Lifeline — Destiny Don't Give Up
16 Escolhas Que Fazemos
Notas iniciais
• NATALIE COOPER •
Nossa vida é feita de escolhas, bem ou mal; direita ou esquerda; ir ou ficar. Cada ser humano é definido por suas escolhas, só é preciso uma certa pra elevar nossa vida, assim como só é preciso uma errada para arruinar tudo.
Dizem que para cada problema existem, ao menos, cinco soluções, talvez você não as veja, mas elas estão lá. Considerando que uma dessas soluções é a morte, ainda restam quatro alternativas para serem escolhidas. E cada uma dessas soluções leva a consequências diferentes. Como eu disse: é tudo sobre as escolhas que fazemos...
Eu me encontrava em um desses impasses, presa em uma cela de Alexandria, depois de Rick ter me oferecido um acordo.
Sim eu aceitei, mas ainda não sabia se confiava que ele cumpriria a palavra. E o pior, se Alexandria perdesse aquela batalha, as chances de eu cair nas garras de Negan novamente eram enormes.
Os riscos eram muitos, mesmo que eu ignorasse os últimos eventos e decidisse confiar naquelas pessoas...
Acabei passando a noite em claro, tentando processar os últimos acontecimentos e pensar com clareza nas minhas opções, até aquele ponto eu via apenas duas saídas, esperar e torcer pelo melhor, ou tentar fugir. Mesmo assim a enxurrada de merdas dos últimos dias tirava meu foco.
Eu ainda estava preocupada com Kane, sabia que não devia isso a ele, mas era inevitável. Eu tinha atirado nele, pensando que o Doutor Carson resolveria tudo sem problemas, mas desde que soubera que os Salvadores tinham ido até Hilltop para pegar o médico deles, isso vinha me atormentando muito.
Só havia um motivo para aquele tipo de atitude: algo tinha acontecido com o Doutor Carson, isso podia significar que ele não estava disponível quando Kane voltou para o Santuário.
Kane sabe se cuidar... eu tentava me convencer sempre que os pensamentos se amontoavam na minha mente.
Mas essa não era a única coisa pesando sobre os meus ombros. Ainda tinha Tony e todas as coisas horríveis que eu dissera pra ele. Eu tinha me tornado exatamente o que trabalhava pra combater antes do fim do mundo. E mesmo depois da realidade ter mudado tanto e das prioridades serem outras, ainda me preocupava com quem eu estava me tornando.
O encontro com Natania e Cyndie também não tinha ajudado em nada, só serviu pra me lembrar do quanto minha decisão de enfrentar Negan tinha ferrado a minha vida...
E depois tinha Daryl Dixon, meus pensamentos e sentimentos por ele eram mais confusos que um novelo de lã embolado. Éramos uma bagunça sem precedentes e eu, por mais que tentasse, não conseguia deixar a minha magoa pra trás, não era apenas sobre ele bancando o machista escroto com todo o assunto "Negan e eu", era sobre os dez anos de acúmulo de sofrimento.
Antes de reencontrar com Daryl eu me achava centrada e focada no objetivo final, mas depois disso, tudo que eu tinha eram questionamentos, que me deixavam empacada sem conseguir tomar decisões definitivas.
Por exemplo, se eu fugisse, eu diria para o Petter que encontrei o pai dele e que simplesmente virei as costas? Se eu ficasse e tudo desse errado, eu conseguiria sobreviver a outra estadia no Santuário? E se eu decidisse ficar e contasse tudo para o Daryl... eu estava pronta pra todas as implicações disso?
Minha cabeça doía, era como se pudesse explodir a qualquer momento. Do lado de fora o Sol já tinha nascido e eu podia ouvir a preparação frenética de Alexandria.
Era como um déjà vu de Sherwood, eu também tinha ficado otimista, também havia começado os preparativos muito cedo, também tinha certeza que Negan sequer ultrapassaria os portões.
Mas ele ultrapassou... E tudo depois disso foi destruição, morte e sofrimento. Minha mente trouxe tudo de volta, com flashes vívidos de cada momento, era como estar sem chão novamente.
Minha perna latejava, e meus pulmões ardiam, eu me sentia no meio do fogo outra vez. De repente, senti que eu não estava respirando, como se não houvesse ar no ambiente. Meu coração batia em um ritmo tão acelerado, que eu podia sentir o sangue correndo pelas minhas veias. Eu tremia dos pés à cabeça era como se cada parte do meu corpo estivesse avisando que eu ia morrer.
Me encolhi em um dos cantos, tentando recuperar o controle.
É só um ataque de pânico, Natalie. Respira. Você vai ficar bem. Repeti várias vezes, apoiando os cotovelos nos joelhos e tampando os olhos com a mão, segurando as lágrimas, enquanto respirava pela boca, em um ritmo quase desesperado.
Eu estava tão fechada em mim, que mal ouvi alguém entrar.
— Eu te trouxe café da manhã. — Ouvi a voz de um menino, e por um instante minha mente confundiu todos os sinais.
Petter? Levantei a cabeça imediatamente, tirando as mãos dos olhos, enquanto meu peito se enchia de esperança e alegria, mas tudo isso minguou quando eu realmente vi quem estava parado ali.
Era o filho de Rick Grimes, Carl.
— Você está bem? — Ele perguntou, analisando o meu rosto com o único olho azul, já que o outro, ou melhor o lugar onde o outro devia estar, permanecia coberto com um curativo.
Por quanto esse menino já não teve que passar?
No entanto, não respondi a pergunta, apenas peguei o alimento que Carl oferecia por entre as grades, junto com o copo de café e os comprimidos.
— Obrigada. — Segui para um canto qualquer da cela, afim de me sentar.
Mas Carl não foi embora, ele continuou ali parado, me analisando com uma postura que lembrava muito o pai.
— Quantos anos você tem? — Perguntei, nem sei dizer porquê, talvez porque o menino mexia comigo.
— Quinze. Quer dizer, não dá pra ter certeza, mas deve ser isso, não que faça diferença. — Carl deu de ombros, se encostando na parede do lado de fora da cela.
Um menino ainda, andando com uma arma na cintura e pronto para uma guerra. Luka era apenas um pouco mais nova quando eu a levei pra casa. Não era justo.
— Você não está com medo? De perder seus amigos, sua irmã? — Questionei novamente, eu estava preocupada com ele.
"Todos os garotos acima de dez." A voz de Negan soou na minha mente como uma maldição.
— Judith não está aqui, ela foi levada pra Hilltop. — Respondeu neutro, despreocupado, totalmente seguro de si.
— Por que não foi com ela? — Rick devia ter tirado os dois filhos do meio daquilo, eu teria tirado os meus se pudesse...
— Porque eu precisava ficar e lutar. Essa é a nossa casa, não podemos deixar que alguém bata nos nossos portões e tire tudo de nós. Somos uma família, lutamos uns pelos outros. — Havia uma força admirável no menino.
Senti ainda mais falta dos meus filhos, tanta falta que até doeu, tentei não permitir que a insegurança sobre o estado deles minasse meus pensamentos e esperanças, por isso respondi a primeira coisa que veio em minha mente, só pra que a conversa continuasse.
— Entendo... — Dei de ombros, um tanto apática, enquanto me ocupava com o café da manhã improvisado pra mim.
Carl continuou ali, me observando, como se procurasse alguma coisa.
— Você podia ser parte disso também. — Declarou depois de alguns momentos, quando eu já estava longe o bastante em minha própria mente e tinha perdido o fio da meada de nossa conversa.
— Eu não quero fazer parte de uma guerra. — Respondi, mas usei um tom neutro, não tinha necessidade de ser rude com o menino.
— Eu não estava falando da guerra. Eu quis dizer que você podia ser parte dessa família. — devolveu, se aproximando um pouco mais das grades.
Aquilo me pegou de surpresa, não era o que eu estava esperando.
— Você mal me conhece... — Tentei argumentar, mas a verdade é que eu não sabia o que dizer.
— Verdade. — Carl assentiu prático, colocando os braços na grade. — Mas também não conhecíamos o padre Gabriel, ele escondia coisas de nós no começo, disse coisas ruins a nosso respeito, era fraco. Mas nós não desistimos dele, agora ele luta ao nosso lado. Tara parou na nossa porta com um tanque e um maníaco que destruiu nossa casa, e agora ela é parte da família. A Michonne, por exemplo, nem sabíamos se podíamos confiar nela, e ela é uma das pessoas mais importantes da minha vida agora. Daryl Dixon? — Usou o polegar pra apontar o lado de fora. — Ele e o meu pai literalmente saíram no soco quando se conheceram, porque meu pai tinha abandonado Merle Dixon em um telhado, mas eles são melhores amigos agora, e até o Merle acabou ajudando, ele deu a vida pra que tivéssemos uma chance melhor.
