ideia do que faria se ele estivesse chorando ou surtando de medo... No fim, essa era a verdade, eu não fazia ideia de como lidar com uma criança. Muito menos eu uma situação de crise.
O que a Natalie faria?
Respirei fundo e tentei recobrar o controle, eu era o adulto ali afinal.
Talvez um ponto de encontro não fosse má ideia. Assenti algumas vezes e entramos na caminhonete. Minhas mãos ainda tremiam, de modo que eu agradeci a chave já estar no contato. Dei a partida e seguimos devagar, pelas ruas do lado de fora do bloqueio, olhando por toda a parte, talvez eu conseguisse encontrá-la, mas Natalie não estava em parte alguma...
— Ela vai ficar bem. — Petter declarou observando meus dedos que seguravam o volante, minhas juntas estavam esbranquiçadas pela força desnecessária que eu colocava ali. — Ela prometeu.
Ah, que droga, Daryl, agora você está assustando o menino... você é um bosta mesmo.
— É, ela vai sim. — Afirmei em uma atitude que era mais um esforço pra acalmar a mim mesmo, do que uma tentativa de confortar o garoto.
Deus, eu sou um péssimo pai! Dei um cachorro pra criança e ele quase morreu por isso... Neguei algumas vezes comigo mesmo, seria cômico se não fosse trágico.
Segui as instruções de Petter, preferindo ignorar que ele devia ter uns sete anos quando passou ali pela última vez... Alguém ali tinha que saber o que estava fazendo e esse alguém certamente não era eu.
Aos poucos, as casas e pequenos edifícios foram dando lugar a prédios maiores, e claramente mais luxuosos, não o tipo de luxo exagerado, mas mesmo com todo o abandono ainda estava claro que aquele era um bom bairro.
— É ali. — Petter apontou depois de uns minutos.
Era um tipo de condomínio, três prédios juntos e uma grande portaria. O portão estava escancarado e eu não tive dificuldades de entrar com a caminhonete.
Petter me mostrou onde parar e descemos em seguida. Ele levava Bolt com uma coleira improvisada e tivemos que percorrer um caminho a pé para chegar ao nosso destino.
Percebi que o lugar tinha de um tudo. Salão de jogos, academia, salão de festas, parquinho... Eu não me espantaria nada se tivesse uma piscina.
Mesmo que praticamente todos os vidros estivem quebrados e mesmo que o mato tivesse tomado conta de muita coisa, dava pra ver que era um lugar bonito.
Entramos em um pequeno saguão, eu mantinha a besta em posição, mas fora a bagunça, não tinha nada ali.
Petter apontou uma porta lateral e tirou uma lanterna da mochila para iluminar as escadas.
— Segundo andar, apartamento vinte e dois. — Ele avisou, antes de começarmos a subir.
Fui na frente, afinal se tivesse qualquer errante por ali eu não permitiria que chegasse perto do garoto. Porém, por mais que eu estivesse atento, não havia qualquer som, nem qualquer indicio que o lugar estivesse habitado.
Saímos no segundo andar e logo demos de cara com uma grande barreira de moveis.
— Isso é coisa do senhor Takashi, certeza... — Petter comentou aleatoriamente enquanto tiramos o suficiente pra passarmos.
Percebi que ele estava muito quieto, talvez não estivesse tão calmo assim, só não queria demonstrar. Bolt estava sempre por perto, sempre atento, como um cão de guarda pronto para proteger seu dono. Pelo visto o gesto inicial de Petter com o animal tinha garantido uma lealdade canina.
Avistei a porta com o número vinte e dois e tudo que eu quis foi que Natalie já estivesse lá. Mas o lugar estava trancado, sem indícios que era tocado há muito tempo.
Me preparei para dar um chute na porta.
— O que você vai fazer? — Petter perguntou, como se eu estivesse prestes a fazer uma atrocidade.
— Vou arrombar a porta pra gente entrar... — Respondi o óbvio.
— Pra que? — Ele passou na minha frente e se abaixou ao lado da porta, onde um vaso que tinha apenas galhos secos estava.
Olhou por alguns segundos entre as pedras e pegou uma delas. Pra minha surpresa, percebi que tinha um tipo de potinho colado na parte de baixo da pedra, de modo que ele ficava enterrado no vaso, totalmente escondido e dentro dele havia uma chave.
Claro que teria sido muito mais rápido arrombar a porta, do que foi abrir com aquela chave totalmente enferrujada, mas Petter acabou conseguindo depois de algum esforço.
Ele entrou no apartamento, como se tivesse saído dali no dia anterior. Jogou a mochila no chão ao lado da porta e foi direto para a cozinha, levando o cachorro junto.
Fiquei parado na porta, sem saber muito bem o que fazer a seguir. Quer dizer, geralmente eu não me importava em entrar na casa dos outros, era a merda de um apocalipse afinal de contas, mas aquela não era a casa "dos outros" era da Natalie e isso me fazia sentir estranho.
— Não tem água no encanamento. — Petter comentou voltando para a sala e pegando novamente a mochila — Vou dar essa aqui, 'tá bom?
Afirmei com um grunhido qualquer, mas na verdade nem tinha prestado atenção realmente, meus olhos tinham ficado presos em uma das paredes da sala, onde, logo acima de um sofá enorme, tinha um grande mural de fotos.
— Aqui. Toma tudo, Bolt. — Ouvi a conversa que acontecia no cômodo ao lado, mas era como se estivesse acontecendo muito longe.
Dei um passo para dentro do apartamento. O piso era de madeira escura, contrastando com as paredes claras, que de alguma forma combinava com os móveis de tons neutros, não que eu entendesse coisa alguma de decoração.
