Notas iniciais
Hello! Cheguei com capitulo quentinho da nossa sofrencia preferida, então apertem os sintos que estamos prestes a passar pelo turbilhão de emoções que tá rolando na cabecinha da Natalie... Boa leitura!

• NATALIE COOPER •

Silêncio. Minha mente estava parada em um limbo do espaço tempo e tudo que havia era silêncio, ao redor tiros ecoavam ao longe, bombas e explosões. Eu sabia que Alexandria tinha caído e não sentia nada sobre isso.

O motor roncava, mostrando que meu pé estava fundo no acelerador e, apesar do som que ecoava no carro e fora dele, dentro da minha mente todo que havia era silêncio...

A ausência de qualquer pensamento era atípica, eu sempre pensei demais, sempre tive a cabeça cheia de coisas, passado, presente e futuro, toda uma vida de possibilidades e planos. Mas naquele instante não havia nada.

E eu gostava do vazio, flertava com aquela calmaria e me envolvia nela, porque qualquer coisa que me impedisse de sentir, por pelo menos alguns segundos, parecia acolhedora e amiga.

Eu estava parada no nada dentro de mim, sabendo plenamente que era aquilo que eu queria. Nada mais de guerras, nada mais de dor, nada mais de decisões de vida ou morte. Eu estava cansada de lutar e ser forte, eu só queria ficar ali, presa naquele lugar da minha mente onde só havia paz e silêncio.

Mas, como se a vida fizesse questão de esfregar a realidade na minha cara, um errante apareceu na estrada e, já que eu não desacelerei, seu corpo se chocou com o carro, espalhando sua gosma preta pelo para-brisas. Forçando meu cérebro a pegar no tranco e ligando o interruptor de pensamentos dentro da minha mente.

Tudo voltou... Luka... em uma cacofonia sonora e visual as lembranças se amontoaram na minha mente me obrigando a sentir tudo de uma só vez. A dor, culpa, ódio e arrependimento se amontoaram ao redor do meu coração, me impedindo de sentir qualquer outra coisa e ao mesmo tempo me fazendo sentir tudo junto.

Passado, presente e futuro começaram a se confundir e se misturar, de repente tudo parecia terrível, era como estar caindo e saber que a queda vai te matar, mas ao mesmo tempo nunca chegar ao fim do abismo. Como se alguma força cósmica quisesse perpetuar a dor dentro de mim, me negando o consolo da morte.

Morrer era fácil e indolor. Mas não era permitido que eu morresse.

Mães não podem morrer, mães não podem desistir.

Lutar pelos meus filhos sempre tinha sido minha fonte de força e resistência, mas naquele momento em que eu sabia que tinha falhado com Luka, continuar lutando por Petter me parecia um fardo.

Não era certo ou justo pensar assim do meu menino, por isso eu afastava esse pensamento e procurava por qualquer coisa que me fizesse ficar de olhos abertos por mais um momento.

No entanto, era difícil permanecer sã quando todas as minhas decisões até ali pareciam uma sequência de falhas com consequências severas.

Revivi meu momento no caminhão de Negan e procurei por aquela chama que tinha me feito matar Connor. Era apenas ódio, puro e simples, não tinha proposito ou razão, mas matar um Salvador tinha feito tudo em mim sumir por um instante e aquele breve instante de silêncio tinha valido a pena.

Talvez fosse isso. Talvez Luka estivesse certa e eu tinha que lutar. Talvez ficar longe daquela guerra tivesse sido o meu grande erro... Ou talvez não arrastar aquelas duas crianças adoráveis e teimosas para bem longe é que realmente tenha sido um erro.

Não.

Tentei impedir meus pensamentos de fluírem por esse lado, afinal era ainda mais doloroso, e foquei no ódio outra vez. Se aquele tipo de sentimento era o que eu precisava para seguir em frente, então era naquele sentimento que eu me apoiaria.

Eu me sentia lutando contra mim mesmo. Sem rumo e sem um plano. Mas continuar lutando era a única coisa que me mantinha viva, e eu tinha que continuar viva. Eu tinha, mas isso não significa que eu queria...

— Quer que eu dirija um pouco? — A voz de Kane soou ao meu lado e isso afastou um pouco todos os pensamentos que anuviavam minha mente.

Ele estava sentado no banco do passageiro, dando um jeito no ombro atingido pela Lucille com um kit de primeiros socorros que tinha encontrado no carro.

Eu estava surpresa com ele, ou melhor com as atitudes dele, Kane me deixava confusa, a primeira imagem que eu fiz dele tinha se provado errada e de repente ele parecia alguém com quem eu podia contar.

Era estranho. Mas pensar demais era cansativo e eu percebi que precisava de um aliado de verdade, afinal confiar nos planos de Rick Grimes não dera muito certo para mim...

Ou talvez aquilo fosse apenas meu emocional frágil projetando em Kane a figura que eu precisava naquele momento. Porque, apesar de tudo, ele estava lá no meu pior momento. Talvez houvesse algum apelo em ele ter sofrido tanto por minha causa.

— Eu estou bem. — repeti mecanicamente, como se essa fosse a resposta perfeita para a pergunta que ele tinha feito. Mas a verdade é que eu sequer me lembrava mais qual era a tal pergunta.

— Não. Você não está... — Kane negou depois de me encarar por alguns momentos e meu corpo tremeu, não era possível que ele me conhecesse daquele jeito. — E você não tem que estar. Você não tem que ser forte o tempo todo, você é humana. Se você quiser conversar, ou só precisar de um ombro pra chorar... Eu estou aqui.

Por um segundo eu tive vontade de parar ali mesmo e simplesmente aceitar a oferta, deitar no ombro dele e chorar até passar. Mas eu sabia que não podia fazer isso naquele momento. Eu precisaria de dias pra colocar tudo pra fora e eu não tinha todo esse tempo. Eu precisava encontrar meu filho.

De toda a forma foi um certo alivio saber que ele não exigira que eu fosse forte o tempo todo. Saber que teria alguém lá por mim foi o melhor que eu podia ter escutado naquele momento.

— Como você está? — Resolvi mudar de assunto.

— Eu já levei surras piores, se quer saber... — Kane tentou dar de ombros, mas esse movimento vez com que ele soltasse uma exclamação mínima de dor. — Uma surra não é nada, sério.

Kane não precisou dizer, seu olhar foi o bastante para que eu entendesse que ele se referia ao que aconteceu comigo, ele me deu um sorriso compassivo e eu apenas soube que ele sentia muito por Luka.

