Notas iniciais
Oiee!! Bom Dia!!! Sim, como algumas de vocês já sabem, e como está escrito no titulo estamos em Hiatus (desde a semana passada já), eu estou com alguns problemas pessoas e por isso coloquei todas as minhas fics em pausa. Mas, antes que vocês fiquem tristes, esse Hiatus não significa que eu vou desistir ou abandonar as fics, e nem que as postagens vão parar de vez (tanto é que estou postando agora), enquanto as fics estiverem em Hiatus quer dizer apenas que eu não tenho data certa pra postar e que pode demorar mais que o normal (é um jeito que eu encontrei de me cobrar um pouco menos sobre isso, enquanto estou com esses problemas), tem um textinho no meu perfil explicando tudo bem certinho, pra que não fique nenhuma dúvida ou mal entendido. Enquanto isso eu só posso agradecer a todo apoio e carinho de vocês, sei que eu sempre agradeço os comentários, mas em tempos como esse eles se tornam ainda mais especiais pra mim, porque realmente colocam um sorriso no meu rosto nesse momento complicado que eu estou vivendo, então obrigada de verdade! Vocês são as melhores!!! Agora, sem mais demora, vamos ver como está a cabecinha da Natalie depois daquele beijo do capitulo passado, neh? Boa leitura!

• NATALIE COOPER •

Algumas pessoas dizem que o que compensa na vida não os pequenos momentos de felicidade e, por muito tempo, eu acreditei nisso... Os problemas, a dor, a dificuldade e todo o resto eram apenas etapas que podiam ser superadas com uma pequena dose de felicidade.

Era o bastante ou, ao menos, devia ser...

— Você está bem? — Daryl questionou, tirando os olhos da estrada e focando em mim.

Estavamos voltando para Alexandria, depois de uma noite inteira no meu antigo apartamento.

Petter, que seguia sentado no meio de nós dois, também voltou os olhos para mim, esperando por uma resposta.

Eles estavam felizes, os dois estavam. Não era difícil entender aquele sentimento vindo do meu filho, quer dizer, ele tinha um cachorro, o pai e minha pequena aventura com os mortos tinha acabado de forma calma. Tudo estava indo bem.

Ele acordou pela manhã e eu e Daryl estávamos deitados com ele. Claro que estava feliz, aquilo era tudo que meu filho sempre quis.

No entanto, em Daryl aquela coisa de felicidade era nova pra mim, mas ficava muito bem nele, era algo discreto, nada de sorrisos abertos ou euforia, como em Petter. Daryl Dixon era mais sutil que isso. A felicidade estava nos olhos, na postura mais leve e na falta das linhas de expressão no rosto relaxado.

Ele estava feliz e eu sabia que a noite passada tinha tudo a ver com isso. E, exatamente por esse motivo, eu me sentia tão mal por não estar feliz também...

Todavia, não cabia a mim destruir aquele clima, então apenas assenti algumas vezes e sorri.

— É só uma dor de cabeça chata. — Fiz um movimento displicente com a mão, como se não fosse nada.

— Eu avisei sobre aquela garrafa... — Daryl respondeu bem-humorado e me limitei a sorrir.

Minha resposta não era inteiramente mentira, eu estava mesmo com dor de cabeça, e talvez tivesse a ver com o álcool da noite anterior, mas também era mais que isso...

Eu tinha passado outra noite em claro, meia hora de sono ou nem isso, e depois tudo que me cabeça conseguiu fazer foi enumerar todos os motivos pelos quais aquele "momento" com Daryl tinha sido estupidez da minha parte.

Esse era o real motivo da minha incapacidade de compartilhar da felicidade de Daryl e Petter. Eu estava preocupada, preocupada com todas as implicações que aquela reaproximação traria. Preocupada com a guerra. Preocupada com a minha família. Preocupada com a vingança de Negan...

Minha mente era um amontoado de problemas e dilemas que eu não conseguia deixar de lado...

— Estaremos em Alexandria logo. — Daryl avisou e eu assenti, agradecendo internamente quando Petter iniciou um assunto qualquer e capturou toda a atenção na caminhonete.

Olhei pelo retrovisor, e Bolt tinha a cara para fora da caçamba, a língua enorme balançando no vento. Ele também estava feliz...

Era como se todos os meus sonhos estivessem se realizando, bem ali ao meu lado, mas eu estivesse presa em um pesadelo dentro da minha mente. Suspirei e encostei a cabeça no vidro.

Talvez o problema fosse que, embora uma parte de mim quisesse acreditar que tudo aquilo era real e duradouro, a outra parte, a mais consciente e lógica, estivesse apenas esperando as coisas desmoronarem de novo.

Era isso mesmo... Eu estava esperando que as coisas dessem errado, esperando que Negan destruísse tudo outra vez, esperando que Daryl desse dois passos pra trás...

Afinal, aquele beijo já tinha acontecido antes, não é? Eu já tinha imaginado que ele estava feliz antes. Mas essa felicidade não adiantou de nada, porque, quando as coisas começaram a dar errado Daryl não aguentou o tranco. Ele não aguentou a morte do meu pai e a sombra da responsabilidade que pairava sobre o nosso relacionamento.

E foi exatamente isso que acabou comigo de todas as formas possíveis. Há dez anos, quando Daryl me mandou embora, ele me quebrou, ele destruiu partes de mim que eu não tinha conseguido montar outra vez, mesmo depois de todo aquele tempo...

Sim, ele pediu desculpas, e sim isso era tudo que eu tinha desejado um dia, mas seria mentira dizer que aquele pedido de desculpas tinha apagado tudo. Eu queria que tivesse apagado, Deus sabe que eu queria...

Eu, mais do que ninguém, queria que aquele beijo fosse um recomeço, porque eu amava aquele homem, eu ainda o amava mesmo depois de tudo, mas todo esse amor não era o bastante pra apagar toda a dor.

A garota que eu fui por seis meses depois que deixei Dawsonville ainda me assombrava, eu não queria ser como ela outra vez, e eu sabia que Daryl Dixon tinha o poder de me fazer retroceder todo aquele caminho. Então eu tinha medo, era simples assim.