Natalie tinha uma casa bonita. Era óbvio que tudo ali era caro, de boa qualidade, mesmo assim não tinha exageros ou extravagâncias. Mesmo que tudo estivesse coberto de poeira o lugar era leve.
Petter deixou o cachorro bebendo água e passou em direção a um corredor que partia da sala, sumindo por ali.
Fiquei olhando as fotos, era uma quantidade quase absurda, de todo o tipo, a maioria do Petter, ele era reconhecível em todas, mesmo nas que era muito pequeno. Era um garoto bonito, sempre sorridente nas fotos, corado e com olhos brilhantes, uma criança feliz, como tinha que ser.
Também havia muitas fotografias da Natalie, algumas da Luka, algumas dos três... Reconheci a garota de Oceanside em uma das fotos e a mãe de Natalie também estava em algumas. Havia uma foto de Peter Cooper ali também, ele estava bem mais novo, com uma criança no colo, que eu soube que era Natalie assim que olhei.
E, claro que tinha gente que eu não conhecia também. Foquei em uma das fotos de Natalie, em que ela usava uma beca de formanda, havia um homem com ela nessa, reconheci o mesmo cara em algumas outras fotos, com Petter inclusive.
Era um homem de meia idade, negro, barba bem feita e cabelo raspado bem baixo, ele sorria em todas as fotos, um sorriso enorme que parecia ocupar a foto toda, com dentes tão brancos que pareciam refletir a luz.
Mas quem caralhos é esse cara?
Em uma das fotos ele estava com uma Natalie evidentemente grávida e aquilo me assustou, não o cara, eu até esqueci dele, Natalie me assustou, ele tinha olheiras fundas e um semblante cansado, embora sorrisse na foto, estava magra, demais pra uma garota grávida e aquilo partiu meu coração de todas as formas possíveis.
— Acho que eu cresci... — Percebi que Petter estava de volta, tentando colocar uma camiseta limpa, que evidentemente não servia mais nele. — Devo ter alguma coisa maior, minha vó sempre teve mania de me dar umas coisas muito grandes, se ela achava bonito, ela comprava, não importava o tamanho. Mamãe dizia que ela era uma compradora compulsiva.
Ele já tinha sumido no corredor outra vez enquanto falava, olhei as fotos novamente e percebi que não podia ficar ali. Eu tinha que encontrar a Natalie. Assim que o garoto voltou, já vestido com algo que lhe servia, eu me aproximei dele.
— Petter, escuta. Você está seguro aqui, tem uma boa barreira no corredor, bloqueie a porta com o sofá e me espere voltar, certo? Eu vou achar sua mãe. — Declarei convicto, eu não podia ficar ali esperando. Eu não conseguia ficar esperando...
— Você não vai... — Ele respondeu, negando algumas vezes. — Vocês vão se desencontrar, ela vai chegar e você não vai estar aqui. Mamãe diz que a primeira regra quando a gente se separa é ir para o ponto de encontro e esperar em segurança. Nós estamos aqui no ponto de encontro em segurança, ela vai chegar...
Suspirei, Petter confiava plenamente na mãe, uma confiança cega, mas muito bonita.
— Ela está certa. — Afirmei, colocando a mão no ombro dele. — Você tem que fazer o que ela mandou e ficar em segurança, mas eu tenho que...
— Você não vai encontrá-la, ela está na cidade, não na floresta. Você só vai acabar em perigo no meio dos mortos e vai desencontrar dela. Ela vai chegar. — Ele sequer me esperou terminar de falar, estava muito convicto de cada palavra, e eu me perguntei como uma criança podia ser tão segura de si... — Eu sei que dá medo, eu 'tô com medo também. — Ele segurou minha mão, dando mais alguns passos pra perto de mim. — Mas você precisa confiar na minha mãe, tá bom? Não vai, não, por favor...
Só então eu entendi: claro que ele estava com medo, claro que ele estava apavorado, Petter só não queria demonstrar tudo isso. Todo aquele silencio e quietude eram provas disso. E eu simplesmente não consegui dizer não. Talvez ele estivesse certo, talvez Natalie fosse conseguir... Pelo menos eu esperava que sim...
Depois de fecharmos a porta, ele me levou para conhecer o apartamento, como se ele ainda morasse ali e estivéssemos fazendo um tur.
Depois de mostrar cozinha, lavanderia e sacada, ele me levou pelo corredor, havia uma porta bem no fim dele, duas do lado direito e uma do lado esquerdo. Então ele apontou o banheiro, o quarto da irmã, o dele e o da mãe, respectivamente.
Reparei que no batente da porta do quarto de Petter haviam marcações, riscos com data e um número que eu presumi ser a idade dele. Pelo visto Natalie marcava a altura do garoto pelo menos duas vezes por ano.
— Quer marcar? — Ele me perguntou, repentinamente animado.
Por algum motivo eu tremi, quer dizer, parecia uma tradição dele e da mãe, algo importante, eu não sabia se podia me meter...
Petter me estendeu o pequeno canivete para que eu marcasse a madeira e só então me dei conta que eu realmente queria fazer aquilo. Eu não conseguia explicar...
— O que eu tenho que fazer? — Perguntei, enquanto ele se posicionava no batente.
— Você faz um risco e depois escreve a data. — Explicou o óbvio e eu me senti um tanto estupido.
Marquei o lugar e esperei ele se afastar para colocar a data, percebi que não sabíamos que dia era, então apenas coloquei a idade. Pelo menos disso eu sabia...
Petter encarou a diferença da última medição para a mais nova.
— Nada mal, não é? — Apontou o espaço, ele tinha crescido pelo menos uns dez ou quinze centímetros.
Ele me arrastou para o quarto depois disso, pra me mostrar sua coleção de medalhas, coleção de carrinhos... Estava muito empolgado, mas quando a chuva começou a preocupação pegou nós dois de jeito.
