Lifeline — Destiny Don't Give Up
33 Ombro Amigo
Notas iniciais
• DARYL DIXON •
Eu nunca gostei de joguinhos... Mentiras, manipulações, isso nunca foi pra mim, talvez porque entender a vida e as pessoas ao meu redor já fosse bem confuso, mesmo quando elas eram honestas e transparentes.
Nunca menti para conseguir vantagem sobre algo ou alguém. Nunca disse uma coisa querendo dizer outra... Ser honesto já era bem complicado, joguinhos só dificultavam as coisas.
Talvez por isso eu não fosse capaz de entender a linha racional de Negan...
Ele era mau, eu entendia isso, eu via isso, mas prever seus movimentos ou entender suas motivações era algo confuso pra mim. Era como se aquele maldito não pensasse de modo linear...
Então eu realmente não tinha entendido porque atirar no Kane, não daquele jeito, não fazia nenhum sentido na minha cabeça. De fato, tudo que tinha acontecido naquela barbearia era um caos na minha na minha mente.
Eu apenas sabia que não podia ser responsável pela morte de alguém, pelo menos não de alguém que Natalie gostava. Alguém que ela amava...
Aquela revelação sequer foi uma surpresa. Eu já devia saber, não é?
Me forcei a deixar todo o caos que Negan tinha feito na minha cabeça de lado, quando atravessamos os portões de Hilltop. Assim que pulei do carro ordenei que alguém chamasse o médico e as pessoas ao redor começaram a ficar curiosas e preocupadas.
Maggie, que estava de vigia, foi a primeira a se aproximar correndo.
— O que aconteceu? — Ela questionou quando viu Kane no banco de trás e todo o sangue.
— Negan atirou nele. — Respondi rapidamente, me preparando para tirar o salvador do carro, enquanto Siddiq se aproximava correndo.
— Vocês encontraram Negan? — Maggie pareceu confusa.
Ela não sabia que eu tinha deixado Hilltop atrás do maldito líder do Santuário, mas eu previ que eles estavam vindo e achei que podia interceptá-los na estrada. Aparentemente Natalie e Kane tiveram a mesma ideia. Restava saber se Rick também tinha seguido por essa linha de raciocínio ou estava lá procurando por mim apenas.
— Pai? — A voz de Petter chamou minha atenção e eu procurei por ele entre as pessoas que se reuniam para tirar levar Kane dali, sob as ordens de Siddiq.
Mas Petter não manteve a atenção em mim por muito tempo, assim que ele viu Natalie descer do carro com uma faca fincada na coxa seus olhos se arregalaram assustados e ele correu até ela.
— Mãe!
— Eu estou bem, Pequeno Gafanhoto. — Natalie tocou o rosto do garoto e abriu um sorriso calmo, que nada tinha a ver com a situação que tínhamos enfrentado há pouco. — Eu só preciso que você...
Ela ainda estava no meio da frase quando perdeu o equilíbrio e eu segurei em um ato totalmente reflexivo.
Petter pareceu ainda mais assustado e seus olhos azuis escuros marejaram.
— Vamos ficar bem, Petter. Seu amigo médico pode resolver isso. — Tentei passar alguma segurança através das minhas palavras. — Pode ficar por aqui e me avisar caso o Rick chegue ou algo mude?
Achei que afastar o garoto de todo aquele sangue e desespero era o melhor naquele momento, seria mais fácil se ele não estivesse por perto quando o médico tirasse aquela faca da perna de Natalie.
Petter procurou a mãe com os olhos e ela sorriu pacificadora, o incentivando a fazer o que eu pedi, assim ele acabou se convencendo, afastando-se em direção aos muros.
— Obrigada. — Natalie disse, se afastando um pouco de mim e recobrando o próprio equilíbrio. — Fez bem em ocupar o Petter com alguma coisa.
Apenas assenti e a vi se afastar em direção ao trailer médico, sendo amparada por Enid e Carl quase no mesmo instante. Eu estava pronto para seguir com elas, mas Michonne e Maggie me cercaram.
— Rick está lá fora também? — Michonne questionou em um tom preocupado e eu assenti rapidamente.
— Você deixou o Rick para trás pra ajudar um Salvador? — Maggie não parecia feliz com minhas atitudes, e eu a entendia, deixar Rick para trás também não era algo que me agradava.
Mas Maggie não estava lá, ela não sabia o que estava em jogo naquele momento...
— Rick sabe se virar, eu volto atrás dele daqui a pouco. — Garanti, afinal desde o começo aquele fora meu plano. — E eu não fiz isso por um Salvador, eu fiz pela Natalie.
Me afastei das duas e vi que Maggie me deteria, mas foi impedida por Michonne.
— Deixa ele ir. — Ela apaziguou. — Rick vai ficar bem. É o Rick.
Não continuei ali para ouvir a conversa, apenas segui em passos rápidos para o trailer médico, pensando no que eu tinha acabado de dizer...
Era verdade, eu tinha feito por Natalie, não era pela culpa de saber que Kane tinha levado um tiro por causa das minhas escolhas, não era por saber que Negan estaria vencendo e Natalie não me perdoaria, era apenas porque eu não queria vê-la sofrendo por outra morte... Outra morte de alguém que ela amava.
Quando entrei no trailer médico a coisa toda estava um caos, havia sangue por toda a parte, Kane estava desacordado em uma maca improvisada e Natalie queria ajudar de qualquer forma.
— Tira ela daqui. — Siddiq apontou, logo em seguida instruindo Enid e Carl do que ele queria que os dois fizessem.
— Hey. Vem... — Entrei na frente de Natalie e toquei seu ombro.
— Ela precisa ficar imóvel por causa da perna. — Siddiq ordenou, enquanto usava uma tesoura para cortar a camiseta de Kane e expor o ferimento.
Natalie se recusou a sair do trailer, então eu a levei para um dos cantos, onde havia um banco em que ela pudesse sentar.
