Notas iniciais
Oiee!!! Cheguei nesse comecinho de noite com capitulo novinho de Sofreline kkkkkk Tenho que agradecer imensamente pelos comentários de vocês, afinal eu nem sei se essa fic estaria aqui agora se não fosse todo o apoio que vocês me dão! Esse capitulo é narrado pelo Daryl e eu considero um momento meio divisor de águas no desenvolvimento dele em Lifeline, bom, não vou falar muito kkkkk vocês vão ver... Boa leitura!

• DARYL DIXON •

Era para ser o plano perfeito, Rick tinha planejado tudo, Dwight dera as informações... Mas as coisas começaram a dar errado quando chegamos no posto avançado e as armas pesadas não estavam lá.

Tivemos as primeiras baixas. Eu devia saber, não é? Era uma guerra afinal, pessoas morriam em uma guerra, mas era como se ninguém tivesse pensado nessa parte. Entraríamos em combate e apenas os Salvadores morreriam, que ilusão...

Se eu não estivesse tão cego de ódio, matando tudo na minha frente, talvez eu tivesse pensado nisso. Mas eu não pensei. Eu não pensei em nada, a não ser em vingança. Tínhamos que vencer, não importava o que isso custasse.

Mas apenas quando eu vi Aaron chorando a perda de Eric é que eu realmente encarei o quanto tudo aquilo podia custar. A realidade me atingiu em cheio e eu soube que jamais deveria ter deixado Natalie sozinha, não importava se ela estava com o Reino, com Hilltop ou quem quer que fosse, eu devia estar com ela.

No entanto, tínhamos que prosseguir, seguiríamos o plano de Rick, indo até o lixão para que ele recrutasse o grupo de Jadis outra vez. Pensar nas coisas com mais clareza me fazia ver que era um plano estúpido... porém, era tarde pra voltar atrás.

Me acalmava saber que Natalie e o Reino tinham ficado com o posto avançado menor, era pra ser algo fácil, então ela já podia estar em segurança na comunidade de Ezekiel.

Mas como eu disse, as coisas deram errado...

Eu e Rick estávamos na estrada, quando interceptamos um jipe vindo do posto avançado que o Reino tinha atacado, à primeira vista, uma dupla fugitiva não pareceu tão ruim, porém, quando eles abriram a carroceria, quase não fui capaz de escapar dos tiros de metralhadora.

Eles estavam com as armas pesadas e isso não era bom.

Tive que afastar o temor que tomou todo o meu corpo e focar em acabar com os cretinos.

Rick e eu demos conta. O jipe acabou no barranco e o último salvador restante estava se arrastando na pista.

Deixei a moto em qualquer lugar e me certifiquei que Rick estava bem, então segui para o homem na estrada.

Ele não duraria muito, tinha um ferimento na barriga que o mataria em minutos.

Minhas mãos tremiam enquanto eu o segurava pela gola da camisa e exigia respostas sobre o restante do grupo. Eu queria saber quem tinha ganhado.

Foi quando ele disse algo que eu não estava preparado para ouvir:

— Ninguém ganhou. Estão todos mortos... Meu pessoal, seu pessoal...

— Mentira! — Rosnei em resposta, mas logo percebi que aquele homem não tinha motivos para mentir, ele já estava praticamente morto...

— Não sobrou ninguém? — Rick soou tenso, sua voz tremeu três tons, ao passo que eu tentei me agarrar a qualquer pontinha de esperança que ainda existisse.

— O rei, o cara do machado, e a mulher maluca de cabelo curto e grisalho, isso se eles sobreviverem aos errantes. — O homem respondeu já cuspindo sangue.

Por mais que saber que Carol estava viva fosse um alivio, não era com ela que eu estava preocupado.

— A mulher de cabelo castanho curto, ela era uma Salvadora, você deve saber quem é, você viu? — Exigi, sacudindo o corpo quase sem vida.

— Mortos, todos mortos. Vocês fizeram isso... — Foram as últimas palavras do homem.

Uma frase tem o poder de mudar toda uma vida. Uma simples frase, esse é o necessário para fazer alguém repensar tudo...

Eu nunca pensei no impacto que uma dúzia de palavras teria sobre mim, mas ali estava eu: a gola do Salvador morto ainda está nos meus punhos.

Apenas uma frase e toda a minha vida virou de ponta cabeça.

Mortos... Todos eles estão mortos.

— Daryl? — Rick tocou meu ombro. — Isso pode ser só uma mal-entendido. Pode ser só...

— Eu sei... — Me desvencilhei dele e ergui a cabeça — Não é verdade.

Não pode ser verdade... Tentei convencer minha mente, mas meu coração estava batendo tão rápido que meus pulmões não captavam ar o bastante.

Me esforcei para caminhar até o jipe que tinha saído da estrada e estava capotado no mato, mesmo que cada passo fosse um sacrifício, já que minhas pernas tremiam.

E se fosse verdade? Meus próprios pensamentos começaram a me sabotar. Dezenas de imagens de um futuro próximo se passaram na minha mente. O que eu faria se fosse verdade?

Eu achei que haveria tempo para consertar as coisas, achei que eu poderia pensar depois da guerra...

Senti que estava entrando em pânico, incapaz de raciocinar com clareza, tive que me escorar no jipe tentando recobrar o controle sobre me próprio corpo e minha própria mente, mas era inútil.

Se Natalie estivesse morta eu não... mesmo na minha mente eu não consegui terminar aquela frase, um nó se formou na minha garganta e foi inevitável impedir que as lembranças de minha última noite com Natalie voltassem:

"Quando voltarmos, eu vou te dizer uma coisa, algo que eu já devia ter dito faz um tempo." Eu fui covarde e não disse que a amava, eu nunca dizia... Eu tive todas as oportunidades e não disse.

Ela estava lá, nos meus braços, era como um sonho se tornando realidade e eu não disse mesmo assim. Eu podia ter sido honesto, mas tive medo, me enganei dizendo que seria mais fácil quando estivéssemos em paz...

"A gente devia pegar as crianças e o Bolt e voltar pra pedreira, nada mais de Salvadores, nada mais de guerra, nada mais de Negan. Apenas nós e aquela pedreira, como devia ser desde o começo. Foge comigo, Daryl..."

Natalie me ofereceu meu maior sonho de bandeja e eu disse não... Como eu podia ser tão estúpido? Tudo que eu quis durante dez anos foi voltar para aquela pedreira, para aquele treze de julho... Mas eu joguei isso fora quando tive a chance.

Era minha culpa. Eu disse "não" pra ela. Coloquei uma maldita guerra na frente da mulher que eu amava e ela podia estar... morta.

Eu sabia que tinha uma dívida de lealdade com Maggie, Rick e o restante do grupo. Eu sabia que o certo ela lutar ao lado deles, mas eu nunca imaginei que teria que pagar um preço tão alto por isso.

