Lifeline — Destiny Don't Give Up
15 Pária
Notas iniciais
• RICK GRIMES •
Quando você é um líder ou quando tem pessoas dependendo da sua proteção, constantemente tem que tomar decisões que não gosta muito. Eu já tinha me acostumado a fazer o necessário, depois de todo aquele tempo sobrevivendo no caos que o mundo tinha virado, mas para Maggie era a primeira vez...
Eu não sabia se ficava orgulhoso pela posição de liderança que ela tinha assumido, ou se sentia pena por saber tudo que a última Grenne enfrentaria dali em diante.
Maggie contara toda a história da Salvadora presa no porão de Hilltop e mesmo que parecesse desconfortável com o que tinha feito, não dava qualquer sinal de que voltaria atrás. Eu conseguia entender, não era apenas sobre Hilltop e a guerra que estamos formando aos poucos, era sobre o bebê em seu ventre. Fazemos qualquer coisa pelos nossos filhos.
— Talvez ela devesse ficar até vocês voltarem, não sei se gosto da ideia de viajarem com uma prisioneira. — Maggie expressou sua preocupação.
Estávamos próximos aos muros, do lado de dentro da comunidade. Minha chegada ali não tinha nada a ver com a prisioneira de Maggie, na verdade. Estamos em uma missão, iriamos atrás de armas.
Tara Chambler havia contado de um grupo próximo a praia, apenas mulheres vindas de uma comunidade maior que fora destruída pelos Salvadores, elas tinham um belo arsenal, mas Tara havia feito uma promessa, por isso só repassou essas informações quando viu que não tínhamos outra escolha.
Embora o Reino tivesse declinado o nosso convite para uma aliança, uma outra comunidade havia se juntado a causa, depois de algum esforço e negociação. Eram um grupo estranho, isso é bem verdade, viviam em um tipo de lixão e tinham um jeito bastante peculiar, mas eu não podia me dar ao luxo de ficar escolhendo, precisamos de pessoas. Todas elas.
E, claro, precisamos de armas, por isso juntei um grupo para ir até Oceanside, faríamos a proposta para que elas se juntassem a nós e não tivessem mais que fugir, mas honestamente eu estava preparado pra tudo...
Por isso eu precisava de Daryl e Jesus comigo, e era esse o motivo de minha visita à Hilltop.
No entanto, conversar com alguém que estivera dentro do Santuário podia ser um trunfo valioso. Acreditei que teria alguma vantagem com a prisioneira de Maggie, já que essa mesma moça tinha escondido Judith dos outros Salvadores quando esteve em Alexandria.
Tínhamos trocado algumas palavras na ocasião. Natalie, foi uma incógnita logo de cara, ela não parecia fiel a Negan, então aquela seria a oportunidade perfeita para saber de que lado ela estava.
— Não se preocupe, Okay? — Tentei dar alguma paz a Maggie, e coloquei minha mão em seu ombro como forma de apoio. — Vamos até Oceanside pegar as armas e depois direto pra Alexandria. Se ela for mesmo perigosa, é até melhor que não fique aqui com você nesse meio tempo.
Maggie assentiu vagarosamente enquanto me encarava.
— Você vai testá-la, não é, pra ver se eu estou errada? — Ela questionou neutra.
— Você está sendo protetora com o seu bebê, não está errada, mas se existe qualquer chance dessa garota ser uma aliada e nos dar as informações que tem, então temos que tentar. Precisamos de qualquer vantagem possível. — Expus meu argumento e Maggie concordou, mesmo parecendo hesitante.
— Eu só não quero que ela use minha gravidez como um trunfo. Não quero que Negan saiba disso... — Respirou fundo e foi como se eu visse a tristeza no fundo de seus olhos.
Maggie já tinha perdido de mais, e eu sabia que a culpa era minha em partes, afinal minhas decisões tinham colocado todos naquele caminho, cada morte pesava em mim também. Esse era o ônus de ser líder.
— Não vou permitir que isso aconteça, prometo. — Garanti, com toda a minha sinceridade.
Se eu percebesse qualquer chance daquela Salvadora ser uma ameaça ao bebê de Glenn e Maggie, eu mesmo a mataria, devia isso aos dois.
Terminamos todos os preparativos, vi Daryl se afastar para buscar a moto e percebi que ele estava estranho, quer dizer, mais estranho que o de costume. Presumi que fosse aquela estadia no Santuário, da qual ele não deu nenhum detalhe pessoal, embora tivesse contado tudo que sabia sobre as instalações e as pessoas lá, no intuito de ajudar na nossa nova luta. Daryl queria vingança, e mesmo que todos nós quiséssemos, no caso dele havia algo mais...
Era complicado, afinal era o Daryl, eu não conseguia muito dele, mesmo que tivéssemos progredido muito desde a pedreira. Carol fazia falta em momentos como aquele...
Foi então que Paul Rovia trouxe a garota. Suas mãos estavam amarradas na frente do corpo, e ela mancava algumas vezes, entre um passo e outro. Natalie exibia um olhar vazio, o negro de seus olhos sem brilho algum, e sequer os desviou para nenhum de nós.
— A fita era mesmo necessária? — Michonne perguntou, se referindo ao fato da moça estar amordaçada.
— Vocês não viram o que eu vi, estávamos rendidos e ela reverteu a situação sem usar arma nenhuma. Apenas com palavras. Acho que temos que nos preocupar mais com a boca dela, do que com suas habilidades físicas. — Maggie explicou, seguindo Natalie com os olhos.
— Vamos lembrar disso. — Tara, logo ao nosso lado, garantiu.
Estava claro pra mim que Maggie não gostava daquela situação, era só uma coisa que ela tinha que fazer, mas não era uma coisa que ela queria fazer. A linha era tênue, mas existia uma diferença e eu sabia bem disso.
Daryl veio arrastando a moto pela esquerda, mas seus olhos sequer passaram pela gente, seguiram direto para Natalie que estava prestes a entrar no trailer.
Ele tinha um jeito peculiar de olhar para ela, era diferente da forma como Daryl encarava qualquer outra pessoa. E o mais interessante naquela cena foi que a moça, como se fosse atraída pelo olhar do caçador, levou os olhos até ele também.
Foram menos de três segundos, provavelmente ninguém mais percebeu, mas eu vi uma faísca ali. Não soube decifrar o sentimento na hora, porém estava claro que Natalie não era indiferente a Daryl como era ao resto de nós.
Havia algo mais acontecendo e, talvez, eu tivesse que descobrir o que era, antes de finalmente entender aquela mulher...
Nos dividimos entre o carro, um furgão, o trailer e Daryl indo sozinho em sua moto.
Jesus levou Natalie para o fundo do trailer, a deixou presa em um lugar estratégico usando algemas, colocadas em torno da divisão da janela para que ela não pudesse escapar, mesmo que já estivesse com os pulsos amarrados com cordas. Ele era outro que estava visivelmente desconfortável com aquilo.
Eu e Michonne fomos no trailer também, enquanto Paul dirigia.
— Você não concorda, não é? — Questionei a ela, quando estávamos lado a lado na parte central do trailer, em um tom baixo, para que nem Jesus nem Natalie ouvissem nossa conversa.
Michonne, desde que soube quem era a prisioneira, não parecia à vontade com a situação. Ela ainda se sentia em dívida por causa de Judith. Eu só podia agradecer por aquela mulher incrível amar meus filhos como se fossem dela.
— Já estive do outro lado dos trilhos também, lembra? Com o Governador... — Suspirou, mas não desviou os olhos dos meus.
— Você nunca esteve com o Governador, você só passou por Woodbury. Natalie invadiu Alexandria com os Salvadores. E você lembra todas as coisas que o Daryl disse, certo? — Argumentei, não porque queria que ela odiasse a moça, mas queria que Michonne visse que a situação não era a mesma.