— Como você está? — Questionei, examinando seu rosto que estava pálido e sujo de sangue seco.
— Bem... — Ela respondeu, sem tirar os olhos de Kane.
Me senti um intruso ali, todas aquelas revelações sobre Natalie e Kane voltaram a minha mente... Quis ficar com raiva dela, acho até que fiquei em um primeiro momento, quando soube do envolvimento dos dois, mas depois de tudo que tinha acontecido, depois do que Negan tinha feito com ela, era impossível permanecer com raiva.
Quando Natalie disse que amava Kane admito que doeu, mas não foi uma surpresa. Talvez fosse melhor daquele jeito no fim das contas.
Talvez aquela ilusão de ter uma família fosse apenas isso, uma ilusão... No fundo eu sempre soube que não a merecia.
— Obrigada por voltar. — A voz de Natalie me tirou de minhas divagações e eu a encarei por alguns segundos antes de responder.
— Era a coisa certa a se fazer...
Ela piscou algumas vezes, mas não disse mais nada, senti que queria, porém permaneceu calada.
Eu ainda estava confuso com os últimos acontecimentos, era coisa demais para processar. Quando deixei Hilltop atrás de Negan, tudo que eu queria era descontar a raiva que eu estava sentindo de mim mesmo. Ouvir tudo que Natalie tinha dito sobre as coisas que ela teve que sofrer sozinha me fez encarar o quanto eu tinha ferrado tudo.
No fim eu acabei percebendo que eu não era muito diferente do meu pai, eu não batia em Natalie, como ele batia na minha mãe, mas eu a feria, magoava e machucava, então dizia a mim mesmo que a amava...
Eu a mandei embora sob a desculpa que era o melhor para ela, mas no fim foi a pior coisa que eu podia ter feito. Vai ver eu não soubesse como amar alguém. Por isso talvez ela ficasse melhor com Kane, ele parecia saber o que estava fazendo...
Enid se aproximou de nós e sob a orientação de Siddiq começou a limpar o ferimento de Natalie e a preparar tudo para que o médico retirasse a faca dali. Ele continuava muito focado no que estava fazendo com Kane, mas senti que as coisas tinham se acalmado e estava tudo sob controle.
— Eu vou ver como o Petter está. — Avisei e Natalie assentiu lentamente, ela parecia exausta, mas eu disse a mim mesmo que não havia nada que eu pudesse fazer.
Deixe o trailer em seguida e caminhei até a casa maior, notando que toda Hilltop estava se preparando para um possível ataque dos Salvadores.
No caminho encontrei com Carol e tive que contar o que tinha acontecido, coisa que eu fiz apenas por cima, não queria dizer a ninguém o que havíamos sofrido nas mãos de Negan.
Depois disso reuni algumas armas e munições e segui para os muros.
— Nenhum sinal do Rick ainda? — Questionei, me aproximando de Petter, que estava sobre uma das plataformas.
O garoto negou algumas vezes e me pareceu desanimado, no chão, mesmo Bolt parecia cabisbaixo.
A demora de Rick me preocupava e eu soube que era hora de tomar uma providência sobre o assunto.
— Eu vou ter que sair de novo, mas eu vou voltar logo. — Avisei para Petter e ele piscou algumas vezes como se não entendesse minha decisão.
— Você não pode ficar? — Desceu da plataforma e se aproximou de mim.
Seus olhos estavam tristes e assustados e eu só podia imaginar como era para ele passar por tudo aquilo.
— Olha... Você não precisa ter medo. — Me abaixei para encará-lo de frente, tocando em seu ombro como forma de apoio. — As pessoas aqui não vão deixar nada acontecer com você.
— Eu não estou com medo. Não disso... — Ele negou algumas vezes.
Não entendi aquela resposta. Se não era a guerra e a ameaça iminente dos Salvadores, então o que estava deixando Petter preocupado?
— Uma coisa ruim aconteceu. Muitas coisas ruins, na verdade... — Ele suspirou, abaixando a cabeça. — Mas a mamãe vai fingir que está tudo bem, porque é isso que ela faz, sempre foi assim, eu não entendia antes, mas eu entendo agora. Ela não fala as coisas pra mim...
Me partiu um pouco o coração que ele estivesse tão preocupado com Natalie, uma criança tão devia ter aquele tipo de pensamento.
— Antes ela tinha a vovó e o vovô Daniel, e ela tinha a Naomi, depois ela tinha Sherwood e os nossos amigos. E agora... — Ele negou algumas vezes e seus olhos marejaram. — Ela não tem mais ninguém, nem a Luka...
Acariciei os cabelos de Petter pensando em algo que eu poderia dizer.
— Olha, você está certo, coisas ruins aconteceram. — Fui honesto, afinal não tinha como negar aquela verdade. — Mas a sua mãe é forte, você a ouviu, ela disse que está bem...
Petter não gostou da minha resposta, isso ficou bem claro em sua postura.
— Eu tenho dez anos, não são estúpido. Eu sei que as pessoas mentem. — Ele respondeu um tanto ríspido e isso me fez pensar.
Natalie sempre dizia que estava bem, eu mesmo tinha ouvido umas dez vezes, mas e se Petter estivesse certo, e se ela estivesse mentindo para acalmar as pessoas?
Me senti estúpido por nunca ter pensado nisso, por não ver além das palavras...
— Eu vou ver como a mamãe está. — Petter desviou de mim, e saiu acompanhado por Bolt.
E se ele estivesse certo?
Pela primeira vez encarei a coisa como um todo, Natalie tinha perdido tudo e isso bem antes de Luka. Achei que ela se entrosaria com o grupo, mas a verdade é que Rick e os outros eram meus amigos, não da Natalie, ela não confiava neles o bastante. Ela estava sozinha todo aquele tempo e tudo que eu tinha feito era dificultar ainda mais as coisas.
Encarei o portão, sabendo que eu devia sair atrás de Rick, mas enquanto eu via Petter se afastar pelo gramado eu soube que não podia ir...