E naquele momento, enquanto eu sentia meu coração rasgar meu peito, eu entendi o que Maggie tinha sentido naquele dia...

Era culpa dele. Era tudo culpa do Negan. Ele tinha que pagar!

— Daryl? Você está bem? Olha, nós podemos... — Não permiti que Rick terminasse, olhei para as munições e explosivos no jipe e tive uma ideia.

— Eu estou bem! — Limpei o rosto rapidamente, e só então percebi que estava chorando. — Me ajuda aqui com isso.

Rick não entendeu minha postura, mesmo assim começou a me ajudar a tirar as coisas do jipe.

— Tem o suficiente aqui pra acabar com isso. — Declarei, assim que abri a caixa dos explosivos e conferi a quantidade de dinamites.

— Do que você está falando, Daryl? — Rick franziu as sobrancelhas.

Então eu contei todo o plano que tinha se formado na minha mente naquele curto minuto: Podíamos usar as dinamites para explodir o Santuário. Deixar os errantes entrarem em tudo, colocar o lugar abaixo. Seria o fim daqueles cretinos de uma vez por todas.

Rick argumentou que havia pessoas inocentes lá, trabalhadores que só estavam tentando sobreviver. Ele reforçou que o plano dele daria certo, só precisávamos de mais tempo.

Mas eu estava cansado de esperar, o plano não estava dando certo, tínhamos perdido o Reino, eu tinha perdido a Natalie, nada estava certo. Eu queria aquele lugar no chão, apenas cinzas e pó.

Argumentei que podíamos explodir apenas um dos lados, os trabalhadores moravam do outro lado, eles ficariam bem, dariam um jeito, mas naquele ponto eu nem sei se me importava mais com os malditos trabalhadores... Que todos morressem juntos, eu não dava a mínima! Aquela maldita guerra tinha que acabar. Negan tinha que pagar!

— Nós não vamos fazer isso. Vamos continuar seguindo o plano. — Rick usou aquele tom de xerife mandão, que ele costumava usar quando chegou na pedreira.

— Não. Você não vai fazer isso. Mas eu vou. — Peguei a bolsa de dinamites no chão e virei as costas sem esperar resposta.

— Você não está pensando direito, Daryl. Está muito abalado. — Rick segurou meu ombro para que eu parasse de caminhar. — Natalie não gostaria que você fizesse isso, ela gostaria que você...

Foi automático, uma resposta quase instintiva do meu corpo, quando eu me dei conta já tinha socado o xerife no rosto.

— Você não sabe nada sobre o que a Natalie ia querer ou não. Você não sabe nada sobre ela! — Praticamente cuspi, enquanto ele ainda cambaleava para trás.

Ajeitei a mochila nas costas e dei meia volta, mas Rick pulou em cima de mim e de repente nossa briga era física, ou quase isso, já que ele só queria me segurar e eu queria dar o fora, mesmo que isso significasse ter que imobilizar a pessoa mais próxima de um irmão que eu tinha ali.

Não era como se eu e o Merle nunca tivéssemos saído no soco... Coisas como aquela aconteciam o tempo todo pra ser honesto, a diferença é que Merle sempre levava a melhor.

Eu tinha Rick preso em uma chave de braço, quando ele começou a dar alguns tapas rápidos em mim, como se quisesse me alertar de algo.

— Daryl... — Apontou atrás de nós e eu percebi que no meio da briga, tínhamos jogado a mochila perto do carro e a coisa toda estava prestes a explodir.

Soltei Rick e o ajudei a levantar, enquanto nos ajudávamos mutuamente a sair de perto da explosão.

Foi coisa de um segundo, se não tivéssemos sido rápidos o bastante teríamos virado churrasquinho.

Aquela briga estúpida e infantil tinha nos custado todas as munições e armas de calibre pesado, ou seja, meu plano tinha ido por água a baixo, ou melhor, tinha explodido no jipe.

Me arrastei até o declive que tinha ali e me sentei, me sentindo um idiota e vendo o fogo queimar tudo...

— Chave de braço é ilegal, sabia? — Rick tentou brincar, e eu entendi a referência ao nosso primeiro encontro, mas não estava no clima. — Está melhor agora?

Ele entendia meu descontrole momentâneo e eu queria ter dito que estava tudo bem, que o ódio dentro de mim tinha ido embora e que eu tinha tudo sobre controle, mas não consegui responder, apenas continuei encarando as chamas.

O que eu faria sem a Natalie? Como eu criaria um filho sem ela?

— Olha... — Rick pousou a mão no meu ombro e tentou me passar algum conforto. — Talvez ela esteja bem, talvez tenha voltado para casa com a Luka, é isso que ela faria, não é? Pelo Petter.

Assenti bem devagar, talvez Rick estivesse certo, Natalie tinha prometido... Eu sabia que ninguém podia prometer não morrer, mas me agarrei aquela esperança como se fosse minha última salvação, porque talvez fosse mesmo minha última salvação...

Eu tinha que acreditar que Natalie faria de tudo para proteger a Luka e voltar para o Petter, ela faria qualquer coisa pelos filhos, e eu esperava que ficar viva, mesmo contra todas as probabilidades, estivesse incluído nesse "qualquer coisa".

Era isso, talvez as duas já estivessem em casa com Petter naquele momento...

— Depois que convencermos a Jadis nós voltamos juntos e... — Rick ainda estava falando quando eu o interrompi:

— Eu não vou com você. — Deixei claro. — Não posso. Eu preciso voltar pra casa.

Ficar com aquela dúvida mais algumas horas me mataria por dentro, eu precisava ter certeza, eu precisava ver Natalie bem e abraçá-la apertado pra me certificar que era real.

— Eu entendo... — Rick assentiu com um sorriso compassivo.

Nos despedimos ali, Rick seguiria com o plano e eu voltaria para casa, nos encontraríamos em breve para confrontar o santuário. Ele continuava otimista, mas eu não sabia mais o que pensar.

Voltei para Alexandria o mais rápido que pude, o coração batendo apertado e um frio incômodo no estômago. Eu nunca fui um cara de rezar, eu nem sabia muito bem como fazer isso, mas naquele momento eu rezei para chegar em casa e encontrar Natalie e as crianças a salvo.

Assim que avistei os portões da comunidade eu não soube se ficava aliviado ou ainda mais apreensivo.

Toby estava nos muros, ele era um dos poucos moradores hábeis a lutar que tinha ficado em Alexandria, apenas para garantir. Ele abriu o portão sem demora, e eu praticamente joguei a moto no chão.

— Natalie já chegou? — Questionei urgente e ele estreitou as sobrancelhas, estranhando minha postura, mas não demorou a responder:

— Ah, eu não estou aqui há muito tempo, peguei o turno faz uns minutos, então não tenho certeza.

Assenti rapidamente e quase o deixei falando sozinho, enquanto corria pelas ruas de Alexandria em direção a casa de Natalie.

Sequer bati na porta, sei que devia, mas eu tinha que saber de uma vez e pronto.

