Notas iniciais
Oieee!! Tô de volta com o tão temido capitulo 28 "a queda da rainha" vamos ver se vocês estavam preocupadas á toa ou se é um capitulo tão ruim quando vocês teorizaram. Antes de começarmos eu tenho que deixar um AVISO DE GATILHO: para violência e abuso emocional. Leiam com responsabilidade e respeitem o tempo de vocês. Boa leitura!

• KANE BENNET •

Existem coisas que não somos obrigados a confrontar até que alguém que amamos morra. Você repensa vários aspectos da sua vida quando alguém importante se vai para sempre...

Eu já tinha passado por aquilo, meses e meses de uma dor profunda e de auto-ódio, a culpa e aquele bom e velho "o que eu poderia ter feito diferente?"... A morte de Lexie mudou coisas em mim, não só porque ela era a mulher da minha vida, mas porque ela morreu com meu filho dentro da barriga, todo um mundo de possibilidades se foi com ela naquele dia.

Quando alguém que amamos morre, achamos que nunca vai passar, que aquela dor vai nos matar também... Eu me lembro de um cara da prisão que constantemente me dizia que tudo que ficaria bem, que eu tinha que ser forte e seguir em frente.

Acontece que eu não queria ser forte, eu não queria seguir em frente, eu queria sofrer em paz, eu não queria ninguém me perguntando se eu estava bem, porque eu não estava bem. Não tem como ficar bem em uma situação dessas. Eu soquei a cara dele por isso...

Eventualmente as coisas se resolveram, não digo que a dor passou, ela nunca passa, a dor se tornou parte de mim, eu aprendi a conviver com ela e acabei percebendo que podia seguir em frente, no meu tempo, não no tempo de um cara aleatório da prisão que achava que sabia mais da minha dor do que eu mesmo.

E isso me mudou de muitos jeitos.

Eu imaginei que nunca amaria alguém como amei Alexandra, e eu estava certo, é impossível amar duas pessoas do mesmo jeito, o amor é diferente cada vez que ele te toca.

Mas eu me apaixonei de novo...

Nunca pensei se meu amor por Natalie Cooper era maior ou menor que meu amor por Alexandra Harrington, essa comparação não faria sentido. Uma estava viva e a outra morta, eu podia amar as duas de maneiras diferentes, não era uma competição.

Eu não sou o tipo que se ilude, eu soube que Natalie estava fora do meu alcance quando ela decidiu ir embora. Ela não era minha, e tudo bem, eu podia viver com isso...

Mas deixá-la ir e perdê-la eram duas coisas totalmente diferentes.

Saber que Natalie estava morta me fez sentir vazio, a dor estava lá de novo, mas era como passar por um caminho conhecido, eu sabia que ia passar, porque eu já tinha estado ali antes.

E esse era o problema, eu estava vivendo a mesma situação outra vez, mas me sentia perdido. Eu estava no mesmo caminho conhecido, mas me sentia sem rumo.

Eu estava vazio e tudo ao meu redor parecia sem sentido. Estar dirigindo aquele carro, interpretando um papel e jogando meu maldito jogo era entediante naquele momento.

— Você está muito calado... — A voz irritante de Negan me tirou dos meus pensamentos e eu tive que vestir minha máscara de mentiras outra vez.

Tínhamos saído do Santuário há cerca de meia hora, havíamos parado no meio do caminho e nos separado; Gavin seguira para o Reino liderando um pequeno grupo, suas ordens eram tomar o lugar e capturar o Rei. Já Simon tinha ficado com Hilltop, ele queria dar uma bela lição nos "fazendeiros", mas Negan ordenou o contrário disso.

Não era à toa que aquele psicopata era o líder dos Salvadores, ele pensava com clareza... Hilltop era responsável por mais da metade dos suprimentos perecíveis do Santuário, praticamente toda a plantação vinha de lá, garantir que o lugar ficasse inteiro, tanto em infraestrutura como no que dizia respeito ao pessoal, era uma forma de garantir também a segurança do próprio Santuário a longo prazo.

Já teríamos problemas o bastante para reconstruir o lugar.

Por isso Negan ordenou uma única morte. O que não deixou Simon nada feliz, afinal ele ainda queria vingança por Tony e achava que os grupos de fora eram os culpados

E era do meu interesse que ele continuasse pensando assim...

Já nosso grupo era responsável por Alexandria, e nesse caso eu duvidava muito que Negan pouparia mortes, ele não deixaria barato o ataque do Rick.

Eu só esperava que aquele caipira idiota tivesse tirado o filho de Natalie da cidade a tempo...

Percebi que Negan esperava por uma resposta, então preparei meu arsenal de mentiras, mas pra ser honesto, naquele ponto o jogo tinha ficado sem graça, era como se eu tivesse perdido toda a minha motivação.

— Eu só estou pensando sobre a minha vingança... — Dei de ombros, querendo ficar sozinho e em silêncio. Lidar com Negan tinha se tornado algo cansativo.

Talvez fosse melhor ter continuado preso naquela merda de quartinho...

— Entendi. — Negan assentiu algumas vezes e ajeitou o taco que ele fazia questão de levar na frente com ele. — Então fale.

— Falar o que, senhor? — Tentei não soar entediado ou mal-educado.

— Me fale sobre a sua vingança. O que você fará com Natalie quando encontrá-la? — A pergunta veio em um tom sádico, mas eu vi além disso.

Negan ainda estava me testando... Ele continuava jogando comigo, meu pequeno discurso com os Pontistas só tinha servido para me conseguir o benefício da dúvida.

Até Negan ter certeza da minha lealdade, ele continuaria me testando com aqueles joguinhos mentais. Era esse o único motivo para estarmos no mesmo carro, e eu sabia disso... Eu só não sabia se ainda me importava o bastante.

Com Natalie morta, aquele jogo parecia totalmente sem sentido, mesmo que eu tivesse começado o jogo muito antes dela.

— Quando eu encontrar a traidora, vou entregá-la para o senhor, é claro. Você tem a prioridade, afinal foi o senhor quem ela mais prejudicou... — Declarei com a postura firme e os olhos na estrada.

— Eu? — Negan pareceu desinteressando, como se não tivesse absolutamente nada a ver com aquele assunto. — Onde? Quando? Eu nunca acreditei em uma única palavra do que saiu da boca dela, eu sempre soube que era uma mulher dissimulada. Ela nunca me enganou, nem por um segundo...

Tive que me controlar para não rir ou revirar os olhos, Negan queria mesmo agir como se Natalie não tivesse passado o Santuário inteiro pra trás bem de baixo do nariz dele? Era patético...