Eu o amava, verdadeira e profundamente, no entanto eu ainda tinha medo, um medo que não me deixava confiar plenamente, que me mantinha alerta, que ficava esperando o próximo desastre.

Queria confiar que Daryl agiria diferente, se as coisas ficassem ruins, queria acreditar que os mesmos erros jamais seriam cometidos, todavia eu não conseguia. Existia uma parte de mim que estava sempre com um pé atrás, e era essa parte que me impedia de desfrutar daquele momento de felicidade. E, por mais que parecesse uma solução tentadora, eu não podia afogar essa parte em doses cavalares de álcool toda a vez.

Ri de mim mesma por um segundo, e isso atraiu o olhar dos meus dois acompanhantes.

— Qual a graça, mãe? — Petter questionou, virando um pouco o corpo para o meu lado.

— Nada... — Desconversei. — É que já chegamos, só isso.

Apontei os portões de Alexandria, que surgiam no fim da rua.

Talvez Petter até tenha pensando em retrucar, mas a animação dele em mostrar o cachorro para a irmã, tirou seu foco de mim.

Quando os portões se abriram, percebi que havia um carro pronto para sair.

— Vocês estão bem? Estavamos indo atrás de vocês já. — Rick foi o primeiro a nos receber, trocando um cumprimento com Daryl, mas não tive tempo de focar nos dois, pois Luka já tinha descido do carro e vinha em passos rápidos na minha direção.

— Você disse até o fim do dia. — Ela falou, com os olhos marejados e eu a puxei pra perto de mim imediatamente.

— Eu sei. Eu sei. Me desculpa. Tivemos alguns imprevistos, mas estamos bem. — Tentei acalmá-la, sorrindo de modo apaziguador.

— Eu estava pronta pra ir atrás de vocês ontem mesmo, mas Rick não deixou. — O tom de Luka era quase uma reclamação, ela não gostava que mandassem nela, muito menos que a impedissem de fazer as coisas.

— Ele fez bem. — Afirmei de modo neutro. — Era perigoso e desnecessário.

Ouvimos alguém limpando a garganta próximo de nós e tivemos que nos virar, para então dar de cara com Petter, que parecia um tanto ofendido.

— Eu também estou ótimo. Obrigado por perguntar. — Ele cruzou os braços e ergueu o nariz.

— Fiquei preocupada com você também Gafanhoto. — Luka seguiu para abraçá-lo. — Nunca mais deixo me convencer a te ajudar em um dos seus planos...

— Ah, falando nisso... — Me lembrei, e encarei os dois. — Vocês dois estão encrencados, não pensem que eu esqueci.

— Viu o que você fez? — Petter murmurou para a irmã entredentes e então virou para mim. — Será que não dá pra esperar só um pouco, mãe? Tem alguém que quer conhecer a Luka primeiro.

Revirei os olhos e fiz um movimento displicente com a mão, ilustrando que os dois podiam ir.

Petter correu até a caminhonete e puxou a corda que servia de coleira para seu novo animal de estimação, que até aquele momento estava escondido na caçamba, junto com a carga.

— Esse é o Bolt, o novo membro da nossa família. — Sorriu, mostrando o animal que era apenas um amontoado de barro.

— Vem aqui, garoto, vem aqui. — Luka chamou, batendo as mãos nas pernas e sorrindo também. — Eu não acredito que você conseguiu convencer sua mãe a te deixar ficar com um cachorro!

Ela já havia se ajoelhado no chão para fazer festa para Bolt.

Realmente, a coisa do cachorro não tinha sido má ideia. Procurei Daryl com o olhar instintivamente e ele estava ali perto, olhando a cena também, embora conversasse com Rick.

— Na verdade foi o Daryl que convenceu ela. — Petter explicou e Luka ergueu os olhos um tanto surpresa.

— Caramba! Acho que vou começar a botar um pouco mais de fé em você. — Ela apontou para o Daryl que apenas negou algumas vezes.

— Exatamente, o seu pai deixou você trazer o Bolt, isso significa que vocês vão ter que decidir quem vai dar banho nele, eu estou fora. — Ergui minhas mãos em sinal de rendição e segui para a caminhonete onde Rick e Daryl estavam, e onde alguns membros do grupo já descarregavam as coisas que tínhamos trazido.

— Eu estou ocupado. — Daryl tentou se defender quando eu me aproximei.

— Devia ter pensando nisso antes de adotar um cachorro gigante... — Dei de ombros em um tom divertido.

Rick riu, mas se calou imediatamente quando recebeu um olhar de Daryl, então ergueu as mãos em sinal de rendição e se afastou para ajudar com a carga.

As crianças ainda estavam focadas no cachorro, principalmente porque Enid e Carl haviam se unido a eles. Daryl continuou observando por um tempo, ele tinha aquele olhar deslumbrado nos olhos, e isso eu conseguia entender, afinal Bolt estava ali por causa dele, e as crianças estavam felizes por isso. Não havia sensação melhor.

Depois de algum tempo, a mulher chamada Carol chegou e o foco de Daryl mudou para ela, me afastei deles e foquei no trabalho que acontecia ao meu redor.

Então era isso, estávamos bem. Mas por que eu não me sentia bem?

Eu podia culpar a guerra, mas a verdade é que eu não estava envolvida de verdade naquele assunto, não como os outros, todos os outros. Era como se eu estivesse fora disso, assistindo as pessoas se esforçando e tendo esperanças, mas sabendo que não havia qualquer chance.

Talvez fosse isso, talvez fosse a minha certeza que as coisas não podiam dar certo... Era estranho, eu nunca fui uma pessoa pessimista, perdi meu otimismo exagerado aos dezoito, mas mantive um realismo bastante colorido por grande parte da vida, e naquele momento não havia nada. Era como se uma parte de mim estivesse em constante alerta, apenas esperando tudo desmoronar e eu não sabia como viver assim...

— Você faz bem pra ele. — Rick declarou, caminhando ao meu lado, enquanto carregávamos alguns materiais.

Franzi as sobrancelhas sem entender bem, eu estava muito longe, e era como se Rick estivesse falando há algum tempo e eu tivesse perdido o fio da meada.