Ele parecia entender o que ela significava pra mim, mesmo sem eu nunca ter dito, assim como ele sabia que Petter era meu filho. Era um certo alivio que eu não estivesse sendo bombardeada com perguntas naquele momento.

Ao longe eu pude ouvir o som de alguns tiros, mas eles não vinham de Alexandria, e sim da estrada. Meu coração deu um salto e eu acelerei ainda mais o carro.

Não demorou muito para que eu visse que havia uma barreira de carros logo a frente, reconheci Rosita na frente do farol e olhei ao redor procurando por Petter. Ao invés disso reconheci Daryl, arrancando o colete asas de Dwight que estava sentado no chão, ao lado de um dos carros.

Mas que merda é essa? Eu ainda estava com a pergunta em mente, quando um tiro atingiu o para-brisas e passou raspando ao lado da minha cabeça.

Mal tive tempo de jogar o carro para a esquerda, antes que o segundo disparo atingisse a lataria, eu reconheci Tara com a arma na mão. Ela provavelmente estava pensando que era um dos Salvadores, mas isso não me impediu de ficar com raiva dela.

Como eu disse antes, eu estava me apoiando no ódio e ódio era um sentimento incrivelmente fácil de cultivar.

Desviei de mais um tiro e isso me fez perder a direção, jogando o carro para a esquerda, fazendo-o descer o barranco ao lado da pista. Consegui frear no último segundo e isso fez com que nossa colisão com uma árvore não fosse fatal. Foi por um triz. Era como se a morte estivesse sempre desviando de mim.

— Kane?? — Chamei antes mesmo de pensar sobre isso e fui pega de surpresa com essa preocupação.

— Eu estou bem. Mas da próxima vez eu dirijo. — Ele riu e eu não sabia se era por ter achado graça realmente, ou se era apenas uma risada de nervoso. — Pronta?

Respirei fundo. Eu não sabia se estava pronta pra mais nada. Eu queria reencontrar meu filho, mas sabia que isso seria apenas o começo, nada acabaria...

— É nem, eu... — Kane concordou, como se soubesse o que eu estava pensando e abriu a porta do carro.

— Mãos para o alto agora! Quantas pessoas tem com você aí? — A voz de Tara soou autoritária.

Respirei fundo um tanto entediada com toda aquela merda e também desci do carro.

— Ele está comigo, Tara. — Declarei em alto e bom som.

A morena manteve a arma erguida, mas seus olhos focaram em mim, arregalados, como se ela tivesse acabado de ver um fantasma.

Lembrei vagamente de Kane me dizendo que pensou que eu estava morta, e depois citando que tinha encontrado com Daryl. De alguma forma tinha chegado a Alexandria a notícia que eu estava morta.

Talvez alguém do Reino tivesse sobrevivido e dito aquilo... Eu conseguia entender essa parte, porém não conseguia entender a parte em que Daryl pensava que eu estava morta, mas não tinha ido procurar por mim.

Foi obrigada a voltar as lembranças do galpão, horas e horas esperando que qualquer um aparecesse, porque eu não podia fazer aquilo sozinha. Eu só queria que Daryl tivesse chegado me abraçado e tirado aquela faca da minha mão, porque eu não podia fazer aquilo, eu não podia matar a minha própria filha, mesmo que aquilo não fosse mais a Luka que eu conhecia.

Mas Daryl não apareceu, e eu percebi que eu estava sozinha, foi o pior sentimento de todos... Eu teria ido atrás dele até no inferno por meia hora de atraso, e ele não tinha ido atrás de mim por horas, mesmo pensando que eu estava morta? Em que mundo isso fazia sentido?

— Natalie? — A voz de Daryl soou trêmula e eu ergui os olhos para vê-lo largando a crossbow e correndo na minha direção.

Eu mal tive tempo de reagir antes que ele cruzasse o espaço entre nós e envolvesse meu corpo em um abraço apertado, como se quisesse me impedir de ir a qualquer lugar, como se eu fosse a coisa mais importante no mundo dele...

Aquele era exatamente o tipo de abraço que eu queria, era o que eu precisava, mas naquele momento... eu não senti nada.

Ele se afastou um pouco e segurou meu rosto com as mãos me olhando da forma que eu sempre quis que ele me olhasse, como se eu fosse única no mundo. Daryl beijou meus lábios com desespero, sem se importar que estivéssemos na frente de tudo mundo.

E tudo que eu conseguia pensar é que ele não estava lá quando eu mais precisei. De novo.

Eu sabia que Daryl tinha um motivo perfeitamente justificável em sua mente, esse era o problema, ele sempre tinha um motivo, um trauma, um problema... uma barreira que o impedia de estar comigo no momento em que eu mais precisava. E eu o amava apesar disso e certamente continuaria amando, porque afinal não amamos alguém "por causa de" e sim "apesar de", mas naquele momento em particular eu estava cansada demais e machucada demais para sentir qualquer coisa, mesmo que aquele abraço e aquele beijo fossem exatamente o que eu queria.

Dei um passo para trás e reparei que Tara ainda mantinha a arma erguida em direção a Kane, que parecia usar toda a sua força apenas para permanecer de pé.

— Eu disse que ele está comigo, Tara. — Reforcei, sentindo Daryl segurar minha mão para que eu não me afastasse mais.

— Mas ele é um Salvador! Ele saqueou a nossa cidade. — Tara devolveu dando dois passos agressivos em direção a Kane.

— Ele está comigo, e é meu amigo. — Repeti pela terceira vez, sendo ainda mais incisiva, no que Michonne intercedeu e Tara se afastou.

Daryl alternou um olhar confuso entre mim e Kane, mas nada disse, apenas me puxou para ele novamente, segurando meu rosto entre as mãos como se precisasse se certificar que aquele momento era real.

— Hey... — Seus olhos azuis examinaram cada parte do meu rosto. — Eu pensei que você estivesse morta... Eu...

Ele não conseguiu terminar, eu podia ver a emoção em seu rosto, podia ver o quanto significava para Daryl eu estar ali, mas não conseguia compartilhar daquele sentimento.... logo eu, que sempre fui tão empática com todos a minha volta, principalmente com Daryl Dixon, não conseguia me envolver o bastante naquele momento.

— O que aconteceu? — Ele questionou quando baixou os olhos e notou minha camisa amarrada de qualquer jeito no meu corpo, mal cobrindo meu sutiã.

Eu mantive meus olhos em Daryl por alguns segundos, a pergunta dele parecia distante e insignificante, era como se ele estivesse preocupado com uma gota de água no meu corpo, enquanto eu me afogava em um mar salgado.