— Eu sempre soube que ser uma salvadora não daria certo com ela, eu só quis mostrar que as coisas podiam se melhores, que havia um jeito... — Ele se fez de bom samaritano, bancando o grande "Salvador", como fazia o tempo todo. — Eu podia ter sido mais cruel, eu podia ter deixado a Lucille esmagar a cabeça dela, mas você sabe que eu não gosto de maltratar mulheres, não é?

Cínico e hipócrita, esses adjetivos descreviam aquele déspota muito bem,

— Eu sei... — Assenti como se acreditasse em cada palavra. — Você é um bom homem, senhor.

— Eu sou mesmo um homem bom pra caralho. — Negan se gabou, rindo de canto, antes de mudar o tom para algo compadecido: — Mas você... ela realmente fodeu as coisas pra você... Por isso que eu vou te dar carta branca nessa punição, você pode escolher qualquer coisa, por mais violenta que seja, até o ferro eu deixo, você pode foder com Natalie Cooper o quanto quiser, não literalmente, é claro, sabe que eu abomino essa coisa de sexo forçado...

Tentei não esboçar reação alguma, mas a hipocrisia de Negan era até engraçada, afinal, ele tinha uma regra clara contra estupros, mas obrigar as mulheres a dizer sim para aquele harém ridículo não era um problema pra ele...

Não era livre arbítrio quando ele ameaçava alguém que elas amavam.

Eu não podia mentir pra mim mesmo e dizer que tinha algo contra tornar sexo uma relação de negócios. Eu dava pontos por sexo. Minha moral era toda fodida. Mas era uma transação clara, não tinha ameaças, não tinha manipulação. Elas iam e vinham quando queriam e se queriam, ninguém tinha que saber, elas não eram minhas.

Negan entrava na mente das mulheres, abusava delas psicologicamente, tirava qualquer esperança que elas tinham e então vinha com a solução milagrosa... Elas não eram apenas "esposas" dele, eram propriedade dele.

Ele alegava que podiam sair quando quisessem, mas sempre tinha um porém... alguém que perderia se elas saíssem.

— O senhor podia repensar essa regra quando se trata de uma traidora como a Cooper, deixar o pessoal se divertir com ela seria uma punição e tanto. — Connor, um dos salvadores sentados no banco de trás, se meteu na conversa e eu pude ver seu sorriso malicioso pelo retrovisor.

Segurei meu suspiro de desgosto e apertei um pouco mais o volante, tentando controlar meu impulso de parar o carro ali mesmo, puxar Connor pra fora e então passar com os pneus por cima da cabeça dele diversas vezes.

— Mas é você que manda, chefe, sempre. — O idiota ergueu as mãos duas mãos.

— É claro que sou eu que mando. — Negan declarou seco e então sorriu de lado. — As minhas regras não serão revogadas, além disso, quando o Bennet aqui acabar com a Natalie, nem pra diversão ela vai servir.

Os dois Salvadores no banco de trás riram como hienas, um bando de comprados, bajuladores. A pior parte do Santuário era ver aquele monte de cretinos seguindo Negan como se ele fosse algum tipo de mito, quando na verdade o cara era só um psicopata que sabia aproveitar oportunidades.

— Ou eu estou errado e você pretende pegar leve, Bennet? — A pergunta veio afiada e eu percebi que Negan tinha os olhos em mim, encarando cada mínima reação minha.

Eu estava de saco cheio daqueles malditos testes...

— Não, senhor. Eu não tenho a menor intenção de pegar leve. — Declarei em um tom bastante sádico que tudo tinha de verdadeiro. Eu só tive que pensar em atirar naquele sorriso cretino de Negan e as palavras vieram com naturalidade.

Fiz a curva no fim da estrada e ao longe avistamos o posto avançado em que devíamos encontrar as armas.

— Mas que porra...? — Negan exclamou assim que viu o estado do lugar.

Era um caos, errantes, corpos e um dos galpões destruídos, com focos de incêndio e fumaça em vários pontos.

Seja lá o que tivesse acontecido ali tinha sido bem feio.

Negan parecia irritado, estava bem claro que o posto avançado fora atacado, isso significava que as melhores armas não estavam mais lá;

— Se espalhem, achem as armas escondidas, é impossível que o pessoal do Rick fodido do caralho tenha levado todas! — Ordenou, acertando um dos errantes que se aproximava com o taco. — E sem barulho pra derrubar esses idiotas, não queremos atrair mais deles.

O pessoal começou a se espalhar, lidando com os errantes sem grandes problemas, aquilo era fichinha perto do tanto de mortos que Rick tinha jogado no nosso "quintal".

— Eu vou pra lá... — Apontei o galpão parcialmente destruído, que eu já tinha percebido que todos estavam evitando.

— Ali não deve ter nada, 'tá tudo fudido já. — O Salvador mais perto de mim desdenhou.

— Não custa olhar... — Retruquei, seguindo naquela direção, enquanto acabava com os errantes no caminho.

Minha vontade de seguir para o galpão nada tinha a ver com qualquer empenho em achar armas, eu estava pouco me fodendo para as armas, eu só precisava de um tempo sozinho, para colocar as ideias no lugar e pensar sobre o meu próximo passo.

O lugar fedia a fumaça e fuligem, e não demorou muito para que eu desse de cara com um corpo sem cabeça. Olhei ao redor e tudo eram destroços. Reparei que seja lá o que tivesse acontecido ali fazia algumas horas, alguns focos de incêndio já tinham apagado e não estava quente o bastante para que uma explosão tivesse acontecido há pouco tempo.

Não que eu fosse perito em fogo ou nada assim...

Dei mais um passo, andando com cautela, não só por saber que um errante podia pular no meu pescoço a qualquer momento, mas também por estar atento a qualquer som que indicasse uma nova explosão ou desabamento, era a merda de uma estrutura condenada afinal de contas...

Foi nesse momento que ouvi o som que pareceu um choro baixinho, franzi as sobrancelhas e troquei a faca suja de gosma de errantes por minha semiautomática.

Caminhei no sentido do barulho, tentando ser o mais silencioso que eu podia. Tive que fazer a volta em uma grande pilha de escombros, mas percebi que tinha alguém ali ao fundo.

Eu não esperava encontrar ninguém, muito menos ela...

Foi como se meu coração voltasse a bater de novo; Natalie Cooper estava sentada no chão, a cabeça baixa, alheia a tudo que acontecia ao redor, mas viva, totalmente viva.

Percebi que ela estava debruçada sobre um corpo, e logo reconheci a garota morena que estava no Santuário pela manhã. Merda...

— Natalie? — Chamei em um sussurro e ela ergueu a cabeça devagar.