A última parte revelou várias coisas, quer dizer, não que fosse uma surpresa Daryl não se dar bem com alguém logo de cara, mas toda a coisa com o Merle explicava porque o Dixon mais velho não estava ali. Senti saudades, na maior parte do tempo Merle era um cretino, mas ainda assim eu gostava dele...
— A maior parte dos primeiros encontros do nosso grupo não foi fácil, mas a gente virou uma família mesmo assim. — Carl terminou dando de ombros. Era um menino especial, sem dúvida, ele acreditava em algo melhor, mesmo que fosse difícil, e eu o admirei por conservar aquela luz dentro dele. — Não devia desistir da gente tão rápido...
A última frase soou muito como Petter pra que eu não ficasse balançada.
Como explicar para um garoto tudo que eu não conseguia explicar nem pra mim mesma?
— Queria que fosse assim tão simples. — Foi minha vez de dar de ombros, às vezes era melhor não dizer nada.
— Talvez você só tenha que parar de complicar. — Carl abriu minha cela. — Vem comigo...
Minha primeira reação foi franzir as sobrancelhas, mas o segui mesmo assim.
— Pra onde está me levando? — Questionei, quando vi que ao invés de sairmos da casa, ele me levou por uma porta lateral que deu dentro da residência.
Carl não respondeu. Continuou subindo as escadas, passando por um corredor e entramos em um quarto.
— Espera. — Ele pediu enquanto fuçava algumas gavetas, logo depois me entregando uma muda de roupas e uma toalha. — Não é calça cumprida, você ia ter que cortar pra tratar da perna de todo o jeito.
Fiquei ainda mais confusa e ele me apontou o banheiro.
— O do corredor não tem chuveiro só esse... Não somos animais, somos civilizados, ajudamos as pessoas. — Explicou, em um tom que me lembrou Rick.
Carl estava tentando ser legal, e nada dizia isso melhor do que deixar alguém coberta de sangue e sujeira tomar um banho.
— Eu vou trancar enquanto pego os curativos. — Ele avisou, assim que entrei no banheiro e eu acabei revirando os olhos.
— Claro que vai, vocês são boas pessoas, não idiotas, não é? — Devolvi, com algo que o Petter certamente diria.
Carl sorriu, ele tinha gostado da resposta.
— Algo assim. — Assentiu pronto para fechar a porta.
— Carl? — Chamei, e ele voltou um pouco para me encarar. — Obrigada.
— De nada. — Sorriu novamente e trancou a porta em seguida.
Encarei o banheiro por alguns segundos. Um banheiro de verdade, não um adaptado em um fábrica que havia se tornado o inferno na terra.
Coloquei as roupas limpas sobre a bancada da pia e, em seguida, comecei a tirar as que eu vestia. Estavam imundas. Eu estava imunda. Havia barro e sangue, e também haviam coisas que eu sabia que a água não ia levar.
Quando entrei no chuveiro, me lembrei que tinha pensado em tomar banho de cândida quando saísse do Santuário. Mas naquele momento, enquanto a água corria pelo meu corpo, fazendo cada machucado arder e escorrendo escura pelo ralo, eu simplesmente soube que não importava quando eu me esfregasse e me lavasse, a sujeira do Santuário nunca sairia de mim.
Era como se estivesse debaixo da minha pele, como se tivesse fundido nos meus poros...
Eu queria chorar, colocar tudo pra fora e sentir aquele alivio que dá depois disso. Mas minhas lagrimas tinham secado, meu corpo tinha se acostumado com a dor, tinha se acostumado tanto, que nem a tratava mais como algo que tem de ser colocado para fora.
Exaustão. Era apenas isso. Foi só então que eu entendi porque a proposta de Rick parecia tão tentadora. Sentar em uma cela e não fazer nada, apenas esperar que as coisas dessem certo sozinhas, era confortável. Mas uma parte de mim sabia que nunca daria certo.
Quando saí do chuveiro, olhei meu reflexo no espelho e simplesmente não reconheci quem estava me olhando de volta.
Não eram as olheiras fundas e arroxeadas sob os meus olhos, não eram as escoriações mal cicatrizadas por todo o rosto, não eram os ossos evidentes por causa do emagrecimento que o sofrimento causara. Era mais que isso. Era como se eu não fosse mais eu. Por dentro. Bem lá no fundo. Eu estava tão morta quanto qualquer errante, essa era a verdade...
Suspirei profundamente e me apoiei na pia, antes de terminar de me vestir. O ferimento na minha perna e nos meus pulsos não estavam mais tão feios, porém ainda precisavam de curativo.
— Carl? — Bati na porta algumas vezes, para que o garoto abrisse. Mexi na maçaneta, mas realmente estava trancada. Não houve resposta do lado de fora. — Seria legal que você abrisse a porta...
Sem resposta novamente. Foram longos segundos esperando, até que ouvi o barulho da chave na fechadura.
— Pensei que tinha me esquecido trancada aqui... — Eu ainda estava no meio da frase, quando abri a porta e me dei conta que não era Carl do lado de fora. As palavras simplesmente morreram na minha garganta.
Daryl estava parado na minha frente. Percebi os olhos dele subirem pelo meu corpo lentamente, antes de se prenderem nos meus e um arrepio estúpido se alastrou a partir da minha espinha, me trazendo a sensação estranha de borboletas no estômago.
Só então ele percebeu o que tinha feito e agiu como o Daryl Dixon de sempre.
— Carl teve que... — Não conseguiu terminar a frase, apontando a saída do quarto com o polegar. — E pediu pra que eu... — Novamente parou antes do fim, indicando a porta do banheiro com a cabeça. — A caixa de primeiros socorros está ali.
Percebi o objeto sobre a cama, e passei por Daryl sem dizer nada. Senti os olhos dele me queimarem, conforme eu me afastava.
Ainda calada, me sentei e passei a cuidar do ferimento na minha perna.
Pela visão periférica eu podia ver Daryl andando pelo quarto, impaciente. Mas eu não queria olhar pra ele, não queria falar com ele, não queria pensar nele. Eu não podia fazer isso. Havia outras coisas mais importantes precisando do meu foco naquele momento.
Mas era como se aquela menina obcecada por Daryl Dixon ainda vivesse dentro de mim... Eu sou mais forte que isso, tentei me convencer, enquanto focava na minha perna.
— Eu posso...? — Daryl apontou pra mim, como se quisesse ajudar com o que eu estava fazendo.
— Não. — Respondi seca.
Eu podia lidar com um curativo na perna, já tinha lidado com coisas muito piores sozinha.
Infelizmente, em se tratando dos curativos no pulso, não foi assim tão fácil, a logística não ajudava muito naquele caso.
Daryl foi ficando casa vez mais impaciente, até que atravessou o quarto em passos pesados e rápidos, se sentando na minha frente e tomando as coisas da minha mão.
— Me dá, deixa eu fazer. — Tentou segurar meu braço, mas eu me esquivei mais rápido que isso.
— Eu não preciso de você! — Retruquei em um tom áspero e todo o semblante do Daryl mudou.
Era como se ele fosse apenas aquele garoto machucado de Dawsonville novamente, aquele que escondia tudo atrás de uma postura rude, mas que tinha os olhos azuis mais expressivos que eu já tinha apreciado na vida.
— É, isso já ficou muito claro... — Respondeu, e estendeu a mão, esperando que eu colocasse a minha sobre a dele.
Aquela cena me levou de volta no tempo, quase onze anos antes, o dia em que Daryl me contou das cicatrizes em suas costas. Ele tinha socado a parede do meu banheiro pouco antes e estourado os nós dos dedos. Então em me sentei pacientemente e esperei que ele me permitisse cuidar dele.
Foi naquela noite que eu soube que o amava.
Mas lembrar daquilo também me fazia lembrar de todo o depois. De toda a dor acumulada naqueles dez anos. Afinal Daryl desistiu de nós, enquanto tudo que eu queria era que durasse pra sempre.
Era como se nosso reencontro houvesse aberto todas as cicatrizes que eu pensei que estavam curadas. E eu odiava sangrar daquele jeito outra vez. Eu odiava como Daryl Dixon me fazia sentir, mas ainda assim não conseguia odiá-lo. Como isso era possível?
Estendi minha mão para ele e baixei os olhos antes que uma lágrima rolasse por eles.