— Onde está o Petter? — Ignorei a pergunta de Daryl e fiz a minha própria, focando em algo que julguei mais importante do que reviver as últimas horas.

— A salvo. Debaixo da cidade. Foi um plano do Carl. — Ele pareceu muito seguro do que disse e sorriu de canto por algum motivo que eu não era capaz de entender naquele momento. — Vamos, Petter vai ficar feliz em te ver.

Daryl envolveu minha cintura como se precisasse me ajudar a andar e naquele momento eu comecei a ficar um tanto irritada com ele. Com o que ele estava esquecendo de notar...

Não sei dizer exatamente o motivo, mas meus olhos buscaram os de Kane, e ele estava lá, sustentando o meu olhar de modo firme, como se soubesse exatamente o que estava na minha mente. Ou talvez fosse apenas impressão.

— Acho que entende que eu tenho que pegar sua arma, não é? — Ouvi Michonne dizer, enquanto o revistava, mas Kane não parecia preocupado com ela, de modo que não se importou em ser desarmado, apenas mante os olhos em mim, todo o tempo.

Era estanho eu me sentir menos sozinha por causa disso?

— Espera... — Daryl finalmente começou a olhar ao redor. — Onde está a Luka?

Eu virei o rosto na direção dele e sentir que estava prestes a desabar, prestes a chorar tudo que eu precisava. Eu queria apenas sentar e chorar, por horas, talvez dias, talvez se eu colocasse toda a dor para fora ela apenas fosse embora, ou ao menos diminuísse.

Daryl acariciou meus ombros e não parecia saber o que dizer.

— Você tem que ser forte agora... — Tentou me encorajar em um tom carinhoso, mas senti que ele estava pedindo demais de mim. Seus braços me envolveram novamente, mas eu não senti que seu abraço me consolava, senti que era apenas um pouco mais de pressão sobre os meus ombros. — Sinto muito... mas vai passar, eu prometo...

Eu quis acreditar nele, quis com todas as minhas forças, mas eu sabia que ainda existia um longo caminho até que finalmente passasse...

Daryl tentou me amparar pelo caminho, mas por mais que minha perna estivesse doendo, eu me senti um pouco sufocada com ele tão perto de mim.

— Eu consigo andar sozinha. Obrigada. — Agradeci, tocando o ombro dele de leve e dei dois passos para a direita.

Começamos a andar e instintivamente procurei por Kane com o olhar, estava pronta para voltar a ajudá-lo, quando ele fez um gesto dizendo que podia prosseguir sozinho.

Percebi que Daryl lançava um olhar para Kane volta e meia, nada contente com a presença dele, mas não fez perguntas, o que foi uma boa decisão da parte dele.

Tínhamos que voltar andando, para não sermos notados pelos Salvadores que ainda estavam em Alexandria. Notei que Rosita e Tara escoltavam Dwight, que segurava o braço e caminhava devagar, o que me fez notar que ele estava ferido.

Reparei que Daryl trajava o colete de asas, o mesmo colete que eu tinha dado para ele anos antes na pedreira, na primeira noite em que fizemos amor, parecia há uma vida, eu não me sentia mais aquela menina. Eu não sentia mais aquela felicidade.

Chegamos na entrada do esconderijo, que dava acesso aos túneis inativos que passavam por baixo de Alexandria. Michonne disse que tinha que voltar e procurar por Rick e eu a vi partir, enquanto Daryl descia primeiro.

— Pai! — Ouvi a voz de Petter ao mesmo tempo em que Daryl me ajudava a descer. Os olhos do meu filho focaram em mim e ele abriu o melhor dos sorrisos, mas eu não senti qualquer felicidade, na verdade, foi como se o meu coração tivesse se partido um pouco mais naquele momento. — Mãe! Eu fiquei preocupado. Você está machucada?

— Eu estou bem, Pequeno Gafanhoto. — O peguei no colo, desconsiderando qualquer desconforto ou dor que isso me causou e o apertei contra o meu corpo, tentando ser a fortaleza que ele precisaria que eu fosse naquele momento.

No fundo do túnel eu pude ver as outras pessoas de Alexandria, inclusive Carl, sentado ao lado de um homem que me era estranho, com Bolt descansando em sua perna.

Aos poucos todas as pessoas que estavam na estrada entraram no túnel e eu vi os olhos de Petter seguindo cada uma delas como se esperasse por alguém.

Como se esperasse pela irmã.

Dwight teve que ajudar Kane e assim que Rosita passou pela abertura no chão e fechou a grade os olhos de Petter seguiram para mim em um misto de tristeza, desolação e entendimento.

— Ela não vai vir, não é? — Meu pequeno perguntou, já sabendo a resposta, seus olhos enchendo de lágrimas no mesmo instante.

Neguei muito devagar, envergonhada por falhado em tudo que eu acreditava ser importante. O corpinho de Petter tremeu no meu colo, e ele abraçou forte meu pescoço, caindo em um choro sentido e dolorido, que era um reflexo do meu próprio estado emocional. Eu não conseguiria ser a rocha que meu filho precisava naquele momento. Eu não podia fazer aquilo sozinha.

Tentei não chorar e permanecer forte, mas a verdade é que eu desabaria a qualquer momento, foi então que Daryl tocou meu braço de leve, mostrando que estava ali e eu apenas me aproximei dele, encostei a cabeça em seu ombro, com Petter entre nós e deixei que ele me amparasse.

Daryl levou alguns segundos para nos abraçar, mas quando ele finalmente fez eu apenas escondi a cabeça na curva de seu pescoço e chorei silenciosamente, me dando conta que todos os meus sentimentos eram uma total bagunça.

Em um segundo eu estava magoada com Daryl e no outro era como se ele fosse a única coisa que pudesse me manter viva. Eu precisava dele, essa era a verdade, não importa que eu estivesse com raiva do mundo, não importava que eu estivesse com raiva do próprio Daryl por conta da mágoa, eu o amava mesmo assim...

Deixei que ele me levasse para um lugar mais reservado e já estávamos sentados naquele canto fazia um tempo, com Petter ainda muito abalado, deitado no meu colo, segurando a mão do pai e com Bolt ali aos meus pés, quando Rick chegou com Michonne.

Seu primeiro instinto imediato por procurar por Carl e Judith, eu praticamente pude vê-lo suspirar aliviado quando abraçou as crianças. Rick tinha sorte.

