Notas iniciais
Boa noiteee!!! Finalmente chegamos ao capitulo da guerra! Só digo que está bem tenso, então preparem os corações... Boa leitura!

• DARYL DIXON •

Em minha vida eu pensei na morte muitas vezes... Eu até flertei com ela algumas vezes.

Eu conheci a morte muito jovem, a encarei de perto, senti seus horrores e sofrimento. Quando minha mãe morreu eu aprendi uma verdade cruel e que ao mesmo tempo confortava: Todo mundo morre.

Ricos ou pobres, bons ou maus, homens ou mulheres, brancos ou negros... A morte acolhe a todos como iguais.

Nunca encarei a morte como uma inimiga, sempre a vi como o fim do caminho, o curso natural das coisas. Uma hora ou outra aconteceria, até lá vivemos, lutamos... Fácil e natural, quase como um instinto que sempre me guiou.

E então os mortos tomaram a terra. A morte se tornou nossa inimiga. Morrer se tornou uma fraqueza. Desistir era para os covardes, mas quem era eu para julgar?

O alento de uma morte calma se tornou uma realidade distante... Sobreviver por anos em um mundo pós-apocalíptico nos traz uma nova certeza: Cedo ou tarde tudo vai acabar em tragédia.

Aprendemos a combater a morte com ferocidade, assim como combater os vivos também se tornou necessário.

Os inimigos estavam em toda parte...

E então lá estava eu, marchando para uma guerra, lutando pela vida daqueles que eu amava e sabendo que a morte nos perseguia. Parecia que eu estava brincando com fogo...

Tínhamos um plano, dois na verdade, mas eu aprendera da pior forma que o excesso de confiança podia ser bastante prejudicial; confiar na vitória outras vezes era exatamente o que tinha nos levado a derrota.

Meu coração estava batendo rápido, minha postura estava firme e meus olhos atentos. Eu não me permitia baixar a guarda por um só segundo, mas isso era por dentro, por fora me esforcei para parecer confiante, isso porque, Natalie era a imagem completa da incerteza, ela estava nervosa, não escondia isso por trás de uma máscara. Sua preocupação era evidente.

Então eu estava me esforçando para ser a fortaleza que ela precisava naquele momento.

Um dia, lá na pedreira, quando éramos apenas jovens, Natalie me dissera que era tudo sobre a esperança. Então eu precisava que ela tivesse um pouco de esperança, mesmo que para isso eu tivesse que esconder meus receios.

Chegamos ao local que queríamos no meio da madrugada, paramos os carros e seguimos o resto da distância a pé, era importante estarmos preparados para qualquer surpresa.

Estavamos esperando por uma armadilha. A informação que havíamos recebido dizia que Negan estaria com um grupo pequeno, naquele lugar, vulnerável o bastante para termos uma vantagem.

Segundo Kane, era uma mentira, Negan estaria ali com força total, e então seriamos pegos de surpresa.

Quando contamos tudo ao Rick, ele decidiu deixar metade do grupo na floresta, usar a mesma jogada de Negan contra ele.

Infelizmente, Kane estava errado.

Não houve uma armadilha, quer dizer, realmente tinha um pequeno grupo ali, mas Negan não estava com eles. Demos cabo dos poucos Salvadores sem grande dificuldade.

— Isso não faz sentido. Negan não estava aqui como Dwight disse que estaria, mas ele também não usou isso como uma armadilha, como Kane disse que faria. Então qual foi o proposito disso? — Rick parou entre os carros que os Salvadores tinham colocado ali para bloquear a estrada, sua mão esquerda estava apoiada na cintura e seu olhar pensativo perdido no nada.

— Podíamos ter perguntado para algum desses idiotas, se tivesse mesmo sobrado algum... — Resmunguei, olhando de soslaio para Morgan, que estava uns metros afastado.

Tínhamos deixado um Salvador, mas Morgan havia matado o cara sem motivo nenhum. Ele estava um tanto descontrolado, mas eu sequer quis parar para entender como o pacifista vivendo sob o lema "não matareis, pois toda vida é importante" tinha se tornado basicamente o oposto disso. Não importava naquele momento.

— Pessoal. Eu achei uma coisa. — Jesus nos alertou, mostrando um papel rasgado e seguimos naquela direção, havia um morto ali no chão, aos pés de um dos carros. — Ele estava tentando destruir isso.

Jesus entregou o papel para Maggie e em seguida ele foi passado para Ezekiel então para Rick, foi quando eu pude ver o que era com clareza. Um mapa, havia um local marcado e as palavras "nova base" escritas em uma letra repuxada.

— Eles usaram todo esse pessoal como distração apenas para conseguirem mudar de lugar. — Maggie supôs, dando um suspiro irritado.

— Isso explica porque o homem queria tanto destruir isso. — Jesus comentou em um neutro.

Fazia sentido, embora eu ainda achasse que algo não se encaixava. Procurei pelos olhos de Natalie, para saber o que ela estava pensando e se tinha uma teoria diferente, mas suas íris estavam fixas no mapa, como se ela estivesse presa nos próprios pensamentos.

— Faz sentido que eles tenham mudado de base, afinal o Santuário não era mais seguro e um local novo, que nós não conhecêssemos e soubéssemos onde é realmente daria a eles vantagem. — Ezekiel completou a teoria de Maggie.

— Parece que ele realmente descobriu sobre Dwight e usou isso a favor próprio... — Rosita deu de ombros.

— Faz sentido que eles não usassem mais os locais que já conhecemos... Negan deve ter pensado que Natalie e Kane sabiam a localização de todos os postos, então preferiu um local totalmente novo. — Michonne opinou séria.

Assenti algumas vezes, todos os motivos se encaixavam, mas ainda assim algo me parecia estranho, mas como eu não sabia exatamente o que era, preferi ficar calado.

— E por que esse lugar especificamente? O que tem aqui? — Rick apontou a marca feita a caneta, ele também parecia desconfiado.

— É um hotel na entrada da cidade, afastado o bastante do centro para ser discreto e protegido dos errantes. Bem localizado o suficiente para ter ao menos três rotas de fuga caso descobríssemos. — Natalie declarou em um tom amargo, com os olhos ainda no mapa.

— Como sabe disso? — Carol questionou em um tom neutro.

Natalie ergueu os olhos para ela e suspirou negando algumas vezes.

— Costumávamos nos encontrar lá. — Ela cruzou os braços e seu tom deixava claro seu descontentamento. — Negan gosta de ironia poética.

A informação fez meu corpo tremer de raiva, mas não era o momento de me importar com as coisas do passado. Eu não tinha direito de me ofender com nada, demorei, mas finalmente entendi isso.