Quis perguntar se ele lembrava daquele dia, mas seu toque suave no meu pulso me fazia sentir que ele lembrava de tudo...
Daryl podia ser muito delicado quando queria, e essa era uma das coisas que eu costumava amar nele... Tudo que ele escondia por trás de suas pose de caipira arrogante.
— Por que me ajudou a sair do Santuário? — A pergunta me pegou de surpresa e me puxou para a realidade horrorosa em que vivíamos. — Dwight contou, Sherry deixou uma carta pra ele. Isso é verdade? Você me ajudou?
Fiquei alguns segundos apenas olhando seus olhos azuis, deixando cada lembrança dos últimos dias passarem pela minha mente.
Estávamos quebrados. Todo aquele reencontro só serviu para provar isso. Daryl tinha me destruído quando me mandou embora. Eu precisava parar de me agarrar a lembranças de quando éramos apenas duas crianças estúpidas.
Eu tinha uma família para encontrar e proteger. Uma família que Daryl não quis ter comigo. Então ele não podia ter lugar na balança das minhas decisões outra vez.
Petter tinha vivido dez anos sem um pai, e aquilo que os olhos não vêem o coração não sente... Eu não podia esperar pelo melhor em Alexandria.
Minha falta de resposta foi tudo que Daryl precisou para entender que sim, eu o tinha tirado do Santuário.
— Você podia ter me contado. — Ele comentou neutro, como se ainda fossemos as pessoas de antes, e aquilo me trouxe um tanto de indignação.
— Não. Eu não podia. — Retruquei, puxando minha mão de volta, porque o toque dele me deixava inebriada e nublava meus pensamentos. — Eu estava no Santuário há meses e você há três dias, eu aprendi a mentir, fingir e manipular, e tudo que você tinha era raiva e culpa, sua impulsividade mataria nós dois.
Guardei as coisas com violência desnecessária, enquanto Daryl ainda procurava uma resposta.
— E você teria chegado a essa e em muitas outras conclusões sozinho, se não estivesse bancando o macho escroto pra cima de mim! — Aumentei meu tom de voz e bati a tampa da caixa de primeiros socorros.
— Se você tivesse dito alguma coisa eu... — Ele tentou retrucar, mas foi aí que eu fiquei ainda mais irritada.
— Você não entendeu, não é? — Inclinei um pouco meu corpo, para que ele não tivesse opção a não se me encarar. — Eu não te devo explicações, nem sobre as minhas decisões, nem sobre a minha vida, nem sobre nada. Não é meu trabalho desfazer a imagem de demônio que você pintou de mim. Não é problema meu, Daryl. É seu. Você tem que lidar com isso, não eu.
Eu estava farta de lidar com problemas dele, eu já tinha feito isso, e só serviu pra me ferir. Eu não podia salvar alguém de si mesmo, e levei anos e um coração todo ferrado pra entender isso.
— E sim, eu te tirei do Santuário, mas eu faria isso por qualquer um, exatamente como eu fiz pela Sherry. Não era sobre você, Daryl. E ainda não é. — Terminei, cruzando meus braços e afastando meu corpo.
Aquilo não era verdade, eu não teria feito o mesmo por mais ninguém, mas Daryl não tinha que saber disso. Daryl não tinha que saber nada, isso evitava efeitos colaterais.
Ele assentiu vagarosamente e se levantou, andando de um lado para o outro por um tempo. O pior é que eu o conhecia tão bem, que era quase como se pudesse ler os pensamentos dele através de suas expressões faciais.
Daryl estava magoado, e eu não queria ver nada daquilo, por isso apenas virei o rosto para o outro lado.
— Tenho que te levar de volta. Negan vai chegar logo, e eu preciso ajudar o grupo. — Avisou frio e eu simplesmente o segui de volta para a cela, sem que trocássemos nenhuma palavra.
Ele saiu sem me encarar novamente e eu fiquei sozinha com meus pensamentos, ouvindo os sons se intensificarem do lado de fora, provando que mais pessoas haviam chegado em Alexandria.
Eu tinha que encontrar um jeito de sair dali o mais depressa possível...
Estava procurando por algo que pudesse abrir aquela maldita cela quando Rick e Michonne apareceram.
— Está tudo pronto, estamos preparados para o Negan. — Michonne declarou em um otimismo quase encorajador.
Contra todas as probabilidades, eu gostava dela, não tinha um motivo especifico, eu não sabia se era por ela ter sido amigável comigo, se era por termos lutado com os mortos lado a lado, mas eu gostava dela.
— O fato de você achar realmente que estão preparados para o Negan, mas faz ter certeza que não estão. — Devolvi neutra, e meneei a cabeça algumas vezes.
Aquelas pessoas idiotas estavam prestes a se matar por algumas casas e um muro. Deviam pegar as coisas e ir embora. Eu havia aprendido do pior jeito. Natania tinha feito isso e estava viva e bem. Eu, por outro lado, tinha entrado em uma guerra que não podia vencer e a cada dia me ferrava mais.
— Temos um grupo aliado, um que ele não controla, Negan não espera por isso. Vamos vencer. — Rick reforçou ainda mais decidido, e os dois trocaram um olhar cúmplice.
Faziam um casal bonito, tinham dois filhos adoráveis. Eu meio que invejava os dois, já tinha desejado a mesma coisa, mas o destino me odiava e nunca me daria aquele tipo de felicidade completa, naquela altura da minha vida eu simplesmente havia me conformado com isso.
— Me parece que você confia nas pessoas fácil demais. — Dei de ombros, usando um tom entre o irônico e o perspicaz.
Algumas decisões de Rick eram muito claras pra mim, eu mesmo teria feito coisas parecidas, mas outras eu não entendia. Aquela coisa de confiar em todo mundo, como no Dwight, era uma delas.
Quer dizer, o cara tinha atirado no Daryl e roubado o colete dele, qual é? Assim que o pensamento se formou na minha mente percebi como estava sendo idiota, não era sobre Dwight, era sobre Daryl.
Todo aquele ranço que eu tinha do Salvador, era porque eu tinha projetado as piores partes de Daryl nele, por causa da besta, e depois por causa do colete, o meu colete.
— Me parece que você nunca confia em ninguém. — Rick jogou de volta e foi mesmo uma boa resposta.
— Eu tenho os meus motivos. — Falei neutra
— É uma pena... — Michonne declarou, acenando para Rick, era hora deles irem.
— Quando eu voltar aqui com a vitória, talvez você repense a sua decisão. — Rick concluiu pronto para ir.
— Eu não vou... — Deixei claro.
— Então terá um carro pronto pra você do lado de fora. — Michonne finalizou já próxima a porta.
— Boa sorte. — Fui tudo que eu pude desejar, mas eu não acreditava que sorte iria ajudá-los naquilo.
Assim que o casal saiu eu voltei para minha missão de encontrar algo que abrisse aquela maldita cela. Eu não podia esperar que desse tudo certo, eu não acreditava que daria. Na verdade, minha mente seguia me mostrando essa imagem de Alexandria caindo e do Negan colocando as mãos em mim outra vez, mandando que todas as comunidades fossem reviradas pra evitar mais rebeliões, então ele encontraria meus filhos e...
Minha respiração começou a falhar de novo, e todo meu corpo tremia como se eu estivesse prestes a ter uma convulsão. Tive que parar no meio da cela e contar de dez até zero, enquanto tentava me acalmar.
Foi nesse momento que Daryl apareceu.
Ele não disse nada, apenas parou do lado de fora e ficou andando de um lado para o outro por um tempo, como se tivesse indeciso sobre o próximo passo. O comportamento dele não me ajudava em nada a controlar meu pânico.
Então ele abriu a cela, e entrou, caminhou até mim com passos tão decididos que pensei mesmo que ele fosse me puxar pra perto e me beijar. Mas não foi isso que aconteceu.
— Aqui, pega. — Ele me estendeu uma arma e uma faca.
Fiquei confusa com o que estava acontecendo ali.
— Eu disse que não vou me envolver na guerra de vocês. — Ergui as duas mãos, deixando claro que não pegaria o que ele estava me entregando.
— E eu ouvi. — Ele puxou minhas mãos e me obrigou a pegas as coisas. — Mas eu não vou te deixar aqui sozinha, trancada e desarmada, eu não sei como as coisas vão ser. É uma precaução.
Era irônico que eu tivesse uma arma e uma faca na mão e me sentisse totalmente desarmada. Daryl estava preocupado comigo, e isso não era bom pra minha sanidade.
Tentei focar no que importava e coloquei a arma na cintura e a faca no coturno, mas Daryl ainda tinha os olhos em mim.