— Espera. — Declarei e ele se virou. — Eu vou com você.
Petter sorriu, um sorriso quase orgulhoso, e segurou minha mão enquanto andávamos em direção ao trailer.
Quando entramos no lugar, Carl e Enid não estavam mais ali, Natalie estava sentada no chão, a perna esticada e um enorme curativo nela. Percebi que ela estava muito pálida, com uma aparência fraca e tinha um curativo no braço, na parte interna do cotovelo.
— Oi, Pequeno Gafanhoto. — Ela deu um sorriso fraco e estendeu os braços para Petter, que se aproximou em passos rápidos e preocupados. Ele encarou o curativo e Natalie acariciou seus cabelos com carinho. — Não se preocupe com isso, foi só superficial. Eu estou bem.
Foi a primeira vez que me dei conta que ela realmente mentia, o ferimento não fora superficial, eu estava lá quando Negan enfiou a faca na coxa dela, eu sabia que era sério. E se ela tinha mentido sobre isso, aquele "eu estou bem" também era mentira.
Respirei fundo e meus olhos seguiram para Kane na maca, ele ainda estava desacordado, mas já havia um curativo no lugar do tiro e percebi uma bolsa de sangue ligada ao seu braço.
— Onde conseguiu o sangue? — Perguntei para Siddiq que tinha acabado de se aproximar de mim.
Ele olhou para Natalie e eu soube a resposta.
— Ela estava ferida, já estava perdendo sangue! — Não consegui conter minha raiva. Que tipo de médico ele era para tirar sangue de alguém que já estava ferida?
— Eu sei... — Ele comprimiu os lábios e pareceu se sentir culpado. — Mas ele estava morrendo e Natalie é muito persuasiva. Se eu não fizesse isso ela provavelmente teria tirado aquela faca da perna e enfiado na minha garganta.
Encarei Natalie que ainda conversava com Petter e soube que Siddiq estava certo, não era tudo culpa dele afinal. Natalie Cooper era bem teimosa e insistente quando queria.
— Como eles estão? — Questionei, passando os olhos por Kane de novo e notando que ele não parecia muito melhor do que quando o tinham tirado do carro.
— Ele está estável. A bala atravessou. Eu não sei como, porque ali é o rim, mas não teve perfuração dos órgãos. — Siddiq explicou, franzindo as sobrancelhas.
— Então ele vai viver?
— Não tenho como te dar um prognostico nessas condições. — Vi o médico negar algumas vezes — Temos que esperar ele acordar...
Aquilo não parecia muito bom, mas também não parecia péssimo. Eu só esperava, para o bem de Natalie, que Kane sobrevivesse. Eu ainda não gostava dele, mas não era sobre ele no fim das contas.
— E ela? — Meus olhos seguiram para Natalie e Siddiq fez o mesmo movimento.
— Ela é muito tolerante a dor... A faca não atingiu nenhum músculo, então ela vai se recuperar. — Ele deu a boa notícia, no entanto ainda parecia preocupado. — Mas o certo seria repouso, principalmente com o tanto de sangue que ela doou. Talvez dormir um pouco. Se ela ao menos tomasse o calmante já ajudaria.
Ele me mostrou um pequeno copo descartável com alguns comprimidos dentro e deu a entender que Natalie não tinha aceitado a medicação.
— Eu fico com isso. — Estendi minha mão para pegar os remédios e Siddiq encarou meus pulsos.
— Quer que eu dê uma olhada nisso? — Apontou os ferimentos na minha pele.
— Não é nada demais. — Neguei dando de ombros.
Talvez se eu tivesse me soltado mais cedo tudo aquilo não tivesse acontecido, no fim parecia que eu era o único que saíra inteiro daquele inferninho de Negan.
O médico apenas assentiu e deu às costas rumo à saída do trailer.
— Siddiq? — Chame e ele se virou na minha direção. — Obrigado.
Ele assentiu, saindo em seguida. Respirei fundo e me aproximei de Natalie e Petter.
O garoto estava abraçado com a mãe, enquanto Bolt tinha a cabeça apoiada na perna dela, os observei por alguns segundos, me perguntando se eu devia mesmo estava ali naquele momento...
Natalie ergueu os olhos para mim e mesmo ali, abraçada com Petter, ela me pareceu tão desamparada, eu simplesmente soube que não podia sair.
Petter olhou da mim para a mãe algumas vezes e então se colocou de pé.
— Acho que eu ouvi o Carl me chamar... — Apontou a porta e eu soube que era apenas uma desculpa para sair.
Ele realmente achava que eu podia fazer alguma diferença. Mas como eu podia ajudar, se era eu mesmo a causa de tanto sofrimento?
— Te amo, mãezinha. — Ele beijou o rosto de Natalie e a abraçou novamente. — Daqui até a lua, ida e volta.
— Eu também... — Ela deu um sorriso triste e Petter pareceu decepcionado que a resposta tivesse sido aquela, mas não falou nada, apenas me lançou um olhar como quem diz "eu avisei".
Saiu com Bolt em seguida e eu me vi ali sozinho com Natalie. Quer dizer, não exatamente sozinho, afinal Kane estava desacordado na maca.
— Você devia descansar. — Declarei depois de alguns momentos.
— Eu estou descansando... — Natalie deu de ombros, apática e abatida.
Respirei fundo e tirei a besta das costas, deixando-a em um canto e me sentando ao lado de Natalie no chão.
Ela me encarou por alguns segundos, como se não conseguisse entender a minha postura, mas nada disse.
— Ele vai ficar bem. — Comentei apontando Kane.
— Graças a você... — Natalie deu um sorriso tão triste que seus olhos marejaram.
Petter tinha razão, ela não estava bem e eu me culpei por ter deixado aquilo passar.
