Notas iniciais
Surpresa!!! Advinha quem chegou com esse capitulo enorme (enorme MESMO) um dia antes do combinado?? Euzinha!!! (~eu com cara de princesa piscando os olhinhos freneticamente~) Pera, pera, pera! Primeiro tenho que agradecer a Luh Renovata Salvatore por ter deixado a segunda recomendação da fic!!!!! ahhhhhhhh genteee eu estou muito animadaaa. Sério, Luh sua lindaaa, obrigadaaa mesmo por todo seu carinho com a minha nenem Lifeline ❤ Agradecimentos também aos comentários amorzinho do cap passado. Cubo Mágico, Pâmella Viana, Mahilia, NandaNascimento, Luh Renovata Salvatore e Menta, fica aqui meu muito obrigadaaa e saibam que vocês tem um lugar especial no meu coraçãozinho ❤ E agora falando do capitulo... Vocês lembram que eu disse que ia maneirar no tamanho? Pois é, não rolou, fica pra proxima uahsuahsuahsush, rolou até uma enquete lá no grupinho pra saber se eu postava tudo ou dividia (tem grupinho gente, todo mundo amorzinho por lá, zona segura, palavra, rola até uns spoilers, o link tá no meu perfil) felizmente a maioria preferiu ler tudo de uma vez (ainda bem, porque seria uma pena guardar metade desse cap pra outro dia uahsaushush) E então vamos lá, preparem os corações porque é realmente um teste de Limites. Natalie vai mostrar todo seu lado jogadora nesse, ao mesmo tempo em que vemos se tem ou não espaço pro Daryl no coraçãozinho dela. Boa leitura!

• NATALIE COOPER •

As noites no Santuário eram silenciosas, a maior movimentação acontecia do lado de fora, com vigias que se estendiam em pontos estratégicos. Estratégia essa, que consistia em inibir as pessoas de sair, mas era falha quando se tratava de impedir pessoas de entrar.

Negan, em sua total prepotência, achava que os mortos presos na cerca eram o bastante para evitar qualquer invasor. Ele tinha os números, então o que temer?

O problema maior eram os Pontistas querendo dar o fora daquele inferno, por isso haviam pontos de vigias nas saídas, as portas de ferro eram trancadas, e o galpão principal também. Dentro dos corredores das alas comuns as rondas eram periódicas, mas como todo resto ali dentro não havia uma cronologia exata para troca de turnos nem nada assim. Dependia do humor de Negan e da necessidade que ele via de haver uma patrulha em determinadas áreas do Santuário.

Naquela noite em particular Simon era o responsável pela vigia dos quartinhos que faziam a vez de celas, havia uma saleta em que ele se instalara, logo no começo do corredor, que lhe dava vista para todas as portas. Inclusive a que Daryl estava.

Como eu sabia disso? Ele mesmo havia me falado da sua rotina, pois queria ver Tony e pediu uma refeição no meio da madrugada. A ordem foi o bastante para tirar o cozinheiro do galpão principal e colocá-lo no refeitório, que ficava em uma parte livre a perambulação.

Simon pensava em tudo, e quem é que desconfiaria do braço direito do chefe?

Por algum motivo estúpido eu havia saído do meu quarto e estava escondida ao lado da saleta de vigia, parada em uma entrada estratégica, de onde o casal lá dentro não podia me ver.

Eu não tinha conseguido dormir, como era de costume, mas daquela vez o motivo era outro. Eu sabia que Daryl estava em um daqueles malditos cubículos e minha mente tinha se enchido de questionamentos que eu era incapaz de responder.

De onde estava, além de ver a saleta de Simon, eu podia ouvir uma música irritante que vinha de um dos cubículos, uma batidinha alegre e alguns versinhos sobre uma "Easy Street" tocavam em um looping infinito, o tipo de coisa que deixaria qualquer um louco depois da primeira hora. Seria impossível dormir, ou pensar, e eu sabia que estava tocando o dia todo.

Aquela tortura era uma versão diferente da minha, onde Negan deixou tocando músicas de ninar infantil por tanto tempo, que eu simplesmente cheguei a cogitar furar meus próprios tímpanos.

Eu sabia exatamente como era estar naquele maldito quartinho, sozinha, no escuro e se sentindo culpada por cada coisa terrível que acontecera...

Mais cedo eu acabei descobrindo que Daryl estava ali por ter socado Negan, e que isso causou a morte da segunda pessoa no grupo em que ele estava. Não que eu acreditasse realmente que Negan matasse alguém sem planejamento, mas se Daryl Dixon ainda era o mesmo Daryl Dixon de Dawsonville, então ele estava se culpando por isso.

De primeira tentei me abster, ele não era problema meu, eu tinha que me manter distante e focada no meu objetivo, meus filhos precisavam de mim mais do que ele. Quer dizer, Daryl não precisava de mim, ele tinha deixado isso bem claro quando me mandou partir. Ele estava melhor sem mim.

Mas eu nunca fui boa com negação, com fechar os olhos para a realidade. Eu tentava constantemente dentro do Santuário, não me envolvia e mantinha as pessoas a uma distância emocional segura, mas Daryl não era uma pessoa que eu nunca tinha visto na vida, eu e ele já tínhamos passado aquele lance de "distância emocional segura" há muito tempo, isso não era algo que podia ser desfeito. E eu, simplesmente, não conseguia deixar de me preocupar.

Por esse motivo estava ali parada, sem um plano, sem objetivo, apenas parada, menos de dez metros entre mim e ele, separados por algumas paredes e muita merda pós-apocalíptica.

E, dentre toda a confusão que eu era naquele instante, uma pergunta se destacava: Por que Daryl estava em Washington? Por que justo em Washington? No meio de todas as respostas simples e que nada me envolviam, no meio de coincidências estúpidas e de coisas óbvias, uma conclusão mexeu comigo mais que qualquer outra coisa.

Daryl podia estar em Washington por minha causa.

Tal pensamento me fez rir de imediato. Fazia dez anos, ele teve todas as chances de me procurar e não o fez, não faria sentido naquela altura do campeonato... Mas, ao mesmo tempo, a esperança começou a tremular no meu peito, como uma chama recém acesa.

Quando a epidemia iniciou, no meio do caos que a cidade se tornou, a primeira coisa que eu pensei foi em fazer as malas e dirigir até Atlanta, para uma certa pedreira em que decidíramos nos encontrar, caso o mundo acabasse. Uma promessa infantil, que tínhamos feito naquele mesmo lugar, numa noite que ficou marcada na minha memória para sempre.

Eu cheguei a fazer as malas, cheguei a dizer ao Petter que iriamos ver o pai dele, mas nunca chegamos até lá... Entre toda a desgraça, perigo, fome e dificuldades que passei, acabei percebendo que deixar meus amigos para trás e a segurança da nossa recém construída Sherrwood, com duas crianças no carro, só para encontrar um homem que eu nem sabia se estaria lá, seria a maior loucura de todas. A segurança dos meus filhos falou mais alto.

