Lifeline — Destiny Don't Give Up
34 Cartada Final
Notas iniciais
• NATALIE COOPER •
Algumas pessoas têm medo do escuro, é compreensível até, quando pequena eu devo ter temido também. O desconhecido que se esconde nas sombras, o silêncio assombroso que pode anteceder qualquer coisa. Estar na escuridão pode ser o pior pesadelo de alguns.
Não era o meu.
Acho que algumas vezes a vida se torna tão terrível que o escuro é de certa forma acalentador. Apenas eu, a escuridão e o som da minha própria respiração. Era confortável, pacífico, minha mente estava calada, não havia dor, não havia nada...
Era como estar no vazio onde nada é real e tudo é possível. Minha consciência apagou por horas, mas eventualmente ela despertou, e lá estava eu no escuro...
Quando abri os olhos eu estava em um ambiente branco, embora eu estivesse ali, desperta, havia uma sensação estranha de dormência em mim que eu não conseguia explicar, como se parte dos meus sentidos ainda estivesse adormecida.
Encarei o teto branco sobre mim e senti aquela sensação de familiaridade, eu conhecia aquele lugar. Conhecia bem demais até. Eu estava em casa...
O pensamento me causou um choque, mas isso só aconteceu no fundo da minha mente, naquela parte adormecida dos meus sentidos. Porque minha única atitude foi me virar para a direita, como se apenas precisasse me aconchegar na cama.
Eu sequer me surpreendi quando vi o homem dormindo pacificamente ao meu lado. Na verdade, eu sorri e acariciei os cabelos de Daryl como se fosse a coisa mais certa do mundo ele estar ali comigo no meu apartamento em Washington.
Senti meu coração cheio de amor e força...
Mas soube em meu íntimo que algo faltava, então eu casualmente me virei para a esquerda e também sorri para o outro homem deitado ali. Kane dormia como se não houvesse caos algum no mundo. Com ele eu sentia paixão e segurança.
Eu estava feliz, completamente, como se não houvesse nada mais no mundo que eu quisesse.
— Você tem que escolher... — A voz me assustou e eu me coloquei sentada no impulso. — Sabe disso, não sabe?
Encarei Bolt deitado nos pés da cama e sim, um cachorro estava falando comigo.
Certo, aquilo definitivamente era um sonho... Eu já devia saber disso quando me percebi no meu apartamento em Washington, deitada com dois homens na minha cama. Soava como uma ideia tentadora e confortável, mas obviamente nunca aconteceria na vida real.
— Eu não quero escolher... — Falei em voz alta, não com o cachorro é claro, era apenas um pensamento que eu estava exteriorizando...
Eu não queria escolher entre Daryl e Kane, aquilo não tinha a ver com as ameaças de Negan, tinha a ver comigo mesma.
— Por que você não quer escolher? — Bolt perguntou como um eco da minha própria consciência.
Eu não soube responder, na verdade, procurar pela resposta dentro da minha própria mente fez tudo começar a rodar e rodar. Fechei os olhos com força para que tudo aquilo parasse e, quando os abri novamente, eu não estava mais no meu apartamento, eu estava no meu quarto, em Dawsonville...
O sentimento de nostalgia tomou conta de mim enquanto eu encarava os lençóis conhecidos e os moveis nos mesmos lugares.
— Parece que você teve um sonho ruim... — A voz masculina fez meu coração sair do prumo e um sorriso enorme aparecer no meu rosto antes mesmo que eu levantasse meu olhar.
— Pai! — Exclamei ao ver Peter Cooper parado ali, encostado no batente da porta, com seu sorriso calmo no rosto.
Eu me senti em casa, como se não houvesse qualquer outro lugar no mundo onde eu quisesse ou devesse estar. Joguei a coberta para o lado e tentei descer da cama para alcançá-lo, mas foi impossível, era como se algo magnético me impedisse de colocar os pés no chão.
— Me deixe ir até você. — Pedi, tentando outra vez descer da cama.
— Isso é o que você quer? — A resposta veio na forma de uma pergunta calma e compreensiva.
— Está muito difícil aqui. — Eu respondi antes mesmo de pensar sobre.
Entendi naquele momento que para estar com meu pai eu teria que estar morta. Ainda era um sonho. Uma metáfora sobre a vida.
— Então você vai desistir? Só porque é mais fácil? — Havia um leve tom de repreensão em sua voz e eu me lembrei de todas as vezes que meu pai tinha me aconselhado sobre alguma coisa que ele não achava certo.
— Eu não sei o que fazer... — Fui honesta. — É como se todas as minhas decisões fossem erradas.
— É por isso que você não quer escolher? — Senti a acusação naquela questão, não era uma pergunta do meu pai, era uma pergunta da minha própria consciência.
— Eu não sei... — Respondi, sentindo que minha mente era incapaz de encontrar o motivo. Era como se eu estivesse dopada.
— Eu acho que você sabe, você sabe muito bem, por isso não quer escolher. — Franzi as sobrancelhas, não só tentando entender a frase, mas também tentando encontrar o motivo no fundo da minha mente. — Escolher significa perder um deles, e você não quer perder mais ninguém.
Era isso, aquele era o motivo.
— Eu quero os dois. — As palavras saíram da minha boca sem qualquer tom de surpresa.
Meu pai deu alguns passos para dentro do quarto e se aproximou da cama, parando há alguns centímetros e me encarando. Olhos nos olhos.
— E por que você quer os dois, Natalie? — A pergunta fez um arrepio gelado atravessar minha alma.
Eu não sabia, e estava pronta a dizer isso quando tudo ao meu redor sumiu.
Era como se eu estivesse caindo, metros e metros, uma queda sem fim. A pergunta do meu pai ainda ecoava na minha mente "Por que você quer os dois?", havia um motivo, eu sabia que havia.
Eles me faziam sentir completa... Mas o que isso significava?
Meus pés bateram no chão e eu me vi em outro dos meus quartos. Eu estava na casa da minha mãe, parada na janela, com as mãos apoiadas no peitoral e os olhos no horizonte.
Lá em baixo, no jardim, eu reconheci a figura feminina entretida com um enorme girassol. Meu coração se encheu de saudade e melancolia.
Luka.
Ela ergueu os olhos e acenou para mim e eu fiz o mesmo, notando que ela parecia mais nova. Eu me lembrava daquilo.
Olhei para o lado e havia um homem ali, apoiado no parapeito com os olhos no céu carregado de nuvens escuras.
— Parece que tem uma tempestade se aproximando... — Daniel Spelman comentou casualmente, com um sorriso triste nos lábios.
Aquilo não era apenas uma cena aleatória dentro de um sonho. Era uma lembrança de algo que tinha acontecido. Conversamos sobre a minha mãe aquele dia, sobre Daniel achar que o casamento deles estava fadado ao fracasso.
— Eu não sei como vencer isso, Dan... — Declarei, encarando meus dedos do peitoral por um momento. — Eu estou perdendo.
Aquelas frases ditas por mim, tinham sido dele na verdade, era o que ele tinha dito sobre a minha mãe no passado.
— Não desista. — Daniel me encorajou, da mesma forma como eu o tinha encorajado aquele dia.
Entendi que era uma inversão de papeis. Dan estava ali para me aconselhar, e era bem apropriado na verdade, ele sempre tinha sido um bom conselheiro.
As primeiras gotas de chuva começaram a cair e quando olhei no gramado Luka não estava mais lá.