— Natalie? — Chamei ao me deparar com a sala vazia. Ninguém respondeu. — Luka? Petter?

Ninguém estava lá, nem mesmo o cachorro, o que era estranho, porque assobiei para chamar por ele e não houve qualquer sinal em lugar algum.

Subi nos quartos, passando pelo de Petter, Luka e finalmente abrindo a porta do quarto de Natalie. Foi como se as lembranças da nossa noite juntos tivessem socado minha cara.

Olhei ao redor e não vi ninguém, mas em cima da cômoda eu percebi um objeto que chamou minha atenção, era o pendrive que eu tinha encontrado dentro do diário. Eu provavelmente tinha esquecido ali naquela noite.

Peguei o objeto e o coloquei no bolso da calça, sentindo todo o peso que ele carregava. Talvez as coisas fossem diferentes se eu não tivesse ido embora feito um cretino.

Tentei não entrar em desespero. Mas minhas mãos tremiam e eu não conseguia respirar. De certa forma eu fiquei até feliz em não ter dado de cara com Petter, eu nem saberia o que dizer pra ele...

Resolvi que o melhor lugar para procurar alguém que tinha voltado de uma batalha era na enfermaria, e foi para lá que eu segui, mesmo que controlar minhas pernas estivesse se tornando um trabalho difícil. Tudo parecia rodar mais rápido do que minha mente podia processar.

Assim que avistei a enfermaria, percebi que Michonne e Rosita estavam do lado de fora.

— Você já está de volta? — Michonne ficou surpresa ao me ver ali. —Eu pensei que...

— Diga que viu a Natalie! — Exigi de modo urgente, sem me importar em interromper.

— Ninguém voltou ainda. — Rosita declarou e sua voz era um misto de preocupação e desconfiança.

— O que está acontecendo, Daryl? — Michonne questionou, sua postura inteira denunciando apreensão.

Dei um suspiro pesado e neguei algumas vezes.

— Algo aconteceu com o pessoal do Reino, Ezekiel, Carol e Jerry devem estar bem, mas os outros... Eu não sei pra ser honesto. Também perdemos o Erick e algumas outras pessoas do nosso grupo, o resto seguiu para Hilltop. — Expliquei por cima, sem querer ou conseguir entrar em detalhes.

Michonne e Rosita trocaram um olhar pesaroso e seus ombros caíram, a decepção era evidente em seus semblantes.

— Espera. Natalie e Luka estavam com o Reino. — Michonne chegou a conclusão óbvia.

Eu não soube o que dizer, sequer consegui confirmar, porque senti que se fizesse isso eu desabaria ali mesmo.

Tentei encontrar uma saída, um fio de esperança, mas a minha mente era como um emaranhado de emoções e temores e eu não conseguia raciocinar com clareza.

— Talvez elas tenham voltado para o Reino com a Carol e os outros. Parece mais óbvio seguir para um lugar seguro primeiro, do que voltar direto. — Rosita tentou me acalmar e eu finalmente enxerguei a luz no fim do túnel.

Esse era o plano afinal, elas seguiriam com Ezekiel e só depois voltariam para Alexandria.

— Você está certa. — Assenti, como se já tivesse pensado em tudo aquilo. — Eu vou pegar minhas coisas e vou pra lá também...

Elas não tentaram me deter, apenas concordaram. Antes de ir, achei melhor me certificar que Petter estava bem e que nada seria dito para ele, não havia necessidade de preocupar o garoto, a mãe e a irmã dele estavam bem. Tinham que estar.

— Vocês viram o Petter? — Perguntei neutro.

— Ele estava procurando pelo Carl faz mais ou menos meia hora, devem estar juntos em algum lugar... — Michonne deu de ombros. — Quer que eu te ajude a procurar?

— Não. Eu já estou indo, é melhor não falarem nada pra ele por enquanto. Eu vou trazer a mãe e a irmã dele pra casa primeiro. — Declarei decidido e as duas mulheres apenas assentiram, mas não sei se botaram muita fé no que eu falei.

Mal vi a estrada na minha frente conforme pilotava para o Reino, era como se a cada segundo as coisas ficassem pior e mais desesperadoras.

Minha mente montava os piores cenários, mesmo que eu tentasse me agarrar a qualquer fragmento de esperança ainda existente.

O Reino nunca tinha parecido tão distante quanto naquele momento, mesmo que aquele trajeto nunca tenha sido feito tão rápido.

Quando cheguei aos limites da comunidade uma pessoa que eu não conhecia bem abriu o portão.

Me assustei com o que eu vi, o lugar estava vazio, umas poucas mulheres eram vistas aqui e ali, todas com um semblante assustado e pesaroso. Vi um garoto chorando em um canto e por algum motivo aquela imagem grudou na minha mente.

— Daryl? — Carol veio caminhando na minha direção, estava abatida e parecia preocupada. O que você...?

— Onde elas estão? — Segurei os ombros dela, antes mesmo que Carol terminasse a frase. — Onde estão Natalie e Luka?

Senti sua postura desmoronar sob minhas palmas.

— Eles sabiam que estávamos indo... Natalie quis voltar, mas... — Ela negou algumas vezes, parecia amargurada e arrependida. — A gente achou que podia vencer e, na verdade, vencemos por um tempo, mas então teve tantos tiros e... Todo mundo estava morto.

Carol piscou, para segurar as lágrimas e eu senti um desespero tão grande se apossar de mim que me senti caindo de um penhasco querendo a todo custo me agarrar a qualquer coisa no caminho.

— Carol... Onde está a Natalie? — Não era uma pergunta, era uma suplica, eu precisava que ela me desse uma boa notícia.

— Ela entrou em um dos prédios com a Luka. E... o prédio explodiu. Havia fogo e errantes e... — Carol abaixou a cabeça e negou algumas vezes. — Não tinha como... Sinto muito, Daryl.

Silêncio. Todos os meus músculos paralisaram, por uma infinidade de segundos não havia nada. Apenas dor. Cada pequena parte minha era dor. Eu queria gritar, chorar, eu queria correr e voltar no tempo...

Eu quis morrer também, mas eu não podia mais me dar a esse luxo, eu tinha alguém dependendo de mim. E eu não sabia o que fazer...

Nunca tinha me sentido tão fraco, impotente e inútil como naquele momento.

— Daryl, eu... — Carol tentou me consolar, mas eu desviei do toque dela mais rápido do que percebi.

— Eu preciso sair daqui. — Retruquei letárgico.

— Daryl, espera, você não pode sair assim. — Ela tentou me segurar. — Você precisa se acalmar.

— Eu preciso me acalmar? Me acalmar?! — Perdi o controle e já nem sabia se chorava, se gritava ou se era tudo dentro de mim e por fora eu era apenas uma carcaça apática. — O que eu preciso é descobrir como vou contar para um garoto de dez anos que a mãe e a irmã dele estão mortas e que eu, um cara que ele mal conhece, sou a única família que sobrou.

