Lifeline — Destiny Don't Give Up
35 O Que Vem Depois?
Notas iniciais
• PETTER COOPER •
Mamãe costumava ler histórias para que eu dormisse... Mesmo quando ela estava cheia de trabalho, perdida entre o notebook e dezenas de anotações, ele parava por alguns minutos para se sentar ao meu lado no quarto e ler alguma coisa para mim.
Com o tempo eu passei a perceber algumas diferenças básicas entre algumas histórias; a maior parte delas terminava com o bom e velho "e viveram felizes para sempre", mas algumas poucas não acabavam assim.
Essas histórias me incomodavam um pouco, quer dizer, os mocinhos tinham vencido, por que não tinha lá que eles viveram felizes para sempre?
Em uma dessas ocasiões mamãe me explicou o que finais abertos significavam, e como eles eram muito mais fieis a realidade.
Mamãe disse que "viveram felizes para sempre", era apenas um recurso preguiçoso de narrativa, e óbvio que eu não entendi, então ela explicou que era algo usado para deixar as pessoas satisfeitas, algo para dar ilusão de fim, quando na verdade aquelas histórias não terminaram ali... Havia mais.
Então o "felizes para sempre" parou de fazer sentido para mim, quer dizer, se havia mais história dos meus personagens preferidos, se havia mais vilões para enfrentar e mais problemas para resolver, então por que dizer que eles tinham vivido felizes para sempre?
Era confuso e um tanto frustrante.
Eventualmente deixei tudo isso de lado, eu cresci, os zumbis vieram, não havia tempo para histórias e eu esqueci dos "finais felizes".
Mas me lembrei de tudo isso aquela tarde em Hilltop, quando ouvi Carl e o Cabeça de Melancia conversando...
Não foi de propósito, eu estava sentado em um canto meio escondido entre um dos trailers e o muro de Hilltop. Mamãe e papai tinham voltado bem da missão deles lá fora, tinham feito uma longa reunião com Rick e eu tirei um tempo para ficar quieto.
Okay, eu não estava quieto de verdade, eu só estava ali porque era um bom lugar para escalar e olhar por cima do muro, talvez treinar minha mira em alguns podres com o meu estilingue.
Quando ouvi o som das duas vozes se aproximando, pulei de volta para o chão e me escondi do lado do trailer, fazendo um sinal silencioso para que Bolt ficasse quieto.
Eu não queria ser pego ali, geraria muitas perguntas e alguém acabaria contando para mamãe, ela já estava tensa o bastante com aquelas coisas de guerra. Então preferi ficar quieto ali mesmo.
Não pretendia ouvir a conversa dos dois, só pra deixar claro, mas se eu saísse pela esquerda daria de frente com eles, pela direita a passagem estava bloqueada por alguns troncos que tinham sido colocados ali talvez para reforçar o muro, atrás de mim tinha o trailer e na frente o muro em si. Não havia para onde ir, por isso apenas me sentei no chão.
— Isso não pode ser tudo... — Carl terminou uma frase que eu só ouvi pela metade. Ele parecia zangado e isso me deixou curioso.
Vovó sempre dizia que "a curiosidade matou o gato", mas eu não era um gato, era um garoto, então tudo bem ser curioso.
— Eu fiz o que era necessário, Carl. — O Cabeça de Melancia tentou argumentar. Ele estava irritado também.
Mandei que Bolt ficasse quieto para não sermos notados e ele se deitou ali, com a cabeça entre as patas.
— Era mesmo? — Ouvi Carl jogar de volta. — Era necessário mentir, pai?
Estreitei os olhos, eu não fazia ideia do que eles estavam falando, mas parecia algo sério.
— Estamos em Guerra. — Rick respondeu, como se aquilo fosse tudo que importasse.
E era, certo? Pessoas que amávamos tinham morrido, ou seja, tínhamos que ganhar e derrotar Negan para honrá-las.
— Aqueles Salvadores tinham se rendido, tinham ajudado a gente. Estaríamos mortos se não fossem eles. — Carl retrucou em um tom áspero.
Entendi finalmente qual era o assunto. O boato que rodava por Hilltop era que Rick tinha matado todos os Salvadores que haviam fugido da cerca na noite do ataque.
Era o certo, não é? Quer dizer, eles eram homens maus... No entanto, segundo Carl, eles não eram tão maus assim.... Nesse caso, o que era certo fazer?
— Não é tão simples. Quanto tempo até que mudassem de lado? — Ouvi o Cabeça de Melancia tentando argumentar.
Fiquei em conflito, por um lado eu queria acreditar que éramos nós contra eles, os bonzinhos contra os malvados, mas acreditar no que Rick estava dizendo também significava aceitar que as pessoas más sempre seriam más, não havia salvação, ninguém podia mudar...
Parecia errado ser tão radical daquela forma, ao mesmo tempo que parecia errado confiar.
Cheguei à conclusão que era algo muito complicado para que um menino de dez anos entendesse sozinho.
Ouvi o suspiro pesado de Carl e voltei a prestar atenção na conversa.
— Você tem razão pai, é uma guerra. — Ele lançou, porém seu tom não parecia menos decidido. — Mas tem que ter alguma coisa depois disso, ou nada vai valer a pena.
— Mas vai ter. Vai ter a gente: Alexandria, Hilltop e o Reino. — Rick devolveu também firme.
— Então você vai dizimar o Santuário? — Carl retrucou e senti um tanto de acusação em sua voz. — Vamos dizimar uma comunidade inteira exatamente como Negan fez?
As imagens de Sherwood queimando me vieram a mente e eu logo percebi que não desejava aquilo para ninguém. Jamais seriamos os mocinhos se queimássemos a casa das pessoas, mesmo se fossem pessoas más.
— É diferente Carl, você sabe disso. — Rick ainda tentava argumentar, mas eu já tinha escolhido o lado de Carl naquela discussão.
Se queríamos ser os heróis daquela história, então não podíamos agir como tiranos.
— É diferente? — Carl ironizou. — Porque do jeito que eu vejo é tudo a mesma coisa, tudo morte e destruição...
E ponto para ele outra vez.
Olhei discretamente para os dois e Rick passava a mão no rosto como se estivesse frustrado.
