Lifeline — Destiny Don't Give Up
30 Tudo Por Ela
Notas iniciais
• DARYL DIXON •
Poucas pessoas podem dizer que já perderam tudo, ou melhor, poucas pessoas podiam dizer isso, depois que os mortos se espalharam pela terra "perder" era uma certeza. Para o grupo que veio comigo de Atlanta era quase rotina naquele ponto...
Mesmo assim, havia um gosto diferente naquela derrota, isso era visível nos rostos desapontados que estavam ao meu redor, a falta de esperança estava estampada no semblante de cada pessoa.
Deixar Alexandria em chamas não foi fácil, mesmo que o plano de Carl tivesse dado certo e todos ali se encontrassem bem, a decepção tomava conta do grupo. Tudo aquilo tinha começado porque estávamos lutando pela comunidade, mas se não tinha mais uma comunidade, qual era o ponto então?
Talvez Natalie estivesse certa desde o começo, devíamos ter ido embora, recomeçado em outro lugar...
Ela caminhava alguns metros a minha frente, com Petter e Bolt ao seu lado e, por mais que tudo ao nosso redor estivesse desabando, eu não conseguia deixar de agradecer por ela estar viva.
Era uma felicidade injusta e inapropriada para aquele momento, eu sabia disso, mas era como uma segunda chance, uma oportunidade de fazer direito.
Estávamos caminhando há algumas horas, atravessaríamos um pântano alguns quilômetros à frente e então conseguiríamos chegar a Hilltop até o fim do dia, mas não deixava de ser um risco, afinal os Salvadores estavam procurando por nós, podíamos encontrar um grupo em qualquer lugar, por isso, andar rapidamente era o mais seguro naquele momento.
Para piorar a situação, Rick, Michonne e Carl não tinham seguido com o grupo, o xerife tinha decidido voltar ao lixão, afinal Jadis tinha o contingente que precisávamos, principalmente depois que mais da metade do Reino tinha morrido.
Era como se estivéssemos cercados de tragédia por todo o lado.
Natalie não estava nada feliz com as escolhas de Rick, e daquela vez eu tinha que concordar, precisávamos dele ali conosco, as coisas já eram ruins o bastante, ficar sem um líder podia ser a faísca que faria tudo voar pelos ares de vez.
— Devíamos parar por alguns minutos. — Rosita sugeriu, apertando o passo para andar ao meu lado. — Estamos caminhando há horas, as pessoas estão cansadas e com sede, além de termos feridos que precisam do descanso.
Ponderei aquilo por um momento, mas não tive tempo de chegar a uma conclusão, porque Tara alcançou meu lado esquerdo, expondo as próprias convicções:
— Temos que continuar sem parada, esses "feridos"... — Ela fez aspas com os dedos, usando um tom irritado. — Nem deviam estar aqui, são Salvadores, já devíamos ter matado os dois.
Ela olhou para trás com desdém, na direção em que Dwight e Kane vinham caminhando lentamente.
Eu não era a favor de nenhum deles para ser honesto, principalmente de Kane... Mas os dois malditos tinham sido úteis, cada um a seu modo.
— Eles nos ajudaram. É isso que fazemos com as pessoas que nos ajudam agora? — Rosita argumentou e as duas começaram uma discussão que eu não sabia como parar.
Passei a mão pelo rosto e percebi que aquela quase briga estava chamando a atenção do grupo, que nos olhavam de esgueira, como se estivessem curiosos.
Vi que Natalie desacelerou um pouco o passo, para andar perto, mas pediu que Petter seguisse na frente, ela pareceu atenta ao que conversávamos.
— Precisamos parar. — Rosita reafirmou em um tom enérgico. — Recuperar as forças para o caso de algum imprevisto.
— Você está dizendo isso, por causa deles, já pensou se for tudo uma armadilha? — Tara argumentou, tirando a arma do coldre. — Podemos acabar com isso agora, Daryl, dois tiros e pronto.
Eu não confiava nos dois e entendia a raiva de Tara, por causa do que tinha acontecido com Denise, Rosita também devia entender, afinal ela estava lá. Por outro lado, também havia certa lógica nos argumentos da hispânica. Me vi dividido, sem saber o que fazer. Rick era o líder, ele é quem devia estar ali.
Percebi que a atenção de Natalie estava fixa em mim, como se esperasse que eu dissesse alguma coisa, mas o que? Eu ainda estava pensando em como agir, quando ela revirou os olhos e negou algumas vezes.
— Escuta aqui, pessoal! — Deu alguns passos para trás e atraiu a atenção do grupo. — Vamos parar por quinze minutos, tem um riacho por perto, recolham água, não se afastem demais, caso percebam perigo reagrupem imediatamente. Sejam silenciosos, ainda estamos sendo caçados.
Natalie disse todas as ordens como se fosse simples e, pelo visto, as pessoas a escutaram. Talvez fosse o tom firme, talvez fosse a cena com a arma dentro dos túneis, talvez fosse tudo que ela tinha passado... Não dava pra saber se o grupo obedeceu por respeito, medo ou dó, mas o fato é que obedeceu.
— Quem te colocou no comando? — Tara questionou irritada.
— Vocês deviam ser os líderes. — Natalie apontou para nós três. — Mas claramente não conseguiam chegar em um consenso. Não sei se alguém já falou, mas um grupo rachado é um grupo morto. Se quiserem divergir não façam na frente de outras pessoas, é um tiro no pé.
Ela estava irritada, isso não era usual em Natalie, mas desde que tinha voltado esse era o sentimento que eu podia distinguir melhor nela. E isso me preocupava.
Ela não esperou e se afastou sem dizer mais nada, sob o olhar pouco amigável de Tara.
— Vamos fazer o que ela disse, quando isso acabar decidimos o que fazer com Dwight. — Declarei, querendo que aquilo acalmasse Tara, mas a morena apenas negou contrariada e se afastou.
Rosita respirou fundo e deixou os ombros caírem como se estivesse cansada.
— Não acredito que a pessoa mais controlada e sensata nessa situação é justamente a única pessoa que tinha todo o direito de estar fora do controle... — Ela se referiu a Natalie e também se afastou de mim, se dirigindo ao grupo, afim de ajudar com alguma coisa.
Eu não sabia se Rosita estava totalmente certa, afinal aquela raiva e agressividade não eram exatamente um sinal de descontrole?
Procurei Natalie com o olhar e ela estava perto de Kane, perto demais, tinha uma das mãos no queixo dele, analisando o rosto machucado com atenção.