Ele me encarou por mais algum tempo, como se ainda quisesse dizer alguma coisa, porém nada saiu de seus lábios. Então respirou profundamente e deu um passo pra frente.
Eu não consegui me mover. Eu nem sabia se queria mesmo me mover e me afastar. Ele deu outro passo, estendeu a mão muito devagar e tocou meu braço, muito de leve, quase como tínhamos feito em nosso primeiro exercício hipotético lá em Dawsonville.
Então me puxou pra perto, não pra um beijo, simplesmente me abraçou, me apertando contra seu corpo e afundando o rosto no meu cabelo.
Meu corpo respondeu primeiro do que minha mente. Eu simplesmente o envolvi de volta. Era como voltar pra casa depois de uma longa e exaustiva viagem, como se nossos corpos se encaixassem um no outro tão perfeitamente que tinham sido feitos para aquele abraço.
E então acabou... Daryl se afastou. Não me encarou outra vez antes de dar as costas e sair deixando a cela aberta.
— Você sabe que eu posso fugir, não sabe? — Declarei, antes que ele alcançasse a porta. Eu sequer sabia porque estava dizendo aquilo.
— Você fez um acordo, Rick vai honrar a parte dele, se você vai honrar a sua ou não é um problema seu, não meu. — Terminou a resposta com algo que eu tinha dito pra ele mais cedo.
— Tá certo, entendi... — Cruzei os braços um tanto afetada. — Você faria isso por qualquer um, certo? — Presumi que ele usaria o resto da minha frase também.
Daryl me encarou por longos segundos antes de responder:
— Não, eu não faria isso por qualquer um. Eu estou fazendo por você.
Suas palavras me pegaram de surpresa, Daryl não costumava ser tão honesto daquele jeito. Ele não esperou que eu dissesse nada.
— Daryl? — Chamei antes que ele saísse. — Se cuida, 'tá bom?
Ele abaixou o olhar, e saiu pela porta sem me dar resposta alguma, nem um balançar de cabeça ou aqueles murmúrios indecifráveis.
Só então eu entendi o que tudo aquilo significava: As armas, a cela aberta, o abraço... Era uma despedida. Daryl estava em uma missão suicida. Ele queria matar o Negan e não importava o que aconteceria no processo.
Eu mesma tivera um pensamento como aquele, quando pensei que meus filhos estavam mortos. Matar Negan, porque eu não tinha mais nada a perder e minha própria vida não importava mais.
— Mas que caipira estúpido! — Resmunguei, pronta para ir atrás dele, em uma reação totalmente impulsiva.
Eu já estava segurando a maçaneta quando a ficha caiu: Eu estava livre, não precisava mais ficar em Alexandria. Eu podia fugir enquanto todos estavam distraídos demais com a batalha que começaria a qualquer momento.
E, sabendo que Negan estava a caminho da comunidade, eu podia escolher as melhores rotas para a fuga, chegar no Reino, pegar meus filhos e dar o fora do estado, antes que aquela maldita batalha acabasse.
E o Daryl? Uma parte minha teimou em lembrar. Daryl não é problema meu. Não fazemos mais parte da vida um do outro.
Mas ele é o pai do seu filho... era como se dois lados meus estivessem em guerra. Ele não quis ser pai do meu filho antes, e agora eu não posso arriscar a segurança das crianças. É tarde demais. Além disso, é o Daryl ele vai ficar bem.
— Ele vai ficar bem. — Repeti em voz alta, para calar os pensamentos na minha cabeça. — Ele vai ficar bem.
Me afastei da porta e subi as escadas que davam para a residência onde eu havia tomado banho mais cedo. Eu tinha que achar uma janela que me permitisse acesso aos fundos da comunidade, afinal eu não podia deixar que ninguém me visse fugindo.
Não foi tão fácil pular a janela por causa da perna, mas eu dei um jeito. Fui seguindo ocultada pelas casas, vendo as pessoas em seus postos aqui e ali.
Eles tinham um bom número e pareciam bem armados. Talvez Daryl não estivesse em uma missão suicida afinal, talvez eles até dessem conta. Mas claro que isso não significava que eu ficaria ali pra descobrir, mesmo que uma parte da minha mente ainda insistisse em perguntar o que eu faria sobre todo o caso "Petter e Daryl".
Daryl tinha dito com todas as palavras que não queria ser pai e Petter sonhava em conhecer o pai desde sempre. Só isso já era um impasse, mas claro que minha vida nunca ficava no "só isso", havia uma guerra entre nós, tudo era mil vezes mais complicado.
Eu estava ciente de que se fugisse, eu não poderia olhar pra trás, Petter não poderia conhecer o pai... Talvez seja hora de ser um pouco egoísta.
Coloquei na cabeça que era questão de sensatez, quer dizer, quando se é mãe, sabe que nem tudo que o filho quer ele pode ter, às vezes é uma questão de segurança. Petter achava que podia pular de bungee jumping quando tinha sete anos, e eu não deixei porque não era seguro pra ele. Então, se conhecer Daryl ameaçava a segurança do meu filho, talvez fossem melhor que não se conhecessem.
Era egoísmo em alguns pontos, mas eu achei que podia viver com isso. Daryl não é minha prioridade, lembrei, já avistando uma parte do muro por onde eu podia pular.
Eu estava quase lá, quando ouvi algumas vozes vindo na minha direção. Me escondi no primeiro lugar que encontrei, atrás de uma das casas. Eram duas pessoas, um homem e uma mulher, ambos vestidos com roupas escuras, deduzi que estavam fazendo a ronda no perímetro.
— Isso vai dar certo, você vai ver. — Uma das pessoas dizia, tinha uma fala meio mole que me causava tédio.
— Jadis foi muito esperta em fazer o acordo. — O outro respondeu no mesmo tom.
Presumi que eram do grupo aliado que Rick havia mencionado.
— Procurar o tal Negan e pedir um acordo melhor foi uma jogada de mestre, ficaremos muito bem depois disso. — A informação demorou alguns segundos pra fazer sentido na minha mente.
Os dois ainda estavam se afastando, no meio da conversa, quando a ficha caiu. O tal grupo "aliado" tinha traído Rick.
Com o coração aos saltos me dei conta de que toda a vantagem que Alexandria achava que tinha era mentira.
Todos eles acabariam mortos...
Foi nesse momento que uma voz que eu não conhecia ecoou por toda a parte, como se estivesse falando por um alto falante. O sujeitinho falava difícil, diferente de outros Salvadores, mas eu sabia que eram eles.
Começou.
Todo meu corpo tremeu e minha respiração ficou irregular. Olhei para o muro mais uma vez, eu só tinha que correr e pular, só isso. Eu estava tão perto.
Era um daqueles momentos em que suas escolhas podem levar a caminhos totalmente diferentes. Fugir ainda era uma opção, mas ficar e esperar não.
Todos eles vão morrer: Rick, Michonne, Carl... Daryl.
Tirei a arma da cintura e destravei.
— Você é tão estupida, Natalie Cooper! — Xinguei assim que tomei minha decisão.
Nem fugir, nem esperar, eu escolhi lutar.
Eu precisava contar sobre a traição para o Rick, talvez se eu fosse rápida o bastante eles ainda tivessem uma vantagem.
Escolhas boas, escolhas ruins... qual é a diferença? É tudo relativo, não é?
Respirei fundo e ignorei todos os sinais de alerta que meu corpo emitia, era como se cada parte minha gritasse que aquilo era uma péssima ideia.
Mesmo assim, com a arma em punho, eu já seguia em direção a entrada da comunidade.
O plano era simples: revelar toda aquela farsa, antes que Rick caísse na cilada. Mas claro que ia dar merda, como não daria, não é?
Eu estava perto dos painéis solares quando os mesmos dois homens de antes me viram. Sequer fiquei surpresa quando aconteceu, afinal estar totalmente fodida tinha virado a configuração padrão na minha vida.
Podia ter gritado e alertado os outros, mas as chances de tudo dar errado e alguém morrer eram grandes demais pra arriscar, então resolvi dar um jeito sozinha. Como sempre.
— Não se mexa! — Um deles ordenou, enquanto o outro tirava a arma da minha mão, sendo desleixado o bastante para não me revistar e achar a faca na minha bota.
— Qual é, estamos do mesmo lado, certo? — Me fiz de sonsa.
Os dois homens se entreolharam e não pareceram convencidos.
— Ela veio dali. — Um deles apontou, e era óbvio o bastante para que qualquer idiota percebesse.
— Você ouviu a gente, não é? — O outro perguntou.