— Não podemos ser melhores que o Negan se agirmos igual a ele. — Carl deu de ombros, como se estivesse finalizando a conversa. — É isso que eu acho.
Ele deu as costas, ajeitando o chapéu e seguindo pelo gramado. Rick ficou ali mais um pouco, os olhos pensativos e a postura cansada.
E ali estava... foi o momento em que eu me lembrei que nem sempre havia um "felizes para sempre", muitas vezes tinha mais história depois da batalha final...
Nesse caso, vencer a todo custo, sem pensar no futuro, parecia o jeito errado de começar uma nova história.
Carl estava muito certo.
Fiquei ali escondido por mais um tempo, esperando que Rick fosse embora, enquanto pensava em tudo que tinha ouvido...
Parecia simples no começo, vencer os caras maus e fim, mas ao encarar as coisas pelo ponto de vista de Carl parecia um pouco mais complicado. Se para vencer tivéssemos que ser como os caras maus, então a vitória valeria mesmo a pena?
Ainda estava com esses pensamentos em mente quando voltei a caminhar por Hilltop com Bolt em meu encalço, no entanto mudei de foco quando vi minha mãe me chamando ao longe.
Ela parecia tensa, deixei Bolt ali fora e a segui para dentro da casa, até uma das salas, meu pai já estava lá, encostado em uma escrivaninha com uma expressão indecifrável no rosto.
— Seja o que for, não fui eu! — Me defendi erguendo as duas mãos, antes mesmo de ser acusado de qualquer coisa.
Meu pai riu de canto e mesmo a expressão da minha mãe suavizou.
— Só queremos conversar um pouco... — Ela se sentou no chão sobre o tapete e apontou para que eu sentasse também.
Aquele era o jeito de mamãe dizer que tinha algo sério para conversar comigo. Percebi que era a primeira conversa realmente séria que teríamos em família e ao invés de ficar preocupado com isso acabei empolgado com a situação.
Eu sempre quis um momento como aquele, nem que fosse para levar uma bronca.
Me sentei no tapete e vi minha mãe lançar um olhar para o meu pai, como se esperasse que ele fizesse o mesmo.
Daryl pareceu meio sem-jeito, mas se juntou a nós, sentando-se no chão.
— Estamos prestes a fazer uma coisa muito perigosa... — Mamãe começou e eu entendi o intuído da conversa.
— Lutar contra os Salvadores. — Completei e ela assentiu com um gesto.
Deu um suspiro pesado, como se estivesse realmente preocupada com tudo. Papai lançou um olhar compassivo para ela e então voltou a atenção para mim, como se estivesse procurando coragem ou o melhor jeito de dizer alguma coisa.
— Dessa vez Carl vai ter que ir junto. — Ele falou e senti um tanto de incerteza em seu tom, quase como se ele não tivesse certeza que podia mesmo se envolver naquela conversa, trocou um olhar com a minha mãe e ela o incentivou a continuar. — A maioria do pessoal vai, porque precisamos de todo mundo para plano dar certo.
— Mas eu não posso ir. — Completei novamente e foi a vez de Daryl concordar com um movimento de cabeça.
— Você tem que ficar em Hilltop porque é mais seguro. — Mamãe assumiu a palavra. — Ainda vai ter algumas pessoas aqui, a Tara vai ficar por exemplo e a Enid, Henry... Mas é só para uma emergência, Hilltop não vai ter força o bastante para resistir a um ataque, caso algo aconteça.
— Eu entendi. Então aqui é seguro, mas não dá pra ter certeza se é realmente seguro. — Compreendi o motivo de minha mãe estar tão tensa.
Ela passou a mão pelo rosto e eu percebi que meu pai tinha os olhos nela, como se estivesse preocupado.
— Você pode ficar se quiser, Natalie. — Ele sugeriu e ela ergueu os olhos.
Pareceu pensar por um momento, alternado a atenção entre meu pai e eu, então suspirou pesado e negou algumas vez.
— Eu vou com você, Daryl. — Respondeu decidida. — Eu preciso estar lá.
— Eu sei... — Meu pai concordou com um movimento de cabeça. — Mas eu tinha que tentar, não é?
Mamãe deu um meio sorriso e então focou os olhos em mim, parando por alguns segundos conforme sua expressão ficava séria.
Ela estava preocupada.
— Vai ficar tudo bem, se alguma coisa acontecer eu corro e me escondo. — Tentei apaziguar. — Logo vocês vão estar de volta. Vai dar tudo certo.
Minha mãe piscou algumas vezes e acariciou meus cabelos, me olhando daquele jeito carinho e orgulhoso que ela tinha.
— Vai dar certo. — Meu pai afirmou usando o mesmo tom que o meu. — O plano do Kane é bom.
Como é?!
Não podia acreditar no que meu pai tinha acabado de dizer, ele não podia elogiar o homem que queria roubar minha mãe dele. Podia?
De repente as coisas ficaram bem confusas na minha cabeça...
— E se falhar, ainda teremos o plano de contingencia do Rick. — Mamãe concordou, usando um tom mais otimista e eles assentiram uma para o outro.
Aquilo era estranho, elogiar Kane tinha feito minha mãe ficar mais calma. Os adultos não faziam sentido.
— Sairemos ainda essa noite. — Minha mãe segurou meus ombros. — Enquanto estivermos fora você não vai fazer nada imprudente, entendeu?
Assenti algumas vezes em concordância.
— Ótimo. — Ela declarou, mesmo que não parecesse totalmente certa, então me puxou para um abraço apertado. — Eu te amo, daqui até a Lua.
— Ida e volta. — Completei, me aconchegando nos braços dela.
Ficamos assim por um tempo, minha mãe não me soltou em momento algum, como se tivesse medo disso.
— 'Tá me esmagando. — Falei depois de incontáveis minutos.
Ela me soltou lentamente e eu me levantei. Percebi que minha mãe limpou o rosto rapidamente, mas abriu um sorriso mesmo assim. Não parecia um sorriso verdadeiro.
— Pode voltar para o que estava fazendo agora. — Disse carinhosa. — Mais tarde antes de sairmos falamos de novo.
Assenti algumas vezes e acenei para meu pai antes de deixar o cômodo em que estávamos.