Carol não respondeu, ou talvez eu é que não tenha esperado resposta, apenas caminhei de volta para a moto e dei a partida, nem sei se ela tentou me impedir ou algo assim.

Não importava.

Era como se tudo fosse um grande borrão, como se minha mente fosse apenas um lugar assombrado por um garoto chorando, mas não o garoto do Reino, era o Petter que chorava.

Senti que podia vomitar a qualquer momento e tentei forçar o ar para dentro dos meus pulmões, mas era como se houvesse vidro nas minhas vias respiratórias. Foi mais ou menos nesse momento que a moto começou a falhar.

Claro. Era uma hora perfeita pra acabar a gasolina. Chutei aquela porcaria velha tantas vezes, que cheguei a duvidar que ela funcionaria outra vez, mesmo que eu achasse combustível.

Olhei ao redor e reconheci o lugar, eu estava perto do trailer para o qual Richard tinha me levado quando estive no Reino pela primeira vez. O lugar era um tipo de depósito secreto dele ou algo assim, talvez houvesse algum combustível lá.

Era como se meu corpo pesasse o triplo, mesmo assim me obriguei a caminhar até lá.

Honestamente eu nem sabia o que estava fazendo direito, ou o que eu devia fazer depois, tudo perdeu um pouco a noção ao meu redor.

Contudo eu achei o trailer, era uma grande bagunça de acúmulo de suprimentos e poeira. Fiquei parado ali no meio sem saber bem o que tinha ido procurar por vários segundos.

Era apenas eu, o silêncio e um peso enorme no meu coração. Passei a mão pelo rosto e simplesmente deixei tudo vir, toda aquela dor... Eu coloquei pra fora, não me importei de chorar, já que ninguém estava vendo.

Mas aos poucos aquela tristeza foi se tornando raiva, era um ódio puro de tudo que me cerca; ódio daquele inferno que o mundo tinha se tornado; ódio de toda aquela situação; ódio de Negan e principalmente ódio de mim mesmo. Era tudo minha culpa afinal, não era?

Comecei a quebrar tudo que tinha por ali, em um ataque de raiva que chegava a fazer meus músculos doerem. Mas cada coisa que eu jogava no chão, chutava ou destruía não amenizava em nada aquele sentimento de derrota e culpa.

Natalie estava morta. Luka estava morta... Eu não sabia como lidar com aquilo, não sabia como contaria para Petter, as pessoas que ele mais amava estavam mortas e eu não tinha feito absolutamente nada para evitar aquilo...

Que tipo de troca maldita era aquela? Não era justo com aquele garotinho de dez anos.

Respirei fundo e olhei ao redor, tudo estava bagunçado e destruído, e só então me dei conta que precisava partir e voltar para casa.

Procurei por um galão de gasolina ou qualquer coisa assim, e o encontrei, em um canto, ao lado de algo que chamou um pouco mais minha atenção...

Era um daqueles computadores de gente rica, um notebook, eu acho, havia um tipo de ligação entre ele e uma bateria de carro e supus que Richard tinha achado um jeito de carregar a coisa.

Me lembrei do pendrive no meu bolso. Eu tinha combinado de ver aquilo com a Natalie...

Desejei que houvesse algo ali que me dissesse o que fazer a seguir, ou talvez eu só precisasse me sentir próximo dela, por isso resolvi ver o que tinha lá dentro.

Peguei o aparelho de Richard e demorei alguns minutos para ligar a coisa, percebi logo que a bateria de carro não estava carregando mais o aparelho tão bem assim, porque havia um aviso de pouca bateria na tela. Reconheci Richard, ele estava na foto de fundo, com uma mulher e uma garotinha.

De alguma forma eu o entendi muito bem naquele curto minuto.

Esse negócio de tecnologia nunca foi pra mim, então apenas conectei o pendrive e torci para que a coisa toda fosse automática.

Uma janela diferente foi aberta e eu pude ver vários arquivos ali, alguns me pareciam fotos, dezenas e dezenas de fotos do Petter nas mais diversas situações, como se fosse uma linha cronológica da vida dele. Mas haviam outros arquivos que eu não sabia bem o que eram, por isso cliquei sobre um deles.

Uma segunda janela foi aberta e um vídeo começou a rodar.

— Então diz pra mim, vocês estão empolgados? — Reconheci a voz de Natalie de imediato, e meu coração deu um salto no meu peito.

Ela não aparecia no vídeo, que parecia ter sido gravado em um parque de diversões enorme. Na frente da câmera havia uma criança que eu logo reconheci...

Petter estava muito menor, usava um boné preto com orelhas do Mickey Mouse e acenou freneticamente para a câmera. Ele parecia incrivelmente feliz, e eu sorri também, como se o mundo ao redor tivesse deixado de existir.

A câmera mudou de ângulo e eu quase não reconheci Luka, ela era apenas uma menina magra demais, com um semblante sofrido, mesmo que houvesse um sorriso tímido em seu rosto.

— Ah vamos lá, vocês podem fazer melhor que isso, é a Disney, gente! — Natalie incentivou, e eu desejei mais que nunca ver o rosto dela. Vocês estão empolgados?

— Sim, mamãezinha! — Petter gritou a plenos pulmões e Luka riu alto.

— Melhorou! — Eu podia ouvir a felicidade na voz de Natalie.

Lembrei que Petter tinha dito que eles haviam viajado para a Disney, um mês depois que Luka foi morar com eles. Presumi que aquele era um vídeo da viagem.

O aparelho apitou a falta de bateria e eu fechei a janela do vídeo, mesmo que eu quisesse ver mais.

Voltando para os arquivos, percebi que todos eles tinham nomes, aquele realmente se chamava "Viagem para a Disney", também tinha uma data, ou outros eram "aniversário 2006", tinha um que era "apresentação de escola 2007", haviam dezenas, com todo tipo de título que remetia a datas importantes.

Não soube se ficava triste ou feliz por Natalie ter gravado tudo aquilo e deixado para mim. Mas naquele momento eu só queria continuar ali mais um pouco, como se isso fosse impedir a realidade de seguir seu curso, como se fosse mudar as coisas...

Mas eu sabia que não podia ficar, e estava prestes a fechar tudo, quando um dos títulos chamou minha atenção: "Baby Dix".

Meu coração deu um salto e bateu fora do ritmo, meu estômago congelou e eu não sabia se devia ou não clicar sobre o arquivo de vídeo.

Um novo aviso de bateria fraca, me fez agir no impulso e eu observei enquanto a nova janela se abria e Natalie aparecia na tela.

Ela estava linda, tinha uma expressão leve e um olhar brilhante, mesmo que parecesse meio incerta antes de começar a falar.

