Notas iniciais
Hey! Aqui estou de volta (finalmente) pra gente começar a contagem regressiva definitiva para o fim de Lifeline, são 4 capítulos agora e eu vou postar todos eles nesse mês que vai entrar, então se preparem pra uma overdose de Lifeline e para dizer adeus para os nossos nenéns.... (#Chorando) Eu considero esse um capitulo bem de transição (apesar de estar ENORME) o último antes de começarmos a definitivamente fechar os plots dos personagens. Espero que gostem e boa leitura!

• NATALIE COOPER •

"Felicidade: o estado de quem é feliz; uma sensação de bem-estar e contentamento... Por definição, a felicidade é um momento durável de satisfação, onde o indivíduo se sente plenamente feliz e realizado, um momento onde não há nenhum tipo de sofrimento".

Nesses termos, é realmente possível "ser feliz"?

"Durável", "plenamente" e "nenhum tipo de sofrimento", parecem termos que tornam a tarefa de ser feliz impossível... Mesmo antes, quando o mundo ainda era mundo, nada costumava ser "durável" o bastante, e "nenhum tipo de sofrimento" era uma realidade impossível. Sempre haveria sofrimento...

Então o mundo acabou e tudo ficou ainda pior, mais difícil. A palavra "felicidade" parou de fazer sentindo. Tudo que havia era dor, sofrimento e morte, nenhuma segurança... fazer planos para o futuro era como contar uma piada de mau gosto.

Ser feliz se tornou algo impossível, certo? Ainda assim, as pessoas haviam encontrado um jeito de estar felizes.

A felicidade deixou de ser um momento durável de satisfação, as pessoas passaram a se contentar e a se agarrar nos pequenos momentos; algumas horas de felicidade, mesmo que isso significasse fechar os olhos para tudo que acontecia a nossa volta.

Era o bastante para elas, quer dizer, tinha que ser, certo? Era tudo que tínhamos...

Todavia soava apenas como uma fuga pra mim; como eu podia me permitir um só momento de felicidade, com toda a desgraça e dor que ainda estava ali o meu redor?

E ainda assim, isso não fazia diferença, pessoas estavam felizes com ou sem minha aprovação...

Fazia duas semanas, as comunidades estavam sendo reconstruídas, a guerra estava acabada, havia risadas ecoando por Hilltop esporadicamente... Os Salvadores tinham voltado para o Santuário, sem armas e com um tratado de paz. Negan estava preso no pouco que tinha sobrado de Alexandria.

Hilltop estava sendo o apoio das duas outras comunidades; abrigo, comida, ferramentas, tudo que precisavam saía dali. Parecia um bom mundo. Parecia um mundo feliz...

Mas eu via por trás das aparências, eu via a rachadura na liderança. Maggie não estava feliz com a decisão pacifica de Rick, ela queria sangue e planejava sua própria vingança com Jesus e Daryl. Quer dizer, muitas pessoas não concordavam com manter Negan vivo e preso, e com deixar os Salvadores saírem impunes depois de tudo... mas ninguém dizia isso em voz alta, ninguém arriscava ameaçar aquela paz conquistada com sangue.

Quanto a mim: eu preferia não pensar em Negan. Eu entendia a decisão diplomática de Rick e isso era tudo. Vasculhar minha mente em busca do que eu realmente sentia sobre isso, não era algo que eu estava preparada para fazer.

Do meu ponto de vista, cedo ou tarde aquela situação não se sustentaria mais, sairíamos de uma guerra contra nossos inimigos para entrar em uma com nossos próprios aliados.

Às vezes eu me perguntava se Daryl e Maggie viam onde aquilo nos levaria... Talvez soubessem, mas estivessem dispostos a arriscar tudo mesmo assim. Às vezes não conseguimos vencer o ódio e quem era eu para questionar a sede de vingança deles?

Então, enquanto as pessoas desfrutavam daquela felicidade fugaz, eu ficava ali, sentada, esperando tudo desmoronar...

Tentei focar em ser útil, passei alguns dias ajudando no Reino, mas logo percebi que estar ali era difícil, principalmente para Petter, ele parecia ver a irmã em todo o lugar, o que tornava o ambiente pesado e a dor angustiante, mesmo que as pessoas ali fossem maravilhosas.

Por isso voltei para Hilltop, achava menos coisas para ser útil ali, mas Alexandria estava fora de cogitação, seria imprudente de minha parte levar meu filho para tão perto da ameaça constante que Negan era.

Eu estava deslocada ali, principalmente porque meu antigo grupo também estava em Hilltop... Cindy me pediu desculpas pelo comportamento da avó e, já que Natania estava morta, não havia nada que eu pudesse fazer além de esquecer.

Mesmo assim o entrosamento não era o mesmo e me entristecia, afinal em outra época eu teria dado minha vida por aquelas mulheres e de repente elas não passavam de estranhas.

Talvez algo parecido acontecesse com Alexandria e Hilltop por causa da vida de Negan...

Mas eu não era a única perdida, Daryl estava em situação parecida, ele se esforçava para ajudar todo mundo, odiava que Negan estivesse vivo em Alexandria, mas jamais se negava a ir até lá. Eu percebia que a lealdade dele estava dividida entre Rick e Maggie. Devia ser um tipo de inferno particular para Daryl...

Negan estava abrindo uma rachadura naquela amizade e esse era apenas mais um dos motivos pelos quais eu o odiava. Eu nunca suportei ver Daryl sofrer, e ele estava, mesmo que se fizesse de forte o tempo todo.

E, paralelo a esse sofrimento, ele também estava tentando, com muito afinco, ser um bom pai. Era até inspirador de ver... Quer dizer, eu sempre tive em mente que Daryl se esforçaria pra ser bom, mas pensei que ele teria muitas dificuldades, então ele estava superando minhas melhores expectativas. E eu o amava um pouco mais por isso.

Ele estava se esforçando para ser um homem melhor também, e eu sabia que era por minha causa, sabia que ele me amava, mesmo assim eu ainda não queria pensar sobre isso...

