Notas iniciais
Hello pessoinhas lindas e maravilhosas, chegou a hora de mais um capitulo de Sofreline kkkkkkkk Antes de começarmos com mais uma biblia de 10 mil palavras, eu preciso agradecer as DUAS recomendações maravilhosas que Lifeline recebeu: Amy Manson e Pendragon SUAS MARAVILHOSAS E DIVAS eu amei demais cada palavrinha, nem tenho como agradecer esse carinho que vocês tem com a história e com os personagens originais. Obrigada de verdade!!! E um agradecimento especial para todas as minhas comentaristas do capitulo anterior, que não cansam de colocar um sorriso no meu rosto: Mary Noleto, isnotme, Shapier Mascarenhas, NandaNascimento, Dreamer Girl, Reader Girl, Aquarius, Rafa Black, Menta, Pendragon e Amy Manson. Vocês tem lugarzinho garantido no meu coração, suas maravilhosas!!! E agora vamos que vamos, pra ver se a Natalie resolve toda essa situação ou não... Boa leitura

• NATALIE COOPER •

Existe uma brincadeira de adolescente que se chama "Verdade ou desafio", uma daquelas coisas bobas que a gente joga com os amigos no colegial e todo mundo pensa que é só um meio para um fim: beijar na boca.

E é de fato. Mas também é uma dinâmica que diz muito sobre o comportamento humano. Quando é sua vez de jogar, duas escolhas são dadas... Se escolher "verdade", alguém fará uma pergunta constrangedora e você será obrigado a responder. Se escolher "desafio", será obrigado a pagar uma prenda, e se engana quem pensa que essa prenda é sempre engraçada ou emocionante, como beijar o garoto mais bonito da turma. Algumas coisas bem pesadas e constrangedoras podem ser usadas como desafio.

E é exatamente aí que entra a parte curiosa, não importa o quanto for ruim e arriscado, todo mundo sempre escolhe o desafio. Somos condicionados, desde pequenos, a tratar nossas verdades como algo indizível.

Na comparação, é preferível humilhação pública do que dizer uma simples verdade. Não é irônico? Crescemos cultivando segredos e guardando dentro de nós todo o tipo de verdades.

Mentimos para proteger aquilo que julgamos ser vergonho demais pra ser dito. Guardamos os sentimentos em nosso interior porque, mostrá-los para o mundo, seria pior que qualquer humilhação.

Nossa geração tem o estranho costume de fingir que não se importa, de estabelecer regras tontas como "homens não choram", "não diga eu te amo muito cedo", "se faça de difícil, só assim vai dar certo". Tudo é ao contrário, continuamos desafiando nosso coração ao sofrimento, dia após dia, esperando que uma hora ou outra, esse desafio seja um presente e não uma humilhação.

A vida se transformou em um grande jogo de verdade ou desafio.

Mas em alguns momentos complicados esse "ou" se torna "e", contar a verdade é necessário e é aí que está o desafio.

"Verdades e desafios..."

Era nesse impasse que eu me encontrava naquele momento.

Eu mal conseguira dormir, o que não era exatamente uma novidade, pelo menos não naqueles últimos tempos. Minha vida havia se tornado um pesadelo do qual eu não conseguia acordar, quando eu pensava que estava acabando, outra coisa ainda pior acontecia.

Realmente achei que teria um momento de paz, quando consegui abraçar os meus filhos. Mesmo depois de todo o terror que eu tinha vivido nas últimas horas, pensei que tudo ficaria... Só tínhamos que partir.

Então Luka me confrontou com a verdade que eu estava me negando a enxergar: partir não era uma escolha válida.

E mesmo que eu ainda tremesse com a simples ideia, eu sabia que ela estava certa, precisamos ficar e lutar. Eu não podia estar mais orgulhosa dela.

Nunca soube exatamente como ser uma mãe, tive que fazer uma longa analise mental quando estava na maternidade com Petter. Foi naquele momento que eu escolhi que tipo de mãe eu queria ser.

Por mais que eu tivesse entendido a minha própria mãe, não queria ser como ela, não queria ser aquela pessoa que só é compreendida pelos filhos depois de anos. Eu queria ser um exemplo, queria criar minha família em um ambiente seguro e acolhedor, queria fazer de Petter uma boa pessoa. Então eu me esforcei dia a dia pra fazer o meu melhor e me esforcei ainda mais quando Luka chegou.

Mas a verdade é que nunca sabemos se estamos mesmo fazendo o melhor. Então, em um momento como aquele que vivi com Luka, todo o meu esforço pareceu recompensado. Ela tinha seguido o caminho certo e estava me impelindo a fazer o mesmo.

E sim, parece meio egoísta assumir os créditos, mas a Luka que eu conheci anos antes jamais tomaria uma decisão como a que ela tomou noite passada. Então eu sabia que, por mais que ela tivesse todo o mérito daquilo, a minha influência tinha sido positiva.

Aquele momento compensou todo o resto, ver um filho atingir seu potencial máximo é a coisa mais gratificante do mundo.

Porém, nem tudo podiam ser flores. Eu ainda tinha um grande problema pra lidar: Daryl Dixon.

Se com Luka eu tinha acertado, não sei se podia dizer o mesmo de Petter, afinal, que acerto existe em manter o filho dez anos afastado do pai?

Todos os argumentos que eu tinha recitado para mim mesma em todo aquele tempo pareciam falhos e covardes. Essa era a realidade.

Então restava a mim dizer a verdade e encarar todos os desafios vindos disso.

Pelo visto, paz não era algo que eu teria na vida...

Vai ver, se eu tivesse resolvido esse problema anos antes, muita coisa teria sido evitada. E mesmo que ainda estivéssemos no meio de uma guerra, pelo menos eu não teria que lidar com dez anos de mentiras e com Daryl Dixon sendo obrigado a encarar que era pai da noite para o dia...

Mas eu nunca disse a verdade.

Então ali estava eu, sem outra alternativa a não ser encarar aquele desafio, eu teria que lidar com Daryl e, é claro, com Petter, que devia ter um monte de perguntas, dez anos de perguntas que eu tinha empurrado com a barriga.

Suspirei e passei a mão pelo rosto, além de tudo isso tinha a possibilidade do Daryl ter descoberto tudo antes que eu contasse. Não que fosse uma coisa muito complicada, Petter era a cara cuspida do pai.

Eu não duvidava de Luka, mas honestamente desejava que ela estivesse errada. Porque de uma coisa eu tinha certeza, se Daryl já sabia, então ele tinha tirado a conclusão errada sobre tudo...

Estava amanhecendo naquele momento e eu decidi que ficar ali, andando de um lado para o outro, não ajudaria em nada, eu tinha que a resolver todos os meus problemas.

Decidi começar pelo mais simples: Minha estadia em Alexandria. Eu precisava encontrar Rick.

Deixei a casa e percebi que já havia uma certa movimentação nas ruas da comunidade.

Eu ainda atraia mais olhares do que gostaria, embora o círculo mais próximo a Rick parecesse ter mudado de ideia quanto a mim, minha figura ainda era motivo de desconfiança para alguns dos moradores. E eu não podia culpá-los por isso.

Havia um pequeno grupo no portão principal, Rick foi o primeiro que avistei, conversava com alguém que eu não vi de imediato, já que a figura estava ocultada por um dos carros.

Só quando me aproximei o bastante percebi que era Daryl ali com o líder de Alexandria.

Ele me encarou por cima dos ombros de Rick, que nesse momento estava de costas para mim e eu tremi. Era óbvio que Daryl Dixon ainda mexia comigo, mas eu teria que aprender a lidar com aquela situação pelo bem do meu filho.

Não gostei do sentimento que essa constatação me trouxe, mas não tive tempo de dar atenção a isso, pois Rick se virou na minha direção, enquanto Daryl mantinha os olhos fixos em mim.

Tentei descobrir, só por aquele olhar, se Luka estava certa em seu palpite ou não, mas fui incapaz de decifrar Daryl.