— Eu tentei de tudo, agi conforme meu coração mandou e tudo deu errado, agi conforme minha mente mandou e tudo deu errado. — Confidenciei, dizendo algo que estava bem lá no fundo do meu âmago todo aquele tempo.
— Você esqueceu quem você é... — Daniel se virou na minha direção.
— O que isso significa? — Tentei entender e ele sorriu. Aquele mesmo sorriso franco que Daniel tinha quando estava no tribunal e sabia coisas que o outro advogado desconhecia.
— Você nunca foi mente ou coração, Natie. Nunca foi razão ou emoção. Você sempre foi os dois. Sua motivação...— Ele apontou para o próprio coração entanto falava. — Sua arma... — Apontou a cabeça. — Está tudo aí, use.
Olhei para o jardim que a chuva castigava por alguns momentos, ponderando sobre o que eu acabara de ouvir.
Então eu entendi uma grande verdade sobre mim mesma, eu estava quebrada, fragmentada em pedaços, o que me impedia de agir inteiramente como eu mesma. Eu estava incompleta e aquilo dizia muito sobre mim mesma e minhas atitudes.
Quando me virei novamente para Daniel, afim de comentar aquela descoberta, ele não estava mais lá.
Olhei ao redor e ainda estava no meu quarto, foi quando ouvi o som de um choro dolorido vindo do meu banheiro.
Caminhei naquela direção. Eu reconhecia aquele choro. Era meu.
Empurrei a porta do banheiro e assim que reparei nos cacos de vidro no azulejo eu soube a cena que veria...
Eu estava no chão, com uma barriga de cinco meses e o peso do mundo nas costas. Minha mãe estava ali, ela me abraçava enquanto eu chorava compulsivamente depois de uma crise onde eu havia quebrado tudo ao meu redor.
Era uma lembrança, mas diferente da cena com Daniel, aquela eu assistia de fora.
E ver meu sofrimento por aquela perspectiva realmente tornava tudo diferente...
— Você é forte, Natalie, eu sei que você é. — Minha mãe dizia enquanto acariciava meu cabelo. — Esse não é o seu pior momento, vai passar, eu prometo. E quando o pior momento vier você vai olhar pra trás e saber que você é forte e você aguenta.
Eu não acreditei naquelas palavras naquele dia, eram apenas frases soltas e sem significado pra mim, eu não acreditava que podia existir um momento pior que aquele.
Mas minha mãe estava certa, existiram momentos piores que aquele. Vários deles.
— Você vai ficar bem, eu prometo. Respirei fundo e lembre: Você é forte. Não importa que se sinta fraca e impotente agora, não importa que você não veja a saída, você pode passar por isso. E daqui um mês, um ano, dez anos, quando você olhar pra trás e ver que acabou, eu só quero que saiba que eu vou estar orgulhosa de você...
Eu sorri, porque senti que aquela conversa de dez anos atrás ainda era tão atual e verdadeira que de alguma forma aquilo me deu um pouco mais de força.
Talvez minha mãe estivesse certa, eu era forte, eu podia passar por tudo que eu estava vivendo...
— Mãe...? — Eu ouvi a voz se espalhar por toda a parte, vinda de lugar nenhum e a reconheci de imediato. Petter. — Mãe?
Senti o toque no meu braço e foi quase como ser puxada daquele sonho. Quando abri os olhos eu estava em Hilltop, no mesmo quarto em que eu tinha ido dormir. Pisquei algumas vezes para espantar o sono e encontrei Petter parado ao lado da cama com uma bandeja na não.
— Oi! — Ele sorriu animado e eu me senti em casa, como se por um segundo toda a dor do mundo não importasse realmente.
— Oi... — Me sentei, espreguiçando o corpo e me sentindo estranhamente descansada.
Só quando minha coxa ardeu de dor é que toda a realidade me atingiu com o peso de mil tijolos.
— O que aconteceu? Quanto tempo eu dormi? — Questionei, tentando me levantar.
— Dormiu a noite toda, como qualquer pessoa normal. — Petter se colocou na minha frente, e me estendeu a bandeja, me impedindo de me colocar de pé. — Eu te trouxe o café.
Pensei em dispensar a xícara de café puro e o pão caseiro, mas a verdade é que senti meu estômago roncar de fome.
— Obrigada. — Agradeci, repartindo o pão e oferecendo um pedaço a Petter que recusou. — Você sabe alguma coisa sobre o Kane?
— Papai estava com ele... — Deu de ombros, sem demonstrar muito interesse.
Assenti devagar, bebendo um gole de café e notando que minha mente estava vazia, nada de pensamentos tumultuados ou de lembranças rodando em looping infinito. Eu não sabia quanto tempo duraria, mas certamente era uma dádiva.
Olhei ao redor e notei Bolt ali, deitado no chão, com a cara toda imunda.
— O que aconteceu com o cachorro? — Apontei, franzindo as sobrancelhas.
— Não sei... vai saber. — Petter deu de ombros, fazendo aquela carinha de inocente.
Eu sabia que alguma coisa tinha acontecido e aquilo me preocupou imediatamente.
— Estamos bem, mãe. — Ele apaziguou, quando notou minha postura. — O mundo não desabou só porque você dormiu por uma noite.
Assenti devagar, pouco convencida, analisando os dois e me certificando que realmente não tinha nada errado com eles.
Algo tinha acontecido, isso era certo, mas estavam todos bem, então talvez não fosse nada grave. Me coloquei de pé com alguma dificuldade, a perna ainda doía, mas nada que me impedisse de mancar até o banheiro.
Quando voltei para o quarto Petter ainda estava ali com Bolt, me encostei em uma das janelas e encarei o exterior de Hilltop, notando que havia algo diferente no ambiente.
Passei os olhos por toda a parte e percebi o grande espaço vazio em um dos cantos.
— Achei que tinha Salvadores naquele cercado... — Apontei, e a preocupação caiu sobre meus ombros outra vez.
Petter abriu um sorriso forçado, gaguejando algumas vezes como se estivesse ganhando tempo para explicar, o que só me deixou mais desconfiada.
Foi nesse momento que a porta se abriu e Daryl entrou no cômodo, parando os olhos em mim quando me viu de pé.
— Olha, só, papai 'tá aqui, ele vai te explicar, eu tenho muitaaa coisa pra fazer agora. — Petter desconversou, aproveitando o silêncio que pairava entre mim e Daryl como uma oportunidade para sair de fininho.
Assim que ficamos sozinhos Daryl deu alguns passos na minha direção, parando e voltando alguns quando viu que estava perto demais.
Eu ainda estava tentando entender aquela nova dinâmica entre nós dois, havia um limite emocional que na verdade me deixava confortável, afinal eu não queria falar de sentimentos. Não quando eu sabia que tocar nesse assunto me levaria a uma escolha que eu não queria fazer.
— Como você está? — Ele perguntou em um tom calmo e eu abri a boca para responder. — E não diga bem, por favor.
Era exatamente o que eu teria dito, quase como se fosse uma resposta padrão e automática, um hábito difícil de mudar.
— Eu estou melhor, sério. — Garanti, dizendo a verdade. — Confusa, mas impressionantemente descansada.
Daryl assentiu algumas vezes, aceitando minha resposta.
— Vai me dizer o que aconteceu? — Perguntei, apontando o cercado lá embaixo.
— Os Salvadores vieram. — Daryl foi direto, bem diferente de Petter que tentou a todo custo se esquivar de responder.