— Faz sentido. Se ele pretende te levar como prisioneira, quando tudo isso acabar, que lugar melhor do que esse? — Maggie também pareceu irritada. — Que cretino!

As duas trocaram um olhar e assentiram ao mesmo tempo, claramente compartilhavam do mesmo sentimento de desprezo por Negan.

— Ele não vai levar ninguém de prisioneira. — Deixei bem claro. — Vamos arrancar a cabeça dele antes disso.

A localização da nova base dos Salvadores deixou Natalie visivelmente abalada, ele se afastou um pouco entre os carros, deixando que tomássemos as próximas decisões sozinhos.

Eu queria saber o que ela estava pensando, mas não tive tempo. Não foi necessário mais que meia hora de conversa para decidirmos usar aquela mudança como vantagem.

Se os Salvadores ainda estavam se instalando, era o melhor momento de atacar, um trunfo que não podíamos nos dar ao luxo de perder.

Resolvemos seguir viagem imediatamente e todos concordaram com isso.

Encarei Natalie de longe, quando voltávamos para os carros, ela estava um pouco afastada com Carol, Maggie, Michonne e Rosita, pareciam em uma conversa séria.

Vi Rick se aproximar delas e então Michonne disse que não seguiria no carro com ele, que as cinco iriam juntas no próprio carro. Me perguntei o que de tão importante elas estavam conversando...

Quando se afastaram eu me aproximei, conseguindo um momento sozinho com Natalie, enquanto todos seguiam para os carros.

— Você está bem? — Questionei, dando alguns passos na direção dela.

— Eu não sei... — Ela encolheu os ombros e deu um longo suspiro. — É muita coisa pra pensar ao mesmo tempo.

— Eu sei. — Assenti e tentei ser otimista, ao menos na frente dela. — Mas vai dar tudo certo.

Natalie riu de canto, um riso um tanto irônico e sem humor.

— Está dizendo isso porque acredita de verdade, ou porque quer que eu acredite? — Lançou perspicaz e deu um passo para mais perto de mim.

Me perdi nos olhos dela por um segundo, mas tive que me obrigar a voltar para a realidade.

Eu quero acreditar que é verdade. — Respondi finalmente e dei um passo para trás. — Quero acreditar que vamos voltar para o nosso filho em breve.

Ela sorriu, um sorriso mais honesto daquela vez, embora tenha me parecido um tanto triste também.

— Parece uma imagem bonita pra se manter em mente. — Voltou os olhos para mim. — Eu costumava ter uma imagem bonita como essa sempre em mente também, quase como um sonho... Mas agora essa imagem nunca se tornará real. Só existe na minha mente.

Eu entendi que ela estava falando de Luka e de todas aquelas coisas que eu tinha visto no vídeo. Abri minha boca para dizer alguma coisa, mas Natalie ergueu a mão para me interromper.

— Eu sinto muito, você está tentando ser otimista e eu estou estragando tudo. — Ela declarou rindo sem humor e negando algumas vez.

— Não. Eu sinto muito. — Fui honesto e deu um passo para frente. —Eu realmente sinto muito.

Natalie tocou meu antebraço e deu um sorriso que não lhe chegou aos olhos.

— Eu sei... — Deu alguns passos para trás.

— Quer vir comigo na moto? — Perguntei no impulso, antes mesmo de pensar sobre aquilo. Só quando as palavras saíram da minha boca foi que notei que era idiotice.

Não andávamos de moto juntos tinha uma eternidade.

Natalie pareceu surpresa com a pergunta, franziu as sobrancelhas por um instante antes de responder...

— Eu vou no carro com as outras. — Ela apontou o carro em que Michonne estava.

Assenti rapidamente, era bem óbvio que Natalie recusaria, tinha sido uma pergunta idiota de toda a forma, dei alguns passos para trás e estava prestes a me virar quando fui interrompido:

— Daryl? — Natalie chamou antes que eu me afastasse totalmente e me virei na direção dela novamente. — Eu sei que não quer falar sobre isso, mas precisamos falar, talvez seja nossa última chance.

Soltei todo o ar dos meus pulmões com irritação já sabendo do que se tratava, desde o dia anterior Natalie queria tocar naquele maldito assunto...

— Você vai voltar. — Deixei bem claro, porque na minha mente não existia uma versão da realidade em que Natalie não sobreviveria aquele merda de guerra.

— Você não sabe disso. Ninguém sabe. — Ela declarou encolhendo os ombros. — Eu posso não voltar, você pode não voltar. É tudo incerto agora, a única coisa que eu sei é que pelo menos um de nós tem que voltar para o Petter.

Eu não gostava de ouvir aquilo, era uma verdade feia e horrível demais para encarar, no entanto parte de mim sabia que Natalie estava certa...

— Não podemos morrer um pelo outro, Daryl. — A ouvi dizer, enquanto dava um passo na minha direção. — Se algo der errado um de nós tem que voltar e tirar o Petter daqui, mesmo que isso signifique abandonar todo o resto, mesmo que isso signifique fugir da luta.

Seu tom era sério e firme, era como se Natalie já tivesse pensado em tudo, como se ela tivesse cogitado todas as piores situações.

Não era fácil admitir que ela estava certa, mas a realidade era implacável e, se o pior acontecesse, realmente tirar Petter de perto de Negan seria prioridade. Talvez ter ido embora antes de toda a tragédia tivesse sido a escolha certa...

Luka ainda estaria viva, Natalie estaria feliz, Petter estaria seguro. Eu tinha escolhido minha lealdade a Rick e Maggie, mas talvez eu tivesse escolhido errado... Eu não cometeria esse erro outra vez.

— Prometa que não vamos morrer um pelo outro. — Natalie pediu com os olhos nos meus. — Por favor, Daryl.

Eu não queria prometer aquilo. Trocaria a minha vida pela dela mil vezes se preciso fosse, mas novamente Natalie estava certa, se nos sacrificássemos um pelo outro acabaríamos os dois mortos e nosso filho ficaria sozinho naquele mundo cruel.

— Eu prometo. — Declarei, desejando nunca ter que confrontar aquela promessa.

Natalie me deu um sorriso melancólico, mas assentiu, então se virou no intuito de seguir para o carro.

Eu não devia, mas quando dei por mim já tinha segurado o braço dela e a puxado de volta. Encarei seus olhos negros por meio segundo, então envolvi seu rosto com a mão livre e a trouxe para mim.

Cobri seus lábios com os meus, em um beijo que era desespero e angústia, sem me importar com quem estivesse por perto.

Era inconsequente e bastante atípico da minha parte agir daquele modo, mas não me importei, não naquele instante quando nossas vidas estavam em jogo.