— Bom dia, Rick. — Cumprimentei, parando há alguns metros de distância dos dois. — Tem um minuto?

O líder de Alexandria assentiu, porém trocou mais algumas palavras com Daryl antes de caminhar na minha direção.

Pelo que entendi, haveria uma pequena ronda do lado externo dos muros e o Dixon lideraria a equipe.

Daryl caminhou até sua moto, deu algumas instruções para os dois homens que iriam com ele, mas não saiu. Manteve os olhos em mim, mesmo quando Rick já estava na minha frente.

— Olhei o nosso estoque de suprimentos, acho que posso te dar um pouco mais, assim você não tem que se arriscar em uma busca com as crianças. — Começou, pensando que as coisas ainda eram como na noite anterior.

Daryl não pareceu gostar do rumo na nossa conversa, desviando os olhos e dando a partida na moto. Mandou abrirem os portões, sendo rude demais, mesmo considerando seu comportamento padrão.

Ele e Rick trocaram um aceno de cabeça, então Daryl partiu, sem focar os olhos em mim diretamente, embora eu o tenha visto me encarando pelo retrovisor.

Então era isso? O cara me mandava embora da vida dele pela segunda vez e simplesmente fugia para a floresta de novo, sem nem dizer adeus? Se eu realmente estivesse indo embora teríamos outro fim de merda, outra separação sem encerramento.

Deus! Eu tentava ser compreensiva, mas a verdade é que não conseguia mais, há dez anos, eu tinha relevado, afinal Daryl era jovem, a situação era outra, mas naquele momento ele estava bancando o bebezão.

Por um segundo pensei em ir mesmo, só de raiva, mas aquilo não era sobre mim, era sobre Petter e Luka, eu ficaria por eles, ficaria pelo que era certo, e não por causa de Daryl.

Suspirei e passei a mão pelo rosto, enquanto Rick me encarava um tanto consternado por causa da cena. Até ele tinha reparado na atitude do amigo.

E pra ser bem honesta, eu suspeitava que o ex-policial, soubesse bem mais da minha situação com Daryl do que dizia.

— Daryl é... — Ele tentou, mas eu o detive com um movimento da mão esquerda.

Se Rick defendesse a cretinice do Dixon naquele momento, toda a minha boa vontade evaporaria.

— Você se lembra da conversa que tivemos ontem? — Resolvi ser direta.

— Claro. — Rick apoiou o peso do corpo em uma só perna.

— Preciso saber se a proposta ainda está de pé. Se ainda sou bem-vinda aqui em Alexandria, e se caso algo aconteça comigo, tenho sua palavra que vai proteger os meus filhos? — Cruzei os braços e o encarei nos olhos, era um assunto sério.

Eu não entraria de cabeça em uma guerra sem ter certeza que os meus filhos estariam amparados, ainda mais sabendo que a reação do Daryl era imprevisível, ele podia dar as costas pra tudo aquilo ou, na melhor das hipóteses, podia tentar, mas eu tinha que ser honesta sobre aquele assunto também, mesmo que Daryl se esforçasse ao máximo, ele não daria conta sozinho...

Se algo acontecesse comigo, seriam semelhanças demais com a infância do Daryl, ele não conseguiria lidar com a pressão. Por isso, garantir que Rick estaria lá, era uma forma de tomar precauções.

— Você tem minha palavra. — Ele também foi direto, muito seguro do que disse.

Por algum motivo Rick me inspirava confiança, mesmo que eu já tivesse notado a instabilidade dele e me preocupasse com isso...

Não são muitos os homens capazes de colocar a tarefa de ser pai como prioridade na vida, na maior parte das vezes os caras tratam isso como um trabalho esporádico... Mães tem que ser mães em tempo integral, mas no geral, os pais fazem isso apenas quando convém. Rick não era assim.

Eu o conhecia há dois ou três dias e já tinha certeza disso. Talvez esse fosse o fato que me inspirava confiança nele.

— Então eu gostaria de ficar. — Declarei, tentando usar a mesma convicção, mas a verdade é que eu ainda tinha medo.

Tudo que Negan tinha feito comigo ainda me assombrava, eu sabia que não aguentaria viver aquilo de novo. Me aterrorizava pensar que qualquer um dos meus filhos pudesse cair nas garras daquele psicopata.

Rick assentiu algumas vezes e se permitiu sorrir.

— Isso é uma ótima notícia... — Respondeu amigável, mas seu sorriso morreu quando viu a minha expressão.

Ele colocou a mão esquerda no meu ombro e apertou em forma de apoio.

— Nada vai acontecer com você, nem com ninguém. Vamos vencer essa guerra! — A certeza dele não me motivava, pelo contrário, aquele excesso de confiança me deixava ainda mais apavorada.

Eu era confiante daquele jeito antes de Negan queimar minha comunidade e transformar minha vida em um inferno.

— Isso é algo que você não pode prometer, Rick. — Devolvi neutra. — Pelo visto, vai ser uma boa coisa eu ficar, você precisa de um pouco de realismo para o seu otimismo exacerbado.

Dei um sorriso meio triste e prosseguimos com os detalhes práticos da minha estadia ali. Rick não foi especifico sobre nenhum dos seus planos, era mais sobre fortificar a segurança de Alexandria antes de pensar em um ataque, mesmo assim ele seria rápido, nossa principal vantagem era que os Salvadores não tivessem tempo de armar um contra-ataque.

Rick fez questão que continuássemos na casa que ele já nos tinha cedido e pediu para que um dos Alexandrinos me fornecesse alguns suprimentos básicos.

Percebi que era hora de voltar, Petter devia estar acordado e eu precisava ter uma conversa séria com ele.

Quando cheguei em casa encontrei Luka sentada na escada, calçando os coturnos. O cheiro do café fresco me lembrou do nosso apartamento no centro.

— Bom dia. — Falei, colocando a caixa de suprimentos sobre o sofá. — Como você dormiu?

— Bem. — Ela ergueu a cabeça para sorrir, mas logo voltou a olhar enquanto amarrava o cadarço. — Achei pó de café nos armários e fiz um pouco. Petter ainda está dormindo.

Ela se colocou de pé com um pulo, estava animada, quase feliz, mesmo que estivéssemos nos preparando para uma guerra. A amei um pouco mais por isso. Porque o simples fato de eu ter decido ficar, tinha iluminado os olhos dela e trazido uma esperança que nem eu mesma tinha.

Soube que tinha que ganhar aquela batalha, por ela e por Petter, porque eles mereciam tudo que aquele mundo ainda podia dar.

Se os apodrecidos querendo comer nossa carne não tinham sido o nosso fim, então Negan também não podia ser, tinha que ter um futuro depois disso, era o meu dever como mãe garantir que vencêssemos.

— Deus, eu senti falta do seu café! — Sorri em retorno, caminhando para a cozinha e pegando uma xicara imensa.

— Você dormiu bem? — Luka me seguiu e eu assenti entre um gole e outro, mesmo sabendo que era mentira.

Eu não queria preocupá-la com os meus problemas.

— Isso está maravilhoso! — Apontei o café, e embora fosse verdade, era só uma maneira de desconversar.

Luka estreitou os olhos na minha direção, como se não tivesse comprado minha mentira, mas se deu por vencida.

— Claro que está, fui eu que fiz. — Ela sorriu.

Será que era muita vergonha que minha filha fosse uma cozinheira muito melhor que eu?

— A gente vai vencer isso, Natie, eu sinto que vai. — Luka soou convicta e eu caminhei até ela.

— E eu acredito em você. — Beijei sua testa e acariciei seus cabelos.

Eu queria muito acreditar... Mas talvez ainda não estivesse pronta pra isso.

— Bom dia! — Uma figura saltitante e sonolenta apareceu na cozinha. — Eu tive um sonho pra lá de estranho em que a gente não ia embora.

