Lifeline — Destiny Don't Give Up
5 Azuis e Negros
Notas iniciais
Parece que há oceanos
Entre mim e você, mais uma vez
Nós escondemos nossas emoções
sob a superfície e tentamos fingir
Oceans — Seafret
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• DARYL DIXON •
Dizem que em situações de risco nosso corpo assume um estado de hipervigilância, os sentidos ficam aguçados e o coração acelera para poder bombear adrenalina mais rápido pelo corpo. Naqueles anos de apocalipse eu já sabia que isso era verdade.
Situações de risco eram o normal do nosso dia a dia, estávamos sempre em estado de alerta, sempre prontos para lutar e sobreviver.
Sobreviver... Ri da ironia daquilo. De que valia sobreviver quando as pessoas a minha volta estavam morrendo?
Merle. Hershel. Beth. Denise. Glenn. Recitei aqueles nomes na minha mente como um mantra, o fim daquelas pessoas dizia muito sobre minhas falhas e sobre o quanto eu piorara com o tempo.
Eu tinha culpa em cada uma daquelas mortes. Eu podia ter apoiado meu irmão um pouco mais, eu o perdi por isso e ninguém sofreu mais com o acontecido do que eu mesmo.
Se eu não houvesse desistido de caçar o maldito Governador, talvez anda tivéssemos a prisão, talvez Hershel ainda estivesse conosco. Mas eu falhei, e fiz as duas filhas dele assistirem a sua morte.
Beth também era minha responsabilidade, eu peguei uma menina boa e cheia de vida e a destruí, ela acabou morta e eu não pude protegê-la...
E o que dizer de Denise? Morta porque eu quis dar uma de bonzinho. Eu devia ter matado Dwight e aquela menina quando tive chance, mas, ao invés disso, deixei os dois escaparem e isso terminou com Denise morta bem na minha frente, com uma das minhas flechas atravessada no olho. Tinha como ser mais minha culpa que isso?
Ah sim, tinha...
Glenn. Ele me pediu pra voltar e eu disse não. Por minha causa ele estava naquela floresta. E por eu ser um caipira estúpido e impulsivo Maggie tinha sido obrigada a ver a morte do marido da pior forma possível, ela tinha um bebê no ventre. Um bebê que cresceria sem pai, por minha causa.
Sem pai, sem avô e sem tia, tudo por minha culpa.
Eu teria morrido no lugar do coreano, eu teria morrido no lugar de Abraham ou de qualquer um deles, mas ali estava eu: vivo.
As torturas de Negan não faziam a menor diferença pra mim, eu merecia aquilo. E no fim das contas não era nada realmente novo... Abuso, tortura psicológica, era como ser criança outra vez.
Só tinha uma diferença, Negan não era meu pai, eu nunca abaixaria minha cabeça para ele, nunca seria um dos homens dele.
Me encolhi um pouco mais. Infelizmente minha raiva não era o bastante para me aquecer e aquele maldito cubículo ficava mais frio a cada instante.
Eu tinha perdido a noção das horas, não sabia se era noite ou dia. Desde que eu me negara a me declarar Negan, tudo que eu tinha ao meu redor era silêncio e escuridão, até a maldita música tinha parado, por um lado era bom, porque minha cabeça latejava de dor, mas por outro a canção me impedia de pensar e de me concentrar em qualquer coisa.
Naquele momento tudo que eu podia fazer era remoer minha culpa e ser importunado pela dor nas minhas juntas, no ferimento do meu ombro e em várias escoriações que eu tinha pelo corpo. Mas a dor não me incomodava, nem a fome ou a sede, tampouco me incomodava o fato de estar chafurdado no fedor azedo da minha própria podridão. O que me incomodava de verdade era a impotência, Negan parecia intocável, e ele não desistiria de Alexandria...
Alguns idiotas passavam do lado de fora esporadicamente e davam uns pontapés na porta. Riam e troçavam de mim, mas não fazia diferença, eu só ficava com mais raiva de mim mesmo por merecer aquilo, por não ter feito nada de útil.
Às vezes eu queria que Negan simplesmente me matasse de uma vez, mas claro que ele não faria isso, morto eu não servia de pressão ao Rick.
Eu tinha que arranjar uma forma de matar aquele déspota, mesmo que eu mesmo perdesse a vida no processo...
Suspirei, encarei o filete de luz que entrava por debaixo da porta e não consegui ter ideia alguma, nada. Minha mente era um looping infinito das imagens grotescas de Glenn sendo esmagado pelo taco.