Na minha cabeça Natalie era a pessoa mais forte de todas, ela era perfeita, eu a tinha colocado em um altar imaginário como se ela fosse algum tipo de divindade, mas no fim Natalie Cooper era humana, com defeitos e qualidades, e com fraquezas como qualquer pessoa. Ela não era de ferro...
— Petter está preocupado com você. Ele acha que você está triste. — Comecei, sem saber muito bem como conduzir aquela conversa.
— Eu estou bem... — Natalie deu de ombros.
Ri sem humor, vendo que ela tinha dito aquilo várias vezes, daquele mesmo jeito, e eu tinha acreditado, quando era óbvio que não era verdade. Qual era o meu problema?
— Não. Você não está. — Retruquei neutro. — Sinto muito demorar tanto tempo pra perceber isso...
Natalie prendeu o ar ao ouvir minha resposta, seus olhos marejaram e ela moveu a cabeça para o outro lado, limpando o rosto com uma das mãos.
Ela parecia tão triste, tão quebrada...
Então eu me dei conta que "nós" não importava, Kane não importava, aquilo não era sobre ser um casal, aquilo era sobre apoiar alguém que era importante pra mim acima do amor carnal, porque Natalie era mais que isso, ela sempre tinha sido como um porto seguro em meio a tempestade e o mínimo que eu podia fazer era ser o mesmo para ela naquele momento.
Encostei a cabeça na parede e suspirei, lembrando de tudo que tínhamos vivido até ali.
— Você se lembra daquela noite em Dawsonville, quando eu te mostrei minhas cicatrizes? — Perguntei e Natalie virou o rosto na minha direção no mesmo momento, assentiu lentamente, como se estivesse surpresa e confusa por eu estar tocando naquele assunto. — Aquela noite você me disse que independente das coisas que estavam acontecendo entre nós, independente do que aconteceria depois, ainda seriamos amigos, porque éramos amigos acima de tudo aquilo. Você disse que estaria lá por mim, pra qualquer coisa...
Ela piscou uma vez e seus olhos negros marejaram. Parecia uma outra vida, era quase como se Natalie tivesse se tornado outra pessoa... Internamente me perguntei em que momento aquela menina tão alegre, extrovertida e feliz de Dawsonville tinha se tornado aquela mulher tão triste e quebrada, e quanto de culpa eu tinha em tudo aquilo?
— Ainda somos amigos, Natalie. — Declarei com meus olhos nela. — Você pode falar comigo...
Ela fechou os olhos por um momento e seus ombros tremeram. Era como se fosse apenas uma garotinha vulnerável precisando de colo.
— Então, o que você está pensando? — Fiz a pergunta que um dia tinha sido uma caracteriza da nossa amizade.
Natalie virou o rosto na minha direção e senti que seus olhos entristeceram um pouco mais. Ela deixou a cabeça encostar na parede, encarou o teto por um tempo e seus ombros caíram um pouco, quase como se estivesse carregando o peso do mundo sozinha...
— Eu sinto que tudo que eu faço é um erro... — Sua voz tremeu dois tons quando as lágrimas começaram a rolar por seu rosto. — As pessoas ao meu redor se machucam e morrem, por causa das minhas decisões. Como se eu estivesse amaldiçoada.
— Hey... — Toquei seu antebraço em forma de apoio. — Isso não é verdade.
Natalie negou algumas vezes e riu sem humor algum, um riso cansado de quem não acredita mais na vida.
— Sherwood, Luka, Kane... Minhas decisões machucaram todo mundo. — Enumerou com um suspiro.
— Olha, eu não posso falar sobre Sherwood, mas eu tenho certeza que não foi sua culpa, assim como a Luka. Foi uma tragédia, mas não foi sua culpa. — Tentei ser firme e Natalie piscou devagar, ela entendia meu ponto, só não acreditava nele... — E o Kane com certeza não foi sua culpa, você não atirou nele, Negan atirou, se quiser culpar alguém por tudo culpe a mim, eu não quis ir embora quando você propôs, antes da guerra começar, e foi minha escolha que fez Negan atirar no Kane.
Ela encostou a cabeça na parede de novo, dessa vez virada na minha direção, me encarando por longos segundos, como se houvessem pensamentos demais passando por sua mente para que ela escolhesse um só.
— Eu e você nunca teríamos ido embora de verdade, você sabe disso, não importa o que eu disse naquele momento, era só divagação... E Luka queria ficar, era meu dever como mãe protege-la, e tirá-la de uma situação perigosa, mas eu não fiz isso. — As lágrimas voltaram a correr soltas e Natalie se calou por algum tempo. — E o Kane... — A voz dela entalou na garganta. — Eu o arrastei para aquele plano, foi minha culpa...
Eu vi o remorso tão limpo em seus olhos que foi quase como olhar para mim mesmo. Afinal eu entendia a culpa melhor que ninguém, eu sabia quão esmagador esse sentimento era...
Natalie se calou por um longo tempo, enquanto me fitava, e eu senti que havia um mundo de coisas não ditas entre nós.
— Eu nem sei como você está falando comigo agora... — Ela desviou os olhos um tanto amargurada.
Eu entendia que aquilo era sobre o Kane, sobre o que Negan trouxera à tona.... E eu não podia mentir, saber que a mulher que eu amava e que eu tinha esperado a vida toda estava transando com outro homem era como um soco na boca do estômago, saber que Natalie amava aquele idiota me deixava com ódio... Talvez em qualquer outro momento eu tivesse projetado todo esse ódio nos dois, porque sentir raiva de outras pessoas eram fácil, indolor, até libertador em alguns pontos, mas não era honesto, não quando eu conhecia a situação.
Por mais bonito que seja um jardim, se não regá-lo e cultivá-lo ele vai morrer. E que direito eu tinha de culpar as flores ou as ervas daninhas? Certas coisas precisam de cuidado e atenção constante, ou não importa o quanto elas são viçosas e perfeitas, elas perecerão. Se acabarão em nada...
Amar o jardim não faz com que ele floresça, cuidar dele é que faz.