— Oi. — Ela acenou com uma das mãos, enquanto parecia gravar o vídeo com a outra. — Então... Se você está vendo isso, é claro que a gente... Encontrou um jeito de ajeitar as coisas. Eu não sei quando vai ser, mas eu... Bom... Eu costumo escrever diários sobre o Petter pra você, porém, quando ele fez o primeiro aniversário, percebi que ler as coisas talvez fosse menos do que você merece, então eu comecei a gravar vídeos.

Ela parou por uns segundos, e eu notei que estava em uma varanda com uma bela vista no fundo, as luzes noturnas da cidade faziam tudo parecer uma outra vida, dada a realidade escura que tinha dominado o mundo nos últimos anos.

— Já faz sete anos agora, então eu tenho vários deles. — Natalie deu de ombros e sorriu de canto, como se aquilo fosse algum tipo de tolice. — Mas esse ano foi diferente... Temos um novo membro na família, Petter ganhou uma irmã.

Natalie deu alguns passos para trás e percebi que ela tinha entrado em um quarto. Virou a tela e mostrou as duas crianças dormindo abraçadas, enroladas em cobertas felpudas. Por toda parte do quarto tinha aquele tipo de bagunça de viagem, sacolas, embrulhos e orelhas do Mickey.

Presumi que o vídeo tinha sido gravado durante a viagem para a Disney.

— Ela se chama Lucena. — Natalie voltou a tela para si mesma e caminhou de volta para a varanda. — Espero um dia poder contar pra você como eu a trouxe pra casa... Ela já passou por muita coisa, sabe? Mas é uma garota especial. Ela me lembra você às vezes e o Petter me lembra você o tempo todo...

Abaixou a cabeça e sorriu. Ela amava falar dos filhos, era algo que contagiava de certa forma e só quando eu sorri junto me dei conta que estava chorando de novo.

— Mas então, continuando. — Natalie fez um movimento displicente com a mão. — Esse ano eu resolvi que devíamos vir pra Disney... Faz um mês que a Luka está com a gente, logo vai ser aniversário do Petter, achei que era uma boa data pra isso.

Parou para olhar para as crianças de novo, e pareceu se perder naquele momento, mas eu não me importei, eu poderia ficar ali olhando aquela imagem para o resto da vida e nunca me cansar disso.

— Eu queria que você tivesse visto o sorriso no rosto dele quando eu dei a notícia. — Ela continuou, mas não voltou a olhar para a câmera de imediato. — Petter ficou radiante de fazer uma viagem com a irmã... Ele é o tipo de garotinho que ama ter uma família, ele teria vários irmãos se pudesse...

Natalie piscou algumas vezes e percebi seus olhos marejados, mas ela apenas meneou a cabeça e voltou a olhar para a câmera enquanto abria um sorriso, como se quisesse disfarçar aquele momento.

— Espero que um dia eles sejam tão unidos quanto você e o Merle. — O sorriso se intensificou, aquela ainda era a mesma Natalie de Dawsonville, que tinha um carinho fora do normal pelo idiota do meu irmão, quando mais ninguém tinha. — Falando em Merle: acho que ele amaria ter um sobrinho pra estragar, não é? Seria uma coisa engraçada ver ele e minha mãe competindo pra ver quem estraga mais o Petter.

Seria mesmo uma coisa engraçada de ver, sorri pra mim mesmo, vendo Natalie caminhar pela varanda e se debruçar no parapeito, enquanto ainda segura a câmera.

— Eu não costumo pensar nessas coisas, ou em você... Mas esse lugar ele é.. é magico. É como a pedreira. Você lembra? — Os olhos negros se perderam em algum ponto, enquanto ela ainda falava.

Eu nunca tinha esquecido da pedreira, nem por um segundo, eu costumava viajar até lá várias vezes, apenas para olhar a água e dormir na caminhonete olhando as estrelas, como se isso de alguma forma fosse me manter mais perto de Natalie.

— Eles estão tão animados e felizes, os dois, apesar de tudo. — Ela prosseguiu falando, e eu voltei minha atenção para o vídeo novamente. — É como se todos os problemas tivessem ficado lá fora, como se aqui não existisse dor. Então eu pensei em você... Porque você merece toda essa felicidade na sua vida, mas do que qualquer um.

Naquele momento foi ainda mais doloroso ouvir aquilo, ver tudo que eu nunca poderia ter, não só porque o mundo tinha acabado, mas porque eu não aproveitei cada oportunidade, e então era tarde demais....

Se eu tivesse só mais uma chance, eu faria diferente.

— E eu pensei que talvez fosse egoísmo da minha parte deixar que uma promessa estúpida te afastasse disso, então, enquanto os fogos queimavam essa noite, eu peguei esse telefone que está na minha mão agora e liguei pro bar do Joe. — Ela sacudiu o aparelho com o qual fazia a filmagem e então riu sem graça. — Eu sei, parece estúpido que eu ainda tenha o telefone dele na minha agenda... Suponho que eu seja como uma daquelas ex-fumantes que sempre anda com um único cigarro na bolsa.

Negou algumas vezes e soltou uma risadinha sem humor, encarando o nada por alguns instantes antes de continuar:

— Enfim, eu liguei para o Joe, e olha só que engraçado, o telefone nem existe mais, foi desativado. Talvez seja um sinal ou sei lá...

Saber que Natalie tinha tentado entrar em contato foi como um tapa na cara, ela sempre tinha sido muito mais corajosa que eu, eu nunca tentei ligar, o máximo que eu fazia era dirigir até o limite do estado, mas nunca fui capaz de deixar a Georgia.

Era triste que eu tivesse demorado dez anos para perceber que eu devia ter deixado, devia ter seguido viajem para Washington e devia ter feito meu próprio destino.

— Estou gravando esse vídeo porque senti sua falta hoje. Falta de flertar tão descaradamente que te assustava; falta de batatas fritas no Joe's e sucos de laranja com açúcar na oficina; falta de aniversários em uma caixa d'agua ou em uma pedreira... — O sorriso dela foi pura nostalgia e a saudade nunca doeu tão forte quanto naquele momento. — Senti tanto a sua falta que pensei em atravessar o pais só pra olhar nos seus olhos e te dizer isso.

Natalie soltou um suspiro cansado e ajeitou a postura, seus olhos perderam um pouco o brilho, mas ela voltou a olhar para a câmera.

— Mas eu sei que quando eu passar pelos portões da Disney e a magia acabar, toda a dor vai voltar e eu não vou atravessar o país, porque talvez eu tenha medo de ser rejeitada outra vez. — Ela deu de ombros e pareceu tão triste que me odiei um pouco mais por não tê-la abraçado em cada chance que eu podia.

Eu tinha desperdiçado toda uma vida sem ela e só fui capaz de perceber isso, quando Natalie não estava mais lá.

— Talvez você nunca veja esse vídeo, ou talvez as coisas se resolvam e nós quatro poderemos voltar aqui de novo juntos... Seria uma daquelas aventuras mágicas... — Ela voltou a olhar para dentro do quarto e mostrou as duas crianças outra vez. — Daríamos uma família e tanto, Baby Dix, eu você e os dois dorminhocos ali, espero que um dia você perceba isso. E quando isso acontecer, eu só quero que você saiba que eu ainda te a...