Petter sorriu e eu soube que enfrentaria o mundo por aqueles dois, não era nada sem eles.

— Não foi um sonho, Gafanhoto — Luka debochou, bagunçando o cabelo dele enquanto passava. — Essa é minha deixa. Vou achar algo de útil pra fazer. — Apontou a porta e eu assenti, então ela sussurrou no ouvido do irmão: — Boa sorte, você vai precisar.

Neguei algumas vezes enquanto ela saia rindo e Petter arregalava os olhos.

— Eu estou encrencado? — Ele puxou uma cadeira para se sentar e eu procurei algo que servisse como café da manhã. Escolhendo algumas frutas da caixa de suprimentos.

— Você fez alguma coisa pra estar encrencado? — Perguntei, puxando a cadeira na frente dele e me sentando também.

— Não...? — Tentou soar certeiro, mas não convenceu. Tive que me segurar pra não rir, era um assunto sério afinal.

Petter pegou uma das frutas e eu apoiei as duas mãos na mesa, calma e tranquila.

— Droga, a Luka contou, não é? — Ele deduziu rápido, ou pelo menos eu pensei que tivesse. — Eu não mexi nos diários de proposito, foi só uma vezinha.

— Você mexeu nos meus diários? — Perguntei surpresa, estreitando os olhos. Mexer nas minhas coisas não era algo que Petter podia fazer, e ele sabia muito bem disso.

— Não era isso que a Luka tinha contado, não é? — Ele percebeu que tinha sido pego no pulo.

Ficava uma graça com aquela carinha de culpado. Mesmo assim tentei manter a postura.

— Não. — Neguei, em um tom neutro, porém firme.

— Ah, então é a outra coisa... — Entendeu finalmente, mas parou pra pensar um segundo. — Espera, se Luka não contou do diário, então como você pensou que eu tinha descoberto? — Petter fez uma pergunta pertinente e eu me dei conta que nem tinha pensando naquilo.

Na confusão de sentimentos e acontecimentos do momento, eu nem me preocupei com os meios, apenas com os fins.

— Isso não importa, não agora. — Fiz um movimento displicente com a mão direita, tínhamos coisas mais importantes para conversar do que teorias erradas.

— Você está muito brava comigo? — Ele questionou, fazendo aquela carinha de dó, que ninguém na terra seria capaz de resistir.

— Não, não estou, devia estar por você mexer nas minhas coisas sem permissão, mas não estou. — Respondi claramente. Sempre tentei ser o mais transparente possível com os meus filhos, se algo que eles faziam me desagradava, eu dizia exatamente o motivo, esse era meu jeito de educar. — Eu te perdi por muito tempo, não ficaria brava com você por nada nesse momento.

Petter deu um sorrisinho sapeca, por ter se livrado da bronca e eu prossegui:

— Você está bravo?

— Por que eu estaria? — Não entendeu minha pergunta.

— Por causa do seu pai... porque estamos aqui há um dia e eu ainda não disse nada sobre isso pra você, mesmo que eu tenha prometido. E eu estava pronta pra ir embora sem dizer nada. — Expliquei meu ponto e Petter não precisou de muito tempo pra responder.

— Não. Você mesmo disse, a gente ficou separado por muito tempo, você queria ficar comigo... E depois, você é minha mãe, sabe o que é melhor pra mim. — Ele sorriu compassivo e eu agradeci a Deus por ter filhos tão maravilhosos e compreensivos.

— Sim, eu sou sua mãe, mas isso não significa que eu esteja sempre certa, eu já te disse algumas vezes, mães erram também, e eu não sou uma exceção à regra. — Reforcei, segurando a mão de Petter sobre a mesa.

Ele assentiu, mas não tinha convicção, a verdade é que Petter confiava plenamente no meu julgamento, o que em partes era um alivio, mas por outro lado me deixava receosa, se meu filho me colocasse em um pedestal e eu o decepcionasse... Eu nem queria pensar nisso.

— Então o Daryl é mesmo o meu pai? — Perguntou, com um sorriso que podia iluminar o mundo e eu assenti.

Quão injusto era que, saber quem era o pai pudesse deixar Petter tão feliz, e eu tivesse escondido isso dele por dez anos?

Me senti um monstro sem coração.

— Você falou sobre isso com ele quando estiveram juntos no Reino? — Questionei calma, eu precisava saber o que estava prestes a enfrentar com Daryl e o quanto de informação ele tinha.

— Achei que era melhor você mesma falar... — Petter remexeu as duas mãozinhas sobre a mesa e eu senti que havia algo mais, por isso continuei com os olhos focados nele, até que continuasse: — E também pensei que fosse melhor fazer amizade com ele primeiro sabe, porque se ele gostar de mim, vai ser mais fácil, não é?

Tentou sorrir, mas eu conhecia meu filho bem demais, ele estava assustado, e meu coração se partiu um pouco.

— Vem aqui... — Chamei, puxando-o pela mão e aninhando o pequeno no meu colo como se ele ainda fosse um bebê.

— A gente não precisa falar nada agora, podemos esperar ele gostar mais de mim primeiro... — Sugeriu, se aconchegando no meu corpo e eu o abracei mais forte.

Ficamos em silêncio por um tempo, porque, honestamente, eu não sabia muito bem como lidar com aquela situação.

Dez anos de espera e a minha preocupação sempre foi o Daryl e como ele reagiria. Não me dei conta que Petter teria idade o bastante para ter as próprias dúvidas, me esforcei para criar uma imagem de Daryl que fosse boa e saudável, mas sem esconder que ele era uma pessoa emocionalmente complicada, no entanto isso não respondeu nenhuma das perguntas o meu filho, talvez só tivesse contribuído pra criar mais...

— Você está com medo, não é? — Acariciei os fios castanhos, enquanto perguntava.

— E se ele não gostar de mim, mãe? E se ele não me quiser? — Aqueles simples questionamentos fizeram os olhinhos de Petter marejarem.

Eu quis protegê-lo de toda a dor do mundo naquele momento, quis dar alguma segurança mesmo sabendo que estávamos prestes a entrar no mar turbulento e incerto que era Daryl Dixon...

— Ele vai, pequeno Gafanhoto... — Garanti, colocando toda minha convicção naquilo. — Seu pai é complicado, e não sabe bem como lidar com sentimentos, mas família é importante pra ele, então eu tenho certeza que o Daryl vai te querer e vai te amar muito.

Não, eu não tinha certeza, a verdade é que eu não sabia de nada, então, pela primeira vez, menti para o meu filho.... Contudo não precisava ser uma mentira se tudo desse realmente certo e naquele momento eu garanti a mim mesma que faria qualquer coisa pra dar.

— Você promete? — Petter perguntou esperançoso, ele sabia o que aquilo significava, e eu sabia também.

Jamais faça promessas que você não pode cumprir, Natalie Cooper...

— Prometo. — Assenti, sabendo o peso que aquilo colocava nas minhas costas. — Eu vou falar com ele, e tudo vai ficar bem.

Eu nunca prometi coisas que estavam além do meu alcance, não até aquele momento. E mesmo sabendo que nada poderia ser dado como garantido, quando se tratava de Daryl, eu não decepcionaria meu filho.

Petter ficou mais confiante depois disso, voltando a comer, com aquele sorriso que eu amava no rosto.

— Eu posso tomar um gole? — Estendeu a mão para a minha xícara com a maior carinha de anjo do universo.

— Não... — Afastei o objeto dele. — Sabemos o que café faz com você, já é muito complicado lidar com a sua hiperatividade quando você está normal, sob o efeito da cafeína você fica incontrolável.

— Mas você me ama mesmo assim... — Abriu um sorriso peralta. — Eu sou seu filho querido e você não vai me deixar com vontade de tomar um golinho de café, vai?

Fez aquela carinha de cachorro de caiu da mudança, aquela irresistível que ele sabia muito bem que me dobraria.

Era só café no fim das contas...