— Ela invadiu, eu sei, mas ela também salvou a Judith. E vamos combinar que o Daryl, às vezes, tem raiva até da própria sombra, então... — A frase ficou no ar enquanto ela dava de ombros e nos dois acabamos por sorrir.
Segurei as mãos de Michonne para lhe dar algum conforto.
— Maggie acha que ela não é confiável e eu prometi. — Expliquei. Nosso grupo sempre vinha em primeiro, era o certo a fazer.
— É eu ouvi... Mas na verdade o que me pareceu foi que a moça fez o que precisava pra salvar a própria pele, mas também salvou o Daryl e a Maggie, não é? — Devolveu neutra, mostrando outra perspectiva para a história. — O que você acha de tudo isso?
— Eu acho que precisamos de aliados, e que a garota sabe de coisa demais pra ficar com a boca amordaçada. — Expressei minha opinião sincera sobre o caso.
— Isso é exatamente o que eu acho. — Michonne assentiu e lançou um olhar para o fundo do trailer.
— Vou ver o que eu consigo. — Decidi, e me coloquei de pé, seguindo naquela direção.
Natalie tinha a cabeça encostada no vidro, olhando a paisagem passar depressa, provavelmente tentando decifrar o nosso destino.
Ela me percebeu chegar, mas não me deu atenção nenhuma. Eu abri um dos armários ali e peguei algumas coisas, para deixá-las a mão na pequena bancada do lado direito.
Então me aproximei de Natalie o bastante para que ela não tivesse opção a não ser mover a cabeça para me encarar.
Ergui minhas duas mãos pra provar que eu não queria lhe fazer mal, antes de começar a falar.
— Eu vou tirar isso da sua boca agora, certo? — Avisei, e ela não ofereceu resistência.
Arranquei a fita o mais delicadamente que pude, e então peguei a chave das algemas.
— Então, Natalie, parece que a gente se encontrou de novo. — Tentei ser amigável, enquanto soltava seu braço das algemas.
Ela não respondeu, me encarou por alguns segundos, vendo que eu me afastava em direção a mesinha e me sentava ali.
— Pode se sentar aqui, por favor? — Apontei o lugar exatamente na minha frente, mas Natalie não se moveu. Ela tinha um olhar muito analítico, estava claramente tentando me decifrar.
Após algum tempo, em que eu apenas esperei, ela finalmente se levantou, como se tivesse escolhido pagar pra ver. Se sentou na minha frente, mantendo as mãos, ainda amarradas com as cordas, sobre o colo, embaixo da mesa.
— Me dê as suas mãos, por favor. — Pedi, estendendo minha mão esquerda, enquanto pegava uma faca com a direita. Natalie desconfiou, unindo as sobrancelhas e me olhando com certa raiva. — Eu não vou te machucar, vou tirar a corda e tratar os ferimentos do seu pulso. — Avisei, em um tom calmo e educado.
Levou mais alguns segundos até que ela apoiasse o braço sobre a mesa. Cortei as cordas, e alcancei a caixa de primeiros socorros que eu tinha deixado previamente ali ao lado.
Os olhos de Natalie seguiram para a faca ao meu lado, ainda sobre a mesa.
— Tenho que avisar que se você tentar alguma coisa, não vai ser legal, certo? — Guardei o objeto comigo e ouvi um riso totalmente sem humor sair de seus lábios.
— Achei mesmo que as ameaças estavam demorando... — Ironizou, estreitando os olhos na minha direção.
— Não é uma ameaça, é só um aviso. — Deixei claro em um tom neutro, enquanto estendia minha mão para que Natalie me desse a dela e eu improvisasse um curativo.
Estava claro, por sua aparência, que ela tinha sofrido o bastante nos últimos dias e, depois do soco que eu sabia que Sasha tinha dado nela, pensei em algo mais leve para iniciar nossa conversa. Costumava dar certo na época de polícia.
Shane chegava todo mandão e imponente, dava uma prensa em todo mundo e depois eu agia, alguém mais calmo, em quem as pessoas sentiam que era seguro confiar, mesmo pra confessar um crime.
Mas Natalie não parecia nada convencida das minhas atitudes, na verdade, sua postura indicava que ela estava ainda mais desconfiada, enquanto eu envolvia seus pulsos com gaze.
— Por que isso? — Perguntou com as sobrancelhas franzidas. Aquele olhar analítico ainda estava lá.
— Você ajudou minha filha, quando esteve em Alexandria, eu só estou retribuindo o favor. — Respondi naturalmente, mesmo que fosse apenas metade da verdade.
Silêncio. Natalie não estava nada inclinada a falar comigo. Decidi que tinha que deixar aquela conversa mais casual, começando bem de baixo mesmo.
— A gente não é daqui, sabe? Somos da Geórgia, bom, a maioria de nós pelo menos, atravessamos cinco estados em busca de segurança e olha só no que deu, não é irônico? — Neguei algumas vezes, enquanto guardava os suprimentos médicos e Natalie afastava as mãos de mim.
— Pra mim parece burrice atravessar cinco estados com um bebê de colo, isso sim... — Ela lançou ácida, os olhos seguindo para a janela e acompanhando a paisagem.
— Vivendo e aprendendo, não é? — Dei de ombros, como se fosse apenas uma conversa casual. — Com fome?
Me virei para o lado, para pegar alguns enlatados que eu havia separado ali previamente, abrindo um e entregando para Natalie com uma colher, uma garrava de água e alguns comprimidos.
— Levaram o médico de Hilltop, mas Maggie disse que ele estava te tratando com antibióticos, deve ser por causa do tiro, certo? — Expliquei os remédios e aproveitei para puxar conversa.
Senti que Natalie se interessou pela coisa do médico, mas não comentou nada, apenas começou a comer vagarosamente, depois de tomar os remédios, como se eu não estivesse ali
— Eu levei um tiro uma vez também. Estava trabalhando, fiquei em coma e quando acordei o mundo estava assim... — Apontei o lado de fora da janela, tentando achar qualquer ponto semelhante entre nós dois, talvez isso a fizesse confiar um pouco mais. — Acho que eu tive sorte.
Natalie ergueu os olhos para me encarar, fazendo uma expressão satisfeita por um motivo que eu não entendi de imediato.
— Eu tive que... — Tentei continuar, mas ela me interrompeu:
— Você era policial.
A certeza dela em afirmar aquilo me pegou de surpresa.
— Eu não disse isso. — Neguei, tentando entender como ela obtivera a informação.
— Quando eu te conheci, achei que você estava fazendo perguntas como se colhesse provas. E agora você acabou de dizer que levou um tiro enquanto trabalhava... — Ela deu de ombros como se a dedução fosse simples e lógica. — Eu fiquei me perguntando qual era a sua jogada quando você entrou aqui, entendi agora, você está bancando o tira bom pra cima de mim. Presumo que sua amiga Sasha era a tira má...
Me impressionou a rapidez de raciocínio dela, fiquei tentado a perguntar o que Natalie era antes de tudo aquilo, mas soube que ela não responderia.
Também achei desnecessário dizer que Sasha tinha sumido junto com Rosita, logo depois dos Salvadores terem invadido Hilltop, eu precisava que ela confiasse em mim, porém, dar mais informações comprometedoras não ajudaria em nada.
Resolvi ser honesto.
— Olha só, eu quero confiar em você, quero mesmo, apenas colabore comigo. — Pedi, a olhando fundo nos olhos para passar alguma confiança.
— Achei que a polícia fosse contra colaborar com sequestradores. — Retrucou irônica, com uma só sobrancelha erguida, e eu soube que aquilo era sobre o modo como ela havia chegado em Hilltop.