Carl contou sobre como tinha salvo o grupo e sobre o homem que ele tinha ajudado na estrada, que pelo que entendi se chamava Siddiq, Rick não pareceu muito feliz com aquilo, mas ficou ainda menos feliz, eu diria até irritado, quando percebeu Kane sentado em um canto afastado.

— O que ele está fazendo aqui? — Percebi que ele estava prestes a sacar a arma, quando Michonne o deteve, antes mesmo que eu fizesse menção de me levantar.

— Ele veio com a Natalie. — Ela apaziguou e enfim Rick me viu ali.

Seus olhos foram rápidos em vasculhar o lugar, e eu soube que ele não precisou de dez segundos para entender o que tinha acontecido. Quem estava faltando...

Rick encarou o filho por alguns segundos e Carl abaixou a cabeça, como se confirmasse as suspeitas do pai. Eu vi as mãos do xerife tremerem quando os olhos dele seguiram para mim.

Ele se sentia culpado. E eu não podia ajudar, porque naquele momento uma pequena parte de mim também o culpava...

— O que aconteceu? — Rick perguntou em um tom compassivo, que acabou me irritando mais do que devia e eu nem sei dizer o exato motivo para isso.

— Você precisa mesmo de uma resposta, Rick? — Respondi, e mesmo que eu tivesse tentando controlar, minhas palavras saíram em tom claro de acusação.

Era o plano dele afinal...

— Sinto muito... Eu... — Rick abaixou a cabeça e não soube o que dizer, pareceu abalado por aquele acontecimento como poucos homens naquela posição ficariam.

Meu corpo inteiro tremia de raiva e eu senti uma imensa vontade de gritar, mesmo que lá no fundo uma parte minha lutasse para me mostrar que todo aquele ódio não era certo.

Rick não tinha culpa. Daryl não tinha culpa. Eu sabia disso, mas eu ainda sentia ódio o tempo todo, de tudo e de todo mundo. E naquele momento me parecia que aquele sentimento amargo era a única coisa que me mantinha viva.

Respirei fundo e encarei Daryl por alguns segundos, perguntando a mim mesma como era possível que eu amasse e odiasse uma mesma pessoa de formas tão intensas e opostas daquele jeito...

Não fazia sentido.

— Onde você deixou ela mãe? — A vozinha quebrada de Petter chamou minha atenção. — Onde você deixou a Luka?

Ele ergueu minimamente a cabeça para me encarar, enquanto esperava por uma resposta. Percebi que tinha alguns pares de olhos sobre mim, como se todos esperassem por uma explicação, afinal ninguém sabia o que tinha acontecido comigo em todas horas em que fiquei sumida.

O problema é que eu não queria contar, não para todas aquelas pessoas, e certamente não para o meu filho de dez anos.

Olhei para Petter por alguns segundos e simplesmente soube que jamais poderia fazer com que ele sofresse o que eu sofri. Ver o corpo de Luka queimar sem qualquer dignidade, tratada como uma indigente, era algo que jamais sairia da minha mente. Era como se eu ainda pode sentir o cheiro. Eu não podia fazer aquilo com o meu filho...

— Teve uma explosão, e a Luka se feriu, nada podia ser feito. Mas ela não sofreu, ela foi uma guerreira muito corajosa e ela disse que nos ama muito. — Acariciei o rosto de Petter e tentei sorrir, mesmo que uma lágrima rolasse pelo meu rosto. — Então, eu cuidei para que ela não se transformasse, eu a tirei do galpão, a coloquei no carro e dirigi, procurei por um lugar lindo e pacifico, longe de toda aquela bagunça e de todos os errantes...

Baseei minha mentira no que eu queria ter feito pela minha filha, não deixar que ela se transformasse em outra coisa e um enterro descente, pra que ela descansasse em paz como merecia.

— Encontrei um campo, com girassóis e até um riacho. Então eu fiz um túmulo que em algumas semanas vai estar coberto de flores, e ela nunca vai estar sozinha, porque os pássaros e as abelhas vão fazer companhia para ela todos dos dias. Ela vai estar em paz, como ela merece.

Tentei sorrir e limpei as lágrimas, era como se a dor dilacerasse o meu peito e abrisse uma ferida que nunca seria capaz de cicatrizar, eu tinha falhado com Luka e então estava mentindo para Petter, logo eu que nunca quis mentir pra ele.

Que tipo de mãe eu tinha me tornado?

Petter deu um suspiro profundo e se aconchegou nos meus braços, respirando aos trancos, como se seus pulmões estivessem cansados de tanto chorar.

— Você fez bem, mãezinha, ela vai gostar disso. — Ele me deu um sorriso fraco e inocente, acreditando em cada mentira que eu tinha acabado de contar. — Acha que pode me levar lá? Depois que tudo isso acabar, eu gostaria de dizer pra minha irmã que fiz tudo que ela falou, e ajudei a salvar uma pessoa hoje.

Ele parecia orgulhoso de si mesmo, mas eu não quis fazer perguntas naquele instante.

— Claro, Pequeno Gafanhoto, qualquer dia eu te levo até lá. — Acariciei seus fios castanhos, sentindo que aquela nova mentira tinha um gosto amargo, era como uma promessa que eu nunca poderia cumprir. — Mas enquanto isso não acontece, você sempre vai poder falar com a sua irmã, porque ela está aqui no seu coração.

Petter assentiu e fechou os olhos, se aconchegando ainda mais no meu corpo, como se eu pudesse protegê-lo de toda a dor do mundo, como se ele confiasse que eu faria tudo ficar bem. Mas eu não podia fazer nada daquilo.

Busquei olhar de Daryl, e ele entrelaçou meus dedos com carinho, me dando um sorriso compassivo que não era o que eu precisava. Ele também tinha acreditado na minha mentira. Como? A verdade não parecia tão óbvia?

Ele realmente acreditava que a realidade em que vivíamos comportava algo daquele tipo? Ou ele apenas queria acreditar naquilo porque era mais fácil? Talvez ele apenas confiasse que eu nunca mentiria para o meu filho.

Olhar para Daryl Dixon naquele momento não me trouxe paz, senti que estávamos em realidades separadas, ou melhor, estávamos na mesma realidade, mas tínhamos pontos de vista diferentes dela. Daryl sentia que tinha ganhado, porque eu estava de volta, pensar que eu estava morta e depois me ver viva certamente colocava um tanto de positividade e esperança no coração dele, a morte de Luka pesava menos, não só porque ele mal a conhecia e não tinha qualquer vínculo com ela, mas porque ele não sentia que era uma perda, porque tinha acabado de me ganhar de volta. Isso era transparente em seu olhar.