— Do que está falando? — Continuei me fazendo de desentendida.
— Vamos tirá-la de vista. Melhor não arriscar. — Eles concordaram sobre aquele ponto.
Ainda tentei argumentar, mas não serviu de nada. Fui praticamente arrastada para uma das casas.
Eu já estava bem arrependida de não ter pulado aquele maldito muro.
— Devíamos acabar com ela agora, no fim nem vai fazer diferença mesmo. — O que estava com a arma na minha cabeça sugeriu.
— Pode ser, mas não use a arma, o barulho vai atrapalhar o plano. — Menos de dez minutos e eu já odiava os dois.
O homem trocou a arma por uma faca, enquanto o seu parceiro olhava pela janela.
— Acho que já começou. Nosso pessoal está assumindo o controle. — Avisou e o que estava comigo se distraiu por um segundo, tempo o bastante pra que eu segurasse o braço que portava a faca, invertendo nossas posições e chocando meu cotovelo contra seu nariz.
Ele cambaleou para trás, no momento em que o outro vinha na minha direção com a arma em punho. Eu tinha ficado com a faca e não pensei duas vezes antes de usá-la.
Agradeci meu lançamento perfeito, quando a lâmina voou perfeitamente na jugular do homem que vinha na minha direção. Ele levou a mão até a garganta, no momento em que engasgava com o próprio sangue.
Foi quando o primeiro, aquele que eu tinha acabado de acertar bem no nariz, pulou sobre mim.
Rolamos pelo chão, batendo nos moveis e derrubando alguns enfeites da mesa de centro, que estilhaçaram com o impacto.
Ele parou por cima de mim, o corpo me imobilizando e as mãos no meu pescoço. Enquanto eu me debatia, meu agressor mantinha toda a vantagem. Em um combate corpo a corpo eu perderia sem dúvida.
Meus pulmões ardiam a procura de ar e eu tateava pelo chão, em busca de algo que servisse como arma provisória. Senti o caco de alguma coisa nos dedos e não pensei duas vezes antes de fincá-lo no rosto do meu adversário.
Ele gritou, se jogando para o lado por instinto e libertando o meu corpo. Tentei me levantar, enquanto respirava desesperadamente, mas minha perna não colaborou com meu desejo e, enquanto eu ainda estava me apoiando no sofá pra ficar de pé, o homem voltou.
Senti o impacto de suas botas nas minhas costelas e fui ao chão novamente.
— Sua vadiazinha de merda! — Gritou de ódio e eu pude ouvir tiros começando ao fundo.
Era tarde demais, tinha começado.
O homem me encarava de cima, um pedaço de vidro atravessado em sua bochecha e um olhar assassino nos olhos. Ele pisou sobre a minha perna ferida, pressionando a bota e esfregando de um lado para o outro.
A dor foi tão intensa e excruciante que a única coisa que eu pude fazer foi gritar. Você não pode morrer aqui, Natalie. Você não pode morrer aqui.
Não faço ideia de onde tirei forças, só sei que usei a perna boa e aproveitei que ele estava praticamente sobre mim para chutá-lo bem na virilha, de baixo para cima, já que eu ainda estava no chão.
Foi a vez daquele idiota gritar de dor, enquanto eu aproveitava a oportunidade pra tirar a faca da minha bota, perfurando seu sapato e pé com ela, de novo e de novo, até que ele caísse no chão.
Com a lâmina em punho, eu me arrastei até ele, ouvindo seus gritos e xingamentos se misturarem com os tiros que pareciam vir de toda parte da comunidade naquele momento.
O homem tentou me atingir com um soco mal posicionado, mas eu fui mais rápida e sem pensar muito, desci a faca sobre o seu peito, repetidas vezes, até que não houvesse mais força no meu braço.
Deixei meu corpo ceder, ofegando e sentindo a dor se espalhar por cada um dos meus músculos.
Todavia em uma situação daquelas não dava tempo de parar, não dava tempo de pensar. Me arrastei pelo chão, até pegar uma das armas, um rifle comprido que eu usei como apoio para me levantar.
Peguei as armas e munição dos corpos no chão e resolvi deixar a casa, colocando as facas na bota, e ajeitando cada arma em um lugar estratégico.
Eu mal conseguia andar, minha perna sangrava e minhas costelas doíam. Mas o tempo de desistir tinha passado, eu estava bem no meio da fogueira e o jeito era enfrentar o fogo.
Quando deixei a residência, percebi que o caos já havia se espalhado por Alexandria, era como estar em Sherwood outra vez, mas sem o fogo e com muito mais gente desconhecida.
Eu preciso achar o Daryl.
Segui próximo as casas, tentando não ser vista nem me envolver em tiroteios. Estava perto das placas solares novamente quando reconheci duas pessoas. Tara vinha arrastando Rosita, que parecia ferida, mas a situação das duas não era boa, reconheci dois Salvadores vindo da esquerda, enquanto uma mulher e um homem usando aquelas roupas pretas vinham da direita.
— Parece que é dia das boas ações hoje... — Debochei de mim mesma enquanto preparava as armas.
Um tiro certeiro e o primeiro Salvador caiu, Tara derrubou o outro e atiramos quase ao mesmo tempo nos dois da direita.
As duas olharam pra mim sem entender nada, porém não era o momento para explicação.
— Onde o Daryl está? — Questionei em um tom urgente e elas se entre olharam. — Onde ele está?!
— Estava na entrada quando saímos, está uma loucura por lá. — Tara respondeu meio incerta. — Vai por ali, foi de onde eu vim e está livre. — Apontou a direção.
Não esperei uma resposta, apenas continuei andando o mais rápido que meus passos mancos permitiam.
Segui rente a qualquer coisa que me fornecesse cobertura, atirando em quem eu reconhecia como inimigo e me mantendo longe de vista.
Tinha acabado de virar uma esquina quando vi Daryl, ele tinha dado cabo de dois homens e estava pegando a metralhadora de um deles, se preparando para entrar bem no meio da zona de tiro.
Segurei seu braço antes que ele desse mais um passo e seu primeiro impulso foi virar na minha direção em posição de ataque. Assim que seus olhos encontraram os meus, sua postura mudou. Primeiro confuso, depois preocupado.
— Você está bem? — Examinou meu corpo de cima a baixo.
Ignorei aquela pergunta, assim como ignorei o sentimento de alivio que foi vê-lo inteiro.
— Você estava prestes a fazer algo muito estúpido agora, não é? — Acusei em um tom baixo.
— Isso importa? — Ele deu de ombros, olhando para todos os lados, dando um passo para trás e voltando a sua posição de combate.
Segurei a gola de sua camisa e o obriguei a me encarar. Ele precisava entender a gravidade da situação e parar de ser idiota.
— Escuta. Negan vai matar o Carl, é o que ele vai fazer como castigo pra punir o Rick. Precisamos fazer alguma coisa e NÃO ser mortos no processo. Entendeu? — Falei o mais rápido e firme que a dor permitia.
Daryl assentiu vagarosamente, e eu não tive tempo pra decifrar se aquilo era surpresa ou qualquer outra coisa, tínhamos que agir.
— Você tem um plano? — Ele me perguntou, enquanto preparávamos as armas.
— Claramente eu sou péssima em seguir meus próprios planos. — Resmunguei, lembrando que eu tinha jogado tudo pro alto alguns minutos atrás. — Vamos focar em sobreviver e não ser pegos pelo Negan, pode ser?
— Soa como um bom plano. — Daryl preparou a metralhadora e trocamos um último olhar antes de seguir.
Estávamos indo bem, acabamos com alguns do outro grupo, assim como alguns Salvadores, quando fomos cercados por mais homens do que daríamos conta de abater.
— Abaixa isso! — Reconheci um dos homens de Negan, com uma arma na minha cabeça, enquanto forçava Daryl a se render.
Ele olhou pra mim e depois para os homens ao nosso redor, não era como se tivéssemos chances. Mas percebi que se Daryl estivesse sozinho ali ele teria tentado, ele se rendeu por minha causa e, depois disso, fomos arrastados por Alexandria.
Uma sensação aterrorizante de déjà vu percorreu meu corpo, conforme andávamos e víamos dezenas de cadáveres pelo chão.
No meio de um dos gramados, Rick e Carl estavam rendidos e ajoelhados, Negan na frente deles, parecendo trocar ameaças com o líder de Alexandria.
— Vocês já estão mortos! E nada, nada, vai mudar isso. — Rick terminou o que parecia uma ameaça e eu tive certeza que ele era louco.