— Você é impossível. — Dei a xícara, contendo minha vontade de sorrir.

— Devemos procurar algo pra fazer agora? — Petter perguntou depois de beber um gole.

Devíamos, mas eu precisava de um pouco mais de tempo, só um pouquinho antes das coisas virarem uma confusão de novo.

— Depois, agora eu preciso te paparicar um pouco. Quase morri de saudades...

Eventualmente tive que voltar para o mundo real, então aquela tarde mesmo eu já estava nas ruas de Alexandria, procurando por algum lugar onde eu pudesse ser útil. Tinha uma guerra se formando e já que isso me afetava diretamente, eu tinha que saber de tudo.

Estava ajudando na arrumação do estoque de suprimentos, quando uma mulher se aproximou de mim. Eu a tinha visto da batalha, junto com o pessoal do Reino, era praticamente uma senhora, de cabelos grisalhos e curtos.

— Você é a Natalie, não é? Eu sou a Carol. — Ela se apresentou com um sorriso amigável e simpático.

— Prazer. — Acenei com a cabeça, colocando mais coisas nas prateleiras.

Ela ficou ali perto de mim por alguns momentos, puxando um assunto banal sobre receitas que podiam ser feitas com alguns ingredientes daquelas prateleiras. Aparentemente só uma senhora que gostava de jogar conversa fora.

Mas não colou comigo, digamos que não tem como ser uma jornalista investigativa sem conhecer um truque ou outro. E Carol estava apenas me sondando...

— Ouvi dizer que você viveu no santuário por um tempo... — Ela soou compassiva e amável. — Imagino que deve ter sido horrível pra alguém tão amável como você... As pessoas lá são tão ruins quanto parecem?

Ela colocou a mão sobre o meu ombro, em um gesto de apoio que quase me enganou. Quase.

Sorri em retorno. Duas podiam jogar aquele jogo...

— Foi horrível sim, mas eu sobrevivi, era o que eu tinha que fazer... — Dei de ombros, sendo ainda mais amigável que ela. — No fim o Santuário é um grande jogo de xadrez onde todo mundo blefa, mente, finge e manipula em benefício próprio... Existe uma segunda intenção por trás de cada conversa e de casa sorriso. Acha que isso é tão ruim quanto parece? — Alfinetei, controlando meu tom para ser perfeitamente cortês como o dela.

Carol continuou me encarando com aquela expressão simpática. Tão amável que eu quase duvidei dos meus próprios instintos. Por um segundo cheguei a pensar que eu estava ficando paranoica. Mas uma mentirosa sempre reconhece outra ou, como diria o Kane: um jogador sempre reconhece o outro.

Seu rosto podia estar coberto por uma máscara de amabilidade, mas eu soube através dos olhos de Carol que ela tinha entendido muito bem a indireta.

Se aquele papel de senhorinha funcionava com as outras pessoas, ela soube muito bem que comigo não adiantaria nada.

Foi o fim da nossa conversa. Me afastei ainda exibindo aquele sorriso cortês, como se nada de mais tivesse acontecido ali.

Deixei a garagem onde os suprimentos estavam sendo armazenados e vi que Luka descia a rua na minha direção naquele momento, então nos encontramos no meio do caminho. Ela observou a mulher deixar o deposito de suprimentos logo depois de mim, e não demorou a perceber o que tinha acontecido.

— Então, você conheceu a Carol... — Apontou com a cabeça e paramos no meio da rua, conversando em um tom baixo, enquanto as pessoas passavam de um lado para o outro.

— Ela estava me sondando. — Afirmei. Carol podia ser boa, mas eu não era ingênua. — Não confia em mim.

— Então nós não gostamos dela? — Luka perguntou estreitando os olhos. Eu tinha sentido falta daquela cumplicidade entre nós duas.

— Não, muito pelo contrário. Gostamos dela. — Sorri satisfeita. — Eu gosto de gente que é pé no chão, menos arco-íris e flores. Negan tem aliados por toda parte, desconfiar é esperto.

Luka assentiu e eu não precisei de mais nada pra saber que compartilhávamos da mesma opinião. No meio de uma guerra, Carol era certamente uma aliada com grande potencial.

Continuamos caminhando lado a lado.

— Gostamos do Ezekiel? — Foi minha vez de questionar.

Em Sherwood tínhamos essa mania de analisar as pessoas e depois cruzar informações pra ver se nossas opiniões batiam, ou se tínhamos deixado passar alguma coisa.

Duas cabeças sempre pensavam melhor que uma, e Luka tinha um bom senso crítico quando se tratava de decifrar pessoas, por isso eu confiava plenamente nela.

— Ele é muito teatral, mas usa isso em benefício do povo. Eu o acho muito otimista, mas ele é um bom líder. — Explicou em poucas palavras.

Otimismo era a força daquela gente, o problema é que eu não sabia se estariam prontos para quando as coisas não fossem tão "ótimas" assim.

E falando em otimismo... avistei Rick conversando com Maggie ao longe.

— Rick e Maggie... O que achamos? — Luka questionou e eu apenas assenti como se eles fossem okay.

A verdade é que tinha um limite para coisas que eu compartilharia com uma garota de dezoito anos, Luka ainda era só uma menina, e já tinha sido obrigada pela vida a crescer depressa demais, por isso, enquanto eu pudesse preservar o restante da juventude dela eu faria isso.

Mesmo sabendo que ela queria entrar em uma guerra, havia aspectos com os quais eu não queria preocupá-la...

Honestamente Rick me inspirava confiança, mas no fundo eu tinha medo que ele estivesse levando tudo para o lado pessoal, aquilo não era algo bom para um líder...

O excesso de confiança e a instabilidade dele me preocupavam, mas, além disso, Rick não estava preparado para perdas...

A verdade é que ninguém ali estava, nem eu, isso era o que mais me assustava.

Já Maggie, era uma líder interessante, eu tinha gostado dela, mesmo quando fiquei presa em Hilltop. Mas o problema é que, olhando com mais cautela, eu podia ver que ela se apoiava na própria dor para ter forças e isso não era saudável. Decidi ficar por perto dos dois, eles eram os pilares, se caíssem, todo o restante desmoronaria junto.

— Gosto deles, mas vejo um monte de coisas que Negan pode usar em benéfico próprio... — Resolvi dar uma resposta mais direta para Luka, que não tinha se convencido com a minha anterior.

— Acha que eu tomei a decisão errada? — Ela pareceu receosa.

Luka tinha progredido muito desde que eu a levara para minha casa, mas, ás vezes, ela ainda apresentava um leve traço de insegurança.

— Não. — Fui categórica, tentando passar toda a minha confiança. — Você decidiu ficar, porque isso é o certo.

Segurei os dois ombros dela em forma e apoio e Luka assentiu com um meio sorriso.

E mesmo fazendo o possível para ser o apoio que ela precisava, eu soube que precisava me preparar para o pior... Eu não podia deixar Negan me pegar desprevenida outra vez.

— Cheguei, pessoas que mais me amam nesse mundo! — Petter deu um pulo na nossa frente e eu mal vi de onde ele tinha saído.

— Justo a pessoa que eu queria ver! — Luka exclamou satisfeita e eu fiquei meio sem entender o motivo da empolgação dela.

— Opa! Petter Cooper se apresentando para o trabalho! Qual a missão? — Ele bateu uma continência exagerada e eu sorri, porque no fundo era uma mãe muito babona.

— Missão Toy Story. — Luka revelou e Petter pareceu interessado, embora, assim como eu, ele não tenha entendido. — Digamos que eu posso ter aceitado um pequeno desafio do Woody e tenho que ser uma sobrevivente melhor que ele.

— Quem é o Woody? — Ele perguntou com o sorriso travesso e eu percebi que estava totalmente de fora do assunto.

— O filho do Cabeça de Melancia. — Luka respondeu e os dois já estavam se afastando de mim, sem nem se despedir.