Desfrutei dos lábios dela como se fosse meu doce preferido, desejando que não houvesse guerra ao nosso redor e aquilo pudesse durar a vida toda...

Depois me afastei um passo. Os olhos de Natalie estavam em mim, calmos, quentes e compreensivos, como se ela entendesse meus motivos melhor que eu mesmo.

— Eu sei que você não quer falar sobre isso, eu sei que você não quer ouvir isso... mas você está certa, talvez seja nossa última chance. — Declarei, usando palavras parecidas com as de Natalie e ainda segurando o antebraço dela. — Por isso eu preciso falar: Eu te amo.

Ela sorriu. Não um sorriso feliz ou empolgado, um sorriso compassivo, quase triste.

— Eu sei... — Ela tocou meu rosto e se aproximou, depositando um beijo doce no meu rosto.

Se afastou em seguida, indo em direção ao mesmo carro que Michonne, Carol, Rosita e Maggie. Sem despedidas, sem olhar pra trás.

Me senti um tanto vazio e incompleto... Talvez naquele momento eu tenha entendido que não podia ser feliz sem aquela mulher.

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Minha mente estava tão longe, perdida em preocupações e devaneios, que eu mal notei a primeira metade do caminho passar, só foquei na realidade quando demos de cara com o primeiro problema.

A estrada estava bloqueada, havia algumas arvores caídas na pista, obra da chuva ou do tempo, foi o que pensei...

Não podíamos voltar e seguir por outra estrada, porque essa nos levaria diretamente para a frente do hotel e então corríamos o risco de perder o elemento surpresa. Também não podíamos seguir de carro pela floresta lateral.

Decidimos abandonar os veículos e seguir a pé, não era um caminho longo e seria até melhor chegar sem qualquer barulho.

Entramos na mata e preferimos nos afastar da estrada um pouco, para não correr o risco de encontrar qualquer veículo dos Salvadores.

Gostaria de ter percebido que estávamos cometendo uma sucessão de erros...

Estávamos em uma pequena depressão; a nossa direita alguns montes atrapalhavam a vista, a nossa esquerda um desfiladeiro. Me aproximei da borda e notei que a erosão ali tornava um grande perigo se aproximar demais, era como se uma parte do chão pudesse desabar a qualquer momento... E, lá embaixo, depois de uma queda de dezenas de metros, havia praticamente um mar de errantes.

Instintivamente resolvemos caminhar longe da borda.

Seguimos por mais alguns metros, logo a frente avistei uma grande árvore no meio do terreno e foi quando todos nós ouvimos o coro de assobios ritmados e macabros se espalhando pelo ar...

Senti um arrepio gelado percorrer meu corpo, eu sabia exatamente o que aquilo significava: tínhamos caído em uma emboscada dos Salvadores...

Todos sacaram suas armas ao mesmo tempo e eu procurei Natalie com os olhos. Ela estava branca, a postura tensa e atenta, focada nas elevações que nos cercavam.

Sabíamos que os Salvadores viriam dali e isso nos colocava em uma situação muito complicada, afinal, eles nos cercariam por um lado e havia o desfiladeiro do outro. Não tínhamos rota de fuga ou locais para usar como cobertura, em uma eventual troca de tiros estávamos em total desvantagem...

Negan tinha pensado em tudo.

Nossa única chance era que o plano com Eugene desse certo, se ele tivesse sabotado as munições teríamos uma oportunidade de virar o jogo.

Apontávamos as armas para toda a parte, sem saber de que direção os assobios vinham. Os sons e espalhavam e ecoavam por toda a parte, tornando impossível descobrir a localização da fonte.

— Olha só que surpresa... parece que eu embosquei a sua emboscada com uma emboscada ainda maior. — A voz sarcástica de Negan soou alta, como se ele falasse através de um alto falante. — Isso vai ser muito divertido!

— Por que você não para de falar e aparece pra nos enfrentar? — Rick desafiou, atento a qualquer movimento que viesse da parte elevada do terreno.

— Mas eu estou aqui Rick, estou em toda a parte com meus homens, carros e altos falantes. — A resposta de Negan veio em tom de deboche. — Não tem como escapar de mim.

Troquei um olhar com Rick e ele não parecia nada contente com aquela situação.

— Eu trouxe alguns dos seus amigos para participarem da nossa festinha. — Torci para ele estar falando apenas de Dwight. — Mas caso estejam se perguntando vocês não foram traídos, sou eu que sou mais esperto que isso. Não tem como me enganar.

Pelo canto do olho pude ver que Natalie controlava a respiração, ela provavelmente estava preocupada com o paradeiro de Eugene, afinal com o plano de Rick desperdiçado na primeira emboscada, não tínhamos nenhuma vantagem reserva a não ser o Fazedor de balas.

Estava tudo nas mãos dele.

— Mas foi difícil, admito, eu sei que vocês têm uma das minhas Salvadoras e ela é muito inteligente. O que eu posso dizer? Ela aprendeu com o melhor. — Vi Natalie tremer quando Negan a citou diretamente. — Eu tinha que cuidar disso, desestabilizar a concentração dela para que não notasse os sinais pelo caminho.

Entendi que o hotel na estrada tinha sido apenas uma jogada, uma mentira do líder dos Salvadores para manipular as emoções de Natalie.

— Eu guiei vocês até aqui, tive que sacrificar alguns homens, dar mapas falsos, derrubar árvores na estrada, mas olha só, aqui estamos e está valendo muito a pena! — Ele soou animado e empolgado, fazendo o ódio borbulhar nas minhas veias.

Eu devia ter desconfiado, devia ter olhado as árvores com mais cautela e previsto aquela armadilha.

— Eu vou dizer como vai ser: Eu quero o meu Daryl e a minha Natalie, tenho planos para eles. — Negan exigiu e eu tremi de ódio. — Também quero a rendição dos líderes, Rick, a Viúva e o Rei, é preciso dar um bom exemplo e a Lucille está sedenta.

Ninguém se mexia, todos atentos ao menor sinal de movimento, eu estava disposto a lutar até a morte, mas era esperto o bastante para entender que, se Negan estava exigindo aquelas coisas, era porque ele tinha certeza de sua vantagem.

Ele sabia que estávamos encurralados.

Tentei decifrar o que se passava nos olhos de Natalie, mas eles estavam frios, nada surpresos. Seu corpo permanecia alerta, mas havia algo mais em sua postura que eu não entendi plenamente naquele momento...

— O resto de vocês podem voltar para suas vidinhas e continuar produzindo pra mim. O preço da minha proteção vai subir um pouco, é claro, mas tenho certeza que vocês entendem. — Então o tom dele se tornou mais ameaçador, quase mórbido, embora a satisfação em cada silaba fosse totalmente perceptível.... — É isso ou todos morrem.