— Daryl salvou a sua vida. — Reforcei, mesmo sabendo que Maggie e os outros já tinham dito aquilo.
Natalie deixou um riso seco escapar da garganta, era quase uma exclamação irônica de incredulidade, mas não disse nada, apenas voltou a comer, me ignorando totalmente.
Resolvi ir por outro caminho. Talvez ela tivesse medo de se juntar a nós e ser punida por Negan.
— Podemos ajudar você e você ajudar a gente. Podemos te proteger do Negan, te dar um teto, você pode ser parte de algo maior e melhor, estará segura em Alexandria, eu só estou pedindo que diga o que sabe em troca. É um bom acordo. — Afirmei com segurança, era mesmo um bom acordo em dias como aqueles.
Natalie riu de verdade daquela vez, como se eu tivesse acabado de contar alguma piada.
— Um bom acordo implica em você me oferecer algo que eu quero, e não vi nada do que eu quero na sua proposta. — Foi sagaz, usando um tom levemente superior.
— Então o que você quer? — Decidi ser direto. Aquela conversa estava começando a me cansar.
— Ir embora. — Natalie declarou com naturalidade, como se fosse simples.
Era simples na verdade, infelizmente havia uma infinidade de implicações, além, claro, da minha promessa para Maggie.
— Eu não posso fazer isso. — Respondi firme.
— Então eu quero que você vá pro inferno! — Natalie falou pausadamente, inclinando um pouco o corpo para frente.
Ela era uma mulher difícil, isso ficou bem claro, e certamente tinha problemas graves de confiança. Percebi que não iriamos longe naquela conversa e resolvi dar um tempo pra que ela pensasse.
O trailer havia diminuído a velocidade, então soube que tínhamos chegado no nosso destino.
Me abaixei ao lado de Natalie, colocando a algema em seu tornozelo, prendendo-a ao pé do banco, que por sua vez era chumbado ao chão do trailer, seria o bastante para mantê-la ali por alguns minutos, enquanto repassávamos o plano do lado de fora.
— Já estamos todos no inferno, a diferença é que eu estou lutando pra matar o diabo, e você, Natalie, está fazendo o quê? — Deixei no ar, antes de me afastar rumo a saída.
Esperava que ela realmente ponderasse sobre aquilo e decidisse ajudar, seria mais fácil para todo mundo, inclusive pra ela, afinal não podíamos manter alguém prisioneiro pra sempre. Ou ela colaborava, ou... bom, a outra alternativa era bem mais drástica e definitiva.
No entanto tive que deixar aqueles problemas de lado e focar em nosso plano para Oceanside, afinal sem armas não venceríamos ninguém.
Repassei cada passo com o grupo antes de voltar para o trailer.
— Me dê suas mãos. — Pedi para Natalie, segurando a corda com a qual eu a amarraria novamente.
Eu não podia deixa-la no trailer, e também não podia permitir que ela saísse dali solta. Então amarrei seu pulso novamente. Michonne ficaria responsável por ela, quando o plano começasse.
Assim que descemos aconteceu de novo Daryl e ela trocaram um olhar, o tipo intenso de olhar que só pode significar duas coisas: amor mal resolvido ou ódio. E já que eu sabia que a primeira coisa não tinha nada a ver com Daryl, apostei na segunda.
Percebi que ele queria falar comigo, por isso fiz sinal para que Michonne seguisse na frente com a prisioneira.
— Então... falou com ela? — Daryl perguntou, apontando Natalie com um movimento de cabeça, enquanto caminhamos lado a lado.
Assenti algumas vezes e respirei fundo.
— Ela não parece nada convencida a nos ajudar ou a falar qualquer coisa. É uma mulher complicada... — Revelei neutro e Daryl me pareceu impaciente demais.
— Decidiu o que vai fazer? — Percebi um tanto de preocupação na voz dele, eu só não soube dizer se era com Maggie, com o grupo, ou com outra coisa.
— Não ainda, preferi focar no plano primeiro. — Fui sincero, não havia razão pra esconder nada de Daryl.
Ele assentiu algumas vezes antes de se afastar, era sempre complicado decifrar Daryl Dixon, mas naquele dia em particular estava ainda mais difícil.
Meu primeiro impulso foi teorizar que algo havia acontecido dentro do Santuário. Quer dizer, os dois estavam lá, talvez Natalie tivesse feito algo ruim, o que podia explicar aquela desconfiança dela e aquela faísca que eu via entre os dois, talvez fosse tudo uma questão de raiva.
Mesmo enquanto formulava aquela teoria, algo parecia não se encaixar perfeitamente, mas com todo o plano de Oceanside em ação, eu tive que deixar meus pensamentos de lado.
A execução era simples. Nos posicionaríamos ao redor do lugar, e colocaríamos explosivos em locais estratégicos, enquanto Tara entrava na comunidade furtivamente e tentava convencer a líder a falar conosco de modo pacífico. Uma aliança era a nossa primeira opção.
Porém, estamos preparados para uma negativa. Se Tara falhasse colocaríamos os explosivos em ação, isso emboscaria o grupo de mulheres em um mesmo lugar, onde seriam rendidas e então teríamos acesso ao arsenal. Ninguém tinha que se machucar.
Natalie era o único elemento que não estava no plano original, por isso a presença dela teve que ser encaixada depois, o que me deixava um pouco receoso. Michonne ficaria responsável por ela, enquanto cobria nossa retaguarda de cima de uma árvore com um rifle.
— Pense no que conversamos enquanto eu vou conseguir alguns aliados para nossa causa. — Sugeri, enquanto amarrava Natalie em uma das árvores, em um local que não permitiria que ela visse ou ouvisse nada do que se passaria na comunidade.
— Então você pretende convencer essas pessoas a lutarem explodindo a casa delas? — Retrucou ácida. — Ameaça, sequestro, você não é muito bom nessa coisa de fazer aliados, Rick Grimes, talvez devesse tratar essa instabilidade.
— Acho que estou começando a entender porque Maggie amordaçou você. — Respondi neutro, me preparando para fazer o mesmo. — Não leve a mal, se eu sou instável você é imprevisível, não posso te deixar aqui apenas amarrada sabendo que você pode gritar e acabar com o nosso plano.
Natalie soltou um riso desprovido de humor e encostou a cabeça no tronco da árvore enquanto revirava os olhos. Senti que ela estava de saco cheio de tudo aquilo.
Terminei de amordaçá-la e segui para Michonne, na intenção de ajudá-la a subir na árvore.
— Acha que dá conta? — Perguntei só para garantir.
— Ela está totalmente amarrada Rick, não vai fazer nada idiota e, se fizer, eu sei me cuidar. — Michonne garantiu e eu sorri.
Lancei um último olhar para as duas e segui até minha posição.
Infelizmente, Tara não deu o sinal no tempo limite e tivemos que passar para os explosivos. Rendemos toda a comunidade sem dificuldade depois disso.
Mas claro que alguma coisa daria errada, sempre dava. Natania, a líder, rendeu Tara e então eu tinha uma daquelas situações chatas na mão. Levaríamos as armas de todo o jeito, a intenção era fazer isso sem causar vítimas, mas se aquela mulher fosse mesmo dificultar as coisas eu não teria escolha.
Natania começou um discurso para o seu grupo, sobre elas se lembrarem de tudo que tinham perdido e se queriam passar por tudo aquilo de novo...
Eu já estava começando a ficar entediado, quando Michonne gritou das árvores que errantes se aproximavam. Preocupado com esse perigo eminente e com Michonne sozinha bem longe do grupo com uma prisioneira, eu acabei perdendo o momento seguinte, quando Cyndie atingiu a cabeça de Natania e libertou Tara.
Não tive tempo de me preocupar com a mulher que já estava sendo amparada, dei ordens rápidas para que as prisioneiras fossem soltas, e que se colocassem em uma linha de ataque.