Petter olhava pela janela de vez em quando e dizia baixinho "ela vai chegar, ela vai sim" e aquilo começou a me assustar de verdade. Imaginar uma realidade sem Natalie fazia o pânico percorrer minhas veias em uma velocidade impressionante.
O garoto acabou indo esperar a mãe na sala, depois de pegar um cobertor. Se acomodou no sofá, puxando os acentos e o fazendo se tornar um tipo de cama de casal. Bolt o seguiu imediatamente, se deitando aos pés do móvel, sobre um tapete que em breve estaria cheio de barro.
Percebi que Petter estava cansado, ele já estava piscando duro naquela altura e lutando pra ficar acordado. Quanto mais tempo passava mais tenso eu ficava.
— Tem muitas fotos por aqui... — Comentei, apenas pra puxar assunto.
— Mamãe gosta de fotos, ela diz que deixa a casa mais feliz. — Petter respondeu, se aconchegando no cobertor e deixando a mão solta pra acariciar o cachorro.
Era só um menino ainda, precisava da mãe. O que eu faria se ela não voltasse...?
— Quem é esse com você e a sua mãe em uma porção de fotos? — Questionei, apontando o mesmo cara estranho de antes.
Não houve qualquer resposta.
— Petter? — Olhei para o sofá e ele estava apagado, como se tivesse desligado.
Ajeitei a coberta melhor e o deixei descansar.
Era como se os minutos se arrastassem, sem Petter falando e me distraindo minha mente montava as piores realidades. Eu já estava andando de um lado para o outro há um bom tempo, quando Bolt ergueu a cabeça como se tivesse ouvido algo.
Saí do apartamento imediatamente. Lanterna e besta em punho.
Vi o vulto no corredor antes mesmo que a luz lhe atingisse.
— Oi... — Natalie colocou a mão no rosto, para impedir a réstia de bater em seus olhos.
— Graças a Deus! — Exclamei pulando a barreira e a trazendo para perto do meu corpo.
Não conseguia ver direito na penumbra, mas Natalie estava encharcada.
— Você está bem? Mordida? Ferida? — Perguntei, afastando-a um pouco e examinando seu rosto com a lanterna.
— Eu estou bem... — Ela resmungou, incomodada com a luz, em seguida abaixando minha mão. — É só a minha perna por causa da corrida, mas eu vou ficar bem.
Ela se desvencilhou de mim, e só então eu entendi que estava no caminho. Claro que Natalie estava louca pra ver o filho, ele era a prioridade ali.
A ouvi suspirar de alívio quando o viu dormindo no sofá. Ela se abaixou ao lado dele e acariciou o cachorro, antes de balançar Petter bem de leve.
— Oi, Pequeno Gafanhoto, já cheguei. — Ela sorriu quando ele abriu os olhos ainda sonolento.
— Eu sabia que você chegaria. — Petter também sorriu, pulando nos braços da mãe. — Daryl quase surtou, mas eu disse pra ele que tudo daria certo.
Não foi bem isso que aconteceu.
— Vamos voltar pra Alexandria agora? — Ele perguntou, e pelo seu tom de voz, não estava muito afim de ir pra lugar nenhum que não fosse o sofá.
— Não querido, pode dormir. Está chovendo muito. Amanhã nós vamos. — Natalie ajudou Petter a se arrumar entre as cobertas e beijou os cabelos dele.
— Eu te amo, mãe, e o Bolt também já te ama. — Ele declarou já de olhos fechados.
— Eu te amo também, Pequeno Gafanhoto, daqui até a lua, ida e volta e o Bolt ganhou uns pontos também por ter te feito companhia. — Natalie se colocou de pé, e ficou observando até o filho pegar no sono.
— Eu queria ir atrás de você. mas... — Comentei, parado no batente da porta.
— Ele não deixou, não é? — Ela completou, com um sorriso de quem conhece perfeitamente bem o filho.
Assenti algumas vezes e Natalie seguiu o caminho dos quartos e, sem pensar muito, eu fui atrás dela.
— Fez bem em não deixar, teríamos nos desencontrado e eu estava contando que você o manteria seguro, por isso e não estava preocupada. Não muito, quer dizer... — Ela parou na porta do quarto de Petter assim que notou a marca no batente. — Você?
Eu não pensei que ela notaria um detalhe como aquele. Não soube o que responder, quer dizer, ela estava perdida por aí, correndo dos mortos e eu estava me divertindo fazendo marcas na parede... Não parecia muito justo.
— O Petter pediu e eu... — Tentei explicar, mas não soube como terminar a frase.
— Ele cresceu... — Ela escorregou o dedo de uma marca até a outra e então sorriu de um jeito leve, como se todos os músculos do seu rosto tivessem relaxado. — Aposto que ele ficou radiante por você ter feito isso.
Natalie deu dois tapinhas no meu ombro e seguiu pelo corredor em direção ao local que Petter dissera ser o quarto dela.
— Você não devia ter feito aquilo. Tudo podia ter dado muito errado. Você podia estar morta agora. — Joguei, a seguindo novamente e parando na porta do quarto depois que ela entrou.
Era um quarto e tanto, aquele tipo que a gente vê na TV, sem nada entulhado e com uma cama enorme.
Pra que uma cama de casal?
— Errado teria dado, se eu não tivesse feito nada, estávamos cercados de errantes, tinha bloqueio do exército nas ruas... eu sabia que sem os mortos Petter te encontraria, sabia que ele estaria a salvo com você. E eu podia escapar com mais facilidade sozinha. Foi um risco calculado, Daryl. — Natalie respondeu, como se não fosse nada demais, abrindo o guarda-roupa e procurando alguma coisa ali, logo depois jogando algumas peças de roupa na cama.