Ouvi passos se aproximando, a pessoa tinha um caminhar leve, me parecia uma mulher, ficou andando de um lado para o outro na frente da minha porta. Não era a primeira vez que eu percebia aquela pessoa ali, horas atrás, ou talvez no dia anterior, os mesmos passos se aproximaram, pararam ali na frente e depois de um tempo a pessoa simplesmente se sentou no chão, passou muito tempo ali e em certo momento eu podia jurar que ouvi um choro.
Mas naquele momento ela apenas andava de um lado para o outro como se estivesse impaciente ou nervosa. Assim como da primeira vez, eu presumi que fosse a garota que eu tinha ajudado com Dwight na floresta, imaginei que fosse ela também da vez anterior, depois que tentou me alertar da farsa que Negan tinha armado para mim.
Embora, da primeira vez, os passos fossem mais barulhentos como se ela estivesse de salto ou algo assim... De toda forma, certamente devia ser ela, quem mais ficaria na frente da minha porta daquele jeito?
Sherry devia se sentir culpada, e tinha que se sentir mesmo, mas pela história que Negan havia contado ela já estava sofrendo o bastante. Não que eu desse a mínima pra ela. Eu não dava a mínima pra ninguém naquele lugar maldito. Queria mesmo é que todos morressem e fossem parar no inferno.
— Vai embora, garota! Eu não dou a mínima para o seu remorso! — Gritei, de saco cheio daquela maldita andando de um lado para o outro na frente daquela porta.
Eu não precisava da pena de ninguém, se eu estava ali, era porque eu merecia.
A pessoa simplesmente parou, eu podia ver parte de sua sombra por debaixo da porta. Eu a ouvi suspirar pesadamente e tive certeza que era mesmo a Sherry, era um suspiro claramente feminino.
Mas, ao mesmo tempo em que tive essa certeza, algo no fundo da minha mente me trouxe uma sensação de déjà vu. Eu não soube exatamente o que aquele suspiro me lembrava, mas não precisei pensar muito nisso.
— Daryl...
Um arrepio gelado percorreu minha espinha no momento em que ouvi a voz do outro lado da porta, aquilo era real?
Meu coração começou a bater em uma velocidade absurda e cinquenta pedras de gelo pareceram derreter no meu estômago. Em um milésimo de segundos uma avalanche de lembranças me atingiu. Era como se eu estivesse de volta a Dawsonville, dez anos antes, com uma garota bochechuda e sorridente ao meu lado. Os melhores dias da minha vida.
Aquela voz era muito familiar, mas não podia ser real...
Tentei olhar por debaixo da porta, mas tudo que eu podia ver eram os coturnos pretos. Me coloquei de pé esperando que a pessoa continuasse sua fala.
Eu só podia estar alucinando. Eu tinha que estar alucinando.
— Quem está aí? — Perguntei, com a voz falhando alguns tons.
Eu ansiava a resposta, mas eu também a temia mais que tudo. Não podia ser ela...
Encostei minha cabeça na porta e era como se eu pudesse sentir a pessoa do outro lado. Dois passos mais perto. Minha mente era um tumulto de recordações e arrependimentos.
Aquilo não podia ser real. Quais eram as chances? Não, não. Só podia ser um pesadelo...
Natalie Cooper não podia estar tão perto de mim naquele momento. Não!
— Mas que porra! Quem é que está aí? — Soquei a porta, perdendo totalmente a paciência.
Mas não houve resposta, a pessoa simplesmente foi embora, os passos foram se afastando até sumirem de vez e eu deixei meu corpo despencar novamente no chão.
Não podia ser Natalie Cooper.
Quer dizer, eu sabia que ela vivia em Washington, mas o mundo tinha acabado e eu sempre preferi não pensar no que ela estaria fazendo.
Era preciso esquecer para viver, e foi o que eu tentei fazer no curso dos anos. Mas, quando o mundo acabou, a primeira coisa que passou na minha mente foi uma promessa estúpida que tínhamos feito. Minha ida a pedreira havia me unido ao grupo, eu cumpri minha promessa de estar lá, mas Natalie não cumpriu a dela.
Tinha sido mesmo uma idiotice pensar que ela atravessaria cinco estados pra me encontrar, ela provavelmente sequer se lembrava de mim...
Eventualmente aquele grupo se tornou meus amigos e a lembrança da minha Bochechas foi esvaecendo da minha mente. Com a morte nos cercando a todos os momentos presumi que esse também tinha sido o destino dela.
E, honestamente, era melhor Natalie estar morta do que encontrar com ela no Santuário. Eu já conhecia as torturas e métodos de Negan o bastante pra saber aquela possibilidade seria pior que um pesadelo...
Tentei tirar aquilo da mente e me convencer que tinha sido apenas a minha cabeça me pregando peças, a falta de água, comida e a dor deviam estar mexendo comigo.
