Lifeline — Destiny Don't Give Up
24 Cavalo de Guerra
Notas iniciais
• KANE BENNET •
Paciência é uma virtude que todo jogador de xadrez tem que possuir e desenvolver. Não é à toa que jogos de xadrez demoram tanto...
Além da paciência, para executar cada coisa na hora certa, um jogador profissional de xadrez tem que ser um bom estrategista, afinal é a estratégia que dita o caminho que o jogo segue.
Oura habilidade importante é observação, mas eu diria que isso tem a ver com paciência também. Observar seu adversário e prever as jogadas dele é um grande trunfo e muitas vezes pode garantir a vitória.
E sim, eu falei de xadrez até agora, mas essas também são características necessárias para ser um bom golpista. Dá para aprender muito com um jogo...
Um golpista bom de verdade também tem outra característica, uma que desenvolvemos e aprimoramos a partir do bom e velho blefe, somos mentirosos natos, mas não é só isso, a mentira por si só não é grande coisa, a arte de verdade se chama manipulação.
A habilidade de manipular pessoas é o que separa um bom golpe de um golpe excelente... E eu sinto dizer que não sou exatamente um bom manipulador.
Eu sou paciente, sou observador, sou estrategista e sou um ótimo mentiroso, mas essa coisa de manipular pessoas não é bem minha praia, as vezes dá certo, as vezes não, então eu não me considero um mestre na arte de manipulação.
No entanto, compenso isso com outra coisa, uma coisa que poucos golpistas conseguem dominar, devido a sua natureza instável... Improviso.
Eu sei, parece um talento tosco, mas acredite improvisar já me tirou de boas enrascadas, inclusive na cadeia. Se eu sobrevivi a uma prisão lotada de criminosos, meses na solitária, um sistema judiciário corruptível e comprável, o que seriam alguns dias no quartinho do castigo do Santuário, certo?
Por esse motivo eu estava tranquilo, cedo ou tarde eu daria um jeito de reverter a situação, era só uma questão de tempo, paciência e oportunidade.
Nem mesmo a evidente movimentação do Santuário me deixou alarmado, era algo com as comunidades que Negan extorquia e honestamente isso não me interessava.
Claro que depois que ele matou nosso médico por algum problema interno do qual eu não estava totalmente ciente, fiquei um tanto preocupado... Eu tinha acabado de levar um tiro no ombro, um médico era meio que questão de urgência naquele momento.
Porém Negan mexeu seus pauzinhos e tirou um médico da manga, ou melhor ele sequestrou o coitado de uma das comunidades.
E não, eu não me importava com isso, o mundo sempre tinha sido dos mais espertos, as coisas continuavam desse jeito, pessoas eram passadas para trás, pessoas se ferravam o tempo todo, isso não me dizia respeito. Não era minha tarefa bancar o herói. Eu nunca quis isso.
Minha vontade de derrubar Negan não tinha exatamente a ver com a canalhice dele, era sobre o jogo, não sobre fazer a coisa certa.
Tudo bem que nos últimos meses tinha se tornado sobre Natalie. Era tudo sobre ela...
Na verdade, eu estava enfrentando um pequeno probleminha particular por causa disso, e não me refiro ao ombro ferrado que estava cicatrizando aos poucos... Sem Natalie ali, pela primeira vez eu me senti perdido, sem objetivo.
Havia uma guerra se formando e eu não me importava. Natalie estava bem longe naquele momento e por mais que isso me deixasse satisfeito, porque ela estava segura, era estranho, eu me sentia vazio.
Quando coloquei meus pés no santuário o jogo começou, era sobre derrubar Negan e esfregar isso na cara do meu irmão, fazê-lo ver que eu era melhor que ele. Chame de vingança se quiser...
Então meu irmão estava morto, e era sobre Natalie, sobre ganhar o jogo com ela, dominar o tabuleiro, eu a acrescentei nos meus planos e isso pareceu certo, o final perfeito.
Mas no fim, esse não era o plano dela e eu estava sozinho, livre do meu irmão, eu ainda podia derrubar Negan, mas de que valeria o esforço?
Eu não tinha um objetivo e isso era incômodo...
Vou começar saindo desse quartinho, depois eu penso em algo interessante.
O barulho da porta me tirou das minhas divagações e eu levei um segundo para me acostumar com a claridade que invadiu meu pequeno cubículo escuro.
— Você tem que trocar seus curativos... — Tony declarou um tanto entediado.
Pelo visto ele finalmente tinha conseguido um posto melhor que a cozinha.
— E mandaram você pra me buscar? — Tive que me esforçar um pouco para ficar de pé, o ombro doía pra caramba ainda.
Espero que a perna da Natalie esteja bem melhor que isso...
— Está reclamando porque eu não sou nenhum dos brutamontes peludos e sem educação? — Tony jogou com um leve toque de humor.