— Ah sim, não se preocupe, eu tenho o plano perfeito! — Petter arrumou toda a postura, como se estivesse no total controle da situação.

— Vocês dois, parem de se meter em encrenca! — Adverti, antes que se afastassem totalmente.

— Não vamos. — Os dois responderam ao mesmo tempo, com uma cara de santos que podia enganar qualquer um.

Estreitei os olhos enquanto eles mantinham os sorrisos angelicais.

— Isso é uma promessa? — Cruzei os braços.

Petter e Luka trocaram um olhar cúmplice e o meu Pequeno Gafanhoto sorriu.

— Evoco a quinta emenda! — Ergueu o dedo em riste, todo vitorioso.

Revirei os olhos. Ter avós advogados tinha dado a Petter algum conhecimento que ele usava em proveito próprio. A quinta emenda garantia o direito de permanecer calado e evitar assim a autoincriminação. Ótimo momento pra usar o recurso.

— Eu nunca devia ter deixado Daniel ensinar isso pra vocês. — Apontei, tentando soar maternal, mas a verdade é que os dois já tinham me ganhado faz tempo.

— Também te amo, mãe! — Ele gritou enquanto acenava e puxava a irmã pela mão e eu apenas neguei deixando um sorriso escapar.

Não precisei de muito mais informação para saber que estavam se referindo a Carl e Rick, não que os apelidos ajudassem, mentira, na verdade eu até entendia, mas o motivo para que eu deduzisse tão rápido foi que Rick era o único com um filho ali.

Senti pena de Carl... Eu não sabia como tinha criado filhos tão competitivos daquele jeito.

Tentei encontrar outra coisa pra fazer depois disso, mas a verdade é que eu acabava sempre rodeando a entrada da comunidade, querendo que Daryl voltasse logo. Já que eu tinha que ter aquela conversa com ele, então queria ter de uma vez...

— Ele vai voltar logo. — Maggie apareceu ao meu lado e confesso que estava tão distraída, olhando o portão, que nem percebi a chegada dela.

Não chegou a me assustar, mas me surpreendeu um pouco.

— Não entendi... — Desconversei, me fingindo de desentendida.

— Daryl. — Ela nomeou. — Você está preocupada com ele, não está?

Eu não estava preocupada com ele em si, apenas com o que eu tinha que contar pra ele. Mas claro que eu não diria isso para Maggie.

— Por que eu estaria? — Continuei na evasiva e ela me encarou por três segundos antes de responder.

— Meu palpite é que vocês têm algum tipo de vínculo. — Respondeu neutra, voltando os olhos para o portão.

— Ele disse isso? — Estranhei, mas por algum motivo estúpido gostei daquela possibilidade.

— Não... — Maggie negou, cruzando os braços e abaixando a cabeça. — Daryl é muito fechado, ele nunca diria nada. Ainda mais pra mim, não agora quando ele acha que...

Ela não terminou. Mas nem precisaria, eu sabia do que se tratava. Era sobre o homem que Negan tinha assassinado.

— Não foi culpa dele. Não é assim que funciona com o Negan. — Defendi Daryl antes mesmo de pensar sobre isso.

Eu realmente precisava parar com aquela mania. Porém Maggie pareceu gostar daquela resposta.

— Eu sei. Todo mundo sabe. — Ela deu de ombros. — Mas o Daryl não entende isso...

Não queria ficar mais solidária com a causa "Daryl Dixon", ele ainda era o babaca que tinha me mandado embora e virado as costas sem se despedir, tentei manter isso em mente, mas era como se parte do meu cérebro fosse condicionada a sempre entender o Daryl.

— Vi o jeito que ele olha pra você... — Maggie continuou depois de alguns segundos. — E nunca tinha visto ele olhar assim pra ninguém.

Tentei não ser afetada por aquela informação, afinal de que adiantava ser importante para Daryl se ele nunca lutava por mim? Eu estava cansada disso... No fundo eu queria alguém que lutasse por mim, eu queria alguém que me amasse do jeito que eu amei Daryl Dixon... Será que eu era estúpida por querer algo assim naquela altura da vida? Naquela realidade destruída, onde quase não sobrava espaço para esperança?

— Se houvesse algo pra dizer sobre isso, e eu não estou dizendo que há, mas se tivesse, não poderia ser eu a contar. — Resolvi colocar fim naquele assunto. — Você é amiga do Daryl. Seria meio que uma traição com ele.

Maggie moveu a cabeça em concordância, parecendo satisfeita com o que tinha ouvido. Talvez o fato de eu não usar minha história com Daryl como vantagem fizesse diferença pra ela.

Continuamos paradas, encarando o portão por mais algum tempo, eu comecei a me perguntar o que Maggie ainda estava fazendo ali, mas não precisei bolar teorias, ela se pronunciou logo:

— Rick me contou o que você fez ontem, pelo Carl e pelo Daryl. Contou o que o Negan fez... Ele está preocupado com você. — Usou um tom compassivo e cuidadoso — Então, agora que você vai ficar, se quiser conversar com alguém sobre isso... Eu só queria dizer que te entendo. Eu já passei por algo parecido.

Tive que reviver a maldita cena com Negan e isso me causou náuseas, me fez me sentir impotente, fraca, desprotegida. Eu não queria falar sobre isso, mas no fundo sabia que uma hora ou outra precisaria.

— Eu falo com você, se você falar comigo sobre o que você está sentindo agora. — Sugeri, e isso pegou Maggie de surpresa.

Percebi que as pessoas não tocavam nesse assunto com ela, a verdade é que todo mundo ali ainda parecia bastante abalado com as mortes que Negan causou e eu entendia exatamente o porquê.

Maggie agia como se tivesse superado, mas eu podia ver a dor nos olhos dela.

Sem dúvida ela era melhor que eu pra lidar com a morte, mesmo assim estava sofrendo e, assim como eu, ela não poderia guardar aquilo para sempre.

— Estamos no meio de uma guerra. Não dá tempo para o luto. — Respondeu firme.

— Exatamente. Estamos no meio de uma guerra. Não dá tempo pra lamentar as merdas que eu passei... — Devolvi da mesma forma.

Maggie finalmente voltou a olhar pra mim e assentiu com um sorriso triste.

— Então está combinado, quando tudo isso acabar nós vamos sentar e falar sobre isso. — Propôs, tentando colocar um pouco de humor e esperança na voz.

— Parece um bom plano pra mim. — Concordei, procurando transmitir o mesmo sentimento otimista que ela. Mesmo que não fosse o que eu sentia no momento.

Assentimos com um sorriso compassivo e cada uma seguiu seu caminho. Eu estava certa sobre Maggie, ela estava se apoiando na dor. Era melhor eu ficar de olho nela... Tem momentos que a dor pode ser de mais.

Resolvi parar de esperar por Daryl e procurar meus filhos, já fazia mais de duas horas que não via os dois e queria saber o que aqueles pestinhas estavam aprontando.

Não foi difícil encontrá-los. Estavam em uma área livre da comunidade, afastados dos portões de entrada e eu os observei de longe por um tempo.

Luka trabalhava em algo que eu não entendi de imediato, era basicamente um carro acoplado com partes de metal de um dos lados. Ela tinha ótimas habilidades manuais e podia ser muito inventiva.

Percebi que não era a única observando, Carl, que carregava a irmãzinha, e Enid foram se aproximando aos poucos.

— O que você está fazendo? — A garota perguntou diretamente para Luka, que ergueu os olhos e mediu Enid por alguns segundos.

— É um projeto experimental, vamos adaptar essas placas no carro, assim ele vai servir como escudo na batalha. Montamos um e mostro para o pessoal no comando, assim eles veem a ideia em ação. — Ela explicou rapidamente, enquanto pedia uma das ferramentas para Petter que exibia um sorriso orgulho.

Notei que o vínculo dos meus filhos tinha ficado ainda mais forte, eu sabia que aquilo era consequência do tempo que passamos separados. E, embora eu ficasse orgulhosa por serem sobreviventes formidáveis, sentia meu coração apertar por eles terem que passar por tanta coisa sendo tão jovens.