Enquanto para mim era apenas dor, luto e desilusão, eu não sentia esperança, eu não sentia nada além de raiva. Eu estava incompleta, minha família estava destruída. Não havia qualquer ganho, apenas uma grande e pesada perda. Eu não me senti compreendia por Daryl naquele momento.

Senti raiva, mesmo que no fundo eu entendesse plenamente os motivos dele, mas era fácil sentir raiva.

Tirei os olhos e Daryl e os passei pelas pessoas ali reunidas, todas tinham aquele olhar compassivo, mas eu sabia que elas também não entendiam... Até que meu olhar se encontrou com o de Kane.

Ele tinha as íris castanhas marejadas e sustentou meu olhar por quando tempo eu precisei. Eu senti certa conexão com Kane naquele momento, porque ele sabia e eu senti que ele entendia, de um jeito que mais ninguém ali podia entender.

— E depois disso? — A voz de Rick soou baixa, praticamente sendo sobrepujada pelo som das explosões na comunidade acima de nós. — O que aconteceu com vocês dois?

Ele analisou Kane com um olhar frio, e depois focou em mim, sendo um pouco mais compassivo e gentil, mesmo assim me senti exposta, invadida. Eu não queria falar sobre aquilo, não só porque falar a verdade sobre meu encontro com Negan seria uma contradição com a história que eu tinha acabado de contar... Mas porque dizer que eu tinha passado horas sendo psicologicamente abusada por um maníaco psicopata, ali na frene de toda aquela gente, e com Petter no meu colo, entre o sono e a vigília, parecia algum tipo de exposição.

Senti que os olhos de Dwight estavam em mim, como se me acusassem, porque ele também sabia a verdade, ele estava lá quando eu fui capturada, estava lá quando Negan mandou queimar o galpão, e não fez nada. Eu sabia porque, mas isso não diminuía minha raiva.

Ele desviou os olhos de mim e pisquei algumas vezes, pensando em uma mentira e sentindo que eu queria mesmo era mandar Rick ir se foder.

— Negan descobriu que eu matei um dos homens dele e eu tive que fugir, antes que ele resolvesse finalizar o serviço. — Kane começou a contar, em um tom casual e desinteressado. — Eu encontrei com a Natalie na estrada, e disse que os Salvadores estavam vindo pra cá... E aqui estamos.

Ele mentiu tão naturalmente que pareceu algo banal do dia a dia. Nossos olhares se cruzaram e eu não sabia como agradecer, na verdade eu sequer sabia como Kane tinha entendido que eu não queria contar nada para o grupo.

— Só isso? — Rick perguntou desconfiado, estreitando os olhos na direção de Kane.

Percebi que Dwight nos encarou por alguns segundos, mas pareceu não querer se meter. Para o bem dele.

— Só isso, xerife, quer me passar pelo detector de mentiras? — Kane abriu um sorriso debochado. — Porque eu acho que já disse tudo que você precisava saber.

Por algum motivo ele não gostava muito de Rick, e o sentimento parecia mútuo.

— Eu discordo, já que você só estava aqui em baixo vivo, com o meu pessoal porque eu permito. — Os dedos de Rick estavam sobre sua arma, como se ele estivesse pronto para atirar em Kane a qualquer momento.

Daryl ao meu lado também estava alerta, como se previsse que uma briga estava prestes a acontecer.

— É isso que você pensa? — Kane encarou Rick de onde estava e não parecia em nada intimidado pela postura do xerife, como se não desse a mínima para a ameaça implícita em cada movimento do líder de Alexandria. — Então, pelo visto, não são só os seus planos que são idiotas, você também é. Porque, do jeito que eu vejo, todo mundo só está vivo e teve tempo de se esconder aqui em baixo, porque eu avisei do ataque para o seu caçador ou, pelo que eu sei, ele estaria morto no Santuário e seus amigos e seus filhos estariam queimando lá em cima junto com as casas agora.

Daryl se mexeu incomodado do meu lado, mas nada disse, ao passo que Kane parecia muito à vontade em dizer tudo aquilo e Rick se irritava mais ainda. Percebi que Michonne tinha a mão em seu antebraço, como se pedisse calma.

Eu me senti um tanto vingada por alguém dizer em voz alta que o plano de Rick tinha sido uma grande idiotice, esse era meu único sentimento no momento.

— O que? Está esperando um agradecimento? — O xerife foi um tanto sarcástico, algo que não combinava em nada com ele.

Kane o olhou de um jeito ainda mais debochado. Rick podia ter o respeito e a lealdade de todos ali, mas era óbvio que Kane não tinha medo dele.

— Eu não acho que você entendeu, Rick, eu não dou a mínima pra você, para o que você pensa, para os seus planos, para o seu grupo, para o seu espião... — Ele apontou para Dwight, mostrando que sabia sobre aquilo o tempo todo. — ...ou para a sua causa super nobre. Eu estou pouco me fodendo para a sua guerra. Eu não estou aqui por você.

Os olhos de Kane seguiram para mim por um segundo apenas, antes que ele voltasse a encarar Rick, como se o desafiasse.

O líder de Alexandria por sua vez pousou os olhos em mim, como se estivesse em dúvida, mas eu apenas sustentei seu olhar, sem esboçar reação alguma. Em seguida ele encarou Daryl, como se pedisse uma resposta, ou talvez permissão.

Aquilo me irritou um pouco mais, eu nem sei dizer ao certo o motivo.

Daryl por sua vez parecia um tanto contrariado com a situação.

— Ele realmente me contou sobre o ataque, podia ter me entregado mais não fez isso. — Contou entredentes e eu fiquei surpresa com a informação. — Mas não muda o fato de que ele ainda pode ser um espião.

Eu ri, uma risada seca e sem-humor, que foi algo involuntário, apenas um pouco da raiva que eu não consegui controlar.

— Eu era uma espiã, agora Kane é um espião, vocês realmente precisam trocar a fita. — Declarei com certa ironia, ajeitando Petter, que àquela altura já tinha dormido nos meus braços, e encarando Rick diretamente. — Eu confio no Kane, Rick, isso é tudo que você tem que saber agora e eu acho que você me deve esse voto de confiança.

Os olhares incrédulos de Daryl e do próprio Kane me queimaram, a verdade é que eu não confiava em muitas pessoas, mas Kane já tinha provado que eu podia confiar nele mais de uma vez, então achei justo me posicionar a favor dele.

Rick não pareceu feliz, mas assentiu algumas vezes e se afastou com Michonne e Carl, começando uma conversa paralela com Rosita e Tara, como se planejassem algo.