Natalie tinha se tornado uma terra árida e eu finalmente entendi que tinha culpa nisso. Eu a amei por dez anos, como eu nunca amei ou amaria ninguém na vida, mas de que adiantava todo esse amor se eu nunca o entreguei para ela?
Será que eu tinha mesmo o direito de sentir raiva ou culpá-la por se apaixonar por alguém que claramente a amava e demonstrava isso?
Era até irônico, mas depois de dez anos eu finalmente entendi o que Peter Cooper queria dizer com "Nem sempre o amor é o bastante"...
Amar Natalie para mim mesmo era totalmente diferente do que fazê-la se sentir amada. Talvez essa fosse a diferença crucial entre mim e Kane...
Percebi, enfim, que o que faltou na minha vida não foi dizer que eu amava Natalie, foi demonstrar que eu a amava.
Pousei meus olhos nela por alguns segundos e partiu meu coração notar que eu tinha sido tão cego daquela forma. Natalie estava devastava, ela era a imagem do caos e sofrimento.
A vi abraçar o próprio corpo e fechar os olhos, algumas lágrimas escorrendo por suas pálpebras. Ela se moveu e sua expressão deixou clara a dor em sua perna. Limpou o rosto, mas não era como se não conseguisse conter todo o choro preso dentro de si. Seus ombros tremerem incontrolavelmente.
— Eu estou perdida, sinto que eu estou me afogando na minha própria solidão, doí tanto que eu não consigo respirar e a culpa me esmaga. Eu não sei se eu não posso viver com isso... Eu só queria que parasse, que o mundo todo parasse, a guerra, a dor, todos os problemas... Eu queria que a vida parasse. — Ela jogou tudo para fora de uma vez só, todas as palavras ditas em meio as lágrimas doloridas.
Soluçou, cobrindo o rosto com a mão. Seu desespero era tal palpável que eu me senti devastado também.
— Quando Negan apontou aquela arma para mim hoje, eu desejei que ele puxasse o gatilho. Eu rezei por isso na minha mente. A morte parecia tão fácil... — A revelação chocante, dita daquele modo tão angustiado me soou tão verdadeira que um arrepio de puro pânico percorreu meu corpo.
— Não diga besteira. Petter precisa de você. — Segurei sua mão direita e apertei seus dedos com força.
Perder Natalie no meio de uma guerra já era apavorante, mas perdê-la para algo que eu podia ter evitado fez todo meu mundo virar de ponta cabeça.
— Eu sei e isso devia me dar forças, mas não dá mais, eu estou exausta, não aguento mais. Eu estou sozinha e esgotada. Me sinto quebrada.... Não sei mais o que fazer. — O corpo todo de Natalie tremeu, como se ela ainda estivesse tentando segurar o choro, mesmo que seu rosto já estivesse todo molhado de lágrimas.
Partiu meu coração vê-la daquele jeito. E pensar que eu podia ter qualquer culpa naquilo foi a pior coisa que eu já havia sentido em toda a minha vida.
— Hey... — Segurei seu rosto e a fiz olhar para mim. — Você não está sozinha, okay? Eu estou aqui... Eu não vou a lugar nenhum, não dessa vez. Eu prometo.
Natalie respirou aos trancos e estava pronta para dizer alguma coisa quando eu a interrompi.
— E isso não é porque somos um casal ou algo assim, é porque somos amigos, somos os pais do Petter, somos família. Me deixa ajudar você...
Senti que os ombros dela relaxaram, como se o fato de eu ter simplificado as coisas tornasse tudo mais fácil, sem a preocupação de um relacionamento conturbado. Natalie não precisava disso, ela precisava de apoio, e estar lá por ela era a melhor coisa que eu podia fazer.
Era o jeito certo de demonstrar meu amor...
Trouxe Natalie para perto do meu corpo e a envolvi em um abraço, deixando que ela escondesse o rosto no meu peito e chorasse. Não a interrompi, apenas esperei que ela colocasse tudo para fora.
Seu choro era dolorido e desesperado, mas ao mesmo tempo senti que aos poucos era como se tornasse um choro de alívio.
Apenas ficamos ali, eu não sei dizer por quanto tempo ao certo, Natalie nos meus braços e minhas mãos acariciando suas costas e cabelo. Eventualmente as lágrimas cessaram, apenas sua respiração custosa e entrecortada indicava que aos poucos ela se acalmava.
Quando Natalie se afastou de mim, eu limpei suas lágrimas enquanto observava seu rosto sem nenhuma pretensão específica.
— Você devia beber isso. — Mostrei o copinho com os comprimidos. — Vai te ajudar a se acalmar e descansar um pouco, você merece e precisa.
Natalie encarou os remédios por um instante, como se estivesse ponderando minha sugestão, então seus olhos seguiram para Kane na cama a nossa esquerda.
— Não posso, eu tenho que...
— Eu fico com ele. — Interrompi, antes que ela terminasse. — Quando ele acordar eu te digo.
Não era exatamente uma coisa que eu queria fazer, mas era o que Natalie precisava, então que fosse...
Me coloquei de pé e servi a água que ficava em uma jarra sobre um móvel no canto. Entreguei o copo para Natalie e ela ainda pensou por um instante antes de assentir e tomar os comprimidos.
— Obrigada... — Ela me deu um sorriso fraco e pousou os olhos em mim de um jeito que tinha muito significado. — De verdade.
Assenti e retribui o sorriso da mesma forma.
Após alguns minutos percebi que Natalie começou a piscar duro e chamei Petter para que a levasse para um dos quartos e ficasse com ela.
Tenho que admitir que aquilo era algo que eu mesmo queria fazer, mas dormir com ela em meus braços parecia ultrapassar o limite emocionalmente saudável que eu tinha acabado de estabelecer entre nós.
Ela me lançou um último sorriso fraco antes de ir, o tipo de sorriso que não expressava alegria, apenas gratidão, pessoas não se curavam de uma hora para outra afinal de contas...