Você não se ameaça alguém que tem um arsenal inteiro apontado pra sua cabeça, isso é lógica básica, principalmente quando tem uma criança ajoelhada ao seu lado.
— Chefe, acho que vai gostar do que temos aqui. — Um dos Salvadores declarou, me dando um empurrão e me obrigando a dar mais alguns passos.
Os olhos de Carl e Rick seguiram pra mim e ambos pareceram surpresos, Negan por sua vez olhou por cima do ombro e enxergou apenas Daryl primeiro, já que eu estava fora de seu campo de visão.
Sorriu ferino, enquanto seus olhos tinham um brilho psicótico. Eu literalmente podia ouvir meu coração batendo desgovernado dentro do meu peito.
Tinha acabado, estávamos todos ferrados. Eu havia falhado com meus filhos.
Negan se colocou de pé, pronto pra caminhar na direção de Daryl e foi então que me viu. Seus olhos ficaram presos em mim e seu sorriso morreu nos lábios.
Eu tinha certeza que estava respirando areia, meus pulmões rangiam, arranhavam, imploravam por ar. O medo se espalhava pelo meu corpo como uma doença mortal.
A rebelião de Rick e a fuga de Daryl não seria coisa alguma perto da minha traição. Eu tinha jurado lealdade a Negan e depois brincado com suas regras, destruído seu esquema a prova de fugas, feito ele de idiota. Isso aquele homem jamais admitiria.
— Olha só! Isso sim é uma surpresa! — Assumiu aquela pose amigável, jogando um pouco o corpo pra trás enquanto falava.
Ele foi se aproximando de mim em passos lentos, quase me rodeando, como um animal prestes a atacar. Fez um gesto com a mão e os outros homens arrastaram Daryl, fazendo-o se ajoelhar a esquerda de Rick.
— Juro que eu tinha pensado que você estaria bem longe daqui nesse momento... — Podia ouvir a voz de Negan nas minhas costas, enquanto ele continuava fazendo um círculo ao meu redor. Todo meu corpo estava paralisado de medo. — Mas acho que te dei muito credito. É quase como se você gostasse do sofrimento. Se aliando com estranhos para um novo plano patético contra mim? A última vez não foi o bastante, Coração?
Olhos nos olhos. Cerrei os punhos para que minhas mãos parassem de tremer.
— Talvez você tenha esquecido de como é o som da Lucille aqui beijando alguém. — O déspota mostrou o taco de basebol, fazendo-o passar raspando pelo meu rosto. — O cheiro de carne de crianças queimadas já saiu as suas narinas?
Tentei não deixar as palavras dele se infiltrarem na minha mente. Meus filhos estavam bem, podia ter sido apenas sorte, eu podia ter me ferrado grandemente desde então, mas eles estavam bem. Estavam seguros. Eu não podia esquecer disso.
Mesmo assim, uma lágrima pesada escorreu pelo meu rosto, eu não sentia mais a dor na minha perna, era como se o pânico tivesse anestesiado tudo. Era o fim da esperança, eu não via saída, não daquela vez.
Meus olhos se encontraram com os de Rick, enquanto Negan me dava as costas, caminhando até Carl.
Grimes tentava se manter no controle, mas seus olhos diziam tudo, ele não tinha um plano para aquilo. Algo muito ruim tinha acontecido, eu podia ver a dor da perda em seus orbes azuis e instantaneamente dei falta de Michonne ali ao lado dele.
— Talvez eu deva usar o Carl aqui, pra te lembrar algumas coisas e mostrar para o Rick como é que a minha banda toca. — Negan usou humor mórbido em cada palavra, o taco balançando sinuosamente perto da cabeça de Carl, que seguia firme como uma rocha. — Você, mais que qualquer um, devia ter tido isso pra ele, Coração...
Rick franziu as sobrancelhas na minha direção, mas eu mal o enxergava. Negan já estava com aquele taco horrendo preparado. E sim, eu ainda lembrava do som, era como se eu ainda pudesse ouvir os gritos de Naomi, quando aquele maldito fez o mesmo com o marido dela.
Talvez Natania tivesse razão, no fim das contas eu acabava mesmo destruindo tudo que eu tocava.
— Por favor, não faz isso. Ele é só um garoto... — Eu não me importei de estar implorando, não era hora de me prender ao meu orgulho. Eu simplesmente não podia deixar aquilo acontecer. Carl era só uma criança.
Negan veio caminhando na minha direção, com aquele sorriso vitorioso nos lábios. Ele amava ver que tinha quebrado alguém.
— Não se preocupe, Coração, você pode fechar os olhos se quiser. — Ele tocou meu rosto e limpou uma lágrima que escorria, se aproximando para falar no meu ouvido, embora tenha feito em alto e bom som para que todos ao redor escutassem. — E quando voltarmos pra casa, eu te consolo na minha cama com uma foda bem gostosa.
— Deixe ela em paz! — Daryl gritou, e imediatamente foi segurado por três Salvadores.
Simon tinha a arma na cabeça de Carl, Rick estava rendido por outro homem e Dwight observava a alguns passos de distância, era como um show que todos assistiam.
Negan deu um passo para trás no intuito de encarar Daryl, e o fez por vários segundos, voltando o olhar para mim em seguida. Eu vi a sombra do entendimento na sua íris e soube que Daryl tinha acabado de piorar, e muito, a nossa situação.
— Como foi que eu deixei essa merda passar? — Negan riu, apontando de mim para o Daryl, com um sorriso triunfante no rosto. Eu previ que nada bom aconteceria. — Minha nossa! É mesmo! Os olhares, o clima tenso quando os dois estavam no mesmo ambiente, e aquela fuga bizarra que eu sabia que não tinha como a Sherry ter planejado sozinha...
O déspota inclinou o corpo para trás e jogou o taco para frente enquanto ria, uma risada psicótica, a pior ameaça que ele já tinha me feito. Eu mal sabia como ainda estava de pé.
— Sério, ele? — Apontou Daryl novamente e se fingiu de desacreditado. — Você já teve um gosto fodidamente melhor para homens, Coração. Ele parece o tipo de cara que sequer toma banho...
Ele falava como se fossemos amigos, e como se aquilo não passasse de um deboche casual de mau-gosto. Meu estômago se retorcia em voltas dolorosas, fazendo a bile se acumular na minha garganta.
Negan tirou os olhos de mim e caminhou calmamente até Daryl, fazendo um sinal para que o Salvador que me segurava colocasse uma faca na minha garganta.
— O que é que você tem, hein? — Segurou os cabelos de Daryl e o encarou muito de perto. — Duas das minhas garotas... Acho que eu vou ter que te ensinar uma lição, caralho! Mas não se preocupe, você vai sobreviver, Dwight sobreviveu. — Apontou o loiro com o rosto desfigurado, deixando claro o que faria com Daryl.
— Eu não sou sua garota. — revidei imediatamente, tirando coragem de onde não existia mais nada. — Não sou uma das suas esposas. E Daryl nunca falou com Sherry, fui eu. O plano e tudo o mais. Fui eu. Só eu.
Negan soltou Daryl e voltou sua atenção para mim, seus olhos faiscando de raiva, não havia mais a pose amigável ou debochada, apenas ódio.
— Isso significa que Daryl não traiu você, essa punição não se aplica a ele. — Terminei de queixo erguido, ainda sentindo a lâmina em minha jugular.
— Você acha que depois de tudo que fez, você tem alguma influência nas minhas decisões? — Questionou ameaçador e eu percebi que minhas jogadas lógicas de antes não surgiriam qualquer efeito ali. Enfrentar Negan não era mais a resposta. — Sou eu que faço as regras aqui! E se eu digo que teremos o ferro, então teremos o caralho do ferro!
Meus olhos seguiram para Daryl imediatamente e ele tinha os dele colados em mim. Percebi que tanto ele, quanto Rick e Carl estavam tentando achar uma oportunidade onde não tinha, mesmo que conseguissem uma brecha pra revidar estávamos em menor número graças a traição daquele outro grupo.
Não havia alternativa, e Negan não aliviaria a punição de nenhum de nós. E, já que ele sabia da minha ligação com Daryl, daria um jeito de usar nós dois um contra o outro. Assim como ele estava usando Carl para quebrar o Rick.
— Mas já que você gosta tanto assim do meu Daryl, Coração. — Os olhos do déspota assassino brilharam malignamente, como se ele tivesse acabado de ter uma ideia. — Vou mandar cortar o pau dele e te dar embrulhado pra presente. Melhor! Eu vou mandar o Kane fazer isso! Aposto que depois que você quase o matou com aquele maldito tiro, ele deve estar com um puta ódio de você, principalmente porque ele ainda está sendo punido pela incompetência.