Claro que Luka nunca foi exatamente uma criança, e que Petter tinha algo como um dom natural para sobrevivência, mas ainda assim era perigoso. Era o momento de ser mãe, o desejo de Petter de conhecer o pai não podia colocar em risco a segurança dele. Decidimos não ir.

Foi a primeira vez que quebrei uma promessa...

Uma pequena discussão de Simon e Tony chegou aos meus ouvidos. De onde eu estava podia vê-los mesmo que parcialmente.

— Você sabe que eu não posso fazer isso, Passarinho. E mesmo que eu pudesse, lá fora é perigoso, ficar aqui é para o seu próprio bem. — Simon tentava argumentar, como se os dois estivessem no meio de uma discussão.

Fiz uma careta para o apelido ridículo e me dei conta que aquela conversa não seria algo legal de ouvir.

— Não, não é. Ficar aqui dentro preso ouvindo deboche e cozinhando é para o seu próprio bem. Pare de me chamar de Passarinho e de manter nessa maldita gaiola dourada. Eu sou tão qualificado quanto qualquer um deles e você sabe disso, Simon. — Anthony estava bravo, o que me surpreendeu, aquela postura agressiva não era algo que se via nele.

— Isso é porque eu dormi com aquela garota, não é? Você sabe que eu tenho que... — Simon tentou tocá-lo, mas Tony se esquivou.

— Não é. Temos uma relação aberta e eu entendo isso. O ponto aqui é que eu já provei minhas habilidades muitas vezes, mas você me anula toda vez com esse papo de proteção. Negan nunca vai me notar se você ficar me escondendo, e eu não estou falando de escondendo nossa ligação. Falo de esconder meu potencial. Se eu fosse qualquer outro cara você já teria feito Negan colocar uma arma na minha mão. — Eram acusações bastante pertinentes, qualquer um ali dentro sabia dos prós de ser um Salvador e não um Pontista, não que, na prática, fosse muito melhor, era tudo ilusão, no fim todos pertencíamos ao Negan.

— Mas você não é qualquer outro cara, sabe disso. — Fiquei na dúvida se aquilo era apenas um jeito do Simon ter o controle, ou se ele realmente se importava.

As certezas que eu tinha sobre o relacionamento dos dois estavam caindo por terra, não que fosse realmente da minha conta.

— Esquece. Melhor eu voltar pra minha cozinha. — Anthony jogou as mãos para o alto, como se estivesse de saco cheio de tudo aquilo

Tive que me espremer contra a parede quando ele passou batendo os pés.

— Mas que merda! — Simon foi logo atrás e os dois sumiram da minha vista.

E, de repente, éramos apenas eu e o corredor, com a maldita musiquinha tocando.

Sem pensar muito caminhei até a porta, constatando que ela obviamente estava trancada.

Pensa rápido, pensa rápido.

Corri até a sala de Simon e encontrei o chaveiro facilmente, correndo de volta até a porta em seguida.

Eu só tinha que colocar a chave na maçaneta e... E o que?

Parei. Aquela era a maior insanidade de todas. Eu não podia soltar o Daryl. Primeiro: quando eu abrisse aquela porta surgiriam muitas perguntas que não teríamos tempo para responder. Segundo: Simon voltaria a qualquer segundo e provavelmente nos pegaria no corredor. Mesmo que Daryl conseguisse correr, todas as portas estariam trancadas, sem armas, sem plano. Aquilo era uma idiotice.

Abaixei a mão dei um passo para trás. Eu não podia fazer aquilo. Seja lá o que eu e Daryl tínhamos vivido no passado, aquela era uma outra vida. Eu não era, e nem podia ser, uma garotinha apaixonada, eu era mãe, meus filhos eram prioridade.

Eu não podia ajudar. Qualquer coisa que me ligasse a Daryl ali dentro seria mais prejudicial que benéfica.

Aquele lapso de achar que éramos as mesmas pessoas de antes não podia acontecer novamente, não estávamos mais apaixonados. Nosso tempo tinha passado.

Voltei para a sala no final do corredor sentindo um peso enorme no meu coração. Uma sensação de impotência que parecia pressionar meu peito e me impedir de respirar, e a maldita música ao fundo que de alegrinha passou a parecer macabra.

Encarei o aparelho de som sobre a mesa, tocando ininterruptamente a mesma faixa, que era transmitida diretamente para dentro do cubículo.

Podemos não estar mais apaixonados, mas ele ainda é o pai do meu filho. Decidi recobrando o controle e o pensamento crítico.

Caminhei até o som e puxei os dois fios de instalação das caixas, a música cessou no mesmo instante e eu os enfiei juntos no mesmo encaixe novamente, causando um curto circuito que queimou a instalação inteira e inutilizou os fios. Coloquei tudo no lugar rapidamente para que não ficasse nenhum vestígio meu ali.

Não era uma solução permanente, eles trocariam aquilo ao amanhecer, mas, pelo menos, Daryl teria algumas horas de descanso, era o máximo que eu podia dar a ele no momento.

Enquanto isso eu teria que pensar em um jeito de ajudá-lo sem me envolver.

Voltei para o quarto rapidamente, me espreitando pelos corredores para não ser pega por ninguém, eu não podia mais correr aquele tipo de risco.

Quando virei na direção do meu quarto suspirei aliviada, nada de ruim tinha acontecido.

— Caminhada noturna, Cooper? — Kane perguntou, parado bem em frente à minha porta, em um ponto cego que me impediu de vê-lo ali.

Merda! Merda! Merda! Por que aquele cretino não podia sair do meu pé?

— Andar me ajuda com a insônia. — Dei de ombros como se não fosse nada demais. — E você? Sempre fica espreitando o quarto das pessoas, como algum tipo de maníaco sexual?

Eu estava prestes a segurar a maçaneta, mas Kane Bennet o fez mais rápido, mantendo a porta fechada.

— Na verdade, você não faz ideia das coisas que eu faço. — Soou baixo e frio, como uma ameaça, para logo depois empurrar a porta e me ceder passassem com um gesto amplo da mão.

Entrei, dando pequenos passos de costas e segurando a porta, pra que ele não passasse, mesmo que Kane não tenha feito qualquer tentativa nesse sentido.

O encarei por três segundos, incapaz de decifrar sua expressão. Até que Bennet relaxou por completo e abriu um de seus sorrisos superiores.

— Contar carneirinhos seria mais eficaz. — Me jogou algo que eu por reflexo peguei no ar. Era uma cartela de analgésicos.

Me lembrei de ter me queixado de dor de cabeça para fugir para o meu quarto mais cedo. Não que isso explicasse Kane na minha porta no meio da madrugada. Talvez eu devesse tomar mais cuidado com ele.

— Até amanhã, Cooper. — Se despediu e partiu sem esperar minha resposta.

➷•➷•➷•➷•➷

Segundo dia do Daryl no Santuário, minha terceira noite sem dormir. Eu sabia que aquilo não podia se tornar um habito, mas era inevitável.