Rick voltou um pouco depois disso, ileso apesar de poucas escoriações, infelizmente Negan tinha fugido, e naquele ponto eu sequer fiquei realmente surpreso.
— Desculpe não ter ficado e ajudado, eu tinha que...
— Você tinha que encontrar o Negan. — Completei, eu entendia que aquilo era realmente mais urgente, afinal acabar com Negan significava acabar com a guerra.
Eu fiquei por Natalie, mas Rick tinha que ter prioridades mais abrangentes. Eu não o culpava por isso.
O coloquei a par de tudo que tinha acontecido conosco, menos dos detalhes dos joguinhos de Negan é claro, concordamos que cedo ou tarde os Salvadores estariam nos portões, por isso Rick começou a dar ordens e a montar estratégias.
Dei uma olhada em Kane e ele permanecia na mesma. Sua respiração lenta, porém estável deixava Siddiq cautelosamente otimista, mas eu não sabia se ainda acreditava em otimismo àquela altura...
Minha única certeza é que aquele idiota não podia morrer, Natalie não podia lidar com outra morte.
Eu ainda estava no trailer médico quando o aviso de que os Salvadores estavam chegando ecoou pela comunidade.
Pedi que Petter não saísse de perto da mãe, que naquele ponto estava totalmente apagada por causa dos remédios, então me juntei aos outros no portão.
Logo que os malditos chegaram notei que Negan não estava liderando e talvez por isso estivessem tão desorganizados e instáveis.
A luta não durou muito, eles bateram em retirada quando viram que não tinham vantagem... Achei aquilo estranho, mas considerando alguns poucos feridos estávamos bem e isso era o melhor que eu podia querer naquela noite.
Mas comemoramos cedo, durante a madrugada os feridos começaram a se transformar, nossa demora em entender o que estava acontecendo custou algumas vidas.
Enquanto os outros estavam focados em deter os mortos, tudo que eu conseguia era pensar que tinha que chegar a Natalie e Petter depressa.
Ficou claro para mim que os Salvadores tinham infectado as armas brancas com sangue de errante, por isso os feridos haviam se transformado.
Meu coração aos saltos me deixava alerta. Subi os degraus de dois em dois, temendo o que veria, quando notei a porta do quarto em que eles dormiam aberta.
A primeira coisa que reparei foi o cadáver no chão, Bolt ensanguentado e Natalie ainda apagada, então eu vi Petter, uma faca em punho e um sorriso vitorioso nos lábios.
— A gente deu conta dele. — O garoto deu de ombros como se nada demais tivesse acontecido, enquanto eu sentia que estava enfartando. — Bolt derrubou e eu finalizei.
Entendi o cachorro ensanguentado, mesmo assim me certifiquei minuciosamente que nenhum deles tinha alguma mordida ou ferimento.
— Eu estou bem, pai. — Petter afirmou me dando alguns tapinhas no ombro quando eu, sem pensar muito, o abracei apertado.
Para alguém que não era muito adepto de proximidade com as pessoas eu tinha abraçado muito aquele dia...
Natalie continuar desacordada no meio de toda a invasão me preocupou, mas logo Siddiq disse que era normal, a dose de medicação que ele dera era alta, justamente para mantê-la em repouso absoluto por toda a noite.
Tive algum tempo de me acalmar depois disso e encarei a comunidade...
Era nossa primeira vitória em algum tempo, mas não teve gosto de vitória, pessoas tinham morrido do mesmo jeito. Acho que nenhum de nós tinha pensado em todos aqueles efeitos colaterais, quando decidiu entrar de cabeça em uma guerra.
Com aquele sentimento misto se espalhando por Hilltop, decidi que Kane podia ficar sozinho por um tempo, eu precisava ter certeza que Natalie e Petter estavam bem.
Era um tipo de necessidade estranha que eu não conhecia bem até então, eu sabia que eles estavam bem, afinal tinha visto os dois há pouco tempo, mas eu precisava ter certeza, eu precisava apenas ficar com os dois um pouco.
Quando cheguei ao quarto, Petter tentava inutilmente limpar a mancha vermelho escuro da cara de Bolt, sentei na janela e apenas o observei por um tempo, sem qualquer pretensão, apenas desejando que podemos desfrutar daquela calmaria por mais um tempo.
Não demorou muito para que Petter desistisse e se deitasse com a mãe, claro que Bolt sequer se importou de estar imundo e resolveu se deitar na cama também.
Pensei em mandar o cachorro descer, mas Petter parecia tão confortável com o animalzinho ali deitado em seus pés que eu apenas deixei estar.
Observei meu filho pegar no sono, e notei que pensar em Petter como "meu filho" era cada vez menos estranho, mais confortável, mais certo... Eu realmente queria aquilo, uma casa com um filho, um cachorro e Natalie, mas sermos uma família daquele jeito que eu sonhava parecia tão distante naquele momento.
E eu sabia que era minha culpa... Talvez as pessoas estivessem certas: a oportunidade não bate na mesma porta duas vezes...
Suspirei e me aproximei da cama, cobrindo Natalie e Petter e parando um momento para admirá-los dormindo juntos. Era triste que eu tivesse deixado aquilo escapar através dos meus dedos.
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Quando amanheceu eu estava sentado em uma cadeira dentro do trailer médico, tinha passado a noite ali, como disse para Natalie que faria.
Kane ainda estava apagado, mas eu havia notado que sua respiração tinha assumido um ritmo mais estável nas últimas horas.
Era quase irônico que eu tivesse passado a noite velando o sono do cara que podia acordar e roubar a mulher que eu amava em um piscar de olhos... Dizer que eu não tinha ficado tentado a sufocar aquela cara quadrada com um travesseiro seria mentira, mas no fim eu soube que não era certo, Natalie não merecia sofrer por outra morte, ela merecia ser feliz, mesmo se não fosse comigo. E se aquele idiota do Kane pudesse fazê-la mais feliz do que eu, então talvez fosse melhor daquele jeito.