No entanto aquela sensação incômoda me acompanhou no decorrer das horas, me fazendo cogitar cada probabilidade estúpida e assustadora.
Eu já havia me perdido no tempo novamente quando o barulho de passos me colocou alerta, não demorou muito para que a porta do cubículo fosse aberta e a luz me cegasse por um momento.
— Acabou a moleza. — Dwight declarou, me puxando pelo colarinho.
Ele me tirou do cárcere e me arrastou por aquela merda de lugar, eu segui tentando decorar rotas e saídas, mesmo que os corredores fossem todos iguais.
Achei que ele me levaria para a ala externa novamente, mas não aconteceu assim, paramos na entrada principal, um platô que dava visão para um grande saguão onde centenas de pessoas andavam de um lado para o outro.
Negan tinha gente demais, os homens que haviam nos emboscado na estrada não eram metade do pessoal dele.
E sem Glenn e Abraham tínhamos ainda menos pessoas...
O tirano veio caminhando do lado direito, aquele maldito taco nos ombros e o olhar assassino em conjunto com o sorriso. Dwight me puxou para o chão, me obrigando a uma reverência.
— Bem na hora! — O líder dos Salvadores abriu os braços, balançando seu taco no ar, em um movimento que parecia despretensioso, mas era uma ameaça clara. — Bom, é o seguinte, Daryl, eu avisei que não tinha uma porta número quatro, você pertence a mim, mesmo que queira dar uma de machão.
Negan tinha a tendência inconveniente de se aproximar demais, ele usava aquilo como uma forma de intimidação, um jeito de provar que tudo estava sob o controle dele.
— E aqui nós temos regras, acabou o tempo de mamata e comida de graça. — Até o modo do cretino falar era meticuloso, ele controlava o próprio tom, fingindo-se de amigável, punia e torturava como se estivesse no meio de um jogo amigável entre amigos. — Você quer comer? Você trabalha por pontos. Você quer uma roupa limpa? Trabalha por pontos. É assim que funciona. No entanto você ainda é um prisioneiro. Só faz o que eu mandar, quando eu mandar. E nem pense em fazer corpo mole, não me obrigue a ir até sua casa macetar a cabeça de outro dos seus...
A voz dele morreu na garganta, enquanto seus olhos cravaram em um ponto abaixo de nós, no saguão. Algo havia prendido a atenção dele e parecia mais interessante que a minha miséria.
— Dwight vai te dar as tarefas do dia. Tenho coisas mais prazerosas para resolver. — Sorriu abertamente nós deixando e saindo em passos apressados. — Coração? — Pude ouvi-lo chamar enquanto descias os degraus
Por puro instinto levei meus olhos até o pé da escada, a primeira figura que reconheci foi um idiota qualquer, que estivera na maldita rodinha que tinha me espancado. Era um sujeito alto de cabelo escuro e queixo quadrado. Ao lado dele havia uma garota e novamente tive aquela sensação de déjà vu. O sentimento foi tão forte que fez minhas mãos tremerem.
Seja quem fosse eu não podia vê-la perfeitamente, algumas colunas e vigas de ferro dificultavam minha visão. Um nome se formou na minha mente, piscando em luzes de neon, mas eu tratei de afastar isso. A altura até podia parecer a mesma, e a cor do cabelo, mas os fios eram mais curtos e a garota era mais magra.
Pare com essa estupidez, tentei convencer a mim mesmo, conforme Dwight me arrastava para outro lugar e a figura feminina que Negan envolvia com um braço sumia da minha visão.
Logo chegamos a um amplo refeitório, haviam muito mais pessoas do que eu esperava ali. O cheiro de comida me deixou tonto por um instante, mas eu apenas sacudi a cabeça e desconsiderei.
— Não fique tão surpreso. — Dwight resmungou. — Se tivesse feito a escolha certa podia estar sentado como gente decente em uma dessas mesas, comendo do bom e do melhor agora.
Minha recusa parecia atingí-lo diretamente, cogitei que o fracasso de Dwight em me dobrar poderia gerar alguma punição para ele, mas não me importei.
Minha mente tinha dificuldades em se manter focada, era difícil captar o máximo de informações relevantes quando minha atenção teimava em se focar naquela figura feminina. Os detalhes ficavam repassando na minha cabeça, era como se uma parte minha tentasse enumerar todos os motivos pelos quais não era Natalie Cooper ali, enquanto a outra pegava pequenas tolices como provas irrefutáveis. E havia aquela sensação que nunca ia embora, um misto de medo e expectativa que gelava minha espinha e fazia minhas mãos suarem.