Os Salvadores começaram a parecer, dezenas deles talvez centenas, nos cercando por toda a parte, armados até os dentes. Eu podia sentir a tensão de nosso grupo nas minhas próprias veias, assim como podia sentir a raiva e a frustração deles.

Se déssemos o primeiro tiro seriamos alvejados de todos os lados.

— Ah é, também quero o Carl. — Negan voltou a falar, passando para o tom debochado novamente. — Preciso de um herdeiro.

Vi Rick segurar sua arma com ainda mais força e Michonne se colocar protetoramente na frente de Carl. Mas o garoto não parecia se sentir ameaçado, pelo contrário, era quase como se eu pudesse ver a coragem no rosto dele.

Então Negan apareceu, ou melhor, ele vinha quase ocultado pelo corpo de Dwight e Gabriel, usando os dois como escudo humano e impossibilitando um tiro limpo que o acertasse.

O maldito era esperto.

Olhei toda a extensão de Salvadores que nos cercava e notei que Eugene não estava ali, ou seja, não tínhamos como saber se o plano com ele continuava em pé.

— Então, o que vai ser? Paz ou violência? — Negan perguntou em um tom maligno, quase como se as duas alternativas significassem nossa derrota certa.

Rick e Natalie trocaram um olhar, eu sabia que os dois estavam pensando sobre a alternativa com Eugene, já que tínhamos contado tudo para o xerife.

Vi os dois assentirem um para o outro e Rick deu um passo para frente.

— Nós escolhemos... — Ele começou, mas foi interrompido.

— Só mais uma coisa... — Negan ergueu o dedo em riste, então fez um sinal para um dos Salvadores, que veio arrastando alguém com um saco na cabeça.

Eu não precisei que o saco fosse tirado para saber quem era, acho que ninguém ali precisava... Eugene.

Quando sua cabeça foi descoberta o Fazedor de balas olhou ao redor apavorado, seu rosto estava ferido em vários pontos, mostrando que ele tinha levado uma bela surra.

Ele tentou nos ajudar e pagou por isso.

— A ideia de sabotar minha munição era muito boa, mas como sempre, eu estou um passo na sua frente, Coração. — Negan tinha os olhos fixos em Natalie, ele sabia que ela era a responsável. — Eu acho que você nunca vai ser tão boa quanto eu.

Eugene devia ter contado a verdade quando foi pressionado, mas isso não importava, não naquele momento... Tínhamos acabado de perder nosso último trunfo, estávamos cercados e vulneráveis, sem outro plano reserva, sem lugares para nos protegermos dos tiros. Não tínhamos como ganhar aquela guerra.

Quando os Salvadores começassem a atirar nada estaria no caminho das balas, havia apenas uma grande árvore ali, estávamos em campo aberto, em menor número, cercados por toda a parte graças ao desfiladeiro.

Talvez meia dúzia de nós conseguisse escapar durante confusão da trocação de tiros e certamente levaríamos vários Salvadores para a cova conosco. Mas no fim, estávamos perdidos.

Vi Natalie trocar um olhar estranho com Carol, em seguida com Rosita, Maggie e Michonne. Não entendi aquela cumplicidade delas e mal tive tempo de formar uma teoria.

— Maggie está gravida, deixe ela ir. — Natalie deu um passo para frente e se dirigiu diretamente a Negan. — Você não vai matar uma mulher gravida, vai?

Ele riu, puxando um pouco Dwight e Gabriel para proteger-se melhor.

— Que trunfo você acha que tem para negociar comigo? — Questionou superior e debochado.

— Nenhum, estou pedindo como um favor pessoal. — Natalie respondeu em um tom neutro. — E como retribuição eu vou de bom grado até você. — Ela deu um passo para a frente e jogou a arma no chão. — Desarmada.

Mas que merda ela estava fazendo?

Sob os olhos atentos de Negan, Natalie se desarmou totalmente, inclusive as facas que estavam escondidas em sua bota. Ela ergueu as duas mãos, deu uma longa olhada para mim e avançou outro passo.

Minha mente rodou, minhas mãos tremiam, eu não podia permitir que ela fizesse aquilo. Dei um passo para frente, pronto para impedir, mas a mão de Maggie pousou sobre o meu ombro, detendo meu gesto impulsivo.

Olhei para a líder de Hilltop e ela negou sutilmente, como soubesse de algo que eu não sabia... As coisas estavam acontecendo muito depressa, não tive tempo de pensar ou reagir, Negan já tinha ordenado que Natalie se aproximasse pelo restante do caminho.

Ela parou a menos de três metros dele e foi cercada por Salvadores.

— Você entende que eles têm que te revistar, não é, Coração? — O tom de Negan era nojento, mas não mais que o sorriso em seu rosto, que eu podia ver parcialmente de onde eu estava.

Vi a cabeça de Natalie se mover afirmativamente e ao meu lado, Carol, Rosita e Michonne mudaram de posição. Algo estava acontecendo.

Um dos Salvadores se aproximou de Natalie, era um homem baixinho, de rosto quadrado e olhos muito redondos, quase esbugalhados. Vi as mãos dele subirem pelas pernas dela com uma libertinagem asquerosa e jurei a mim mesmo que, antes de tudo aquilo acabar, eu arrancaria as mãos do maldito cretino.

Ele estava passando as mãos nas costas de Natalie quando parou abruptamente e, sem pedir permissão, abriu a jaqueta dela. Eu não podia ver o que o idiota via, mas seus olhos redondos se arregalaram ainda mais e ele deu três passos para trás, muito assustado.

— Puta merda é uma bomba!

Todos foram pegos de surpresa pela informação, eu inclusive. Negan estava pronto para puxar Gabriel e sair correndo, quando a voz fria de Natalie o fez parar.

— Não ousem dar um passo, para sua própria segurança. — Ela tirou a jaqueta totalmente, então eu vi que havia toda uma gama de dispositivos colados ao seu corpo. — Explosivo com detonador a distância. Achou mesmo que era o único com cartas na manga, Negan?

Meu coração saiu totalmente do prumo, senti vertigem, mas que merda Natalie estava fazendo?

Olhei para Rick em busca de uma resposta, no entanto ele parecia tão surpreso quanto eu. Foi quando eu vi Carol dar um passo para frente e erguer a mão direita, onde havia um pequeno dispositivo ou algo assim.

— Se você se afastar, Carol aperta o botão. Se você ou qualquer um dos seus atirar, ela aperta o botão. Pisque sem a minha ordem e ela aperta o botão. — A ameaça de Natalie veio em um tom cortante e, mesmo do local onde eu estava, vi os Salvadores tremerem.