— Não dá pra calcular esse tipo de coisa, ele podia ter se perdido e nunca ter me encontrado, você podia ter sido mordida, eu podia não estar lá. Tinha muita coisa que podia... — Eu ainda estava falando quando Natalie caminhou até mim.
— Você está surtando Daryl, relaxa. — Ela tocou meu ombro e focou nos meus olhos por um instante. — Eu confio nas habilidades do Petter, sei o que está ao alcance dele e o que não está, eu confio nas minhas habilidades, sei o que eu consigo ou não aguentar e eu confio em você, eu sabia que se o nosso filho não te encontrasse você o encontraria e não deixaria que nada acontecesse com ele. E tudo saiu de acordo com o meu plano, não foi?
"Eu confio em você" isso certamente me desarmou. Resmunguei uma afirmativa de mau gosto, as coisas terem dado certo era apenas sorte.
Agora eu sei de onde o Petter tirou aquela calma toda...
— Sei que é pedir um pouco demais, dado o nosso histórico, mas você devia me dar um pouquinho de crédito e confiar em mim, pelo menos, no que diz respeito a assuntos do nosso filho. — Ela prosseguiu, dando um passo para trás. — Afinal, não era eu me enfiando em missões suicidas em Alexandria...
Bufei com a última parte, não era bem uma missão suicida nem nada assim... Eu tinha que fazer o que era preciso, só isso. Mas, no fim, Natalie estava certa, ela merecia um voto de confiança, era o mínimo que eu podia fazer depois de tudo.
A encarei por mais tempo que o necessário, enquanto ela também tinha os olhos em mim, como se estivesse esperando por alguma coisa.
— Eu estou encharcada. Preciso... — Apontou as roupas na cama e eu me toquei que tinha invadido o quarto dela sem ser convidado.
— É claro, desculpa. — Dei alguns passos pra trás e fui saindo.
Voltei para a sala e, por algum motivo, não consegui relaxar, quer dizer, era meio estranho estar no apartamento da Natalie com ela e com o Petter. Mesmo que eles não morassem mais ali...
Comecei a andar de um lado para o outro, encarando a parede de fotos de vez em quando. O cara nas fotos e a cama de casal estavam de deixando inquieto.
Para com essa merda de paranoia Daryl, ela não é sua. Você já deu bola fora o bastante com Negan. Tentei convencer a mim mesmo.
Eu ainda estava olhando o painel quando ouvi Natalie voltar para a sala. Me virei ao mesmo tempo que Bolt levantava a cabeça pra checar quem se aproximava.
Fiquei um momento preso naquela visão. Natalie estava descalça, o cabelo molhado por causa da chuva, usava shorts e uma blusa muito leve, que deixava seu ombro direito de fora.
— Eu levei minhas roupas de "apocalipse" quando saímos da cidade, não sobrou muita coisa... — Ela deu de ombros, quando percebeu que eu estava encarando por muito tempo.
Desviei o olhar no mesmo instante e grunhi uma coisa que não tinha nenhum significado.
— Gostou das fotos? — Natalie questionou andando na minha direção e apontando o painel.
— São muitas... — Comentei e nem tinha certeza se aquilo era mesmo considerado uma resposta.
A risada de Merle soou na minha mente em tom de deboche. Irmãozinho você é muito tapado.
É, eu era mesmo, nem tinha motivo pra eu estar tão tenso daquele jeito.
— Se lembra do Austin e da Aimee? — Natalie apontou uma das fotos e eu reconheci o casal que tinha ido até Dawsonville.
A japonesa estava vestida de noiva e o rapaz de noivo, Natalie estava no meio, usando um vestido azul e maquiagem. Estava tão linda que era uma injustiça com a noiva.
— Eles se casaram e foram juntos para o Japão, Austin é presidente de uma das empresas do pai da Aimee agora. — Natalie comentou um tanto nostálgica. — Quer dizer, era... Já não sei mais.
Gente rica sempre tinha um futuro brilhante, casamento chique, viagem pra fora do país, carreira bem sucedida... E eu continuava sendo o caipira fracassado de Dawsonville.
Senti que a minha vida tinha empacado, enquanto a de todo mundo seguia em frente e talvez, por um segundo apenas, eu tenha pensado em como tudo seria se eu tivesse aceitado a proposta de Deborah Spelman e ido para Washington com a Natalie.
Talvez houvessem fotos minhas com o meu filho naquela parede...
— Quem é esse? — Não consegui me conter e apontei o homem misterioso, usando uma foto em que ele estava com Petter e Deborah, apenas pra não dar tão na cara.
Natalie se virou pra mim com as sobrancelhas franzidas, como se fosse uma pergunta idiota, mas logo suavizou, como se lembrasse de alguma coisa.
— Ah é! A gente falou tanto da minha vida que eu até esqueci que você nunca tinha visto o Daniel, nem por foto.
— Esse é o Daniel? O marido da sua mãe? — Perguntei surpreso.
Não era bem a imagem que eu tinha do rico dono de uma firma de advocacia.
— O que? Esperava um homem branco de terno e gravata, com cara de magnata? — Ela riu.
Era exatamente o que eu esperava.
— Mais ou menos... — Dei de ombros.
— Você precisa parar de se prender aos estereótipos, Daryl... — Natalie deu alguns passos para trás e seguiu em direção a mochila de Petter. — Daniel veio de uma família simples. Os pais dele vendiam cachorro-quente em uma barraca sem licença pra se sustentar, ele foi a primeira pessoa a se formar na família. Veio do nada, literalmente.
— Você nunca me contou isso... — Lembrei das conversas que tínhamos sobre a mãe de Natalie em Dawsonville. Sempre me pareceu que o tal Daniel Spelman era do tipo com família tradicional, que nadava em grana.