Dwight se aproximou de um balcão, onde algumas pessoas serviam outras, não prestei atenção no que ele pediu ao homem que parecia cozinheiro, embora ele fizesse questão de esfregar cada coisa na minha cara.
— Eu te ofereceria, mas você precisa de pontos e não tem nenhum. Uma pena. Se tivesse aceitado...
Parei de ouvir as merdas que ele dizia, meus olhos ficaram presos na porta, eu congelei, era como se nada mais existisse ao meu redor.
Negan tinha acabado de entrar no recinto, acompanhado da mulher de antes e então não havia mais nenhuma dúvida sobre quem ela era. Natalie Cooper.
Seus traços estavam mais sóbrios e ela estava muito mais magra, o rosto fino e sério, nada das bochechas redondas que tinham me impelido a lhe dar o apelido, os cabelos que antes caiam em cascatas até a cintura estavam curtos, acima dos ombros, mas ainda assim era ela, com seus olhos negros penetrantes, mesmo que eu tenha reparado que faltava brilho neles.
Era como se toda a leveza e a inocência daquela garota de Dawsonville não estivesse mais lá, Natalie era uma mulher e a constatação daquele fato me feriu. Ela não era mais a mesma, eu não era mais o mesmo... O tempo havia passado e as coisas não podiam ser desfeitas.
Aquele sentimento de perda que eu tinha reprimido por anos veio à tona e me trouxe um gosto amargo a boca.
— Ela causa mesmo esse efeito nas pessoas. — Percebi que o mesmo idiota de antes, com o queixo quadrado, tinha entrado no meu campo de visão e falava diretamente comigo. — Eu chamo de "efeito Cooper".
Ele olhou de mim para Natalie e eu percebi que tinha encarado por tempo demais, então desviei o olhar.
Vi Dwight cumprimentar o homem e assim soube que ele se chamava Kane, enquanto os dois trocavam algumas palavras e faziam pedidos para as pessoas atrás do balcão eu voltei novamente minha atenção para Natalie.
Ela ainda não tinha virado o rosto na minha direção, estava muito próxima de Negan, um tipo de raiva visceral percorreu minhas veias e fez um arrepio desconfortável subir pelo meu corpo. Será que Natalie era uma das esposas dele? Tal pensamento me causou náuseas, ao mesmo tempo em que outra parte da minha mente tentava rebater aquela pergunta.
Apesar de não esboçar qualquer recusa a proximidade de Negan, ou de se afastar dele, Natalie não parecia amigável com sua presença, havia certa intimidade entre os dois, isso é fato, mas ela não estava confortável com aquilo, ou pelo menos foi disso que eu tentei me convencer.
Expectativa, medo e coisas que eu não entendia muito bem, se misturavam com meus outros sentimentos, era como uma bomba de sensações que tinha me atingido em cheio, tudo ao mesmo tempo. Eu mal conseguia separar e nomear cada emoção. Foi nessa hora que aconteceu, Natalie moveu o rosto para o lado, desviando de Negan e, como se imãs nos conectassem, nossos olhos se encontraram no meio do salão.
Azuis e negros. Eu e ela. Era como se eletricidade estática percorresse o meu corpo, me impulsionando para frente, e eu teria realmente dado o passo se Natalie não tivesse desviado os olhos, como se simplesmente não me conhecesse.
Isso era possível? A atitude dela me fez questionar tudo. O que vivêramos tinha mesmo sido real? Talvez eu tivesse superestimado nossa história, talvez eu simplesmente não tivesse significado tanto pra ela, quanto ela significou para mim.
No meio daquela avalanche de emoções eu acabei me esquecendo do mais importante. Estávamos no Santuário...
Apenas quando Negan se afastou rindo foi que eu me lembrei desse fato e soube que não era hora de ser um maricas emocional.
— Hey parceira, chega mais. Dwight trouxe o novo vira latas dele pro café. — Kane acenou animado, enquanto Natalie fazia menção de sair do refeitório.
Acabei caindo na real de toda aquela situação ali, eu era um escravo, humilhado de todas as formas possíveis. Eu não queria que ela me visse daquele jeito. Mas bem quando eu desejei que Natalie se fosse ela deu minha volta e caminhou na minha direção.
Seus passos eram decididos e controlados, não tinha nenhum sinal de perturbação ou reconhecimento no rosto dela, não podia ser fingimento...
— Eu cuidei muito melhor de você, não acha, Cooper? — O idiota apontou pra mim, com um sorriso cretino no rosto.
Natalie passou os olhos por Dwight, antes de focar em mim por menos de três segundos, percebi que sua mandíbula estava travada e, mesmo que eu quisesse, não consegui desviar o olhar, mas ela o fez sem qualquer dificuldade.