— Para o Daryl... — Ele completou e eu segui seus olhos até a figura do caçador.

Ele e Carol estavam perto das crianças, provavelmente falando do cachorro. Daryl não sorria, mas ele não precisava, eu podia ver um tipo de felicidade brilhando nos olhos dele e sabia que Rick também podia.

— Não sou eu, é o Petter ele tem esse efeito nas pessoas... — Dei de ombros.

Eu não queria falar daquilo, porque, na verdade, eu ainda não sabia muito bem como encarar o que tinha acontecido nas últimas horas.

Minha evasiva acabou fazendo Rick assentir e depois se afastar de mim, como se ele percebesse que eu precisava de algum espaço.

Tentei focar no trabalho o resto do dia, metida em qualquer coisa que pudesse me ocupar, como se isso fosse capaz de me forçar a fazer parte daquela guerra e a acreditar nela. Mesmo que uma parte de mim ainda achasse que o melhor seria pegar o máximo de coisas que conseguíssemos e partir enquanto ainda havia chances.

Mas os planos continuavam, mesmo sem minha empolgação. Luka continuou montando os carros, com muito mais ajuda daquela vez, enquanto o resto do pessoal se preparava para o início de tudo.

O primeiro grupo sairia na manhã seguinte, iriam captar errantes e acabar com os primeiros vigias individuais de Negan, o grupo principal iria no outro dia, comandado por Rick, estariam todos na frente das portas do Santuário. Era nesse grupo que eu estava...

Só de pensar nisso um arrepio gelado correu pela minha coluna, estar no Santuário novamente fazia todo meu corpo reagir com pavor, era incontrolável.

Uma parte de mim queria ficar em Alexandria, onde Carl estaria no controle das coisas, já que Michonne e Rosita ainda estavam de repouso, e onde Petter ficaria... Mas eu sabia que não era justo, afinal todas as pessoas que podiam lutar estavam partindo, sem exceção, e isso incluía Luka.

Passei as mãos pelo rosto e suspirei, ela estava lutando por algo nobre enquanto eu queria fugir, que tipo de mãe covarde eu era?

— Você está bem, Natalie? — Rick parou do meu lado e examinou meu rosto com preocupação.

— Claro. Claro. — Respondi rapidamente, enquanto tentava voltar para a minha tarefa.

— Você descansou desde que você voltou? — Ele voltou a perguntar, se colocando na minha frente para que eu não passasse.

— Eu estou bem... — Fiz um movimento displicente com a mão direita, como se não fosse nada demais e tentei passar por ele novamente.

— Não foi o que eu perguntei. — Rick deu um sorriso compassivo. — Vá descansar, já chega por hoje.

Pensei em negar, mas a verdade é que eu estava exausta, aquelas noites mal dormidas estavam finalmente pesando.

Apenas assenti e estava pronta para seguir meu rumo quando Rick me chamou:

— Natalie? — Me virei para encará-lo. — Vai dar certo.

Concordei com um aceno de cabeça, apenas para dar o assunto como encerrado, a verdade é que eu não acreditava que daria certo, mas discutir sobre isso com Rick não nos levaria a lugar algum.

Quando cheguei em casa não encontrei ninguém. Luka certamente estava trabalhando nos carros, enquanto Petter devia estar colado no pai.

Suspirei e subi as escadas, tecnicamente estar sozinha em casa devia ser bom para o meu objetivo de descansar um pouco, mas a verdade é que estar perto dos meus filhos, na maior parte das vezes, distraia minha mente.

Resolvi tomar um banho e dormir um pouco, ou ao menos tentar, mesmo que ao deitar na cama eu só tenha conseguido encarar o teto por um longo tempo, enquanto minha cabeça era incapaz de desligar de todas aquelas preocupações e medos.

No entanto, meu corpo estava no limite, e a exaustão acabou me vencendo...

Então eu não estava mais na minha cama, eu estava na floresta, estava escuro, as sombras das árvores se transformavam em sombras humanas, enquanto um som aterrorizante se propagava pelo ar. Um assobio... O assobio dele.

Negan.

Tentei fugir, mas era como se eu estivesse em um labirinto sem saída que me fazia correr em círculos, e aquele som perturbador me perseguia, como se viesse de toda a parte.

Eu podia sentir meu próprio coração batendo disparado, meus pulmões implorando por ar e minhas pernas tremerem, eu podia até mesmo sentir o suor gelado escorrendo pela minha testa e as minhas unhas cravadas em minhas palmas de tão forte que meus punhos estavam cerrados.

As sombras pareciam se aproximar de mim, vindas de todos os lados, tornando o ambiente claustrofóbico, como se as paredes do labirinto se fechassem ao meu redor.

Até que tudo ficou escuro, não havia som, não havia labirinto, não havia nada, apenas o barulho da minha própria respiração ofegante, quando de repente, faróis altos de carro se acenderam por toda a parte, me deixando cega por um segundo.

Demorei um tempo para recuperar a visão, e distinguir as figuras à minha frente: Daryl, Luka e Petter.

Estavam ajoelhados. A expressão de puro pavor nos olhos dos meus filhos também me apavorou. Uma urgência aterrorizante tomou conta de mim.

Tentei correr até eles, mas era como se o meu corpo se movesse em câmera lenta e nunca saísse do lugar, foi quando uma quarta sombra apareceu, imponente, maior que as outras, vinha acompanhada de uma risada debochada que eu conhecia muito bem.

Negan...

Ele começou a entoar uma canção infantil, uni-duni-tê, mas não era sobre escolher um deles, era sobre atingir os três, a cada silaba o taco de basebol caia sobre a cabeça de uma das pessoas que eu amava.

Meus joelhos cederam, meus olhos nublaram. Era real. Tudo era real, eu podia sentir o cheiro de sangue, eu podia sentir o gosto das minhas lagrimas. Audição, tato, olfato, paladar, visão. Todos os meus cinco sentidos diziam que era real.

Daryl estava morto.

Luka estava morta.

Petter... Eu podia ver o sangue do meu menininho espirar cada vez que o taco atingia seu corpo já inerte.