Tínhamos um relacionamento amigável, eu não era escroto com ele como os outros e meio que conquistei a confiança do cara, ou vai ver ele só tivesse medo que o segredinho dele vazasse.
— O que você tem contra os peludos? — Devolvi no mesmo tom e ele riu de canto.
Sim, eu sabia do caso dele com Simon. Eu só precisei prestar atenção o bastante. Talvez aquele fosse o problema do Negan, o excesso de confiança dele o deixava cego para alguns detalhes.
Ele achava que depois de ter quebrado a pessoa, ela nunca mais o desobedeceria... Egocêntrico e narcisista.
— Negan está em reunião com o pessoal, então ninguém está disponível. — Tony explicou, enquanto seguíamos pelo corredor.
— Coisa grande? — Perguntei como quem não quer nada.
Seria bom saber em que pé as buscas por Natalie andavam.
— Saberia se não estivesse preso em uma cela por deixar alguém sob sua responsabilidade escapar... — Ele respondeu um tanto superior.
— Acha que foi isso que aconteceu? — Joguei em um tom desinteressado que deixou Tony claramente confuso.
— O que eu acho não importa, apenas o que Negan acha importa. — Ele deu de ombros neutro.
— Achei que você era o tipo de cara que podia pensar por si mesmo... — Retruquei com um sorriso acusatório e Tony bufou enquanto revirava os olhos.
Seguimos pelos corredores e eu estranhei que estivessem vazios, mas me mantive calado, perguntas demais levantavam suspeitas e esse era o tipo de atenção que eu precisava evitar naquele momento.
— Eu fui junto buscar o médico que te salvou sabia? — Tony lançou, ele não era o tipo de cara que gostava de silêncio.
Talvez Negan soubesse de mais segredos se passasse um tempo no refeitório...
— Um trabalho externo? Nada mau! Isso sim que é subir rápido. É assim mesmo que se faz, não deixa o Simon te manter na cozinha! — Deu um soco no ombro dele.
Não havia motivos para ser contra a mudança de cargo de Tony, o coitado não merecia ficar preso naquela cozinha para sempre apenas por sua etnia.
E sim, Simon era o tipo super protetor, conivente com Negan não só porque isso mantinha Tony fora dos holofotes com o chefe, mas também porque isso manteria o rapaz seguro.
Cada um protege aquilo que ama da forma que pode, não é?
Não entendi o olhar que Tony me lançou, quase como se ele esperasse outro tipo de reação de mim. Como se eu tivesse que saber de alguma coisa que eu claramente não sabia.
E depois disso, toda aquela postura um tanto desconfiada e defensiva foi embora e ele voltou a assuntos banais.
No entanto, para mim, aquela mudança de atitude era o indício de que algo mais tinha acontecido em Hilltop, resolvi ficar alerta.
Quando entramos no consultório fomos recebidos pelo novo médico, o lugar estava uma bagunça, claramente algo tinha acontecido no Santuário, algo que tinha deixado bastante gente ferida...
Olhei ao redor e percebi uma caneta perdida sobre a mesa na qual eu estava encostado. Aquela bagunça podia ser útil... Com muita discrição, para que meus movimentos não fossem notados, eu afanei a caneta e a coloquei escondida na minha calça.
— Desculpe, estava movimentado aqui hoje. — O doutor recolhia gazes e curativos usados, limpando tudo ao redor.
Era visível o medo que ele tinha. Mas eu não senti coisa alguma sobre isso, as coisas eram como eram e pronto.
Encarei Tony esperando que ele quisesse me contar o que tinha acontecido.
— Negan atacou Alexandria. Perdemos. — Ele deu de ombros, como se isso não fosse nada demais, porém sua voz tensa me disse tudo que eu precisava saber: Negan não estava nada feliz.
No fundo a notícia me afetou um pouco mais do que eu gostaria, não porque eu me importava com aqueles idiotas de Alexandria, mas a menção da cidade sempre mexia comigo de um jeito ou de outro.
— Você não foi? — Questionei, impedindo meus pensamentos de seguirem para Lexie e todas as outras memórias.
— Não deixaram. — Tony respondeu um tanto contrariado.
Por "não deixaram" ele queria dizer: "Simon não deixou"...
De toda forma, era meio estúpido que Tony quisesse se jogar no fogo cruzado, eu já tinha visto comunidades caírem pelas mãos de Negan e não era bonito...
Acabei recordando do dia em que tínhamos invadido Sherwood e do desespero estampado no rosto de Natalie, quando eu a encontrei no meio dos destroços, com a arma ainda erguida, depois de atirar no meu irmão.
Eu já a tinha visto antes, sempre de longe. Negan tinha me ordenado vigiar Sherwood bem antes de se apresentar a eles... Mas foi só depois que Natalie atirou em Kelvin que ficamos cara a cara realmente. Olhos nos olhos.