— Isso é muito legal! Posso te ajudar? — Enid pareceu empolgada, o que colocou um sorriso no rosto de Luka.

— Achei que ia me ajudar com a Judith. — Carl tentou protestar e senti que ele não era do tipo que gostava de ficar de fora.

— Você sabe mexer com ferramentas? — Luka o ignorou totalmente, agindo como se apenas Enid estivesse ali.

— Não muito na verdade... — A garota confessou meio constrangida.

— Não tem problema, eu te ensino. — Percebi que Luka estava competindo com Carl até quando se tratava da garota. — A menos que ache mais útil cuidar do bebê...

Ela encarou o filho de Rick pela primeira vez naquele tempo, o medindo da cabeça aos pés com um arzinho de deboche.

Achei melhor intervir antes que aquela birrinha adolescente se tornasse um problema.

— Ou... — Comecei caminhando até eles. — Eu posso cuidar do bebê, e vocês todos trabalham nisso juntos. Assim, quando Rick e os outros virem o potencial do projeto e aderirem a ideia, vocês vão poder ensinar o pessoal a fazer mais carros desses, quanto mais melhor, e quanto mais rápido melhor também. O que acham?

Estendi as mãos para pegar a bebê, que não mostrou qualquer objeção para vir em meu colo. Carl encarou Luka, que por sua vez encarou Enid...

Petter foi o primeiro a dar de ombros, ele era bom trabalhando em equipe, resultado dos anos de escoteiro mirim. Era Luka quem tinha mais dificuldade de aceitar as pessoas. Ela me observou por alguns segundos antes de finalmente se voltar para Carl.

— Pensa rápido, Woody. — Luka lançou uma das ferramentas para o garoto, em um movimento que o pegou de surpresa, mesmo assim Carl segurou o objeto no ar, sem qualquer dificuldade. — É, até que você não é tão ruim assim... Vamos trabalhar.

Ela começou a explicar o que tinha em mente e eu me despedi dos quatro, deixando que trabalhassem em paz e saindo com a bebê dali. Era meio frustrante, mas eu era mãe, então não tinha um lugar reservado no núcleo dos adolescentes...

Não que eu me importasse de estar bancando a babá daquela gracinha.

Judith era uma garotinha calma, que ainda estava treinando suas primeiras palavras e que não dava qualquer trabalho. A levei para ver Michonne que ficou muito feliz com a visita.

Ela e Rosita não estavam nada contentes de ter que ficar ali na enfermaria, repousando para a recuperação. A pior parte era que, considerando a velocidade com que as coisas estavam acontecendo, Michonne tinha certeza que Rick teria um plano de contra-ataque bem antes das duas poderem ajudar. Ou seja, elas ficariam de fora de toda aquela luta.

A raiva dos Salvadores era algo palpável dentro dos muros de Alexandria, cada um ali tinha seu próprio motivo para odiar Negan e seus homens.

Fiquei aliviada que nenhuma das duas me bombardeou com perguntas. O fato é que, embora todos estivessem em clima de guerra, eu não estava.

Talvez fosse idiotice postergar entrar de cabeça no assunto, mas enquanto eu pudesse, ou pelo menos até que minha conversa com Daryl acontecesse, eu preferia adiar ser consumida por aquela realidade cruel.

Depois de algum tempo na enfermaria, Judith acabou caindo no sono e Michonne pediu que eu a levasse para casa, porque certamente teria alguém por lá que ficaria de olho nela.

Segui para a casa de Rick depois disso, mas percebi logo que não havia ninguém por lá, embora a porta estivesse aberta. Decidi não ficar andando com a menina adormecida no colo, então entrei e a coloquei no berço.

Estar no quarto da bebê me trouxe algumas lembranças: A primeira vez que eu estive em Alexandria, quando tive que esconder a pequena no armário, para que sua presença não fosse de conhecimento do Negan.

Foi inevitável não pensar em Kane, mesmo naquele dia ele tinha me ajudado, na verdade, se fosse fazer uma análise mental, Kane tinha me ajudado, de um jeito ou de outro, desde que eu cheguei no Santuário... Talvez eu tivesse notado isso, se não estivesse tão focada no meu plano de fuga e em odiar qualquer Salvador.

Eu só podia desejar e torcer para que ele estivesse bem. É o Kane, ele vai dar um jeito de virar o jogo. Tentei convencer a mim mesma, porque eu sabia que ele não podia ser meu foco naquele instante.

Não podia deixar minha consciência me sabotar. Eu não podia ajudar. Não havia nada que eu pudesse fazer por Kane Bennet, por mais que eu quisesse...

Um barulho no andar de baixo me obrigou a voltar para a realidade, alguém tinha acabado de chegar na casa.

Encarei Judith ainda adormecida, apesar da barulheira que a pessoa fazia.

Seja lá quem fosse, não estava nada feliz. As portas batendo e as pisadas duras, que eu podia ouvir dali, provavam isso.

Decidi avisar que a pequena estava dormindo, assim eu podia ir embora e deixá-la sob a responsabilidade da pessoa recém-chegada.

Saí do quarto e fui obrigada a parar no topo da escada assim que vi quem era: Daryl.

Ele não me viu de imediato, tinha jogado a besta em um canto e estava tirando os sapatos totalmente sujos de barro e gosma de errante. Fazia cada movimento com mais violência que o necessário, o que indicava que estava bravo com alguma coisa. E isso era péssimo pra mim.

Só quando ele já estava descalço é que notou minha presença ali. Por algum motivo eu tive que segurar no corrimão, para conter a tremedeira que percorreu meu corpo quando ele focou os olhos azuis em mim.

Por que você está tão nervosa, Natalie? É só sobre os dez anos de omissão, ou é sobre algo mais?

Daryl piscou duas vezes, como se acreditasse que não estava vendo direito, assim que constatou que eu estava ali de verdade, ficou genuinamente surpreso.

Ah claro, ele pensou que eu teria ido embora...

Achei que era hora de dizer alguma coisa, antes que aquilo ficasse ainda mais estranho.

— Oi... — Cumprimentei no tom mais natural que consegui. — Eu trouxe a Judith pra dormir... — Apontei o quarto atrás de mim, como se isso explicasse tudo.

— Não foi embora ainda? — Ele tirou a besta do chão, só para colocá-la no mesmo lugar.

O aparente desinteresse dele me deixou irritada, eu não conseguia mais tratar Daryl como se ele fosse de cristal... Em outra época eu teria relevado, entendido o lado dele. Mas naquele momento eu não consegui.

— Felizmente eu não deixo mais você decidir o que eu devo ou não fazer da minha vida. — Devolvi ácida, com um sorriso superior que fez os olhos dele faiscarem. — Eu não vou a lugar nenhum, Daryl...

Finalmente desci alguns degraus e ele bufou, cortando a distância entre nós mais rápido do que eu consegui pensar. Minha mente virou geleia, perdida em um segundo de todas as ilusões tolas do que aquele momento podia virar.

Mas nenhuma das infinitas realidades que eu imaginei naquele mísero segundo se tornou verdade. Daryl simplesmente passou por mim com brusquidão, fazendo seu ombro se chocar com o meu.

— Então você é mais estúpida do que eu pensei! — Resmungou enquanto subia os degraus com passos duros. — Mas isso não é da minha conta. Eu fico de olho na Judith agora. Você pode ir.

Juro que senti vontade de socar a fuça dele, até cheguei a fechar a mão pra isso, mas apenas respirei fundo e dei meia volta, subindo parte da escada, enquanto ele seguia para o quarto e voltava com uma muda de roupas rapidamente.

— Eu preciso falar com você. — Controlei meu tom o máximo que eu podia.

— Acho que você já disse tudo que tinha pra dizer ontem e eu não posso te ouvir agora, estou ocupado. — Retrucou, sendo ainda mais ogro que o de costume e bateu a porta do banheiro na minha cara.