Meu coração se partiu em mil pedaços, entendi muito rápido o que tinha acontecido, as duas estavam ali durante o ataque e tinham sido pegas pela explosão, a menina tinha ficado presa em um pedaço enorme de metal, e morrera ali mesmo.

Natalie era a imagem da dor e desolação, ela estava quebrada e foi como se eu sentisse aquilo na minha própria pele.

— Eu pensei que você estivesse morta... — Me aproximei, me ajoelhando na frente dela e segurando seu rosto com delicadeza, ela pareceu um pouco surpresa de me ver ali, mas ao mesmo tempo estava apática, como se nada mais importasse.

Tentei entender porque aquele caipira maldito tinha dito que ela estava morta, e logo cheguei à conclusão que ele não sabia, o que era estranho, porque se fosse eu estaria colado com aquela mulher não importava onde ela decidisse ir.

Presumi que os dois não estavam juntos, talvez tivessem se separado para atacar os postos avançados... Quando olhei o corpo da garota, consegui entender porque Natalie ainda estava ali, a menina tinha os olhos fechados e seus membros superiores perfeitamente arrumados sobre o tórax, mas sua coloração acinzentada e o sangue ao lado de seus cabelos negros me provavam que ela já tinha se transformado.

Fiz uma conta rápida e imaginei que Natalie tivesse decidido ficar ao lado da garota, esperando a transformação. Eu não conseguia imaginar, no entanto, quando tempo ela tinha levado para dar um fim em tudo aquilo. A julgar pelo seu estado, imaginei que ela não tinha resolvido logo quando aconteceu.

Aquela era a pior parte daquela merda de mundo em que vivíamos, as pessoas não morriam apenas, elas voltavam, e alguém tinha que lidar com isso...

— Está ferida? Consegue andar? Você tem que sair daqui agora... — Tive que deixar minha compaixão de lado e focar em coisas mais urgentes.

— Eu não posso... — Natalie murmurou em um fio de voz, enquanto as lágrimas rolavam soltas por seus olhos. — Não posso deixar minha filha aqui sozinha. Eu prometi que nunca a abandonaria...

Óbvio que ela não falava coisa com coisa, mesmo assim fez um pouco de sentido pra mim. Natalie era mãe daquela menina, ela não podia simplesmente ir embora e deixar o cadáver da filha ali jogado.

Apenas puxei seu corpo para perto do meu e a abracei apertado, sentindo que ela tremia incontrolavelmente e começava a chorar sem reservas.

Desejei que houvesse um jeito melhor de resolver aquilo. Mas infelizmente não havia tempo. Não era justo ou certo, porém eu sabia que Natalie tinha que sair dali naquele exato instante. Negan não podia colocar as mãos nela.

— Olha pra mim, por favor. — Pedi, interrompendo nosso abraço e fazendo com que ela erguesse o rosto na minha direção. — Eu sei o que você está sentindo, eu sei mesmo, mas você não pode ficar. Negan está aqui.

Natalie piscou algumas vezes, apática e abatida, soltou um suspiro longo e cansado e deixou os ombros caírem.

— Não acabou, não é? Ele venceu... — Ela não parecia surpresa, na verdade era como se já esperasse aquilo.

— Você tem que ir, eu vou atrasá-lo o máximo que eu puder, mas você tem que ir agora. — Segurei seus ombros e a fiz se levantar.

Ela olhou o corpo da menina no chão novamente e não parecia disposta a partir. Estava pronto para insistir novamente, quando fomos interrompidos.

— Hum... Olha só o que temos aqui... — Vi Connor surgir entre os escombros e tive que pensar mais rápido do que gostaria.

— Pois é, eu a encontrei. — Puxei Natalie pelo braço, me odiando por ter que ser rude com ela em um momento como aquele e desejando que Connor não tivesse visto demais. — Vá lá chamar o Negan, ele vai gostar de ver isso...

— Eu não preciso chamar o Negan, ele já está aqui... — Ele sorriu de sádico, dando alguns passos para trás e acenando em direção a saída do galpão — Hey chefe, olha só!

Coloquei Natalie um pouco atrás do meu corpo e comecei a pensar em uma saída, destravei minha arma e pensei em atirar em Connor, mas um tiro ali alertaria todos os Salvadores e não sobraria tempo o bastante pra fugir.

Eu precisava ser mais esperto que isso.

Minha mente entrou em curto, eu era muito bom em improviso, mas não conseguia raciocinar com clareza naquele momento, porque era como se o som do meu coração batendo disparado me impedisse de ouvir meus próprios pensamentos.

Era fácil quando era apenas um jogo, mas a vida da Natalie não era um jogo pra mim... E ela parecia tão inerte ao que estava acontecendo, como se não estivesse ali de verdade, como se estivesse se afogando em dor.

Eu tinha que ajudá-la de algum jeito, não importava o que isso me custasse...

Negan entrou no galpão com toda aquela pose de rei do mundo, o taco idiota nas costas e um sorriso assassino nos lábios. Havia mais sete Salvadores com ele.

Tive a nítida impressão que ele tinha mandado Connor me seguir.

— Olha só que o Papai Noel me trouxe, puta merda, hein! — Ele abriu os braços e pareceu animado, assim que viu Natalie ali. — Parece que é o seu dia de sorte, Bennet!

Caminhou até nós e me empurrou para o lado como se eu fosse descartável. Analisou Natalie de cima a baixo e lançou um olhar de profundo desprezo para ela. Deu mais alguns passos, invadindo o espaço pessoal dela e segurou seu queixo, puxando o rosto feminino de encontro ao dele.

— Você está péssima, Coração. — Tripudiou com um sorriso superior e levou uma bela de uma cuspida de Natalie na cara.

Uma satisfação quase animalesca tomou conta do meu corpo naquele momento, mesmo que eu soubesse que enfrentar Negan daquele jeito não fosse uma boa ideia.

A resposta de Negan veio rápida e dura, em forma de uma bofetada que ele pareceu dar com muito gosto. Segurei a arma com ainda mais força na mão, meu dedo tremendo no gatilho.

— Você está tão fodida que a sua rebeldia nem me deixa mais de pau duro, que decepção... — Negan deu alguns passos para trás.

Ele estava se afastando, quando seus olhos seguiram para o chão e ele viu a garota morta ali.

— Mas olha só... O que temos aqui, hein? — Sorriu ferino, cutucando a menina com o taco, sem nenhum tipo de respeito.

— Fique longe dela! — Natalie pulou em cima de Negan, e só então eu percebi que ela tinha uma faca em punho.

Ela de fato o atingiu, mas ele segurou seu corpo antes que a faca penetrasse totalmente em seu braço. Três Salvadores já tinham saído em defesa de seu chefe e contiveram Natalie.