Ainda não tínhamos ficado cara a cara, o que me dava algum tempo para me preparar para aquele momento. Eu havia decidido durante a noite que seja lá o que fosse eu não me envolveria. Queimar aquela fiação, ariscando ser pega, tinha sido um ato impulsivo e idiota, eu não podia fazer nada assim outra vez. Eu tinha que agir como se não conhecesse Daryl Dixon, estava decido.

A manhã passou depressa, um carregamento com porcos enormes havia chegado de uma das comunidades e isso deixou as pessoas animadas.

Eu quase me senti normal, longe do harém de Negan e de Kane, a maior parte dos homens importantes do chefe tinham sumido, Simon estava no comando, junto com Arat. Ela não gostava de mim, se é que alguém ali gostava, então me colocou para trabalhar duro, o que no fim foi ótimo para ocupar minha cabeça com outras coisas.

Depois do almoço o inferno começaria outra vez, Simon disse que Negan havia dado ordens especificas para que eu fosse para o harém.

O mais frustrante era que aquela vigia às esposas só era importante quando eu vigiava, caso o contrário aquilo nem era um trabalho usual do Santuário.

Simon estava disperso e assim que eu cheguei ao refeitório percebi que Tony estava de mau-humor. Parece que havia problemas no paraíso.

O cheiro de porco assado se alastrava pelo lugar, deixando-o mais movimentado que usualmente, até os Pontistas estavam dispostos a dever um pouco mais por um pedaço do animal.

Eu nunca gostei muito de ver animais sofrerem, claro que com o fim do mundo caçar se tornou essencial, mas dentre todas as coisas horríveis que eu era obrigada a fazer e aceitar dentro do Santuário, não comer o porco, que eu tinha acabado de tirar vivo do caminhão, era uma escolha que eu podia fazer. Era uma forma de ser um pouco mais Natalie do que Negan.

Idiotice eu sei, porém, qualquer coisa que me fizesse sentir mais humana já era uma grande coisa.

Estava sentada mais afastada dos outros, como de costume, quando Josie apareceu ali. Como eu disse: as esposas só eram obrigadas a ficaram no harém quando eu estava de guarda, a tortura era para mim, não para elas.

— Oi. — Ela cumprimentou naturalmente, se sentando mesmo sem ser convidada.

Silêncio. Eu não queria conversar com ela, o último teste já tinha sido o bastante.

— Você não está comendo a carne, estão dizendo que está deliciosa. — Puxou assunto em um tom leve.

— Se está tão gostosa, porque você não está comendo? — Cortei sem muito tato.

Não que eu a culpasse pelo que tinha acontecido, eu só não queria me envolver, eu já tinha muita dor de cabeça por estar envolvida com um prisioneiro.

— Eu sou vegetariana — Josie respondeu meio sem jeito. — Eu sei é uma idiotice nos dias de hoje.

Ela baixou os olhos para o prato, mexendo em algumas ervilhas e eu a encarei por três segundos.

— Não é, não. — Dei de ombros, eu não tinha que ser uma escrota afinal.

Silêncio novamente, mesmo que à nossa volta as mesas cheias preenchessem o ambiente com burburinhos de conversas diversas.

Comecei a desconfiar da presença de Josie, esse era o problema com tentar sobreviver no Santuário, tudo era motivo para paranoia e eu, possivelmente, já estava no limiar da minha sanidade.

— Olha, sinto muito por ontem, sabe eu só... — Ela tentou, mas eu ergui a mão interrompendo

— Você não precisa se desculpar, sei que só estava fazendo o que foi ordenada. — Josie abriu um sorriso mínimo e assentiu, mas não pareceu convencida.

Eu realmente não achava que era culpa dela, Negan era o mestre das marionetes, nós éramos apenas as bonecas, cheias de fios que ele manipulava muito bem.

— Eu sei... — Josie escorregou o prato para um pouco mais perto. — É só que Negan as vezes pega pesado, quer dizer, ele é ótimo, eu o amo, mas ele passa dos limites às vezes, é o jeito dele.

Tentei não fazer nenhuma careta. Ouvir alguém dizer que amava Negan, sem que ele estivesse por perto, era bem bizarro.

Fiquei na dúvida se era mais um joguinho, ou se a garota realmente pensava aquilo.

— Ele só estava fazendo o que é necessário para manter o lugar de pé. — Respondi, por via das dúvidas, e Josie assentiu, voltando a comer por um tempo.

— Eu não lia a sua coluna, Negan que contou sobre ela. Sinto muito te lembrar disso.

Encarei a garota de olhos redondos e ela parecia mesmo sentida.

— Já disse que não precisa se desculpar. — Repeti e Josie assentiu novamente.

— Ele não é ruim, quer dizer se a gente fizer tudo certo as coisas podem ser boas, somos muitas e nem sempre temos que estar com ele, sabe, fisicamente. Eu já tive namorados piores e mais feios também. — Ela riu discretamente, como se aquilo fosse alguma piada, mas eu permaneci séria.

Sua postura era diferente da do dia anterior, comecei a perceber que aquilo não era uma atuação, aquela era ela mesmo, apenas uma garota um tanto perturbada.

Afinal, tinha que ser pelo menos um pouco perturbada pra realmente achar que Negan não era ruim...

— Mas você não acredita em mim, porque agora eu sou a mentirosa do Santuário. — Completou, vendo que eu não tinha dado muito crédito para as palavras dela. — Tudo bem, eu já acostumei, ele sempre me pede essas coisas.

Senti pena, que tipo de coisas aquela menina devia ter passado para achar que Negan era um homem aceitável?

Ela não era muito mais velha que a Luka... O pensamento me causou um nó no estômago.

— Eu acredito em você, só não acredito que a sua verdade seja boa pra mim. — Comentei, desejando que aquela conversa acabasse logo.

Josie assentiu novamente, percebi que era meio que um tique dela balançar a cabeça e sorrir nervosamente.

— É faz sentido, por causa do lance do passado... — Jogou e eu soube que ela estava falando sobre eu e Negan já nos conhecermos. Eu não fazia ideia de quando aquela história tinha se espalhado e provavelmente minha expressão denunciou isso, porque Josie respondeu em um tom banal: — Ah, não esquenta, tudo mundo sabe.

Ter Negan no meu pé era terrível, mas ter uma legião inteira de Salvadores e Pontistas me olhando feio. porque achavam que o chefe me beneficiava era ainda pior.

— Mas pensa pelo lado positivo, pelo menos você não tem que ver o seu ex todo dia aqui dentro. — Acompanhei os olhos de Josie por impulso e vi Sherry chegar no refeitório, passando por Dwight que estava deixando o lugar no mesmo momento. — Negan nunca daria nenhuma de nós pra outro cara.

Comparar Negan e Dwight era a mesma coisa que comparar esterco com titica, tudo a mesma merda. Ou talvez fosse apenas o meu ranço falando mais alto.

— O que Negan promete ele cumpre. Diferente do D que prometeu cuidar da mulher e teve que voltar com o rabinho entre as pernas, depois de não dar conta e ter matado a cunhada. — E pelo visto eu não era a única pessoa com birra do Dwight ali, Josie revirava os olhos enquanto falava, deixando claro seu desdém — Agora, tem que ficar andando por aí com a jaqueta e o arco e flecha do prisioneiro novo, porque não faz mais ideia de quem é de verdade. Quem é que vai querer um homem assim? Sou mil vezes o Negan, ele pode ser ruim com os outros, mas nunca fez mal para nenhuma de nós.