Bolt me esperava deitado na porta e passou a me seguir conforme eu caminhava para a saída da casa, no entanto parei onde estava quando notei que tinha esquecido meu estilingue.
Dei meia volta e, de novo, não foi minha intenção ouvir a conversa de ninguém, mas quando estava próximo da porta vi, pela fresta que eu tinha deixada aberta, que meu pai caminha naquela direção.
— Daryl... — Minha mãe chamou e ele se virou preocupado. — Se eu não voltar...
Percebi que não podia entrar naquele momento, então apenas parei onde estava. E não, eu não estava ouvindo atrás da porta... só um pouquinho.
— Você vai voltar. — Meu pai retrucou no mesmo momento, voltando alguns passos.
Isso mesmo, ela ia voltar sim, que papo era esse de não voltar?
Me arrumei melhor, para poder ver os dois com mais clareza pelo vão da porta.
— Você não sabe disso. — Minha mãe devolveu em um tom que era quase um lamento.
Papai não pareceu satisfeito em dizer aquilo, isso ficou bem claro em suas feições.
— Nós temos um plano lembra? Fizemos tudo que o Kane disse e contamos para o Rick, temos um plano reserva. — Papai enumerou firme. — Estamos preparados pra isso.
Minha mãe sorriu compassiva, quase como ela fazia para mim quando eu dizia algo ingênuo.
— Estamos? — Ela questionou franzindo as sobrancelhas e deixando bem claro o quando duvidava.
— Temos que estar. — Papai tentou ser mais firme, se aproximou alguns passos e tocou o antebraço dela. — Petter precisa de você, eu... não vou deixar que nada te aconteça.
Por um segundo pensei que ele diria que também precisava da mamãe, mas isso não aconteceu.
Ah, pai isso foi desperdício de oportunidade!
Mamãe sorriu de novo, um sorriso triste, como se ela não tivesse esperanças. Respirou fundo e tocou o rosto do meu pai com carinho.
— Você é um pai incrível, Daryl. Melhor do que eu imaginei que seria. Petter tem sorte de ter você... — Declarou em um tom que era um misto de orgulho e tristeza.
Papai segurou a mão dela contra o rosto e eu praticamente dei um pulo de empolgação, mas me aquietei quando percebi que podia ser notado
Beija, beija, beija!!
Mas eles não se beijaram, outro grande desperdício de oportunidade, ao invés disso papai soltou a mão dela lentamente, quase como se tivesse se lembrado de alguma coisa.
Os dois se olharam por alguns instantes e deram um passo para trás, se afastando e mudando totalmente a postura. Mudando de assunto para algo casual sobre Rick e o plano novo.
Revirei os olhos e também dei alguns passos para trás. Meus pais eram meio lerdos... Suspirei pesado e resolvi deixar o estilingue pra lá.
Saí dali e depois disso não foi difícil achar algo com o que me ocupar, afinal todos estavam atarefados com os preparativos da guerra. Me uni a Henry para ajudar Carol com algumas coisas e assim a tarde passou depressa...
Estava no meio da noite quando eles começaram a entrar nos carros para partir e foi quando eu senti medo de verdade.
A última vez que eles tinham saído daquele jeito, Luka não tinha voltado e tudo tinha dado errado. E se a mesma coisa acontecesse?
Eu sabia que não devia ser pessimista, que devia acreditar que tudo daria certo, afinal éramos os mocinhos e o bem sempre vencia... Mas e se a vida real fosse totalmente diferente? E se não vencêssemos? E se algo terrível acontecesse com os meus pais?
Quis pedir que ficassem, mas eu sabia que isso era injusto, Rick e os outros precisavam deles.
Mamãe me abraçou apertado e repetiu todas as suas instruções, mas eu não prestei tanta atenção, porque estava me concentrando em não chorar na frente dela para não deixá-la preocupada.
Ela demorou um bom tempo para me soltar e finalmente caminhar para o carro, mas daquela vez eu não em importei com isso. Eu não queria ficar sozinho.
Depois que mamãe entrou em um dos carros, meu pai parou na minha frente e me encarou por um breve momento, como se me analisasse, então se aproximou e se abaixou para ficar da minha altura.
— Se você tiver que fugir, vá pela floresta, é mais fácil de te rastrear depois. Fique perto da água e tente não fazer barulho. — Ele estava sério, um tanto tenso. — Você é esperto, você consegue.
Assenti várias vezes. Eu não tinha medo da floresta, nunca tive, eu sabia me virar muito bem, mas pensar em estar sozinho naquele momento me assustou mais que qualquer coisa.
Meu pai colocou a mão no meu ombro e observou meu rosto por alguns instantes.
— Eu sei que você está com medo. — Ele afirmou compassivo. — Tudo bem sentir medo. O medo pode ser seu aliado, ele pode te deixar mais veloz, só não deixe que ele paralise você, certo?
— Certo. — Concordei um pouco mais seguro.
Papai bagunçou meu cabelo e sorriu.
— Você consegue, você é o garoto mais esperto e corajoso que eu conheço. — Falou e o elogio fez meus olhos se encherem de lágrimas. — Você parece muito com a sua mãe.
Tentei me segurar, mas não consegui, então apenas me joguei nos braços do meu pai e o apertei com força. Ele demorou alguns segundos para corresponder meu abraço, como se não soubesse muito bem o que fazer, mas logo estava meu segurando também.
— Eu amo você, Petter, só quero que saiba disso. — Disse tão baixo que eu mal ouvi.
Sorri em meio as lágrimas e o abracei ainda mais forte.
— Eu também te amo, pai. — Respondi, me sentindo mais feliz que nunca.
Ele me soltou e bagunçou uma vez mais meus cabelos antes de se afastar sem-jeito. O vi subir na moto e acenar pra mim.
— Pai? — Chamei antes que ele desse a partida e o vi voltar a atenção para mim novamente. — Daqui até a lua?
Percebi que minha mãe, já dentro de um dos carros, tinha os olhos em nós dois.
Meu pai riu de canto antes de responder:
— Daqui até a lua, não é o que vocês dizem?
Sorri o melhor dos sorrisos enquanto concordava e meu pai deu a partida, saindo antes dos outros.