Tentei gritar, mas nenhum som foi emitido da minha garganta, era como se eu estivesse paralisada, meu corpo não se movia, o cheiro de sangue estava impregnado nas minhas narinas.

Com uma lentidão angustiante Negan se aproximou de mim, me puxou pelo braço, tocou meu rosto.

— Eu disse que você era minha, Coração. — Sussurrou no meu ouvido, acariciando minhas bochechas.

A vontade de vomitar foi real, a dor foi real e o medo, esse era definitivamente real...

Abri os olhos ao mesmo tempo em jogava meu corpo para frente. Minha respiração ofegante não se acalmou, mesmo quando eu me dei conta que eu estava no meu quarto em Alexandria.

Passei a mão pelo suor no meu rosto e me coloquei de pé imediatamente, descendo as escadas ainda descalça enquanto chamava por Petter e Luka.

Não havia ninguém em casa, e um tipo de pavor paralisante e irracional se apossou do meu corpo, me impedindo de pensar com clareza e misturando sonho com realidade.

Foi nesse momento que a porta se abriu, e Petter entrou na casa com a naturalidade infantil de sempre. Um suspiro de profundo alivio escapou da minha garganta, enquanto eu cruzava a sala para abraça-lo sem aviso.

— Mãe, você está me esmagando! — Ele protestou, batendo sutilmente no meu braço.

— Desculpe... — Voltei a mim. — Eu estava com saudades, só isso.

Petter me olhou meio desconfiado, mas deu de ombros.

— Por que você está todo molhado? — Questionei, quando me dei conta daquele fato, encarando meu filho da cabeça aos pés.

Ele não estava apenas encharcado, estava imundo, cheio de barro e fedendo.

— Eu e o Daryl demos banho no Bolt. — Apontou o cachorro perfeitamente limpo na varanda.

Sorri, não só pela visão do lindo husky siberiano de pelagem clara, paradinho ali, mas para a imagem mental que fiz de Petter e Daryl dando banho nele. Aquilo seria algo que eu teria gostado de ver.

Me dei conta que o meu pesadelo estúpido era só isso, apenas um pesadelo, e que as coisas ainda estavam bem no mundo real. Abri passagem para que Petter e o cachorro pudessem finalmente entrar em casa.

— Acho que agora é você que precisa de um banho. — Apontei o topo a escada e Petter riu.

Ele estava prestes a subir os degraus, quando eu me dei conta que precisávamos ter uma conversa importante.

— Petter? — Chamei, e ele soube imediatamente que era sério, afinal eu nunca o chamava pelo nome, era sempre "filho" ou "Pequeno Gafanhoto".

Ele voltou a descer as escadas e nos sentamos no sofá.

— Você sabe que eu, Luka e seu pai não estaremos aqui nos próximos dias, não é? — Questionei, tentando manter minha voz calma e controlada.

— Sei sim, vocês vão lutar contra os Salvadores e se algo ruim acontecer eu tenho que ficar perto do Carl, da Judith e da Michonne. — Respondeu totalmente senhor de si.

Franzi as sobrancelhas, porque eu não tinha dito nada daquilo para ele.

— Daryl disse que eles são confiáveis. — Petter completou, e eu entendi de onde tinha vindo aquilo.

Daryl também estava preocupado, ele devia ter conversado com Petter durante a tarde. Foi estranho perceber que eu não era mais a única me esforçando para manter o meu filho seguro.

— Exatamente... — Assenti algumas vezes, mesmo sabendo que eu não teria feito as coisas exatamente daquele jeito. Ainda estranho confiar em desconhecidos, mas se Daryl confiava, então eu aceitaria isso. — Olha, enquanto estivermos fora, não saí da comunidade, a menos que haja invasores aqui dentro, entendeu?

Petter concordou novamente.

— Nesse caso eu me escondo na floresta e espero você me encontrar. Eu sei mãe. — Ele repetiu instruções que eu costumava dar em Sherwood. — Eu vou ficar bem. Sei como me virar.

Tentei passar alguma segurança quando movi a cabeça positivamente, mas tive que abraçá-lo, porque na verdade, diferente de Sherwood eu não sentia segurança nenhuma daquela vez.

— Isso mesmo. Vai dar tudo certo. — Tentei ser otimista. — Agora vai tomar banho, você está fedendo a cachorro molhado.

Petter riu, e simplesmente subiu as escadas correndo, enquanto eu ainda fiquei ali sentada, encarando o nada.

E se meu pesadelo se tornasse realidade?

E se Negan nunca pudesse ser vencido?

Todas aquelas pessoas lutando pelo mesmo objetivo não me davam nenhuma segurança. O problema de Negan com eles era puramente de ocasião, não era pessoal, e eu sabia disso, eram apenas negócios... mas comigo a coisa era diferente. E era exatamente esse o problema.

Suspirei, deixando meus ombros caírem de preocupação, e foi nesse instante que Bolt colocou a cabeça sobre meus joelhos, apenas a mantendo apoiada ali por um tempo, enquanto olhava pra mim. Emitiu um choro baixinho, como se compartilhasse das minhas preocupações e eu lhe acariciei.

— Parece que somos os únicos preocupados aqui, não é amigo? — Ele balançou o rabo peludo, enquanto me ouvia falar. — Conto com você pra manter as coisas em ordem até eu voltar, certo?

Continuei ali, conversando com um cachorro como se ele realmente pudesse me entender até que Petter saiu do banho e eu resolvi dar uma volta por Alexandria e procurar algo em que eu pudesse ser útil.

Enquanto vagava pelas ruas do lugar, acabei encontrando Maggie, ela estava conferindo as armas e munições e eu fiquei ali para ajudá-la.

— Está preocupada com amanhã? — Questionei depois de algum tempo de trabalho.

— Não. Nós vamos vencer. Temos que vencer. — Ela soou confiante, mas senti que sua confiança era apoiada na raiva, ela não estava contabilizando os riscos.

Ninguém ali estava...

Quando mais eu conversava e analisava as pessoas, menos segura eu ficava, ninguém tinha pensando em um plano B, ninguém sequer havia cogitado que aquilo podia dar muito errado.

Estaríamos cutucando a onça com vara curta e essa "onça" revidaria com força total. Eu sabia disso.