— Ocupado bancando o macho escroto? É, eu 'tô vendo mesmo... —Devolvi em um tom irônico, alto o bastante para que ele pudesse escutar.

Não houve resposta. O que me deixou ainda mais puta de raiva. Cogitei abrir aquela maldita porta nem que fosse a ponta pés, e esfregar a verdade na cara daquele idiota.

Mas eu ainda lembrava muito bem do problema que banheiros eram para o Daryl, então soube instantaneamente que ter qualquer conversa com ele naquele ambiente nunca daria certo. Seria até sacanagem da minha parte.

Sim, eu estava muito puta, mas era uma questão de humanidade naquele caso.

Abaixei a mão antes que ela tocasse a maçaneta e dei um passo para trás, soltando um suspiro longo e cansado.

Só então eu ouvi Daryl se mover no banheiro e ligar o chuveiro, era quase como se ele tivesse esperado pra ver se eu abriria a porta.

Deus! O que eu fiz pra merecer um homem desses? Resmunguei comigo mesma e a resposta veio clara como água: Deus não tinha nada a ver com aquilo, eu é que tinha insistido e me enfiado na vida do Daryl de todas as maneiras possíveis. No fundo, toda aquela confusão era minha culpa, apenas as consequências de uma garota de dezoito anos que não aceitou um "não" como resposta.

E era esse o ponto, eu e Daryl não podíamos continuar naquele pé de guerra, não era saudável, nem para nós dois e principalmente para o Petter, eu não podia permitir que que meu filho crescesse em um ambiente em que cada encontro dos pais se transformasse em uma briga.

Eu tinha pulado de cabeça naquela situação quando era mais nova, então era minha responsabilidade sair dela. Já estava mais que na hora de colocar um ponto final naquela coisa de Bochechas e Baby Dix, e aceitar o fato de que eu e Daryl não funcionávamos como um par, mas ainda assim tínhamos que funcionar como pais.

Era tudo sobre o Petter. Era tudo pelo Petter.

Suspirei novamente e caminhei pelo corredor até o quarto de Daryl, a porta do cômodo estava aberta, por isso eu não hesitei em entrar. O lugar me pareceu um tanto impessoal, e eu me perguntei se isso era coisa do apocalipse, ou coisa de Daryl Dixon.

E ali estava mais uma prova de que eu tinha forçado toda uma situação em Dawsonville. Eu arrastei Daryl para minha vida, pra minha casa, para o meu corpo. E sequer ganhei o direito de entrar no quarto dele... E eu podia dizer o mesmo sobre o coração dele.

Me sentei no parapeito da janela e deixei meus ombros caírem. Pela primeira vez em todos aqueles anos eu realmente questionei: o que eu tinha feito da minha vida?

Eu tive tantos avisos e ignorei todos eles. Meu pai, Shannon, e até o próprio Daryl... todos eles me disseram onde eu acabaria se continuasse naquele caminho.

Sempre pensei em mim mesma como alguém muito segura de si, que sabia o que estava fazendo, mas olhando todo o meu passado naquele momento, percebi que minha vida inteira tinha sido uma sucessão de decisões erradas quando se tratava de Daryl Dixon.

Eu precisava parar com aquilo antes de magoar meu filho ainda mais. Petter tinha direito a ter um pai e uma mãe e eu tinha o dever de manter o ambiente neutro para dar essa chance a ele.

Ouvi a porta do banheiro ser aberta e prendi a respiração. Daryl entrou no quarto segundos depois. Percebi pelo olhar que recebi, que ele não me esperava ali.

— Eu disse que você podia ir embora... — Cruzou os braços perto da porta, deixando a passagem livre pra mim.

Seu cabelo estava molhado do banho recém tomado e só então eu me dei conta de que aquele comprimento dos fios ficava bem nele. Combinava perfeitamente com o ar selvagem que Daryl tinha.

— E eu disse que não deixo mais você decidir o que eu tenho que fazer. — Dei de ombros, em um tom neutro e cansado.

— O que você quer, Natalie? — Daryl perguntou diretamente.

Ele também estava exausto, aquela nossa realidade já era cansativa o bastante, nenhum dos dois precisava de uma guerra emocional.

— Eu não quero brigar, só quero conversar... — Respondi o mais calma que aquela situação permitia. — É um assunto sério, será que você pode me ouvir?

Daryl desviou os olhos e levou o polegar direito aos lábios, roendo o canto da unha antes de sair do quarto por alguns segundos. Pelo som de seus passos percebi que ele estava no quarto da pequena Judith, mas não demorou por lá, em segundos estava de volta no mesmo cômodo que eu e fechou a porta assim que entrou.

É agora Natalie, verdades e desafios, tudo junto, não dá pra adiar mais.

Minha mente estava decidida, mas meu corpo não respondeu, minhas pernas não se moveram para que eu me levantasse, minha garganta estava fechada como se houvesse um nó nela.

Como se começa um assunto desses?

— Precisa de um convite formal pra falar? — Daryl soou impaciente.

Meu coração estava disparado e minhas mãos suavam, senti que eu só queria sentar naquele chão e chorar até não ter mais lágrimas, mas nem isso eu podia fazer.

É pelo Petter, é pelo Petter... repeti mentalmente várias vezes.

— Você lembra da pergunta que me fez ontem à noite? Sobre o colar de asas, e o motivo de estar no pescoço do Petter? — Comecei e senti que minha voz tremer, mas continuei mesmo assim: — Bom... ele estava usando o colar porque...

Daryl me interrompeu abrindo a porta tão repentinamente que eu pensei que Judith tinha chorado e eu não tinha ouvido.

— Eu não quero ouvir você, Natalie, eu preciso que saía... — A voz dele saiu estrangulada, Daryl sequer olhou nos meus olhos.

Sua mão segurava a maçaneta com tanta força que eu podia ver os nós dos seus dedos ficarem brancos.

Luka estava certa. Finalmente me levantei, caminhando até Daryl como se fosse sair, mas colocando a mão sobre a dele para fechar a porta novamente.

— Você sabe... — Afirmei neutra, reparando que ele tremia e estava gelado como se estivéssemos em uma manhã de inverno, mesmo que estivesse Sol forte do lado de fora. — Você sabia e mesmo assim me mandou embora... Por quê?

Não levantei meu tom de voz, e sequer o alterei, continuei tentando manter a calma. Mas Daryl não fez o mesmo, pelo contrário, ele se afastou de mim com violência, andando de um lado para o outro, voltando na minha direção e gesticulando amplamente quanto falava:

— Por quê?! Sério? Acha mesmo que tem direito de me perguntar por quê? Eu devia perguntar por quê? Dez anos de por quês... Mas eu não preciso perguntar, eu sei seus motivos. — Daryl beirava o descontrole e eu nunca o tinha visto tão abalado daquela forma. — Agora você acha que pode entrar aqui e me pedir alguma coisa? Depois de dez anos?!

O impedi de continuar andando e falando, quando me coloquei em sua frente e pousei minha mãe direita em seu peitoral

— Por favor, Daryl. Você vai acordar a Judith. — Tentei conseguir um pouco de calma dele. — Eu não vim aqui pra brigar com você.

O coração de Daryl batia tão descontrolado que era quase como se a pulsação dele estivesse correndo pelas minhas veias. Ele se esquivou de mim novamente, afastando minha mão com um movimento brusco e voltando a andar de um lado para o outro.

—Você queria me manter longe da sua família perfeita, não é? — Jogou em um tom sarcástico que não combinava com ele, mas manteve a voz mais baixa daquela vez. — Bom eu só estava respeitando sua vontade e te deixando ir pra bem longe de mim!

Claro que Daryl tinha tirado as conclusões erradas...

Tentei me manter neutra, mas era complicado lembrar que eu estava ali apenas como mãe do Petter, quando tudo que eu queria era abraçar aquele homem e dizer que tudo ficaria bem.