Não demorou muito, nosso contingente era muito maior que o número de errantes.
Depois que acabamos com os mortos, senti que tínhamos ganhado, ao menos, um pouco do respeito daquelas mulheres, mesmo assim Natania foi irredutível e disse que elas não se juntariam a nossa causa, que levássemos armas então.
Olhei para árvore em que Michonne devia estar, mas não vi ninguém, o que me fez acelerar o grupo. Por fim, pegamos todas as armas, mesmo que alguns do nosso grupo e todas as mulheres de Oceanside não tivessem gostado muito daquilo.
Nós estávamos em uma guerra, elas estavam escondidas, claro que levaríamos todas as armas.
Apressei o passo voltar ao ponto de encontro e, quando finalmente avistei a árvore, percebi que tinha algo muito errado: as cordas estavam no chão, haviam corpos de errante para todo lado e Natalie não estava mais presa.
Vasculhei o lugar com os olhos rapidamente, temendo o pior, mas o que eu vi em seguida me deixou um pouco confuso. Michonne e Natalie estavam sentadas no chão, lado a lado, ofegantes e cobertas de sangue podre.
Percebi que Daryl estava prestes a jogar a caixa de armas no chão, quando também viu a cena, mas desistiu, como se pensasse melhor.
— Tudo bem? — Perguntei desconfiado, enquanto Michonne se levantava e caminhava na minha direção.
Lancei um olhar que deixava clara a minha pergunta muda: Por que ela tinha soltado Natalie?
— Eu precisei de reforço contra os mortos. — Ela deu de ombros. — Maggie estava errada, devíamos nos preocupar com as habilidades físicas dela também.
Encarei Natalie, que se levantava com muita dificuldade por causa da perna e me aproximei dela.
— Achei que não queria lutar... — Parei ao lado dela, apoiando todo o peso do meu corpo em um pé só.
— Com Negan e os Salvadores? Não quero mesmo. Contra um bando de mortos... — Natalie apontou os cadáveres no chão e deu de ombros como se não fizesse diferença.
Ela não tinha matado Michonne, não tinha fugido, e não agia como se me odiasse, considerei aquilo um progresso.
— Talvez depois de ver todas as armas que nós conseguimos você... — Comecei a falar, mas as vozes vindas da floresta nos alertaram.
— Vovó, esquece isso. — Reconheci a voz da menina de Oceanside.
— Todas as armas Cyndie? Isso já é muito abuso! — Ótimo, aquela mulher de novo.
Já estava me preparando para discutir com Natania, reunindo o máximo de paciência que eu tinha pra não tomar nenhuma medida drástica, por Tara ao menos, já ela parecia simpatizar com as mulheres.
Mas tão logo a líder de Oceanside terminou de subir o pequeno morro que nos separava e finalmente entrou no nosso campo de visão, ela parou, o rosto inteiro perdendo a cor como se tivesse visto um fantasma.
Cyndie, logo atrás dela, teve uma reação idêntica, a diferença era que, enquanto os olhos da mais jovem estavam assustados, os de sua avó se encheram de ódio no minuto seguinte.
Acompanhei o olhar da líder de Oceanside e percebi que seu alvo era Natalie, que a encarava com mais um de seus olhares indecifráveis.
Todos os outros estavam encarando as três, assistindo como expectadores em busca de respostas.
— Ah, mas é claro que tinha que ter o seu dedo nisso, Cooper! — A mais velha gritou se aproximando em passos rápidos. — Sempre que tem alguma desgraça no nosso grupo você está envolvida!
Estávamos estarrecidos demais para qualquer reação, por isso ninguém se moveu para impedir que Natania se aproximasse. Elas se conhecem??
— Você não cansa de destruir tudo em que toca? Todo mundo que você ama está morto e tudo isso é sua culpa! Minha família está morta por sua culpa!
Foi rápido, mais rápido do que eu achei que uma senhora daquela idade podia se mover. Em um segundo ela estava parada e no outro, sua mão estava a caminho do rosto da mais jovem, no que seria um tapa certeiro, mas Natalie deteve o movimento segurando o pulso de Natania no ar.
As duas se encaram por alguns segundos, enquanto a líder e Oceanside parecia possessa de ódio e Natalie estava calma como o céu antes da tempestade.
Por alguém motivo a postura controlada da Salvadora me pareceu mais ameaçadora do que o descontrole da líder de Oceanside.
— Ele devia ter matado você! — Natania mal teve tempo de gritar e Daryl já estava entre as duas, como um leão furioso prestes a atacar.
Resolvi pensar na peculiaridade daquela cena depois e foquei em Natalie, enquanto Michonne já havia se colocado entre a líder e Daryl, pra impedir uma tragédia, ao mesmo tempo que tinha a arma em punho pra deixar claro que a mulher não devia se aproximar novamente.
Natalie piscou lentamente e encarou a outra por cima do ombro de Daryl. Nenhuma palavra. Ela não se defendeu ou argumentou, sequer disse que não sabia daquela missão. Absolutamente nada.
Me deu certa revoltar ver aquilo, ela quase tinha levado um tabefe, e parecia não dar a mínima.
— Mas claro que usou sua maldita capacidade de persuasão pra escapar, você é uma cobra. — Natania não indicava que se calaria tão cedo. — Ela vai destruir vocês também, vai liderá-los para uma guerra que não podem vencer e só vai causar mortes! — Gritou apontando o indicador para cada um de nós.
Eu devia dizer o quão irônico aquilo era? Quer dizer, Natalie estava sendo acusada de nos liderar em uma guerra na qual ela nem queria entrar.
— Você nunca para, não é? — Tentou passar por Daryl, pra enfrentar Natalie novamente. Mas eu duvido que qualquer um conseguisse passar pelo caçador naquele instante. — Não basta o que aconteceu com você? Eles estão mortos, Natalie e ainda assim você não desiste!
Foi só nesse momento que Natalie voltou a encará-la, seu olhar era tão frio e mortal que podia congelar o inferno.
Natania se calou, imediatamente, como se esperasse a mais nova avançar nela a qualquer momento.
— Já chega vó, por favor. — Cyndie pediu, tocando o ombro de sua avó, que só precisou encará-la pra ceder.
Ela lançou um último olhar de desdém para Natalie antes de dar as coisas.
Cyndie ainda ficou parada ali, como se buscasse o que dizer:
— Sinto muito Natie, eu...
Natalie negou algumas vezes, com uma expressão vazia no rosto e Cyndie foi se afastando, para seguir atrás da avó.
Todo o restante do grupo ficou tão calado, que era como se a floresta estivesse vazia. Ninguém ousou dizer nada, uns porque ainda estavam chocados com a coincidência e com toda a cena em si, e outros porque estavam tentando entender que merda tinha acabado de acontecer ali, eu era um desses.
— Vamos embora de uma vez! — Daryl praguejou, voltando a pegar a caixa com armas e assumindo a dianteira.
Aos poucos todos começaram a andar, fiquei ao lado de Natalie mais um segundo, enquanto ela olhava o caminho por onde Cyndie havia sumido.
— Eu não vou te deixar ir, mas posso voltar com você lá, se quiser conversar com elas. — Ofereci, neutro, achei que Natalie merecia a chance de se explicar ao menos, dizer que ela não sabia de nada.
Natalie me observou por alguns segundos, os olhos negros marejados de lágrimas que ela claramente não queria derramar. Negou algumas vezes apenas e então olhou ao redor. Percebi que estava procurando uma brecha para fuga, mas com sua perna machucada e um grupo tão grande, talvez ela tenha visto que não tinha chances e apenas desistiu, seguindo para o trailer sem oferecer resistência.