Eu podia listar, pelo menos, dez coisas que Negan tinha feito de ruim para aquelas garotas, mas não foi aquela parte da frase de Jô que chamou minha atenção.

— Espera, Dwight já tinha a crossbow antes do prisioneiro. Ele só pegou o colete. — Tentei acertar a linha temporal que tinha acabado de se confundir na minha mente.

— Você não conversa muito com as pessoas, não é? — Josie soltou uma risadinha, como se eu fosse uma boba.

— Como assim?

— Deixa pra lá, é como todo mundo diz: "o que a gente conversa quando você não está aqui, não é da sua conta". — Ela recitou uma das frases características do Santuário e eu me contive para não revirar os olhos. — Quer dizer, sem ofensas.

— Não ofendeu. Não era algo que me interessasse na verdade. — Desconversei, como se realmente não me importasse e Josie se levantou para ir em direção as outras garotas.

— Nos vemos mais tarde, então. — Despediu-se, trocando um aceno de cabeça com Kane que tinha acabado de chegar.

— Uh! olha só quem está fazendo amigas. — Ele começou, com seu tom debochado, enquanto se sentava no lugar onde Josie estivera. — Isso é bom, logo vocês vão morar juntinhas. Tomara que me deem um parceiro bem foda, quando você for promovida à esposa.

— Vai à merda, Kane! — Xinguei, sem paciência e ele riu.

Uma das Pontistas, alta e de cara quadrada, com cabelos longos cor de terra, se aproximou e sentou ao lado de Kane sem nem se dar ao trabalho de olhar na minha cara.

— Eu precisava de uns pontos extras, Kane... — Praticamente ronronou, enquanto sorria lasciva.

Eu meneei a cabeça, simplesmente focando no meu prato. Kane sorriu, meio falastrão, enquanto tocava o cabelo da moça, descendo os dedos por todo seu comprimento.

— Vou deixar uma ordem de saída pra você, com quem ficar de guarda hoje, passa lá no meu quarto e tenho certeza que vamos encontrar uma forma de você ganhar alguns pontos. — O tom dele foi bastante sugestivo e a mulher pareceu satisfeita, saindo em seguida.

Não consegui reprimir uma careta.

— Isso é nojento! — Exclamei revoltada.

— Na verdade, eu estou ajudando a moça, ela podia transar com qualquer idiota por aí e não ganhar nada além de uma doença venérea. Comigo ela terá uma noite agradável, em uma cama de verdade, com comida pela qual ela não tem que pagar e de quebra ganha uns pontos. Porque Negan tem regras contra sexo não-consensual, mas não tem nenhuma contra trocar favores sexuais por pontos. — Kane explicou, bastante confortável com a situação, como se ele estivesse prestando algum tipo de favor a humanidade. — Sem contar que eu sou bonitão, limpinho e cheiroso e não dá pra dizer isso de noventa e cinco por cento dos caras daqui, então... Eu sou um ótimo negócio.

— Desculpe então, deixe eu corrigir: Você é nojento. — Retruquei, enojada com a maneira como ele tratava aquilo.

Kane abriu os braços e tombou um pouco a cabeça, como se estivesse se gabando de um elogio.

Eu voltei minha atenção para o meu próprio prato, mas a conversa com Josie não saía da minha cabeça. Decidi que um pouco de informação não me faria mal. Eu precisava mesmo saber o que tinha acontecido pra que todo mundo sumisse pela manhã, então, não custava nada tentar descobrir aquela história da crossbow também.

— Eu não te vi essa manhã. — Puxei assunto, como quem não quer nada.

— Sentiu minha falta? — Revirei os olhos para a resposta convencida, torcendo pra que Kane continuasse falando e me desse o que eu queria. — Tivemos uma reunião, algo grande vai acontecer essa tarde.

— Algo como o quê? — "Algo grande" sempre queria dizer massacrar alguém de alguma forma, e claro que aquilo me deixava preocupada.

— Se fosse pra você saber estaria na reunião. — Bennet apontou colocando um pedaço de carne na boca.

Cretino.

— Que seja... — Dei de ombros, fingindo não me importar.

Kane não me daria nada, o que significava que era realmente uma coisa importante, meu estômago doeu e eu perdi o pouco de fome que eu tinha.

Ótimo, nada de dormir e nada de comer, se eu continuasse daquele jeito, mesmo que uma oportunidade de fugir surgisse, eu não teria forças para ir longe.

Lembrei de Dwight usando o colete de asas, meu colete de asas. Se houvesse mesmo algo para descobrir ali, eu teria que arriscar. Decidi usar meus instintos e jogar um verde.

— Negan sabe que o D e o prisioneiro têm uma ligação? — Perguntei como quem não quer nada. Torcendo para que Kane visse aquela conversa, como via qualquer outra idiotice que ele e os outros caras falavam.

Ele subiu os olhos para mim e me fitou por alguns instantes, o rosto impassível, sem emoção alguma, me impossibilitando de saber como aquela frase o tinha atingido.

— Claro que Negan sabe, ele sabe de tudo. — Respondeu em um tom neutro, que por um instante me deixou aliviada. Então era verdade Dwight e Daryl já haviam se encontrado antes... — A pergunta é: como você sabe?

Deixar alguém desconfiando de mim não era uma boa coisa, mas não consegui pensar em nada, além de...

— O que a gente conversa quando você não está aqui, não é da sua conta. — Devolvi superior, usando a frase que Josie me dissera anteriormente.

— Touché. — Kane apontou o garfo na minha direção e deu um daqueles sorrisinhos dele.

Torci para que ele continuasse a conversa com mais alguma informação relevante, sem que eu tivesse que dar o próximo passo. Não era bom que eu apresentasse interesse demais na história do prisioneiro.

— Bem irônico, não é? — Finalmente ele voltou a falar, depois de várias garfadas. — O cara ajudou o D e a Sherry e acabou tendo todas as coisas roubadas pelo casalzinho ingrato. Segundo confronto, Dwight mata uma das amigas do cara, com a arma que um dia foi do próprio. Terceiro confronto, tiro no ombro, amigos esmagados e reclusão no cubículo. O cara deve odiar o D, o que é ótimo pra mim, apostei que ele não vai se curvar antes do primeiro mês.

Anotei toda a história mentalmente, enquanto acumulava um pouquinho mais de raiva do Dwight idiota. Como ele podia ser tão estúpido de trair alguém que queria ajudá-lo?

— Não acredito que apostam o destino de um pobre coitado. Quantos anos você tem Kane? — Comentei, como se as informações me fossem irrelevantes, focando em outra parte da conversa.

— Tem idade limite pra se divertir agora? Quero que ele seja difícil, mas não tão difícil como você foi, assim eu continuo com minha moral intacta. Suponho que saberemos disso hoje. — Kane riu de lado, aquele sorriso meio perverso que me fazia odiá-lo.