Natalie estava longe o bastante para que a explosão não atingisse o nosso pessoal, mas perto o suficiente para levar metade dos Salvadores com ela, incluindo Negan.

Mas que ela explodiria junto com a maldita bomba e isso era inaceitável.

— Acha que eu acredito que seus amigos te matariam? — Negan debochou, mas vi ele arrumar Gabriel melhor em sua frente.

Vi que Rick estava pronto para agir, mas Michonne se colocou na frente dele, dando-lhe um olhar que deixava claro que o líder de Alexandria não devia avançar mais.

Que porra estava acontecendo?

— Meus amigos? — Natalie riu de um jeito debochado, quase uma imitação do próprio Negan. — Tem razão, eles não matariam, mas isso é sobre minhas amigas...

Carol ergueu a cabeça, com sua mão firme no detonador e eu sabia que ela apertaria o botão sem pensar. Michonne se colocou melhor na frente de Rick e Maggie foi mudando de posição sutilmente.

— Você subestima demais as mulheres Negan. — Natalie declarou em um tom frio que me provava que ela estava disposta a tudo.

— Natalie! — Tentei intervir e então tinha uma arma apontada na minha direção

— Sinto muito. — Rosita disse sem abaixar sua automática.

— Vai atirar em mim? — Questionei indignado.

— Nas suas pernas. — A hispânica afirmou, descendo um pouco a mira e puxando a trava para ilustrar que estava falando sério. — Natalie disse que você pode cumprir sua promessa mesmo com o joelho ferrado.

Segui meus olhos para Natalie, mas ela permanecia de costas, ao passo que Negan tinha sua atenção totalmente em mim. Toda a dúvida sumiu de seu rosto. Ele soube que ela não estava brincando.

E eu entendi o que de tão importante aquelas cinco estavam fazendo juntas dentro do carro, bolando seu próprio plano, sozinhas, já que ninguém mais apoiaria aquela loucura.

Rosita conhecia o bastante de explosivos para fazer aquela bomba, Maggie queria Negan morto acima de tudo e concordaria de imediato, Carol era firme e decidida o bastante para apertar o botão, sem sentir remorso pelo sacrifício de Natalie e presumi que elas precisavam da Michonne para conter qualquer impulsividade de Rick, Carl ou qualquer outro.

Era um bom plano, um plano excelente na verdade, exceto que era Natalie ali com uma bomba no corpo, colocando a vida na balança para garantir que Negan pagasse por tudo que fez de uma vez por todas.

Nunca fiquei tão apavorado ao encarar as possibilidades, se Natalie realmente fizesse isso... Tentei passar por Rosita, mas o olhar no rosto da morena era tão firme que eu não duvidei que ela realmente atiraria em mim, além disso, ainda estávamos cercados de Salvadores, qualquer passo em falso poderia dar a eles a vantagem novamente.

Então tudo aconteceu depressa demais, olhei para Maggie e finalmente entendi que ela se movia para encontrar uma mira mais limpa para atingir Negan, enquanto isso o déspota maldito tentou fugir, jogando Gabriel para um canto...

Ouvi o disparo da arma de Maggie e vi o Padre esbarrar em Natalie, o tiro passou raspando no ombro de Negan, pouco antes dele se esquivar se jogando no chão e então todo o caos se formou.

Antes que todos os Salvadores começassem a atirar Carol apertou o botão, gritei o nome de Natalie, esperando pela explosão, mas ela não veio realmente, quer dizer, houve uma explosão, mas não a que eu estava esperando, era como se várias bombas de gás e fumaça tivessem sido jogadas ao mesmo tempo. Todo o terreno ficou coberto por aquilo e os tiros começaram de todas as partes.

Não vi nada, não tentei entender, apenas comecei a correr na direção, mas fui detido por Carol, antes que uma bala me atingisse me cheio.

— Não era uma bomba de verdade. — Ela gritou por cima do barulho, enquanto sacava a própria arma e começava a atirar. — Não tínhamos materiais, tempo, ou espaço para um explosivo, então usamos as bombas de fumaça e gás. Ela está bem. Ela nunca correu risco de verdade, não muito pelo menos.

A informação demorou algum tempo para fazer sentido na minha cabeça. Natalie estava bem... Reassumi o controle e saí atirando, enquanto minha mente processava tudo ao mesmo tempo.

Tinha sido um blefe, uma jogada para desestabilizar Negan e tentar recuperar a vantagem. Natalie resolveu se prevenir, e se uniu com as outras quatro. E aquele era o motivo pelo qual não tínhamos sido todos alvejados.

Não tinha saído perfeitamente, mas o plano nos dera a chance de revidar. A fumaça espalhada pelo terreno cobria a visão dos Salvadores, era uma vantagem preciosa a nosso favor.

Mesmo assim, não pensei duas vezes antes de correr até o foco de tudo, adentrando no meio da fumaça a procura de Natalie. Notei que os Salvadores avançavam aos poucos, mas a jogada inusitada com o gás os tinha desestabilizado e estávamos na vantagem por termos um tempo de reação muito mais rápido.

Continuei atirando, atingindo Salvadores sem me importar muito com isso. Quando cheguei ao topo da elevação encontrei apenas Eugene encolhido no meio de alguns carros, Gabriel e Dwight tinham se envolvido na luta, Natalie e Negan tinham sumido.

— Onde está a Natalie?! — Gritei por cima do barulho, me ocultando entre os carros com Eugene, antes que alguma bala me atingisse.

— Eu tentei ajudar, tentei fazer tudo que ela falou, mas ele descobriu... Ele descobriu tudo. — Eugene tremia dos pés à cabeça, falando sobre o que já tinha passado. — Eu tentei, juro que tentei.

Eu não tinha tempo de pensar em toda aquela porcaria, a covardia de Eugene que se fodesse.

— Onde está a Natalie?! — Sacodi os ombros dele sem qualquer paciência e o idiota pareceu retornar para a realidade.

— Ela foi atrás dele. — Eugene apontou a direção e eu não fiquei ali mais nenhum segundo.

Continuei atirando quando me levantei. Tudo ao redor era fumaça e cheiro de pólvora e sangue, alguém explodiu uma granada perto de onde eu estava e eu não saberia dizer se vinha do nosso lado ou o dos Salvadores.

Meus ouvidos zumbiam e meus olhos ardiam.

Estava focado na direção que Eugene tinha me mandado, quando senti o movimento atrás de mim. Desviei poucos segundos antes de um grande machado atingir minha cabeça. Tentei atirar naquela direção, mas o cabo de madeira da coisa atingiu minha cara em cheio.

Caí para trás e rolei para a esquerda a tempo de me esquivar da lâmina que bateu diretamente no chão. Com a queda minha arma rolou para algum lugar e foi chutada para longe no meio do caos.