Acredito que tinha sido naquele momento que eu decidi que ela era minha prioridade. Eu disse a mim mesmo que tinha um débito com Natalie, por causa do passado, e depois eu me convenci que era porque ela podia ser uma boa aliada contra Negan.
Contudo, eu estava mentindo para mim mesmo. A verdade é que deixei Natalie Cooper entrar no meu coração desde o primeiro momento que a vi... Ela estava no rio, ria de algo que um garotinho dizia e recolhia água com alguns habitantes de Sherwood, enquanto eu estava escondido em um lugar estratégico.
Eu a reconheci de imediato. A famosa jornalista investigativa que havia vingado a morte de Lexie, mesmo sem ter noção disso. Provavelmente foi naquele momento em que tudo mudou, quando eu vi a risada dela e ouvi aquele garotinho chamá-la de mãe.
Então eu a testemunhei perder tudo. Era isso, não tinha como escapar de Negan. E havia uma parte minha que ainda sentia certa parcela de culpa, afinal meu irmão tinha matado o filho dela. Isso não teria acontecido se eu tivesse matado Kelvin primeiro, quando ele matou Lexie e o meu filho...
Mas era tarde demais para arrependimento, Natalie estava bem longe dali, e aquela foi minha maneira de retribuir, pelo menos um pouco, de tudo que ela tinha feito por mim, mesmo sem saber.
Eu estava tão perdido nas minhas próprias conjecturas, que só reparei que o médico estava me chamando quando Tony me deu um cutucão.
O doutor me mandou tirar a camiseta e sentar na maca, e eu tinha acabado de fazer isso quando Negan entrou na enfermaria.
— Você. Garoto da Cozinha, cai fora. — Ele apontou para Tony e o despachou sem um pingo de educação.
O médico praticamente se encolheu em um canto e eu me contive para não revirar os olhos.
— Olha só quem escapou da morte... — Negan balançou o taco envolto em arame farpado na minha direção. — Quem diria que um tiro no ombro causaria problemas pra caralho, não é? Aposto que não tinha pensado nisso quando deixou a Natalie atirar em você.
— Acha que eu sou o tipo de cara que deixa uma mulher atirar em mim, chefe? — Joguei em um tom quase indignado.
Era exatamente o que tinha acontecido, mas claro que Negan não tinha que saber disso.
— Eu acho que Natalie Cooper é o tipo de mulher capaz de fazer um homem tomar a porra de um tiro por ela. — O maldito retrucou, muito perspicaz.
Natalie e seus encantos, não é? Até que seria cômico se minha situação não fosse um tanto trágica.
Tive que manter minha postura de servo leal, não seria nada bom que Negan tivesse certeza da minha traição. Meu objetivo principal podia estar um pouco confuso por causa da partida da Natalie, mas eu não era idiota, deixar Negan me punir fisicamente não era uma opção.
O jogo continuava, e eu precisava recuperar minha vantagem.
— Ela matou o meu irmão. Se fosse por mim a maldita nunca teria saído daquela cela. — Devolvi no meu melhor tom indignado. — Mas sim, eu cometi um erro imperdoável por deixá-la escapar. Ela me enganou e eu não estou feliz com isso.
Negan me olhou de cima a baixo, estreitando os olhos em desconfiança.
Eu havia contado a história da fuga de Natalie ao menos umas dez vezes, dede o meu retorno e Negan ainda não estava plenamente convencido. Se continuasse assim eu estaria encrencado, precisava virar o jogo de alguma forma.
Por fim, ele assumiu aquela postura amigável, a mesma postura que usava quando queria testar seus homens ou proferir ameaças.
— Espero que seja isso mesmo, seria péssimo que você fosse tão devoto a Natalie e no fim ela tenha te traído pra estar na cama de um caipira imundo. — Ergueu uma das sobrancelhas na minha direção, havia deboche e veneno em suas palavras.
Minha primeira reação foi pensar que era mentira, mas Negan não era o tipo mentiroso, ele era o tipo que manipulava a verdade em benefício próprio.
Então eu tive que tomar como verdadeiro que Natalie estava com Daryl Dixon... E claro que isso me surpreendeu mais do que eu gostaria de demonstrar.
— Pois é... Parece que você não cometeu só um erro, Bennet. Além de deixar uma das minhas Salvadoras fugir, você a deixou ficar de romance com um dos prisioneiros bem debaixo do seu nariz. — O tom de Negan não era mais amistoso, ele estava bravo, mais do que conseguia controlar.
Isso era ruim...
— Daryl? — Questionei apenas para ganhar tempo, eu sabia que era ele.
Eu precisava colocar minhas ideias no lugar e encaixar as novas informações no meu plano, então tinha que ganhar tempo para pensar.
Natalie não tinha ido embora...