Eu não entendia aquela cumplicidade dos dois... Eles eram próximos no Santuário, mas eu pensei que eram apenas ordens de Negan, Natalie nunca mencionou que tinha um "amigo" lá dentro. Me incomodava profundamente ver os dois juntos.
Eu não confiava nele.
Tentei não deixar aquele sentimento tomar conta de mim e me afastei. Me ocupei do bem-estar do grupo por um tempo, me certificando que todos estavam bem e prontos para seguir viagem dentro de alguns minutos.
Volta e meia meu olhar seguia na direção de Natalie, da primeira vez eu notei que Petter tinha se aproximado, então foquei em Judith, que estava com Toby e quando olhei de novo o garoto tinha sumido com Bolt e Natalie estava com Kane de novo.
Por que passar tanto tempo perto daquele cara?
Vi quando os dois foram interrompidos pelo médico que Petter havia ajudado com Carl e internamente agradeci por isso.
Por fim, me afastei em direção ao riacho, a fim de recolher água. Eu estava na margem, quando avistei Petter ali perto e me aproximei.
— Oi... — Ele acenou um tanto desanimado quando me viu.
Era como se o brilho e alegria tivessem se esvaído dele naquelas últimas horas, era de partir o coração. Mas eu entendia, afinal também já tinha perdido um irmão.
— Hey, o que faz aqui? — Perguntei, tentando puxar um assunto qualquer.
— Vim pegar água para o Bolt. — Ele apontou o cachorro que bebia em um pote improvisado.
— Eu posso cuidar disso se você quiser ficar com a sua mãe. — Ofereci, me abaixando perto dele para encher as garrafas que eu trouxera.
— Eu posso fazer, pai, tudo bem. — Ele deu de ombros e tentou um sorriso que não foi mais que um curvar de lábios.
O "pai" na frase ainda fazia meu coração bater assustado, mas ao mesmo tempo me mostrava que eu não podia falhar com Petter naquele instante.
Eu tinha que fazer alguma coisa para que ele se sentisse melhor... Os que bons pais fariam naquela situação?
Converse com ele. Minha consciência aconselhou.
— Eu tive um irmão mais velho também... — Comecei, meio incerto se aquele era um assunto adequado, mas talvez fazer Petter ver que eu tinha passado pela mesma coisa o consolasse um pouco. — Enfrentamos um grupo e ele também morreu tentando nos salvar.
— Sério? — O garoto tombou a cabeça para a esquerda, parecendo interessado.
Eu não costumava falar de Merle, porém a verdade é que sentia falta dele, relembrar aqueles dias era doloroso, mas se minha dor me aproximasse do meu filho e o deixasse menos triste, então valeria a pena.
— Ele foi um herói. Do jeito dele é claro. — Dei de ombros, afinal Merle não tinha jeito. — E eu acho que Luka foi uma heroína também.
Petter respirou fundo e se sentou em um tronco velho de árvore, parecendo ponderar sobre o que eu disse.
— Ela foi, mas eu ainda fico triste...— Confidenciou, observando Bolt acabar com a água do pote. — Você não ficou triste pelo seu irmão?
— Muito... — Admiti, eu não diria aquilo em voz alta, mas ter que lidar com o meu irmão depois que ele virou um errante foi a coisa mais difícil que eu já tive que fazer.
Eu não desejava aquilo pra ninguém...
— E o que você fez, pai? — Petter perguntou interessado, como se achasse que eu podia lhe dar alguma receita mágica.
Eu não sabia como responder aquela pergunta, afinal não havia uma forma de fazer tudo aquilo que meu filho estava sentindo sumir... Mas eu resolvi ser honesto sobre algo que tinha me feito seguir em frente.
— Eu pensei no que o Merle diria e eu soube que ele provavelmente socaria minha cara com muita força se me visse triste daquele jeito. — Preferi omitir a parte em que meu irmão me mandaria parar de ser maricas, afinal eu não queria que Petter tivesse aquele exemplo.
Ele abriu um sorriso mínimo, como se tivesse achado graça no que eu disse.
— Acho que eu ia gostar do meu tio... — Comentou pensativo, ao mesmo tempo em que Bolt se aproximava e sentava por perto.
— E ele com certeza ia gostar de você também. — Respondi, sabendo que aquilo era verdade, Merle gostaria do garoto, porque Petter era um moleque irresistível e no fundo Merle dava valor a família, mesmo que jamais fosse dizer isso. — O que a Luka te diria?
Petter pensou por um momento, focando os olhos azuis escuros na água.
— Ela diria que morreu pelo que acreditava certo e que eu não devia ficar triste por isso e sim ter orgulho dela. — Ele disse depois de um tempo, em um tom triste, mas um tanto conformado. — E diria pra eu ficar de olho na mamãe, porque sabemos que ela não lida bem com essas coisas.
Não resisti e passei a mão pelo cabelo claro do garoto, como se estivesse arrumando os fios, mas no fundo eu só queria confortá-lo de alguma forma e aquele era meu jeito meio torto de fazer isso.
Petter era um menino muito maduro para a idade que tinha, Natalie o tinha criado muito bem e eu senti um aperto no coração por não ter participado daquilo.
Eu nunca tinha entendido o quanto queria uma família, até que percebi que praticamente tinha perdido uma. E eu queria aquilo de volta.
— Parece um conselho muito bom. — Comentei neutro e Petter sorriu orgulhoso.
— Luka sempre deu bons conselhos... — Seus olhos entristeceram e marejaram.
— Tudo isso vai passar, tá bom? Vamos ficar bem. — Baguncei o cabelo dele outra vez, sem saber muito bem o que fazer naquele momento.
Petter focou os olhos em mim e perguntou repentinamente:
— Nós quatro? Eu, você, mamãe e o Bolt?
Não pude deixar de sorrir para o quão inocentes e simples eram os sonhos dele, mas ao mesmo tempo eu também vislumbrei aquele futuro e também desejei aquilo.
— Nós quatro. — Garanti, me sentando ao lado dele no tronco.
— Promete? — Eu soube o que aquela pergunta queria dizer, afinal Petter era um Cooper e promessas eram sagradas para eles.
— Prometo. — Afirmei decidido.
Natalie estava de volta, eu podia consertar aquilo tudo, eu podia fazer dar certo daquela vez, ainda tínhamos uma chance. Eu tinha certeza disso.