— O que eu acho é que nós temos trabalho agora, seria bom se você parasse de enrolar. — Respondeu ao capanga de Negan, revirando levemente os olhos na direção dele. Kane sorriu presunçosamente como se tivesse acabado de ganhar um prêmio.
Ele estava à vontade na presença dela, o que me causava um gosto azedo na boca e despertava mais perguntas do que seria saudável ter naquele lugar.
— Então você ainda não disse sim para o chefe? — Kane questionou descontraidamente e foi ignorado, enquanto Natalie parava no balcão.
Menos de três metros nos separavam e aquele cretino estava bem no meio. Eu era incapaz de pensar com clareza.
— Que pena, conheço pessoas que amariam te ver de vestido. — Ele apoiou os cotovelos no longo balcão e se virou na minha direção, iniciando uma conversa, como se fossemos amigos de longa data. — As esposas do Negan usam uns vestidinhos que: minha nossa. E a Natalie aqui tem lindas pernas, acho que você gostaria dessa visão.
Embora seu tom fosse amigável e descontraído havia algo mais ali, como se Kane estivesse pressionando pra saber meu limites, como se estivesse me testando de alguma forma.
Mas a única coisa que eu realmente ouvi foi o fato de Natalie não ser uma das esposas do Negan, pelo menos não ainda... Graças aos céus.
— Além do mais, Pontistas comem de graça quando temos casamento. — Deu de ombros e riu um tanto superior, me medindo dos pés à cabeça e voltando seus olhos para Natalie.
Foi só então que eu percebi que o teste talvez não fosse apenas pra mim, era pra ela também, estava bem claro que aquele idiota sabia de alguma coisa.
— Já chega, Kane, por que você não cresce? — Natalie retrucou, negando algumas vezes e desviando o olhar, o que fez o Salvador focar toda a atenção nela.
Dwight por sua vez não parecia interessado ou preocupado com os dois, enquanto devorava um sanduiche qualquer que o homem atrás do balcão havia lhe entregado.
Presumi que a interação de Natalie com o homem chamado Kane era natural, o que me fez questionar se os dois seriam amigos suficientes para que ela lhe contasse alguma coisa. Naquela altura do campeonato eu já estava ciente de que ela estivera na minha porta, ou seja, Natalie Cooper sabia que eu estava no Santuário e não fez nada, sequer falou comigo.
Talvez eu não estivesse vendo o ponto mais importante de tudo aquilo: ela era um deles, ela era o inimigo naquele momento.
— Eu já pedi seu café, como você mesma disse, não é bom enrolarmos hoje, temos trabalho. — Kane bateu no balcão algumas vezes, enquanto o rapaz trazia um copo de suco. — Suco de laranja, com açúcar, como sempre, certo?
Os olhos de Natalie focaram em mim por meio segundo e eu tive certeza que ela se lembrava de tudo tão bem quanto eu. Mas no instante seguinte ela já tinha voltado para sua postura fria e distante.
— Acho que eu vou querer café puro hoje, Tony, por favor. — Devolveu o copo para o rapaz atrás do balcão, que assentiu em um movimento curto.
— Não, deixa o suco aqui. — Kane fez um gesto para pegar o copo dele e em seguida o colocou na minha frente. — Aqui colega, presente de boas-vindas. Pra que não fique nenhum ressentimento da nossa briguinha. — Piscou com um olho só, eu o encarei duramente, cogitando quebrar aquele copo na cabeça dele
— Você não pode dar nada pra ele. — Dwight se pronunciou pela primeira vez, tomando minha frente e o copo da mão de Kane. — O prisioneiro é um pontista agora.
— Não por isso. — O moreno recuperou o suco, e tinha um sorrisinho superior naquele rosto maldito — Número?
— Kane... — Dwight tentou argumentar, mas foi duramente interrompido.
— Eu perguntei o número dele, D. — Os dois Salvadores pareciam estar em uma disputa de poder.
Natalie sequer prestava atenção, seu café tinha chegado e ela mantinha os olhos em um ponto fixo contrário ao meu.
— Cento e sete. — O loiro se deu por vencido e Kane tirou um caderninho do bolso.
— Pronto, dois pontos dados, dois pontos tirados pelo suco. Problema resolvido. — Escorregou o copo de volta pra mim, como se eu realmente quisesse aquela porcaria.
Nem que eu estivesse morrendo de fome, aceitaria algo daquele cretino.
— E você está dando pontos pra ele por qual motivo? — Dwight estava bastante enfezado com a situação, usou um tom agressivo e superior.