— Ela ajudou na fuga do filho da puta e agora está com ele em Alexandria, tão apaixonada a ponto de fazer qualquer coisa por ele. — Eu podia ver o quanto aquilo irritava Negan, e não era difícil entender o posicionamento dele, afinal suas intenções com Natalie sempre estiveram claras.
Ele a queria no harém, queria dominá-la de todas as formas possíveis. Saber que um prisioneiro como Daryl Dixon tinha levado a melhor não devia fazer nada bem para o ego de Negan. Eu até riria disso, se não tivesse meus próprios problemas naquele momento.
E o que mais estava me preocupando era: Natalie não tinha ido embora e isso não fazia sentido.
Claro que ela tinha uma ligação com Daryl Dixon, isso estava claro desde o princípio, mesmo assim, foi visível que ele foi apenas um contratempo nos planos dela, não era a prioridade, se fosse Natalie teria fugido com ele logo de cara.
Ela deixou o cara escapar do Santuário sozinho e sua primeira atitude quando fugiu também foi voltar para Sherwood. Não era sobre Daryl. Não faria sentido se fosse...
Havia algo que eu não estava vendo, era preciso analisar toda a situação melhor.
Eu precisava de mais tempo.
— Me desculpe, senhor. — Fiz minha melhor cara de arrependido e decidido a melhorar. — Eu falhei com você.
— É, falhou. Falhou pra caralho! — Negan abriu aquele sorriso amigável de bar, que na verdade era uma grande ameaça velada. — E eu ainda vou pensar em um jeito de te punir devidamente. Mas não agora. Eu tenho outros assuntos para tratar.
Ele me encarou de cima a baixo, aquele olhar analítico que Negan tinha, que vinha tão carregado de malicia e que podia muito bem ser considerado outro tipo de olhar.
Deu alguns passos para trás e deu um tapa e tanto nas costas do médico de Hilltop.
— Termina essa merda logo. — Ordenou em um tom amigável que desde sempre me irritou. — E faz a coisa direito, não queremos que o Bennet aqui fique sem o braço da punheta. Esse tipo de coisa faz falta.
O doutor assentiu várias vezes, deixando claro o medo que sentia, enquanto Negan saía gargalhando e balançando aquele taco idiota.
— E você... — Apontou Tony que ainda estava parado na porta. — Faz o que seu povo sabe fazer de melhor e me traz uma pizza que eu estou faminto pra caralho!
Claro que o déspota não perderia a oportunidade de importunar Tony com aquela coisa de italiano... E o cara nem era italiano mesmo!
— Uma pizza? — Tony perguntou um tanto incrédulo.
— Si una pizza, capisce? — Negan tentou um italiano totalmente estereotipado no sotaque. — Quer que eu soletre, garoto da cozinha?
— Não, senhor. Eu levo em alguns minutos. — Vi Tony se curvar enquanto Negan passava.
— Seja rápido, tenho mais um trabalhinho pra você ainda hoje... — Ele ordenou seguindo pelo corredor e logo sumindo de vista.
Não demorou muito para que o doutor acabasse com meus curativos. Confesso que não prestei muita atenção no que ele disse sobre o meu ombro, tampouco no que Tony resmungou enquanto me levava de volta para o quartinho. Minha mente estava longe...
Natalie estava por perto e, se o que Negan tinha dito era verdade mesmo, ela estava com Daryl Dixon, isso a colocava bem no fogo cruzado daquela guerra com Alexandria.
O fato de não ter confiado em mim o bastante para contar todo seu plano e objetivos não me incomodou realmente, era Natalie Cooper afinal, eu não esperava outra coisa dela, ainda mais depois daquele tiro que eu dei...
Mas eu sabia que tinha algo mais, todo aquele plano e resistência não eram por causa do caipira, não fazia sentido. Não que eu duvidasse que ela gostasse do cara... Ela gostava, eu sabia disso, ela gostava o bastante para tirá-lo do Santuário. No entanto havia algo mais. Tinha que ter.
O que você não está vendo Kane?
Comecei a andar de um lado para o outro no quartinho escuro, tentando montar um quebra-cabeças que tinha peças faltando.
Tentei recapitular cada acontecimento desde que Negan trouxera Natalie para o Santuário...
A princípio eu pensava que o objetivo dela fosse derrubar o déspota, afinal era a vingança perfeita depois de tudo que ele tinha feito. Então sim, a fuga me pegou de surpresa. E não, isso não casava com a forma como as coisas tinham se desenrolado com Daryl Dixon.
O pouco que eu tinha observado deles me dizia que havia um monte de sentimentos conflitantes ali. Algo como uma história no passado talvez?
Pensa Kane, pensa...
O objetivo de Daryl era ajudar os amigos de Alexandria e derrubar Negan. Uma vingança compreensível depois do que Negan fizera com os amigos dele. Mas Natalie não almejava vingança, se almejasse ela teria feito isso de dentro do Santuário...