— Eu só fiquei sabendo dessa parte da vida dele depois de Dawsonville. — Natalie explicou mexendo na mochila como se procurasse algo. — Acho que não era só minha mãe que eu julgava mal.
Assenti algumas vezes. Natalie costumava ser bastante parcial em suas narrativas sobre a família, pelo visto isso tinha mudado com o tempo.
Me senti idiota por ter ficado paranoico com uma foto e, ao mesmo tempo, aquela história me fez pensar nas coisas. As pessoas não precisavam ter a mesma vida que os pais. Elas podiam mudar. Podiam fazer melhor.
Talvez se eu soubesse disso com vinte cinco as coisas teriam sido diferentes.
— Só tem essa? — Natalie sacudiu a garrafa de água quase vazia.
Apontei o pote de água do cachorro e ela riu.
— Melhor a gente deixar essa para o menino que deu nossa água pro cachorro. — Colocou a garrafa sobre a mesa de jantar.
— Eu posso descer e colher um pouco de água da chuva. — Me ofereci, já pegando a besta.
— Chega de riscos por hoje. — Natalie me deteve, colocando a mão sobre o meu peito e pegando a besta de mim. — Eu tenho outra coisa em mente pra gente matar a sede até amanhã.
Deixou a arma na sala e eu a segui até a cozinha. Natalie puxou uma das cadeiras e a arrastou para perto dos armários, subindo em um deles para alcançar algo escondido na parte de trás da prateleira de cima. De modo que, mesmo sendo alta, ela teve que ficar na ponta dos pés para pegar seja lá o que fosse.
Me peguei preso naquela visão de um jeito que não deveria, mas era impossível não olhar. Quando ela desceu da cadeira tinha uma garrafa de bebida alcoólica na mão e eu ainda estava com aquela cara de idiota no rosto.
— Você estava olhando pra minha bunda? — Ela franziu as sobrancelhas, desconfiada, mas não conseguiu conter um risinho
— Não seja estupida! — Retruquei grosso, desconversando da maneira mais rude que eu pude.
Sim, eu estava, mas ninguém tinha que saber disso.
— Hum... — Ela ergueu um pouco o queixo ainda mais desconfiada.
— Sabe que isso só vai dar mais sede, não sabe? — Apontei a garrafa, apenas pra mudar de assunto.
— Negando bebida, secando a bunda alheia. Eu nem te reconheço mais... — Natalie riu enquanto passava por mim.
— Você 'tá de muito bom-humor pra quem teve que correr dos mortos. — Devolvi sarcástico e ela parou pra me encarar.
— É, estou mesmo... — Concordou, como se ela mesmo estranhasse o fato. — Acho que é porque faz um tempo que as coisas não saem dentro do planejado, sabe? Da última vez foram seis meses... Dessa vez deu tudo certo, quer dizer, dentro do possível, claro. Eu só tive que correr dos mortos. Mas eu estava tranquila, porque ele tinha você. Na verdade, eu senti que a morte estava me rondando, mas eu ainda estou aqui, então, sim, acho que eu estou de bom-humor.
Deu de ombros e desapareceu rumo aos quartos por um instante, voltando com uma caixa metálica nas mãos e seguindo para a sacada, com a tal caixa e a garrafa de bebida alcoólica.
Ela abriu a porta de correr, para então se sentar no chão do lado de fora e eu fiquei parado, pensando no que ela tinha acabado de dizer.
"Mas eu estava tranquila porque ele tinha você".
Quão confuso era que Natalie confiasse em mim plenamente com Petter e eu ainda me sentisse como se tivesse caído de paraquedas no meio de tudo aquilo?
Saí para a sacada também e me sentei no chão, ao lado direito de Natalie com o espaço de passagem entre nós.
Ela me estendeu a garrafa e eu bebi um gole longo, sentindo o liquido queimar minha garganta.
— Ele me chamou de pai... — Revelei, depois de alguns minutos de silencio, estendendo a garrafa de volta. — Foi meio que uma coisa de momento, ele estava assustado e acho que só... aconteceu.
Natalie não pareceu surpresa com aquela revelação. Encostou a cabeça na porta de vidro atrás de si e me encarou por alguns segundos.
— E você não gostou? — A pergunta era neutra, o tipo de pergunta que eu devia ter feito para mim mesmo.
— Não sei, acho que na hora foi um certo alivio. Eu estava muito assustado também. Se eu tivesse estragado tudo... — Eu ainda estava assustado, a possibilidade de ferrar com tudo aquilo me assombrava mais que qualquer coisa.
— Mas você não estragou, deu tudo certo. Não pensa no que podia ter acontecido, foca no que aconteceu. — Natalie deu outro gole na bebida, fazendo uma careta enquanto engolia.
Em seguida abriu a caixa metálica, onde havia algodão e alguns outros itens de primeiros socorros.
Ela tirou o curativo da perna e deu pra notar que o ferimento não estava totalmente cicatrizado, embora estivesse muito melhor. Ainda precisava de alguns cuidados.
Natalie jogou um pouco de bebida sobre o local, na clara intenção de limpar o ferimento. Soltou uma exclamação que misturava dor e aflição, enquanto fechava os olhos.
— Deixa eu fazer pra você... — Me ofereci, mudando de posição para me ajoelhar perto dela.
Natalie me estendeu a garrafa novamente e eu tomei um novo gole antes de me ocupar do curativo.
— Daryl? — Ela chamou e eu ergui minha cabeça por um segundo. — Você não pode mais fazer aquilo que estava fazendo em Alexandria, 'tá bom? Nada de missões suicidas.
— Eu só estava fazendo o que eu tinha que fazer. — Suspirei pesado, não tinha um jeito de explicar aquilo.