Ela estava viva e bem, isso era tudo que importava, podíamos continuar de onde tínhamos parado.
— Mamãe está triste e brava... — Petter comentou como se fosse um segredo. — Ela está muito brava, eu vejo pelo jeito como ela se mexe.
Ele estava certo, mas Natalie tinha o direito de ficar brava por causa do que tinha acontecido com Luka.
As coisas podiam ser diferentes se eu tivesse escutado o que Natalie me disse aquela noite...
— Ela vai ficar bem, certo? — Tentei soar otimista. — Ela só precisa de um tempo pra processar tudo que está acontecendo.
Petter assentiu e voltou a observar a água, como se pensasse em alguma coisa.
— Eu não gosto daquele homem que veio com ela. — Contou em um tom sério.
— O Salvador? — Perguntei e Petter assentiu, fazendo o sangue correr quente nas minhas veias. Se aquele Salvador maldito tivesse feito alguma coisa com o meu filho... — Ele fez algo pra você? Ele disse alguma coisa?
— Não, ele foi legal comigo até, me arranjou isso... — Apontou o pote improvisado em que Bolt estava bebendo água e eu fiquei confuso, por que ele não gostava do Kane, então? — Ele olha pra mamãe como... Como vovô Daniel costumava olhar para a minha avó.
Pisquei algumas vezes, sem entender onde Petter queria chegar, mas ele se apressou em explicar:
— Eu perguntei ao vovô Daniel uma vez, por que ele olhava pra minha vó como se tivesse estrelas cadentes nela e ele disse que era assim que as pessoas olhavam para as outras quando sentiam muito amor e admiração.
Petter pareceu um tanto revoltado ao me contar isso, ao mesmo tempo em que eu constatava uma verdade óbvia, Kane gostava da Natalie mais do que devia...
— Aquele homem não devia sentir essas coisas pela mamãe. — Petter cruzou os braços. — Ele não pode olhar pra ela assim, não é? Você devia olhar pra ela assim...
Aquilo realmente me pegou de surpresa, quer dizer, era confuso que Petter visse a mim e a Natalie como um casal, sendo que nunca tínhamos dito a ele que éramos um casal... Nem eu sabia se uma noite, que tinha terminado do pior jeito, fazia de nós dois um casal de novo.
E no meio de toda aquela confusão na qual um garoto de dez anos tinha me jogado, eu me dei conta de um detalhe importante do que ele tinha dito...
— Não acha que eu olho pra sua mãe desse jeito? — Questionei interessando.
— Você olha, mas só quando ninguém está vendo. Ele olha o tempo todo. — Petter contou e franziu os lábios descontente.
Era como se o meu próprio filho tivesse acabado de dizer que um maldito cara aleatório parecia amar Natalie mais que eu. Isso era impossível.
Fiquei parado olhando a água, me sentindo um bosta, aquilo não podia continuar daquele jeito... Será que a própria Natalie também pensava que eu não a amava o bastante?
Enquanto meu pensamento voava longe, Bolt pareceu notar uma presença e saiu correndo animadamente em direção as árvores.
— Oi, garoto! — Ouvi a voz irritante que fez meus pelos se arrepiarem de ódio e me virei a tempo de ver Kane se aproximando, fazendo farra para o cachorro que pulava ao redor dele como se o maldito Salvador fosse parte da família.
Cachorrinho traidor, em pensar que eu tinha perdido tempo dando banho naquela bola de pelo...
— Falando no diabo... — Petter sussurrou fazendo uma careta e eu tive que conter um sorriso orgulhoso. Meu filho. — Eu vou ver como a mamãe está.
Vi o garoto passar por Kane com o nariz empinado e o olhar firme, chamando o cachorro pra ir junto, sequer se dando ao trabalho de falar uma só palavra com o Salvador.
No entanto, Kane não pareceu nada afetado pela atitude mal-educada de Petter, pelo contrário o cretino abriu um sorriso como se aquilo fosse engraçadinho.
Eu odiava aquele homem com todas as minhas forças.
Observei enquanto Kane se aproximava do riacho e lavava o rosto sem se importar comigo ali. Ele tinha levado uma surra e tanto, de modo que dava pra ver que até andar era complicado, fora o ferimento no ombro, que tinha um curativo improvisado naquele momento.
Algo sobre a história que ele tinha contado nos túneis não pareceu se encaixar, mas pensar na noite anterior só me fez lembrar de Natalie defendendo o cretino e dos dois de mãos dadas, como se compartilhassem algo só deles... O ódio foi tanto que eu acabei desfocando da história mal contada.
— Fique longe do garoto, ele não gosta de você! — Declarei em um tom que era quase uma ameaça, o encarando de longe.
Kane olhou para mim de onde estava, ainda agachado no chão na beira do riacho e pareceu ponderar por um instante.
— Entendi... — Assentiu neutro, como se eu não estivesse pedindo nada demais.
Aquilo só serviu pra me deixar ainda mais irritado. Cerrei os punhos e respirei fundo apenas pra conter minha gana de atirar uma flecha nele bem ali.
Mas Kane não parecia preocupado comigo, na verde ele sequer me lançou um segundo olhar, antes de se levantar e fazer menção de voltar para perto do grupo. Era como se eu não fosse nada pra ele.
— Você devia ficar longe da Natalie também. — Dei três passou e me coloquei em seu caminho, o que o obrigou a me encarar.
Kane franziu as sobrancelhas e então riu de canto, negando algumas vezes como se eu tivesse acabado de falar besteira.
— Eu entendo você falando pelo garoto, ele é seu filho afinal. Mas falar pela Natalie... — Comprimiu os lábios, debochado e tombou a cabeça para o outro lado. — Ela já é bem grandinha, não acha?
Ele voltou a andar, dando o assunto como encerrado, mas eu ainda não tinha acabado...
— Ela não precisa de alguém como você do lado dela agora. — Declarei e voltamos a nos encarar. Eu com ódio no olhar e ele com certa indiferença.
— E ela precisa de alguém como você? — A pergunta veio em um tom sarcástico. — Me diz, senhor caçador super fodão: o que você fez quando descobriu que a mãe do seu filho e mulher que você supostamente ama estava morta?
Me irritei ainda mais, Kane não tinha qualquer direito de me questionar quanto àquele assunto. Ele não sabia nada sobre mim. Eu tinha os meus motivos.
— Não se mete nisso! — Praticamente rosnei, mas Kane continuou:
— Você foi imediatamente atrás dela? Pra ver se ela estava ferida, presa, mordida... sentada sozinha no chão, chorando com um cadáver no colo e precisando desesperadamente de você...