Meu coração deu um salto dentro do peito e minha mente se encheu de todas as consequências negativas que aquele ataque podia ter gerado, era mais forte que eu, os pensamentos apenas vinham e enchiam minha cabeça, sem controle ou lógica.
Senti que meus pulmões não recebiam ar o bastante, e só reparei que Daryl tinha se aproximado quando ele segurou meus ombros.
— Está tudo bem. — Ele garantiu, me fazendo olhar pra ele. — Negan não estava com eles, vencemos. Tivemos algumas baixas, não vou mentir, e os Salvadores no cercado fugiram, mas está tudo sobre controle, Rick e Carl foram cuidar disso. Você não tem nada com o que se preocupar.
Ele disse as frases com calma, pausadamente, de modo que eu acabei acalmando minha respiração e recobrando algum controle.
— Não acredito que teve um ataque e eu estava dormindo. — Passei a mão pelo rosto, assim que Daryl se afastou alguns passos. — E se alguma coisa tivesse acontecido com o Petter?
— Você estava sedada, e precisava disso. — Ele respondeu, ainda no mesmo tom calmo, que na verdade não combinava muito com ele. — Petter ficou aqui com você. Eu nunca deixaria que nada acontecesse com ele.
Eu sabia que tudo aquilo era por mim; a calma, a compreensão, as frases mais extensas que o comum. Daryl realmente estava empenhado em me fazer sentir melhor. E vê-lo tentar daquela forma tinha um impacto profundo no meu coração.
— Eu sei... — Assenti soltando um suspiro de alivio. Toda aquela ansiedade da minha parte não tinha lógica e a forma como Daryl lidava com aquilo deixava as coisas mais claras para mim. —Obrigada.
Ele assentiu com um só movimento e me estendeu a mão direita.
— Vem, o idiota acordou. — Ergui uma sobrancelha e Daryl revirou os olhos antes de corrigir. — Kane, quer dizer.
Ri de canto daquela birra boba e deixei que Daryl me ajudasse a andar, mesmo que eu tivesse firmeza o bastante na perna pra fazer isso sozinha.
Quando chegamos ao lado externo de Hilltop percebi que havia uma pequena confusão no portão, o antigo líder do lugar tentava argumentar com Maggie para que ela o deixasse entrar, porque ele tinha informações importantes do Santuário.
Por mais que eu quisesse ficar e ouvir aquilo, segui para o trailer médico. Quando eu e Daryl estramos, Siddiq estava conversando com Kane.
— Eu acho que não ter um rim foi a diferença entre vida e morte pra você. — O ouvi dizer, antes que os dois notassem nossa presença.
Os olhos de Kane pousaram em mim de forma calma, quase como se nada terrível tivesse acontecido.
— Vou deixar vocês sozinhos. — Daryl declarou contrariado e saiu com Siddiq logo depois.
Dei dois passos para frente e Kane sorriu. Ele estava pálido, com olheiras fundas, mas era um alivio vê-lo acordado depois de tudo que tínhamos passado.
— Oi. — Ele acenou casualmente.
— Como você está? — Perguntei, parando ao lado da cama.
— Vivo. — Deu de ombros. — Ouviu o doutor. Ter nascido defeituoso foi a minha salvação.
Franzi as sobrancelhas sem entender muito bem toda aquela coisa de rim. Só então me dei conta que Kane me conhecia muito bem, mas eu não sabia nada sobre ele.
— Eu nasci sem um rim. — Revelou como se não fosse nada demais. — Sou um cara sortudo, pelo menos era isso que eu dizia para o pessoal de Vegas...
Kane riu, mas senti que era apenas para amenizar todo aquele clima.
Todos os momentos com Negan voltaram a minha mente e eu senti que devia a Kane uma explicação, mesmo que não quisesse tocar no assunto.
— Olha... sobre o que disse ontem... — Comecei sem saber muito bem o que dizer.
— Você não tem que explicar nada, Natalie. — Kane me interrompeu.
Em outro momento talvez eu tivesse insistido, mas a verdade é que eu não queria conversar sobre aquilo. Era difícil explicar para alguém sentimentos que eu mesma não entendia direito ainda.
— Me desculpa. — Pedi, negando algumas vezes e baixando a cabeça.
— Pelo quê? — Kane perguntou, agindo como se não houvesse nada que fosse minha culpa.
— Por te arrastar pra tudo isso. — Expliquei, fazendo um movimento amplo com a mão esquerda e apontando o ferimento no abdômen dele no fim.
— Você não me arrastou pra lugar nenhum, Natalie. Eu te segui porque eu quis. Eu tenho livre arbítrio, sabia? — Retrucou neutro e eu não soube mais o que dizer.
Talvez Daryl e Kane estivessem certos, talvez nada daquilo fosse minha culpa. E, no fim, me culpar e ficar pedindo desculpas não ajudava em nada de verdade, não desfazia o que tinha acontecido...
Puxei uma cadeira e me sentei ao lado de Kane. Ficamos em silêncio por um longo tempo, mesmo com tanta coisa a ser dita. Havia uma certa calmaria nos olhos escuros dele, quase um conformismo que, para mim, não fazia qualquer sentido.
— Você parece muito calmo... — Comentei e Kane focou os olhos em mim por alguns segundos, então sorriu.
— Eu já passei por coisa pior... — Deu de ombros e por um instante eu vi em seus olhos que aquilo era a mais pura verdade.
Aquele turbilhão de coisas podia ser o inferno para mim, mas Kane estava em paz, porque ele já tinha passado pelo verdadeiro inferno.
Foi apenas outra prova de que eu não sabia absolutamente nada sobre ele.
— Um dia eu te conto. — Desconversou, se movendo com cuidado por causa do ferimento. — Como está a perna?
Encarei o curativo na minha coxa por alguns segundos e dei de ombros.
— Já até acostumei. — Respondi neutra.
Talvez em outra situação, uma situação normal, aquilo fosse o centro das minhas atenções, mas no meio de tudo que eu estava vivendo era apenas um detalhe.
A dor física era até benéfica, me mantinha alerta, quase como se fosse um ponto de foco para que minha mente não dispersasse.
Fiquei com Kane por mais um tempo, sem pretensão ou conversa, até que Siddiq voltou para trocar os curativos dele.
— Vá ver como seu menino e seus amigos estão. — Kane incentivou segurando a minha mão por um momento. — Vai tranquila, eu estou bem, prometo.
Ele puxou minha mão para perto e depositou um beijo ali, me soltando em seguida para que eu saísse.
Por mais que eu quisesse ficar, eu sabia que não havia nada que eu pudesse fazer ali, então deixei o trailer decidida a procurar Daryl, para saber que tipo de notícia Gregory tinha trazido do Santuário.
Eu estava a caminho da casa quando os portões da comunidade se abriram e Carl passou por eles, visivelmente irritado, pisando duro.
— Carl... — Rick parecia no meio de uma argumentação com o garoto.
— Não! — O mais novo ergueu o dedo em riste e não parecia nada satisfeito com seja lá o que tivesse acontecido fora dos muros de Hilltop.
Lembrei que Daryl tinha dito que os dois Grimes haviam saído para procurar os Salvadores fugitivos e, julgando que apenas os dois estavam de volta, ou nenhum dos homens tinham sido encontrados, ou Rick julgou que não era necessário deixar sobreviventes.
Eu não sabia se conseguia ter empatia o bastante para discordar daquela atitude de Rick, afinal eu mesma queria todos os Salvadores mortos.