Ninguém disse nada, eu percebia os olhares inquisitivos, mas fiz um gesto para que nos dessem um tempo. Coloquei Natalie nos fundos do trailer, o local fazia a vez de um quarto e tinha uma porta sanfonada que daria alguma privacidade a ela.
Mesmo assim, deixei seu tornozelo preso ao pé da cama, afinal era melhor prevenir do que remediar.
Michonne tinha um olhar distante, estava pensativa e eu também, então seguimos sem conversa por um tempo, cada um montando sua própria teoria. Até que, quilômetros depois, um dos carros parou. E tivemos que nos reunir na estrada.
Era um problema no motor, teríamos que realocar as pessoas e armas, para então seguir viagem. E era disso que falávamos quando Tara resolveu trazer o assunto "Natalie" à tona:
— Tudo bem, se ninguém vai perguntar, então eu vou. O que foi aquilo?
— Talvez a gente devesse falar com ela e descobrir, certo? — Jesus devolveu em um tom pacifista, as vezes ele me parecia um diplomata.
— Dê a ela apenas mais uns minutos. — Michonne pediu. Ter lutado ao lado de Natalie contra os errantes, tinha feito com que ela estivesse ainda mais inclinada a gostar da moça.
— Ela vai mentir, está bem na cara o que aconteceu, não acham? — Tara apontou como se fosse ébvio.
— O que você acha que aconteceu? — Daryl perguntou, encostado em uma das árvores, enquanto roía o canto do polegar.
— Olha só, é fácil deduzir... Ela conhece as meninas, conhece bem, julgando pelo apelido. Mas Daryl também falou que parece que ela já conhecia o Negan antes, então está claro, a Salvadorazinha traiu as amigas por causa do psicopata e assim a comunidade antiga delas foi destruída e todas tiveram que fugir. — A teoria fazia sentido à primeira vista, porém, com uma olhada mais calma nos fatos dava pra ver todos todas as pontas soltas.
Talvez, se Tara não estivesse tão envolvida com as garotas de Oceanside tivesse visto também.
— Acho que não é tão simples, Tara... — Respondi neutro.
Precisamos de resposta, isso era óbvio, mas não conseguiríamos aquilo agindo com juízes, júri e carrasco.
— Vamos continuar essa viagem logo, antes que as coisas piorem. — Daryl declarou impaciente, desencostando da árvore e se aproximando de Jesus. — Toma vai na moto.
— O que está fazendo? — Questionei, estranhando totalmente Daryl ter cedido sua moto para qualquer pessoa.
— Perdemos um carro, todos os espaços extra estão com armas e eu não quero ninguém na minha garupa, melhor outra pessoa pilotar então. — Ele deu de ombros, como se não fosse nada, mas seu argumento não fazia o menor sentido.
O trailer podia comportar as quatro pessoas do carro sem gasolina. Deduzi que o que Daryl queria de verdade, era estar de presente quando conversássemos com Natalie.
Feita todas as mudanças, Jesus e Tara se acomodaram na moto, Aaron assumiu o lugar de Jesus no trailer, com Eric a seu lado, e eu Michonne e Daryl ficaríamos com Natalie na parte de trás.
— O que você acha da teoria da Tara? — Michonne perguntou antes de subirmos os degraus do veículo.
— Acho que devemos perguntar para Natalie a verdade primeiro, antes de pensar em teorias. — Respondi e ela concordou.
Daryl estava impaciente, então decidi começarmos com aquela conversa de uma vez por todas.
Assim que entramos no quarto do trailer, Natalie ergueu a cabeça e pareceu surpresa de ver Daryl ali. Eles trocaram aquele tipo intenso de olhar novamente, e o caçador assumiu uma posição perto da parede.
Natalie estava sentada ao lado da janela, na mesa pequena ao lado da cama, e eu me sentei bem na frente dela. Michonne ficou ao meu lado, porém sentada na ponta do colchão.
— Então, quer contar alguma coisa? — Perguntei calmamente e ela passou os olhos por nós três, se demorando um pouco mais em Daryl antes de responder.
— Você é o policial aqui, não uniu todas as pistas ainda? — Devolveu naquele tom ácido e mal-educado, havia uma pontada de revolta ali também, e eu percebi que aquele sentimento não estava em sua voz antes de Daryl estar presente.
Talvez não fosse uma boa ideia ter aquela conversa com os dois juntos.
— As pistas não querem dizer nada. Já vi muita gente ser condenada no tribunal, porque a promotoria manipulou a interpretação das pistas para o júri. — Michonne argumentou com destreza, antes mesmo que eu pensasse em qualquer resposta.
Graças a Deus que ela estava ali, Natalie parecia mais aberta a Mich do que era a outras pessoas.
— Olha só... tenho uma advogada de defesa, que bom! Mas se isso vai ser um julgamento justo, a advogada da acusação, que estava gritando lá fora, devia participar também. — O comentário foi apenas sarcástico daquela vez, mas não deixei de reparar que Natalie havia acertado a profissão de Michonne também.
Aquela mulher era muito perspicaz, e isso podia ser tanto um perigo quanto um trunfo.
— Isso não é um julgamento. Isso sou eu te dando a oportunidade de falar o que aconteceu realmente. — Tentei passar confiança através do meu tom de voz. — O que você fez pra ser tão odiada?
Daryl deu um passo para frente, atraído pelo interesse, Natalie levou os olhos até ele e ficou assim por alguns segundos, como se pesasse se respondia aquilo ou não.
Tinha um problema não resolvido ali, era impossível que só eu estivesse vendo.
Por fim Natalie se voltou para mim, virando o corpo na direção em que eu e Mich estávamos, como se isso fosse manter Daryl de fora da conversa.
— Eu fiz o mesmo que você... — Ela revelou e eu estreitei as sobrancelhas sem entender. — Eu os convenci a lutar. E eles lutaram, porque, como Natania bem disse, eu sou muito persuasiva quando quero.
Natalie parou, como se não gostasse daquelas lembranças. Foi estranho imaginar alguém que só falava em não se envolver naquela guerra liderando um ataque, mas por algum motivo fez todo o sentido pra mim.
— Então Negan destruiu a comunidade, matou crianças, todos os homens, a filha e o neto da Natania... — Ela abaixou a cabeça, eu senti a culpa que ela carregava, e sabia exatamente como era.
Mas ao mesmo tempo, senti que tinha mais, foi apenas um pressentimento, troquei um olhar com Michonne, pra ver se era coisa da minha cabeça, porém ela tinha a atenção presa em Natalie.
— A luta sequer tinha acabado realmente quando Natania me entregou para Negan, no intuito de selar um acordo de paz e ganhar tempo pra fugir. Ele era obcecado o bastante por mim pra aceitar. Fazer o quê, não é? Eu tenho um dedo podre pra homem. — O último comentário dela soou como um ataque pessoal, e não entendi porque ela olhou para Daryl naquele momento.
A menos que, eles tivessem se aproximado dentro do Santuário... Não, não era possível, Daryl não viveria um romance, ou qualquer coisa parecida com isso, em uma situação como aquela. Era loucura.
Preferi focar no que importava ali, Natalie fora traída pelo próprio grupo, isso falava muito sobre os problemas de confiança dela.
Mas não explicava aquela falta de sede de justiça, se ela queria combater Negan antes, por que tinha desistido? Alguma coisa simplesmente não se encaixava, era como montar um quebra-cabeça que não tem as peças centrais.
— E mesmo assim você declarou lealdade a ele? — Michonne perguntou neutra, erguendo as mãos logo em seguida, para ilustrar sua imparcialidade. — Não estou julgando, só perguntando.
Natalie a encarou por cerca de cinco segundos, passando os olhos por Daryl que roía o canto do polegar mostrando toda sua impaciência.