— Sério? Toda essa maldita comoção por causa de um cadáver? — Negan apontou a garota, então observou a jaqueta rasgada e o sangue que escorria dali. — Devia ser alguém importante, não é?

Ele caminhou até Natalie ameaçador, invadindo seu espaço pessoal novamente, enquanto dois dos Salvadores a seguravam e o terceiro tomava sua faca.

Comecei a calcular minhas chances e a verdade é que não tínhamos chances, não com aquela quantidade de Salvadores ali a postos.

— Aposto que ela morreu por sua causa... É sua culpa. — Negan sussurrou em um tom falsamente compadecido. — Se você tivesse ficado no Santuário, ninguém precisaria se machucar...

Aquilo abalou Natalie, eu vi nos olhos castanhos que ela acreditava que era culpada por aquela morte.

Negan se afastou um passo, rodeando Natalie enquanto ela ainda era imobilizada pelos dois homens.

— Mas agora as pessoas vão se machucar, Natalie. Você pode contar com isso. — Ele balançou o taco no ar, como se estivesse prometendo que faria um home run no basebol. — Acho que vou começar com o Daryl... Lembra daquela conversinha que a gente teve sobre o ferro e o pau dele?

Natalie desviou o olhar, ela temia por Daryl e isso estava bem claro, mas eu não me preocupava com o caipira, ele nem estava ali naquele momento, Natalie estava, ela estava correndo perigo real, o lance com Daryl era apenas uma ameaça.

— O que acha, Bennet? — Negan se dirigiu a mim pela primeira vez. — É um bom começo para a sua vingança?

Era um teste, claro que era, ele não ia me encontrar ali com Natalie e deixar aquilo passar batido, ele não acreditaria na minha história, a menos que eu provasse.

Eu ainda não sabia como sair daquela situação, então resolvi ganhar tempo.

— É um ótimo começo, senhor. — Declarei, assumindo a postura de sempre.

— Não senhor, sim senhor, não senhor... — Negan revirou os olhos e caminhou na minha direção. — Isso é chato pra caralho! Vamos animar as coisas Bennet, vamos começar agora!

Meus olhos seguiram automaticamente para os de Natalie, mas ela ainda encarava a garota no chão, alheia ao que acontecia ao redor.

— Não temos o ferro, mas temos uma faca... — Negan tirou a minha faca do meu cinto, não se importando em ultrapassar qualquer limite de privacidade.

Ele limpou a lâmina na minha jaqueta e estendeu a mão para mim, insinuando que queria a semi-automatica que eu portava. Entreguei a arma, mesmo que a contragosto, e ele me entregou a faca.

Fez um sinal e os Salvadores arrastaram Natalie até nós, obrigando-nos a ficar cara a cara. Nossos olhos se encontraram e ela foi firme, sem esboçar qualquer reação que pudesse atrapalhar minha farsa.

— Dá pra deixar uma bela marca, não acha? — Negan questionou, traçando uma linha imaginaria que atravessava o lado direito do rosto de Natalie, roçando as costas do indicador na pele dela de propósito.

Meu corpo tremeu de raiva, e meu sangue ferveu nas veias. Eu precisava achar uma solução que mantivesse Natalie ao menos fisicamente segura, e me ocorreu uma coisa que podia dar certo...

— Acho que seria mais útil se a usássemos como um jeito de fazer os Alexandrinos se renderem, senhor — Sugeri, torcendo pra que Negan aceitasse minha proposta e assim eu conseguisse mais tempo para tirar Natalie daquela situação.

Negan nos rodeou, alternando olhares entre nós, até que parou atrás de Natalie, enquanto os dois Salvadores ainda a seguravam, um em cada braço.

Vi o maldito psicopata apoiar as mãos nos ombros dela, como se os massageasse, então se curvar, roçando a barba nela, com os olhos fixos em mim.

— Natalie não é moeda de troca. Ela é minha. — Ele sussurrou no ouvido dela, embora olhasse diretamente pra mim. Era uma ameaça bem clara. Por fim Negan sorriu e se afastou. — Eu pensei que você queria vingança, mudou de ideia?

— De jeito nenhum. — Respondi, controlando minhas emoções.

Eu odiava aquele homem com todas as minhas forças naquele momento.

— Então faça as honras. — Apontou como se estivesse me oferecendo um banquete, então pousou as duas mãos nos meus ombros, como tinha feito com Natalie momentos atrás. — Um corte fundo o bastante pra ela lembrar de você toda a vez que se olhar no espelho...

Negan se afastou alguns passos, olhando de mim para Natalie. Havia um ar de desafio em sua postura, e eu não conseguia pensar em um jeito de sair daquela merda de situação.

Encarei Natalie por alguns instantes e ela piscos três vezes, movendo sutilmente a cabeça em um movimento afirmativo, como se dissesse "faça". Ela sabia o que estava em jogo. Se eu não fizesse o corte, Negan acabaria fazendo.

Mesmo sabendo que era o único jeito de ter uma chance de tirá-la dali depois, eu senti que todo em mim se quebrava quando dei um passo para frente com a faca erguida.

Minhas mãos tremiam, eu encostei a lâmina na bochecha de Natalie e ela respirou fundo, com os olhos negros firmes nos meus.

— Ah, não, quer saber? — Negan me interrompeu e eu acho suspirei de alivio, até ouvir o fim da frase: — Eu acho melhor você atirar nela.

Ele caminhou até mim rapidamente e arrancou a faca da minha mão. Eu ainda não conseguia acreditar no que ele tinha acabado de dizer.

— Será que dá pra reproduzir aquela coisa grotesca que aconteceu com o Carl? — Negan apontou o próprio olho, fazendo menção ao garoto de Alexandria.

Natalie prendeu a respiração e uma onda de desespero começou a se alastrar pelo meu corpo.

— Ela não vai sobreviver... — Argumentei, incapaz de raciocinar com clareza.

Negan deu de ombros como se pra ele não fizesse a mínima diferença.

— Ela atirou em você e no seu irmão, acho um bom jeito de equilibrar as coisas, você não acha? — Ele tirou a própria arma do cinto e a entregou na minha mão. — Acabe com isso, Kane, atire.

Uma ideia arriscada passou pela minha mente, mas situações desesperadoras pediam medidas desesperadoras. Aquele era o único jeito. Eu nunca atiraria na Natalie, não daquele jeito. Aquele maldito tiro de raspão na perna ainda fodia com a minha consciência.

Então eu tinha que matar Negan.

Eu não sabia bem o que faria depois, nem como escaparia dos outros Salvadores, mas quando eles se vissem sem líder imediato ficariam perdidos e eu poderia trabalhar com isso. Depois teria que lidar com a fúria de Simon no poder, mas até lá, Natalie já estaria bem longe...