— Eu também, mas a gente pode fazer o que tem que fazer, mantendo em mente que temos pessoas esperando pela gente em casa. Você tem um filho agora, Daryl e você é eternamente responsável por aquilo que cativa.
— O que isso significa? — Perguntei, ao terminar o curativo e voltar para o meu lugar.
— Significa que eu não vou dizer pro meu filho que o pai que ele acabou de conhecer morreu. — Natalie foi direta, um tanto dura até.
Deu outro gole na bebida e pensei sobre aquilo por um instante.
— Eu prometo não morrer, se você prometer não morrer também. Porque eu também não quero dizer para o meu filho que a mãe dele... — Não tive coragem de terminar a frase, apenas estendi a garrafa de volta para Natalie.
— Eu prometo. — Ela afirmou séria e de alguma forma aquilo me acalmou infinitamente. — Acho que temos um acordo então, um brinde a isso?
Natalie ergueu a garrafa na minha direção e tomou um longo gole, passando a bebida para mim que fiz o mesmo.
— Mas se tivéssemos que escolher, seria você... — Declarei olhando a chuva cair do lado de fora e Natalie franziu as sobrancelhas sem entender. — Entre mim e você. Você precisa sobreviver. Petter precisa de você. Eu sou só o cara que caiu de paraquedas aqui depois de dez anos. Sinto que Petter nunca vai ser meu do jeito que ele é seu...
Eu nem tinha certeza se devia dizer aquelas merdas, mas disse mesmo assim.
E então Natalie riu, como se eu tivesse dito alguma idiotice ou alguma piada.
— O que? Do que você está rindo? — Questionei sem entender.
— Da ironia que foi isso que você acabou de dizer. — Ela apontou.
Suspirou pesado e ficou olhando a chuva por alguns segundos, até estender a mão para ter a garrafa de volta e dar outro gole.
— O nascimento do Petter foi complicado, sabe? Eu não tinha muito cuidado com a minha própria saúde nos seis primeiros meses de gravidez e ele nasceu de sete meses, com muitas complicações. Quase morremos. Tiraram meu útero pra salvar minha vida e o Petter ficou dois meses na incubadora. — Natalie começou de cabeça baixa, a voz deixava claro que aqui não era algo que ela gostava de mencionar.
Eu soube que tinha uma parcela de culpa naquilo, mas não tive tempo de dizer nada antes que ela continuasse:
— Quando eu trouxe ele pra casa, eu mal conseguia dormir, porque estava preocupada com ele todo o tempo. Pense em uma mãe super protetora e paranoica... essa era eu. Eu o levava no médico várias vezes no mês, mesmo sem precisar. Era insano. E isso ficou ainda mais frequente quando ele foi crescendo e eu via as crianças da idade dele falando e ele nada, nenhuma palavra. Nem "mama", nem "dada". Nada. — Natalie deu outro longo gole na bebida.
Achei curioso que um garoto que falava pelos cotovelos tivesse problemas com isso quando pequeno.
— Quando ele fez dois anos eu já estava desesperada, já tínhamos descartado todos os problemas físicos, inclusive surdez. Passamos no psicólogo e ele disse que eu provavelmente mimava demais o meu filho o que não diminuiu em nada o meu nervosismo. Até minha mãe já estava surtando... — Ela negou algumas vezes e riu sem humor, como se houvesse algum tipo de piada interna naquilo. — Foi mais ou menos nessa época que o Daniel disse que, quando Petter tivesse algo a dizer, então ele diria, pra eu dar tempo pro menino. Daniel sempre foi muito zen e eu tenho bastante certeza que quis socar a cara dele aquele dia. — Natalie riu de verdade daquela vez. — Mais algumas semanas passaram e nada de palavras, eu lia pra ele, cantava pra ele. Imitava vozes. Qualquer coisa e nada.
Ela se voltou pra mim, sua voz assumindo um tom mais nostálgico, mas ainda sim dolorido:
— Ele tinha esse coelho, se é que dava pra chamar de coelho, era o projeto de um, eu tinha feito durante a gravidez com uma camisa antiga. Na época meu terapeuta disse que me faria bem transformar algo velho em novo, e eu tive essa ideia do coelho de camisa. Era uma coisa bem feia pra ser honesta. Mas o Petter amava, dormia com aquilo todo dia. Se chamava DeeDee, porque eu tinha essa mania de dar nome para os brinquedos.
Natalie parou por alguns segundos e fechou os olhos, como se estivesse segurando as lágrimas.
Eu não conseguia deixar de pensar que a vida deles não tinha sido tão maravilhosa quanto imaginei a princípio, a cada palavra de Natalie eu me dava conta que minhas atitudes a tinham jogado em um inferno emocional. Comecei a ver as coisas por outro ponto de vista.
— Então um dia eu cheguei em casa e estava muito furiosa, era um péssimo dia, me fazia reviver coisas que eu não queria... Coisas que eu não tinha superado ainda, exatamente como aquele maldito coelho. Eu estava no meu limite, então joguei o coelho no lixo. Como se isso fosse adiantar alguma merda. — Ela negou algumas vezes e tomou outro gole de bebida. Uma lágrima solitária rolou pelo seu rosto e ela prosseguiu: — Bom, eu sei que aquela noite o Petter não dormia de jeito nenhum, ele só chorava e eu não fazia ideia do motivo, eu já tinha tentado de tudo sabe... Então, depois de horas de choro e inquietação, ele disse a primeira palavra dele: "DeeDee" ele queria o coelho e, é claro, que eu tive que caçar a porcaria no lixo.
Natalie riu sem humor, um riso um tanto irônico, enquanto ela limpava as lágrimas e se virava pra mim.