O tom dele me atingiu, e a imagem mental que eu fiz não foi bonita, eu nunca me perdoaria se as coisas tivessem acontecido daquele jeito...
— Você não sabe do que está falando! — Joguei de volta, apontando o dedo na cara dele, enquanto andava de um lado para o outro.
— Tem razão eu não sei mesmo, apenas a própria Natalie sabe o que ela passou. Isso é entre você e ela. — Ele ergueu as duas mãos e deu um passo para trás, como se não quisesse se meter no assunto.
Eu odiava aquele idiota, mais até do que eu odiava Negan.
Kane já tinha dado meia volta e continuado a andar, mas então parou e olhou pra mim por um instante, pensativo.
— Eu morreria por ela. Você pode dizer o mesmo? — Perguntou em um tom acusatório que me fez querer socar aquela cara maldita dele.
— É claro que eu morreria por ela! — Retruquei no mesmo momento. Ele não tinha direito de questionar aquilo.
Aquele filho da puta não sabia de nada sobre Natalie e eu.
— Sério? — Ele cruzou os braços e me olhou um tanto desapontado. — Porque, pra mim, parece que você morreria pelos seus amigos e que Natalie está em segundo plano. Você morreria por uma vingança, isso não significa que você morreria por ela.
Cruzei a distância entre nós violentamente.
— Você não sabe de merda nenhuma! — O empurrei com as duas mãos e o peitei de cabeça erguida.
Se aquele idiota queria encrenca comigo, era exatamente isso que ele ia conseguir!
Eu não teria problema nenhum em dar uma flechada na cara dele bem ali.
Kane cambaleou para trás, mas não pareceu afetado pela minha irritação.
— Talvez eu não sabia de muita coisa, mas eu sei que Natalie ainda está aqui, mesmo tendo todas as chances e motivos pra ir embora pra bem longe desde que fugiu do Santuário. — As palavras dele foram certeiras.
— Ela quis ficar, ao contrário de você ela é não uma covarde, ela faz a coisa certa! — Devolvi de peito estufado.
Kane era um Salvador, ele não tinha moral, ele não conhecia a Natalie, ele podia dizer todas aquelas baboseiras.
Sim ela queria ir embora, mas ela não iria de verdade, mesmo que eu tivesse aceitado antes da guerra começar, ela não deixaria Rick e os outros para trás... Deixaria?
— Talvez você esteja certo, talvez eu seja mesmo um covarde que nunca faz a coisa certa. E você? Você fez a coisa certa por ela? — A pergunta veio depois seca, direta, quase uma acusação, Kane agia como se eu fosse um moleque que não sabe de nada.
É claro que eu sempre fiz o certo pela Natalie... Por isso eu a mandei embora de Dawsonville, não foi?
Mas, se eu tinha tanta certeza disso, por que as coisas estavam tão confusas na minha mente?
Era ele! Aquele maldito estava fazendo joguinhos mentais comigo, exatamente como o Negan.
Sem pensar muito eu fiz meu punho atingir a mandíbula dele, então agarrei- pelo colarinho o joguei de encontro a uma árvore, de modo que ficássemos cara a cara. Eu não era tão bom com as palavras, mas eu ainda podia socar a fuça daquele cretino, até quebrar todos os dentes da boca dele.
— Natalie ficou porque te ama, isso está bem claro... — Ele continuou, sem se importar com a minha violência, não era como se aquele soco tivesse feito muita diferença em uma cara que já estava toda ferrada afinal. — Isso significa que cada cicatriz, cada dor cada lágrima, cada perda... é sua culpa.
Kane aproveitou a minha falta de reação e me empurrou para trás, ajeitando a jaqueta em seguida, limpando o sangue em sua boca. Ele mal se aguentava em pé, mas estava ali me enfrentando.
— Se você a amasse como deveria, Natalie seria sua única prioridade e você teria saído com ela desse inferno antes de ser tarde demais. Foda-se a coragem, foda-se a coisa certa! — Ele negou algumas vezes e deu alguns passos para trás.
Eu queria gritar que ele estava errado. Mas ele estava? A imagem de Natalie devastada naqueles túneis, a cena dela dizendo a Petter que Luka não voltaria me fez questionar tudo...
— Então eu repito: Eu morreria por ela, porque Natalie é minha única prioridade. — Ele declarou erguendo as duas mãos e franzindo os lábios como quem diz: "é assim que as coisas são". — Então lute pela mulher que você ama, porque eu vou!
Eu podia ter deixado Kane dar as costas, podia ter dado a maldita conversa como encerrada, mas eu não tinha sangue de barata. Apenas cerrei meu punho e o atingi em cheio.
Kane deu dois passos para trás com o impacto, então ergueu a cabeça e me encarou cheio de ódio, mas não revidou, limpou o sangue da boca e segurou a respiração, fazendo menção de dar as costas de novo.
Por que ele não tinha revidado?
A resposta não importou, o ódio ainda fervia em minhas veias, puxei Kane pelo ombro machucado, o desestabilizando por causa dor e lhe dei um cruzado de direita, que fez com que ele cambaleasse para trás.
Não esperei para continuar socando, uma vez atrás da outra, sentindo os nós dos meus dedos se ferirem. Mesmo quando eu vi que ele não reagiria, eu continuei. De novo e de novo.
Eu provavelmente o mataria. Eu o queria morto.
— Parem! — A voz feminina até chegou aos meus ouvidos, mas eu estava cego de raiva, por isso não dei atenção. — Eu mandei parar!
Uma mão firme me puxou pelo colete e me empurrou para trás assim que me tirou de cima de Kane, só então eu me dei conta que era Natalie.
Mesmo assim eu tentei avançar no idiota novamente e só parei porque Natalie se colocou na minha frente e bateu a mão no meu peito me empurrando para trás com violência.
— Qual é o maldito problema com vocês, porra?! — Ela olhou de um para o outro e eu não conseguia decifrar se ela estava muito irritada ou muito decepcionada.
— Ele mereceu! — Acusei entredente e Natalie me encarou de um jeito tão indignado que eu finalmente percebi que estava sendo imaturo.
Kane ainda estava no chão, mas começou a se levantar, seu rosto três vezes pior do que antes.
Eu sabia o que ia acontecer, o maldito daria uma de vítima e usaria aquilo pra se aproximar de Natalie.