Mamãe tinha a atenção nele, um sorriso calmo e lágrimas nos olhos. Ela acenou para mim e me mandou um último beijo antes que o carro dela também partisse.
— Parece que somos só eu e você agora, Bolt. — Declarei, olhando o cachorro ao meu lado, enquanto Tara fechava o portão.
Vai dar tudo certo. Tem que dar.
Não tive uma noite muito boa depois disso, quase não consegui dormir e, quando aconteceu, tive sonhos ruins. Antes mesmo que o sol nascesse eu já estava de pé.
Tentei ficar um pouco com Henry, mas desde que tínhamos nos reencontrado ele só sabia falar que tinha matado um Salvador e isso não era um assunto que me empolgava.
Mãe sempre disse que matar pessoas não era mérito nenhum, era triste que tivéssemos que matar para sobreviver...
Procurei algo melhor para fazer, no entanto as coisas estavam calmas, tudo que tinha restado era esperar. Essa era a pior parte.
Acabei com muito tempo para pensar nas coisas e me dei conta que se Carl estivesse mesmo certo, tínhamos que construir coisas que fossem durar. Também lembrei do meu pai dizendo que eles estavam seguindo um plano de Kane.
Talvez fosse hora de parar de birra e dar uma olhada no "amigo" da mamãe.
Talvez ele merecesse uma chance...
Segui para o trailer médico, onde ele ainda estava e entrei direto, sem me preocupar me bater na porta.
Kane estava em frente a prateleira de remédios naquele momento, tinha uma das mãos segurando o ferimento na barriga e a expressão de pura dor em seu rosto dizia muito sobre a situação.
— O que você está fazendo? — Perguntei mal-educado.
— O que parece que eu estou fazendo? — Ele respondeu em um tom quase irônico, enquanto alcançava água e alguns comprimidos na mesinha ao lado.
— Alguma idiotice. — Cruzei os braços, totalmente de mau-humor.
— Não posso discordar... — Kane concordou neutro, respirando fundo enquanto parecia fazer muito esforço para se manter de pé.
— Devia ficar deitado. — Critiquei ainda de braços cruzados. — Se a sua barriga abrir e suas tripas caírem no chão, não vai ter nenhum médico aqui pra te ajudar.
Kane me olhou por alguns segundos e riu. Idiota.
— 'Tô sabendo. Eles vieram se despedir. Ganhei até um presente da sua mãe. — Apontou uma arma ao lado da cama, mas deu de ombros como se não fosse importante. — Mas você não gosta de mim, por que está tão preocupado?
O modo como ele foi direto me deixou desconcentrado. Soltei os braços e dei alguns passos pelo trailer, como quem não quer nada.
— Eu nunca disse que não gosto de você... — Dei de ombros também.
Kane voltou a rir, então se sentou na cama que servia como maca, como se estivesse cansado demais para ficar de pé.
— Certas coisas são precisam ser ditas, Carinha. — Respondeu neutro, se ajeitando na cama com dificuldade.
O encarei por alguns segundos, não sabendo ao certo o que dizer a seguir. Bolt subiu na cama e se ajeitou aos pés de Kane naturalmente, como se ele fosse da família.
— Você não gosta de mim porque acha que eu vou roubar sua mãe do seu pai. — Ouvi Kane declarar em um tom neutro. Ele tinha um sorriso no rosto enquanto observava Bolt ali deitado.
— Você vai? — Questionei, dando alguns passos para mais perto da cama.
— Roubar não se aplica a pessoas, Carinha. — Kane explicou. — Roubar só se aplica a coisas que pertencem a pessoas. Sua mãe não é uma coisa, e ela certamente não pertence a ninguém.
Eu fui obrigado a admitir pra mim mesmo que gostei da resposta, dele, mesmo assim não falei isso me voz alta.
— É tudo sobre escolhas; pessoas escolhem pessoas. — Ele terminou dando de ombros, como se fosse algo simples.
— E você quer que ela te escolha... — Deduzi, estreitando os olhos e cruzando os braços de novo.
— Eu gostaria disso, não vou negar. — Ele foi muito mais honesto do que eu pensei que seria. Os adultos não costumavam ser tão diretos comigo. — Mas você não devia se preocupar com isso.
Me irritei um pouco com aquela última parte.
— É claro que eu devia, são meus pais. — Retruquei em um tom um pouco agressivo.
— Exatamente por isso não devia se preocupar... — Kane voltou a agir como se fosse a coisa mais simples de todas. — Eles são seus pais, e vão continuar sendo não importa o que aconteça. Felizmente você tem um pai descente, que não vai dar as costas pra você só porque as coisas não deram certo com a sua mãe.
Voltei a descruzar os braços, talvez porque eu não esperasse que Kane elogiasse o meu pai, talvez porque ele tenha parecido muito a Luka naquele momento para que eu não gostasse pelo menos um pouquinho dele. Só um pouquinho, nada demais.
— A maioria dos pais não são tão legais quanto o seu. — Ele terminou, se ajeitando na cama e chamando Bolt para mais perto.
— Acha que meu pai é legal? — Terminei a distância que faltava e me sentei ao lado da cama.
— Eu acho que ele é um bom pai. — Kane respondeu neutro, enquanto fazia carinho em Bolt.
Achei curioso que ele não odiasse o meu pai, afinal era isso que rivais deviam fazer, certo? Pelo menos era assim nos filmes.
Quando dois homens gostavam da mesma mulher eles brigavam entre si até que ela escolhesse um... Ou até que alguém se apaixonasse por outra pessoa.
Observei Kane por alguns instantes, ele estava calado brincando com Bolt, que parecia bem alegre em receber atenção.
— Parece que o Bolt gosta de você. — Comentei neutro.
— Parece... — Concordou sem parar o que estava fazendo.
Talvez ele merecesse mesmo uma chance, quer dizer, os animais sempre sabiam quando alguém não era confiável e o Bolt parecia muito à vontade ali com Kane.
Resolvi confiar no meu cachorro.
Ficamos em silêncio por mais um tempo, até que fomos interrompidos por Enid. Ela estava com Judith no colo, mas foi até o trailer pedir que eu cuidasse da bebê, porque tinha que fazer algo para Tara.