Quando voltei para casa já era de noite, minha cabeça doía e meus ombros estavam pesados. Era como se aquelas horas de sono não tivessem valido de nada, apenas tinham servido pra aumentar ainda mais minha preocupação e deixar um sentimento de urgência e desespero batendo no meu coração.

Ao me aproximar de casa percebi que Luka estava do lado de fora, os cabelos molhados presos em um rabo de cavalo.

Não pude deixar de sorrir por vê-la bem, tendo a certeza que aquele sonho era apenas uma manifestação dos horrores que eu tinha vivido no santuário, que ainda estavam impregnados na minha mente.

— Vai sair? — Questionei e só então ela notou que eu me aproximava.

— Só uma última olhada nos carros com o Carl e a Enid... — Deu de ombros casualmente. — É meio que uma despedida, porque ele vai ficar, e ela vai com o grupo de Hilltop depois do Santuário.

— Você parece ter gostado deles. — Comentei, orgulhosa, já que me outros tempos, ver Luka se aproximar de estranhos era algo quase impossível.

Ela tinha levado meses pra se aproximar de Cindy e nunca percebi nas duas uma amizade verdadeira, mesmo quando o mundo caiu.

— São legais até... — Devolveu neutra e então focou os olhos em algum ponto da noite que se espalhava por Alexandria. — Benj gostaria deles, eu sei disso.

Então era isso, aquele garoto Benjamim tinha mesmo causado um grande impacto em Luka, um bom impacto belo visto.

— Você sente falta dele, não é? — Questionei, acariciando o braço de Luka em uma forma de apoio.

Nunca era fácil perder alguém que amávamos.

Ela não respondeu verbalmente, se limitou a assentir algumas vezes, e estava pronta para prosseguir quando eu a detive.

— Você consegue se imaginar morando aqui quando tudo isso acabar? — Perguntei. A verdade é que eu já vinha pensando nisso há algum tempo: em que lugar estaríamos depois de tudo terminasse? Se é que terminaria mesmo...

— Não sei... — Luka pareceu pensativa. — Acho que não importa onde vamos viver, desde que estejamos juntos.

— Você está certa. Como sempre. — Concordei orgulhosa. Não tinha como eu amar mais aquela menina. Ver o progresso dela era sempre inspirador.

Afinal se ela tinha vencido toda aquela dor e trauma, que eram, em muitos níveis, bem piores do que tudo que eu tinha vivido naqueles meses, eu também acabaria ficando bem.

— Além do mais, aqui é melhor para o Petter... e pra você. — Ela sugeriu, como se soubesse algo que eu não sabia.

— Pra mim? — Repeti um tanto confusa.

— Por causa do Daryl... — Luka foi direta, ela sempre era. — Ele não é tão ruim como eu imaginei, sabe?

Ela riu e eu acabei fazendo o mesmo, antes de vê-la ganhar as ruas sem precisar de uma resposta minha.

Tudo mundo que nos cercava parecia certo de que eu e Daryl éramos um par e por mais que meu coração amasse essa ideia, algo em minha mente ainda tinha problemas com ela.

Talvez todo esse dilema fosse exatamente o que Daryl vivia na época de Dawsonville...

Fazendo uma análise mental, enquanto eu entrava em casa, me dei conta que entendia melhor o Daryl naquele momento do que o tinha entendido em toda a vida. Era como se nossos papeis estivessem trocados...

Aquela minha dificuldade de confiar e me entregar, por medo do que podia acontecer, era bastante parecida com as dificuldades de Daryl dez anos antes. Eram exatamente esses tipos de atitudes dele que eu mais tinha condenado no decorrer daquele tempo.

E então, lá estava eu fazendo exatamente a mesma coisa, sendo afastada de coisas que eu queria, por algo que para mim parecia impossível de superar, mas que aos olhos de qualquer outra pessoa pareceria besteira.

Foi a primeira vez naqueles últimos dias, que encarei a situação de um modo diferente e me pareceu injusto desistir de algo que eu queria por medo de me machucar depois.

A vida era sobre correr riscos, não era? Então, onde estava minha coragem de correr os meus?

Eu estava subindo a escada, ainda com os pensamentos longe, quando dei de cara com Daryl saindo do quarto de Petter.

— Oi... — Cumprimentei, um tanto surpresa por vê-lo ali àquela hora.

— Hey, você voltou... — Ele acenou meio sem-jeito e apontou para o quarto — Petter acabou de dormir...

Percebi que aquele comentário pareceu mais uma explicação e entendi que provavelmente Petter tinha arrastado o pai até ali.

— Você estava lendo o diário pra ele. — Apontei para a mão esquerda de Daryl, onde o objeto estava.

— Ele estava lendo pra mim, na verdade, e contando as coisas que ele lembra. — Deu de ombros, como se não soubesse bem como lidar com tudo aquilo.

Sorri enquanto assentia, era meio complicado não ficar encantada com aquele lado paterno do Daryl. Mesmo assim continuei caminhando para o meu quarto.

— A gente deu banho no cachorro essa tarde... — Daryl comentou, como se precisasse me deter, para que aquela conversa durasse mais.

— Eu sei, Petter falou. — Respondi neutra e parei na porta do quarto.

Nos encaramos por três segundos em completo silêncio, como se tivéssemos que dizer alguma coisa, mas não soubéssemos o quê.

— Então... — Comecei, me encostando no batente. — Pra quem não sabia como ser pai, você está se saindo melhor que a encomenda.

Daryl ficou visivelmente sem jeito, encarou os próprios pés, antes de andar de um lado para o outro.

— O garoto faz todo o trabalho. — Desconversou, como se Petter tivesse todo o mérito, e o fato de realmente estar se esforçando para ser um bom pai não contasse em nada.

Pelo visto, não importava quanto tempo passasse, Daryl ainda seria o cara que não daria valor as próprias virtudes...

— Você conversou com ele sobre as coisas que vão acontecer nos próximos dias, não é? — Questionei, mudando o meu centro de apoio para o outro pé.

— Não foi bem uma conversa... — Daryl pareceu assustado, ou envergonhado, eu não saberia dizer com certeza. — Olha, se eu passei do limite ou fiz algo errado eu...