Não tínhamos falado sobre as coisas que dissemos um ao outro naquele penhasco, não tínhamos conversado sobre o beijo... Eu evitava e Daryl era complacente com a minha evasiva. Eu precisava de tempo para colocar meus sentimentos em ordem e entender algumas coisas dentro de mim.

Afinal o amor podia ser bastante complicado, principalmente quando ele se dívida da forma que o meu estava dividido...

Encostei a cabeça na parede e continuei olhando através da janela, eu estava no escritório de Hilltop e, do lado de fora, Kane jogava um graveto para Bolt, enquanto Petter parecia empolgado com algo que os dois conversavam.

Eu não sabia bem quando aquela amizade tinha começado, mas o fato é que os dois andavam bastante juntos naqueles dias, o que não deixava Daryl totalmente satisfeito, embora ele jamais tivesse dito qualquer palavra que repreendesse Petter.

Vi Siddiq se aproximar dos dois, o médico vinha se revezando entre Alexandria e Hilltop, ensinando o que podia a Enid, para que assim todos tivéssemos alguém preparado em caso de emergência.

As pessoas realmente estavam fazendo planos para o futuro de forma racional e consciente e eu ainda não sabia como me sentir sobre isso.

Siddiq trocou algumas palavras com Kane, apontou o lugar do ferimento e então Petter começou a comemorar alguma coisa. O médico se despediu e meu filho desatou a rodear Kane, falando sem parar.

Fiquei curiosa, ainda mais quando Kane assentiu e apontou para a casa, no que Petter saiu disparado.

Deixei o escritório a tempo de ver meu filho entrar correndo pela porta da frente, com Bolt em seu encalço.

— Onde você vai com tanta pressa? — Perguntei e ele parou no pé da escada.

— Lugar nenhum. — Ele deu de ombros com a postura mais suspeita de todas e sequer me deu tempo de perguntar mais nada, antes de correr escada acima.

Apenas neguei algumas vezes e deixei a casa, seguindo na direção de Kane.

— Oi. — Ele cumprimentou com um sorriso, quando viu que eu me aproximava. Parecia mais animado que o normal.

— Oi. — Respondi, parando a poucos metros dele. — Como foi sua conversa com a Maggie?

Kane tivera uma reunião com a líder de Hilltop logo quando o Sol raiou, com o ferimento quase cicatrizado era hora de decidir o destino dele...

— Longa, dura, mas bastante esclarecedora. — Kane comprimiu os lábios e ergueu as sobrancelhas. — Parece que Negan ter atirado em mim e quase me matado me deu o benefício da dúvida... Isso, e o ranço mútuo que eu e Maggie nutrimos pelo cretino.

Me permiti suspirar aliviada, eu não queria que Kane fosse, era cansativo perder pessoas, e se Maggie não permitisse a estadia dele em Hilltop isso me forçaria a fazer uma escolha definitiva. E eu não queria fazer escolhas naquele momento...

E só então notei que a estadia de Kane significava algo que também era preocupante.

— Ela te incluiu nos planos dela. — Presumi, sabendo que Maggie andava bem empenhada em preparar o momento para revidar.

Ter Daryl envolvido em uma possível guerra civil era bem ruim, eu não precisava de Kane nisso também. Era preocupação demais para uma cabeça só.

— Não. Ela não confia em mim o bastante pra isso. Mas eu sei que existe um plano. Seus amigos não são exatamente discretos. — Kane moveu os ombros, não parecia particularmente interessado nos planos de Maggie, mas me encarou de forma analítica por alguns momentos. — O que você acha disso?

— Pra ser honesta eu não quero pensar nisso, ou falar sobre isso. — Fui rápida em responder.

Eu andava fugindo de qualquer coisa que envolvesse o assunto "Negan", e pretendia continuar evitando isso por quanto tempo fosse possível.

Negação nunca fora uma característica minha, eu costumava encarar as coisas de frente e resolver logo, mas naqueles últimos tempos era quase um mecanismo de defesa.

— Justo. — Kane assentiu despreocupado e olhou ao redor. — Então, onde está o seu Robin Hood?

Revirei os olhos para o apelido bobo e neguei algumas vezes.

Daryl saiu em uma viajem com Dwight. — Respondi, enfatizando o nome. — Parece que Daryl e Tara entraram em um consenso e o Dwight não tem que morrer, ele vai ser exilado, vai ter a chance de ir atrás da Sherry.

Era uma boa decisão, talvez uma das poucas naqueles últimos tempos, além disso, eu preferia que Daryl estivesse resolvendo os problemas com Dwight do que envolvido nos planos da Maggie.

Kane focou em mim por alguns segundos e riu de canto.

— Seus amigos acham soluções tão diplomáticas. Que graça! — Havia um leve tom de reprovação e deboche na voz dele.

— Você está aqui por causa de uma solução diplomática, não é? — Alfinetei cruzando os braços e o encarando.

— Bom argumento. — O moreno apontou sorrindo e então me olhou de um jeito intenso e sério. — Mas não é. Estou aqui por sua causa, esse é o fato, o restante são apenas complementos.

Desviei o olhar, eu andava me esquivando de qualquer coisa que me fizesse pensar que eu realmente precisava tomar uma decisão.

— Kane, eu... — Comecei, pensando em algo evasivo o bastante.

— Eu não estou pedindo nada. — Ele me interrompeu, antes que eu precisasse formular uma desculpa esfarrapada. — Foi só um comentário solto, desculpe.

Assenti devagar, eu sabia que uma hora teria que abaixar a guarda e falar sobre aquele assunto diretamente, tanto com Kane quanto com Daryl... Mas naquele momento eu não conseguia me imaginar fazendo isso. Trazendo outra tormenta pra minha vida.

Apenas mais sofrimento e perda... Escolher parecia uma péssima ideia.

— Estou feliz que você ficou. — Declarei, depois de algum tempo de silêncio. Era honesto, mas só quando as palavras saíram da minha boca é que eu notei que era uma péssima forma de desviar do assunto que eu queria evitar.

Kane me encarou por alguns momentos, um olhar intenso e analítico, como se desvendasse minha alma.

— Você está? — Ele repetiu e pareceu mais que uma dúvida, pareceu preocupação... — Você está feliz?