— Ele me fez ganhar uma aposta contra você, eu chamo de... "pontos por benefício". — Havia um tom de desafio claro na voz do outro Salvador, embora ele sorrisse como se aquilo fosse uma conversa totalmente casual.
— Isso é contra as regras! — O primeiro tornou a retrucar.
— Diga onde é contra as regras. — Kane abriu mais ainda o sorriso, calmo como quem sabe que já venceu e Dwight titubeou:
— Não é proibido exatamente, mas fica subentendido.
Natalie soltou um suspiro audível, se levantou, revirando os olhos e se colocando entre os dois, olhando meu carrasco levemente de cima e parando por alguns segundos os olhos no colete dele. Meu colete.
— Tecnicamente, também está subentendido que você não pode fumar escondido com a sua mulher na escada. — Ela foi agressiva, um tom meio jocoso, que lembrava o do moreno atrás dela, porém muito mais cínico. — Quer perguntar ao Negan se essas coisas são realmente contra as regras?
Percebi que aquilo tinha atingido Dwight em cheio, ele deu um passo para trás, Natalie o mediu de cima a baixo novamente e simplesmente saiu, caminhando em passos largos para fora do refeitório.
— Quem diria que ela tem garras tão afiadas, não é? — Kane deu um tapinha nas costas do loiro e riu como se estivesse orgulhoso, empurrando um pouco o suco na minha direção, piscando com um olhos só, como se realmente fossemos amigos, e saindo logo atrás de Natalie.
Dwight ficou olhando os dois se afastarem antes de se jogar no banco novamente, claramente de mau-humor.
— Toma o maldito suco de uma vez!
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Me concentrar em qualquer coisa pelo restante do dia foi uma tarefa difícil, eu diria até mais difícil do que estar preso naquele cercado que compunha a guarda morta-viva do Santuário. Eu tinha que "realocar" os errantes, tirar os que estavam podres demais e colocar outros no lugar. Tudo isso sob o sol escaldante da tarde, com os pés descalços, sem água ou comida. Realmente Negan sabia como tirar toda a dignidade de alguém.
Humilhação era o prato principal naquele inferno, em pouco tempo eu consegui entender a hierarquia do lugar, mesmo que no geral as coisas fossem dividas entre Pontistas e Salvadores, na prática haviam bem mais divisões e eu me encontrava no degrau mais baixo de toda aquela sociedade, eu era, literalmente, um escravo, mesmo que o déspota psicopata não usasse essa palavra.
E mesmo que aquele reencontro perturbador com Natalie Cooper tivesse tirado todo o meu foco, eu não me arrependia de não ter cedido, não importava o que viria depois, não importava que tipo de humilhação ou tortura estivesse sendo planejada para mim, eu não cederia, eu não podia, eu devia isso ao Glenn e ao Abraham.
Tentei focar naquilo, ao invés de mergulhar nos questionamentos que teimavam em exigir minha atenção. Natalie não era meu problema.
Tão logo pensei nela vi sua figura se aproximar. Estávamos no meio da tarde, Dwight do lado de fora da cerca fiscalizando o meu trabalho, mesmo que fizesse uma coisa ou outra ali por perto volta e meia.
Eu tinha visto Natalie três outras vezes durante aquele dia, sempre de longe e sempre acompanhada daquele idiota chamado Kane, eu tinha ouvido quando ele a chamou de parceira e isso parecia fazer sentido. A única coisa que não fazia sentido era Natalie Cooper sendo uma Salvadora, vivendo sob a filosofia de Negan, a garota que eu havia conhecido em Dawsonville jamais se sujeitaria a uma coisa daquelas.
De todas as coisas que me torturavam e feriam naquele lugar, saber que ela não era a mesma a ponto de eu sequer reconhecer suas atitudes, era o que doía mais.
— O que? — Dwight questionou quando Natalie parou na sua frente, ele estava com a minha crossbow na mão, bem próximo as grades, mexendo como uma das flechas como se soubesse o que fazia.
— Negan quer te ver. — Natalie respondeu seca, o olhar duro e a postura hostil. Ela não gostava dele.
— Por que? — O Salvador com o rosto marcado não parecia gostar dela também, se encostou na grade e não fez qualquer menção de que sairia dali.
Tive que desviar das garras de um errante antes que ele arranhasse meu braço, isso atraiu a atenção de Natalie que voltou seus olhos na minha direção em um impulso que durou menos de três segundos.
— Quer que eu volte lá, pergunte pra ele e depois volte aqui pra te responder? — Ela foi irônica e hostil, erguendo levemente o queixo com um ar de quem sabia muito bem como dar ordens.
— Vou levar o prisioneiro de volta pra cela. — Dwight abriu a grade meio a contragosto e me fez um sinal com a cabeça.