Preparei a arma e apontei para o rosto de Natalie, o olhar que ela me lançou foi de pura confusão, mas então ela não pareceu mais surpresa, como se soubesse o tempo todo que, cedo ou tarde, eu me voltaria contra ela, que não podia confiar em mim...

E aquele olhar, aquele simples olhar que durou menos de três segundos, me machucou mais do que qualquer coisa poderia... Ela estava magoada e eu nunca seria capaz de magoá-la, não daquele jeito. Eu nunca a trairia.

Aquilo só me deu mais certeza do que eu tinha que fazer. Destravei a arma e respirei fundo... Tchau, Tchau, Negan. Mudei a arma de posição no último segundo e puxei o gatilho bem na cabeça do Negan.

Nada aconteceu.

Não teve barulho.

Não teve tiro.

Algo tinha dado muito errado...

Tive tempo apenas de desviar do taco que atingiria meu rosto, quando ouvi o grito de Natalie cruzar o ar, eu fui rápido, mas não o bastante, Lucille atingiu meu braço de raspão e isso foi o suficiente para me jogar no chão.

Enquanto a dor se alastrava pelo meu ombro e eu observava que a jaqueta de couro tinha me protegido de um ferimento bem pior, Negan se abaixou perto de mim, com um sorriso vitorioso no rosto.

— Não achou que eu daria uma arma carregada para um traidor, achou? — Ele debochou. — Eu estava de olho em você, Bennet...

Eu finalmente enxerguei a situação como um todo, Negan tinha me passado a perna, ele tinha mexido com a minha cabeça pra me impedir de raciocinar direito, ele já estava andando com aquela arma descarregada porque queria me testar faz tempo. Ele nunca tinha acreditado em mim.

Encontrar com Natalie ali tinha apenas dado a ele a oportunidade perfeita...

Ele tinha me vencido no meu próprio jogo.

— Eu acho que você não é tão esperto quanto pensou. — Ele se colocou de pé e riu, enquanto me encarava de cima, balançando o taco perto do meu rosto. — Eu sou bem mais.

A risada sádica ecoou pelo lugar e ele seguiu na direção de Natalie, que tremia dos pés à cabeça com os olhos fixos em mim.

Eu só conseguia pensar que morrer por ela, era um ótimo jeito de morrer, mas eu não podia fazer isso de tirá-la das garras de Negan.

— Desçam a porrada no escravoceta, eu e a Natalie temos um minutinho pra assistir tudo de camarote. — Negan ordenou, passando o braço pelo ombro de Natalie em um tipo de abraço, enquanto todos os Salvadores seguiam na minha direção.

A pior parte não eram os socos e ponta pés me atingindo, não era a dor dilacerante que se espalhava pelo meu corpo, ou o gosto de sangue dominando meu paladar... A pior parte era ver Negan com as mãos em Natalie, tripudiando sobre a dor dela, quebrando-a um pouco mais, enquanto lágrimas escorriam por seu rosto.

— 'Tá vendo isso? — Ele apontou em um falso tom de compaixão. — É culpa sua. Entrando na minha casa, roubando os meus homens... Não suporto traidores, mas traidoras filhas da puta são ainda pior.

Minha vista começou a ficar nublada, quando um dos chutes atingiu meu rosto. Natalie tentou desviar o olhar, mas Negan segurou seu queixo a obrigando a continuar vendo toda a cena.

— Cada pessoa que você ama, vai sofrer, e você vai assistir a cada segundo. A dor deles é sua culpa. E eu quero que se lembre disso. — O tom compadecido tinha sumido, aquilo era apenas agressão e ameaça

Tentei levantar e fazer alguma coisa, mas outro chute atingiu minhas costelas e eu acabei cuspindo sangue enquanto despencava novamente.

— Já chega, não queremos que ele desmaie, não teria graça. — Negan fez um movimento displicente com a mão, agindo como se estivesse entediado.

Todos os Salvadores se afastaram um passo de mim no mesmo instante, me deixando no chão, sangrando e ofegante, com a dor dominando cada pequeno movimento meu. Até mesmo respirar doía naquele momento.

— Achamos as armas, senhor. — Um dos homens de Negan declarou, quando entrou no galpão.

— Olha que maravilha, um dia altamente produtivo esse! — O maldito exclamou como se estivesse no meio de um passeio no parque. — Então vamos lá, o Rick fodido do caralho precisa aprender uma lição!

Fez um gesto e dois dos Salvadores me ergueram do chão e me arrastaram pra fora, ao mesmo tempo que Negan obrigava Natalie a sair também.

— Não por favor, eu não posso abandoná-la aqui! — Ela implorou olhando o corpo da garota no chão. — Não! Eu prometi!

Tentei reagir, fazer alguma coisa, mas sequer conseguia erguer minha cabeça sem que tudo rodasse.

— Os seus gritos me irritam.... — Negan resmungou entediado, passando na frente do grupo. — Amordacem e amarrem ela, eu não quero fugas dessa vez.

Ele começou a caminhar na direção dos carros, mas parou de repente como se lembrasse de algo importante.

— Ah, e queimem toda esse merda. Eu não quero que a dona Natalie crie esperanças que um dia vai enterrar esse corpo... — Negan abriu um sorriso cruel antes de virar as costas.

Eu podia ouvir os gritos desesperados de Natalie e vi quando ela passou por mim, sendo carregada por dois Salvadores enquanto se debatia com violência. A amordaçaram depois disso, e tiveram que lidar com os errantes que apareceram atraídos pelo som do desespero.

Aquilo não era apenas uma vingança por tudo que tinha acontecido no Santuário, aquilo era Negan sendo desumano, era tortura, ninguém merecia aquela dor. Principalmente a Natalie.

Prometi para mim mesmo que mataria aquele homem, não importava quanto tempo demorasse. Eu o queria aos meus pés, queria que ele implorasse pela vida. Antes era apenas um jogo, mas ele tinha acabado de tornar pessoal...

Negan tinha derrubado a minha rainha, mas ele ia pagar por cada lágrima, nem que eu morresse tentando.

Me jogaram na traseira de uns dos caminhões baú, amarrando minhas mãos nas laterais da carroceria, no entanto o filho da puta não deixou que partíssemos, ele obrigou Natalie a assistir enquanto as chamas consumiam o galpão todo.

Por fim, a arrastaram para dentro do caminhão também, mas não a jogaram ali como eu, a deixaram de pé, mãos presas em uma das barras de metal que atravessava o teto do caminhão baú.

Torci para que nos deixassem sozinhos ali, mas é claro que eu não teria tanta sorte, Negan subiu no caminhão no último minuto.

Ele ainda tinha alguns joguinhos mentais...