— Não passou. — Interrompi imediatamente. — Você é o pai dele, Daryl, zelar pela segurança do seu filho, está totalmente dentro dos seus limites.

Ele assentiu devagar, como se ainda fosse estranho ouvir o que eu tinha acabado de dizer.

Ficamos ali nos encarando por mais um tempo e eu dei alguns passos para dentro do quarto.

— Eu tenho que ir amanhã cedo, tenho que fazer a minha parte. — Daryl me seguiu e achei estranho que ele estivesse me dando uma explicação.

— Eu sei. E também sei que você vai tomar cuidado. — Tentei não deixar que minha preocupação transparecesse.

— Claro. A gente prometeu, não é? — Ele parecia querer uma confirmação, como se precisasse ter certeza que a promessa da noite anterior ainda era válida.

Na verdade, não era algo que cabia a mim prometer, afinal eu não tinha controle sobre vida e morte, mas senti que se prometesse, talvez isso criasse alguma garantia... Eu sei, era um pensamento meio bobo.

Daryl deu alguns passos para dentro do quarto e tirou algo do bolso para me mostrar.

— Encontrei isso no diário, o que é? — Estendeu o objeto pequeno, de forma quadrada e metálico.

— Um pendrive. — Respondi neutra.

— Eu sei disso, não sou tão burro assim. — Daryl revirou os olhos e eu ri. — O que tem nele?

— Bom, eu pensei que te daria isso em uma realidade em que o mundo estivesse de pé... — Comecei com um meio sorriso. — Então, depois não tinha mais nenhuma chance de você ver o que tinha aí dentro, mas acho que aqui em Alexandria nem é tão difícil assim de achar um notebook, certo?

Eu me lembrava perfeitamente de ter montado aquele pendrive e das coisas que tinham lá. Bons tempos...

— Está dizendo que eu vou ter que pagar pra ver? — Questionou divertido e eu dei de ombros, uma ideia tinha passado pela minha mente.

— Estou dizendo que, talvez, a gente possa ver juntos quando voltarmos de toda essa bagunça... — Sugeri. Era tudo sobre garantias. Um jeito estúpido de cultivar esperanças de que nenhuma parte daquele meu pesadelo se realizasse. — Tem alguns vídeos bem legais aí.

Daryl estreitou os olhos e deu mais alguns passos na minha direção, eu recuei um pouco, nossa proximidade sempre nublava minha mente, colocava meu lado racional de lado...

Eu queria tentar, queria mesmo, queria dar uma chance para nós dois, mas ainda era uma luta constante contra os meus instintos de preservação.

— A gente prometeu não morrer, lembra? Por que mais incentivo que isso? — Soou um pouco preocupado e eu sorri calmamente.

— Acho que um pouco de garantia nunca é demais, não é? — Dei de ombros como se fosse apenas uma brincadeira e Daryl assentiu.

— Justo...

Ele guardou o pendrive de volta no bolso, mas manteve os olhos em mim, pensativo, perdido em algum lugar da própria mente, até que pareceu se decidir sobre alguma coisa.

— Nesse caso... — Deu mais alguns passos na minha direção e percebi que não havia mais para onde recuar, nossa proximidade era inevitável. — Quando voltarmos, depois de desvendarmos o mistério do pendrive, eu vou te dizer uma coisa, algo que eu já devia ter dito faz um tempo.

Engoli em seco, óbvio que eu sabia o que era, afinal seria impossível não saber quando Daryl estava me olhando daquele jeito tão transparente.

— E por que não diz agora? — Perguntei, mesmo temendo a resposta.

Era aquela velha história de flertar com o abismo. Eu sabia que o risco de me machucar depois era grande, mas de alguma forma, naquele momento, parecia valer a pena.

Parece que eu estaria sempre presa a velhos hábitos.

— Um pouco de incentivo nunca é demais, não é? — Daryl repetiu minhas palavras, e sorriu meio de canto.

Eu assenti algumas vezes, como se estivesse me dando por vencida e ele se afastou alguns passos.

— Eu vou indo agora... — Apontou a porta atrás de nós. — Tenho que sair bem cedo amanhã.

Por que você não fica? As palavras estavam na ponta da minha língua, mas eu não as disse, talvez fosse melhor se nós não complicássemos ainda mais as coisas.

Daryl parou na porta, e me encarou por alguns segundos, tinha um olhar tão intenso que fez minhas pernas ficarem bambas.

Será que eu era mesmo louca a ponto de desejar tanto algo que eu sabia que me machucaria cedo ou tarde?

— O que você está pensando, Daryl? — As palavras saíram dos meus lábios com um gosto de nostalgia que deixou o clima no quarto ainda mais denso.

Sim, eu era mesmo louca...

Daryl segurava a maçaneta no momento que eu perguntei em ao invés de deixar o quarto, ele fechou a porta.

Um milhão de borboletas alçaram voo dentro de mim, meus dedos formigaram e minhas pernas tremeram, enquanto ele cruzava a distância entre nós com passos que, naquela altura, me pareciam vagarosos, como se tudo se passasse em câmera lenta ao meu redor.

Apenas quando Daryl me puxou pela cintura e meu corpo se chocou contra o dele é que eu me dei conta que a câmera lenta tinha acontecido apenas na minha cabeça, porque os movimentos dele não tinham nada de lentos.

— Eu estava pensando nisso... — Respondeu com a voz um oitavo mais baixa e rouca, antes de capturar mais lábios em um beijo que nada tinha de calmo.

Paz. Foi isso que eu senti quando o beijo de Daryl calou todos os meus pensamentos e acendeu cada terminação nervosa do meu corpo. E sim, eu sei que paz é uma coisa estranha para encontrar no meio de um beijo tão frenético, mas enquanto o corpo de Daryl me prensava na parede atrás de nós e suas mãos passeavam pela pele do meu quadril, por baixo da minha blusa, tudo o zumbido que vinha povoando minha mente naqueles últimos dias, toda a preocupação que me rondava, toda a realidade terrível que nos cercava, tudo simplesmente sumiu, e isso, para mim, naquele momento, foi a perfeita definição de paz.