— Desculpa... — Ele disse diretamente para ela, como se fosse mesmo culpado e limpou o sangue do rosto com a manga da jaqueta.
Ele não me culpou ou fez uma cena, não disse nada.
Natalie puxou todo o ar para dentro dos pulmões e o soltou de uma vez só, como se estivesse de saco cheio de tudo aquilo.
— Enquanto vocês estão aqui bancando os trogloditas, Tara e Dwight quase ferraram tudo. — Ela gesticulou irritada. — Eles encontraram um grupo de Salvadores perto da floresta e quase foram descobertos porque estavam, advinha só? Brigando. — O sarcasmo dela estava carregado de raiva. — Dwight se entregou para nós dar uma vantagem. Estamos saindo, quem não vier agora vai ficar pra trás.
Foi apenas isso. Ela passou por nós dois com passos pesados, sem olhar para nenhum uma segunda vez.
Kane saiu logo atrás, mancando, deixando claro que cada passo causava mais dor do que ele queria admitir. Eu segui logo depois de recuperar as garrafas de água, me sentindo idiota por ter me deixado levar daquele jeito.
Havia tanta coisa em jogo, eu não podia perder o controle das minhas emoções.
Segui calado o restante do caminho, sentindo os olhares em mim, como se todo mundo soubesse o que tinha acontecido, me senti ainda mais ridículo...
Meus pensamentos vagavam por tudo que Kane tinha dito e eu voltei a me sentir um lixo outra vez, todo aquele otimismo tinha ido embora.
E se ele estivesse certo sobre tudo?
Eu estava andando um pouco atrás do grupo com tudo isso na cabeça, quando Petter se aproximou de mim.
Ele me lançou um sorriso compassivo e olhou para a minha mão suja de sangue, como se soubesse exatamente o que tinha acontecido.
Me senti horrível, que tipo de exemplo eu estava dando para o menino?
Só então eu realmente me dei conta de como aquela minha reação tinha sido ridícula e imatura.
Olhei para Petter umas três vezes e soube que eu tinha que dizer alguma coisa.
— Eu não devia ter feito isso. — Admiti, tentando soar paternal. — Violência não é a solução pra nada.
Aquela coisa de ser pai era complicada, eu teria que começar a pensar melhor nos exemplos que eu dava.
— Eu sei. — Petter sussurrou, como se não quisesse que ninguém ouvisse. — Mas eu não ia dizer nada, porque você é o pai...
Tive vontade de socar a minha própria cara. Um menino de dez anos era mais maduro que eu e muito melhor resolvido. A melhor coisa que tinha acontecido com Petter era ter sido criado apenas pela Natalie, afinal que tipo de moleque ele seria se eu o tivesse criado?
Percebi que eu tinha muito mais a aprender com ele do que ele comigo...
— Mas você pode dizer sim, quando eu fizer alguma coisa estúpida, você pode me dizer. Eu vou te ouvir, porque você é meu filho. — Declarei, tentando fazer ao menos uma coisa certa na vida.
Eu realmente queria ser um bom pai. O pai que Will Dixon não tinha sido pra mim, e estava na cara que eu não conseguira sozinho, honestamente eu não sabia como a Natalie tinha conseguido.
Por isso, ouvir o Petter me pareceu uma boa ideia e, considerando que eu precisava ouvir um garoto de dez anos pra não ferrar tudo, é claro que eu era um bosta...
— Acho que devíamos começar não dizendo pra mamãe que não gostamos do amigo novo dela, ela vai ficar brava com a gente e qualquer um sabe que não é bom deixar minha mãe brava. — Petter sugeriu e senti que ele estava feliz por ajudar.
Se eu pudesse deixar ao menos meu filho feliz, então eu não era tão bosta assim.
— Me parece um bom plano. — Admiti bagunçando o cabelo dele.
Da primeira vez tinha sido tão complicado aquele simples gesto, mas aos poucos ficava mais natural... Me peguei gostando daquela coisa de ser pai, muito mais do que pensei que pudesse gostar.
— Eu sempre tenho bons planos. — Ele se gabou e abriu um sorriso.
Talvez fosse o primeiro sorriso de verdade que Petter abria desde que ficou sabendo da irmã...
Seguimos em silêncio depois disso e em cerca de mais duas horas chegamos a Hilltop.
Queria poder dizer que nossa chegada foi tranquila, mas logo de cara o primeiro problema surgiu. Alguém disse para Maggie que Kane era um Salvador e isso a deixou muito irritada.
— Nenhum Salvador vai ficar solto nessa comunidade. Temos um cercado, é lá que eles ficam. — Ela declarou muito firme, antes mesmo que o moreno tivesse chance de passar pelos portões.
— Ele está comigo. Eu confio nele. — Natalie argumentou, tendo mais paciência com Maggie do que eu a tinha visto ter com qualquer um naquelas últimas horas.
— Eu não me importo. Ou ele vai para o cercado, ou ele não entra. É minha palavra final. — Maggie não mudou de ideia.
— Ele ajudou a gente. — Rosita tentou interceder e Maggie lhe lançou um olhar frio.
— É por isso que ele tem a opção de sair vivo daqui.
Natalie respirou fundo e não pareceu muito satisfeita, eu me preparei para vê-la ter uma reação explosiva assim como ela tivera com Rick. Ela cerrou os punhos, mas Kane foi mais rápido:
— Tudo bem, você manda, moça. — Ele ergueu as duas mãos e deu um passo para longe do portão de Hilltop. — Eu vou aceitar sua oferta e vou embora.
— Não! — Natalie retrucou se virando para ele. — Eu disse pra você que...
— Eu sei o que você disse, Natalie. — Kane a cortou em um tom carinhoso que meu de ânsia. — E eu sei o que eu disse... Mas também sei que você e o seu garoto precisam da segurança desses muros agora. Então vocês ficam, tem uma cabana que eu vi no caminho, menos de dez minutos a pé, eu vou ficar bem, e se você precisar de mim eu vou estar bem aqui.
Me irritava vê-lo tão próximo dela, mas eu não podia deixar de admitir que o maldito se preocupava com a Natalie.
— Você está machucado. Precisa de cuidados e... — Ela tentou retrucar de novo, parecia exausta, mas continuava lutando.
— Posso ceder alguns suprimentos. — Maggie cortou ainda de braços cruzados.
Me dei conta que ela tinha acabado de perceber o que tinha acontecido com Luka, quando olhou ao redor e viu apenas Petter.