Um arrepio gelado percorreu minha espinha, a reunião e aquilo não podiam ser coincidência, algo aconteceria com Daryl.

— O que quer dizer? — perguntei, antes de realmente pensar se aquilo era indicado ou não.

— Não, não, não. Eu disse que se fosse pra você saber, você estaria na reunião. Ou melhor, como é mesmo que você disse...? "O que a gente conversa quando você não está aqui, não é da sua conta".

Tremi de pura raiva, a petulância de Kane me fez desejar enfiar meu garfo na garganta dele. Mas simplesmente sorri casualmente.

— Touché. — Repeti sua piadinha, como se fossemos mesmo amigos. — O trabalho me chama agora.

Deixei meu prato praticamente intocado na mesa e levantei, Kane me dava náuseas, aliás, tudo ali naquela merda de Santuário me dava náuseas.

Era quase hora da minha sessão de tortura no harém e mesmo que tivesse prometido não me envolver com os problemas de Daryl, eu sabia que não conseguiria me acalmar antes de saber exatamente o que aconteceria com ele aquela tarde.

Coisa boa não podia ser...

— Não se preocupe, depois de hoje voltaremos a andar juntinhos, é uma separação momentânea apenas. — Kane Bennet lançou enquanto eu me afastava, acenando com seu usual sorrisinho superior.

➷•➷•➷•➷•➷

Felizmente, minha vigia no harém foi adiada o máximo possível, um código laranja movimentou o lugar depois do almoço, um dos Pontistas havia escapado. Pensei que um grupo todo sairia atrás do coitado, mas Dwight quis fazer isso por conta própria, pelo falatório ele e o fugitivo eram colegas nos tempos de Pontista do D.

Aquele episódio devia ter amenizado minha birra com o cara, mas qualquer coisa boa que eu ouvisse do cretino não fazia a menor diferença, depois que eu fiquei sabendo que ele tinha ferrado com a vida do Daryl.

Depois que ele saiu e uma equipe de busca ficou de sobreaviso, eu tive que seguir para o meu posto.

A única parte boa daquilo tudo era saber um pouco mais sobre a rotina em caso de fuga. Como sempre, não era exatamente uma rotina, mas eu guardei cada fato na minha mente, para uma avaliação posterior.

Naquele momento, minha dúvida sobre a operação misteriosa que aconteceria de tarde ainda ocupava grande parte dos pensamentos.

Dei de cara com Fat Joe no hall de entrada, ele comia um pedaço enorme de qualquer coisa que eu não distingui bem.

— Boa tarde, senhorita Cooper. Servida? — Ofereceu, ainda com a boca cheia.

— Não obrigada. — Dispensei pronta a seguir meu caminho, quando outra pessoa também chegou ali, vindo da parte interior do prédio.

Merda! Eu tinha conseguido escapar de Negan a manhã toda, mas pelo jeito minha sorte acabara.

— Olha só que encontro fodidamente agradável! — O desposta maldito abriu os braços e um sorriso sádico, enquanto nos curvávamos e Fat Joe fazia o possível para esconder seu lanchinho.

Negan tocou a base do meu queixo e assim me fez erguer-me. O toque dele fazia minha pele formigar, não de um jeito bom... Ela formigava como se tivesse gangrena.

— Estou resolvendo umas coisas importantes hoje, Coração, mas não pense que eu me esqueci de você. Porra, eu nunca me esqueço... — Ele chegou tão perto que seu nariz quase tocou o meu. — Mas sabe como é: dever chama, alguém tem que manter as coisas nos trilhos.

Negan tirou os olhos de mim e os pousou no homem ao meu lado, pouco preocupado em pedir que ele se levantasse.

— Fat Joe, você fica com as funções do D para o planejamento de hoje. — Ordenou, entregando as chaves do cubículo e logo depois abriu um daqueles sorrisos sádicos, que mais pareciam uma ameaça. — Espero que faça tudo direitinho e nada de pausa pra lanchinhos.

— S-sim, Senhor — Joe gaguejou, assentindo freneticamente.

Mais uma vez o tirano voltou sua atenção para mim, me mediu dos pés à cabeça, exatamente como um predador sexual faria, umedeceu os lábios e simplesmente saiu, mas foi como se tivesse deixado uma promessa nojenta no ar.

Fat Joe já estava metros na minha frente, andando rapidamente para sua função, quando eu consegui controlar meu asco.

Eu ainda precisava saber qual o plano macabro de Negan para Daryl, e já que Fat Joe parecia saber o que estava acontecendo, ele era minha melhor chance.

Apressei meu passo para alcançá-lo, e recebi um sorriso quando começamos a andar lado a lado.

— Você vai ficar responsável pelo prisioneiro, então? Grande responsabilidade. — Comentei em tom de elogio e o homem sorriu orgulhoso de si mesmo. — É uma honra e tanto liderar uma operação como a de hoje à tarde.

Voltei a minha técnica de jogar um verde, esperando que funcionasse tão bem quanto com Kane.

— Você sabe sobre a operação? — Ele ficou apreensivo por um momento, olhando ao redor como se alguém fosse aparecer e puni-lo por estar falando aquilo.

— Claro! — Fiz um gesto banal com a mão direita e sorri casualmente. — Eu passei no meu teste, sou oficialmente uma Salvadora agora. Não ficou sabendo?

— Sim, sim, mas eu pensei que...

Eu não podia dar tempo para que qualquer dúvida se formasse na mente dele, então o cortei rapidamente.

— E bom... — Cheguei mais perto, murmurando, como se aquilo fosse um segredo — Você sabe, o Negan meio que gosta de mim.

Pisquei e abri meu melhor sorriso, mesmo que aquela frase tenha me causado ânsias.

Fat Joe corou e, de repente, pareceu atrapalhado com suas próprias mãos e pés. Me dei conta que as garotas não falavam muito com ele e isso o intimidava e, o pior de tudo, é que naquele momento, eu não senti remorso algum de estar manipulando o coitado.

Eu estava tão obstinada em saber o que aconteceria com Daryl que nem me dei conta do tipo de pessoa que estava me tornando.

— Isso com certeza... — Deu uma risada toda sem jeito — Também, como ele não ia gostar? A senhorita é muito bonita. — Ele pareceu perceber o que tinha acabado de dizer e arregalou os olhos. — C-com todo respeito, quer dizer.

— Obrigada. — Sorri mais ainda, como se estivesse verdadeiramente lisonjeada.

Viramos o corredor e eu soube que logo nossos caminhos se separariam, eu tinha que arrancar alguma coisa de Fat Joe naquele instante, ou a oportunidade passaria.

— Tenho certeza que vai se sair bem hoje. Você é muito competente. — Toquei seu braço e sim, flertei descaradamente com ele.

— Ah que nada... — Sua risada sem graça fez o som de um porquinho, o que o deixou ainda mais vermelho — Eu só tenho que deixar a porta aberta, depois é o prisioneiro que decide. Se ele seguir as regras e ficar bonzinho, nem vou ter que fazer mais nada. Se ele se atrever a fugir... Bom, eu não queria estar na pele dele, mas o Negan vai dar uma chance, sempre dá, ele é um cara legal.