Assim que os carros deram partida, seguindo em uma caravana para Alexandria, Negan sorriu para Natalie no fundo do caminhão.

Ela não conseguia se apoiar no chão, mesmo que fosse alta, seus braços estavam esticados para cima, a forçando a ficar nas pontas dos pés para manter o equilíbrio.

— Você deve estar tão triste agora, não é, Coração? — Negan fingiu compaixão, passando as costas dos dedos pelas bochechas de Natalie e tirando a mordaça dela. — Olha só o que você fez com a sua vida...

— Você vai pagar por isso! — Ela tentou atingi-lo com um chute, mas Negan desviou sem qualquer dificuldade.

Eu comecei a tentar soltar minhas mãos, aproveitando que Negan estava com a atenção em Natalie.

— Eu? — Ele colocou a mão no peito, como se não soubesse do que ela estava falando. — Isso já é o pagamento, Natalie, você não vê? Tudo isso é você pagando por todas as suas ideias estúpidas. Eu teria te dado o mundo, mas você preferiu seguir esses devaneios ridículos de liberdade. Todo esse sangue está nas suas mãos, não nas minhas...

Os dois se encaram por alguns segundos e Negan deu alguns passos para trás, enquanto passava a mão pelo rosto e ria sem humor, como se estivesse chateado.

— Todas essas pessoas sofrendo. Tudo que vai acontecer... Isso é culpa sua, Natalie, você os fez acreditarem que podiam contra mim, Sherwood não foi o bastante? Agora aquela pobre menina está morta, Kane está ali todo arrebentado, pessoas vão morrer em Alexandria... E o Daryl, ah pobrezinho... — Ele negou algumas vezes como se sentisse pena de verdade. — Você não seguiu as regras e estragou tudo... Você me obrigou!

O corpo de Natalie tremia descontroladamente e ela tentava segurar o choro, toda aquela situação era demais pra ela, ninguém seria capaz de aguentar tudo aquilo ao mesmo tempo, era humanamente impossível. Se continuássemos ali ela teria um colapso mental a qualquer segundo.

— Chorar não vai adiantar de nada agora, Coração... — Negan lamentou, dando alguns passos para frente e acariciando o rosto de Natalie. — Isso só te deixa feia e sem graça aos meus olhos...

Eu não conseguia soltar minhas mãos, então soube que tinha que atrair a atenção dele de outro modo.

— Não toque nela! — Gritei, querendo mudar o foco de tudo aquilo para mim, eu podia aguentar, e mesmo que não pudesse, eu não me importava.

Funcionou, Negan se virou na minha direção com aquele sorriso sádico e deu alguns passos até mim.

— Sério? Essa coisa de herói não caí bem pra você, Bennet... — Se agachou na minha frente e continuou a debochar. — Você está tentando tão desesperadamente ganhar a garota, mas sabe o que é engraçado?

Negan esperou alguns segundos, como se estivesse me dando um tempo para responder, mas eu permaneci calado, ainda tentando me soltar daquelas cordas e ele prosseguiu,

— A Natalie nem ama você... Ela ama o outro. — A pior parte de entrar naqueles jogos mentais com o Negan, é que na maior parte das vezes ele usava a verdade em favor próprio, ele enxergava nossa fraqueza, e era exatamente o que ele usava para nos quebrar. — Ela implorou por causa do Daryl, sabia? Ela fugiu com ele, e eu aposto que se você tivesse conseguido salvar essa desgraçada hoje, ela voltaria correndo pra chupar o pau do outro filho da puta. Você não se sente estúpido?

Eu sabia que cada palavra era verdade, mas o que o Negan não entendia é que eu não me importava, eu não podia controlar as escolhas de Natalie, eu só podia controlar as minhas...

Mas é claro que isso não mudava o fato de doer, ferir meu ego e magoar, mas esse era exatamente o jogo daquele maldito psicopata, e eu não podia deixá-lo vencer.

Percebi que Natalie tinha os olhos fixos em mim, ela estava assustada, toda sua linguagem corporal dizia isso, e eu evitei qualquer contato visual, para que Negan não usasse isso contra ela.

— Você pelo menos deu umazinha com ela? — Ele sorriu malicioso olhando de mim para Natalie e deduzindo a verdade de forma automática. — Caralho! Eu sabia que você era um merda, Kane, mas não pensei que fosse tão merda assim!

Negan riu com gosto, se colocando de pé e me encarando de cima por alguns segundos. Percebi que estávamos parando, o que indicava que tínhamos chegado a Alexandria.

— Mas quer saber? Eu vou ajudar você, Kane. Só porque eu sou um puta cara maneiro. — Negan riu de canto e aquele sorriso me assustou mais do que qualquer outro.

— O que você vai fazer? — Questionei quando ele começou a caminhar na direção de Natalie. — Fique longe dela!

Ele parou na frente dela e eu tentei a todo custo soltar minhas mãos, mesmo que isso fizesse cada músculo do meu corpo doer. O olhar de Natalie era um misto de ódio, desprezo e medo. Negan segurou as duas bordas da camisa dela e deu um único puxão, fazendo os botões voarem e baterem nas paredes metálicas do caminhão, produzindo um som que certamente habitaria meus pesadelos para sempre.

Negan deu um passo para trás e admirou o que tinha feito, enquanto Natalie estava exposta e humilhada, apenas de sutiã, com o que tinha sobrado da camisa pendurado em seu corpo. Eu senti vertigens daquela atitude e desviei o olhar.

— Viu? Você nunca chegaria nesse ponto se não fosse por mim... De nada. — Ele riu amigável, como se tivesse acabado de me fazer um favor. — Agora divirtam-se crianças, eu tenho assuntos para tratar com o Rick Fodido do Caralho.

Pulou do caminhão, em uma animação que me deixou enojado, e então se virou para nós dois com aquele mesmo sorriso sádico no rosto.

— Ah, e quando eu voltar, eu vou trazer meu Daryl, então a Natalie pode escolher qual de vocês vai ficar sem as bolas. — Piscou para ela, então focou em mim: — Alerta de Spoiler, ela vai preferir que eu arranque as suas, você nem está usando mesmo, Kane.

Saiu rindo, deixando a porta do baú aberta. Mal esperei que ele se afastasse o bastante, para me esforçar ainda mais para me libertar.

— Natalie, você precisa se soltar, acha que consegue? — Perguntei, evitando olhar para ela, para que isso não a envergonhasse ainda mais.

— Pra quê...? — Ela respondeu em um fio de voz carregado de sarcasmo.

Tive que encarar seu rosto por alguns segundos e ela chorava silenciosamente, como se nem forças para gritar tivesse mais.

Eu não podia deixar que aquilo acontecesse, ela estava desistindo, eu tinha que tirá-la dali.