Eu não fazia ideia de por qual motivo a garota tinha pensando que era mesmo uma boa ideia me deixar com um bebê. No entanto ela mal deu ouvido para minhas reclamações e colocou a pequena no meu colo, dizendo que eu dava conta.
Mil gritos de desespero soaram na minha mente, mesmo assim tentei parecer calmo e no controle da situação... Isso até a bebê começar a chorar, assim que Enid saiu do trailer.
Comecei a balançá-la de um lado para o outro, fazendo de tudo para que ela parasse de chorar, mas não deu nada certo.
Ela me odiava, era isso.
Esse era o grande problema com os bebês, eles não falavam o que queriam e a gente tinha que ficar adivinhando. Tudo bem que Judith não era exatamente um bebê, ela já era grandinha, mais de dois anos, ainda assim ela não falava muito bem e tudo que sabia fazer com perfeição era chorar.
Para o meu desespero...
— Põe ela aqui. — Kane pediu, apontando a cama.
Dei graças a Deus por isso, mas não levei muita fé que ele fosse ter sucesso em acalmar a menina.
Errei feio.
Kane começou a falar com Judith, com aquela voz infantilizada que os adultos usam com crianças e cachorros, e não levou muito tempo para que a bebê se acalmasse. Na verdade, ela até riu pra ele...
Não era possível.
— Você leva jeito com crianças. — Comentei ainda surpreso.
— Parece que sim... — Fui tudo que Kane se limitou a responder, totalmente focado na garota.
O observei com a bebê por mais um tempo, e notei que ele ignorava a dor evidente para dar atenção a ela.
Kane era um homem curioso, ou talvez eu que tivesse feito uma imagem totalmente errada dele na minha mente...
Prestei atenção neles por mais um tempo, até que Judith caiu no sono, perfeitamente confortável e eu percebi que Kane a observava um tanto... "saudoso"?
— Quer saber de um segredo? — Ele perguntou, ainda olhando a bebê e eu assenti enquanto por murmurava uma afirmativa. — Eu devia ter uma filha um pouco mais velha que ela agora...
Kane pareceu triste, incrivelmente triste, como alguém que perde tudo que ama na vida. Foi a primeira vez que senti empatia real por ele.
Acho até que gostei dele naquele momento.
— Foram os podres? — Perguntei e ele finalmente ergueu os olhos na minha direção.
Negou devagar, dando um suspiro cansado e comprimindo os lábios.
— Foi a vida... — Lamentou dando de ombros, como se não houvesse nada a fazer a não ser aceitar aquela tragédia. — Eu nem sei se era uma menina na verdade, mas eu imagino que sim, então ela seria como a mãe dela, e não como eu. Eu não sou exatamente um bom exemplo de pessoa...
Ele riu sem humor e então balançou a cabeça negativamente, mas logo percebeu meu olhar pesaroso sobre ele e mudou a postura.
— Quer dizer, obviamente eu sou bonitão. Sou o tipo de tudo mundo, pode reparar, mas uma menina seria melhor. — Riu de si mesmo e eu revirei os olhos.
— Você não é o tipo de todo mundo. — Retruquei no mesmo instante.
— Ah, eu sou sim, pode apostar nisso. — Ele devolveu cheio de si.
Fiz uma careta e me levantei, caminhando para longe. Kane conseguia passar rápido demais para o insuportável de sempre.
Retiro o que eu disse, não gosto dele coisa nenhuma...
Parei perto da janela e logo notei uma movimentação incomum do lado de fora.
— Tem alguma coisa acontecendo... — Falei, tentando ver melhor.
Abri a porta do trailer e olhei do lado de fora, a maior parte de Hilltop estava nos portões, uma briga estava acontecendo do lado de fora.
— Merda! — Notei que Kane estava perto de mim e me puxou para trás. Vi a dor em seu rosto, mas ele parecia desconsiderar isso. — Temos que sair daqui.
A mão dele segurando meu ombro, ao mesmo tempo em que ele encostava a porta e conferia a munição da arma, deu toda a tensão necessária para a situação
Entendi o que estava acontecendo: tinham Salvadores nos nossos portões...
E sim, eu devia obedecer minha mãe e meu pai e simplesmente sair daqui, correr para a floresta e me esconder... eu devia fazer isso, eu queria fazer isso, mas eu já tinha feito uma vez, já tinha corrido para a floresta com a minha irmã e, sim, ficamos em segurança, mas isso me separou na minha mãe. Meses sem notícia.
Fugir não faria de mim um herói. Se meus pais estavam lutando, então tinha que lutar também!
— Não podemos ir, temos que ficar. — Decidi, dando mais um passo na direção dos tiros.
Kane colocou a arma no cós da calça e segurou meus ombros com as duas mãos, me obrigando a olhar para ele.
— Eles vão invadir a comunidade e destruir tudo, temos que estar longe quando acontecer. — Ele falou pausadamente, como se precisasse me fazer entender. — Você não pode ficar aqui. De jeito nenhum.
— Se eles vão atacar e machucar as pessoas, esse é mais um motivo pra gente ajudar. — Retruquei, irritado que Kane não visse o óbvio e certo.
— Tenho certeza que sua mãe disse pra você não se meter em encrenca... — Ele devolveu repreensivo.
Cruzei os braços contrariado. Kane não mandava em mim.
— A coisa certa a fazer é ir lá e ajudar! — Apontei nervoso. — Os heróis lutam, é o que o meu pai faria.
Kane revirou os olhos como se eu tivesse acabado de dizer uma besteira.
— Os heróis morrem! — Ele afirmou em um tom seco. — Ser um herói é estupidez.
Estreitei os olhos, eu estava com muita raiva naquele momento. Não conseguia acreditar que tinha chegado a pensar em gostar do Kane, ele era um covarde idiota que não sabia nada de nada.
— Você que é estupido! — Gritei, dando um soco no ferimento dele e tendo tempo para me afastar, enquanto o via se contorcer de dor.
Não era exatamente honrado fazer aquilo, mas situações desesperadoras pediam medidas desesperadas.
Chamei Bolt com um assobio e corri para a porta a trancando por fora.
Kane estava muito bravo, soube disso pelas batidas violentas que ele dava na porta enquanto chamava meu nome.