Eu não vou seguir os planos dele outra vez, não mesmo. O pensamento me dominou, fazendo um arrepio de raiva atravessar meu corpo. Não foi algo que eu cogitei, foi apenas instintivo.

Mantive meu olhar no pequeno grupo que conversava em um canto reservado, mas o toque de Daryl no meu braço chamou minha atenção.

Em qualquer outro momento ele escolheria arrançar a própria mão a ficar tão perto de mim em público, quem dirá me tocar ou me abraçar, aquilo era uma mudança que ainda estava me pegando de surpresa e, embora me fizesse sentir um tanto amparada, perdia um pouco da importância diante de tudo que estava acontecendo.

Romance certamente não era algo na minha cabeça naquele momento.

— Você não devia ter feito aquilo sozinha, devia ter trazido a Luka pra casa, faríamos isso juntos. — Daryl citou minha mentira e isso ofuscou todo o tom carinhoso que ele usava. — Se eu soubesse eu teria...

— Não importa mais, Daryl. — Eu o cortei, um pouco mais seca do que pretendia.

Eu sabia que teria que contar a verdade, mas não faria isso ali naquele momento, afinal Petter podia acordar a qualquer segundo.

— Pode segurar o Petter pra mim? — Perguntei e Daryl se prontificou no mesmo momento, mas quando me coloquei de pé, senti que não era bem aquilo que ele estava esperando.

Deixei meu filho dormindo no colo do pai e me afastei sem dar explicações, mesmo que isso tenha feito com que Daryl cravasse os olhos em mim como um gavião.

Me aproximei de Kane e abaixei ao lado dele, ficando de costas para Daryl, sentindo que o olhar dele podia me queimar, mesmo de longe. A última coisa que eu precisava naquele momento era lidar com ciúmes idiota.

— Como se sente? — Perguntei neutra, observando os machucados no rosto de Kane.

— Pronto para outra. — Ele declarou de imediato e abriu um sorriso de canto que quase me convenceu.

— Você mente bem... Mas talvez não tão bem assim. — Fiz menção ao que ele tinha dito para Rick e abaixei um pouco meu tom de voz, para que nossa conversa ficasse um pouco mais privada. — Obrigada.

— Você não tem que agradecer. — Ele negou algumas vezes, como se não fosse nada demais. — Somos parceiros, lembra?

Franzi os lábios no que devia ser um sorriso, mas não cheguei a sorrir de fato, me sentia incapaz daquele gesto tão simples, então apenas assenti devagar e abaixei a cabeça, me concentrando no chão como se houvesse alguma coisa muito importante ali.

Ao mesmo tempo uma conversa paralela seguia entre Rick e os outros. Percebi que Tara estava exaltada com algo que o Dwight tinha dito, mas honestamente não dei a mínima.

Eu tinha certo ranço do loiro antes, mas depois de tudo que tinha acontecido ele era só um cara que estava na merda como todo mundo ali. Não fazia a menor diferença para mim.

Olhei para trás e Petter ainda dormia no colo de Daryl, que me lançou um olhar um tanto impaciente, pisquei algumas vezes, e talvez até quisesse voltar, mas meu corpo não correspondeu aos meus comandos.

— Você é uma boa mãe, Natalie... — Kane declarou e notei que a atenção do moreno também estava em Petter.

Um riso seco saiu pelas minhas narinas, arranhando minha pele e deixando um gosto amargo na minha boca.

— É meio irônico você dizer isso em um momento desses... Uma das minhas filhas está morta e eu acabei de mentir para o outro. — Retruquei sem encará-lo, sentindo que odiar era tão fácil que eu conseguia sentir isso por mim mesma naquele momento.

— Você deu ao menino uma memória amena e bonita, quando ele ficar triste vai se lembrar disso, e a paz das suas palavras vão ajudá-lo a superar. Você não é uma mãe ruim por mentir, você é uma boa mãe por preservar a inocência dele, mesmo em um mundo como esse. — Kane afirmou, em um tom calmo e confiante e eu quis acreditar nele, mas a verdade é que eu não conseguia.

Kane colocou a mão sobre a minha e apertou meus dedos carinhosamente, de um modo que me fez encará-lo.

— E o que aconteceu com a sua filha foi uma calamidade, foi terrível, doloroso e feio. E eu jamais foi tentar diminuir o quanto isso é doloroso pra você, mas não foi sua culpa, Natalie. — Ele disse as últimas palavras pausadamente, como se precisasse que elas entrassem na minha mente.

— Como você pode ter tanta certeza, você não estava lá. — Devolvi amargurada.

A verdade é que eu queria acreditar que não tinha que carregar aquele fardo, mas a culpa era o que me mantinha lutando, então como eu poderia abrir mão daquilo?

— Porque eu conheço você e eu sei que daria sua vida no lugar da dela se pudesse... — Kane pareceu muito confiante do que disse e apertou minha mão um pouco mais.

A tosse forçada de Daryl ecoou pelo lugar e fez com que Kane interrompesse nosso contato.

Olhei para trás e percebi que Daryl tinha um olhar quase assassino focado em Kane. Achei uma atitude meio estúpida para aquele momento, porém não tive chances de expressar meu descontentamento, porque Rick se posicionou no centro do lugar e começou a falar:

— Temos que nos organizar agora. Podemos sair e revidar, Negan está lá em cima, é a nossa melhor chance.

Olhei ao redor e as pessoas realmente começaram a se mover, sem questionar ou ponderar, como se estivessem prontas para a luta.

Percebi que Dwight não parecia muito contente com aquilo, mas Tara lhe lançou um olhar duro e ele apenas se manteve calado. Encarei Kane por um segundo e ele ainda não tinha movido um músculo, enquanto Daryl ajeitava Petter em uma cama improvisada no chão.

— Não. — Minha voz ecoou pelo lugar, mas ninguém pareceu ouvir ou se importar.

— Não entendi... — Rick, que estava mais perto, me lançou um olhar confuso, mas prestativo, que em nada me afetou.

Me coloquei de pé e parei na frente dele.

— Eu disse "não". — Repeti mais firme e decidida, atraindo olhares curiosos dos Alexandrinos. — Eu não vou fazer o que você está dizendo, Rick.

Rick abriu e fechou a bocha duas vezes, como se estivesse procurando algo para dizer, mas Daryl, que já tinha levantado, foi um pouco mais rápido e tocou meu braço apaziguador.

— Natalie, nós podemos fazer isso e você fica aqui com Petter. Tudo isso pode acabar essa noite. — Ele tentou me passar alguma confiança através de seu tom de voz, mas eu não estava disposta a cair naquela ladainha outra vez.