Era uma pergunta direta, não tinha a ver com o fato de Kane ter ficado em Hilltop, era mais que isso...

Não, eu não estava feliz. Era só ausência de sofrimento, quer dizer, a dor estava ausente porque eu a evitava, simples assim.

Não respondi Kane, e também não precisei, Petter nos interrompeu, todo empolgado com uma mochila nas costas.

— Prontinho! — A animação do meu filho era evidente.

— Pra quê essa mochila? — Questionei, olhando de Kane para Petter duas vezes.

— Eu quero que venha em um lugar comigo. — O moreno declarou naturalmente e então Petter limpou a garganta exageradamente. — Ou melhor, conosco.

Olhei para os dois muito desconfiada.

— Kane... — Neguei algumas vezes. — Eu não sei se isso é uma boa ideia...

Os dois já estavam andando em direção ao portão enquanto eu falava, por isso os segui.

Havia um carro ali, algo que tinha sido evidentemente preparado com antecedência e pela forma como Petter e Kane conversavam, eu sabia que os dois estavam de comum acordo.

— Sair de Hilltop não é seguro. — Argumentei, tirando a mochila de Petter e deixando clara minha decisão.

Seja lá o que aqueles dois estava tramando, não ia rolar.

O olhar de Petter se apagou e ele murchou como uma bexiga sem ar.

— Você confia em mim? — Kane parou na minha frente e estendeu a mão para pegar a mochila de volta.

Era uma pergunta séria. E eu o encarei por alguns segundos... Eu confiava? Kane já tinha tomado dois tiros por minha causa, nunca fizera nada que não fosse me ajudar. Se alguém merecia minha confiança provavelmente era ele. Uns sessenta por cento da minha confiança pelo menos... Afinal eu não confiava cem por cento, nem em mim mesma.

Entreguei a mochila ainda incerta sobre em que tipo de enrascada aquilo nos meteria.

— Prometo que você vai gostar. — Kane declarou, abrindo o porta-malas para guardar a mochila, enquanto Petter estava com toda sua animação novamente.

O carro estava abastecido com o básico para um dia de viagem, não mais que isso. Olhei para os dois um tanto desconfiada.

— Quanto tempo faz que vocês estão preparando isso? — Questionei diretamente para o meu filho.

— Alguns dias. — Ele pareceu ainda mais empolgado, então entrou no banco traseiro do carro e chamo Bolt para se juntar a ele.

Kane fechou o porta-malas e me encarou por alguns instantes, apontando o banco do passageiro.

Eu costumava ser o tipo de garota aventureira que adorava "pagar pra ver", mas isso era antes, naquele momento ser mantida no escuro, enquanto os dois pareciam tão animados, era um tantinho irritante.

Por fim entrei no carro, e deixamos Hilltop.

— Pra onde estamos indo? — Perguntei, ainda nos primeiros quilômetros.

— É uma surpresa. — Kane respondeu e Petter deu uma risadinha animada no banco de trás.

Encarei meu filho desconfiada e voltei o olhar para o motorista.

— Que tipo de surpresa? — Voltei a perguntar impaciente.

Kane riu, puxou um pouco o retrovisor e encarou Petter por ele.

— Sua mãe sabe o que "surpresa" significa, Carinha? — Jogou para o meu filho, e notei que havia um clima leve a alegre no carro.

— Ela 'tá se fazendo de desentendida. — Petter respondeu com toda a convicção que conseguiu reunir no meio de toda sua empolgação. — Não dá mole pra ela.

Me virei para trás e encarei o garoto incrédula.

— De que lado você está? — Perguntei estreitando os olhos.

— Do meu. — Petter deu de ombros, como se fosse a pergunta mais óbvia de todas.

— Um garoto muito esperto o seu. — Kane apontou e voltou a focar na estrada.

Alternei meu olhar entre os dois pelo menos umas três vezes, havia algo de diferente neles.

— Como vocês dois viraram amigos do dia para a noite? — Perguntei interessada, erguendo uma sobrancelha.

— Não foi do dia para a noite, nós temos história. — Petter respondeu com o narizinho erguido.

— Que tipo de história? — Meus olhos pousaram em Kane, mas ele não tirou a atenção da estrada.

— Não olhe pra mim, eu não sou x9. — O moreno se fez de desentendido.

Me virei no banco e encarei meu filho com meu "olhar de mãe". Ele tentou escapar, disfarçar, se entreter com outra coisa, mas quando viu que eu não desistiria soltou um longo suspiro, o mesmo que soltava quando tinha feito algo errado e sabia que levaria uma bronca por isso.

— Kane salvou o Bolt de alguns Salvadores, enquanto você e o papai estavam fora... — Petter contou com uma cautela suspeita.

Olhei para o moreno no volante e a expressão dele era impassível, indecifrável. Quando queria, Kane podia ser uma tela em branco sem qualquer emoção.

— Por que não me contou antes? — Voltei os olhos para o meu filho e o observei com desconfiança. — É só isso mesmo?

Continuei encarnado Petter por longos segundos, até que ele abraçou Bolt e enfiou o rosto em seu pelo comprido.

— E ele também me salvou do bigodudo. — Disse tão baixo e enrolado que eu não teria ouvido se não estivesse prestando total atenção.

Entendi o que tinha acontecido tão logo as palavras vieram. Eu sabia da invasão de Hilltop e sabia dos Salvadores mortos dentro do muro, Tara não sabia como ou quem, mas no meio de uma guerra, essas eram perguntas que não faziam tanto sentido, eram invasores e estavam mortos, bastou para Maggie e bastou para mim, afinal eu pensei que meu filho estivesse escondido. Como eu mandei.

— Simon? — Minha pergunta foi direta para Kane. Ele assentiu, ainda com o rosto sem qualquer expressão. Apenas confirmando o que Petter tinha contado. — Foi assim que o Simon morreu?

Quando Kane assentiu outra vez eu entendi a gravidade da situação, as probabilidades de tudo ter acabado muito mal, fizeram meu corpo tremer.

— Espera, ele capturou você? — Me voltei para Petter com um tom apreensivo. — Achei que você estava escondido!