Um resmungo de Kane me vez erguer os olhos naquela direção. Era a primeira vez que ele se movia ou emitia qualquer som.
Me coloquei de pé e me aproximei, os olhos de Kane se abriram nesse instante, confusos, como se ele não soubesse sua localização. Tentou se mover, mas seu rosto se contorceu em uma careta de dor, ao mesmo tempo em que seu abdômen voltava a relaxar na maca.
— Você está em Hilltop, nosso médico tratou você. — Cruzei os braços e me aproximei mais alguns passos.
Os olhos de Kane não focaram em mim por um só segundo antes que ele tentasse se erguer novamente para olhar o ambiente em volta.
Seu corpo acabou na cama novamente, enquanto a dor ficava clara em seu semblante.
— Por favor, diga que ela está bem... — Pediu, respirando com dificuldade.
Guardei na mente que a primeira coisa em que Kane tinha pensando, mesmo acordando com dor, foi no bem-estar de Natalie, eu nunca admitiria isso em voz alta, mas o idiota ganhou um ponto com essa atitude.
— Ela está bem. Ela tomou alguns calmantes e está dormindo agora. — Respondi seco.
Kane fechou os olhos por alguns instantes e suspirou aliviado.
— Negan? — Questionou, focando em mim novamente.
— Fugiu. Rick disse que eles lutaram, Negan ficou ferido, mas conseguiu escapar. — Expliquei em poucas palavras, não queria conversinha com ele.
— Merda... — Kane passou a mão no rosto e soltou outro suspiro que era uma mistura de dor e frustração.
Me virei, pronto para sair do trailer e chamar o Siddiq e Natalie, afinal ter ficado ali a madrugada toda não tinha nada a ver com Kane em si, ficar na presença dele mais que o necessário estava muito além dos meus limites.
Percebi que ele tentou se levantar de novo, impulsionando o corpo pra cima, para que ficasse parcialmente sentado na maca. Idiota...
O movimento causou dor perceptível, mas ele obteve sucesso no fim das contas, não que eu me importasse.
Já estava na porta do trailer quando o vi olhar pelo ambiente e focar na jarra de água em cima do móvel a minha esquerda. Percebi quando Kane fez menção de levantar e revirei os olhos para aquela teimosia idiota.
Dei meia volta e enchi o copo de água, entregando a ele em um gesto rude.
Kane virou o copo como se não bebesse água há dias, mas isso não significou que eu senti qualquer empatia por ele...
— Nosso médico disse que a bala atravessou, você perdeu muito sangue, mas por algum milagre o tiro não atingiu nenhum órgão. — Nem sei bem porque disse aquilo, Siddiq acabaria informando tudo, mas quando vi já tinha dito.
Kane riu de canto, ao mesmo tempo em que colocava o copo com dificuldade na mesinha ao lado, sua risada era um misto de ironia e diversão, como se houvesse alguma piada interna no que eu tinha acabado de dizer.
Quis socar a cara do idiota, mas me contive, voltando a cruzar os braços.
— É porque não tinha um órgão pra atingir aqui. — A explicação veio com um dar de ombros, como se não fosse grande coisa.
Abri e fechei a boca, engolindo minha pergunta apenas para não me dar ao trabalho de prolongar aquela conversa.
— Eu nasci sem os dois rins, então meu irmão me doou um. — Kane apontou o lado aposto ao tiro, aparentemente ele não tinha qualquer problema em jogar conversa fora. — Mas esse... — Mostrou o curativo. — Esse rim eu nunca tive. Que ironia, não é?
Era uma sorte bem filha da puta na verdade, não que fizesse qualquer importância pra mim.
Não fiz qualquer comentário sobre aquela história, afinal não éramos amigos. Apenas dei alguns passos para trás, decido a sair do trailer de novo, quando me dei conta que havia algo que eu precisava dizer, apenas para desencargo de consciência.
— Eu não queria que Negan tivesse atirado em você. Eu não sabia que ele faria isso. — Contei, sem qualquer emoção na voz, só queria que Kane soubesse que eu lutava minhas próprias batalhas, eu não precisava de um psicopata fazendo nada por mim.
— Eu sei. — Ele assentiu dando de ombros, como se nunca tivesse duvidado daquela verdade.
Concordei com o mesmo movimento de cabeça e dei um passo para trás.
— Você é um herói, Daryl. — A afirmação sem qualquer ironia ou humor me fez encarar Kane novamente, tentando entender o sentido daquela frase. — Heróis não mentem, a honra não permite... Então vocês acham que todos são como vocês, mas as pessoas mentem o tempo todo, Daryl, principalmente o Negan.
Não gostei daquela explicação, era quase como se Kane estivesse me tratando como alguém inocente, sem malicia na vida. Eu não era um engomadinho, eu conhecia as merdas do mundo...
— O tempo todo ele já sabia que queria me matar. — Kane continuou. Dando de ombros e soltando uma exclamação de dor por isso. — Ele quer a Natalie, quer fazê-la sofrer, mas não a mataria, não seria divertido. Ele também quer você, quer te quebrar, ele te machucaria pra fazer a Natalie ceder, mas te guardaria como um troféu. Mas de mim ele já teve o que queria... Eu sou descartável. Negan só estava esperando por uma oportunidade, alguém pra culpar.
As ações e decisões de Negan não faziam qualquer sentido na minha mente, mas quando Kane colocava em palavras parecia tão... lógico.
Eu via o maldito líder do Santuário como um psicopata louco, mas quando Kane explicava o raciocínio, eu via inteligência em cada atitude de Negan.
E isso tornava aquele psicopata ainda mais perigoso aos meus olhos...