— Tinha outro jeito! — Carl apontou, passando por mim como se não tivesse me visto e sumindo das vistas, antes que Rick pudesse retrucar.
Vi o líder de Alexandria parar no meio do gramado e suspirar, apoiando o peso do corpo em uma das pernas e passando uma das mãos pelo rosto, enquanto a outra estava apoiada na cintura.
— Tudo bem? — Perguntei, me aproximando alguns passos.
Sim, eu tinha dado uma surtada com Rick antes, mas não éramos inimigos, eu sabia disso e ele também. Estávamos sob muita pressão, desentendimentos vinham no pacote.
— Aparentemente tudo que eu faço é um erro... — Ele explicou, jogando uma das mãos no ar como se estivesse frustrado.
— É, eu sei como é. Conheço esse sentimento. — Concordei com um aceno e ele apenas negou algumas vezes, como se não tivesse jeito de fugir de tudo aquilo.
Eu realmente conhecia aquele sentimento...
— Você está bem? — Apontou o curativo na minha perna.
— Viva. — Dei de ombros. — Acho que isso é o melhor que dá pra estar nesse momento.
Rick concordou, parecia cansado, como se carregasse o peso do mundo em seus ombros. Eu entendia; ser um líder em uma situação como aquela era complicado. Era mais difícil para ele do que para qualquer outra pessoa.
Um líder não podia pensar no que era melhor apenas para si mesmo e para a própria família, ele tinha que pensar no que era melhor para o coletivo, a curto e longo prazo. Cada decisão podia custar a vida de muita gente.
— Sinto muito não ter ficado e ajudado, é só que... — Rick tentou explicar, mas eu ergui a mão para interrompê-lo.
— Eu entendo. Não precisa explicar.
Ele assentiu brevemente, respirando fundo em seguida.
— Seu amigo? — Apontou o trailer, perguntando de Kane.
— Ele acordou. Precisa de repouso mas vai ficar bem. — Respondi ao mesmo tempo em que via Michonne caminhando em nossa direção, com Judith no colo.
— Temos um problema... — Ela declarou um tanto tensa, enquanto Rick pegava a filha no colo.
Encarei a casa de onde ela tinha acabado de sair e Daryl estava lá na porta, fez um gesto para que eu entrasse também e automaticamente meu coração saiu do ritmo, pensando no pior cenário.
Aquelas reações minhas eram totalmente irracionais, eu sequer sabia do que se tratava e já estava à beira de um ataque de nervos. Eu precisava controlar aquilo antes que ficasse ainda pior.
Quando nos reunimos no escritório, com Maggie, Tara, Rosita, Jesus, Carol e Ezekiel, Gregory contou sua história.
Ele havia trazido uma mensagem de Dwight, Negan estava de volta ao Santuário, Simon tinha sido subjugado e afastado do poder, além disso o bilhete informava posições e estratégias dos Salvadores para dali dois dias, quando uma grande quantidade de munição seria entregue. Negan estava prestes a separar seu exército, e estaria vulnerável com um pequeno grupo de homens confiáveis, alguns quilômetros ao norte. Aquela seria a melhor chance que teríamos de acabar com aquela guerra.
Percebi que todos no cômodo estavam tensos, perdidos nas possibilidades do que estava por vir, enquanto Jesus escoltava Gregory para fora dali.
Assim que nos vimos sozinhos, Maggie fez a pergunta mais pertinente:
— E o Dwight é confiável?
Alguns olhares foram trocados, mas ninguém respondeu de imediato.
— Ele meio que me salvou, eu acho. — Tara foi a primeira a se pronunciar e aquele apoio dela me pareceu estranho
Ela queria matar Dwight no dia anterior. O que tinha mudado?
— Ele te atingiu com uma flecha. — Daryl retrucou de braços cruzados e senti que eles estavam falando de algo que tinha acontecido quando eu estava apagada.
— Mas a flecha não estava infectada, podia estar, como todo o resto, mas não estava. — Tara deu de ombros. — Talvez ele queira compensar, consertar as coisas...
Ponderaram aquela informação por algum tempo, mas não chegaram a conclusão nenhuma, de modo que minutos depois todas as atenções estavam em mim, como se eu soubesse de algo, ou pudesse atestar a índole de alguém.
— Não olhem pra mim, eu tenho um pequeno problema pessoal com o cara. — Ergui as duas mãos, a coisa toda com Dwight tinha passado um pouco, principalmente porque Daryl estava vestindo o colete naquele momento, mas eu sempre teria um pé atrás com um homem que era conivente com a mulher se entregando para Negan... — Porém ele se arriscou pra mandar essa mensagem, ele certamente acredita que é verdade...
Tentei sei o mais neutra e justa possível, afinal era uma coisa importante, deixar minha opinião pessoal sobre Dwight intervir não parecia certo.
— Mas? — Daryl me incentivou a continuar, depois de analisar minha expressão por alguns segundos.
— Mas ele pode estar sendo enganado pelo Negan. — Foi Rick quem completou, exatamente com o que eu tinha pensado.
— Acha que Negan é capaz de pensar em algo assim? — Carol questionou diretamente para mim.
— Eu não sei. — Fui honesta. — A verdade é que eu não entendo o Negan. Eu pensei que o conhecia, mas ele ultrapassou todos os limites de crueldade, eu não sei mais o que esperar dele.
Ficamos em silêncio, pensativos, apenas algumas respirações pesadas de vez em quando. Todo mundo ali sabia o que estava em jogo.
— Devíamos arriscar. — Maggie declarou finalmente. — É a melhor chance que temos de acabar com o Negan desde que tudo isso começou.
Ela parecia decidida e sua certeza ganhou o apoio do restante do grupo. Eu não sabia se meu receio daquela decisão era real, ou era apenas um mecanismo de defesa projetando meu medo de que tudo desse errado de novo.
Aos poucos o pessoal foi saindo do escritório, cada qual com sua tarefa, eram apenas dois dias, teríamos muito trabalho pela frente.
Estavamos apenas eu e Rick na sala, quando Daryl nos deteve.
— Ou talvez devêssemos perguntar para alguém que entende o Negan melhor que a gente. — Ele declarou e era a primeira vez que eu o via pensar, antes de apoiar qualquer pessoa daquele grupo totalmente.
Rick encarou Daryl, sem entender onde ele queria chegar. Mesmo eu não tinha entendido a quem ele se referia.
— Kane. — Daryl soltou o nome como um xingamento, mas isso não mudou sua postura decidida em nada.
Enquanto seguíamos para o trailer médico, depois que Rick concordou com aquela ideia, eu só conseguia pensar que algo realmente importante tinha acontecido para que Daryl cogitasse pedir a ajuda de alguém, ainda mais a ajuda de Kane.
Fiquei um tanto orgulhosa que ele tivesse deixado aquela birra infantil de lado em nome do bem maior. Kane não era o vilão ali, e Daryl estava certo, se tinha alguém que conhecia e entendia o Negan, esse alguém era Kane Bennet.
Quando entramos no trailer Kane franziu as sobrancelhas por alguns momentos, antes de abrir um sorriso amplo e quase debochado.
— Deve ser bem importante para que o Grande Kahuna tenha vindo me ver pessoalmente. — Apontou Rick, que apenas revirou os olhos.
— Cala a boca, panaca! — Daryl ordenou e foi minha vez de revirar os olhos. Pelo listo a birra infantil ainda estava lá.
— Precisamos de ajuda. Kane... — Comecei, dando a deixa para que Rick e Daryl explicassem os motivos de estarmos ali.