Eu não ouvi o final da frase o notebook simplesmente desligou, e eu fiquei ali como um idiota, batendo nas teclas, tentando a tudo custo ouvir aquela última palavra.

Eu precisava ouvir...

Mas não adiantou, o aparelho não ligou outra vez, e tudo que me restava era lidar com meus arrependimentos e culpa.

Respirei fundo e apoiei a cabeça nas mãos. Sem Natalie naquele momento eu me sentia perdido, porque ela seria a única pessoa no mundo que poderia me dizer o que fazer.

Lembrei de quando soube que minha mãe estava morta, do desespero e da incerteza que tomaram conta de mim... Mas isso também me fez lembrar o que a morte da minha mãe fez com o meu pai, de como as coisas se tornaram um pesadelo.

Aquele pavor de ser como Will Dixon me atingiu em cheio e meu corpo todo tremeu como se tivesse levado um choque.

Como eu seria capaz de impedir que eu me transformasse em uma versão do meu próprio pai?

Tão logo a pergunta passou pela minha mente, a voz de Natalie soou clara e doce: Se não quer ser como o seu pai, apenas não aja como o seu pai.

Pareceu simples, pensei no que meu pai faria naquela situação e resolvi fazer o oposto. Will se enfurnaria no bar e me deixaria sozinho pra lidar com o luto. Eu decidi que tinha que estar ao lado de Petter.

Mas essa decisão não tornava nada mais fácil. Eu ainda não sabia como contar... Lembrei da morte de Merle e de como foi devastador vê-lo como errante...

O evento me marcou tanto, que talvez esse fosse o motivo para que em nenhum momento em tivesse pensando em ir atrás de Natalie no lugar mais óbvio primeiro. Pareceu melhor doloroso negar aquela fatalidade e esperar que ela aparecesse viva. Eu não podia lidar com o corpo dela.

Mas aquilo não era apenas sobre mim... Muito pior do que ver o corpo do meu irmão, era me dar conta que eu não tinha um tumulo para visitar.

Percebi que Petter merecia ao menos a oportunidade de se despedir adequadamente. Eu precisava encontrar o corpo de Natalie e Luka, por mais que essa possibilidade me assustasse mais que qualquer outra coisa.

Eu não sabia se seria forte o bastante para ver Natalie morta, e ainda pior, eu não sabia se conseguira lidar com ela transformada em outra coisa...

A simples imagem mental fez o desespero se alastrar por minhas veias.

Ao mesmo tempo, outra parte do meu subconsciente começou a me acusar: Enterrar a família inteira do garoto e depois continuar com a maldita guerra, era isso? Deixar Petter sozinho com dois túmulos e partir para outra batalha?

Foi quando eu soube o que tinha que fazer. Eu tinha que acabar com tudo aquilo. Eu tinha que matar Negan, afinal, sem ele não haveria guerra.

Eu tinha a oportunidade perfeita, mesmo que não fosse o plano do Rick...

Com Negan morto, eu podia voltar e encontrar os corpos de Natalie e Luka, contar tudo ao Petter e dar a ele uma despedida calma e tempo para o luto.

Era isso. Era meu dever resolver tudo, dar ao meu filho ao menos a conclusão que ele merecia. Eu devia isso a ele.

Ao mesmo tempo em que eu me colocava de pé e recolhia o galão com a gasolina, uma parte da minha mente começou a se perguntar bem baixinho, se aquilo tudo não era apenas para protelar o momento em que eu teria que encarar a morte de Natalie de frente...

No entanto eu resolvi não dar ouvidos a esses questionamentos. Talvez eu não quisesse saber das respostas.

Guardei o pendrive no bolso e deixei o trailer, seguindo para a moto e a abastecendo. Por fim, preparei a besta. Eu ainda não tinha certeza de como acabaria com as coisas, mas pensei em derrubar as cercas e uma parte da estrutura do Santuário com um caminhão, isso permitiria que os mortos entrassem no local e talvez me dessa uma boa oportunidade de meter uma flecha na cabeça de Negan.

Com esse plano em mente eu peguei a estrada, tentando usar o vento como distração para todo o resto.

Uma parte minha ainda insistia em dizer que aquele plano de última hora era apenas uma fuga, uma forma de protelar as coisas, e talvez fosse verdade, por esse motivo eu fazia meu melhor para calar essa voz interior.

Era fim de tarde quando cheguei aos arredores do Santuário, parei a moto a uma distância estrategicamente segura do lugar e trilhei o restante do caminho a pé.

No entanto, logo que me aproximei o bastante para ver o pátio principal, notei que tinha algo muito errado; os Salvadores não estavam mais presos, andavam livremente pelo local, entre pilhas e pilhas de corpos de errantes.

Eles tinham dado um jeito de escapar e eliminar todos os mortos. O plano de Rick dera totalmente errado... Negan estava livre outra vez e, a julgar pela movimentação intensa de pessoas, ele tinha um contra-ataque planejado.

Sorrateiramente entrei em um dos prédios vizinhos, havia Salvadores por toda a parte e o risco de ser visto era muito alto. Torci para que nossos atiradores posicionados ali tivessem tido tempo de escapar e dessa forma avisar as outras comunidades, mas tudo que encontrei foram mais corpos. Os Salvadores tinham eliminado todos os atiradores.

Tentei pensar rapidamente sobre o próximo passo, se fossemos atacados naquele instante não teríamos chances, principalmente porque nenhuma das comunidades esperava por um ataque.

Olhei através das janelas e vi Dwight no pátio ajudando a abastecer os carros. Eu não era capaz de saber se ele tinha voltado a ser leal aos Salvadores ou era só fingimento.

Negan estava lá também, dando ordens e apontando, enquanto batia no ombro de Eugene como fossem velhos amigos. Não foi difícil deduzir que o traidorzinho de merda fora responsável pelo plano que tinha libertado os Salvadores.

Eugene era esperto e engenhoso, ele devia ter criado uma simples distração e os homens de Negan agiram, abrindo caminho entre os mortos. Tinha sido tolice achar que o Santuário não teria armas o bastante para lidar com aquela situação, afinal Alexandria também já tinha sido invadida por errantes e só precisamos nos unir para lidar com aquele problema.

Também notei que Padre Gabriel estava por ali, Rick me dissera que os dois tinham se separado durante o ataque, ele julgou que o padre estava morto, mas pelo visto ele tinha sido capturado pelos Salvadores.

Era como se tivéssemos piorado ainda mais a situação para o nosso lado depois daquele plano, porque até os trabalhadores do Santuário pareciam empenhados em guerrear. Tínhamos perdido o Reino e Negan conquistara um exército...

Aquilo tinha que acabar, antes que mais gente morresse.