Fim do corredor. Eu tentei manter minha postura impassível, mas agradeci imensamente que nossos caminhos se separariam ali. Um tipo de desespero aterrorizante começou a correr rápido pelas minhas veias. Eu tinha acabado de descobrir o que aquela maldita reunião secreta estava planejando, e não era bom, nada bom.

Dei mais uma palmadinha no braço de Fat Joe e mantive o sorriso.

— Com certeza. Tchau, Joe, devíamos conversar mais vezes. — Acenei, correndo escada acima, enquanto ele ainda ficava ali com a mão levantada, parada bem no meio de um tchauzinho constrangedor.

Daryl estava prestes a passar por um teste e eu não queria nem pensar no que aconteceria com ele, caso falhasse.

Não se envolver, não se envolver. Comecei a repetir mentalmente como um mantra, mas eu simplesmente não conseguia me acalmar.

Subi os lances de escada com meu coração aos saltos, a mente trabalhando sem parar em uma forma de resolver aquilo. Tinha que haver um meio termo, uma forma de não me envolver, mas também não deixar Daryl sofrer nas mãos de Negan.

Ele não é seu problema. Uma parte do meu cérebro teimava em acusar. Não deixa o fato de ser o Daryl mudar isso.

Vi Sherry parada no topo dos degraus fumando um cigarro, e tive que realinhar minha postura.

Me cumprimentou com um gesto de cabeça e eu fiz mesmo, passando por ela e chegando até a porta daquele inferninho, para me certificar que todas as garotas estavam ali.

Josie acenou amigavelmente lá de dentro e eu forcei um sorriso.

Tudo estava calmo lá em cima, o que era péssimo, afinal seria ótimo ter algo pra ocupar minha mente. As possibilidades do que fariam com Daryl, caso ele falhasse no teste, começaram a me deixar inquieta.

Aquele sentimento de impotência se misturava com raiva e principalmente com medo. Essa era a verdade, eu tinha medo, eu me fazia de forte e controlada, mas o medo me dominava o tempo todo, medo de cometer um erro e nunca voltar para os meus filhos. Medo que eles tivessem que viver naquele mundo sem mim... Aquele era o único motivo para eu não ter desistido ainda.

Tentei ficar parada em um lugar só, mas era quase impossível. Se eu permanecesse nervosa daquele jeito alguém notaria e seria muito pior.

— Pode me dar um cigarro? — Pedi a Sherry, que me atendeu prontamente, me estendendo o maço e o isqueiro.

Enquanto observava o fogo acender o fumo, tive uma ideia ousada e maluca, que tirava o meu da reta, mas colocava outra pessoa em perigo...

Sabe o que dizem sobre situações extremas pedirem medidas extremas? Isso é totalmente verdade, ás vezes seus limites são tão pressionados que se rompem e tudo que resta é a linha tênue entre o certo e o errado, bem e mal.

Só quando ultrapassamos nossos limites, é que chegamos a descobrir quem somos de verdade. Aquele era um daqueles momentos. Eu estava parada exatamente em cima daquela linha tênue, e uma vez ali, certo e errado, bem e mal, tudo isso se esvai e só sobra uma coisa: prioridades.

Felizmente, ou infelizmente, minha lista de prioridades era muito clara, e qualquer coisa que não estivesse nessa lista se tornava dispensável.

Ironicamente a maldita listinha tinha que ser curta, adicionar Daryl Dixon a ela significava, inevitavelmente, abrir mão de algo até então valioso pra mim: minha moral e ética. Minha humanidade.

Eu sabia o que tinha que fazer...

Petter e Luka ainda eram meu objetivo maior, seguidos pela minha vida e então Daryl Dixon, e isso tornou qualquer outra pessoa totalmente dispensável.

Eu precisava de um bode expiatório, alguém com motivo suficiente pra ajudar Daryl sob a minha influência, mas que não pudesse ser conectado a mim. Essa pessoa estava bem na minha frente: Sherry.

— Faz muito tempo que eu não fumo, parei quando fiquei grávida. — Comentei do nada, sendo mil vezes mais simpática que o usual.

— Eu... Eu sinto muito sobre a história do seu filho. — Sherry não parecia muito confortável com aquela conversa.

— Eu também sinto... — Dei um suspiro longo e cansado, eu mentia tanto que falar a verdade soava estranho. Eu sentia muito, mesmo que fosse por motivos diferentes dos que ela imaginava.

Sherry me deu um sorriso amarelo e desceu alguns degraus como quem não quer nada. Ela estava apreensiva com algo e eu sabia o que era.

— Ele não vai vir. Dwight. Ele não está no santuário agora. — Avisei, sabendo que era esse o motivo dela estar ali naquela escada.

Os dois costumavam se encontrar ali, porém não havia nada demais nos encontros, eles ficavam a metros de distância um do outro e às vezes fumavam um cigarro, raramente conversavam. Devia ser terrível.

Mas não era hora de me apiedar dos dois. Eu não podia me dar a esse luxo.

— Ah, eu não... — Sherry tentou negar, assustada, mas eu fiz um movimento banal com a mão esquerda.

— Eu sei que vocês fumam juntos às vezes. — Desci um degrau e parei na frente dela. — Não vou contar.

A esposa de Negan engoliu em seco e ficou em silêncio, eu apenas torcia pra que ela desse prosseguimento a conversa, uma coisa tinha que puxar a outra naturalmente, não podia parecer uma ideia minha.

— Sabe onde ele foi? — Perguntou, finalmente, e eu sorri no meu íntimo quase como uma comemoração.

— Código laranja eu acho, se bem que nunca dá pra saber se foi isso mesmo, ou se era apenas parte do teste do Negan. — Usei um tom tenso, levemente preocupado, mas dei de ombros como se não fosse nada.

— Teste? Mas o Dwight não... — Sherry se alarmou, ser testado por Negan causava mesmo aquele efeito nas pessoas.

Eu sabia por experiência própria que nunca era fácil e que sempre tirava algo de nós. Algo que talvez não pudesse ser recuperado...

— Ah não é com ele, é com o novato. — Cortei, complementando como se não desse a mínima para o assunto.

Sherry suspirou aliviada e deu outro trago no cigarro, olhei para o meu próprio e ele queimava sozinho entre os meus dedos.

Logo quando deixei Dawsonville eu fumava demais, dois três maços, pouco importava o bebê ou eu mesma. O meu terapeuta disse que eu tinha transferido meu vício em Daryl Dixon para o cigarro, porque eu conectava o ato de fumar ao homem que eu amei. Na opinião dele era até benéfico, porque ele conseguiria tratar meu vício de forma palpável. E ele conseguiu. Eu larguei os cigarros e deixei Daryl pra trás...

Obviamente demorou e eu tive problemas no parto por causa daquela merda, assim como tive problemas na vida afetiva por causa do caipira da Georgia. "Alguns efeitos colaterais são inevitáveis", era o que o Doutor dizia.