— Eu meio que... achei que podia ajudar. — Ele abriu aquele sorriso inocente de quem sabe que fez coisa errada.

Tudo dentro de mim se agitou, Simon conhecia Petter, se ele tivesse conseguido sair com meu filho de Hilltop isso significaria que tudo pelo que lutei e tudo que sofri não teria valido de nada.

Simon certamente entregaria o meu filho para Negan e o segredo que eu escondi a altos custos seria entregue de bandeja para o líder do Santuário.

Minhas mãos começaram a suar, e meu coração saiu do ritmo, era como se tudo ao redor girasse e como se o ar não chegasse aos meus pulmões... Perdi o foco, a razão, o chão.

— Você correu de encontro ao perigo, quando eu e seu pai dissemos expressamente para você correr dele? — Meu tom de voz saiu elevado, eu era só preocupação, nervoso e pânico naquele momento. — Eu não te ensinei nada? O que você tinha na cabeça? Você podia estar morto agora, sabia disso? Você podia estar morto como...

— Mas ele não está. — Kane agarrou minha mão antes que eu terminasse a frase e então me fez olhar pra ele. — Seu filho está bem. Tudo está bem.

As palavras foram ditas com calma e pausadamente, Kane respirava entre elas me impelindo a respirar também. Aos poucos as coisas foram voltando ao foco e meu coração foi se acalmando.

Eu soube que estava prestes a passar do limite do que se deve ou não dizer para uma criança, e agradeci mentalmente por Kane ter me interrompido.

Quando viu que eu estava mais calma o moreno soltou minha mão e voltou a encarar a estrada.

Olhei para Petter no banco de trás, ele alisava o pelo de Bolt com os olhos baixos e uma expressão cabisbaixa.

Me senti uma péssima mãe naquele momento. A pior de todas...

Respirei fundo e me movi no banco para encarar meu filho mais de perto.

— Olha, Pequeno Gafanhoto. — Mantive meu tom calmo e carinhoso, como sempre devia ser. — Quando eu e seu pai te dizemos uma coisa ou te damos uma ordem, é para o seu próprio bem e segurança. Nós te amamos e não queremos que nada de ruim aconteça com você. — Ele ergueu os olhos para me encarar finalmente. — Eu te amo, e não suportaria que algo ruim te acontecesse entende?

— Sim, mamãe. Me desculpa. — Petter assentiu devagar, com sua expressão mais inocente. — Eu só pensei que pudesse ajudar, como você o papai.

Procurei algo pra dizer, mas não encontrei nada. Então apenas me virei para a frente e neguei várias vezes enquanto passava a mão pelo rosto.

— Onde foi que eu errei, Senhor? — Murmurei pra mim mesma.

Kane me encarou por algum tempo, como se pensasse se devia dizer algo ou não.

— Será que eu posso dizer uma coisa? — Perguntou, e senti um certo tom de cautela em sua voz, então apenas assenti. — Não quero parecer intrometido, mas acho que o ponto aqui é que: você e o Daryl não podem ser pais extraordinários como Clint Barton e Natasha Romanoff e esperar que o filho de vocês pegue o Bolt e se esconda com medo, como Salsicha e Scooby. Vocês dois são os heróis dele.

Kane disse aquilo com tanta naturalidade que eu tive que piscar diversas vezes para processar. Pelo retrovisor ele e Petter trocaram um sorriso cúmplice.

Eu não sabia dizer se ficava mais impressionada com o fato de Kane ter defendido o meu filho, ou com o fato dele ter defendido com aquelas exatas palavras. Não tinha como manter um clima pesado ou estranho depois daquilo...

— Isso foi uma quantidade absurda de referência nerd em uma frase só. — Apontei, franzindo as sobrancelhas. Aquilo era algo que eu realmente não esperaria de Kane.

— Eu tive um bom professor e aprendo muito rápido. — Ele deu de ombros como se não fosse nada demais e piscou para Petter pelo retrovisor.

Neguei algumas vezes e ri de canto. Meu filho tinha uma habilidade impressionante de fazer amizade com as pessoas.

Olhei a estrada passando depressa e pensei no que Kane tinha acabado de dizer, talvez ele estivesse certo afinal, eu mesma sempre acreditei que era tudo sobre exemplos com os filhos. Se eu e Daryl nunca nos escondíamos, pedir isso de Petter realmente soava um tanto hipócrita, mesmo que fosse a coisa certa.

Teríamos que encontrar um jeito melhor de explicar aquilo para o nosso filho.

Só então me toquei de outra coisa que Kane tinha dito.

— Acha mesmo que eu e o Daryl somos pais extraordinários? — Perguntei, citando a frase.

O moreno me encarou por um segundo e sorriu, focando na estrada novamente.

— Eu não acho, eu tenho certeza. — Ele enfatizou. — Você e o Daryl são bons nisso, e eu posso dizer com propriedade, porque tive péssimos pais...

Encarei Kane por um tempo, ele não costumava falar muito de si mesmo ou da família, ou talvez eu que estivesse ocupada demais com meus próprios dramas para perguntar.

Quando se tratava de "nós", era sempre tudo sobre mim, vendo em retrospectiva parecia bastante egoísta da minha parte, mas Kane nunca pareceu incomodado com isso.

Ele era bom pra mim, mas eu talvez não fosse boa pra ele...

— Obrigada... — Agradeci finalmente. — Por tudo.

— Não foi nada demais, eu já estava por ali mesmo. — Kane moveu os ombros casualmente e não voltou a me encarar.

Mas não era apenas sobre ter salvo a vida do meu filho, era sobre tudo. Kane tinha feito coisas por mim que talvez olhos desligados não reparassem.

Não era sobre os tiros, sobre trair o Santuário por mim, sobre a surra, sobre o plano para a guerra. Essas coisas eram impactantes, mas não eram as mais importantes.

Olhando para trás eu podia ver que não era por isso que eu tinha me apaixonado por ele....

Kane estava lá, isso era o importante, ele me entendia, via minhas vulnerabilidades, mas nunca se aproveitou delas, ele poderia se quisesse, mas nunca me pediu nada.

Ele podia usar o fato de ter salvado Petter como um trunfo para me conquistar, mas não fez isso, por exemplo.