Observei o rifle no corpo de um dos atiradores e tive uma ideia; se Negan estivesse morto, não haveria ataque nenhum... Com cerco de mortos, ou sem, eu ainda tinha que fazer o que eu tinha ido fazer ali.

Eu tinha que matar Negan.

Coloquei a besta no chão, preparei o rifle e esperei pela oportunidade... Meu dedo tremia no gatilho de puro ódio. Eu não conseguia uma mira clara e sabia, a julgar pelos corpos mortos ao meu lado e considerando o número de Salvadores lá em baixo, que eu só tinha um tiro.

Um tiro e eu seria notado.

Continuei parado ali, os olhos fixos no meu alvo, aguardando por qualquer brecha ou oportunidade e talvez minha obstinação tenha me feito baixar a guarda... Se eu estivesse mais atento ao que acontecida ao meu redor, ao invés de estar tão focado no pátio lá em baixo, eu teria notado que tinha alguém se aproximando.

— Não seja estúpido desse jeito. — A voz masculina se fez ouvir, ao mesmo tempo em que eu senti o cano frio da arma na minha nuca.

Agi por puro reflexo e tentei revidar, o que me colocou em uma briga corpo a corpo com o homem atrás de mim.

Seguei a mão dele para o alto e bati a arma na parede, fazendo-a voar para o chão, olhamos juntos o trajeto e eu pulei na direção do revolver para conseguir a vantagem.

Assim que alcancei a arma eu me virei para atirar, mas quando disparei, o Salvador se esquivou por pouco. Ele pegou o rifle e antes que eu pudesse disparar a segunda vez usou o cabo para me atingir.

A arma voou para longe novamente e eu senti o segundo golpe com o cabo do rifle atingir meu estômago. Cambaleei para trás e tropecei nos corpos, isso foi o bastante para que perdesse toda a minha vantagem.

Com aquele rifle apontado para a minha cara eu sabia que não tinha chances, mas honestamente eu preferia morrer do que ser prisioneiro de Negan novamente.

Olhei com fúria para o Salvador que segurava o rifle e o reconheci vagamente, ele era um dos que tinha me surrado, o idiota que posava de parceiro da Natalie ou algo assim.

— Kane, reporte. Que barulho de tiro foi esse? — A voz de Negan soou no rádio que o idiota carregava no cinto e eu procurei por qualquer brecha que me desse vantagem, mas não havia nada.

O salvador sorriu de canto, batendo com o rifle no meu rosto, e assim tendo tempo de trocá-lo por uma arma, que ele apontou para minha cara antes de pegar o rádio.

Na minha mente a única certeza era que eu jamais me sujeitaria a ser prisioneiro daquele psicopata outra vez.

— Só um errante chefe, o maldito surgiu do nada, mas eu já dei um jeito. — O Salvador mentiu descaradamente, enquanto olhava nos meus olhos. — Vou terminar de checar, mas parece tudo limpo.

Minha mente entrou em curto por alguns segundos.

— Ótimo. — A voz de Negan soou novamente e Kane desligou rádio.

— Você tem muita sorte da Natalie gostar de você, Caipira, ou seus miolos estariam no chão agora. — Ele comentou em um tom casual, com a arma ainda apontada para mim.

Tentei encontrar qualquer lógica naquele comportamento, mas estava confuso demais para pensar em qualquer coisa.

— O que você quer? — Perguntei agressivo, enquanto buscava por uma brecha para reverter a situação.

— Simples, eu quero que você pegue todo o seu talento de caçador, saía daqui sem ser visto, volte pra sua comunidade e tire a Natalie e as duas crianças dela de lá. — Kane declarou e novamente eu fiquei totalmente confuso e acabei não reagindo. — Dirija pra bem longe daqui, porque o Negan não vai parar até virar o jogo.

Havia algo sobre Natalie e aquele homem que eu certamente tinha deixado passar...

— Você sabe sobre as crianças? — Estranhei, já que Natalie fora bastante enfática ao dizer que não tinha contado para ninguém que Petter e Luka estavam vivos.

Nem pra mim ela contou, porque teria contado para um Salvador qualquer?

— Juntei dois mais dois... — Kane deu de ombros e abaixou um pouco a guarda, deixando a oportunidade perfeita, para que eu partisse para cima dele e o jogasse contra uma das paredes, fazendo com que a arma fosse parar no chão novamente.

— Eu estou aqui pra matar o Negan, não vou a lugar nenhum! — Declarei, segurando o Salvador pela gola da jaqueta de couro que usava.

— Sério que você é desses com complexo de herói, que merda, hein? — A resposta veio acompanhada de um suspiro pesado e um revirar de olhos.

Havia algo naquele idiota que me irritava profundamente. Ergui meu punho no ar, pronto para socá-lo, mas Kane se esquivou do meu golpe quando abaixou o corpo e atingiu minhas costelas, me fazendo dar alguns passos para trás.

— Olha só, eu entendo, sério, derrubar o manda-chuva, ficar com a garota, parece um bom plano. Mas não vai dar certo. — Ele deu alguns passos para a esquerda, seguindo em direção a arma no chão, com as duas mãos erguidas, enquanto eu me preparava para atacá-lo de novo. — Supondo que você seja o fodão e consiga mesmo uma brecha pra matar o Negan, você vai acabar morto também, porque Negan tem mais lealdade agora do que teve em qualquer momento, seu amigo Rick devia saber que a coisa dos zumbis podia ser um tiro no pé, Negan é o grande salvador de novo e até os trabalhadores estão nisso agora.

Aproveitei aquele falatório e alcancei minha besta, preparando-a bem no momento em que Kane conseguiu recuperar a arma. Estavamos um na mira do outro, apenas um metro de distância entre nós.

A tensão no ar era evidente, dedos no gatilho, Kane me encarava por cima da arma e eu tinha minha flecha apontada para o peito dele.

— E esse é o problema... — Ele voltou a falar, impressionante como o idiota não conseguia ficar calado. — Você mata o Negan, o Simon assume, e o Simon está bem revoltado no momento, ele vai matar tudo mundo, sem acordo ou trégua...

Tentei colocar as ideias em ordem, descobrir se aquilo era só uma mentira ou não, porque se fosse verdade, matar Negan naquele momento, podia significar colocar alguém ainda pior no poder, Simon agiria por vingança e a guerra nunca acabaria.

— Matar o Negan não vai salvar a Natalie agora. — Kane declarou e todo o meu corpo tremeu.

Era a pura verdade, mas não do jeito que aquele Salvador pensava.

— Natalie está morta. — Devolvi, sentindo que cada palavra tinha gosto de veneno.

Era a primeira vez que eu dizia aquilo em voz alta, era como se estivesse confirmando que era verdade e doeu mais que nunca.

Kane abaixou a arma e deu um passo para trás, seus olhos se fixaram em mim por alguns segundos, como se ele procurasse qualquer traço de mentira nas minhas palavras.