E ali estava eu, um cigarro na mão e Daryl novamente na cabeça, talvez pessoas viciadas não pudessem ser tentadas. Ou vai ver eu simplesmente era fraca. Dei um trago profundo e deixei a fumaça sair aos poucos dos meus pulmões, queimando por dentro, eu sabia que era ruim, mas tragava mais uma vez mesmo assim. Eu sabia que Daryl era problema, mas eu me envolvia mesmo assim

Que merda de mulher eu sou...

— Coitado, vai passar por poucas e boas, o pessoal está louco pra arrancar o couro dele. — Continuei no meu joguinho e observei a reação de Sherry.

Torci para que, o que Daryl tinha feito por ela fosse memorável o bastante pra, pelo menos, gerar gratidão e remorso. Ela tinha que sentir que possuía uma dívida com ele.

— Seria mais simples se ele simplesmente aceitasse... — Soltou, parecendo preocupada e eu fechei os olhos e traguei novamente, satisfeita que ela tivesse mordido a isca.

— Queria poder avisar, isso pouparia muita dor, mas acho que ele sequer ouviria, eu sou uma estranha e inimiga ainda por cima. — Meneei a cabeça me fingindo de compassiva, mas deixando a sugestão no ar. — Uma pena... Ele não parece uma pessoa ruim, mas suponho que isso não importe mais.

Apaguei a bituca e voltei ao meu posto, como se nossa conversa fosse apenas algo avulso no meu dia, porém, por dentro, eu era um amontoado de ansiedade e expectativa. Tinha que dar certo...

Comecei a contar os segundos para me manter sã, Sherry estava pensativa, eu já tinha perdido a conta e começado novamente pelo menos umas quatro vezes quando ela finalmente começou a falar.

— Eu o conheço... — Confidenciou e eu fingi que não sabia. — É uma longa história, meio que tenho uma dívida com ele. Eu quero avisar, mas preciso de ajuda pra fazer isso sem ser vista. Você já esteve naqueles cubículos, sabe que as coisas que acontecem lá não são nada boas...

E ali estava, Sherry tinha acabado de me pedir ajuda em um plano que era meu. Era uma vitória, mas eu não me sentia nada bem.

— Não sei... Não quero me ferrar com o Negan... — Fingi dúvida, mesmo que minha vontade fosse descer os degraus correndo naquele mesmo instante.

— Podemos descer juntas, qualquer coisa eu digo que pedi pra você me levar na enfermaria. Estive lá ontem pra fazer um teste, posso ir novamente me queixando de cólicas, ninguém vai suspeitar. — Ela pareceu empenhada naquilo, pelo visto tinha mesmo uma dívida com Daryl, o que me fez sentir ainda pior por manipulá-la daquela forma.

Dei um tempo até a resposta, como se ainda estivesse pensando sobre aquilo.

— Tudo bem, mas não temos muito tempo, deve estar acontecendo agora.

Sherry assentiu e eu dei uma última olhada nas meninas do harém, totalmente alheias a nossa movimentação, antes de descermos as escadas.

Os corredores daquele lado do prédio estavam vazios, provavelmente tinham planejado tudo, torci para que ainda estivéssemos no tempo. Fomos até os cubículos, mas a porta já estava aberta.

Meu coração falhou algumas batidas e o desespero começou a fazer minhas mãos tremerem, não podia ser tarde demais. Por favor.

Viramos em mais um corredor e eu finalmente pude vê-lo, estava de costas, usando as malditas roupas de prisioneiros que pareciam feitas de saco de arroz. Por um segundo eu esqueci de tudo e apenas quis chamar seu nome. Era como se fossemos novamente Baby Dix e Bochechas, apenas dois adolescentes apaixonados.

— Você fica, melhor que ele não te veja. — Sherry murmurou, me puxando para trás, ocultando-nos atrás de uma parede.

Acordei para a realidade. Éramos adultos. Éramos prisioneiros de Negan. Nada mais era como antes.

Éramos pais, mesmo que Daryl não soubesse disso.

Assenti, tentando voltar ao controle e Sherry se afastou em passos silenciosos.

Fiquei observando enquanto ela puxava Daryl pela blusa e conversava com ele, apenas algumas palavras, antes que ele a ignorasse totalmente e prosseguisse.

Era como se eu tivesse entrado em pânico. Como assim ele tinha seguido em frente com aquela loucura? Mas que merda, Daryl!

Foda-se. Eu estava pronta pra correr até ele, quando Sherry me puxou para o lado, bem a tempo de sairmos do campo de visão de alguns Salvadores que passaram pelo corredor.

— Eu tentei, mas não dá pra ajudar quem não quer ajuda. — Declarou conformada. — Melhor voltarmos.

Não. Eu não tinha me ariscado tanto para aquele idiota se colocar bem na linha de tiro. Eu não podia desistir.

— Você pode ir na frente? Está frio aqui dentro, eu vou pegar uma blusa. — Arranjei uma desculpa, pouco preocupada se aquilo convenceria ou não. Eu tinha perdido a razão.

— Claro.

Assim que vi Sherry sumir escadaria acima, tomei outro corredor que dava acesso ao exterior da fábrica.

Havia um pequeno vidro quase no meio da porta, por onde eu podia ver o que acontecia do lado de fora, eu tinha apenas que virar a maçaneta e alcançaria Daryl.

Foi só então que eu percebi que ele não estava sozinho. Negan estava ali também, junto com uma corja de Salvadores, entre eles Fat Joe e Kane. Todos em volta de Daryl, enquanto o líder discursava com um sorriso sádico.

Eu assistia tudo de fora, como em um filme de terror, mal conseguia ouvir o que eles diziam, mas eu sabia do que se tratava: ameaças e coação. Negan e seu bastão infernal brincando de show dos horrores.

Em um certo momento ele fez o movimento para atingir Daryl e eu quase deixei escapar um grito. O golpe não aconteceu, na verdade, Daryl sequer piscou.

Eu não tinha estômago para ver o resto, mas podia imaginar o que aconteceria, pensei em abrir a porta e implorar pra que Negan parasse, mas eu sabia que ele continuaria com ainda mais gosto, só pra ter o prazer de me ver sofrer.

Aquela era a situação mais desesperadora da minha vida, era ainda pior do que ver Sherwood queimar. Não teria uma palavra no dicionário que descrevesse aquele sentimento angustiante de impotência que eu vivenciava. Não fui capaz de ver até o fim.

Eu tive que voltar para o harém, fingir que nada tinha acontecido, fingir que eu estava ótima, que eu era uma Salvadora e amava tudo aquilo, mesmo que por dentro eu estivesse aos pedaços, mesmo que eu soubesse que, se tivesse que viver aquilo por mais tempo, eu não suportaria.

Simon veio me liberar, depois do que me pareceram horas de angustia. Negan estaria ocupado o restante da tarde e o segundo no comando nem se preocupou em esconder que logo mais seria a hora da maldita pergunta, estavam apenas esperando Dwight chegar.