— Era treze de julho, e o Deedee era feito daquele sua camisa azul xadrezada... A que você usou no nosso primeiro encontro e que eu roubei de Dawsonville quando vim embora. — Ela revelou, me encarando por três segundos antes de voltar os olhos para a chuva.
Levei um tempo pra digerir cada uma daquelas palavras e tudo que elas significavam. Minha garganta travou e eu não soube o que dizer. Uma lágrima rolou pelo meu rosto e eu a limpei rapidamente.
— Então eu acho que a gente pode dizer que a primeira palavra do Petter foi a versão dele de "papai". Ele sempre foi seu Daryl, você só não sabia disso ainda... — Natalie sorriu e se colocou de pé. — Vem, eu quero te dar uma coisa.
Ela me estendeu a mão e eu levei alguns segundos pra me recompor e aceitar o convite.
Caminhamos para o quarto dela em silêncio. Natalie abriu o guarda-roupa e se abaixou ali. Percebi que havia um tipo de fundo falso de onde ela tirou o que parecia uma agenda, uma bem gorda e que parecia conter muitos recortes e fotos.
— É um diário sobre o Petter, eu escrevi pra você... — Ela me estendeu o objeto e eu levei alguns segundos para reagir, devido a surpresa. — Primeiro dente. Primeira vez andando de bicicleta... Tudo que você precisa saber sobre ele está aqui. Porque, apesar de tudo, eu sempre criei ele pra você. Por que ele é seu, tanto quanto é meu.
Folhei o diário e percebi que ele tinha uma porção de fotos de Petter ainda bebê, e muita informação. Em uma das páginas eu achei uma foto do dito coelho, era mesmo uma coisinha feia, mas Petter estava abraçado com ele, com uma chupeta enorme na boca, apenas de frauda.
Uma visão adorável de uma criança que não merecia nenhum mal.
— Obrigado... — Agradeci, ainda sem saber bem o que dizer e Natalie assentiu.
— Era pra eu ter levado comigo pra pedreira, mas acabei esquecendo no meio da correia, acho que era pra ser assim mesmo, algumas coisas não acontecem no tempo que a gente quer e tudo bem... — Deu de ombros. — No fim das contas, foi como tinha que ser.
Quando Petter mencionou a pedreira na caminhonete, eu não tinha certeza se Natalie tivera mesmo a intenção de ir até lá, ou se era só uma coisa que ela disse ao menino. Mas naquele momento eu soube que era ela tinha mesmo intenção de ir atrás de mim.
Me senti estúpido. Esperei dez anos para ir até aquela maldita pedreira, quando tudo que eu precisava ter feito era um telefonema. As coisas poderiam ter sido diferentes...
Muita dor podia ter sido evitada e, se eu tivesse feito a coisa certa, eu não precisaria acompanhar a vida do meu filho através de um diário. Aquela podia ter sido minha vida também.
— Natalie? — Ela já tinha virado as costas, no intuito de me deixar sozinho, mas parou e se virou quando chamei. — Me perdoa... Eu... não devia ter te mandado embora.
Ela prendeu a respiração por alguns segundos, deixando-a sair aos trancos do pulmão enquanto uma lágrima rolava de seus olhos. Natalie parecia aliviada, como se tudo que ela tivesse desejado a vida toda fosse ouvir aquilo.
Então ela se recompôs, me lançou um olhar compreensivo, compassivo e conformado:
— Você devia sim, Daryl. A gente é feito esse diário aí, não era pra ser... Algumas coisas não acontecem no tempo que a gente quer e tudo bem... No fim das contas foi como tinha que ser. — Ela deu de ombros e saiu.
Soou como eu, mas não gostei daquele som. Eu não acreditava mais que deixar Natalie partir tinha sido a melhor escolha...
Fiquei ali por alguns segundos ainda, foleando o diário e lendo a vida do meu filho como quem lê um livro. Era frustrante...
Era como uma lista de tudo que eu tinha perdido, uma lista extensa e cheia de coisas que eram como pequenas gotas de alegria. E eu não sabia que queria aquelas coisas até ler em um diário.
Quando finalmente saí do quarto, depois de conseguir me recompor, e voltei para sala, Natalie estava debruçada na sacada, com a garrafa quase vazia nas mãos.
— Vai mesmo tomar toda a garrafa sozinha? — Perguntei, me aproximando e me encostando no vidro de proteção, mas, diferente da Natalie, que estava de frente, eu fiquei de costas.
— 'Tá controlando minha bebida agora? — Ela se virou na minha direção ficando de lado. — O espirito de pai baixou mesmo em você.
Ela riu e eu revirei os olhos. Procurei por algo no bolso da minha camisa e achei meu maço de cigarros amassado. Era o último cigarro, mas eu não me importei em acendê-lo.
— Você tem um apartamento bem legal. — Comentei, dando o primeiro trago, enquanto Natalie me observava.
— Tinha. — Ela corrigiu, colocando a garrafa sobre o parapeito.
— Só não é bem como eu imaginava... — Admiti, estendi o cigarro para Natalie.
Ela olhou de mim para minha mão por alguns segundos. Dividir o mesmo cigarro era uma coisa que fazíamos muito em Dawsonville, tinha certo significado. Ela sabia e eu também.
— O eu você imaginava? — Questionou finalmente, tirando a bituca de mim.
— Sei lá, uma casa grande, móveis chiques, prataria, porta de gente rica. — Dei de ombros, e me virei um pouco, pra ficar de frente para ela também.
— Você descreveu a casa da minha mãe agora. — Natalie riu, pouco antes de dar uma longa tragada. — Eu queria algo menos a cara dela e mais a minha. Você gostou?
Soprou a fumaça no ar e eu fiquei preso naquele momento. Em uma realidade fictícia, em que eu tivesse sido mais homem e menos bosta, cigarros na varanda seriam algo comum...