Passei a mão pelo rosto e suspirei, as coisas não se encaixavam de jeito nenhum, os objetivos de Natalie não faziam sentido, essa era a verdade.
E foi nesse momento que eu fiz a pergunta de um milhão de dólares: Mas por que Natalie não queria vingança? Ela tinha todos os motivos para querer...
Negan tinha tirado tudo dela, e alguém que não tem nada a perder só quer vingança.
Espera... Natalie não agia como alguém que tinha perdido tudo.
Foi quando as coisas se encaixaram na minha mente. A fuga; não querer matar Negan; voltar para Sherwood; não me querer por perto...
Natalie estava protegendo alguém e esse alguém não era Daryl Dixon, porque aquele tipo de obstinação só podia ser uma coisa: Amor materno.
O filho dela não estava morto.
Foi a resposta perfeita, todo se encaixou no lugar. Ainda fui ousado o bastante para supor que a ligação de Natalie com o caipira tinha a ver com o garoto, isso explicaria porque ela ficou em Alexandria.
Voltei a me sentar, imaginando como o garoto que eu tinha visto no rio havia conseguido fugir e sobreviver sozinho, afinal toda a comunidade tinha traído Natalie, quando a entregou como mercadoria para Negan. O menino não podia estar com aquelas mulheres.
Fechei os olhos e revi o tempo em que eu estivera de tocaia perto de Sherwood, se eu tivesse um vislumbre da situação toda, talvez conseguisse prever o próximo passo de Natalie.
Me lembrei de uma garota, uma jovem de cabelos negros e traços latinos que logo de cara não me pareceu estranha, eu já tinha visto a menina em algum lugar.
Ainda estava concentrado em juntar todas as peças dos planos e trajetória de Natalie, quando pude ouvir o som de um tiroteio se espalhando pelo Santuário.
Imediatamente decidi o que fazer. Eu não podia ficar ali parado esperando o pior acontecer. Com agilidade, desmontei a caneta que eu havia furtado na sala do doutor e usei a mola interna para fazer um arame que destravasse a porta.
O som de tiros se espalhava pelos corredores, mas vinha de um ponto só: a entrada do Santuário.
O pessoal corria de um lado para o outro e eu tive que me esgueirar pelos corredores para não ser visto. Não foi difícil conseguir uma arma, havia algumas espalhadas em pontos estratégicos por todo o Santuário, bastava saber onde procurar.
Encontrei uma automática e resolvi ter uma visão geral de tudo que estava acontecendo antes de agir, por isso segui para o terraço, pela saída de emergência que dava acesso ao lugar.
Lá em cima podia me dar uma visão ampla de todo o Santuário e o melhor, era um lugar meio subestimado por isso nada de guardas, já que Negan se preocupava mais com a possibilidade de fuga do que com um ataque. Não tinha como fugir com aquela queda de pelo menos trinta metros.
Abri a porta de ferro no topo da escada e a luz natural me cegou por alguns momentos.
— Kane? O que você está fazendo aqui? — A voz conhecida indagou com desconfiança e eu dei de cara com Tony.
Mas que porra ele estava fazendo ali, merda? Aquele terraço não era usado para nada.
— Minha casa está sendo atacada, achou que eu ficaria parado sem fazer nada? — Respondi de imediato, muito senhor de mim. Nada como um pouco de improviso. — E você?
Tony ainda tinha um olhar desconfiado, mas não pareceu encontrar motivos para não acreditar em mim e devido ao ataque ele não tinha muito tempo para pensar melhor nas minhas mentiras.
— Negan me ordenou ficar nessa posição um pouco antes do ataque. Era pra ser um ponto de vigia novo. — Deu de ombros, se aproximando do parapeito e se escondendo ali.
— Aposto que Simon não ficou satisfeito com isso, não é? — Tentei agir normal, enquanto me aproximava da beirada também e procurava uma posição que me desse alguma vantagem para observar a bagunça que acontecia lá em baixo.
— Não. Mas quem manda aqui é o Negan, não é? E já tinha passado da hora pra ele me dar outra função além da cozinha... — Tony pareceu um tanto obstinado. Talvez aquela coisa de provar o próprio valor, para deixar de ser uma chacota, estivesse indo longe demais.
Tiros voavam para toda a parte e nosso pátio era invadido por uma horda de mortos. Levei alguns segundos para entender o que estava acontecendo.
Aparentemente as comunidades extorquidas por Negan tinham se unido e estavam nos nossos portões, sendo lideradas por Rick Grimes. Ele queria Negan e apenas Negan. Se o maldito do nosso líder se rendesse ninguém precisaria morrer.