Seu papo furado me custou horas, Simon gostava de se gabar perto das esposas. Sherry pediu um minuto, sumiu por um tempo e depois voltou com uma cara ainda pior e mais abalada.

Ela tinha falado com Daryl novamente, eu soube. Minha manipulação inútil trouxera lembranças ruins à tona, e aquele era só mais um motivo pra eu me sentir péssima. Tudo estava dando errado.

Finalmente Simon largou do meu pé e eu pude descer. Decidi que bastava, era hora de eu abrir a maldita porta daquele cubículo e dizer a Daryl que ele tinha que aceitar, que ele tinha que dizer que seria Negan, tinha me mentir. Por que eu não aguentaria vê-lo sofrer todo o dia, eu ficaria louca antes disso.

— Onde você pensa que vai? — Kane me deteve no corredor, ainda havia sangue nas mãos dele.

— Isso não é da sua conta! Saí da minha frente! — Eu praticamente avancei nele, queria socar aquele maldito sorriso vitorioso e quebrar aquele nariz empinado.

Ele deu um passo para trás e ergueu as mãos.

— Tem certeza que está pensando direito? — Havia um tipo de ameaça implícita na voz dele, mesmo que estivesse calmo.

— Nunca pensei melhor sobre nada na vida! — Retruquei, meio fora de mim.

Kane deu um de seus sorrisinhos, um diferente daquela vez, me pareceu um tanto decepcionado. Meneou a cabeça e colocou as mãos nos bolsos da jaqueta.

— Eu vi você hoje... — Revelou enigmático. Tremi, onde exatamente ele tinha me visto?

Deu três passos na minha direção e parou, os olhos cravados nos meus, frio e muito sério. Não era como Negan, que invadia nosso espaço pessoal como uma forma de intimidação, que mascarava o que queria com um sorriso falso, ou que nos encarava com raiva quando perdia um pouco de sua máscara. Kane Bennet era diferente.

Nunca se aproximava demais, ele escolhia o limite, como se pisasse exatamente em cima da linha imaginaria que definia o meu espaço e o dele. E quando me encarava, quando me encarava de verdade, como naquele momento, era como se sua face fosse uma tela em branco onde nada podia ser lido.

Os objetivos de Negan eram claros, ele queria submissão, o mundo aos pés dele. O déspota gostava de quebrar pessoas.

Mas Kane... Kane era uma incógnita e aquilo começou a me preocupar.

— Eu cheguei a achar que você sabia o que estava fazendo. Eu pensei: caramba ela sabe jogar esse jogo... — Declarou, sem tirar os olhos dos meus, seu tom era o equilibro perfeito entre ameaçador e casual. — É uma merda quando a gente erra.

— Eu não faço ideia do que você está falando. — Dei um passo pra trás e cruzei os braços. Recobrei um pouco do meu controle.

Negan me fazia sentir enojada, mas Kane me sufocava, mesmo que nunca chegasse tão perto.

Ele sorriu, um dos sorrisos de sempre, aquele que o fazia parecer apenas o Salvador popular pra quem todo mundo pedia favores.

— Tudo bem. Vamos lá, parceira, eu tenho um trabalhinho pra você. — Simplesmente mudou de assunto, mesmo assim eu senti como se ele tivesse acabado de colocar uma faca na minha garganta... Kane estava de olho em mim e eu teria que ficar esperta.

Ele me monopolizou o resto da tarde, para coisas insignificantes que não precisariam realmente de mim, era como se estivesse me testando.

E quando o Sol se foi, depois de horas perdidas com besteira, ele finalmente decidiu que podíamos encerrar o dia e foi quando encontramos Dwight nas escadas externas, olhando um errante na cerca viva. Reconheci o morto como o Pontista que tinha escapado. D tinha realmente trazido o cara de volta... morto.

Talvez tenha sido naquele momento que eu percebi que minhas ações impensadas fariam mais do que arriscar minha segurança e minha promessa para os meus filhos... A partir daquele momento meus atos impulsivos colocariam a vida de Daryl em perigo também.

E, mesmo que não nos víssemos há anos, mesmo que fossemos dois estranhos e que não tivesse restado nada do antigo sentimento, eu não seria capaz de suportar ser a responsável pela morte do pai do meu filho. Eu teria que ser mais esperta que todos dentro do Santuário. Não havia espaço para erros. Não havia espaço para sentimentos adormecidos.

— Ele disse não. Negan perguntou quem ele era e o idiota respondeu "Daryl". — Dwight declarou, com algo mais que decepção na voz e Kane comemorou sua aposta ganha.

Mesmo que eu não quisesse aquilo, mesmo que eu torcesse para que as coisas fossem mais simples e sem sofrimento, bem lá no fundo eu também sorri. Daryl não tinha se curvado. Ele preferia sofrer a abrir mão de quem era. Daryl Dixon era muito mais forte do que eu.

E, aquela madrugada, contra todo meu senso de razão, eu voltei ao corredor de cubículos. Estava tudo escuro daquela vez, a saleta estava fechada, provando que ninguém mais tinha que ficar de vigia ali direto, não havia mais música. Só uma solidão estrema e angustiante.

Parei na frente da porta outra vez, mas não toquei na maçaneta, eu não estava ali para abrir a porta, eu não estava ali para falar com Daryl, tampouco para vê-lo, eu não podia fazer nada daquilo, eu tinha que me manter o mais distante possível, não para a minha segurança, mas para a segurança dele. Eu era um verdadeiro perigo para Daryl Dixon naquele momento.

Encostei na parede ao lado da porta e deixei meu corpo escorregar ali, fiquei sentada sabendo que eu era uma merda de pessoa, sofrendo silenciosamente, incapaz de derramar as lágrimas presas na minha garganta.

Eu não podia proteger ninguém, essa era a verdade.

Notas finais
Eita, que é só tiro uashuahsaush Teve um pouco de tudo, Simon e Tony (Tomon?) Natalie colocando um fim naquela maldita musiquinha, representando o fandom uahsuahsuh Josie sendo estranha porém fofa (gosto dela gente, me julguem) E a Natalie sendo a maior falsiane manipuladora que a gente respeita, até o Fat Joe caiu no flerte fake, coitado uahsauhsuahs À todo mundo que shippou Sherry e Daryl na série, sinto muito, mas aqui a interação deles tem outro significado aushuahsuahs Natalie escolheu o Daryl ao invés do pouco de princípios que ainda tinha. Mas é claro que nem tudo são flores e a nossa Bochechas sacou que uma aproximação com seu ex-love é impensável, e isso vai impactar diretamente o próximo. E por fim, mas não menos importante: E o Kane hein??? Que será que ele quis dizer com "eu vi você hoje" e o mais importante qual é a dele?? É hora do senhor Daryl Dixon dar o ar da graça na narrativa, então o proximo é pelo ponto de vista dele. Alerta de Spoiler agora: O titulo é Azuis e Negros, que faz menção aos olhinhos do nosso OTP. Será que é hora de um cara a cara??? Espero que tenham gostado ❤ Nos vemos semana que vem! Bjss e até