Continuei me esforçando para tirar as cordas, enquanto podia ouvir Negan conversando com alguém ao longe. A voz chegava aos meus ouvidos muito abafada, por isso eu não podia distinguir o teor da conversa.

Comecei a sentir os primeiros sinais de que a corda estava cedendo e me empenhei ainda mais na minha tarefa, mesmo eu pudesse sentir meu pulso cortando e eu corpo todo tremer de dor a casa movimento mínimo.

Não tinha passado muito tempo, quando Connor apareceu do lado de fora do caminhão, ele tinha um rifle em mãos e um sorriso horrendo nos lábios.

— Vim dar uma olhada pra ver se vocês não estão aprontando... — Tripudiou, focando os olhos em Natalie de um jeito nojento.

Ficou ali urubuzando, me fazendo ter que diminuir meus movimentos pra não ser percebido. Ele não tirava os olhos do corpo de Natalie, chegava a lamber os beiços e mexer na própria calça freneticamente, me fazendo sentir tanto ódio que eu finalmente consegui soltar minhas mãos.

Mas eu ainda estava em desvantagem, ele tinha uma arma e não estava ferido, e eu não sabia se sequer conseguiria ficar de pé, por mais que eu quisesse, então tive que esperar pela oportunidade certa e ela veio, quando alguns veículos destruíram os muros de Alexandria, fugindo da cidade.

Connor teve que sair de seu posto e eu tive chance de me livrar definitivamente das cordas quando o caos começou a imperar. Eu podia ouvir Negan gritando ordens e sabia que não demoraria para alguém aparecer ali, por isso eu tinha que ser rápido.

Enquanto Natalie parecia alheia a tudo que acontecia ao redor, como se apenas seu corpo estivesse ali, eu me escorei nas paredes do baú para chegar até ela.

Cada passo era como uma tortura, eu podia sentir minhas costelas pressionando meus órgãos ao passo que mal sentia meu próprio braço de tanto que ele estava dormente. Talvez por isso eu tivesse demorado tanto para me desamarrar.

Natalie finalmente olhou para mim, quando eu me aproximei o bastante para amarrar a blusa dela de um jeito que seu corpo não ficasse tão exposto. Como da primeira vez que ela tinha me visto.

— O que você ainda está fazendo aqui? — Ela questionou como se não se importasse realmente.

— Essa é a pergunta mais idiota que você já me fez na vida. — Tentei aliviar o clima, enquanto a desamarrava, o que era uma tarefa difícil, já que meu braço não tinha firmeza nenhuma para ficar pra cima.

— Você precisa sair daqui enquanto ainda tem chances... — Natalie falou, encostando a cabeça no próprio braço como se estivesse cansada demais, como se já estivesse decidida a desistir.

— Sem você? Sem chance. Eu não vou pra lugar nenhum sem você — respondi de imediato. — Você é minha rainha, lembra?

— Eu não sou rainha de nada Kane, não percebeu isso ainda? — Havia um tanto de raiva em sua voz, mas eu não me importei, eu estava quase conseguindo soltá-la, só precisava que ela colaborasse um pouco.

— Tudo isso é em vão, não vê? Esse inferno nunca vai acabar... — Natalie começou a chorar outra vez, seu peito dando vários trancos como se respirar fosse uma tarefa muito complicada.

Segurei o rosto dela entre as minhas mãos por um momento.

— Olha, eu sei que você está cansada, devastada e quebrada. Eu sei quem aquela garota era pra você, e eu juro por Deus que eu entendo exatamente qual é a sua dor... — Olhei fundo nos olhos de Natalie, para lhe passar alguma segurança. — Mas eu prometo pra você que de um jeito ou de outro as coisas vão melhorar. Você não pode desistir agora.

Ela abaixou a cabeça, como se eu estivesse pedindo demais, como se minhas palavras não fizessem sentido. Natalie tinha movido o mundo para fugir de Negan e estava nas mãos dele outra vez, eu conseguia entender que ela sentia que todo seu trabalho tinha sido em vão, as coisas estavam ainda piores do que da primeira vez.

Eu podia ver a dúvida nos olhos dela. Fugir, passar por tudo outra vez, mas e se acabasse no mesmo lugar de novo? No entanto eu não podia deixar que ela desistisse, não ali, não naquele momento.

— Se você não puder fazer isso por mim, tudo bem, mas faça pelo seu filho. — Eu sabia que não era justo apelar daquele jeito. — Vários carros fugiram daqui agora a pouco, eu tenho certeza que ele está bem.

Os olhos de Natalie se iluminaram, como se ela tivesse sido puxada para a vida novamente.

— Como você sabe sobre o meu filho? — Questionou, erguendo um pouco o corpo, exatamente o que eu precisava para afrouxar o nó.

— Por incrível que pareça eu conheço você, Natalie... — Tentei sorrir, mas todo meu rosto doeu.

— Oh, que comovente, amor apocalíptico... — A voz atrás de mim debochou, ao mesmo tempo que eu ouvia a arma engatilhar.

Suspirei profundamente e ergui as duas mãos. Connor maldito!

— Isso mesmo, se vira devagar e se afasta dela. — Fiz o que me foi ordenado e Connor subiu na boleia junto comigo, apontando a parede que eu estava antes.

Mas eu não ia deixar aquele idiota me prender outra vez, mesmo que eu morresse tentando. Natalie já estava quase solta mesmo.

Eu podia ouvir que um ataque prosseguia em Alexandria, Negan estava destruindo a cidade e eu podia jurar que tinha ouvido alguns carros do Santuário partindo atrás dos moradores fugitivos. Com todos tão distraídos podia ser a única chance de Natalie.

Assim que o Connor se aproximou o bastante eu me joguei sobre ele e nós dois caímos para fora do caminhão ao mesmo tempo que o rifle caia para o outro lado. A queda fez todo o ar sumir dos meus pulmões por causa da dor, isso tirou toda a minha vantagem, se é que eu tinha alguma. Connor rolou por cima de mim e me deu um gancho de direita que me desnorteou por alguns segundos.

Eu tentei revidar, mas ele colocou as duas mãos ao redor da minha garganta, enquanto me imobilizava com o próprio peso, eu continuei tentando atacar, no entanto a cada segundo que passava era como se minha mente ficasse mais distante...

O ar começou a faltar nos meus pulmões e o primeiro sentido que eu perdi foi a audição. Os tiros e gritos que aconteciam ao fundo eu já não ouvia mais, era como se eu estivesse debaixo da água. O tato foi o próximo, eu não sentia meus dedos, nem meus braços, a dor sumiu e minha cabeça começou a zunir conforme minha vista embaçava.