Era uma boa jogada, nos cercar de mortos e fazer pressão, assim os próprios trabalhadores derrubariam Negan em nome da sobrevivência. Infelizmente, o grupo de Rick não tinha noção da popularidade do líder do Santuário e do quanto a lavagem cerebral dele tinha infectado a maioria ali.
Eles atiravam contra nossas janelas e portas, mas claramente não tinham intenção de atingir ninguém, ao contrário do Salvadores, que revidavam de vários pontos ao mesmo tempo. Se não fossem aqueles escudos metálicos nos carros, o grupo de Rick teria sofrido muitas baixas ali mesmo.
Pude ver que Negan e alguns tenentes dele estavam do lado de fora, tentando escapar, em uma situação bem ruinzinha.
Simon jogou um velho das escadas de entrada e correu para o interior do Santuário, sem se importar se Negan tinha ficado para trás ou não.
Em momentos como aquele era cada um por si.
— Ei! Aquela não é a Natalie Cooper? — Tony sussurrou ao meu lado.
— O que? — Me virei imediatamente e olhei na direção em que ele apontava.
Natalie estava no nosso campo de visão, afastada da linha de frente, havia uma garota com ela. A mesma garota de Sherwood. E, como se fosse um lampejo de sanidade, eu me lembrei de onde a conhecia...
Era uma foto no jornal, NL Cooper tinha colocado outro homem no tribunal, um diretor de orfanato, e aquela garota era a testemunha chave. Ela era importante para Natalie, eu soube disso.
Na verdade eu não ficaria nada surpreso que Natalie tivesse adotado a garota...
— O que você está fazendo? — Questionei assim que vi Tony preparando o rifle.
— Eu consigo uma boa mira daqui. Negan vai ficar satisfeito, ele nunca mais vai duvidar de mim depois disso! — Ele se colocou de pé com a arma e percebi o perigo da situação.
Eu não deixaria que ele fizesse mal para Natalie. Nunca!
— Tem certeza que quer fazer isso, Tony? Ela era sua amiga... — Tentei persuadi-lo, mas me preparei para o pior.
— Minha amiga? — Ele praticamente cuspiu. — Ela me manipulou pra conseguir se safar com os amigos. Eu tinha encurralado todos eles em Hilltop...
O vislumbre do que podia ter acontecido passou pela minha mente, mas honestamente não me importou. Seja lá o que Natalie tivesse feito, isso não mudava nada.
Me coloquei de pé um pouco atrás de Tony.
— Eu não vou cometer o mesmo erro outra vez. — Tony destravou o rifle e tudo aconteceu depressa demais, embora se passasse em câmera lenta diante dos meus olhos.
Natalie percebeu a presença dele em cima do telhado e entrou na frente da garota, protegendo-a com o próprio corpo. Ela não me viu de imediato, mas eu pude vê-la perfeitamente.
Tony tinha o dedo no gatilho e Natalie na mira. Não havia tempo.
Eu não precisava pensar sobre as implicações... Não importava, ela ainda era minha prioridade.
Ergui a arma e puxei o gatilho.
O sangue e a massa encefálica de Tony espirraram no meu rosto e ele despencou do terraço. Pude ouvir o impacto do corpo atingindo o chão.
Não senti remorso. Não senti nada. Faria outra vez se fosse necessário.
Natalie acompanhou o corpo caindo do terraço e logo depois ergueu os olhos novamente. Só então ela me viu. Pareceu surpresa. Suas sobrancelhas estavam franzidas e o vento balançava o seu cabelo castanho...
Eu a amei um pouco mais por motivo algum.
Era até um tanto estupido se eu pensasse bem, mas não importava.
Percebi que a garota teve tempo o bastante para apontar a arma que segurava na minha direção. Eu só tive a percepção que ela atiraria em mim, quando Natalie colocou a mão sobre a arma e fez a morena abaixá-la.
O grupo de Rick batia em retirada. Os Salvadores ainda atiravam. Os errantes se espalhavam como uma praga e devoravam o corpo de Tony... E eu ainda estava no mesmo lugar com os olhos fixos em Natalie.
Ela moveu a cabeça em um agradecimento mudo, eu sorri e fiz o mesmo, batendo contingencia com dois dedos, como quem diz "sempre às ordens". Percebi que a garota a puxava pelo braço, não era mais seguro ficar ali.
— Vai... — Movi meus lábios de modo que Natalie pudesse entender a palavra.
Ela ainda relutou um pouco, mas não tinha outra alternativa. A vi entrar no carro e se afastar.
Era a segunda vez que Natalie Cooper partia... Era a segunda vez que eu ficava para trás. Talvez em uma outra vida... Ri sem humor daquela piadinha interna.
A verdade é que não havia tempo para lamentar, eu tinha trabalho a fazer. Havia me metido em outra enrascada, afinal matar um Salvador era um delito grave dentro do Santuário e, se Simon soubesse da minha culpa naquilo, eu teria problemas bem maiores que ficar preso em um quartinho escuro.