Ver Daryl descontrolado daquela forma, como se ele estivesse enfrentando todos os gatilhos do seu passado de uma vez só, despertava coisas em mim... Aquela Natalie de Dawsonville ainda estava viva, era complicado lutar contra o instinto de tentar salvar Daryl dele mesmo.

Isso é sobre o Petter. Não sobre o Daryl... Lembrei a mim mesma.

— Isso é o que você acha que eu estava fazendo? — Cruzei os braços e me mantive calma, brigar com ele naquele estado não ajudaria em nada, mas eu precisava dizer algumas verdades mesmo assim. — Você não se lembra, não é? Não lembra do que me disse antes de virar as costas e se enfiar no mato como você sempre faz.

Daryl parou, suas sobrancelhas franziram o bastante pra que eu soubesse que ele não lembrava.

— Você disse que não queria uma família. Você disse que não queria um filho. E que nunca poderia ser um pai... — Tentei não deixar a amargura que aquela lembrança me trazia vazar pelas minhas palavras. — Foi por isso que eu parti, porque eu não podia ficar em Dawsonville carregando o seu maior pesadelo na minha barriga.

Não deu muito certo, era impossível reviver aquela cena sem sentir a dor toda outra vez. Meus olhos marejaram, então eu os fechei pra impedir as lágrimas, eu precisava sair do passado antes de me afogar nele.

Tudo que eu queria era uma família com você... — Eu tive que dizer ao menos aquilo, quando na verdade eu queria dizer bem mais. — Mas isso não importa agora. Toda a magoa que eu guardei, tudo que passou... Nada disso importa mais.

Abri os olhos e encarei Daryl, eu precisava que ele entendesse o quanto aquilo era sério.

Ele sequer se movia, o que era fora do comum, então eu aproveitei aquela quietude pra dizer o que realmente importava:

— Eu cometi muitos erros, dez anos de erros. Eu gostaria de ter uma desculpa melhor pra minha omissão, mas eu não tenho... Você pode me culpar, é minha culpa mesmo. Mas não faça o Petter pagar por isso. — Pedi, tentando afastar qualquer outra emoção que não dissesse respeito ao meu filho.

Daryl passou a mão pelo rosto, deu um passo para trás e dois para o lado.

— Eu mal conheço o garoto, não tem nada que eu possa dar ou fazer por ele. Eu ainda sou o mesmo cara de Dawsonville! — Ele subiu um pouco o tom da voz. — O que você quer de mim, hãn?

— Isso não é sobre o que eu quero, Daryl... — Devolvi, tentando manter minha neutralidade. — Acha que eu quero estar aqui agora? No meio de uma guerra, enquanto um psicopata quer a minha cabeça? Acha que quero estar aqui tendo essa conversa com você em um momento desses? Eu não quero... Mas isso não é sobre mim, isso é sobre os meus filhos. E eu faria qualquer coisa por eles...

Nos encaramos por alguns segundos, até que Daryl se virou para a janela e cruzou os braços. Ele estava com raiva, frustrado e assustado, eram três coisas que eu podia decifrar em seus olhos, mas eu sabia que havia mais.

— E eu sei que não é justo o que eu estou fazendo com você agora. Não é justo te puxar pra isso desse jeito. — Admiti caminhando para o outro lado do quarto. — Eu sei que não é o que você quer. Desde o começo você deixou muito claro que não me queria na sua vida. Mas eu continuei pressionando e tentando... Eu não soube a hora de desistir. Porque eu te amava tanto, e na minha cabeça eu podia te salvar de qualquer coisa... Mas eu não pude, a verdade é que eu só estraguei as coisas.

Daryl continuava virado para a janela, descruzou os braços e apoio no parapeito, ainda de costas para mim. Aproveitei que não estávamos cara a cara para dizer algo que me machucaria demais e que eu não seria capaz de disfarçar.

— Eu sei que você deve me odiar agora pelo que eu estou fazendo. Você tem todo o direito de me odiar, não me importo. Eu escondi isso de você por dez anos e agora estou jogando tudo no seu colo do dia pra noite, eu posso conviver com a sua raiva e com o seu ódio de mim, porque como eu já disse isso não é sobre mim, Daryl. Isso é sobre o Petter... — Permiti que algumas lágrimas rolassem, mas não deixei que minha voz denunciasse isso. — Isso é sobre um garotinho que pensa que o pai dele é um herói, e que sonha em conhecer esse homem desde sempre... Isso é sobre um menino que está morrendo de medo de não ser amado pelo próprio pai.

Minha garganta travou, a possibilidade de tudo aquilo dar errado e eu acabar falhando com Petter destruiu meu coração em mil pedaços. Eu não suportaria decepcionar o meu filho.

Sequei as lágrimas e tentei me recompor.

— Então você pode me culpar e me odiar, tudo bem. Nossa história acabou, nós não precisamos ser nada um do outro, Daryl, nem amigos, mas ainda seremos os pais do Petter. E isso nenhum de nós pode mudar. Você é o pai dele. — Dei ênfase na última frase e prossegui: — Isso vai ser assustador, estranho e muito, muito difícil. Talvez seja tudo que você não queria na sua vida. Mas eu estou pedindo, não... — Corrigi rapidamente. — Eu estou implorando. Dê uma chance pra ele, só uma. Só tenta, Daryl, por favor.

Os ombros dele tremeram descontroladamente e eu ouvi o som de um soluço reprimido. Eu sabia que era demais para o Daryl, era quase injusto da minha parte dar aquele tipo de ultimado nele, forçar todos os limites daquele jeito.

Se era doloroso pra mim, devia ser mil vezes pior pra ele. Eu entendia isso. Mas se eu tinha que escolher um lado naquele momento, eu escolhia o do Petter.

— Sei que é muito pra processar e que você precisa de um tempo, então vou deixar você sozinho. — Caminhei para a porta e girei a maçaneta. — Mas pensa no que eu falei, 'tá bom? E quando você estiver pronto, o Petter vai estar esperando por você...

Saí sem fechar a porta. A verdade é que eu quase corri escada abaixo antes que minhas pernas me traíssem.

Quando deixei a casa dos Grimes tive que fingir que estava tudo bem, segurar qualquer emoção ou lágrima para que ninguém passando na rua pudesse ver, mas a verdade é que eu só queria sentar e chorar.

Então eu aproveitei a primeira oportunidade pra pular o muro e corri, simplesmente corri, para longe o bastante onde eu pudesse chorar e gritar por pelo menos cinco minutos.

Simplesmente desabei na grama, sentindo que meus pulmões não tinham mais ar, e que meu coração estava tão despedaçado que mal bombeava sangue para o meu corpo.

Dali a cinco minutos eu levantaria, secaria as lágrimas e voltaria para Alexandria, seria a mãe forte que meus filhos mereciam que eu fosse. Seria a fortaleza que eu tinha que ser. Mas eu realmente precisava daqueles tempo para colocar todo o meu desespero pra fora

E no meio daqueles cinco minutos eu não pedi a Deus mais força, eu não pedi que a guerra fosse ganha, ou que Negan pagasse, não rezei para que o mundo voltasse a ser como era, não desejei minha própria felicidade, eu simplesmente supliquei ao Senhor que Daryl não decepcionasse o meu filho. Nosso filho.

Notas finais
Queria que a Natalie fosse minha mãe, tenho muito orgulho desse mulherão da porra que ela é. E ao passo que as coisas caminham aos poucos para a guerra, Natalie e as crianças vão se adaptando a comunidade. Finalmente tivemos a conversa definitiva sobre a paternidade do Petter, e agora resta ao Daryl tomar a decisão final e é claro que isso acontece no próximo que é narrado por ele. Eu fechei o arco de omissão nesse, então as coisas fluem melhor a partir do próximo. (que, SPOILER, é um capitulo que eu quero MUITO escrever). Nos vemos assim que possível! Bjs e até!