Eu nunca seria rápido o bastante para levantar e pegar a crossbow em minhas costas, então tive que me esquivar novamente antes que o Salvador me golpeasse.

Finalmente vi o homem com clareza, era o baixinho de olhos redondos. Eu tinha uma promessa pra cumprir...

Esperei que o homem tentasse me atingir novamente e me movi naquele exato instante, segurando o cabo do machado que tinha acabado de bater na terra. Minha atitude o pegou desprevenido e o desestabilizou. O puxei para o chão usando esse mesmo movimento para me impulsionar para cima.

Chutei a barriga do Salvador e me apossei do seu machado. Ele estava tentando se levantar quando dei o primeiro golpe...

Não foi um corte limpo, sequer peguei a mão toda, apenas alguns dedos se desprenderam dos outros, o machado não os pegou inteiramente. Minha posição estava muito ruim, mas aquilo foi o bastante para que eu considerasse minha promessa cumprida.

Atingi o Salvador uma vez mais, diretamente na cabeça, ele tentou se esquivar, mas não foi rápido o bastante.

Voltei a correr na direção que Eugene apontara, usando a fumaça que se dissipava aos poucos como ocultação. Foi quando vi Negan correndo há alguns metros de mim, ele saía da linha de tiro, mas se mantinha perto da elevação como uma vantagem, ele não estava lutando, estava apenas fugindo.

Covarde filho da puta!

Joguei o machado no chão e peguei a crossbow, eu tinha uma boa visão de onde eu estava. Eu o acertaria em cheio. Preparei a flecha rapidamente, e mirei, puxei o gatilho exatamente no mesmo momento que Natalie surgiu do nada e se jogou sobre Negan.

Merda!

Eu não a atingi por um triz, então a vi rolando com ele morro abaixo, para perto da grande árvore no meio do terreno.

O restante do grupo estava ocupado demais com os Salvadores para notar, então eu mesmo corri naquela direção, já aprontando a flecha na crossbow novamente.

O bastão de Negan escorregou para perto da árvore. Ele e Natalie ainda rolavam, envolvidos em uma luta corporal onde cada um tentava assumir o poder. Aquilo tornava muito arriscado atirar, então continuei correndo apenas, mas parei quando vi que Natalie imobilizou o cretino.

Ela estava sobre ele, as pernas segurando o corpo de Negan no chão, vi que procurava algo nas roupas dele e notei que ele disse alguma piada estúpida por causa de sua expressão nojenta, mas ainda estava longe e a todos aqueles barulhos de tiro me impediam de ouvir a voz dos dois

Natalie não se intimidou com seja lá o que Negan disse, ela tirou uma faca da jaqueta dele e vi a lâmina ser erguida no ar, enquanto Negan ainda tentava se libertar.

Era isso, ela estava prestes a matá-lo, era o fim.

Estava abrindo um sorriso satisfeito, quando algo me atingiu e a dor aguda no meu ombro esquerdo me fez soltar uma exclamação de dor. Pude ver que Natalie se virou para trás no impulso, talvez reconhecendo um fragmento da minha voz e toda a sua vantagem se foi.

Tive que mudar meu foco, para não levar outro tiro do Salvador atrás de mim, não podia prestar atenção na briga de Natalie porque tinha a minha própria.

O tiro que levei no ombro me fez largar a crossbow, tentei recuperá-la, mas tive que recuar para a direção oposta para não ser atingido novamente.

A dor era aguda e insuportável, o sangue escorria quente pelo meu braço, porém nada disso importava, eu sabia que tinha jogado a vantagem de Natalie no lixo e que ela estava com problemas por minha causa e eu sequer podia olhar na direção dela naquele instante.

Me joguei para a esquerda, afim de escapar de mais um disparo e também de alcançar algo que eu tinha visto no chão, não passava de uma pedra, mas usei a mão direita para lançá-la no mesmo instante e felizmente atingi a mão do Salvador.

Ele deixou a arma cair e eu avancei naquela direção, me apossando do revólver. Não tardei a puxar o gatilho, mesmo antes de mirrar corretamente.... Uma. Duas. Três vezes. O corpo do Salvador caiu no chão e eu sequer olhei ou senti remorso, apenas me virei para o outro lado, com o coração aos saltos de preocupação por Natalie.

Logo notei que a luta tinha invertido, Negan estava com a vantagem, ele já havia recuperado a Lucille e tinha uma arma apontada para Natalie, embora seu ombro sangrasse e tivesse uma faca enfiada ali.

Negan estava de pé e Natalie no chão, ergui minha arma e atirei, mas nenhum tiro saiu... Praguejei por ter desperdiçado toda a munição com o Salvador idiota.

Corri naquela direção e Negan só me viu chegando quando já era tarde demais, me joguei sobre ele e rolamos pelo chão, ele até chegou a atirar em Natalie, mas o tiro não pegou ela por pouco, ou talvez tinha pegado de raspão, não sei dizer ao certo, as coisas aconteciam rápido demais.

Rolamos alguns metros, o bastão ficando para trás e a arma de Negan escorregando pela terra. Só quando eu a vi despencar é que notei que estávamos próximos demais do desfiladeiro.

Soquei a cara de Negan repetidas vezes, de novo e de novo, mas o maldito enfiou o dedo no meu ombro ferido e eu urrei de dor.

Ele recuperou a vantagem e rolou por cima de mim, envolvendo meu pescoço com as mãos de maneira certeira, fazendo todo o ar sumir de meus pulmões.

Negan tinha me imobilizado de uma forma que eu não podia alcançar a faca em seu ombro, comecei a sentir tudo ao meu redor rodar, a consciência ameaçava me abandonar e então ele largou meu pescoço repentinamente, a tempo de usar o braço esquerdo para impedir um ataque de Natalie.

Ela o atingiu com a Lucille, mas pelo que eu consegui perceber enquanto recuperava o ar, não foi um golpe forte. Atingiu o braço de Negan e rasgou sua jaqueta, ferindo sua pele, mas a fúria que ele expressou ao vê-la com o bastão pareceu superar qualquer traço de dor em seu corpo.

Minha vista estava embaçada, e tudo rodava, mas eu sabia que tinha que levantar, quando Negan segurou a Lucille e a puxou de Natalie, não a atingiu por pouco, quando ela se jogou no chão para se esquivar.

Aquele maldito não morria!

— Vocês já me deram muito trabalho. — Ele ofegou preparando o bastão. — Cansei disso.

Natalie estava ao meu lado, um pouco mais perto do desfiladeiro que eu. Ela não tinha pra onde se esquivar, Negan a atingiria em cheio sem dúvida.