— Eu fiz o que eu tinha que fazer... — Deu de ombros, usando um tom que eu achei bastante melancólico. — É o que eu sempre faço.
— Entendo... — Michonne anuiu e trocamos um olhar cúmplice
Quem ali nunca tinha feito o que era preciso, não é?
Daryl estava ainda mais impaciente, aposto que se não estivéssemos em um trailer em movimento, e com um espaço minúsculo tornando impossível a movimentação, ele estaria andando de um lado para o outro como era seu costume.
— E depois de tudo isso você ainda não quer que ele morra?! Que vinculo é esse que vocês têm? Você tinha todos os motivos pra acabar com ele, você teve todas as chances e mesmo assim não fez, por quê?! — Ele usou uma agressividade exagerada, até mesmo para Daryl Dixon.
Claro que Daryl sempre teve aquele temperamento explosivo, mas tudo nele se tornava mais intenso perto de Natalie... Minha teoria anterior continuava fazendo sentido, mas minha intuição dizia que havia algo mais.
Sim, eu também queria saber, eu também queria montar o quebra-cabeças, mas aquele, com certeza, não era o jeito certo de fazer aquela pergunta.
— Porque eu estou apaixonada por ele... — Natalie declarou tão simples e naturalmente que foi um choque para cada um de nós.
Daryl estava estático, pensei que ele estava tendo uma sincope. Natalie olhou tão fundo dentro dos olhos dele enquanto dizia cada palavra que era quase como se eu e Michonne estivéssemos no meio de algo íntimo.
Porém logo em seguida Natalie prosseguiu, seu tom mudando aos poucos pra algo mais cínico, quase venenoso:
— Eu só estou esperando vocês baixarem a guarda pra cortar a cabeça do Rick e levá-la de presente para o meu homem. Por que eu não poderia viver sem o meu amado Negan, e eu sempre vou perdoá-lo por qualquer atrocidade, porque na verdade não resisto ao jeito como ele me joga na cama e me fode gostoso. — Ela estreitou os olhos para Daryl de um jeito desafiador. Okay, aquilo era pessoal.
Claramente era sarcasmo, ironia, raiva, tudo junto, tudo menos verdade, o que foi um certo alivio, confesso.
Dizer que meu amigo caçador estava em estado de choque era um enorme eufemismo, até eu estava chocado, quem não estaria?
— Era essa a maldita merda que você queria ouvir, Daryl Dixon?! — Natalie bateu as duas mãos serradas sobre a mesa, em um rompante de raiva que fez Daryl fazer um movimento involuntário de susto. — Gostou agora?! Te fez se sentir melhor?! Eu não mato a porra do Negan, porque eu tenho a porra dos meus malditos motivos, e isso não importa pra nenhum de vocês! Não somos aliados e nunca seremos, porque eu não quero fazer parte de nada disso!
Silêncio total e absoluto. Daryl soltou um dos seus típicos rosnados e saiu batendo o pé, para o que era o banheiro do trailer, batendo a porta sanfonada que dava acesso ao quarto.
Eu estava profundamente constrangido por ter ouvido aquela conversa, e o pior era estar curioso pra saber o motivo dela. Vi Michonne abaixar a cabeça e coçar a testa. Espera, ela estava escondendo um sorriso?
Voltei meus olhos para Natalie e ela ainda mantinha os dela na porta que acabara de se fechar. Até que suspirou pesadamente e focou em mim.
— Vai me amordaçar de novo? Porque, honestamente, eu preferia quando vocês queriam que eu ficasse calada. — Ótimo, o cinismo estava de volta...
Mas não amordacei Natalie, apenas me assegurei de colocar as algemas de volta, prendendo-a pelo tornozelo, na mesa.
— Obrigado pela sua honestidade. — Declarei, a contragosto antes de me afastar para a frente do trailer com Michonne.
Aquela conversa não tinha saído como planejado...
Sentamos lado a lado, no degrau entre Aaron e Eric.
— Parece que as coisas esquentaram lá atrás... — O segundo comentou neutro.
— Esquentaram? Se eu tivesse milho, provavelmente ele teria virado pipoca. — Michonne devolveu e lá estava seu sorriso novamente.
— Você está rindo? — Acusei, tentando entender aquela atitude.
— Qual é, você viu, Daryl mereceu. A menina estava falando de tudo que sofreu na mão do Negan e a única coisa que o Daryl consegue é insinuar que ela tem um vínculo com o cara que destruiu a casa dela? Ele não teria falado uma coisa dessas se a Natalie fosse um homem, teria? — Ela tinha um bom argumento.
Mas preferi não pensar naquilo. Me envolver nas coisas de Daryl dava dor de cabeça.
Daryl era complicado e Natalie indecifrável, se continuássemos naquele ciclo nunca chegaríamos a lugar algum...
Pensei que voltar para Alexandria me traria um pouco de sossego, um tempo merecido para colocar as ideias no lugar, bolar nosso ataque e então tentar achar alguma lógica em Natalie Cooper.
Mas a figura de Rosita nos esperando nos portões, deixou bem claro que não teríamos calmaria. Ela disse que alguém queria falar conosco, deixei Padre Gabriel de guarda no trailer, junto com Francine e Toby, e segui para a cela.
Aquele dia estava mesmo cheio de surpresas. Dwight estava lá, queria fazer um acordo...
Eu não sabia se confiaria nele ou não. Fiz algumas perguntas com a arma apontada em sua cabeça, mas percebi que a decisão não cabia a mim, aquilo era com Daryl, que até aquele momento tinha sido o maior lesado pelo Salvador de cara queimada. Além disso, Tara também queria o cara morto.
Dwight, por sua vez, disse que estava fazendo isso por "ela", supus que fosse a esposa de quem Daryl tinha falado brevemente.
O caçador acabou abaixando a faca, afinal, a velha premissa "o inimigo do meu inimigo é meu amigo", valia de alguma coisa, Dwight queria servir de espião e, o mais importante, ele queria Negan morto. Era mais do que tínhamos de Natalie até aquele momento.
Nossa conversa não durou muito, Dwight avisou que Negan estava vindo, e que podia atrasá-lo. A questão era simples: podíamos confiar nele, ou não?
— É um bom momento pra fazer isso, o Santuário está instável, essa fuga em massa que a Natalie orquestrou fez as pessoas pensarem. Alguns estão vendo que Negan não é inatingível. — Ele argumentou, usando o nome de Natalie, sem saber que ela estava sentada no trailer bem ali do lado de fora. Imediatamente Daryl ficou interessado. — Eu ainda não sei se a admiro ou odeio, porque agora Sherry está lá fora sozinha, mas pelo menos não está nas garras de Negan.
— Do que você está falando? — Daryl perguntou usando um tom que mais parecia um rosnado.
— Natalie, é a mulher que esteve aqui com a gente, cabelo castanho, temperamento difícil, belas pernas...
— Eu sei quem é... — A resposta veio rápida e ameaçadora. — O que você quer dizer com todo o resto?
Senti que finalmente teríamos algumas respostas sobre Natalie, era quase como matar dois coelhos com uma paulada só.
— Achei que soubesse... Você fugiu por causa dela. — Dwight revelou, como se aquilo fosse óbvio.
Daryl deu um passo para trás, como se estivesse atordoado com a verdade.
Ele nunca tinha mencionado a ajuda de Natalie para sair do Santuário e aquilo claramente o pegou de surpresa.
Eu não tive a mesma reação, depois de passar aquele dia com Natalie e observá-la muito bem, a informação de Dwight fazia total sentido. Não explicava as motivações de Natalie, mas eu conseguia imaginá-la sendo responsável pela fuga de Daryl, afinal, convenhamos, ela já queria ele longe de lá quando falou comigo pela primeira vez.