Tentei não fazer nenhum movimento que demostrasse minhas emoções quanto àquela informação. Kane estava vivo, o que era ótimo, mas estava sendo punido, o que era péssimo, deixar nossa ligação evidente ferraria com ele de vez.
E se toda aquela merda fosse começar outra vez, eu realmente precisaria da ajuda dele.
— Ah mas quer saber... — Negan pareceu mudar de ideia, e eu tive quase certeza que ele só mencionou Kane como um teste, quando viu que eu não pisquei descartou aquela jogada. — Nem sei se aquele idiota vai se recuperar, talvez perca o braço da punheta, vai saber... Melhor fazer o trabalho aqui e agora.
Eu não tive tempo pra pensar, eu não tive um segundo sequer pra raciocinar se aquilo era um blefe, uma jogada ou um teste. No momento em que Negan fez o sinal e os Salvadores ergueram Daryl do chão, um pânico desesperador percorreu minhas veias como um maremoto. E quando me dei conta eu já tinha gritado:
— Para! — Negan se virou pra mim com o sorriso de quem tinha acabado de ganhar na loteria.
Era isso que aquele maldito queria desde o momento em que tinha colocado os olhos em mim, meses atrás, ele queria um trunfo para me quebrar, ele queria meu desespero... E ele tinha conseguido. Daryl negou algumas vezes prevendo que eu faria algo estúpido.
— Por favor... — Implorei engolindo em seco. — Eu faço o que você quiser.
Eu pude ouvir a risada de alguns Salvadores. Era como se todos soubessem o que viria depois.
E era isso, eu estava destruída, sem mais jogos, sem mais luta, eu só queria que acabasse. Não queria mais sangue nas mãos, eu não queria que Daryl passasse por aquilo por minha causa.
Sabia o que me esperava, e mesmo assim eu estava disposta. Só então eu entendi Sherry, e o amor dela por Dwight e, se mesmo aquele tipo de amor não tinha sobrevivido ao Negan, então nada mais podia sobreviver.
Pelo menos meus filhos estão a salvo, bem longe daqui.
Negan se aproximou mais, os olhos alternando entre mim e Daryl que tentava lutar inutilmente. Rick tinha um olhar imponte e perturbado.
Talvez eu devesse mesmo ter pulado aquele muro.
Eu ainda tinha os olhos em Daryl quando Negan sorriu, era como um sádico tirando prazer da dor alheia. Ele amava aquilo.
— O que eu quiser? — Repetiu cinicamente.
Eu tirei os olhos de Daryl e assenti.
— Me beije. — Ordenou, se aproximando e sussurrando no meu ouvido. — E é melhor ser o melhor beijo de todos.
O homem que me segurava, me soltou depois de um sinal de seu líder. Dei um passo para frente. É só um beijo Natalie, você já beijou caras por bem menos, tentei me convencer, mas a verdade é que me sentia violada.
Negan me puxou pra perto com a mão livre, envolvendo minha cintura e fazendo nossos corpos se chocarem. Engoli a bile antes de fechar os olhos e colar nossos lábios. Eu precisava desligar minha mente, ou nuca daria certo.
Eu me senti comendo uma barata, na verdade, eu preferia estar mastigando uma barata quando nossas línguas se tocaram. Minha mão, perdida entre os fios de Negan, formigava como se estivesse dentro de uma colmeia, sendo picada por mil abelhas ao mesmo tempo.
Senti a mão dele descendo pelo meu corpo, escorregando pelo meu quadril e segurando minha bunda, lascivo, invasivo, nojento. Era como se eu estivesse me afogando em um mar de podridão, o pior momento da minha vida. O beijo mais longo de todos. Desejei estar morta. Ele usufruiu de mim o mais explicitamente que podia, como se quisesse exibir aquele showzinho.
Não fui eu quem parou o beijo, foi Negan, deu um passo para trás e me encarou com uma expressão sagaz, triunfante. Como um jogador de poker que ganha uma bolada por causa de um blefe. E eu soube que ele nunca deixaria que eu terminasse aquilo com um pingo de dignidade. Seja lá o que eu quisesse, ele faria exatamente o contrário.
— Quer saber? Eu não tenho tesão por mulheres que imploram. Você não é mais tão sexy assim, Natalie. Lucille tinha razão, você é uma vadia. — Apontou o taco enquanto debochava. — E eu não faço acordos com vadias.
Foi rápido e inesperado, ele me virou um tapa, um apenas, direto no rosto, certeiro o bastante para me fazer perder o equilíbrio. O mesmo Salvador de antes me pegou pelos cabelos e me obrigou a ficar de joelhos.
— Mas não se preocupe, eu vou acertar as contas com você no Santuário e, quando eu acabar, você nunca mais vai se olhar no espelho outra vez sem lembrar de mim. — Passou o taco bela minha bochecha, exatamente onde havia acertado o tapa segundos atrás, fazendo o arame arranhar minha pele, mas não o suficiente pra me cortar.
Minha mente tinha entrado em um estado profundo de choque, eu sequer sabia o que pensar no momento, só conseguia tremer dos pés à cabeça.
— Vamos terminar esse jogo. — Negan anunciou animado, seguindo novamente para Carl.
— Quero que ela assista tudo, cada uma das coisas. — Apontou para o Salvador que me segurava e, em um movimento brusco, o homem me puxou pelos cabelos me obrigando a olhar para a cena. — Vamos começar com o garoto!
Tirou o chapéu de Carl e o menino fechou os olhos.
— Eu avisei Rick. Você não pode dizer que isso é minha culpa... — Ergueu o taco e se preparou para o golpe.
E foi nesse momento que algo realmente estranho aconteceu: um tigre enorme surgiu de lugar nenhum e pulou no pescoço de um dos Salvadores.
Negan levou um susto tão grande que praticamente esqueceu o que estava fazendo, se afastando de Carl, enquanto tudo se tornava um caos.
Várias pessoas apareceram atirando pra todo o lado, um homem de dreads cumpridos os liderava.
— Matem os Salvadores e seus cúmplices! — Ele gritou, erguendo um tipo de espada. — Alexandria não cairá, não hoje!
Não! Minha mente fez a associação tão rápido que eu mal consegui respirar. Aquele devia ser Ezekiel... ou seja, o Reino estava no meio da guerra. Não, não, não!
Haveria retaliação por aquele ato de rebeldia! Pouco me importava que aquele ataque surpresa estava sendo bem-sucedido, a menos que Negan caísse naquele momento, as consequências seriam desastrosas.
Havia tiros vindo de todas as partes. Mas minha mente estava longe, meu corpo estava congelado no lugar. Os sons se misturavam e chegavam turvos nos meus ouvidos. Eu não conseguia respirar, não conseguia pensar. Tudo estava desmoronando muito rápido.
Tive a impressão de ver Maggie surgindo com um grupo e dando ordens. Daryl passou depressa com uma metralhadora em punho, atirando em tudo que se movia. Era como se o ódio dele fizesse o chão tremer.
Eu queria me levantar, mas minhas pernas não me obedeciam. Uma avalanche de imagens desconexas passavam por mim, a realidade começou a se misturar com lembranças e temores de um futuro incerto.
Havia fumaça nos meus pulmões, fogo, cinzas, gritos e tiros. Sherwood queimava, os Alexandrinos morriam. O gosto de Negan estava nos meus lábios como o veneno de uma cobra, eu estava morrendo, sufocando lentamente em um mar de agonia. Fogo nos meus pulmões, gelo nas minhas veias.
— Natalie! Natalie! — Petter? Pisquei duas vezes, mas era Carl na minha frente, segurando meu braço e me forçando a levantar.
Saímos do meio da rua e Rick veio ao nosso encontro.
— Consegue atirar? — Ele perguntou me estendendo uma arma e eu assenti debilmente. — Nós vamos vencer isso Natalie, eu prometo. Negan vai pagar.
Rick tinha a mão no meu ombro e seu aperto, junto com seus olhos azuis límpidos, que focavam bem dentro dos meus, me forçaram a voltar ao controle. Mal tive tempo de concordar, antes que os dois já tivessem voltado para a luta.
Eu queria acreditar nele, mas não conseguia. Aquilo não acabaria, nunca acabaria. Não havia esperança ou futuro, só a havia morte e destruição.
Respirei fundo e voltei a atirar por puro instinto, uma parte minha ainda lutava, porque estava tão acostumada com isso que era como respirar.
Preciso sair daqui e levar meus filhos pra bem longe.... O mais longe que eu conseguir.