— É muita generosidade sua, moça, obrigada. — Kane agradeceu e olhou para Natalie como quem diz "viu? Vai dar tudo certo".
Maggie apenas revirou os olhos e se afastou, mas eu não conseguia dar um passo sequer para longe de Natalie.
— Eu não gosto disso. — A vi negar contrariada.
— Não é inteligente brigar com a líder do único lugar onde seu filho pode ficar seguro agora. Além disso, ela perdeu alguém também, e eu sou um Salvador, você não colocaria fogo em todos se pudesse? — Kane argumentou em um tom calmo e compreensivo e fiz uma careta de desgosto.
— Eu faria pior. — Natalie respondeu entredentes. — Mas você não é mais um Salvador.
— Eu não me importo com ela, Natalie. Eu sei me virar. — O maldito disse cada palavra como se tivesse um segundo sentido ali.
Era evidente a lealdade e adoração que ele tinha por Natalie e eu odiava isso.
— Você sabe que isso é o melhor e mais inteligente a se fazer agora, você precisa descansar, e o seu garoto precisa da mãe dele. — Kane argumentou convicto e Natalie suspirou vencida.
— Você está certo, Kane. — Ela cedeu finalmente. — Vou pegar suas coisas.
Ele assentiu e deu mais um passo para trás e assim o portão foi fechado, admito que fiquei mais aliviado por isso.
Natalie seguiu para o casarão em passos rápidos, ao mesmo tempo que Petter acenava para um menino mais ou menos do tamanho dele.
— Henry! — Os dois se abraçaram, mas eu não prestei atenção na conversa paralela que se formou, porque vi Carol e fui me certificar que ela estava bem.
Os sobreviventes do Reino tinham conseguido fugir de lá, todos eles, graças a ajuda de Morgan que tinha chegado de última hora.
Assim que Rick, Michonne e Carl voltassem estaríamos todos ali.
Não deixei que minha conversa com Carol se estendesse, ela pediu desculpas por não ter ficado e procurado por Natalie, mas eu disse que não era culpa dela e também segui para o casarão.
Enid chorava sentada na varanda, com Maggie ao seu lado, que me lançou um olhar compadecido. Soube que Natalie tinha falado sobre Luka... Enid era amiga da garota, isso explicava as lágrimas.
Entrei procurando por Natalie e a encontrei com a mochila já pronta, de saída. Ela passou por mim sem dizer nada, mas teve que parar quando foi abordada por Petter.
— Onde você vai mãe? — Ele perguntou, com uma carinha inocente.
— Eu vou lá fora levar isso para o Kane, já volto. — Ela avisou em um tom carinhoso.
— Não... — Petter lamentou e me lançou um olhar cheio de significados sem que a mãe visse. — Fica comigo...
Eu sabia que ele estava fazendo de proposito, para que a mãe não fosse ver o Kane.
— Eu posso levar isso. — Me ofereci, segurando a alça da mochila.
— Será que pode mesmo? — Natalie lançou acusatória.
— Eu sei que eu fiz merda, certo? Não vai acontecer de novo. — Falei perto dela, baixo o bastante para que Petter não escutasse perfeitamente.
Natalie olhou para o filho, então para mim e finalmente assentiu, mesmo que não parecesse totalmente satisfeita. Deixei os dois juntos e segui para o portão.
Kane estava abaixado, os cotovelos apoiados nos joelhos e o olhar no chão.
— Aqui. — Coloquei a mochila ao seu lado, tentando conter minha má vontade.
Ele ergueu o olhar na minha direção e eu percebi que tinha feito mesmo um belo estrago no rosto dele. Mas por algum motivo não me senti orgulhoso disso.
— Valeu. — Assentiu, colocando a mochila nas costas com dificuldade.
Ele não pretendia me dizer mais nada, apenas se virou e já tinha dado alguns passos, quando eu percebi que não podia deixá-lo ir sem perguntar:
— Por que não revidou?
Kane se virou para mim, me encarou por um tempo e então negou algumas vezes.
— Se você tem mesmo que perguntar, então acho que não entende nada de amor. — Ele deu de ombros, mas não tinha deboche em sua voz. — Sendo honesto, eu não gosto de você, não leva a mal, não é pessoal nem nada, eu só te acho um bosta. Mas isso não importa, porque a Natalie te ama, se eu te machucar, eu a machuco, é simples...
Era confuso... Mas de alguma forma fez sentido. Cruzei os braços e tentei não me irritar com o restante do que ele disse, resolvi ser maduro e dei meia volta.
— Dixon. — Ele chamou e eu me virei já contendo a raiva. — Ela precisa de apoio agora. Fique com ela, mas também lhe dê espaço.
O que caralhos aquilo significava? Como eu podia ficar com alguém e dar espaço ao mesmo tempo?
E como ele podia gostar da Natalie e entregá-la de bandeja pra mim daquele jeito? O idiota não tinha acabado de dizer que lutaria por ela? Que merda de luta era aquela?
Eu realmente não entendia aquele cara...
Mas eu assenti mesmo assim, como se já soubesse de tudo aquilo. Kane se afastou e eu finalmente voltei para Hilltop.
Ao entardecer Rick estava de volta, infelizmente todo o pessoal do lixão estava morto, apenas Jadis tinha ficado para trás, porque segundo Rick "ela não era útil". Carl parecia muito irritado com o pai, mas eu preferi não me meter.
Na verdade, eu tinha um assunto diferente para tratar com Rick, precisávamos falar sobre a Natalie...
➷•➷•➷•➷•➷
Era início da noite quando eu finalmente entrei no casarão novamente, eu não tinha visto Natalie todo aquele tempo, ela ficara dentro com Petter e eu tinha assumido alguns turnos de vigia depois de conversar com Rick.
A comunidade inteira estava se preparando para um possível ataque dos Salvadores e fortificando tudo que pudesse ser fortificado.
Encontrei Natalie em um dos quartos, Jesus dissera que tinha conseguido um para ela dividir com Rosita e Tara, afinal a comunidade estava com mais pessoas do que comportava.
Quando entrei no quarto Natalie estava acordada, sentada embaixo da janela com Bolt deitado em seu colo. Petter estava dormindo em uma cama com o outro garoto do Reino, Henry, enquanto Rosita e Tara tinham improvisado algo no chão.
— Hey, como ele está? — Apontei em um sussurro, enquanto me aproximava.