Naquele momento eu sabia que não podia me dar ao luxo de falhar, eu precisava virar o jogo e precisava fazer isso muito rápido. Tinha uma guerra rolando e eu sabia que Negan daria um jeito de se safar de tudo aquilo. Ele iria atrás da Natalie e eu precisava estar pronto quando isso acontecesse.
Olhei ao redor e a maior parte dos carros tinha partido. Alguns sons de tiro chamaram a minha atenção e percebi que Rick Grimes ainda estava por perto.
Me ocultei da forma que podia e procurei pelo alvo dele. Era o Negan.
O líder do Santuário escapou dos tiros por pouco e Rick foi obrigado a sair dali, antes que os errantes o pegassem.
Negan estava preso do lado de fora, no meio de uma horda inteira, tentei uma mira descente, mas eu tinha uma automática de curto alcance e o rifle tinha despencado junto com Tony.
Vi quando o déspota se escondeu dentro de um dos pequenos galpões externos. Claro que ele não encontraria seu fim pelas mãos dos mortos, vaso ruim não quebra, certo?
Queria continuar ali e ver o que mais aconteceria, mas ficar me deixaria um passo mais perto de ser descoberto.
Decidi voltar para o meu quartinho, agir como se nunca tivesse saído de lá era um bom meio de ficar acima de qualquer suspeita quando a morte de Tony fosse descoberta.
Eu estava no meio do caminho, me esgueirando sorrateiramente pelos corredores, quando presenciei algo que certamente me daria alguma vantagem.
Dwight estava dando aos Pontistas uma bolsa cheia de armas. Ele tinha planejado um tipo de motim. Não precisei ficar para entender o resto.
Quando finalmente voltei para o quartinho e tranquei a porta, consegui colocar tudo em ordem na minha cabeça.
Não havia como as comunidades tramarem um ataque daquele porte sem, pelo menos, um pouco de informação interna. Dwight certamente estava jogando dos dois lados.
Não era uma grande surpresa que ele quisesse derrubar Negan depois do que o canalha tinha feito Sherry passar.
Eu não sabia bem como tudo aquilo tinha acontecido, mas não importou, eu finalmente estava um passo à frente e só precisava de uma oportunidade para usar tudo aquilo a meu favor.
Eu só precisava esperar...
Não demorou muito e a oportunidade bateu na minha porta, ou melhor "abriu a minha porta". Antes mesmo do fim daquela tarde Simon foi me fazer uma visita.
— Preciso de sua ajuda. — Ele foi direto, estava seco e seu semblante não escondia sua preocupação.
— O que houve? — Perguntei, como se estivesse desinteressado.
— Negan deve ter batido as botas, provavelmente temos um traidor aqui dentro e agora os Pontistas estão descontrolados. Sei que tem influência entre eles. Vá fazer sua mágica. — Resumiu, dando um passo para trás e apontando o corredor.
Eles acham que Negan estava morto, aquela era uma ótima oportunidade de provar minha lealdade e virar o jogo a meu favor.
Ao mesmo tempo, me perguntei se Simon já sabia sobre o Tony, mas imaginei que não, ele ainda estava controlado demais.
— E se eu disser "não"? — Dei de ombros, eu tinha que manter minha pose, isso tornava as coisas mais críveis.
— Então você não tem utilidade pra mim. — Simon tirou a pistola do coldre.
— Saquei. — Me coloquei de pé e ergui as mãos em rendição. — Você que manda.
Seguimos pelo corredor, enquanto Simon me contava os detalhes. Os Pontistas tinham armas e as coisas não iam bem, sem Negan todos estavam descontrolados e prontos para uma rebelião.
Passei por Dwight e ele estava visivelmente tenso, se continuasse mentindo daquele jeito logo seria descoberto. Preferi não intervir nos planos dele.
Não que eu gostasse do cara, mas Natalie estava em Alexandria e, qualquer coisa que a colocasse em perigo, não era uma jogada interessante pra mim.
Decidi manter o que eu sabia sobre Dwight guardado, porém eu teria que estragar o plano dele com os Pontistas, era o único jeito.
— Simon... — Carter, um dos Salvadores, nos abordou no corredor.
— Encontrou o Tony? — A resposta veio curta e seca, Simon podia ser um líder ainda mais babaca do que Negan.
— Ele não estava no telhado, como você disse que estaria... — Carter fez uma pausa, ele já sabia do destino de Tony, apenas Simon foi idiota o bastante pra não entender.
— Então encontre-o! Ele tem que estar em algum lugar! — Ordenou aos berros e o Salvador deu um passo para trás.
Negan tinha regras hipócritas para simular ordem, as pessoas achavam que ele tinha princípios, mas todo mundo sabia que Simon era mais direto em sua abordagem, ele não punia, ele simplesmente matava.