— Eu gosto... — Admiti, mas honestamente não sei se estava mesmo falando do apartamento.
Dei um passo para frente e Natalie teve que se mover um pouco, por causa da minha proximidade inesperada.
Ela apoiou as costas no parapeito e eu dei outro passo para mais perto... Estava cansado daquilo, de fingir, de negar. Estava farto de todo aquele espaço entre nós. Eu estava cansado de perder coisas porque era estúpido e covarde...
Tirei o cigarro da mão de Natalie e o atirei da sacada, ela seguiu o movimento ao mesmo tempo que eu dava outro passo. Apoiei minha mão esquerda no parapeito, bem ao lado da cintura dela. Não havia mais qualquer espaço entre nós. Natalie engoliu em seco.
— Você não devia fazer isso... — Sussurrou passando os olhos pelo meu rosto. Ela era minha garota de Dawsonville outra vez, e isso era tudo que eu queria que Natalie Cooper fosse.
— Eu sei. — Acariciei sua bochecha direita com as costas dos meus dedos. — Mas eu vou fazer mesmo assim...
Então envolvi sua cintura ao mesmo tempo que trazia seu rosto mais pra perto, e fiz o que eu devia ter feito desde o primeiro momento que a vi de novo no Santuário, fiz o que eu nunca devia ter deixado de fazer todos os dias naqueles dez anos: Eu a beijei.
E eu não fazia ideia do quanto tinha sentido falta daquele beijo até o momento em que os lábios de Natalie tocaram os meus. Todo o meu corpo reagiu a ela, como uma avalanche descendo a montanha.
Senti seus dedos subirem pelo meu braço, enquanto a outra mão envolvia meu pescoço. Minha mente ficou vazia, nada de medos, receios ou passado. Havia apenas Natalie e a ciência de que o corpo dela estava colado ao meu... Enquanto o beijo seguia ritmado, como se dançássemos a mesma música.
As coisas começaram a sair do controle muito rápido, porque eu precisava dela e, meus dedos emaranhados em seus cabelos, a puxando para mais e mais perto, não pareciam ser o bastante. O carinho na minha nuca, que espalhava arrepios pelo meu corpo todo deixava tudo urgente e frenético.
Eu precisava da pele de Natalie sob os meus dedos, de cada pequena parte dela, como se eu tivesse uma necessidade de descobri-la de novo, só pra saber que tudo ainda era exatamente como antes. Porque eu queria, de alguma forma, sentir que ainda pertencíamos um ao outro.
Toquei seu quadril por debaixo da blusa, subindo por sua cintura e sentido sua pele se arrepiar ao meu toque, ao mesmo tempo em que seus dedos seguravam meu cabelo com mais força.
No intuito de aumentar ainda mais o contato entre nossos corpos eu a empurrei levemente para trás, e foi quando minha mão esbarrou em algo que se espatifou no chão.
Era a garrafa. Sua queda fez cacos de vidro e bebida voarem pra todo lado. O susto fez o beijo cessar e Bolt latir dentro do apartamento. Natalie encarou o chão e riu, voltando os olhos para mim novamente, intensos e brilhantes, como uma promessa.
— Mãe? — A voz de Petter veio da sala.
— Estou aqui, amor, está tudo bem. — Natalie respondeu quebrando o contato que nos unia.
— Que barulho foi esse? — Ele devolveu ainda sonolento.
Natalie me encarou de novo, sorriu meio de canto e deixou a sacada rumo a sala, tomando cuidado com os cacos de vidro.
Fiquei ali mais um tempo, a mente limpa, vazia, e o corpo todo em um frenesi que apenas Natalie podia provocar.
Ouvi os dois conversando na sala, falando da garrafa e depois das roupas que Petter usava, conversaram um pouco sobre outras amenidades e depois houve silêncio.
Acabei indo atrás de Natalie vários minutos depois. Ela e Petter estavam deitados juntos no sofá. O garoto estava enrolado na mãe como um gatinho. Uma visão adorável. Eu queria aquilo. Eu queria aquela visão toda a noite...
— Você quer deitar aqui? — Natalie convidou, puxando a coberta e revelando um lugar do lado de Petter.
— Eu estou muito sujo... — Apontei minha própria roupa, meio sem jeito.
— E eu estou muito bêbada, o que significa que passei anos dizendo pra esse menino não colocar o pé sujo no sofá, mas vou deixar você deitar aqui mesmo assim... — Ela deu duas batidinhas no lugar e sorriu. — E também, não é como se eu fosse poder levar isso comigo pra Alexandria...
Assenti e, devagar, para não acordar Petter, me deitei com eles. Aparentemente não foi devagar o bastante, porque ele abriu os olhos e me viu ali. Sorriu, meio grogue, como quem acha que ainda está dormindo e puxou a minha mão pra perto, de modo que eu e Natalie o abraçássemos.
Meus dedos e o de Natalie se entrelaçaram e eu foquei nela, era como um sonho bom onde tudo é perfeito.
— Eu posso vir buscar depois se você quiser. — Sugeri em um sussurro e Natalie não pareceu entender. — O sofá...
Ela riu baixinho e ajeitou melhor o corpo.
— Vai dormir Daryl, para de falar besteira.
Mas Natalie não fechou os olhos, nem eu. Provavelmente sabíamos que, assim como um sonho, todo aquele clima ameno que pairava entre nós, podia não estar mais lá, no dia seguinte, quando voltássemos para uma zona de guerra...
E, em meio a tantas coisas que eu me dei conta que perdi durante todo aquele tempo, uma certeza me veio em mente: eu não queria uma família, eu não era um homem de família, mas eu queria Natalie e Petter, não importava o que isso significasse, não importava o que viesse com eles, não importava o nome. Eu apenas precisava dos dois na minha vida.
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