— Eu levo, Negan está impaciente. — Natalie colocou o braço no portão, detendo minha passagem.
O loiro olhou de mim para ela e comprimiu os lábios em um gesto desgostoso.
— O que você disse pra ele? — Foi agressivo, dois passos mais perto, Natalie sequer se moveu, mas soltou um risinho venenoso que não combinava em nada com ela.
— Tem algo que eu devia ter dito pra ele? — Havia uma ameaça velada em sua voz, ela era exatamente como os homens daquele líder psicopata e eu senti náuseas, mesmo que também não gostasse do Dwight. — Negan está sempre impaciente, não sabe disso?
Vi o Salvador ajeitar a crossbow nas costas e olhar incerto para mim novamente.
— De toda a forma... esse prisioneiro é perigoso, ele mataria você mesmo que estivesse com as mãos amarradas.
Natalie assentiu levemente e levou a mão até a cintura, tirando uma automática da parte traseira do cinto.
— Eu sei como me defender. — Checou a munição de forma rápida em um movimento que deixava claro que ela sabia como usar a arma. — Mas obrigada pela sua preocupação.
— Negan colocou uma arma nas suas mãos... — Dwight constatou um tanto desgostoso. Ele não confiava nela, e isso me deixava intrigado sobre o motivo. — Você deve ser mesmo a preferida dele.
Meu estômago revirou ao ouvir aquilo, e foi pior ainda ver que Natalie não fez nada para negar ou desmentir.
— Ciúmes? — Ela perguntou tombando um pouco a cabeça.
Os dois ficaram calados, se ameaçando com o olhar por alguns segundos, até que Natalie deu um passo para trás, como se nada tivesse acontecido.
— Vamos dar um passeio amanhã, Negan quer conhecer a nova comunidade dele. — Apontou na minha direção, sem me olhar realmente e encostou na grade.
A postura de Dwight não relaxou, ele ainda não se sentia à vontade com a presença de Natalie.
— Isso é mais cedo que o esperado... — Pontuou em um som um tanto preocupado e percebi que estavam falando de Alexandria.
Tive a certeza que aquele pesadelo não acabaria nunca e torci para que Rick já tivesse bolado um plano para o contra-ataque, aquela gente não podia entrar na comunidade. Rick e os outros não podiam permitir que mais ninguém morresse.
— Como eu disse: ele está impaciente. — Natalie deu de ombros, e Dwight alternou o olhar entre nós dois outra vez, concordando com um aceno de cabeça e dando alguns passos em direção a escada que dava acesso ao Santuário.
— Cooper? — Ele chamou dando meia volta e Natalie desencostou da grade para ouvi-lo. — Fique longe da Sherry.
Aquela advertência era uma ameaça, mas ele não esperou resposta, tornou a se virar e em alguns segundos sumiu para dentro da fábrica.
— Bem que eu queria... — Ouvi Natalie murmurar, enquanto ela se virava na minha direção.
Ela não me olhou realmente, apenas segurou o portão aberto, me deixando espaço para passar, mas eu não consegui me mover. Aquela hipótese ridícula de que ela não se lembrava de mim voltou a minha mente. Talvez ela lembrasse e simplesmente me odiasse por tudo que aconteceu, isso explicaria a frieza dela comigo.
— Eu tenho que te levar de volta. — Declarou, quando viu que eu não havia me mexido, mas era como se não falasse comigo realmente.
Continuei parado, olhei ao redor, as pessoas mais próximas estavam longe, eu podia correr, eu ainda queria fugir, contudo era como se minhas pernas não me obedecessem.
Natalie suspirou e olhou ao redor também, então negou vagamente.
— Não me force a ter que apontar essa arma pra você... — Vi que ela estava com a mão no coldre e me perguntei se ela realmente faria aquilo. — Por favor, Daryl.
Ouvir meu nome sendo dito por ela novamente abriu um corte em mim, era como um pesadelo que nunca acabava.
Obriguei minhas pernas a obedecerem e segui para dentro da fábrica. Diferente de Dwight, Natalie não me arrastava, ela sequer tinha encostado em mim, apenas caminhava dois passos atrás apontando a direção vez ou outra, me perguntei se ela faria o mesmo se fosse qualquer outro prisioneiro...
O silêncio me incomodava, a frieza dela e aquela apatia me irritavam.
— Pelo menos você sabe o que eles são? O que eles fazem? — questionei, parando no meio de um corredor qualquer, eu não podia mais fazer aquilo. Eu tinha que saber.
Natalie se virou na minha direção e eu vi em seus olhos que ela sabia, até melhor que eu, o que acontecia dentro daquele lugar, mas seguia passiva, como se não se importasse. Quem era aquela mulher e o que ela tinha feito com a minha Bochechas?