— Havia sangue no telhado. E no chão lá embaixo... — O Salvador negou algumas vezes. — Ele deve ter sido atingido e caiu, o rifle está lá no chão, não temos como recuperar por causa dos mortos.
Simon ficou estático onde estava. Para mim, que sabia toda a verdade da ligação dele com Tony, ficou claro que aquela informação tinha abalado o homem.
Mas Simon não podia se permitir demonstrar nada ali na nossa frente.
— Já pedi para que o nome dele fosse colocado na lista de baixas causadas pelo ataque. — O Salvador foi prático, como se a vida de Tony não significasse coisa alguma.
Não era verdade. Tony era um cara legal, eu não tinha nada contra ele, só que, quando tive que escolher entre ele e Natalie... Bom, sejamos honestos, não tinha comparação. Sempre seria a Natalie. Eu não me arrependia disso.
— Quem ordenou que você fizesse isso? — Quando me dei conta Simon havia prensado o Salvador contra a parede, segurando a gola da camisa do rapaz, com tanto ódio no olhar que eu senti que era hora de intervir.
— É o protocolo padrão, Simon... — Falei, pousando minha mão no braço dele. — São as ordens do Negan manter tudo anotado. Isso não é culpa do Carter.
Simon olhou de mim para o Salvador e largou o rapaz.
— Dá o fora daqui! — Gritou e Carter não esperou para sumir pelos corredores.
Simon respirou fundo e me encarou com um olhar assassino.
— Tem razão, não é culpa do Carter. Mas você pode ter certeza que os responsáveis por isso vão pagar bem caro! Isso é, aqueles que já não pagaram... — Saiu andando na frente, tinha ficado explícito que Simon achava que Negan estava morto, além de julgá-lo culpado por colocar Tony naquele terraço.
Eu soube, naquele momento, que tinha desencadeado o caos dentro do Santuário... Simon estava com um ódio mortal, o que em partes era bom, afinal a briga entre Simon e Negan podia ser a jogada que faltava para acabar com a tirania no Santuário, por outro lado, Simon também culpava o ataque das comunidades...
Isso significava que ele daria um jeito de revidar, o que podia colocar Natalie em perigo.
Pelo menos eu não estava na lista de suspeitos...
Decidi cuidar de um problema de cada vez e foquei nos Pontistas primeiro, afinal isso me deixaria bem não só com Simon, mas era o ponta pé inicial para virar o jogo com Negan.
O confronto entre Pontistas e Salvadores já estava se tornando físico, quando eu cheguei ao corredor.
— Hey, Hey. Galera! Vamos esfriar a cabeça, que tal hein? — Me enfiei entre os dois grupos de mãos erguidas.
Os trabalhadores estavam nervosos com toda a situação, com os errantes do lado de fora e principalmente com o sumiço de Negan. Toda aquela raiva era o que eu sempre quis deles, uma tomada de poder daquelas seria perfeita e era o que eu planejava há tempos...
Tinha que dar uns créditos a Dwight por isso.
No entanto, naquele momento, toda aquela confusão não era benéfica, Negan estaria de volta em breve e eu tinha que usar aquilo a meu favor.
— Eu acho que vocês estão deixando o pânico atrapalhar seus pensamentos. — Argumentei, depois de ouvir todas as reclamações. — É o Negan, galera, ele construiu tudo isso aqui, não é? Acham mesmo que uns mortos de merda vão derrubar ele e a Lucille? Ele vai voltar e dar um jeito em toda essa merda, é só terem um pouco de paciência. Ele é nosso Salvador afinal de contas!
Eu não suportava ter que defender aquele canalha, no entanto era tudo parte da minha jogada. Continuei ali, argumentando e acalmando a multidão e, no fim, minhas mentiras foram recompensadas da melhor forma possível...
Eu ainda estava no meio do discurso, quando Negan apareceu todo coberto de tripas e sangue seco, com o padre de Alexandria a tiracolo.
Ele fez o que sabia fazer de melhor e domou a multidão sem nenhuma dificuldade.
Percebi que Simon não gostou nada de ouvir ordens, mas as seguiu mesmo assim.
— Quem diria, não é? — Negan bateu nas minhas costas, dando uma risada irônica. — Você era a última pessoa que eu esperava ver aqui defendendo o meu nome.
— Eu sou Negan, senhor. Escolhi meu lado há muito tempo. Isso não mudou. O Santuário e minha casa e você é o meu único líder. — Declarei, usando toda a convicção que minha capacidade de mentir permitia.
O déspota canalha sorriu satisfeito.
E ali estava, eu tinha virado o jogo, Negan estava prestes a confiar em mim outra vez.
Eu estava com a vantagem e o mais importante de tudo: eu estaria pronto quando o plano de Rick Grimes falhasse e Natalie precisasse da minha ajuda outra vez.
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