Kane era um jogador, mas nunca jogou comigo. Ele me amou do jeito que eu precisava ser amada e não pediu que eu o amasse em troca.

Quem é que não se apaixonaria por alguém assim?

Minha mente fez a ligação óbvia muito rápido. Kane me amava da forma como eu amava o Daryl em Dawsonville.

Ele me amava da forma como eu sempre desejei que Daryl me amasse.

Pensar dessa forma fazia a escolha certa parecer óbvia, mas não mudava o que eu sentia. Eu estava apaixonada pelo Kane, o amava em algum nível, mas o Daryl...

O que eu sentia por Daryl Dixon não era racional, não tinha lógica. Eu o amava loucamente e nem sempre isso era bom. Aí residia o problema. Eu e Daryl tínhamos uma longa lista de cicatrizes, anos de sofrimento acumulado. Era possível amar alguém até que isso fizesse sua alma sangrar?

Em Dawsonville eu o amei mais do que devia. Dei mais de mim do que podia. Claro que aquele tipo de devoção deu resultado, mas a que preço?

Daryl estava quebrado em Dawsonville, talvez ainda estivesse... Ele tinha mudado e amadurecido, as coisas podiam ser diferentes, dez anos para superar um trauma era tempo o bastante. O problema é que naquele momento eu era quem estava quebrada.

Como amar alguém inteiramente quando você mesmo não está inteira?

Amar Daryl era trabalhoso e eu estava cansada. Se amada por Kane era simples, fácil, leve.

Daryl era furacão e tempestade. Kane era calmaria. Mas havia um problema: se Kane me amava, da forma como eu amava Daryl em Dawsonville, e eu estava quebrada, exatamente como Daryl naquela época, a história não acabaria se repetindo?

Daryl partiu meu coração, eu partiria o coração do Kane, como um ciclo infinito de autodestruição...

Por isso eu precisava dos dois.

Fazia sentido na minha cabeça, soava como algum tipo de equilíbrio cósmico. Estavamos os três quebrados de alguma forma, como peças de um quebra-cabeças que se encaixavam perfeitamente.

Pra mim parecia certo, fazia sentido... Eu devia saber naquela época que coisas estranhas fazem sentido e parecem certas, quando nossa cabeça está uma bagunça de trauma e dor.

Eu continuei em minhas próprias conjecturas insanas durante o caminho, enquanto Kane e Petter brincavam de um jogo de lógica. Algo sobre achar coisas começadas com uma determinada letra, dentro de um lugar pré-estabelecido.

Quando dei por mim já estávamos nos aproximando do litoral, não tinha sido uma viagem longa.

Kane parou o carro na antiga marina e pediu para que esperássemos enquanto ele dava uma olhada ao redor, em busca de qualquer perigo. Não demorou muito e ele estava de volta.

O local estava limpo de mortos, e essa era a única limpeza ali, tudo estava coberto de areia, consumido pelo tempo, destruído de várias formas.

Mas entre os barcos de madeira destruídos e virados, havia um imponente iate branco. Okay, branco era bondade da minha parte... o barco tinha sido branco um dia.

— Você não estava mentindo! — Petter exclamou animado, enquanto Kane carregava as coisas. — Você tem mesmo um barco!

— Você achou que eu estava mentindo? — O moreno olhou para meu filho, se fazendo de ofendido.

— Você meio que mente bastante... — Petter fez uma careta, mas eu não estava de fato prestando atenção nos dois.

Minha mente estava cheia de perguntas.

— Você não está errado. — Ouvi a risada de Kane — Vamos.

Parei onde estava, eu não sabia se aquilo era uma boa ideia. Um barco abandonado no porto... Não fazia sentido que ele estivesse ali ainda, as pessoas tinham fugido por água no primeiro mês. A marina tinha sido atacada, eu sabia disso.

Aquele barco tinha parado ali depois disso... Podia ser perigoso.

— Kane. — Ele me encarou assim que eu chamei. — Eu não sei se isso é uma boa ideia...

— Por que não? — Ele soou totalmente despreocupado. — Um barco no meio do mar, sem errantes, sem perigo, apenas calmaria e alguns peixes quem sabe.

Só então me toquei sobre o que Petter tinha acabado de dizer, Kane tinha falado do barco, ele já sabia de estava ali. "Você realmente tem um barco".

Eles tinham dito que estava planejando aquela viagem há dias...

Olhei para o iate novamente e não consegui imaginar Kane com uma coisa cara daquelas, talvez fosse algo adquirido já no apocalipse... E isso me fazia perguntar: por que Kane tinha um barco parado ali?

O encarei por alguns segundos e algo mais urgente que minha curiosidade apitou em minha mente. Aquilo era diversão, um passeio casual. Um encontro.

Dei um passo para trás, se tivesse perigo eminente no barco eu teria me sentido mais confortável.

— Olha... — Ergui minhas duas mãos, não querendo não ser grossa. Eu gostava do Kane, muito mesmo, mas realmente não queria falar sobre escolhas e sentimentos. — Se isso é sobre...

— Isso não é sobre escolhas, Natalie. — Ele se apressou em me interromper, como se pudesse ler todo meu receio nas minhas expressões. — Prometo pra você, estamos aqui como amigos de pescaria, só isso.

Kane parecia muito honesto no que disse e eu me dei conta que, se fosse mesmo um passeio romântico, para tratar de assuntos sentimentais sério, Petter não estaria ali.

Meu filho parecia impaciente, falando nisso. Pedir que voltássemos para casa seria uma decepção muito grande pra ele...

— Se não é sobre escolhas, então é sobre o que? — Perguntei, dando um passo para frente.

— Perspectiva. — Kane respondeu apenas, assumindo a dianteira.

Ele entrou na frente, verificou por mortos ou vivos e voltou reclamando dos saqueadores.

Era evidente que o barco tinha sido invadido, as coisas espalhadas por toda parte deixavam isso claro. Notei que Kane procurou por algo na cabine e pareceu aliviado quando encontrou. Ficou lá por um longo tempo, olhando seja o que fosse, e então desceu para mexer no motor.