— Triste, mas se fazendo de forte. Tentando ser otimista. — Ela deu de ombros e parecia tão exausta que eu só quis me sentar ali ao lado dela para deixar que ela dormisse no meu colo. — Talvez ter companhia agora seja uma boa coisa. Carol disse que o garoto perdeu o irmão mais velho também, acho que é bom ter amigos por perto nessas horas...
Concordei com um aceno, eu sabia que assim que falasse o que tinha decido, ela poderia descansar sossegada.
— Podemos conversar? — Apontei a porta e ela assentiu sem ânimo, levantando e me seguindo.
Desci as escadas e entrei no escritório, vendo que o local estava vazio, Maggie devia estar se ocupando das coisas da comunidade.
Natalie se encostou na mesa e me esperou falar.
— Eu conversei com Rick, e acho que o melhor agora é você ficar longe de tudo isso que está acontecendo. Quando a batalha começar você devia ficar em segurança com Petter e os outros que não vão lutar. Você não precisa passar por mais nada disso. — Expliquei o teor de minha conversa com xerife em um tom calmo, para que Natalie se sentisse tranquila.
— Você falou com o Rick, sobre o que eu devia fazer? — A resposta veio indignada. — Desde quando vocês dois decidem a minha vida?
Eu pensei que ela ficaria feliz de poder ficar com Petter...
— Nós só queremos o melhor pra você. — Tentei explicar nossas intenções. — Eu quero o melhor pra você.
Natalie cruzou os braços e negou estreitando os olhos.
— Pra mim parece que você está com medo de me perder, então está me isolando de tudo. — Ela acusou, como se fosse algo ruim.
Eu não conseguia entender aquele posicionamento.
— E eu estou errado? — Questionei, dando um passo para mais perto dela. — Eu pensei que você estivesse morta, isso foi... eu nem consigo explicar como foi.
Natalie descruzou os braços e respirou fundo. Eu só queria que tudo aquilo ao nosso redor acabasse, eu só queria paz, queria que Natalie e Petter ficassem seguros.
— Eu não posso te perder, Natalie, eu não posso sequer arriscar. — Admiti e nossos olhos se encontraram. Eu soube que era o momento, não podia perder outra oportunidade... — Eu te amo.
As sobrancelhas de Natalie franziram levemente e ela tombou a cabeça para a esquerda, como se estivesse se certificando que tinha ouvido direito, então seus olhos marejaram e seu corpo tremeu.
— Eu te amo. — Repeti, sentindo que havia algum tipo de libertação em dizer aquelas três simples palavras em voz alta.
Devia ter dito aquilo muito antes, muitas vezes, nunca devia ter parado de dizer naqueles dez anos.
Ergui a mão direita para tocar o rosto de Natalie e puxá-la para um beijo, mas ela se esquivou de mim como se estivesse assustada, eu diria até com raiva.
— Sério, você me ama? Agora? Depois de dez anos? Você esperou todo esse tempo pra me dizer justo agora que me ama? — Ela soou um tanto transtornada. — Você acha mesmo que é um bom momento, Daryl?
Eu não consegui entender o que eu tinha feito de errado. Abri a boca para dizer alguma coisa, mas não havia nada... Aquela reação não era a que eu esperava de Natalie.
— Sabe o que eu acho? Você não me ama, Daryl, você só ficou assustado demais com a possibilidade de criar uma criança sozinho... — Havia um certo tom de acusação na voz dela. — Então, você me viu com Kane e veio aquele sentimento de posse. Você surtou e atacou um cara ferido, porque estava se sentindo ameaçado por ele. Isso é amor?
Tentei colocar minhas ideias em ordem e entender o ponto de vista de Natalie, mas todo meu corpo tremia e era difícil me concentrar.
— Eu entendo que você está brava, certo? — Ergui as duas mãos pedindo calma. — Mas você está sendo injusta...
— Injusta? — Ela repetiu ultrajada. — Injusta?!
Certo, aquele não era o caminho, talvez eu tivesse que ser um pouco mais honesto. Era só um palpite, porque eu não fazia ideia de como lidar com aquilo...
— Você está certa, okay? — Tentei um tom apaziguador e me coloquei no caminho de Natalie. — Eu fiquei apavorado com o fato de criar um filho sozinho e sim, eu odiei te ver perto daquele idiota que só falta te lamber, eu fiquei com ciúmes, certo? Porque eu te amo, eu sempre amei. — As palavras saíram depressa da minha boca, como se eu não tivesse controle sobre elas, eu só queria consertar tudo aquilo, voltar ao que tínhamos sido um dia, os dias em que Natalie parecia feliz. — E agora eu só quero que te proteger de todo esse sofrimento.
Natalie negou algumas vezes, sua expressão era confusão, dor e algo que eu não conseguia decifrar.
— Deus... — Ela exclamou, como se algo terrível e inacreditável tivesse acontecido, se esquivando de mim uma vez mais e passando as mãos pelo rosto, tentando controlar a respiração como se estivesse prestes a explodir.
Ela se virou com os olhos marejados e caminhou para a janela, apoiando as duas mãos no parapeito e curvando o corpo, como se estivesse recuperando o fôlego depois de uma longa caminhada.
Eu esperei, porque honestamente não sabia mais o que dizer eu fazer. Eu estava perdido. Não sabia mais o que Natalie queria ou esperava de mim...
— Você não pode me proteger de sofrimento nenhum, Daryl... — Ela declarou em um tom calmo, mas profundamente sentido, sem olhar para mim. — Porque você nunca está lá. Você nunca esteve. E eu entendo que você tem um bom motivo na sua cabeça todas às vezes, mas esse é o ponto: Sempre tem um motivo entre você e eu, uma dor, um trauma. E eu estou cansada, Daryl, eu estou cansada de esperar por você e você nunca estar lá pra mim.
As palavras me impactaram mais do que eu podia prever e Natalie ergueu a cabeça, se virando na minha direção, as lágrimas rolavam por seu rosto, mas ela sustentou o meu olhar, firme e forte, mas só então eu vi o quanto ela estava quebrada.
— Você não estava lá depois da morte do meu pai; você não estava lá quando eu tive que voltar pra uma casa que eu odiava; você não estava lá quando eu queria morrer, porque não sabia o que fazer com o bebê dentro da minha barriga; você não estava lá todas ás vezes que eu bebi até cair, escondido de todo mundo, porque eu sabia que seria julgada por ter um neném de três meses no ventre. — O corpo dela tremeu junto com o choro, ou talvez tenha sido o meu corpo que tremeu. — Eu estava sozinha, Daryl! Eu sempre estive sozinha, porque eu estava esperando por você!