— Como sabe disso? — Daryl questionou. Saber a verdade não o deixou satisfeito ou mais calmo, muito pelo contrário, ele tinha um olhar perturbado no rosto, como se tivesse acabado de perceber que tinha feito uma besteira das grandes.
— Quando eu fui atrás de Sherry, encontrei uma carta, ela me disse que só conseguiu fugir por causa da Natalie, explicou que o bilhete, o timing, tudo foi plano da Natalie. Eu a odeio, porque ela tirou minha mulher de mim, e agora eu não se se a Sherry está viva ou morta, mas suponho que seja melhor do que estar nas garras do Negan. — Dwight se encontrava dividido, mas eu pude apostar que se o colocasse frente a frente com Natalie a raiva certamente falaria mais alto que a gratidão.
Somos humanos afinal, ser agradecido é um grande desafio, às vezes é mais fácil achar motivos pra não ser...
— Por que ela faria uma coisa dessas? — Rosita interveio, de braços cruzados.
Percebi que todos tinham pré-disposição para odiar Natalie, e eu tive um pequeno vislumbre do porquê ela não confiava em nós. Eu não seria estúpido de confiar em alguém que me odeia...
— A resposta rápida é pra fugir também, mas eu duvido muito, era mais fácil ter bolado um plano menor e fugido sozinha do que libertar o Daryl e a Sherry, correndo o risco e não conseguir fugir por causa do Kane. Então meu palpite foi que ela fez porque quis. — Dwight deu de ombros. — Só que não importa mais, se Natalie for esperta deve estar bem longe daqui, porque se Negan colocar as mãos nela de novo... Não vai ser bonito.
Daryl trocou um olhar preocupado comigo, eu encarei o grupo dando uma ordem muda para que ficássemos calados. Era melhor que Dwight não soubesse de nada. Ainda não sabíamos se era certo confiar nele.
Mas depois de todos os argumentos, e depois de Rosita revelar que Sasha estava presa no Santuário, sabíamos que Negan bateria nos nossos portões com um belo trunfo.
Optamos por deixar Dwight ir, talvez fosse nossa melhor chance. Ter alguém lá dentro era uma vantagem que não podíamos nos dar ao luxo de rejeitar.
Observamos o homem partir e Daryl disse que o mataria de qualquer jeito quando tudo acabasse. Aquele comportamento dele me preocupava demais.
— Ainda precisamos de um trunfo se tivermos que salvar a Sasha, foi esperto manter a tal Salvadora como refém e não contar nada ao Dwight... — Rosita comentou por alto, quando passou por mim e Daryl pareceu desconfortável.
A hispânica tinha tocado em um ponto bem lógico, era uma guerra, uma troca de reféns podia salvar a vida de Sasha... Preferi não pensar nas implicações daquilo, afinal Natalie estava sendo trazida do trailer para a cela e não parecia nada contente.
— Interessante saber que vocês confiam no ladrão de coletes e deixam ele sair andando daqui, enquanto ainda sou uma prisioneira. — Ela comentou com rancor palpável, quando passou por nós dois, mas o olhar que deu era para Daryl. — Ele te deu um tiro, não foi? Matou seu pessoal... Mas não eu que sou a víbora. — Riu sem humor, virando o rosto.
Apontei a entrada da casa onde ficava a cela, como se fosse um convite.
— Ele quer ajudar, colaborar com a luta, você quer fugir, convenhamos que é bem suspeito. — Respondi por Daryl, caminhando ao lado dela.
— Blá, blá, blá. — Fez uma imitação da minha voz enquanto entrava na cela. — Nem você sabe porque eu ainda estou aqui, essa é a verdade.
O pior é que aquilo era uma meia verdade, eu não sabia por que ainda a mantinha prisioneira, mas naquele ponto da noite eu já sabia que matá-la não era uma opção. Eu desconfiava que Daryl não me perdoaria nunca, caso isso acontecesse.
Então era deixá-la ir, ou conquistar sua confiança, a primeira ia contra o que eu tinha prometido para Maggie, então...
— Você ainda pode mudar de ideia. Lute conosco. — Fiz uma última tentativa e Natalie já estava me encarando por trás das grades.
— Você faz alianças perigosas, Rick, e eu já estou farta de fazer pactos com o demônio. — Ela cruzou os braços e se afastou da entrada, seguindo para o fundo da cela e dando a conversa por terminada.
Mas a minha noite ainda não tinha acabado, não com todas aquelas coisas pra colocar em ordem na minha mente. Planos de guerra, provisões que mantivessem todos seguros, mandar o recado para o lixão, preparar tudo para o outro dia, o trabalho não acabava nunca.
Eu estava exausto, depois de cuidar de todos esses assuntos, ainda preparei as coisas de Judith, para que ela fosse levada a Hilltop por Jesus e, esperei Carl e Michonne dormirem, para enfim seguir para a varanda, ainda havia um assunto para lidar...
E lá estava eu com mais uma daquelas situações na mão: usar ou não usar Natalie como trunfo? Quando conheci Michonne tive que tomar uma decisão parecida, e fiquei confuso do mesmo jeito, só que não dava mais para decidir uma coisa e voltar atrás.
Daryl se juntou a mim na varanda, um cigarro entre os dedos. Ele estava nervoso, me rodeando como se quisesse dizer algo.
Eu o conhecia tempo o bastante para saber que ele era como um animal selvagem, tínhamos que deixar que se aproximasse sozinho. Então eu esperei.
O primeiro cigarro acabou, ele desceu os degraus da varanda e subiu de novo, acendeu outro, até que por fim parou ao meu lado, os cotovelos apoiados no beiral.
— Decidiu o que vai fazer com ela? — Perguntou pela segunda vez naquele dia, em um tom que tinha a intensão de ser neutro, mas transbordava preocupação.
Neguei apenas, Daryl era complicado demais, eu não precisava seguir a mesma linha.
— O que você acha que eu devia fazer? — Questionei, porque se os dois realmente tivessem uma ligação, bom... isso mudava tudo, não é?
— Eu não posso te responder isso. — Ele me encarou por dois segundos e eu não precisei pedir que explicasse a declaração. — Minha opinião não seria imparcial.
— Por causa da Maggie, da Sasha ou da própria Natalie? — Tentei manter a conversa neutra.
Daryl suspirou, batucou a madeira do beiral por um tempo e não me encarou quando respondeu.
— Eu a conheço... Natalie. — Pensei que ele diria que tinham se conhecido no Santuário, mas o restante da frase realmente me pegou de surpresa. — De antes da merda toda.
Minha mente deu um nó, como era possível? Quer dizer qual era a probabilidade?
— Achei que nunca tinha saído da Geórgia... — Comentei, foi mais pra responder alguma coisa, do que por ser algo relevante mesmo.
— Eu não saí. O pai dela vivia na mesma cidade que eu, foi assim que nos conhecemos. Ela era... boa, sabe? Totalmente diferente do que eu vejo hoje. — Daryl parecia na defensiva, como se tivesse que justificar o comportamento de Natalie.
Mas naquele momento eu não julgava Natalie uma má pessoa, complicada e indecifrável, certamente, mas má não.
— Todo mundo teve que mudar pra sobreviver, Daryl. — Afirmei apaziguador, ele estava pegando muito pesado com a moça.
— A gente... — Ele não terminou a frase, era como se não conseguisse dizer aquilo em voz alta.
— Namoravam? — Completei e recebi um aceno mínimo de cabeça.
Tentei não parecer surpreso, mas estava na cara que eu tinha subestimado a ligação dos dois. Era estranho pensar em Daryl conectado com alguém daquela forma.
— Algo assim... — Ele pareceu perdido nas próprias lembranças por um tempo e tinha um olhar nostálgico e melancólico. — Então o pai dela faleceu e o melhor para Natalie era voltar pra casa dela aqui em Washington.