Ele parecia saber exatamente o que estava fazendo, pegou uma peça escondida em outra parte do iate, mexeu no motor por mais um tempo e então o barco realmente ligou.

Confesso que estava um tanto cética quanto a isso. Na verdade, estava cética quanto a tudo.

Ganhamos o mar depois disso e foi basicamente tudo sobre Petter na próxima hora, Kane o deixou pilotar e eles ficaram em um papo de marinheiro que, embora alegre, me soou desinteressante.

Enquanto eles estavam na cabine, eu desci e me sentei no convés, apenas sentindo o sol no meu rosto e vendo a água passar na minha frente. Bolt se deitou ao meu lado, quieto e silencioso como um gato.

Kane tinha razão, eu gostava daquilo, a calmaria e o silêncio faziam minha mente se perder no mar sem fim, era tudo água não importava onde minha vista tocava.

Sem mortos perseguindo nossa carne, sem inimigos querendo nosso sangue. Nada além do mar azul. Mesmo que por apenas aqueles minutos todos os problemas sumiram.

Não sei exatamente quanto tempo demorou para que parássemos, mas eventualmente Kane ancorou o barco e então pediu que Petter o ajudasse nas redes de pesca.

Os dois se juntaram a mim e a Bolt um pouco depois, e então era tudo sobre entrar na água, pelo menos para o meu filho, ele gastou todo um repertorio de argumentos e caretinhas fofas tentando me convencer que ele podia e devia dar um mergulho.

Kane tinha conseguido um colete salva-vidas, o mar estava calmo e límpido, sem qualquer sinal de perigo. Decidi que, pelo menos por algumas horas, eu podia dar ao meu filho a oportunidade de ser uma criança normal de dez anos e o deixei se divertir.

Fazia muito tempo que ele não tinha uma oportunidade como aquela...

Kane mudou a rede de pesca de lugar, para que a agitação de Peter na água não desviasse os peixes da armadilha.

Bolt resolveu seguir meu filho um pouco depois e tudo virou uma festa para o garoto. Quase dava pra esquecer que o mundo era uma merda.

Kane tirou a camisa e a jogou de lado, alheio ao meu olhar, enquanto falava sobre não terem tubarões naquela região para Petter.

Eu o observei por um tempo, passando os olhos pelo abdômen e focando na cicatriz do tiro, ainda vermelha. Kane era um homem bonito, não uma beleza exótica e selvagem como a de Daryl... Ele era bonito de uma forma que ninguém contestaria. O tipo de beleza que atraia a atenção.

— Então... — Chamei a atenção dele. — Vai me contar a história do barco?

— Por que você acha que tem uma história? — Kane se sentou de frente pra mim.

— Porque você sabia que ele estava aqui, sabia que tinha uma peça do motor faltando e sabia exatamente onde achar a peça. — Dei de ombros e Kane ergueu uma sobrancelha. — Jornalista investigativa, eu presto atenção nos detalhes.

Ele sorriu de canto e desviou os olhos de mim, os pousando no mar por uma infinidade de segundos. Me pareceu triste por um momento, mas então negou algumas vezes e voltou a atenção para mim.

— Eu usaria o barco pra dar o fora de Washington, ele meio que tem um certo valor sentimental, então levei um tempo pra encontrar... — Começou a explicar. — Estava em posse da polícia, mas a polícia já era, então não foi exatamente difícil pegar de volta.

— Em posse da polícia? — Repeti, me perguntando por que Kane teria um iate com "valor sentimental" em posse da polícia.

— Longa história... — Ele suspirou e desviou os olhos por mais alguns segundos. — O que importa é que quando eu finalmente estava pronto para partir, meu irmão resolveu se juntar aos Salvadores.

Encaixei as coisas mais ou menos na minha cabeça, e fez um certo sentido.

— E você foi com ele. — Completei e Kane assentiu.

— Kelvin tinha uma forma muito especial de me convencer a fazer as coisas... — O moreno soou um pouco desgostoso.

Franzi levemente minhas sobrancelhas e isso não passou despercebido, por fim Kane deu um sorriso que não era mais um mover de lábios.

— Ele me deu um rim. — Declarou, como se fosse alguma ironia do destino e apontou o lugar oposto a onde tinha levado o tiro de Negan. — E já que eu nasci sem nenhum... Ele meio que me deu a vida.

Kane deu de ombros, não parecia agradecido de fato, como se aquilo tivesse custado muito mais caro do que valia...

— Então eu me certifiquei que ninguém roubaria meu barco quando tirei a peça do motor e escondi. — Ele terminou de explicar de um jeito simples.

— Você pretendia voltar pra cá. — Concluí, e aquilo que surpreendeu, nunca imaginei que Kane tivesse qualquer outro plano além do Santuário.

— Um só tinha que resolver um assunto pendente antes. — Confirmou o que eu tinha acabado do dizer. — Mas... coisas aconteceram. Os planos mudaram.

Kane parecia conformado, de alguma forma senti que ele não tinha pressa em voltar para o seu barco, era um plano para longo prazo. Era estranho pensar que mesmo Kane tinha planos a longo prazo...

Suspirei, sentindo que minha vida estava tão parada quanto o mar a minha frente. Eu não tinha um plano, um objetivo imediato, nada.

Eu estava apenas esperando as coisas acontecerem e isso era muito frustrante...

— Você disse que hoje era sobre perspectiva. — Falei, depois de um longo tempo encarando o mar. — Que tipo de perspectiva?

— Aquela... — Kane apontou para fora do barco e eu segui seu gesto com os olhos. — Você tem um filho incrível, um bom cachorro e o mundo todo a sua disposição, e ainda tem pessoas ao seu redor que te amam muito.

Franzi minhas sobrancelhas, sem entender muito bem onde Kane queria chegar.

— Hoje em dia a maior parte das pessoas não tem nada disso. — Ele continuou e me encarou por alguns momentos. — Você perdeu e muito, mas você ainda pode ser feliz. Você não está feliz agora, mas você pode ser. Não importa o que você vai escolher ou quem você vai escolher, primeiro escolha ser feliz.

— Por que acha que eu escolheria qualquer coisa diferente de ser feliz? — Retruquei de imediato.