— Claro que você sabe. Você é um deles! — Acusei, perdendo minha paciência.
— Não fala. Só anda. — Ela deu um passo para trás e apontou o corredor novamente. Aquela atitude me irritou ainda mais.
— E se eu disser "não"? — Soltei um riso sem humor e dei um passo para frente, não me preocupando se aquilo era ameaçador ou não, se ela era um deles, então seria tratada como eu trataria todos eles. — E se eu derrubar você e fugir?
Natalie parou e simplesmente olhou nos meus olhos, não como das outras vezes em que ela me encarava, mas era como se não me visse, naquele momento ela realmente olhou pra mim, e foi devastador...
Suas íris negras não tinham mais brilho, era como se ela estivesse morta por dentro, ou talvez eu só estivesse vendo a mim mesmo refletido em seus olhos, eu também estava morto por dentro. E foi quando aquela saudade imensa me atingiu, trazendo um arrependimento amargo que eu tinha evitado por toda a vida. Quão diferentes as coisas seriam se eu tivesse agido de outro jeito anos atrás?
Me lembrei de tudo que eu não disse e do quanto eu era fraco por isso. Durante todo aquele tempo eu tentei convencer a mim mesmo que tinha feito o melhor pra ela, mas será mesmo que era o melhor?
Dúvida e culpa, porém a pior parte era a percepção de que estávamos a menos de três passos de distância, mas era como se houvesse um oceano entre nós... Como uma criança vendo areia escapar pelos dedos eu tentei alcançar Natalie erguendo a mão, um ato muito mais instintivo do que pensado realmente.
— Isso seria um grande erro. — Ela declarou neutra e eu não soube se aquilo era uma resposta a minha ameaça, ou se era sobre minha intenção de tocá-la.
Natalie deu um passo para trás, deixando o caminho livre, esperando pela minha decisão, os braços se cruzando junto ao corpo, como se precisasse se manter longe de mim.
Eu soube que se tentasse fugir ela não me deteria, mesmo que tivesse uma arma na cintura pra isso. Mas eu não fui, apenas continuei caminhando de volta para o maldito quartinho.
O cara que eu vi atrás do balcão no refeitório estava lá, ele tinha os fios castanhos claros perfeitamente alinhados para trás e traços europeus marcantes, que em nada combinavam com aquele lugar. Tinha uma bandeja com uma garrafa de agua e dois sanduiches enormes.
Percebi a porta do cubículo aberta e tudo lá dentro parecia recém limpo.
— Obrigada, Tony. — Natalie agradeceu, esticando a mão para a bandeja, logo depois de anotar algo em um caderninho.
O rapaz assentiu e sumiu pelos corredores logo em seguida. Natalie ficou parada olhando pra mim por um momento.
— Você precisa entrar. — Falou por fim, me estendendo a bandeja.
Lembrei que eu tinha jogado o maldito suco fora, e que não comi nada o dia todo, mesmo assim eu ainda tinha algum orgulho, pelo menos na frente dela.
— Eu não preciso da caridade de ninguém, nem do seu sanduiche de comida de cachorro. — Retruquei hostil, e as mãos dela tremeram, sacudindo a bandeja perceptivelmente.
Natalie desviou o olhar e meneou a cabeça, foi como se eu pudesse ver algo nela se partir. Ela demorou alguns segundos até que pegou um dos sanduiches e deu uma mordida, talvez essa fosse a forma dela de mostrar que não tinha comida de cachorro ali.
— Infelizmente você não pode ficar com a garrafa, ou com o prato, então vai ter que beber agora. — Estendeu a bandeja na minha direção novamente e eu entendi que o que estava acontecendo naquele momento não era do conhecimento de ninguém.
Me dei por vencido e peguei a garrafa de água, percebendo, assim que o líquido tocou meus lábios que eu estava sedento. Devolvi a garrafa vazia e peguei os sanduiches, dando uma última olhada em Natalie enquanto entrava no cubículo.
Me sentei no chão de qualquer jeito e a encarei por um momento, até que o silêncio fosse demais pra que eu conseguisse sustentar aquele olhar.
Talvez uma parte daquela garota de Dawsonville ainda estivesse viva nela, talvez ainda houvessem esperanças...
— Por que você está aqui? — Perguntei, antes que ela fechasse a porta, erguendo um pouco a cabeça para encará-la.
Por um segundo pensei que Natalie responderia, ela chegou a mover os lábios pra isso, mas os fechou novamente e meneou a cabeça algumas vezes.
— Desculpe, Daryl... — Disse antes de fechar a porta e me deixar sozinho.
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