Mas eu não liguei para isso. Judith ficaria segura no trailer, isso era importante, quanto a Kane, quando ele conseguisse abrir a porta, se quisesse fugir correndo para a floresta, isso era problema dele.
Era melhor que fosse e nunca mais voltasse, não precisávamos dele...
Minha mãe não precisava dele!
Assim que saí para a área externa de Hilltop notei que a luta se desenrolava do lado de fora apenas, os Salvadores ainda não tinham conseguido ultrapassar o portão... Também não haviam barulhos de tiro, embora eu pudesse ouvir a briga, o que significava que provavelmente os homens de Negan estavam poupando munição.
Pensei em um jeito de ajudar. Eu não tinha armas a não ser meu estilingue, então decidi que talvez conseguir um lugar no muro para acertar os Salvadores fosse a melhor coisa que eu podia fazer.
E foi para lá que segui, o mesmo local onde eu tinha ouvido Rick e Carl conversando no dia anterior. O muro ali era de mais fácil acesso e me daria uma boa visão da briga que acontecia do outro lado.
Infelizmente esse plano deu tremendamente errado...
Assim que cheguei aos trailers dei de cara com três Salvadores que pulavam o muro naquele instante. Provavelmente tinham se separado dos amigos para pegar qualquer pessoa dentro da comunidade desprevenida.
Meu susto foi tanto que eu mal tive tempo de reagir, antes que um deles me segurasse pela camisa, me impedindo de correr.
— Olha só o que encontramos aqui... — Ele me ergueu do chão com facilidade enquanto eu me debatia.
— Me larga seu feioso! — Ordenei, tentando me libertar e acertando o cabo do meu estilingue no nariz daquele Salvador.
Funcionou por um momento, ele me deixou cair no chão enquanto urrava de dor, mas no instante seguinte partiu para cima de mim com ódio no olhar.
Ele estava prestes a me atingir com um safanão, quando Bolt avançou nele e abocanhou seu braço.
Gritando de dor o homem tentou se livrar do cachorro, enquanto eu me arrastava para trás, até que um dos outros homens chutou Bolt na barriga o jogando longe.
Ouvi o grunhido sentido do meu cachorrinho e fiquei ainda mais irritado.
— Bolt! — Gritei, vendo que aquele salvador o chutava de novo. — Não machuca ele!
Não consegui impedir as lágrimas que vinham aos meus olhos, eles matariam o meu amiguinho, eu sabia que disso...
O terceiro salvador me segurou pelo braço, me puxando na direção dele. Era um homem velho, com cabelo grisalho e um bigode horrível, e parecia ter levado uma bela surra recentemente.
— Espera, eu lembro de você... — Ele apertou meu queixo me obrigando a encará-lo. — Eu já te vi antes. Você é aquele menino... de Sherwood. Você é o filho da Natalie.
O agressor de Bolt parou para prestar atenção em nós, da mesma forma que o outro Salvador, que ainda segurava o braço dilacerado por uma bela mordida.
Senti que todos os olhares estavam em mim, analisando meu rosto com atenção, enquanto eu ainda permanecia preso nas garras do meu captor.
— Não sou não. — Retruquei insolente e todos eles riram.
O homem que me segurava virou meu queixo de um lado para o outro, observando cada parte do meu rosto e depois me encarando por inteiro com um sorriso estranho naquela cara feia.
— Olha só que grata surpresa ter decido vir pra cá, ao invés de ir com os outros para a emboscada... — Ele riu, parecia um tanto louco. — Sua mãe tirou alguém importante de mim, garoto, acho que é hora de retribuir o favor.
A voz dele me fez tremer, seus olhos e sua expressão descontrolada diziam tudo que eu precisava saber. Ele ia me machucar de verdade.
— Vamos ganhar um belo bónus quando entregamos o garoto para o Negan, não é, Simon? — O que estava perto de Bolt falou. — Ele vai até esquecer daquele problema no Santuário.
Encarei meu cachorro no chão e ele ainda choramingava. Senti medo, muito medo que tudo que mamãe tinha feito pra me proteger tivesse sido em vão, se eles conseguissem me levar para Negan, até mesmo a vitória naquela guerra estaria em jogo.
Eu tinha acabado de estragar tudo... Devia mesmo ter corrido para a floresta.
— Acaba logo com esse animal. — O tal Simon ordenou para o outro Salvador e eu senti todo meu corpo tremer.
— Não! — Gritei quando vi o homem tirar a arma do coldre e apontar para Bolt. — Por favor.
Foi inevitável começar a chorar. Eu não era forte como a minha mãe e o meu pai, eu era só um menino, eu não tinha mais a minha irmã para me proteger, eu estava sozinho... Sozinho e com medo, com muito medo.
O homem que me segurava me apertou um pouco mais, puxando o meu corpo contra o dele. Vi o outro Salvador destravar a arma para o meu cachorro caído no chão, as lágrimas nublavam meus olhos e eu os fechei instintivamente, esperando pelo pior.
O som do tiro veio seco, assustador. Meu coração deu um salto no peito e então parou por um segundo, meu corpo todo tremeu com o choro engasgado e eu finalmente abri os olhos.
Bolt estava coberto de sangue, mas não era seu corpo caído no chão sem vida, era o do Salvador que o ameaçava. Meu cachorro levantou com dificuldade e saiu mancando para o outro lado, ao mesmo tempo em que eu sentia a faca do meu captor encostar em minha garganta.
Então eu finalmente vi de onde vinha o tiro, Kane estava de pé há alguns metros de nós, a arma que minha mãe dera para ele em punho, enquanto a outra mão estava sobre sua barriga, havia uma mancha de sangue sobre seu ferimento.
— Olha só onde o traidorzinho de merda estava escondido... — O segundo Salvador debochou, sacando a própria arma.
Bolt se escondeu atrás das pernas de Kane, que naquele momento tinha os olhos negros tão frios quanto o gelo.
— Qual é gente, ele ia matar o cachorro, todo mundo sabe que não se toca no cachorro... — Ele começou em um tom que era um misto de bom humor e ironia.
Simon apertou mais a faca na minha garganta e deu um passo para trás, enquanto o outro Salvador firmava ainda mais a arma.