— Porque você não acredita que pode ser feliz. Eu acho que você pensa que não merece isso... — Kane foi direto, tinha convicção em suas palavras.

Me senti exposta e não gostei disso.

— Eu acho que você não me conhece tão bem quanto pensa... — Devolvi rudemente, me colocando de pé e seguindo para a cabine.

Kane me deixou ir, não pareceu ofendido com a minha aspereza.

Cheguei na cabine depois de cruzar o caminho com passos agitados e nervosos, eu estava fugindo outra vez.

Na verdade Kane me conhecia bem sim, ele realmente me enxergava e estava certo... Eu não acreditava que podia ser feliz, talvez eu não merecesse isso.

Como alguém podia ser feliz depois de tudo que tinha me acontecido? De que forma eu seria merecedora de felicidade se minha filha estava morta por minha causa?

Me sentei ali na cabine e suspirei, eu sequer tinha lágrimas pra chorar mais, era tudo apatia. Fiquei apenas encarando o chão por um tempo, havia uma mancha escura no piso, que me parecia a marca de uma poça de sangue, mas não era uma grande novidade. Tudo naquele mundo em que vivíamos era sangue seco e sujeira mesmo.

Permaneci sentada ali por um tempo, apenas ouvindo a risada de Petter soar por toda a parte. Saber que ele estava feliz fazia meu coração se acalmar um pouco, ou ao menos metade do meu coração.

Resolvi voltar, quando notei que abaixo do painel de controle havia uma caixa com a tampa parcialmente aberta.

Era uma daquelas caixas de evidência policial, eu sabia bem, graças ao meu trabalho, era o lugar onde as provas de um crime ficavam armazenadas.

Lembrei que Kane parecia aliviado quando encontrou algo na cabine e presumi que fosse a tal caixa. E considerando que ele tinha tirado o barco da marina da polícia, a caixa de evidências certamente tinha vindo de lá também.

Não era da minha conta, mas ninguém se torna jornalista investigativa sem uma grande dose de curiosidade nas veias. Foi como se algo acordasse dentro de mim, sacodindo o pó dos meus ossos. Por um segundo eu me senti mais viva do que em qualquer outro momento dos últimos três anos.

A melhor parte do meu trabalho sempre foi aquele instante em que eu descobria um novo mistério. Cada nova pista era uma injeção de ânimo e adrenalina nas minhas veias. Algo muito mais gratificante e emocionante do que lutar contra os mortos por minha vida, ou ter que sobreviver no fim do mundo.

Era muito gratificante ajudar pessoas com o meu trabalho, era o objetivo de tudo, mas o caminho que eu fazia para coletar as pistas e montar toda a história... esse era um prazer pessoal que nada tinha a ver com as outras pessoas. Era um momento meu apenas.

Quando vi já estava ajoelhada na frente da caixa. A primeira coisa ali, em meio as pastas de arquivo era um saco de evidências transparente, com um teste de gravidez de farmácia dentro.

Encarei as duas listras vermelhas, indicando o resultado positivo e meu coração saiu do ritmo. Eu soube que estava ultrapassando um limite, mas eu sempre tive a péssima mania de forçar limites, por isso não recuei.

Peguei a primeira pasta e pude ver o logo da polícia de Washington por baixo de todo o pó. Abaixo da pasta tinha alguns objetos, entre eles uma máquina de tirar fotos Polaroid instantâneas. Abri o arquivo na minha mão e algumas Polaroids escorregaram da pasta. O primeiro arquivo na pasta era a cópia de um atestado de óbito, mas resolvi ver isso depois e recuperei a foto que tinha escorregado de volta para a caixa.

Assim que olhei a imagem minhas sobrancelhas se franziram. Eu conhecia os dois rostos na foto. Um era Kane, um com sorriso bonito e a barba bem feita, sua expressão infinitamente mais leve, e a bonita morena abraçada com ele era...

— Achou algo interessante? — A voz masculina me deu um susto e eu me virei para dar de cara com Kane me encarando parado na entrada da cabine, sua expressão era uma incógnita.

Minha mente começou a montar todas as peças daquele quebra-cabeça muito rápido, como se eu ainda fosse a mesma jornalista que lidava com aqueles assuntos todos os dias...

— Essa é Alexandra Harrington. — Apontei a moça na foto, enquanto me levantava.

Eu não a conhecia de fato, mas seu rosto era bem familiar, já que eu tinha feito uma extensa investigação sobre o padrasto dela: Robert Harrington. Ele era um figurão de Washington que eu tinha lutado muito para colocar na cadeia.

— É sim. — Kane deu dois passos para dentro da cabine.

— Ela foi assassinada pelo namorado em um barco. — Falei o que eu sabia da garota.

O assassinato da moça estava envolto em mistério, era o que eu estava investigando com mais cautela antes dos mortos se espalharem pela terra.

Eu tinha vencido uma batalha judicial contra o Senhor Harrington três meses antes do apocalipse, mas não foi o bastante para mantê-lo preso por muito tempo, por isso eu estava procurando por mais.

— Eu sei disso. — Kane assentiu e sua expressão ainda não continha qualquer traço de emoção que eu pudesse decifrar.

Encarei a foto uma vez mais e percebi como os dois pareciam próximos... o modo como se olhavam deixava claro que eram apaixonados.

— Esse barco? — Perguntei com cautela.

— Sim. — O moreno respondeu sem pestanejar.

— Você era o namorado dela? — Estendi a foto para Kane.

— Sim. — Me deu outra resposta direta e estendeu a mão para pegar a imagem.

Minha mente voltou para o teste de gravidez na caixa de evidências e me coração se partiu em várias partes.

Eu sabia o que aquilo significava e sabia o que mais teria na caixa de provas...

— Faça a outra pergunta óbvia Natalie. — A voz de Kane era fria, mas seus olhos fixos na foto eram o total oposto disso.

— Você a matou? — Questionei o que o moreno queria que eu perguntasse.

Nossos olhos se encontraram no meio da cabine e Kane assentiu devagar.

— Sim. — Sua voz tremeu um tom e ele baixou os olhos, talvez tenha tentando disfarçar a dor naquela resposta, mas não obteve sucesso.