O desejo tomou as rédeas de todas as minhas ações, não havia vestígio da razão em meus movimentos.

Havia uma urgência notável em Daryl, no modo como ele me tocava, na forma que os lábios dele dominavam os meus, no aperto firme com o qual ele marcava meu corpo. E eu gostava daquilo, gostava do descontrole momentâneo ao qual nos entregávamos. Era algo novo, mesmo que nossa intimidade não fosse uma novidade.

Nossos corpos se conheciam, sabíamos do que cada um gostava e como gostava, porque era como se essa memória estivesse gravada em nossas células, mas, ao mesmo tempo, estávamos diferentes. Haviam marcas que não estavam lá antes, novas cicatrizes para que as pontas dos nossos dedos decorassem...

Eu não estava acostumada com Daryl assumindo o controle, não daquele jeito, e essa surpresa acendeu todo meu corpo.

Minha blusa voou para algum lugar e, a boca dele no meu pescoço fez minhas pernas vacilarem, mas não importou, porque eu estava segura nos braços de Daryl, de modo que meus pés mal tocaram o chão, antes de que eu caísse na cama improvisada.

Existia algo de hipnótico na forma como os músculos de Daryl se moviam, então eu apreciei cada segundo daquela visão, enquanto ele tirava a camisa, já ajoelhado na minha frente, e se movia na minha direção, bem devagar, quase como um felino espreitando sua presa.

Os lábios dele tocaram minha barriga e eu fechei os olhos para desfrutar da sensação, mordendo os lábios para impedir qualquer som de sair por eles.

Senti os beijos subirem pelo meu corpo, deixando um rastro quente por onde passavam, até que nossos lábios se uniram de novo.

Éramos uma mistura de braços, pernas e caricias... Sem controle, sem pudor, apenas desejo.

Quando nos livramos do restante das roupas e nossos corpos, enfim, puderam se tocar sem nada entre eles, foi como se houvesse eletricidade correndo pelas minhas veias.

Daryl estava sobre mim, os olhos presos nos meus, a respiração fora de ritmo, sua mão esquerda segurando minha coxa contra o seu quadril.

Expectativa.

Um segundo, durou um milênio. Meu desejo era urgente e devastador, todas as partes de mim gritavam por ele.

E, quando finalmente aconteceu, quando nossos corpos se tornaram um só e ele me penetrou lenta e completamente, era como se nunca tivéssemos deixado de nos pertencer. Pareceu correto, éramos o encaixe perfeito...

Daryl escondeu o rosto no meu pescoço, deixando que o desejo ditasse o ritmo e a frequência de cada investida, e eu o acompanhei, como se seguisse suas ordens.

Eu me joguei no abismo, e foi como flutuar em direção ao céu e conquistar o paraíso.

Foi diferente e transformador, porque quando realmente tem significado, deixa de ser apenas sobre os corpos, deixa de ser sobre o prazer físico, é mais que isso... É diferente quando tem amor.

Rápido, intenso e desesperado, como se ele tivesse acumulado dez anos de desejo não realizado. E eu estava rendida, porque era como se aquele homem fosse a única coisa no mundo capaz de me fazer inteira outra vez. Não havia explicação e eu não precisei de uma.

E, no ápice do clímax, quando Daryl ergueu um pouco a cabeça, como se precisasse olhar nos meus olhos, eu soube que era diferente pra ele também, eu me senti única e especial. Tive a certeza que o que tínhamos, não teríamos com mais ninguém.

E eu desejei, com todas as minhas forças, que daquela vez o amor fosse o bastante pra nós dois... Que fosse o suficiente pra vencer todo o resto.

Descobri algo importante enquanto nós entregávamos um ao outro aquela noite: não importava quantos homens passassem pela minha vida, pela minha cama, pelo meu corpo, apenas com Daryl eu conseguia me sentir inteira, plena, viva.

Com qualquer outro seria apenas uma conexão física, um prazer momentâneo, com Daryl era mais, era como se nossas almas se completassem e se pertencessem...

Sei que soa brega, e místico demais para a vida real, mas suponho que algumas vezes certas coisas não possam ser explicadas sem que pareça um pouco irreal.

Quando nossos corpos se acalmaram, havia um cansaço gostoso nos meus músculos, e, quando me acomodei nos braços de Daryl, deitando em seu peito, eu me senti confortável como há muito tempo eu não me sentia.

Eu queria aquilo, aquela paz, aquele conforto, aquela calmaria sem preocupação, eu não queria voltar para o mundo real, para a guerra e morte, eu não queria viver com um pesadelo a me assombrar, na esperança que as coisas não piorassem ainda mais antes de se resolver.

— O que está pensando? — Daryl perguntou baixinho, vendo que meus olhos estavam perdidos em um ponto fictício do quarto.

Eu não respondi logo, passei um tempo apenas apreciando o carinho que ele fazia em mim, passando a ponta dos dedos na minha pele, como se desenhasse nelas. E eu acabei me perdendo em um sonho sedutor, onde tudo podia ser perfeito...

— A gente devia... ir embora. — Respirei fundo enquanto divagava.

— O que? — Ele devolveu bastante surpreso.

E eu amei cada parte da imagem que se formou em minha mente, era aquela a vida que eu queria, foi o que eu sempre quis.

— A gente devia pegar as crianças e o Bolt e voltar pra pedreira, nada mais de Salvadores, nada mais de guerra, nada mais de Negan. Apenas nós e aquela pedreira, como devia ser desde o começo. — Apoiei meu queixo no peito dele antes de pedir. — Foge comigo, Daryl...

— Eu... Eu não posso fazer isso Natalie. — Ele respondeu quase de imediato, como se estivesse assustado com o que eu propus, desfazendo nosso contato de forma um tanto brusca e se sentando na cama. — Eles precisam de mim aqui, Rick precisa de mim aqui, Maggie precisa de mim. Eu devo isso a eles.

Me sentei também, puxando o lençol para cobrir minha nudez e o encarando por um minuto, ao mesmo tempo em que minha mente começava a acusar todas as pessoas que Daryl considerava prioridade antes de mim. Não foi pensado, foi automático.