— Coloca a sua arma no chão, Kane, eu não quero te machu...— O mesmo salvador de antes sequer conseguiu terminar de falar antes que um tiro certeiro atingisse sua testa.
Notei que o ar amigável no tom de Kane nada tinha a ver com sua postura, tampouco com sua atitude fria e agressiva, ele sequer deu chances do Salvador com a mordida negociar, apenas atirou e matou sem aviso.
Senti a faca gelada apertar um pouco mais minha garganta, meu captor tremia sutilmente, se escondendo como podia atrás do meu corpo.
— Larga o garoto, Simon... — Kane ordenou em um tom de advertência. — Vocês não vão vencer essa. Na verdade, deve ter uma emboscada acontecendo agora mesmo. Negan vai cair. Ele merece isso...
— Acha que eu não sei disso? — Meu captor retrucou, me puxando um pouco mais. — Aquele maldito não sabe liderar merda nenhuma, eu matei todo mundo naquela merda de lixão pra ensinar uma lição e Negan ficou puto. Ele não aceita que já devíamos ter matado todos esses malditos faz tempo.
Simon parecia um homem descontrolado falando e isso me deu ainda mais medo, era como se a qualquer momento ele fosse rasgar minha garganta com um movimento simples.
— Eu já teria tomado o poder, sabia? Mas o maldito descobriu tudo e me puniu... — Ele apontou o próprio rosto rapidamente, e eu entendi que todos aqueles hematomas tinham sido causados por Negan. — Ele quase me matou, mesmo depois de eu ter entregado o espião Dwight de bandeja. Tive que implorar pela minha vida. Prometi que recuperaria Hilltop... E aqui estou.
Ele parecia orgulhoso de seus próprios feitos, ao mesmo tempo que soava bastante nervoso e revoltado.
— Nada disso vai adiantar, Simon. Tem um plano em ação, as armas foram sabotadas, Negan não vai vencer. — Kane tinha um tom controlado e baixo, o oposto completo ao de Simon. Repetiu as mesmas informações devagar e pacientemente. — O garoto não te vale de nada. Não vai ter prêmio algum por ele.
— Acha que é isso que eu quero? — Simon riu descontrolado. — Eu quero que Negan perca, quero que ele se foda, eu estou torcendo por isso! Eu não vim até aqui por ele, vim por mim mesmo, pra tomar esse lugar pra mim. Minha própria comunidade.
Kane assentiu algumas vezes, ele não parecia intimidado ou preocupado, era a imagem do autocontrole, o contrário completo de mim, minhas pernas tremiam. Eu não queria morrer...
— Parece um bom plano... — Kane deu alguns passos lentos na nossa direção. — Mas não vai funcionar, Simon. E você sabe disso.
Os dois se encararam por um longo momento. Minhas lágrimas tinham secado, eu era apenas tensão e medo, esperando meu destino, sem qualquer esperança de salvação.
Aos poucos os sons do lado de fora foram se intensificando, como se um grupo maior tivesse chegado. Pude jurar que ouvi a voz da Cindy lá fora, mas devia ser apenas coisa da minha cabeça...
Simon se moveu incomodado, como se algo nos sons lá fora fosse um indicativo de perigo. Imaginei que tínhamos conseguido reforços de algum lugar.
— Talvez uma mudança de planos seja necessária... — Ele falou em um tom maligno que me fez tremer.
— Deixe o garoto, Simon, você não precisa dele. Se fugir agora, você tem uma vantagem. — Kane aconselhou, não havia traços de ameaça em sua voz e eu fiquei confuso.
Ele estava tentando mesmo me salvar, ou só estava conversando com um amigo?
A faca arranhava meu pescoço cada vez mais. Bolt chorava olhando para mim e Kane permanecia impassível.
— Eu não quero vantagem, eu quero vingança! — Simon declarou descontrolado. — Natalie tirou alguém de mim, alguém importante, então eu vou tirar alguém importante dela. E vou deixar os pedaços dele pelo caminho.
Meu corpo inteiro tremeu e as lágrimas voltaram, eu não fazia ideia do que aquele homem estava falando, eu não sabia quem minha mãe tinha tirado dele, mas Kane parecia saber exatamente, porque estreitou os olhos e respirou fundo.
— Eu vou levar o garoto, Kane. É o justo. Natalie matou o Tony! — Simon pareceu realmente chateado pela primeira vez. — Me deixe passar, você não tem que lutar pelo pestinha, você é mais esperto que isso, Kane...
Os olhos negros de Kane continuaram firmes em Simon, ele sequer focava em mim nem por um segundo.
— Somos amigos lembra? Eu sei o que você quer, eu te conheço, Kane. Você só tem a ganhar quando o garoto sumir, Natalie vai precisar de apoio... Uma mulher sem filhos é muito mais suscetível... — A frase soou nojenta aos meus ouvidos e eu senti raiva, tanta raiva que meu corpo parou de tremer de medo. Fechei os punhos com força. — Sem o garoto ela vai cair fácil, fácil nas suas graças. Você não tem nada a perder, Kane, eu te ajudo, você me ajuda. Você não tem que arriscas nada pelo moleque, ele não é sua família.
Kane deu uma risadinha que eu não entendi bem e então apenas assentiu.
Ele estava concordando com aquele louco?
Eu sabia! Ele era mau, ele só estava esperando uma oportunidade de trair a gente. Toda aquela história de escolha era mentira, Kane só queria roubar a minha mãe, ele era apenas um mentiroso!
— Quer saber, você está certo, Simon. — O maldito abaixou a arma e deu de ombros. — O moleque não é minha família...
Kane deu um passo para trás, Simon afrouxou a faca do meu pescoço e me empurrou em direção ao muro, ele fugiria comigo por ali.
— Ele é melhor que isso. — Eu mal tinha ouvido a frase de Kane, quando o som ecoou no ar. O tiro atingiu Simon nas costas, logo após ele ter virado para me empurrar.
O corpo dele caiu no chão como um saco de batata podre e eu pude ver seus olhos arregalados na minha direção, como se não fizesse ideia do que tinha acontecido.
Eu não fazia a menor ideia do que tinha acontecido!
Olhei para Kane e ele ainda tinha a arma erguida, fumegando do tiro recém disparado. Aquele olhar frio estava lá de novo, mas se desfez quando ele veio na minha direção com passos preocupados. Sua mão no ferimento já estava toda cheia de sangue naquela altura.