— Ele queria que a Natalie escolhesse, mas quando viu Rick chegando teve que apressar as coisas, usou você pra isso, no intuito de que sua culpa te destruísse, meu ferimento impediria Natalie de ir atrás dele e com sorte minha morte a quebraria um pouco mais. — O jeito casual como Kane explicava aquilo me causava estranhamento, ver as coisas por aquele ponto de vista me fazia perceber, que para Negan, éramos só peças em um jogo que ele montava apenas para se divertir. — Negan é um sádico, mas é um sádico muito esperto, ele lê as pessoas e isso permite que esteja sempre um passo à frente.
— E você parece entender muito bem os pensamentos dele. — Apontei, mas não sabia dizer se aquele era um fato com o qual eu devia me preocupar.
Kane moveu um dos ombros sutilmente e comprimiu os lábios, como alguém que apenas aceitou uma verdade trágica sobre si mesmo...
— Eu não sou um herói, Daryl, eu sou um jogador, eu analiso as pessoas e minto, essa é minha configuração padrão. No fim eu sou bem parecido com Negan. — Suspirou pesado e eu não soube decifrar se era de dor ou de resignação.
— Ele é um psicopata. — Argumentei, afinal Kane era apenas um idiota.
— Talvez eu seja também... Nunca se sabe. — Ele ergueu as duas mãos e eu tive que revirar os olhos para a tentativa falha de humor ácido.
Já tínhamos passado da faze de aliviar a situação com humor ou ironia.
— Espero, para o seu próprio bem, que você não seja. — Dei alguns passos para frente, me aproximando o máximo que eu podia da maca. — Se você machucar a Natalie, se magoá-la, se por um segundo que seja você a fizer sofrer, Negan vai ser o menor dos seus problemas!
Kane não se mostrou intimidado com a minha ameaça, na verdade ele apenas franziu sutilmente as sobrancelhas, como se tivesse percebido algo mais nas minhas palavras.
— Eu nunca a machucaria... Já te disse que eu morreria por ela. — Ele respondeu neutro, sem humor, ironia ou sarcasmo. Eu não gostava de Kane, mas acreditei naquilo... — Mas você... — Apontou para mim em um tom um tanto decepcionado. — Você fala como alguém que está desistindo.
Voltei todos os passos que eu havia dado para frente, enquanto revirava os olhos e negava em movimentos curtos.
— Não é da sua conta. — Retruquei entredentes e segui para a saída do trailer.
Aquela maldita conversinha fiada já tinha ido longe demais.
— Ela te ama. — Eu já tinha dado o primeiro passo para fora, quando aquelas três palavras me detiveram.
Eu podia imaginar qualquer um em Hilltop me dizendo aquilo, mas não Kane. Não havia qualquer motivo para que falasse uma coisa daquelas.
Dei um passo para trás e o encarei de onde estava, sem esconder minha confusão. Talvez eu tivesse escutado errado.
— Eu vi isso nos olhos dela. Quando... — Ele não terminou, apenas abaixou a cabeça como se algo ali o ferisse diretamente. Mas aquela postura não durou dois segundos, Kane voltou a me encarar decidido logo depois. — Não importa. Ela te ama.
— Por que está me dizendo isso? — Eu tive que fazer a pergunta, porque eu realmente não conseguia entender.
As ações e atitudes de Kane conseguiam ser mais confusas para mim do que as de Negan. Era como se a linha de raciocínio dele fosse um novelo de lã sem ponta para seguir.
— Não sei... — Ele deu de ombros e soou brutalmente honesto. — Só não desista dela, apenas porque está com medo da escolha que ela vai fazer.
Ele recuperou a postura irritantemente desafiadora e eu senti a raiva fluindo pelas minhas veias.
Raiva certamente era melhor que confusão...
— Eu não tenho medo de nada! E eu não desisto! — Fui rude, e me esconder atrás daquela postura trouxe algum conforto.
Eu estava com medo, eu queria desistir.
Tinha medo que fosse tarde demais, medo que eu tivesse perdido a chance da minha vida, medo de ser rejeitado, medo de dar tudo certo e então tudo errado. Minha vida era apenas um amontoado de medo que eu escondia até de mim mesmo com desculpas esfarrapadas. Tudo aquilo tinha começado por causa do meu medo de assumir um compromisso, era o motivo pelo qual eu pedi para que Natalie saísse da minha vida. Medo. Puro e simples medo.
E sim, eu queria desistir, porque parecia tão mais fácil, ficar na minha zona de segurança era confortável, lutar por uma mulher que podia nunca ser minha parecia um pesadelo, me fazia sentir insuficiente e inferior.
Mas ouvir Kane colocar aquilo em palavras me fez ver que era tudo uma grande baboseira, desistir por ter medo era ser o maricas que Merle nunca quis que eu fosse.
— Que bom, eu gosto de uma briga justa. — Kane sorriu de canto e se moveu incomodado com a dor.
— Você não aguenta briga nenhuma agora, babaca. — Apontei com desdém.
O sorriso se intensificou, como se minha animosidade não fosse nada.
— Touché... — Ele apontou, me dando razão.
— E eu já acabei com você lembra? — Completei, me referindo a nossa briga na floresta.
— Existem controvérsias... — Kane balançou a cabeça de um lado para o outro e eu revirei os olhos.
— Idiota... — Dei as costas, mas novamente fui detido quando ele chamou meu nome.
Sufocar aquele babaca com o travesseiro voltou a parecer uma boa ideia.
— Obrigado... — Kane agradeceu com um mover de cabeça.
— Eu não fiz por você. Eu fiz pela Natalie. — Fui mais rude do que era necessário, mas não me importei com isso.
— Eu sei. Estava me referindo a água. — Ele apontou o copo na mesinha ao lado, com um sorrisinho superior que me fez ter vontade de voltar lá e quebrar aqueles dentes.
— Vai se ferrar! — Xinguei no limite da minha paciência.
— Mais? — Kane gritou antes que eu fechasse a porta do trailer.
Eu realmente odiava aquele babaca, mas que bom que ele continuaria vivo.
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