Kane ouviu com atenção todas as informações, desde a chegada de Gregory, até o conteúdo do bilhete de Dwight, que Rick entregou pra que ele lesse.
Houve um longo momento de silêncio depois disso, Kane ficou encarando o papel e então passou os olhos por Daryl, Rick e finalmente os pousou em mim.
— Anda, diz alguma coisa. — Daryl ordenou impaciente, como se o fato de ter Kane me encarando por tanto tempo fosse algum tipo de afronta pessoal.
— Ah, agora eu posso falar? — Ele sorriu de canto ao responder. — Você disse que eu tinha que calar a boca...
Daryl deu um suspiro profundo, que deixou bem clara sua vontade de socar Kane naquele instante.
— Isso foi inútil. — Rick fez menção de dar as costas.
— Soa como algo que Negan faria sim. — A voz de Kane deteve o líder de Alexandria. — Subestimar os oponentes, se achar intocável... A cara dele.
Rick assentiu algumas vezes, parecendo satisfeito com o que tinha escutado.
— Era tudo que eu precisava saber. — Ele fez um movimento de cabeça em agradecimento. — Mas vamos tomar precauções mesmo assim...
Aquela última frase deixou claro que ele não confiava em Kane plenamente, o que não pareceu ofender Bennet em nada.
Rick saiu do trailer primeiro e eu e Daryl estávamos prestes a segui-lo, quando Kane nos impediu:
— Espera...
Dei meia volta e segui alguns passos para próximo de Kane, esperando que ele dissesse o que queria.
Daryl olhou de mim para o moreno na cama e não pareceu nada satisfeito.
— Nós vemos lá fora. — Declarou contrariado dando às costas.
— Você também, caipira. — Kane não deixou que ele saísse. — Precisamos conversar.
Meu coração deu um salto inteiro dentro do peito. Daryl voltou e fechou a porta do trailer.
Só havia uma coisa que eu, Daryl e Kane tínhamos em comum para conversar...
Minhas mãos começaram a suar frio. Ser obrigada a fazer uma escolha justo naquele momento, era pior que um pesadelo.
— É uma armadilha. Negan está jogando com o Rick. — Kane declarou casualmente e eu demorei alguns segundos para entender que o assunto que ele queria conversar, nada tinha a ver com escolhas ou sentimentos.
— E por que não disse isso antes, idiota?! — Daryl retrucou rudemente, nada contente com aquela revelação. — Eu vou avisar os outros.
— Não faça isso. — Kane o impediu novamente. — Isso é um trufo. Não desperdice.
— Tem razão, é um trunfo, por isso mesmo eu vou avisar os outros. — Daryl devolveu ainda mais irritado.
Eu preferi esperar que Kane explicasse, antes de assumir qualquer posição. Confiava nele o bastante para dar o benefício da dúvida.
— Como você sabe que não tem um espião aqui dentro? — A pergunta fez Daryl parar onde estava, desistindo totalmente de sair do trailer. — E mesmo que não tenha ninguém, lembra o que eu te disse sobre heróis? Eles não sabem mentir, Daryl. Na hora que você contar, todo o grupo vai agir diferente, se o Negan desconfiar que vocês sabem, acabou o trunfo e eu não sei se terão outra vantagem tão cedo.
Daryl cruzou os braços contrariado, mas não retrucou. Percebi que os dois tinham conversado bastante enquanto eu estava desacordada e aquilo realmente me surpreendeu, além de me deixar bastante curiosa.
— Seus amigos heróis são os soldados que vão lutar as batalhas, mas todo mundo sabe que são os espiões que ganham as guerras, isso quer dizer, os mentirosos. Precisamos usar isso a nosso favor agora. — Kane explicou casualmente.
Daryl franziu as sobrancelhas como se não tivesse entendido nada, mas eu sim entendi tudo.
— Você tem um plano. — Afirmei com certa satisfação.
Não era uma surpresa, afinal Kane era um jogador, ao menor sinal de uma oportunidade ele armava uma jogada.
— Claro que eu tenho. — Ele sorriu abertamente. — E já que estou preso nessa cama, preciso de vocês dois para executar esse plano.
Apontou para mim e para Daryl, então pareceu ponderar por um momento.
— Quer dizer, na verdade eu preciso só da Natalie. — Deu de ombros. — Mas da última vez que deixamos o Daryl de fora ele teve um péssimo timming, então...
— Kane... — Repreendi como se ele fosse uma criança travessa, enquanto Daryl bufava do meu lado, exatamente como faria um menino irritado.
Tão lindos e tão infantis, mereço, pensei, revirando os olhos.
— Além disso, sempre tem lugar pra um pouco de músculos, não é? — Kane continuou e assumiu um tom mais sério. — Ele vai te manter segura e com certeza não vai deixar nada te acontecer, então Daryl é essencial.
— Eu não preciso de ninguém pra me manter segura! — Foi minha vez de agir como uma criança mimada e cruzar os braços contrariada.
Olhei para Daryl em busca de apoio, mas ele apenas deu de ombros.
— Na verdade, eu concordo com o Kane. — Apontou neutro e aquilo sim me deixou surpresa.
— Desde quando? — Questionei indignada e Daryl voltou a encolher os ombros.
Kane copiou o mesmo movimento e eu neguei algumas vezes. Como é que eu tinha perdido aquela discussão?
— Conta logo o seu plano, idiota. — Daryl voltou ao seu humor habitual.
— Primeiro: por que não me conta tudo que você sabe sobre o gordinho nerd, Eugene? — Kane abriu um sorriso cheio de significados. — Não poupe detalhes, eles são muito importantes...
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— Não acredito que estamos fazendo isso... — Daryl soltou, seguindo ao meu lado em direção aos portões de Hilltop.
Tínhamos passado mais de duas horas com Kane, ele tinha explicado cada mínimo detalhe do que queria que fizéssemos e como cada parte era essencial para dar credibilidade para a jogada.
E nesse meio tempo Daryl tivera que contar tudo que sabia sobre Eugene, sobre Rick, sobre o grupo. Nunca o tinha visto falar tanto. Era quase frustrante que Kane tivesse conseguido fazer com que Daryl Dixon conversasse mais em duas horas, do que eu tinha conseguido em todo aquele tempo.
Supus que situações desesperadoras sempre tiravam atitudes inesperadas de todo mundo. Daryl realmente estava sendo inesperado naquele último dia.
E eu gostava disso.
— É um bom plano, Daryl. — Garanti com um aceno de cabeça.
Já tínhamos arrumado tudo para sair de Hilltop, nada em excesso, porque não ficaríamos muito tempo longe. Também já tínhamos falado com Petter e garantido que ele ficaria bem naquele meio tempo. Era isso, estávamos prontos.
— Que seja, se tudo der errado, nós matamos aquele traidor e pronto. — Daryl deu de ombros como se não fosse nada demais.
— Se fizer isso, Negan vai mudar os próprios planos e acabar com o nosso trunfo. — Argumentei, tentando tirar aquela ideia extremista da cabeça dele.
— Se o idiota traidor contar que estivemos lá, nosso trunfo não vai por água abaixo do mesmo jeito? — Retrucou, movendo um dos ombros.
— Se você matar o Eugene, é certeza que o nosso trunfo já era, se seguirmos o plano, existe sim a possibilidade de dar errado, mas também tem a possibilidade de dar certo, temos que tentar. — Devolvi neutra e Daryl me encarou por alguns momentos.