Eu estava atordoado demais por minha própria dor para decifrar o semblante dele, mas mesmo em meio a tudo aquilo eu vi que Kane ficou abalado com o que eu disse.

De certa forma não foi uma surpresa, ele tinha ficado ao lado de Natalie por seis meses, demorei bem menos que isso pra me apaixonar por ela e eu sequer era o tipo que cara que se apaixonava.

Kane desviou os olhos e guardou a arma no coldre, nada preocupado com a flecha que eu ainda tinha apontada na direção dele.

— Mais um motivo pra você não se meter em uma missão suicida. Você é o pai do garotinho, não é? Volte pra casa e salve seu filho antes que ele acabe sem pai também. — Não havia qualquer emoção nas palavras dele, apenas frieza, mesmo assim trouxe uma questão importante à tona.

Eu tinha que proteger meu filho, a morte era um luxo que eu não podia mais aceitar. Deixar Petter sozinho estava fora de cogitação.

Kane passou por mim e eu tive todas as chances de atirar, mas não o fiz, talvez porque estivesse tomando minhas próprias decisões, ou sei lá porque...

— Prédio sul totalmente limpo, senhor. — Ele informou no rádio, sua voz desprovida de qualquer emoção, então guardou o objeto novamente e olhou para mim por cima do ombro. — Você tem algumas horas de vantagem, temos um lugar pra ir primeiro.

Foi só isso, eu podia ter atirado quando ele virou as costas, ou impedido que ele deixasse o prédio, mas manter minha vantagem pareceu mais proveitoso.

De uma forma ou de outra, eu tinha que admitir que aquele idiota estava certo, eu tinha que voltar para o meu filho e tinha que avisar Alexandria, precisamos estar prontos quando Negan chegasse.

Tive que esperar todos os carros deixarem o Santuário antes de conseguir partir, eles realmente tomaram outro rumo, como Kane dissera e eu esperei a primeira oportunidade e voltei para a moto.

Atingi velocidade máxima enquanto voltava para Alexandria e suspirei assim que avistei os muros, foi um alivio imenso ver Petter acenando da plataforma.

— Pa.. Daryl! — Abriu o portão empolgado, mas notei que corrigiu a palavra antes mesmo de finalizá-la. — Eu estava preocupado. Mamãe e Luka não chegam ainda...

Seus olhinhos esperançosos partiram meu coração, eu tinha que contar, mas simplesmente não consegui formar as palavras.

— Está tudo bem? — Petter perguntou, me encarando preocupado.

Eu não podia fazer aquilo, dar uma notícia daquelas sabendo que ele não teria tempo pra digerir, porque Negan estaria nos nossos portões.

Então eu não disse nada... Apenas neguei algumas vezes.

Petter me olhou desconfiado, mas logo Bolt chegou chamando toda a atenção, o cachorro estava encharcado, como se tivesse tomado outro banho, mas eu não perguntei nada. Ao invés disso observei meu filho com o animal e simplesmente decidi que as coisas tinham que mudar.

Eu não queria ser um pai como o meu, então eu tinha que estreitar nossos laços. Eu tinha que dar o próximo passo...

— Hey, hum... Eu estava pensando.. — Comecei e Petter focou a atenção em mim. — Você pode me chamar de "pai" se você quiser. Porque, sabe, eu sou seu pai, então...

O garoto abriu um sorriso tão grande que foi capaz de deixar o mundo todo melhor por um segundo. Eu gostaria que Natalie pudesse ver aquilo

— 'Tá bom então, pai. — Respondeu, como se precisasse testar a sonoridade.

Eu tentei sorrir, mas apenas estendi a mão, tínhamos um assunto urgente para lidar.

— Vem, precisamos falar com os outros. — Convidei e Petter pegou minha mão e começou a andar comigo.

— Se um dia eu fizer uma coisa meio... ahn... meio assim imprudente, mas por uma causa muito boa, você vai brigar comigo, pai? — Ele perguntou enquanto caminhávamos e eu não entendi o sentido daquela dúvida. Eu tinha tanta coisa na cabeça que nem pensei direito antes de responder.

— Não. — Neguei algumas vezes, qual é? Brigar com o menino era uma coisa eu não pretendia fazer nunca!

Ele soltou um suspiro de alivio que eu não entendi de imediato, mas assim que avistei Michonne ao longe a resposta veio.

Ela nem tinha esperado que eu falasse nada, antes de despejar que Petter e Carl tinham saído da comunidade para ajudar um estranho.

Claro que aquela noticia me deixou preocupado com a segurança de Petter e eu certamente ia querer saber tudo. Depois. Naquele momento tínhamos coisas mais urgentes para resolver.

— Negan está vindo. — Declarei, enquanto Michonne ainda falava e Carl e Petter tentavam se defender ao mesmo tempo.

Os três se calaram, suas posturas tensas eram um reflexo da minha.

— Eu não tenho muito tempo pra explicar, precisamos decidir o que fazer agora, talvez Rick não chegue a tempo. — Não quis prologar o assunto precisávamos ser objetivos.

Um pequeno grupo se reuniu rapidamente, não tínhamos números, poucas armas, quase nada de combatentes. Apenas eu, Michonne, Rosita, Tara, Toby e Carl estávamos realmente aptos a lutar.

— Precisamos lutar, podemos acabar com todos eles! — Tara declarou, ela era a mais revoltada com os Salvadores, e com Dwight em especial, pelo que tinha acontecido com Denise.

— Não. — Carl interveio. — Eles têm toda a vantagem agora. Eu acho que tenho um plano melhor...

Ele falava como o pai, decidido e muito seguro, um líder nato. Tinha um plano ousado que envolvia os tuneis de água desativados sob a comunidade e enganar Negan.

Em qualquer outro momento eu ficaria com Tara e escolheria lutar, mesmo que isso significasse a morte certa, contudo, pela primeira vez, eu não quis um confronto direto... Avaliei os riscos e não estava disposto a corrê-los. Precisamos encontrar novas formas de lutar, formas que não colocassem as pessoas que amávamos em perigo.

Eu precisava pensar na segurança do meu filho primeiro. Era o que Natalie gostaria que eu fizesse...

Notas finais
Esse capitulo faz um paralelo interessante com o anterior, porque Petter não sabia de nada e continuou feliz, enquanto o Daryl recebeu a informação errada e isso acabou com ele. Eventos de morte são impactantes, e esse mal entendido sobre a Natalie vai ter efeitos no Daryl a longo prazo, ele vai dar mais valor para a Bochechas agora... Mas é claro que sou eu escrevendo, então, nem tudo vai ser mil maravilhas, afinal, por que vou facilitar a vida deles se eu posso complicar tudo neh? kkkkkkkkk Brincadeiras a parte, o proximo é o capitulo mais temido pelo grupo do face "A queda da rainha", vou deixar vocês palpitarem sobre quem acham que narra... Beijos e até mais!