O paladar ainda estava lá, eu sabia disso por causa do gosto de fumaça na minha boça. É eu sei, fumaça é um cheiro, mas era como se eu a engolisse naquele instante, como se ela grudasse no céu da minha boca cada vez que eu arfava em busca de ar.

E então acabou. A escuridão me engoliu e foi como uma queda no vazio... Segundos? Minutos? Horas? Eu estava morto? Não sei...

Não tive tempo de pensar nas respostas, porque quando me dei conta era como se houvesse ar sendo soprado dentro dos meus pulmões. Todos os meus sentidos voltaram de uma só vez e eu tive plena certeza que tinha uma boca sobre a minha.

Meu corpo reagiu instintivamente e quando abri os olhos eu já buscava por ar quase desesperadamente.

Senti mão delicadas, mas firmes segurarem meus ombros e só então percebi que Natalie estava ajoelhada ao meu lado, com um olhar preocupado.

Pisquei algumas vezes e olhei ao redor tentando entender o que tinha acontecido. Ainda estávamos no meio do caos da invasão de Alexandria, os tiros e explosões se misturavam com a fumaça, como se não tivesse passado nem um segundo.

Procurei Connor com o olhar e o vi ali no chão... morto. Havia uma corda em seu pescoço e só então eu tive um vislumbre do que podia ter acontecido.

Eu tinha apagado, Natalie tinha conseguido se soltar e então usara a corda que prendia suas mãos para enforcar Connor, então ela me trouxera de volta, provavelmente usando respiração boca a boca.

Natalie tinha me salvado. De novo. Só que era bem literal daquela vez.

— Já é quase rotina... — Tentei debochar, mas minha voz mal saiu de tanto que minha garganta doía.

Vi que Natalie já tinha se afastado e recuperava o rifle no chão, quando me encarou por alguns segundos como se não conseguisse entender o que eu tinha acabado de dizer.

Como ela entenderia? Eu nunca tinha contado...

— Disse que viu veículos escapando de Alexandria. Pra qual direção? — Ela perguntou engatilhando o rifle e ocultando sua posição atrás do caminhão.

— Leste. — Apontei, tentando me levantar do chão e falhando naquela simples tarefa.

Natalie estendeu a mão para me ajudar e havia algo diferente em seus olhos, um tipo de determinação que não estava lá antes, mesmo assim suas íris estavam apagadas, o que foi o suficiente para que eu soubesse que ela estava sendo forte porque precisava ser, não porque ainda tinha forças.

Aceitei a ajuda e manquei um pouco até conseguir me escorar no caminhão, eu tinha quase certeza que uma das minhas costelas estava quebrada, mas não dava tempo de reclamar.

Natalie revistou o corpo de Connor e encontrou a minha semiautomática e uma faca, me entregou a arma e deixou a lâmina no cinto.

Ela encostou no caminhão também e respirou profundamente, como se tivesse carregando o peso do mundo nos ombros. Eu podia imaginar como ela se sentia, estando separada do filho novamente por causa de Negan.

— Seu filho está bem. Daryl sabia da invasão, ele avisou seus amigos. Eles fugiram juntos, eu tenho certeza. — Declarei, com os olhos alertas nos portões de Alexandria. Eu não tinha, mas preferi acreditar que o Caipira tinha feito bom uso da vantagem que eu dera a ele.

Natalie me encarou de sobrancelhas franzidas, estava claro que ela queria perguntar alguma coisa, talvez sobre meu encontro com Daryl, no entanto ficou calada e apenas assentiu, olhando ao redor, como se estivesse montando um plano.

Logo os Salvadores voltariam, e eu sabia que Negan não deixaria a gente escapar.

— Você tem que ir agora. Eu os seguro o máximo que puder. — Preparei a arma e encontrei uma posição que me dava uma visão melhor.

Natalie tinha que partir, mas eu ficaria e mataria Negan, não importava que fosse a última coisa que eu faria na vida. Eu sabia que se Simon assumisse o controle seria um caos ainda pior, já que a sede de sangue dele era muito maior que a de Negan, mas naquele ponto o atual líder dos Salvadores tinha um alvo marcado, Natalie especificamente, e isso mudava tudo. Ele não podia ficar vivo.

Olhei na direção de Natalie, para me despedir dela uma vez mais, porém a vi parada exatamente no mesmo lugar, com os olhos fixos em mim.

— Vai! — Acenei, sabendo que ela não tinha muito tempo, eu não queria beijos de despedida daquela vez.

Ela não se moveu.

— Eu não vou pra lugar nenhum sem você... — Ela repetiu minhas palavras de antes e eu fiquei sem saber se aquilo era gratidão ou qualquer outra coisa.

Natalie ergueu o rifle e atirou nos pneus dos veículos dos Salvadores, deixando apenas um carro intacto.

— Algo distraiu Negan dentro de Alexandria, mas você está certo, se Daryl sabia do ataque, ele tirou Petter daqui, então não tenho nenhum motivo para lamentar essa comunidade em chamas. Precisamos reagrupar, tratar nossos ferimentos e pensar em um plano definitivo para acabar com Negan de uma vez por todas. — A voz de Natalie não tinha qualquer emoção, ou melhor tinha uma: ódio. Seu tom era tão frio que teria congelado o inferno. — E eu preciso de você pra isso, já ficou bem claro que Rick é péssimo nessa coisa de fazer planos.

As palavras dela ecoaram na minha mente em um looping infinito que fez algo se agitar dentro de mim.

— Então você vem? — Perguntou, apontando o carro que deixara com os pneus inteiros.

Eu ainda queria vingança, eu ainda queria Negan morto... Mas nada, nem meu vício em jogos, nem minha sede de sangue, absolutamente nada era mais importante para mim naquele momento do que Natalie Cooper. Então, se ela precisava de mim, ela nunca teria que pedir duas vezes. Eu iria ao inferno por aquela mulher se fosse preciso.

Assenti no mesmo momento e Natalie copiou o meu gesto de cabeça erguida. Havia algo diferente nela, eu não sabia como ela estava de pé, mas era como se ela estivesse usando a dor como combustível.

Eu estava certo, a rainha tinha caído, mas uma fênix havia renascido de suas cinzas...

Notas finais
Pois é Negan sendo Negan e ferrando com o emocional de todo mundo... Kane se deu muitooo mal tadinho... Mas apesar de toda a treta, esse capitulo marca não só a Natalie assumindo uma postura muito mais fria e decidida quanto a guerra, mas também coloca ela e o Kane no mesmo núcleo a partir de agora (eu gosto é de fogo no parquinho gente kkkkkk) No proximo temos reencontro DixChechas, Petter, e por aí vai. Natalie narra. Nos vemos em breve! Bjss!!