— Parece muito confiante e otimista com o plano do Kane. — Ele apontou, arrumando a besta nas costas.
Ponderei aquelas palavras por um instante. Era verdade, eu estava estranhamente confiante, mesmo sabendo o que viria a seguir e o meu papel em todo aquele plano...
— Eu estou otimista porque estamos trabalhando juntos. Nós três. — Admiti, assim que o pensamento passou por minha mente. — Três cabeças pensam melhor que uma.
Daryl fez uma careta de desdém.
— Nunca ouviu dizer que três é demais? — Retrucou contrariado e na verdade eu achei certa graça.
Estava pronta para responder, mas Rosita nos parou no portão.
— Onde vocês vão? — Questionou um tanto desconfiada, quando viu que estávamos prestes a sair.
Percebi Daryl duro feito uma pedra do meu lado, quase como se tivesse sido pego no flagra cometendo um crime.
— Por aí, temos umas coisas pra fazer... — Ele desconversou, e eu admiti pra mim mesma que Kane tinha razão: Daryl não sabia mentir.
— Tem muitos lugares aqui dentro pra transar, tem certeza que vão arriscar lá fora? — Rosita ergueu uma sobrancelha, tirando a conclusão errada sobre aquela postura estranha de Daryl.
Óbvio que Daryl quase morreu engasgado com a própria saliva e por um mínimo segundo, senti que éramos adolescentes de novo.
Mas acima disso, olhei para Rosita e vi uma oportunidade que eu não podia deixar passar. E não, não era sobre o sexo, eu já tinha atingido minha cota de sexo impensado por uma vida toda.
— Boa resposta... — Apontei abrindo um sorriso que não tinha muito de verdadeiro. — Estamos indo atrás do Eugene, mas ninguém sabe, quer vir? Sem fazedor de balas, sem balas, não é?
— Claro! — Rosita respondeu no mesmo instante. — Vou pegar minhas coisas.
Assenti, vendo a morena se afastar em passos rápidos.
— O que você está fazendo? — Daryl perguntou em um sussurro. — Achei que ninguém podia saber do plano.
Sim, era isso que Kane nos tinha instruído a fazer, mas eu vi uma oportunidade de motivar nosso alvo e de manter Daryl e sua incapacidade de mentir ocupados.
Eu ainda não sabia como afastaria Eugene dos dois, mas ainda tinha algum tempinho para pensar. Eu faria melhor o que tinha que fazer se ficasse sozinha com o nosso alvo.
— Você mesmo disse que Eugene e Rosita estavam juntos antes de encontrar seu grupo. Mulher bonita, nerd desajustado. Eu posso usar isso. Talvez seja uma boa coisa ele encontrar com ela, pode deixá-lo mais vulnerável ao que eu vou dizer depois. — Expliquei parte da minha decisão em convidar a hispânica.
— Às vezes você me assusta... — Daryl declarou em um tom neutro, depois de me encarar por vários segundos.
— Às vezes? — Repeti sarcástica. — Eu sempre te assustei, Daryl, mesmo quando éramos adolescentes.
Ele não discordou, na verdade nossos olhos ficaram presos uns nos outros, como se apenas estivéssemos tentando voltar ao passado.
E eu que achava que as coisas eram complicadas dez anos antes... Como a gente se engana na vida.
— Estou pronta. Vamos. — Rosita nos interrompeu, seguindo para o portão que se abria. — Ah, e já aviso que não vou segurar vela de ninguém.
Daryl revirou os olhos, como se aquilo fosse uma besteira e eu me dei conta que, na verdade, Rosita seria a única coisa impedindo que Daryl e eu acabássemos perdidos um no outro. No fim fora mesmo uma boa ideia convidá-la para ir junto.
Não a deixamos a par de nosso plano. Para Rosita apenas tiraríamos Eugene de onde ele estava, afinal se o levássemos embora ele não poderia fazer mais balas. Daryl ainda reforçou que o mataríamos em último caso, algo que Rosita concordou de imediato, mas que não foi o que ela realmente quis fazer quando colocamos as mãos em Eugene.
Ela se importava com ele, mesmo que não admitisse. Isso ficou claro para mim desde o momento que o capturamos, do lado de fora da fábrica que ele estava usando para fazer munições. Guardei pra mim o detalhe de que ele não tinha escolta ou proteção naquele momento, afinal qualquer informação podia ser válida para o que eu teria que fazer depois.
Daryl foi um pouco mais violento que o necessário, mas eu não podia culpá-lo por isso, eu também já tinha sido traída por aqueles que pensei serem meus amigos. Negan tinha um dom de fazer as pessoas se virarem umas contra as outras...
Permaneci calada, enquanto deixava que Eugene e Rosita pensassem que aquele era de fato o plano. Daryl ameaçou matar o idiota, Rosita deu uma lição de moral sobre traição e eu apenas esperei pelo momento certo.
Eu ainda não sabia como afastaria Eugene dos dois, mas não precisei pensar muito, a oportunidade foi criada pelo próprio Eugene, que achou que seria uma boa ideia fugir, depois de vomitar na pobre Rosita.
Fiz um sinal discreto para que Daryl deixasse ele ganhar alguma dianteira e depois passamos a segui-lo.
Novamente Eugene facilitou as coisas para mim, quando se escondeu sob uma pilha de escombros.
Usei a desculpa de que minha perna doía para ficar para trás e Daryl entendeu o recado, passando direto pelo "esconderijo" de Eugene, e levando Rosita para longe dali, não que ele parecesse muito satisfeito em me deixar sozinha, mas não havia muito que fazer.
Esperei alguns segundos, notando que Eugene estava mesmo empenhado em se esconder. Ele era um covarde e eu podia usar isso.
Preparei a arma e chutei as porcarias sob as quais ele se escondia.
— Saía. Não banque o espertinho comigo. — Ordenei com a voz firme. Eugene se ergueu, já com as mãos levantadas e um olhar de medo. — Alguém tão inteligente devia ter pensando em um lugar melhor para se esconder de dois rastreadores.
— Onde estão Daryl e Rosita? — Ele olhou ao redor de olhos arregalados, provando que tinha mais medo de mim do que dos outros dois.
Era fácil entender porque, afinal Daryl e Rosita tinham vínculos com ele, mas eu era uma estranha que não tinha nada a perder e estava furiosa. Pelo menos era assim que eu queria que ele pensasse.
— Procurando por você em outro lugar. — Respondi em um tom controlado, usando minha voz a meu favor. — Eu não os queria aqui, quando eu fosse fazer o que eu tenho que fazer.
Eugene arregalou os olhos, movendo as íris de um lado para o outro rapidamente, como se estivesse analisando rotas de fuga.
— E nem adianta vomitar em mim, eu tive um filho, a gente se acostuma com vômito e coco mole quando é mãe. — Declarei sarcasticamente.
Eu gostava de dizer a mim mesmo que aquela não era eu, que aquilo era apenas um reflexo que tinha ficado dos meus dias no santuário, mas quando fingimos algo por tanto tempo isso não se torna parte de nós também?
— Se me matar o Negan... — Eugene começou, no entanto eu não esperei que ele terminasse.
Uma das partes importantes sobre tudo aquilo era dar informação o bastante para que se ele se afogasse nela e acabasse cedendo a fazer o que eu queria.
— Ele vai dar um jeito de te substituir, porque isso é tudo que você e os outros são pra ele: substituíveis. Mas não se preocupe eu não vim te matar. — Minha revelação deixou Eugene um tanto surpreso e o desestabilizou por um momento. — Vai...