— Cala a boca, Daryl. — Afastei a mão dele com um tapa e me esquivei dois passos.

Daryl me encarou em choque, como se jamais esperasse isso de mim. Rick e Michonne que estavam mais próximos também tinham o mesmo olhar, mas eu não me importei com eles, apenas me dirigi ao grupo todo de uma vez só.

— Isso não vai acabar essa noite, Negan tem as armas, Negan tem os números, Negan colocou a cidade de vocês no chão. Sair lá fora agora é um erro estratégico que vai levar a morte. — Fui clara e honesta.

O burburinho começou e eu foquei apenas em Daryl, tornando a conversa um tanto privada com o tom mais baixo, embora Rick e Michonne pudessem ouvir, porque estavam perto de nós.

— Você não vai. — Deixei claro, sem espaço para discussões ou qualquer coisa, era eu quem estava tomando as decisões ali. — Eu estou pouco me fodendo para a sua lealdade ou para o seu senso de honra. Você sentar ali e ambos vamos estar aqui quando o nosso filho acordar sentindo falta da irmã dele. Isso é o que nós vamos fazer hoje. — Daryl piscou algumas vezes, totalmente sem fala e eu prossegui. — Se você sair, você vai estar morto, ou pior, vai estar nas mãos do Negan, e eu não vou contar uma coisa dessas para o Petter, então é simples, ou você fica por bem, ou eu prometo que quebro uma das suas pernas e você fica por mal. Entendeu?

Daryl deu dois passos para trás e pareceu bastante irritado.

— Você só tinha que pedir, Natalie. — Ele virou as costas, deixando claro que não aprovava meu comportamento.

— Claro, porque dá última vez super funcionou pedir. — Retruquei, antes mesmo de pensar melhor sobre minhas palavras.

Apenas saiu, sem filtro, sem pensar. Eu não era o tipo de pessoa que dizia coisas que machucavam de propósito, mas naquele momento eu disse e o pior de tudo, eu não me arrependia.

Daryl já estava ao lado de Petter novamente, quando Rick tentou uma conversa civilizada comigo:

— Olha, Natalie, eu entendo que você está brava, mas...

— Não, você não entende, Rick. — Cortei, antes que ele pudesse terminar. — Seus dois filhos estão aqui vivos e bem. Sua namorada está ali viva e bem. — Apontei as crianças e então Michonne. — Você definitivamente não entende.

Michonne abaixou a cabeça, como se entendesse perfeitamente o meu posicionamento.

— Eu sei que você está com medo e quer fugir... — Rick tentou uma vez mais, porém novamente eu não permiti que ele argumentasse.

— Eu não disse isso. — Devolvi irritada. — Sim eu estou com medo. Seria estúpida se não estivesse, afinal eu tenho coisas a perder. E sim, eu queria fugir, honestamente era o melhor plano de todos. Mas isso já é passado. — Rick pareceu surpreso com a nova informação. — Eu concordo com você, Negan precisa morrer. Mas ele precisa morrer sem levar metade das pessoas que a gente ama junto. Então deixá-los seguros é a nossa prioridade.

Ele me encarou por alguns segundos e colocou uma das mãos na cintura, apoiando o peso em uma perna só e levando a outra mão para a ponte do nariz.

— Então o que você sugere? — Pareceu um tanto frustrado, mas me deu ao menos uma chance de falar.

— Use os seus trunfos, Rick. — Declarei, como se fosse a coisa mais óbvia de todas.

— Que trunfos? — Ele soou um tanto desesperado, fazendo um gesto amplo e mostrando onde estávamos.

Acima de nós as explosões prosseguiam, os Salvadores vandalizavam a cidade e estávamos ali em baixo, sem armas e sem vantagem alguma. Pelo menos era isso que Rick pensava.

Eu não era um soldado, nunca tinha estado em uma guerra, mas eu já tinha travado batalhas contra homens como Negan antes e tudo que eu precisei para vencer foram os aliados certos com informações precisas. Resolvi que podíamos começar por aí de novo.

— Kane? — Chamei e o moreno já estava a postos, com a atenção em mim. — Qual era a situação do Santuário quando você saiu?

Ele sorriu de canto, como se estivesse orgulhoso, e começou a passar tudo que sabia de forma clara e pratica:

— O gordinho de cabelo estranho é cem por cento Negan agora, ele vai fazer toda a munição que Negan quiser. O Reino está sendo atacado nesse momento, Negan quer os moradores de lá como trabalhadores e o Rei morto na cerca. Hilltop tinha uma escolha, ficar de boa e não se envolver, Negan não quer acabar com a fazenda. Isso é tudo que eu sei, ele já estava de olho em mim desde que eu tive envolvimento na sua fuga.

Assenti algumas vezes, sabendo que era um começo, mas não era tudo. Daryl e Rick me lançaram um olhar confuso, provavelmente por conta da revelação da participação de Kane na minha fuga. Rick pareceu um pouco mais compreensivo, ao passo que Daryl não recebeu aquela informação muito bem e isso ficou claro pela expressão em seu rosto.

— Dwight, quais eram os planos pra hoje? — Resolvi focar no que era importante e envolvi o loiro também. Diferente de Kane, Dwight não tinha a minha confiança, mas pelo visto ele estava ajudando Alexandria aquele tempo todo, então merecia o benefício da dúvida.

O inimigo do meu inimigo é meu amigo, não é o que dizem?

— Alguém tinha que morrer, mais de uma pessoa talvez, pra Negan sentir que estava tudo em ordem... — Ele começou, visivelmente surpreso por eu querer ouví-lo. — Rick seria levado para o Santuário, ele teria uma morte pra "servir de exemplo". Eles acham que vocês fugiram pelo leste, então vão terminar com a cidade e partir em algumas horas. Ficar aqui, por mais arriscado que seja, ainda é uma vantagem.

Encarei Rick e apontei nosso "informante", como quem diz: "viu só está aí o seu trunfo".

— Vamos acreditar em Salvadores agora? — Tara entrou no meio da nossa conversa. — Devíamos fazer como Rick disse e acabar com isso agora!

Ela engatilhou a arma e estava em direção a saída, mas eu fui um pouco mais rápida e em um movimento ágil alcancei a arma de Rick e a apontei bem para o rosto da morena.

— Eu mato você antes que você consiga sair. — Destravei arma, mostrando que eu estava falando muito sério.