Ele se abaixou perto de mim e colocou a mão no meu ombro, olhando meu rosto com atenção.
— Você está bem, Carinha? — Questionou sério. — Está machucado?
Neguei repetidas vezes, ainda zonzo com o que tinha acabado de acontecer.
— Eu pensei, eu pensei que... — Não consegui completar a frase, minha voz entalou junto com o choro em minha garganta.
— É, eu sei. — Kane assentiu e então deu de ombros, sorrindo de canto. — Às vezes a gente tem que mentir pra vencer umas brigas... Vai lá com o seu cachorro.
Me afastei na direção de Bolt, ainda assustado com tudo que tinha acontecido. Kane seguiu até Simon e o encarou de cima, enquanto o Salvador tentava se arrastar em busca de sua faca, que tinha voado para o chão quando ele recebeu o tiro.
Kane pisou na mão de Simon e o encarou por algum tempo, enquanto ele tentava revidar, mas não tinha forças o bastante.
Vi o moreno se abaixar minimamente, como se tivesse algo importante para dizer ao outro.
— Não foi a Natalie que matou o Tony, ela não teve nada a ver com isso. — Ele disse em um tom que me pareceu frio e sem qualquer emoção. — Fui eu.
Simon tentou socar a perna de Kane, mas mal teve forças para erguer a mão.
Kane deu um passo para trás e encarou o homem de cima por mais um momento, Simon engasgava com o próprio sangue, querendo dizer algo, mas sendo incapaz de formar as palavras. Kane não esperou mais, apenas atirou na cabeça do Salvador, sem dizer nada, sem piscar... ele puxou o gatilho como quem abre um pacote de bala.
Depois disso se afastou, guardou a arma no cós da calça e veio em minha direção com passos lentos, a expressão de dor em seu rosto era perceptível naquele momento.
Eu tentei formar uma opinião sobre Kane, enquanto ele checava o estado do meu cachorro, mas não consegui... Em um momento ele era um homem frio e mentiroso e no outro ele salvava a mim e ao Bolt, era respeitoso com a minha mãe e elogiava meu pai, ele não era como ninguém que eu conhecia...
Lá fora eu podia ouvir um tipo de comemoração, aparentemente tínhamos vencido. Segundos depois eu vi Cindy passar pelo portão acompanhada de Tara, logo atrás outras mulheres, que eu conhecia de Sherwood, vinham junto do pessoal de Hilltop. Aaron também estava de volta, ele não aparecia há tempos.
Imaginei que ele tinha convencido as garotas a lutarem ao nosso lado, mas isso não me comoveu ou animou, elas tinham traído a minha mãe, talvez eu ainda não estivesse pronto para perdoar.
Aproveitei que minha presença ali passou desapercebida e voltei a caminhar com Kane para o trailer médico.
— Me trancar e fugir pra se meter em uma luta desarmado, esse era seu grande plano de herói, Carinha? — Kane lançou entre divertido e acusatório.
Bolt andava a passos lentos ao nosso lado. Estava mancando, mas parecia bem. Eu sorri, até que não tínhamos nos saído tão mal assim...
— Eu sabia que você viria atrás de mim. — Dei de ombros em um tom superior, agindo como se aquilo fosse a coisa mais certa do universo.
— Não sabia nada. — Kane devolveu, acertando em cheio.
— Mas eu podia saber... — Cruzei os braços e empinei o nariz. — Além disso, não importa, porque deu certo e você bancou o herói.
— É claro que não. — Ele retrucou revirando os olhos. — Heróis não fazem o que eu faço.
Entramos no trailer e eu reparei que Judith ainda dormia, como se nada no mundo estivesse errado. Que inveja dos bebês.
— 'Tá bom, você está certo, você está mais pra um anti-herói. — Decidi, me jogando em um canto no chão e vendo Bolt se deitar ao meu lado.
— E qual a diferença? — Kane perguntou, enquanto afastava Judith e se deitava como se estivesse exausto.
— Anti-heróis são bons, mas também são meio maus... Eles não são vilões, mas não fazem as coisas certinhas como os heróis. — Expliquei enquanto examinava Bolt a procura de ferimentos. — E eles são babacas na maior parte do tempo, como Wolverine e o Deadpool
— Melhor que o Superman. — Kane decidiu e eu revirei os olhos
— Não é, não. — Retruquei.
— É sim.
Revirei os olhos de novo e deixei pra lá. Kane era meio idiota, mas até que ele era legal...
— Obrigado. — Agradeci finalmente, afinal eu e Bolt não teríamos saído daquela encascada sozinhos.
— De nada, Carinha. — Kane se ajeitou na cama e cobriu Judith ao seu lado. — Mais aquele soco não vai ficar barato não, se prepara, quando eu ficar bom, e minhas tripas não ameaçarem cair no chão a qualquer segundo, vai ter troco, eu vou cortar seu cabelinho bonito enquanto você dorme.
Acabei rindo do tom ofendido e engraçado que ele usou.
— Se você cortar meu cabelo minha mãe vai brigar com você. — Devolvi cheio de mim.
— Nossa, Carinha, usar a mãe é golpe baixo, hein? Quem é o anti-herói agora? — A voz dele parecia cansada, mesmo que seu tom fosse divertido.
Presumi que o esforço tinha sido demais e enquanto ria da resposta me lembrei de algo importante...
— Falando em mãe... — Comecei meio incerto. — Acha que a gente pode manter tudo isso bem longe dos ouvidos da minha?
Kane riu, uma risada honesta e engraçada que vez Bolt levantar a cabeça interessado.
— Você que manda. — Respondeu neutro.
— E do meu pai também. — Completei, lembrando que eu finalmente tinha pai e mãe para brigarem comigo por não obedecer.
Kane levantou um pouco a cabeça para me encarar.
— Olha, só quem é o anti-herói agora, hein... — Ele debochou e eu mostrei a língua.
Rimos juntos, antes que Kane encostasse a cabeça no travesseiro novamente e fechasse os olhos, depois de um suspiro cansado.
É, ele era um cara legal sim.
Mas a mamãe ainda era do papai. Isso nunca mudaria.
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