Apontei uma construção abandonada, mas o fazedor de balas era mesmo esperto, se a vida dele não estava em risco então ele não tinha que fazer o que eu queria.
— Só porque eu não vou te matar, não significa que eu não vá te machucar. — Ameacei com a voz firme, tudo apenas uma máscara bem colocada, para disfarçar qualquer vulnerabilidade emocional que eu tivesse no momento. — Um tiro no joelho por exemplo, acho que seria o bastante...
Eugene começou a andar na direção que eu tinha apontado. Todo que eu conseguia fazer era desejar que Kane estivesse certo e o novo queridinho de Negan fosse mesmo suscetível a manipulação.
Eu não podia cometer nenhum erro.
— Eu não posso voltar para Alexandria eles... — Ele começou, assim que adentramos a construção.
— Eu não vim pra te levar de volta. — Interrompi, sabendo que não tinha muito tempo. — Esse era o plano da Rosita, não o meu.
Ele piscou algumas vezes, franzindo as sobrancelhas, como se não entendesse onde eu queria chegar.
Lembrei que Daryl tinha dito que Eugene era um cara espero, então Kane aconselhou que eu estabelecesse alguma conexão com ele, antes de tentar convencê-lo de qualquer coisa.
Não havia um roteiro, era tudo sobre improviso, sentir a situação. Eu estava por mim mesma ali, e era como se o futuro de todo o grupo estivesse nas minhas mãos.
— Você ao menos sabe quem eu sou? — Comecei, escolhendo por qual caminho seguir...
Usar fatos que podiam ser comprovados me pareceu um jeito melhor de aliciar Eugene.
— Você é Natalie Cooper, a mulher por quem Negan tem um estranho e, na minha opinião, inapropriado interesse. — Ele respondeu com palavras rápidas.
— Pois é... Eu tive um caso com ele, você sabia disso? — Segui o ritmo oposto, algo lento, um tanto especulativo. Primeiro eu tinha que atrair a atenção dele, despertar sua curiosidade.
— Não exatamente. — Eugene estava confuso com o rumo da conversa, isso era óbvio.
Decidi que daria algumas informações, antes de revelar que tudo aquilo era sobre ele.
— Nós conhecemos em um bar, transamos pra caramba... Negan é um homem bem atraente quando quer, sabia? — Dei alguns passos para a esquerda, dando uma olhada geral no ambiente em que estávamos por precaução, a última coisa que eu precisava era ser interrompida por um errante ou qualquer outra coisa. — Eventualmente eu descobri que ele tinha uma esposa: Lucille. Uma professora do primário.
E ali estava: Interesse. Vi isso nos olhos de Eugene, assim que citei a esposa com o nome do bastão, geralmente esse assunto interessava as pessoas que tinham contato com Negan.
O fato de Lucille ser uma professora era apenas mais um ponto a meu favor, Daryl tinha dito que Eugene era um ex-professor de ciências, embora tivesse fingido que trabalhava para o governo, assim conseguiu a proteção do grupo.
— Uma esperta e estudada professora. — Estabeleci um paralelo sutil entre Lucille e Eugene. — Eu sempre pensei como alguém tão inteligente cairia na lábia do Negan... Mas é isso que ele faz, não é? Ele envolve você, cativa você, te faz se sentir único, mais que qualquer outra pessoa...
Dei alguns passos na direção de Eugene. Percebi que ele tinha começado a fazer as ligações que eu queria que ele fizesse. Ele tinha começado a se identificar com a história.
— Então ele arranca tudo de você, quando você menos espera. — Estava olhando em seus olhos quando declarei. — É o que ele vai fazer com você. Vai usar suas habilidades para vencer a guerra, fazer você trair seus amigos, machucar pessoas que você gosta... Mas então a guerra vai acabar, ele vai ter tirado de você tudo que você podia dar, então você será inútil. Eventualmente ele vai te trair com outra pessoa. Como ele fez com a Lucille.
Eu precisava que Eugene se sentisse ameaçado o bastante para pensar em trair Negan. Kane havia dito que homens como Eugene podiam ser convencidos a fazer qualquer coisa, covardes eram fáceis de manipular, eu esperava que ele estivesse certo. De outro modo eu estaria apenas perdendo tempo ali.
— Negan é um líder determinado, ele preza pelos seus e honra seus aliados. — Eugene retrucou, tentando um tom firme, que na verdade não me pareceu tão decidido.
Eu ri de canto, usando um humor sarcástico que naquele momento era verdadeiro. Ver alguém elogiando Negan soava uma piada para mim.
— Negan era um bom marido, ele amava a esposa, diziam que eles eram o casal perfeito na escola. Mas ele fodia comigo enquanto ela dava aulas para criancinhas. Ele a amava e mesmo assim a traia. — Argumentei como quem não quer nada, rodeando Eugene. Uma técnica de intimidação que eu aprendera observando o próprio Negan. — O que te faz achar que vai ser diferente com você? Você se acha melhor que a Lucille?
— Eu... eu não... Negan e eu... — Ele gaguejou. Eu tinha conseguido minha brecha.
Era hora de dar alguns fatos para que ele pensasse.
Preferi não focar no quanto eu estava parecida com Negan naquele momento. Aquele tipo de constatação não me ajudaria em nada, apenas me daria náuseas e estragaria o plano.
Talvez Kane estivesse certo; o único modo de vencer Negan era sendo como Negan.
Se valeria a pena me tornar aquilo que eu mais odiava, era algo que talvez não fosse proveitoso questionar naquele instante...
— O que? Acha que só porque Negan não fode com você, ele não vai te trocar? — Usei o sarcasmo de novo, trocando para um tom mais sério, quase amigável, quando me aproximei e apoiei a mão no ombro dele. — Pense, Eugene, você é esperto. Havia um queridinho antes de você, vai haver outro depois... Como um ciclo que se repete.
Ele não respondeu, vi sua mão tremer e seus olhos vacilarem, era um bom indício. Dei alguns passos para trás, sempre atenta a porta, não só para que Eugene não fugisse, mas também para que não fossemos interrompidos por Rosita e Daryl.
A hispânica não sabia das minhas reais intenções ali e, embora Daryl soubesse de todo o plano, sempre havia aquela impulsividade dele a considerar. Daryl não era bom em mentir ou fingir, era melhor que ele ficasse distante enquanto eu conversava com Eugene.
Ou talvez aquilo fosse apenas eu mesma, não querendo que ele me visse tão parecida com Negan. No fundo eu ainda me importava com o que Daryl pensava de mim...
— E aqui vai outro fato, mesmo você sendo o queridinho agora, foi fácil, fácil colocar as mãos em você. O que acha que vai acontecer quando você matar metade dos seus amigos? Acha que ninguém vai se vingar de você? Acha que Negan vai te proteger, sendo que nem agora, que você é importante, ele protege? — Fiz as perguntas afiadas, fazendo Eugene franzir as sobrancelhas.
Ele era esperto, estava analisando os fatos. Era a hora de dar o rumo que eu queria para nossa conversa.
— Você é descartável, Eugene, você não vai ser um herói se ganhar essa guerra para o Negan, vai ser só mais um em um exército de lacaios. Ele não honra ninguém além dele próprio. Você é esperto demais para não ver isso... — Falei cada palavra como se entendesse a situação dele, como se fosse uma aliada, uma amiga dando um conselho.