Eu sabia que era um tanto egoísta, dada a nossa realidade, mas eu queria ser a prioridade pelo menos uma vez, eu queria estar acima dos traumas, dos amigos, da família... A lealdade de Daryl era linda e admirável, mas no fundo eu me senti ofendida, porque queria que ele fosse leal a mim em primeiro lugar.

— Além disso, você não faz ideia da dificuldade que seria atravessar o país, eu já fiz isso e nós mal sobrevivemos. — Daryl continuou argumentando, enquanto minha mente vagava para o passado. — A pedreira não é segura, foi por isso que saímos de lá.

Eu queria entender o argumento dele, mas a verdade é que a única coisa na qual eu consegui focar foi que aquela era a segunda vez que Daryl negava partir comigo.

Uma parte de mim entendia o argumento e a realidade, mas meu emocional machucado viu todas as feridas serem abertas outra vez.

— A pedreira foi só uma sugestão, podia ser qualquer outro lugar, longe o bastante pra ser seguro, um condomínio, um shopping, um apartamento como o meu... — Dei de ombros, me defendendo do argumento dele e lembrando que estar com ele no meu apartamento tinha me feito pensar que aquilo podia dar certo. — Podia ser até uma cabana se fosse com você e as crianças...

Neguei algumas vezes e me peguei com uma vontade absurda de chorar, eu nem sabia bem por que. Talvez fosse um tanto de decepção, porque até a minha capacidade de sonhar pareceu um crime aos olhos de Daryl.

— Mas eu entendi... — Assenti, tentado manter a sensatez, e não misturar passado e presente, realidade e sonho. — Vamos dormir, foi uma ideia estúpida.

Voltei a me deitar, encarando o teto depois que coloquei a cabeça no travesseiro. Era mesmo ridículo, Luka não queria ir, Daryl não queria ir, todos os meus medos e pesadelos não pesavam em nada. Eu tinha que manter meus pés no chão e minha cabeça focada na realidade e parar de sonhar como a garota de dezoito anos que eu não era mais.

— Não fique brava. Lá no fundo você deve saber que isso não é certo... — Daryl se deitou também, e tentou apaziguar as coisas.

Eu não tinha certeza de mais nada naquele momento. Arriscar a vida em uma guerra perdida, quando a maior parte da civilização nem existia mais, ainda era certo?

— Eu disse que já entendi, Daryl. Esquece. — Dei de ombros enquanto me virava.

Sim, talvez eu estivesse sendo um pouco irracional, talvez eu estivesse deixando as emoções tomarem conta de mim, mas era bem difícil evitar.

Tinha me magoado, me machucado, ou talvez só tivesse cutucado feridas que ainda doessem...

Daryl tinha as prioridades dele, eu tinha as minhas, talvez fosse drama demais da minha parte de ofender por isso. No entanto, quanto mais eu tentava pensar racionalmente, mais vontade eu tinha de chorar.

A verdade é que eu estava exausta de tudo aquilo, estava cansada de ser forte, se ser compreensiva, de procurar motivos lógicos que amenizassem a culpa de Daryl toda vez que ele me machucava.

Percebi que ele não voltou a se deitar, ao invés disso se colocou de pé e começou a vestir as roupas que tínhamos espalhado pelo chão.

— Onde você vai? — Questionei, vendo que ele evitava olhar pra mim.

— Eu tenho que me preparar pra amanhã... — respondeu sem me encarar.

Então era isso, uma simples discussão, se é que dava pra chamar aquilo de discussão e ele ia me virar as costas?

Pensei em dizer que se ele saísse por aquela porta era melhor que não olhasse para a minha cara de novo, porque eu estava farta de ver aquele homem indo embora, eu estava cansada de ver Daryl me deixando facilmente, como se eu não valesse nada.

Mas eu não disse nada, talvez fosse melhor daquele jeito, Daryl ainda estar ali pela manhã, faria Petter ter perguntas e esperanças com as quais eu não podia lidar.

A verdade é que eu e Daryl éramos uma bagunça muito grande, e aquela paz que ele me trazia era tão passageira quanto chuva de verão.

Então ele saiu, sem olhar pra trás, sem se despedir, e eu me lembrei de algo muito doloroso: não importava com quantos homens eu me envolvesse, apenas Daryl Dixon tinha aquele poder de me fazer questionar meu valor, de me fazer sentir usada, como se eu não fosse digna... Era o que eu tinha sentido há dez anos e voltei a sentir naquele momento.

No fim amar é dar ao outro uma arma carregada, torcendo que para que ele não dispare contra você. E infelizmente pra mim, Daryl Dixon tinha uma ótima mira e puxava o gatilho todas as vezes... E eu continuava lá, esperando que o próximo tiro não doesse tanto, na esperança que ele cansasse de brincar de roleta russa comigo e finalmente viesse tratar minhas feridas.

Notas finais
E o senhor Daryl Dixon sabe mesmo como levar uma garota ao céu e depois destruir os sonhos dela... Natalie está em um momento complicado, a presença do Negan e todos aqueles assuntos não resolvidos do passado estão realmente pesando no emocional dela, ela tenta ser forte e não desistir, mas todo mundo tem limites e os dela já forem ultrapassados faz tempo. Daryl não soube lidar com esse desejo dela de ir embora, e lidou com isso da pior forma possível, e a Natalie já estava insegura e magoada, a reação dele só piorou tudo. Nem dá pra escolher um lado nesse caso, porque nem foi uma briga de verdade, mas eu sou suspeita, porque entendo mais o lado da Natalie kkkkkkkkkkk Vamos esperar o Daryl pedir desculpas por ser um ogro neh? Mas entre mortos e feridos FINALMENTE ROLOU UM HOT NEH? UASHAUSHAUHS Daryl tirou a teia de aranha suhasuhs No proximo é chegada a hora da guerra começar, mas vamos voltar um pouquinho pra ver o anda acontecendo com um personagem que está meio sumido. O capitulo se chamara "Cavalo de Guerra", quem vocês acham que vai narrar? kkkkkkkkkk Nos vemos assim que possível! Obrigada pela paciência e pelo apoio Bjss!!!