Eu sentia cada músculo do meu corpo doer, meu ombro estava dormente, mesmo assim me forcei a levantar, eu tinha que reagir...

Mas Negan pareceu ver algo que nós dois não vimos e se esquivou alguns passou, começando a correr na direção oposta antes que eu pensasse ou tivesse tempo de reagir, só quando o chão abaixo de mim começou a ceder eu entendi o que estava acontecendo.

Nossa briga perto demais da borda e o tiro dado no chão tinha feito uma grande rachadura naquela parte do solo. Eu mal tive tempo de mover minha cabeça na direção de Natalie, antes que o chão começasse a ceder...

Vi a surpresa nos olhos dela quando tudo começou a desabar, não tínhamos como escapar porque estávamos no chão, sem qualquer possibilidade de pegar impulso.

Estavamos caindo e Negan estava fugindo.

Meu primeiro pensamento foi Natalie, por isso a agarrei com a mão direita, depois disso confesso que eu não tinha plano, me segurar a uma das rochas salientes com a mão esquerda foi apenas instinto. Um instinto que salvou nossa vida em um primeiro momento.

Meu braço segurando todo nosso peso era também meu braço ferido pelo tiro do Salvador, a dor se espalhava por meu corpo em ondas violentas, mas tentei não pensar nisso.

Olhei para baixo, minha mão direita era a única coisa segurando Natalie, abaixo dela uma queda de metros e um mar de errantes.

Ela tentou se agarrar a qualquer saliência na parede rochosa, usando a mão livre, mas não teve sorte, qualquer rocha se desprendia e rolava desfiladeiro abaixo atiçando ainda mais os errantes abaixo de nós.

— Segura firme! Vamos sair dessa! — Falei, tentando passar uma convicção que eu não possuía. Natalie não respondeu, apenas encarou a queda pensativa e então voltou os olhos para mim.

Ela tentou gritar por ajuda, mas eu duvidava que alguém nos ouviria com todos aqueles tiros ecoando pelo terreno.

Eu não conseguia saber o que era pior; a dor no meu braço esquerdo, os dedos ficando dormentes tentando se segurar com firmeza a rocha, ou minha mão direita, melada de sangue, por onde eu podia sentir Natalie escorregando aos poucos.

— Não vamos conseguir. — Ela declarou com uma calma assustadora. — Se você não me soltar, nós dois vamos cair e morrer...

— Eu não vou te soltar! — Gritei convicto, mesmo que eu soubesse com clareza que cada palavra de Natalie era a terrível e inevitável verdade. — Não ouse soltar minha mão, eu te proíbo.

Apertei ainda mais seus dedos, sentindo muito mais medo do que eu já havia sentido na vida. Meus olhos marejaram, porque a cada segundo eu entendia a aterrorizante verdade que nos cercava.

— Você prometeu. — Natalie relembrou como uma acusação. Seus olhos negros focaram em mim e havia uma paz perturbadora neles, ao mesmo tempo em que eu sentia que um mundo de coisas não ditas pairava entre nós. — Diga ao Petter que eu o amo.

Ela tentou abrir a mão e eu a segurei com ainda mais afinco, como se eu estivesse me agarrando a qualquer pontinha de esperança.

— Eu não vou perder você. — Declarei de forma dura, minhas lágrimas nublando meus olhos e nossas mãos escorregando aos poucos.

— Eu te amo também, Daryl. — Natalie tinha aquele sorriso triste de quem tem certeza que é uma despedida...

Eu me sentia impotente, minha mente em um limbo negro, perdida e sem solução para meus problemas. Notei que a rocha em que eu me segurava não suportaria nosso peso muito mais.

Nós morreríamos ali, juntos... mas isso significava deixar Petter sozinho no mundo. E eu não podia permitir que isso acontecesse.

Era uma escolha cruel, mas eu tinha que escolher meu filho... Não havia sequer tempo para uma despedida apropriada e eu desconfiava que aquele dia me assombraria para sempre.

Nunca acreditei muito em Deus, mas naquele momento, quando eu estava prestes a fazer coisa mais terrível de todas, ele me mandou um milagre...

— Aqui, me dá sua mão! — O braço magricelo se esticou na nossa direção e eu olhei para cima a tempo de ver Carl Grimes jogar seu chapéu de xerife para o lado e se apoiar na beirada do desfiladeiro.

— Ela primeiro. — Eu disse, fazendo o máximo de forças para erguer Natalie um pouco mais.

Notei que meu movimento fez uma parte da rocha se soltar da parede do desfiladeiro, mas meus olhos presos nos dedos de Natalie tentando alcançar os de Carl, não me deixaram dar a devida atenção para isso.

Só consegui respirar aliviado quando ele finalmente a agarrou, segundos antes de nossas mãos se soltarem. Bendito seja esse garoto.

Mas Carl não teria conseguido puxar Natalie para cima sem ajuda, por sorte Carol se juntou a ele e, segundos depois, a mãe do meu filho estava em terra firme.

Meu coração ainda batia acelerado quando fui puxado para cima, a única coisa em que eu realmente pensei foi em puxar Natalie para os meus braços e abraçá-la apertado para me certificar que aquilo era real.

Eu não prestei atenção ao que acontecia a nossa volta, em que rumo as coisas tinham tomado, só quando todos os sons pararam repentinamente foi que eu notei que havia algo errado...

Me afastei de Natalie e olhei ao redor, um a um os Salvadores abaixavam suas armas, as atenções focadas na grande árvore há alguns metros de nós.

Negan estava de joelhos aos pés de Rick, que tinha uma pequena faca ensanguentada nas mãos. O líder dos Salvadores segurava a própria garganta e dizia algo que não ouvi. Foi então que eu vi, com tremenda satisfação, que o maldito estava com um corte no pescoço...

Tinha acabado. Finalmente. O filho da puta enfim pagaria por tudo que fez.

— Eu sou melhor do que você. — Ouvi Rick dizendo, como se respondesse algo, enquanto encara o líder dos Salvadores de cima. — Sou melhor do que você jamais será.

Os homens de Negan estavam rendidos, com o chefe ali caído eles tinham desistido de lutar. Eu gostaria de ter visto o que aconteceu, ao invés de estar pendurado em um penhasco.

Quando Negan caiu desacordado, Rick passou o olhar por todos nós e os parou em Carl, que vestia o próprio chapéu naquele instante.

Notei que Natalie tinha os olhos fixos na figura do homem desacordado, havia muito ódio ali e uma certa satisfação em vê-lo derrotado.

Eu queria mesmo é que Rick acabasse com tudo aquilo e desse um tiro ou uma pedrada na cabeça do desgraçado logo. Ele ainda estava vivo, era melhor acabar com aquela merda de uma vez por todas.