Então era hora de mostrar o outro lado da moeda:
— Mas aqui vai uma coisa sobre honra: Você sabia que Rick já foi casado?
Eugene abriu e fechou a boca, ele estava confuso sobre o assunto, então concordou com um aceno lento.
— Lori, pelo que Daryl disse... — Citei o nome da esposa e usei as informações que eu e Kane tínhamos conseguido de Daryl, com bastante dificuldade, diga-se de passagem. Daryl não era o tipo que fazia fofoca. — Ela traiu o Rick com o melhor amigo dele. Sabe o que ele fez? Ele decidiu criar a filha deles com todo amor e carinho, ele honrou a esposa mesmo depois da morte, ele andou com a aliança no dedo mesmo depois que ela morreu, ele ainda tem essa aliança. Rick não esqueceu tudo que ela fez de bom, mesmo que ela o tenha traído. Percebe a diferença?
O paralelo entre o jeito que os lideres tratavam suas esposas era o melhor tipo de paralelo que eu podia traçar naquele momento, algo real, que dizia muito sobre os dois homens que estavam encabeçando aquela guerra.
Eugene era esperto o bastante para notar as diferenças e entender o tipo de comportamento de cada um daqueles homens.
Era hora de dizer o que eu queria dele...
— Ganhe essa guerra para o Rick e ele vai se lembrar disso, ele será grato e vai te honrar sempre, você será um herói. — Declarei, como se aquilo fosse uma proposta tentadora e irrecusável. — Todos nas três comunidades saberão disso e te protegerão de qualquer coisa.
Kane dissera, depois de ouvir Daryl descrever nosso alvo, que Eugene não era apenas o covarde procurando por proteção, seus sonhos de grandeza incluíam ser reconhecido e exaltado, ser importante.
Mostrar que a gloria com Negan era passageira e com Rick seria duradoura talvez o fizesse repensar sua lealdade.
— Eu não posso fazer isso, se eu não entregar as balas Negan vai encontrar outro jeito de vencer e vai me punir por isso. — À primeira vista a resposta de Eugene pareceu ruim, mas não era, ele não se negou a ajudar, apenas apontou o lógico, temendo pela própria segurança.
Eu estava no caminho certo.
— Então entregue as balas para ele, entregue todas elas. Acho que você é esperto o bastante para encontrar um jeito de usar isso a nosso favor. — Propus, dando alguns passos para mais perto.
Nosso plano nunca foi tirar Eugene da produção de balas, tampouco sabotar o carregamento, isso apenas faria Negan mudar os planos, as coisas tinham que seguir exatamente da forma como o líder do Santuário planejou, ele tinha que pensar que tudo estava certo, até não estar mais.
Kane achava que as próprias munições podiam ser sabotadas, montadas de um jeito que não funcionassem. Ele não sabia como, mas tinha certeza que Eugene saberia.
Era nossa última cartada.
Eugene abaixou a cabeça, como se estivesse ponderando o que eu disse. Enquanto eu o observava, decidi por mim mesma que colocar um pouco mais de pressão e uma "motivação" extra não era má ideia.
Se tinha uma coisa que eu havia aprendido com Negan todo aquele tempo é que o medo podia ser útil. E se eu tivesse que ser como aquele maldito para salvar as pessoas que eu amava, então que fosse...
Era tarde demais para voltar atrás.
— E, caso ainda esteja ponderando sobre suas opções, quero que saiba um fato importante sobre mim: eu nunca me esqueço. — Declarei quase mórbida e Eugene ergueu os olhos, como se não entendesse onde eu queria chegar. — Então, se uma das suas balas machucar alguém que eu amo, eu vou me lembrar bem disso. E, como você mesmo disse, Negan tem um interesse inapropriado em mim, ele não vai me matar. Eu e você estaremos vivendo sob o mesmo teto, caso ele ganhe essa guerra.
Me aproximei mais alguns passos, perto o bastante para invadir o espaço pessoal de Eugene. Eu não gostava daquilo, me lembrava o que Negan fazia, me dava náuseas, mas talvez fosse necessário.
— E eu conheço muitas formas divertidas de matar um traidor. — Falei cada palavra devagar e ameaçadoramente.
Era verdade no fim das contas, se mais alguém que eu amava morresse por causa daquelas malditas balas, eu nunca perdoaria. E se eu me tornasse alguém com nada a perder, vingança seria meu único propósito.
Dei alguns passos para trás e sorri. Um reflexo perfeito de Negan.
— Mas você que sabe, tenho certeza que você vai fazer a coisa certa, Eugene. — Meu humor mudou para algo casual.
Eu vi o medo claro nos olhos do meu alvo, talvez porque Negan era um homem e em homens aquele tipo de característica manipuladora fosse vista como uma qualidade, em mulheres era visto como um traço de loucura.
Homens eram fortes e visionários, mulheres eram vingativas e descontroladas. Eu sempre odiei como a mesma característica de comportamento era uma virtude masculina e um defeito feminino, mas naquele instante talvez fosse um trunfo que Eugene me visse como alguém instável capaz de qualquer coisa.
Eu precisava que ele sentisse mais medo de mim do que sentia de Negan... E eu vi em seus olhos que ele sentia.
— Talvez no fim você até fique com a garota. — Dei de ombros, seguindo para a saída e dando a conversa por encerrada. — Quer dizer, se você não vomitar nela outra vez...
Ri antes de deixar a construção. Eugene tinha que voltar para a fábrica de munições para dar seguimento ao plano e eu tinha que voltar para Rosita e Daryl.
Era um tiro no escuro saber se Eugene ajudaria ou não, Kane achava que era a jogada certa e eu acreditei nele, mas eu percebi que só aquilo não bastava.
Se eu queria os dois, então eu tinha que confiar nos dois...
Encontrei Daryl e Rosita alguns minutos depois. A hispânica estava possessa por termos perdido Eugene, ela não sabia de nada e ainda achava que estávamos ali para capturar o fazedor de balas. Deixei que ela continuasse pensando assim.
Enquanto ela andava com passos furiosos na frente, seguindo rumo a Hilltop, Daryl me lançou um olhar questionador.
Eu apenas assenti, mostrando que tudo tinha dado certo, preferindo manter para mim o fato de que pra ter sucesso naquela missão eu tinha sido muito mais Negan do que em qualquer outro momento.
Talvez aquela parte dele nunca saísse de dentro de mim. Tinha se tornado parte do que eu era. Alguém fria, calculista e manipuladora quando preciso...
— Você está certo, temos que contar ao Rick. — Declarei em um sussurro, para que apenas Daryl ouvisse.
— Mas o Kane disse que não era uma boa ideia. — Ele devolveu, estranhando minha mudança de opinião.
— Eu sei, e eu ouvi o Kane, executamos o plano dele. Confiei nele. — Assenti neutra. — Mas eu também confio em você, e se você diz que o melhor é contar o que sabemos para o Rick, então é isso que faremos. Eu não preciso escolher um plano ou outro, eu posso ficar com os dois.
Daryl franziu as sobrancelhas por um momento, mas acabou concordando e eu sorri, um sorriso simples e neutro, enquanto caminhava ao lado dele de volta para Hilltop.
Pela primeira vez naqueles últimos dias eu realmente acreditei que tínhamos uma chance real de vencer...
Foi quando eu percebi algo importante: as características que eu tinha absorvido para sobreviver no Santuário não tinham me tornado o que Negan era. Cabia a mim usá-las para a coisa certa. Eu não era como Negan, eu nunca seria...
Eu era melhor que ele.
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