Minha mente seguia por um amontoado de pensamentos desconexos, e foi quando eu vi Negan, ele estava atrás de um dos carros, uma metralhadora em punho e Simon ao lado. Apenas um covarde se escondendo atrás de seus homens.
Se ele morrer isso acaba.
Sem pensar melhor sobre isso, atravessei no meio das balas, correndo por entre os carros. Um tiro. Eu só precisava de um bom tiro.
Estava perto o bastante, quando ele finalmente me viu.
Destravei a arma, pronta pra atirar, quando algo que eu não consegui reconhecer passou bem na frente do meu rosto. Me tirou o foco. Era uma bomba de fumaça. Fiquei perdida no meio dela. Ainda atirei, mas não atingi nada.
A fumaça se infiltrou nos meus pulmões, mais rápido que uma praga, me causando uma crise de tosse, eu podia ouvir as pessoas batendo em retirada e os carros saindo cantando pneus, mas não podia ver nada.
Para alguns a fuga daqueles malditos podia significar uma vitória, mas pra mim era uma tragédia, isso significava retaliação para todas as comunidades envolvidas. Eu precisava achar Petter e Luka, e precisava fazer isso rápido.
Quando a fumaça se dissipou, tive tempo de ver um dos caminhões indo embora, Negan estava nele, com a mão pra fora e o dedo do meio erguido, nossos olhos se encontraram no retrovisor e ele sorriu, me mandando um beijo de despedida.
Algum dos cretinos tinha conseguido fechar o portão e isso era tudo. Alexandria tinha ganho uma batalha, mas tinha pagado um preço alto, havia cadáveres nas ruas. A união das comunidades não me causava qualquer comoção.
O olhar de orgulho deles só me fazia pensar em como eram estúpidos, o pior ainda estava por vir, e viria rápido, brutal e impetuoso.
Percebi o tal Ezekiel ao longe, falando com os seus e me aproximei, meu coração aos saltos e minhas pernas mal obedecendo meus comandos. Cada parte do meu corpo doía.
— O que você fez com as crianças? — Perguntei sem rodeios e todos ali me encararam confusos.
— Desculpe, o que? — O homem com dreads, que eu tinha certeza ser Ezekiel deu um passo para frente.
— As crianças da sua comunidade? Você as trouxe? — Tornei a questionar, tentando não denunciar minha preocupação no meu tom de voz.
— Claro que não, senhorita, nossas crianças estão seguras no Reino, assim como cada habitante que não sabe ou não pode lutar. Eu trouxe apenas meus homens mais preparados. Que tipo que rei acha que eu sou? — O homem respondeu cheio de pomba, exatamente como um rei faria, mas eu estava tão desnorteada pela situação que nem dei bola pra isso.
— O tipo que deixa a comunidade vulnerável a ataques de retaliação. — Falei, quase pra mim mesma, enquanto me afastava.
Meus filhos estavam sozinhos em uma comunidade desprotegida e um Negan muito irritado estava lá fora. Eu tinha que sair de Alexandria naquele instante, antes que fosse tarde demais.
Eu mal vi quem estava na minha frente, apenas fui passando pelas pessoas rumo ao portão. Minha perna doía a cada passo, mas eu nem prestava atenção nisso, sentia que se não encontrasse meus filhos naquele instante algo terrível aconteceria. O sentimento era tão devastador que me causava dores físicas no peito.
— Hey, Hey. — Daryl entrou no meu campo de visão, vi que ele estava fazendo um sinal para Maggie, que nos olhava desconfiada. — Acabou. Ele não pode mais... te machucar.
Olhei nos olhos de Daryl por um segundo e ele era um caos, eu nunca imaginei que veria tantos sentimentos escondidos ali dentro: raiva, preocupação, culpa, vergonha, desespero e outras coisas que eu não conseguia decifrar. Me perguntei se aqueles eram os sentimentos dele, ou apenas os meus refletidos em seus olhos.
Daryl tinha uma postura um tanto constrangida na minha frente. Ele até ergueu a mão para me tocar, mas não fez isso.
— Você não entende, não é? Não acabou, Daryl, está só começando. — Devolvi mórbida, tentando passar por ele. — Eu preciso sair daqui.
— Você está em choque. — Ele me segurou, sua mão em meu rosto, era confortável, mas ao mesmo tempo era desesperador. — Eu não vou deixar ele tocar em você de novo, eu posso proteger você.
Eu só queria que ele me abraçasse, queria que o mundo parasse e tudo ficasse bem, mas aquilo era uma ilusão. Daryl não podia me proteger, ninguém podia.
Tinha cometido um erro quando agi por impulso e fiquei em Alexandria por ele, e eu não podia cometer esse erro novamente.
Meus filhos precisavam de mim.
— Eu não preciso de proteção. — Tirei as mãos dele de mim e me afastei alguns passos. — Eles precisam de mim...
Mal notei que as palavras tinham saído da minha boca, quando tentei passar por Daryl.
— Quem? Do que você está falando? — Ele segurou meu braço, me impedindo de andar.
— Eu preciso ir... — Tentei me soltar novamente. — Me deixa ir!
O aumento do meu tom de voz e meu desespero acabaram atraindo a atenção de quem estava ao redor.
Foi nesse momento que vi Rick chegando, Michonne era amparada por ele e Carl, estava consciente, mas bastante ferida, como se tivesse levado uma surra.
— Você disse que eu podia ir quando acabasse. Acabou. Me deixa ir embora. — Falei, andando até eles e sendo incapaz de conter o desespero nas minhas palavras.
— Você está ferida, confusa, talvez em choque. Respira e se acalme. — Ele colocou a mão livre no meu ombro, depois de fazer um sinal para os outros dizendo que estava tudo bem. — Eu sei que foi muito, mas...
— Eu não preciso me acalmar! Eu preciso sair daqui! — Me desvencilhei dele com certa violência, para então deixar toda a minha pose de lado. Eu não aguentava mais aquilo. — Por favor. Eu imploro...
Rick manteve os olhos em mim por três segundos, como se me analisasse, não era frio, ele se importava. Virou para Maggie, que ainda estava por ali, como a maior parte dos outros, e então me encarou novamente, seguindo para Daryl em seguida:
— Deixe-a ir, Daryl.
— Obrigada. — Agradeci em um sussurro, virando as costas sem pensar duas vezes.
Segui para o portão o mais rápido que eu podia, considerando minha perna toda ferrada. Mas Daryl ainda não tinha feito menção de abri-lo.
Tive que parar um tanto impaciente. Ele estava parado entre mim e a saída. Não parecia feliz. Daryl não abriria aquele maldito portão e eu soube disso.
Me lembrei da última vez em que tínhamos nos visto. Eu não queria que ele fosse, por isso deixei a decisão nas mãos dele, e Daryl estava fazendo a mesma coisa naquele momento.
Não pensei duas vezes, passei por ele e abri o portão eu mesma. Assim que a rua vazia se abriu a minha frente eu suspirei. Não era sobre eles, nenhum deles, era sobre os meus filhos. Sobre a família que Daryl nunca quis ter comigo. Ele não tinha direito de escolha ali.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Coloquei o pé pra fora, e uma movimentação em uma casa bem na frente da comunidade chamou minha atenção.
Eu nem sei dizer o que aconteceu primeiro. Não sei se foram meus olhos, minha mente ou meus ouvidos que reconheceram sua voz.
— Mamãe!! — Eu mal acreditei que era real quando vi Petter pular a janela da casa e correr como um raio na minha direção. Percebi que Luka tentou detê-lo, mas acabou saindo com ele também.
Mal consegui dar dois passos, antes das minhas pernas falharem, e meus joelhos batessem no chão. Petter se jogou nos meus braços em seguida e eu não sabia mais se estava chorando de felicidade ou de alivio.
O apertei contra mim desesperadamente, enquanto ele se pendurava no meu corpo, entrelaçando os braços no meu pescoço e escondendo o rosto no meu ombro pra chorar.
Me levantei com ele no colo e estendi a outra mão para Luka, que se aproximou meio incerta.
— Eu não.. Eu só... — Ela tentou explicar algo que não fazia a menor diferença naquele momento. Eu apenas a abracei e a trouxe pra perto, beijando sua testa e acariciando seu rosto, dissipando as lágrimas nele.
— Tudo bem. Tudo bem. Estamos juntos agora. Acabou. — Eu apertei meus dois filhos contra o corpo, prometendo pra mim mesma que nada nos separaria outra vez.
Nada mais importava. Eu simplesmente tinha que tirar minha família daquela zona de guerra.
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