— Isso acabou. — Rick declarou em alto e bom som, para que todos pudessem ouvi-lo e então sorriu para o filho. — Vamos ser diferentes agora. Vamos fazer escolhas melhores e ser pessoas melhores. Se queremos ser uma civilização de novo, então temos que parar de ser bárbaros.

Ele fez um sinal para Siddiq, que se aproximou rapidamente já tirando a mochila das coisas e pegando os itens para cuidar da mão ferida de Rick.

— Cuida dele, o mantenha vivo. — Vi o xerife apontar a figura de Negan e pensei que tinha ouvido algo errado.

Houve um segundo inteiro de silêncio, como se ninguém ali conseguisse acreditar na decisão do líder de Alexandria. O próprio médico continuou parado ali, como se esperasse novas ordens, mas Rick apenas confirmou o que tinha dito com a cabeça.

O grito angustiado e colérico de Maggie cortou o ar e Michonne teve que envolver a líder de Hilltop em um abraço para impedi-la de avançar.

— Ele tem que pagar! Tem que pagar pelo Glenn! — Ela esbravejava no meio das lágrimas de ódio. — Só acaba quando ele estiver morto!

Rick a encarou com olhos tristes e compreensivos, mas não mudou de ideia.

— Negan passará o resto da vida em uma cela, essa será a punição pelos crimes dele. — Ele retrucou firme.

Meus ouvidos zuniam, minha cabeça rodava, eu mal podia acreditar no que estava acontecendo. Rick não podia achar mesmo que aquilo era certo!

Tentei avançar para acabar com tudo aquilo, mas uma mão segurou meu braço. Me virei pronto a socar quem tentasse me impedir, mas dei de cara com Natalie.

Ela fez um gesto negativo muito sutilmente, como se pedisse que eu não interferisse. Tentei decifrar sua postura; seus olhos estavam frios, apagados, porém firmes, sua linguagem corporal era confusa pra mim, eu não conseguia entender o que ela estava pensando...

Olhei ao redor e vi Carol deixar os ombros caírem, antes de se afastar decepcionada. Carl também se afastou, murmurando algo como "não foi isso que eu sugeri".

Já Rick continuava em um discurso de paz, que era dirigido aos Salvadores, enquanto Maggie se afastava com passos duros, nada satisfeita.

— Não me diga que concorda com isso? — Fui mais rude com Natalie do que eu pretendia.

Ela suspirou, seus olhos negros estavam opacos, frios, não me diziam nada.

— Com o que eu concordo ou discordo é irrelevante. — Encolheu os ombros e notei que sua voz era apenas um lamento. — Eu não sou a líder, Daryl.

— Rick está sendo... — Estava prestes a xingar quando Natalie me interrompeu.

— Ele está tentando construir paz, é necessário fazer concessões em nome da paz, eu entendo isso. — Cruzou os braços e notei que parecia exausta.

— Entender e aceitar são duas coisas bem diferentes. — Resmunguei, nada satisfeito com o rumo que as coisas estavam tomando.

— Talvez. Mas isso é assunto para outra hora, agora eu só quero voltar para o nosso filho. Depois... — Natalie soltou os braços e se aproximou um passo, tirando o lenço vermelho do bolso frontal do meu colete e fazendo pressão no meu ferimento. — Bom, acho que o importante é que ainda temos um "depois" para pensar no que fazer.

Ela estava certa sobre a última parte; estávamos vivos, tínhamos chegado muito perto da morte, mas no fim tínhamos vencido...

No entanto, era mesmo uma vitória?

Negan ainda estava vivo, sendo levado para um dos carros sob os cuidados de Siddiq enquanto dezenas de corpos estavam no chão.

Nosso algoz ficaria confortável e seguro em uma cela, depois de matar, humilhar, ferir e destruir a casa de tanta gente. Como isso era vitória?

Talvez parte do discurso de Rick estivesse correto, precisávamos de um amanhã melhor, precisávamos construir a civilização novamente, precisávamos de paz.... mas teríamos tudo isso com Negan vivo?

Por que nosso novo mundo não podia ser construído em cima do cadáver dele, afinal, já não estava sendo construído em cima do cadáver de tantos outros?

Denise, Glenn, Abraham, Sasha, Luka...

Era justo que Negan ficasse vivo, enquanto todas aquelas vidas tinham se perdido por causa dele?

Encarei o povo de Hilltop se retirando aos poucos, os olhos coléricos de Maggie, deixavam claro para mim que ela nunca deixaria aquilo de lado. Ela revidaria e eu decidi naquele momento que estaria com ela.

Aos poucos todos foram seguindo seu rumo, parte dos Alexandrinos seguiriam para o Santuário para recolher todas as armas do lugar. Rick tinha permitido que os Salvadores enterrassem seus mortos.

Negan foi levado sob a guarde de Michonne, tirado do campo de batalha como se fosse um ferido aliado e não como se fosse o culpado por tudo aquilo.

Percebi que Natalie encarava o nada, um ponto perdido entre o desfiladeiro e a grande árvore, logo vi o que ela olhava... Lá no chão, jogado como se fosse uma coisa qualquer, estava Lucille, o terrível taco de basebol envolto em arame farpado.

— Devíamos queimar. — Declarei e ela estava tão perdida nos próprios pensamentos que se assustou com a minha voz.

— Não. Deixa lá. — Se virou e tocou meu braço de leve para que eu andasse. — Não importa mais.

Então era isso, o grande símbolo da tirania de Negan seria deixado ali, jogado como se não fosse nada... Talvez outra pessoa achasse isso simbólico de alguma forma, pra mim não valia de nada, afinal um carrasco ainda é um carrasco, mesmo sem o seu machado...

E o nosso carrasco ainda estava bem vivo.

Notas finais
E aí, tá todo mundo vivo por aí, ou alguém morreu de infarte? kkkkkkkk Eu aposto que teve um monte de gente me jurando de morte mesmo antes do cap acabar e agora que ele acabou deve ter gente decepcionada porque eu realmente seguia a série no que diz respeito ao Negan... Eu lembro te ter falado algumas vezes nos grupos de Whats e Face e no Curious que o plot do Negan não acabava com o fim da guerra, e é isso, ainda vamos ter uma finalização definitiva pra ele nesses 4 caps que faltam pra acabar a fic, então não me matem ainda kkkkkkkkkk E é claro que se eu mantive o Carl vivo eu tinha que dar algo maravilhoso pra ele fazer neh? e o que podia ser melhor do que ele salvar a pátria? kkkkkkkk O proximo cap se chama "E se...?" é narrado pela Natalie, então vamos ver exatamente o que ela está pensando dessa decisão do Rick. Ele saí no dia 02 ou 03 provavelmente. Bjss e até lá!