— Hey, vamos relaxar, todo mundo. — Rick pediu com as mãos erguidas, enquanto eu e Tara nos enfrentávamos com o olhar.

Eu dei três passos para trás ainda com a arma em punho e voltei a falar com todo o grupo.

— Ninguém vai sair daqui, não porque eu me importo com a maioria de vocês, mas se saírem lá fora Negan vai conseguir um trunfo, e ele vai arrancar a verdade de vocês. Isso significa que deixar qualquer um sair é arriscar a segurança do meu filho, então ninguém vai sair, até que eu diga! — Deixei bastante claro, passando meus olhos por todos eles. — Amanhã cedo seguiremos para Hilltop, vamos reagrupar e pensar em um contra-ataque. Depois disso se alguém quiser se jogar na frente de um Salvador achando que isso vai ser o bastante para matar Negan, eu estou pouco me fodendo. Mas hoje, enquanto as decisões de vocês forem um risco pra quem eu amo, ninguém saí!

Abaixei a arma, mas continuei enfrentando cada olhar que era lançado na minha direção

— Vamos fazer o que a Natalie disse. — Rick declarou apaziguador e firme. — Saímos ao amanhecer.

Trocamos um olhar e eu empurrei a arma de volta para ele, sem qualquer cuidado ou educação. Passando por todos ali de cabeça erguida e seguindo na direção em que Petter estava.

Daryl tinha um olhar preocupado focado em mim e roía a lateral do polegar, mas nada disse. Me sentei ao lado dele e percebi que Kane me encarava da parede oposta, ele acenou positivamente, como se estivesse de acordo com tudo que eu disse e eu copiei o movimento, focando no meu filho depois disso, que ainda dormia com Bolt deitado ao seu lado.

Não demorou muito para que Rick se aproximasse e abaixasse perto de mim.

— Hey... — Ele chamou minha atenção em um tom calmo. — Eu sinto muito se os meus planos fizeram você se sentir prejudicada de qualquer forma. Não foi minha intenção. Pra mim você é parte desse grupo como qualquer outra pessoa. Manter a sua família segura é importante pra mim também.

Não era difícil ver que Rick assumia a culpa pelos planos que haviam dado errado, e apesar da minha raiva momentânea, eu entendia o lado dele também.

— Eu sei, Rick. — Assenti neutra. — Se eu tivesse duvidado disso por um segundo eu teria deixado você sair. Negan faria de você o foco e isso me daria todo o tempo de vantagem que eu preciso. Eu não desejo que seus filhos fiquem sem pai, assim como não desejo que você passe pelo que eu estou passando agora.

Rick acenou positivamente, como se aquilo fosse o bastante naquele momento e se afastou.

Eu não tinha intenção de criar uma guerra interna, apesar das minhas atitudes e do ódio latente correndo por minhas veias, eu não odiava Rick ou qualquer outro ali realmente, não era pessoal. Eu só estava tomando as rédeas da situação, para que eu não fosse atropelada por ela.

Voltei meu olhar para Daryl, que ainda tinha a atenção fixa em mim, como se quisesse dizer alguma coisa.

— Precisava de tudo isso? — Perguntou contrariado, mas em um tom que não era mais que um sussurro. — Agir feito...

— Feito uma louca? — Completei por ele.

— Não foi isso que eu disse, Natalie. — Daryl suspirou, tentando controlar o próprio tom.

— Se pra manter você e o Petter seguros eu tiver que bancar a louca, então eu vou bancar a louca mil vezes. — Declarei prática e Daryl piscou algumas vezes, como se tivesse entendido algo errado.

— Me manter seguro? — Repetiu surpreso.

— Eu não vou perder mais ninguém que eu amo, Daryl, e isso inclui você. — Respondi, como se não fosse nada demais.

Mas pareceu significar alguma coisa para o Daryl.

— Você nunca vai me perder. — Ele afirmou, fazendo seus dedos roçarem nos meus, que estavam apoiados no chão.

— Você não pode me prometer isso, e é por esse motivo que eu vou fazer o que estiver ao meu alcance para garantir que a sua afirmação permaneça verdadeira. — Declarei, encerrando a assunto por ali, assim como encerrei nosso contato.

A noite seguiu sem maiores acontecimentos e o Sol mal tinha raiado quando deixamos os túneis subterrâneos. Nossa primeira visão foi uma Alexandria totalmente devastada, a visão causou impactos nos moradores da comunidade, principalmente em Rick que tinha os olhos azuis perdidos em umas das construções que ainda estavam em chamas.

Petter, no colo de Daryl, tinha os olhos fechados, eu não sabia se era de tristeza e desconsolo, ou se era porque ele preferia não olhar tudo aquilo. Bolt seguia exatamente ao meu lado, como se soubesse que precisava ficar por perto.

Kane e Dwight vinham logo atrás, recebendo olhares enviesados da maior parte dos alexandrinos, mantive minha atenção no moreno por alguns instantes, seu rosto estava mais inchado que na noite passada, ao mesmo tempo em que seus passos eram mais erráticos, mesmo que ele se mantivesse firme.

Percebi que havia uma certa satisfação nele enquanto olhava as chamas, como se houvesse um detalhe pessoal ali que eu desconhecia.

Quanto a mim... eu não sentia nada, nem sequer compaixão, eu não me importava com a comunidade destruída, ou com os errantes que estavam espalhados por ali. Era tudo um grande vazio...

Minha única certeza é que eu precisava revidar, eu já tinha permanecido inerte por muito tempo, eu precisava me levantar e atingir Negan de forma definitiva, ele tinha que morrer, eu queria isso, queria que ele sofresse e implorasse, queria que ele perdesse tudo... Eu ainda não tinha um plano, eu não tinha qualquer vantagem na verdade, tudo que eu tinha era uma determinação cega, um ódio doentio e a certeza plena que eu não podia perder mais ninguém.

Olhei para Daryl, Petter e Bolt que seguiam dois ou três passos a frente.

Eu não permitiria que nada ferisse ou arriscasse a segurança dos meus garotos, não importava o que isso me custasse....

Notas finais
Eita, que as coisas não rolaram bem do jeito que tava todo mundo esperando neh? kkkkkk Natalie tá muito instável e revoltada "se vc sair vou quebrar suas pernas" kkkkkkk pelo amor de Deus não aprendam a controlar o boy com ela kkkkkk Falando em boy, Daryl não tá nada feliz com o Kane ali, já aviso. O proximo é narrado pelo nosso caçador maravilhoso e tem treta entre ele e o Kane que eu sei que é isso que vocês estão esperando kkkkkkk Bjss e até!