— Ela terminou com você? — Perguntei, descobrir em que pé a situação dos dois tinha acabado podia ajudar a entender Natalie.
Daryl não respondeu, deu alguns passos pra trás e passou por mim, para se encostar na outra pilastra.
— Faz uns dez ou onze anos. E reencontrar com ela nessa situação foi... Eu não soube lidar. Sinto muito se estraguei seu plano. — Olhei para Daryl por três ou quatro segundos, sua evasiva para a minha pergunta deixava claro que a coisa não tinha acabado bem entre os dois.
Mesmo assim Natalie tinha tirado Daryl do Santuário. Percebi que as atitudes dela diziam muito, alguém que estava sempre protegendo não pode ser ruim, certo?
— Quando eu conversei com Natalie hoje mais cedo, senti que ela tinha problemas de confiança. Agora sabemos que são justificáveis já que ela foi traída pelo próprio grupo e praticamente vendida para o Negan. E ela se culpa pelo que aconteceu com aquelas pessoas de Oceanside, eu vi isso nos olhos dela. — Expus meu ponto de vista. — Eu ainda não sei por que a morte do Negan não é do interesse dela, ainda acho que ela está escondendo alguma coisa. Mas ela não é má. Daryl. Ela é só uma garota que tentou fazer o certo e foi traída, presa, humilhada e sabe-se lá o que mais. Mesmo assim ela ajudou você e...
Foi então que eu me toquei porque ela nunca confiaria em nós. Ela conhecia o Daryl, os dois tinham toda uma história, Natalie arriscou a própria pele pra tirá-lo do Santuário e, em troca, ele não confiou nela. Nem sequer deu o benéfico da dúvida.
Não importa se ele estava sendo protetor com o restante do grupo ou agindo por ciúmes. Ele era a primeira conexão dela conosco, e não tinha feito nada pra construir uma ponte entre nós.
Eu conhecia Daryl bem o bastante para saber que tudo isso tinha um motivo bem justificável em sua mente, mas, ao mesmo tempo, não podia deixar de admitir que fora uma sacanagem e tanto com a Natalie.
— E o que? — Daryl ainda esperava que eu terminasse a frase.
Eu não podia dizer aquilo para ele. Daryl Dixon não lidava bem com a culpa, resolvi poupá-lo daquela verdade e resolver as coisas sozinhos.
— Nada. — Desconversei, fazendo um movimento displicente com a mão esquerda. — Posso te fazer uma pergunta?
Daryl assentiu, dando uma de suas respostas rosnadas.
— Você a ama? — Fui direto. A resposta dele me mostraria qual caminho seguir.
Não houve resposta. Daryl estava parado totalmente estático, o que era bem atípico dele. Engoliu em seco e tirou os olhos de mim. Se desencostando da pilastra e seguindo em direção a porta.
— Acho que isso não importa agora, não é? — Deu de ombros, antes de entrar rapidamente como se estivesse fugindo de alguma coisa.
Respirei fundo e meneei a cabeça. Isso é tudo que importa, Daryl...
De toda a forma, eu não precisei que ele verbalizasse pra saber a resposta.
Então tomei minha decisão e segui para a casa, onde a cela construída por Morgan ficava. Antes disso passei na dispensa e peguei algumas coisas.
Quando entrei na casa, encontrei Natalie sentada no chão, mesmo que tivéssemos providenciado o básico, para o mínimo de conforto em uma situação como aquela.
Ela encarava a única janela do lugar, mas virou a cabeça na minha direção quando me aproximei.
— Dia difícil? — Perguntei, parando em frente das grades.
— Pra ser bem honesta, já tive piores... — Ela suspirou pesado.
Natalie estava exausta também, era perceptível por seu semblante abatido e olheiras fundas, pelo visto tínhamos uma coisa em comum.
— Espero que goste salgadinho velho. — Sacudi os dois pacotes. No fim tinha sido sorte achar aqueles suprimentos com Michonne dias antes.
Abri a cela e me aproximei.
— Então vamos de tira bom outra vez? — Questionou enquanto eu me sentava ao lado dela no chão e lhe entregava o pacote.
— Nada de tira bom, ou tira mau, eu sou só um cara tentando fazer o que é certo, mas fazendo um monte de coisa errada pelo caminho. — Fui honesto e dei de ombros.
— Soa familiar... — Natalie admitiu enquanto comia o salgadinho. — E então o que é isso? — Apontou nos dois.
— É um jantar de negócios. — Esclareci neutro. — Eu quero te propor outro acordo.
— Lá vem... — Ela revirou os olhos e bufou feito uma criança.
— Vamos lutar contra Negan, talvez amanhã mesmo, e vamos vencer. Você não precisa participar ou me dar informações, só precisa esperar aqui dentro, sem arrumar problemas. E quando acabar... — Parei um momento, afim de atrair sua total atenção. — Eu te deixo ir.
Natalie pareceu surpresa, parou de comer e estreitou os olhos.
— Se vai me deixar ir de todo o jeito, por que não me deixa ir agora? — Era uma pergunta perspicaz, e senti que já esperava por algo assim.
— Por que eu prometi para Maggie, e eu tenho que honrar minha promessa. Entende isso? — Expliquei, mesmo não tento um real argumento, era sim sobre Maggie, mas também era sobre Daryl e a resposta dele.
Ele não tinha negado... Então se houvesse qualquer chance dele realmente amar Natalie, o mínimo que eu podia fazer era mantê-la ali mais um dia, não era muito, mas às vezes tudo que precisamos é de uma segunda chance. Daryl merecia isso.
— Mais do que você imagina... — Natalie respondeu, com o olhar perdido em um ponto fictício na parede. — Mas se prometeu, o que vai mudar depois?
— A luta vai ter acabado, não vai mais importar quem sabe da gravidez dela ou não. E você vai ter cooperado comigo, posso argumentar isso com ela. — Fui prático, já tivéramos complicações demais por um dia.
— E se vocês perderem? — Claro que ela ainda estava cética, ver uma comunidade inteira cair causava isso. Eu ainda me lembrava da prisão...
— Não vamos, temos aliados! — Deixei toda minha confiança transparecer.
Natalie, mesmo assim, não ficou convencida:
— Eu não sou tão otimista. Quero saber o que acontece se vocês perderem.
Ela queria uma garantia e depois de tudo, eu não podia culpá-la por isso.
— Não importa qual for o resultado, você fica até a luta acabar, depois disso pode ir embora, eu te dou minha palavra. Saí pela porta da frente, ninguém vai te impedir. — Decidi, estendendo a mão para ilustrar que estávamos de acordo.
Natalie ponderou, parecia surpresa, mas não feliz. Ainda havia desconfiança em seus olhos. Eu tinha dado um salto de fé dentro das minhas possibilidades, esperava que ela fizesse o mesmo.
Olhou pela janela outra vez, então para a perna ferida, em seguida pra mim novamente.
— Eu quero um carro. — Exigiu muito segura de si.
— Fechado. — Voltei a estender a mão e ela finalmente apertou.
Tínhamos um acordo. Daryl tinha um dia. Algo em mim dizia que ele certamente desperdiçaria aquele dia...
Mas talvez, depois que acabássemos com Negan, Natalie visse que Alexandria era um lugar seguro. Talvez ela finalmente dissesse o que estava escondendo.
— Aquela sua namorada advogada te ensinou a fazer acordos direitinho. — Comentou, enquanto voltava a comer o salgadinho. Sorri, me encostando nas grades e comendo o meu também.
— O que posso dizer...? — Dei de ombros. — Sou um homem de sorte.
E eu esperava ainda ter toda aquela sorte no dia seguinte, quando Negan chegasse com os homens dele no meu portão.
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