Natalie respirou fundo e o ar saiu aos trancos de seu pulmão, ela tentava controlar o choro pra falar, porque não conseguia fazer os dois.
Pela primeira vez eu encarei todo o sofrimento que causei e não foi bonito...
— Mas você não estava lá... Quando eu quase morri na maternidade, porque fui uma filha da puta a gravidez toda. Quando eu levei aquele neném pequeno e indefeso pra casa, você também não estava lá, era só eu! Eu estava sozinha toda noite com a responsabilidade e a incerteza, e toda a vez que ele chorava, eu chorava também, porque eu não fazia ideia do que fazer, porque eu só queria você e era como se eu tivesse só metade do coração no peito... Como eu poderia me doar inteira para uma criança, se eu não estava inteira? — Ela teve que parar um segundo para controlar o choro que vinha sem controle e eu limpei o rosto com as costas da mão. — Você nunca esteve lá. E eu sei que não posso te culpar por isso, mas honestamente não diminuí o sentimento de abandono.
Ela negou e abaixou a cabeça, soltando um suspiro pesado e decepcionado.
Eu era apenas um amontoado de sentimentos, todos ao mesmo tempo; raiva, vergonha, culpa... Eu não conseguia controlar tudo aquilo de uma vez.
— Você acha que eu não sei disso? — Minha voz saiu muito mais alta do que eu pretendia, mas eu achei que gritar era o único jeito de colocar tudo aquilo pra fora e impedir que me sufocasse. — Acha que eu não me arrependo todos os dias, porra?
Joguei a mão no ar em um movimento exasperado e Natalie me lançou um olhar triste, cansado, magoado, ela franziu os lábios e meneou a cabeça.
— Eu quero acreditar em você, Daryl, quero mesmo. — Seu tom se acalmou um pouco. — Mas a verdade é eu continuo sozinha...
— Isso não é verdade, eu estou aqui por você. — Retruquei no mesmo momento.
— Você está? — Ela questionou em um tom compassivo, não estava irritada, só decepcionada, muito decepcionada. — Você pensou que eu estava morta, por horas. Onde você estava?
A pergunta me atingiu em cheio, eu queria explicar meus motivos e então eu percebi que Natalie estava certa: sempre tinha um motivo ou um trauma entre a gente...
Meu silêncio a fez se encostar na mesa do escritório, ela me olhou por um momento e eu senti que havia algo se quebrando entre nós.
— Quer saber onde eu estava? — A pergunta veio baixa, quase envergonhada, Natalie focou os olhos no chão e assim ficou por vários segundos, até que recomeçasse. — Eu estava esperando por você, como sempre... Eu acreditei que você estaria lá por mim, mas de novo você não estava. Então eu esperei, sozinha, com o corpo da minha filha no colo e uma faca na mão, porque eu não tinha força o bastante pra tirar aquela placa de metal de cima dela... Eu achei que você chegaria para que eu não tivesse que fazer aquilo sozinha. Mas você não chegou. Então, quando ela abriu os olhos, eu passei horas pensando que talvez eu devesse deixar ela me morder, porque eu estava sozinha e exausta e não tinha ninguém lá por mim. Eu tive que vencer essa batalha sozinha. Como todas as outras...
Quando ela ergueu os olhos na minha direção, eu vi culpa, arrependimento e uma tristeza tão grande que podia destruir toda a felicidade do mundo.
— Você não estava lá mais uma vez, Daryl, quando Negan chegou e mandou queimar o corpo da minha filha junto com o galpão como se ela fosse nada... — Ela fechou os olhos e deixou as lágrimas escorrerem.
Eu senti como se meu mundo todo estivesse desmoronando, como se a culpa me esmagasse, pesada e impetuosa.
— Mas você disse que... — Minha frase ficou perdida no meio das coisas que Natalie dissera nos tuneis.
— Eu menti, menti porque não queria que Petter tivesse essa memória. — Ela confidenciou em um fio de voz.
Todas as peças começaram a se encaixar, mesmo a cumplicidade de Natalie e Kane fez um pouco mais de sentido. Ele não estava todo ferrado daquele jeito porque tinha matado outro Salvador, era por ter ajudado Natalie de alguma forma...
— Sinto muito. Me perdoa, eu... — Tentei dizer o quando eu estava arrependido, devastado, mas Natalie apenas ergueu a mão como se não quisesse ouvir.
Eu devia saber quando ela contou aquela história colorida, eu devia ter lido a dor nas entrelinhas... Como eu pude ser tão cego?
Me senti egoísta, cruel, um monstro.
— Eu passei uma vida toda tentando entender os seus motivos, as suas dores, os seus traumas, relevando o quanto você me machucou, porque você estava machucado também. — Ela enumerou todas as verdades de forma calma. — Mas eu cansei, Daryl.
Nossos olhos se encontraram e as lágrimas voltaram, minhas lágrimas, Natalie permanecia ali, como se não tivesse mais nada o que chorar.
— Não posso lidar com tudo isso, não agora, sinto muito. — Ela meneou a cabeça e deixou os ombros caírem. — Eu estou exausta, não tenho forças pra consertar isso.
Virou as costas e deu alguns passos e em direção a porta. Natalie estava desistindo de nós.
— Hey. — Segurei sua mão, a fazendo voltar. — Então deixa que eu conserto. Eu posso fazer as coisas darem certo, eu posso ser um homem melhor, eu prometo.
Eu estava implorando, com cada pequena partícula de força que ainda tinha em mim. Eu só queria uma chance pra provar que nunca mais a desapontaria. Não podia perdê-la outra vez. Eu precisava de Natalie assim como um peixe precisa de água, e eu demorei dez anos para perceber que estava sufocando sem ela, subsistindo em um solo árido, porque tinha medo de me afogar na única coisa que eu precisava pra viver.
Natalie me lançou um olhar quase compassivo, mas triste, melancólico...
— Sinto muito. — A mão dela escorregou da minha lentamente. — Eu não posso fazer isso agora... Acabou, Daryl.
Ainda tentei segurar seus dedos, mas Natalie se foi, saiu pela porta sem olhar pra trás.
Eu soube que aquilo era algum tipo de justiça divina, porque era exatamente o que eu tinha feito com ela quando virei as costas em Dawsonville.
No fundo, a pior parte, é que eu merecia aquilo... Como eu podia consertar algo que eu mesmo tinha quebrado?
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