— Eu não acredito em você. — Respondi quase que de imediato e isso pareceu surpreender Kane por um momento.

Eu não acreditava que Kane seria capaz de matar a namorada gravida, mesmo que todos os indícios apontassem para isso, mesmo que minhas investigações dissessem que o namorado não identificado tinha matado Alexandra.

Percebi que confiava em Kane mais do que imaginava e, além disso, eu já estava naquele ramo e naquele caso há tempo o bastante para saber que nem tudo era o que parecia...

— Ela morreu bem ali, com um tiro certeiro no peito. — Kane apontou a mancha no chão e a dor nos olhos dele era tão profunda, que eu tive certeza que ele estava bem ali quando aconteceu.

— Saber disso não significa que você atirou nela. — Retruquei e ele me deu um sorriso triste.

— Não ter atirado nela não me exime de nada. — Negou algumas vezes e olhou para a foto novamente. — Foi minha culpa. Meu irmão atirou nela, mas eu a matei com as minhas escolhas. Podíamos ter ido embora...

Kane parecia tão quebrado e vulnerável naquele momento que eu não soube se devia me aproximar ou não, eu nunca o vira daquele jeito, eu nunca tinha pensado nele daquele jeito...

Quer dizer, eu estava tão preocupada com a minha própria dor e tragédia que sequer tinha parado para pensar que Kane podia ter a própria desgraça pra lidar.

As coisas foram se encaixando na minha mente aos poucos, até que eu lembrei de uma suspeita inicial minha, da época em que tinha começado a investigar o caso de Alexandra....

— Harrington foi o responsável por isso, não foi? — Perguntei, e Kane ergueu os olhos para me encarar.

Percebi que ele não esperava que eu descobrisse isso tão rápido, acho até que não esperava que eu ficaria do lado dele. Assentiu devagar e cruzou a cabine em direção a caixa, encarou o conteúdo dela por algum tempo e então colocou a foto Polaroid de volta lá dentro.

— Obrigada por colocar o desgraçado na cadeia falando nisso... — Declarou depois de alguns momentos e aquilo me pegou de surpresa

— Como você...?

— Eu acompanhei o julgamento pelo jornal. — Kane esclareceu, se encostando no painel de controle. — Eu meio que já te conhecia antes de te conhecer oficialmente. Lexie costumava ler sua coluna todas as manhãs, eu peguei esse habito na cadeia, porque... bom, me fazia sentir mais próximo dela.

Notei que aquilo era o mais vulnerável que eu já tinha visto Kane, ele sempre fazia tudo parecer tão leve e fácil que era até difícil de acreditar que tinha perdido alguém tão importante.

Quis saber mais sobre os dois, sobre o barco, mas não achei justo perguntar, remexer uma ferida que parecia cicatrizada.

— Foi a Lexie que te mandou a carta anônima denunciando o idiota do padrasto dela. — Ele riu de canto e a admiração e o amor eram nítidos em seu olhar.

Kane amava Alexandra, a amava de verdade, e pela forma como ela olhava para ele na foto, o sentimento era reciproco.

E então ele a perdeu... Não foi uma separação, eles não brigaram, um não abandonou o outro, não cometeram erros idiotas, não foi o orgulho. Ela morreu. Kane provavelmente viu a mulher que amava morrer nos braços dele, enquanto estava grávida de um bebe dos dois.

Era devastador pensar nisso. Muitas coisas que Kane tinha me dito fizeram muito mais sentido...

"Não se apaixone por uma pessoa morta". Ele tinha me dado esse conselho quando eu fugi do Santuário, ele tinha me dado esse conselho porque sabia exatamente como era...

Kane olhou para a caixa por algum tempo, os olhos fixos no teste de gravidez, como se tivesse receio até de tocar o objeto.

Eu entendi perfeitamente a dor dele e descobri como ele era tão bom em entender a minha... Eram dores parecidas.

— Eu... Eu sinto muito. — Toquei a mão dele de leve.

— Eu também. — Kane assentiu e seus olhos seguiram para o mar, onde Petter ria e brincava.

Meu filho subia para o barco e então se jogava na água de novo e de novo, tinha energia ilimitada e uma risada que se espalhava por toda parte como sinos na manhã de natal.

E eu finalmente tive um vislumbre da "perspectiva"...

Kane tinha perdido as duas pessoas mais importantes da vida dele em um dia. Ele tinha perdido o futuro. Tinha perdido tudo.

Eu tinha perdido muitas coisas, algumas pessoas e uma filha. Mas eu ainda tinha muito, ainda estava cercada de pessoas que eram importantes pra mim. Eu ainda tinha uma família.

— Eu sei que você não acredita que pode ser feliz, porque eu era assim... — Kane declarou, como se estivesse se desculpando. — Quando a Lexie morreu com o nosso bebê na barriga, eu não... — Sua voz entalou na garganta e ele abaixou os olhos. — Como eu podia ser feliz depois disso? Como eu podia me permitir ser feliz? Ela estava morta. E era tudo minha culpa...

As últimas frases podiam ter sido ditas por mim. Era o que eu me perguntava todas as noites e todos os dias, era a culpa massacrante que eu carregava nos ombros.

— E quando isso mudou? Como? — Perguntei, voltando meus olhos para Kane.

Afinal se ele ainda estava de pé, mesmo depois de perder tudo, se ele ainda acreditava... Talvez eu também devesse.

— Eu disse a mim mesmo que viveria para a vingança. Então eu planejei matar o meu irmão e dar o fora no meu barco. — Ele revirou os olhos como se em retrospecto tudo fosse tolice. — Mas Kelvin era o meu calcanhar de Aquiles, eu o odiava, mas ainda havia uma parte de mim que o amava, eu não sei explicar...

Negou algumas vezes, seu modo de falar do irmão era amargo, e era compreensível. Kelvin tinha feito a pior coisa que alguém podia fazer.

— E então você o matou e, pela primeira vez em algum tempo, eu finalmente respirei aliviado e pude ver as coisas ao meu redor com clareza... — Soou tão agradecido que era até estranho. — Eu estava vivo e Alexandra estava morta, a única coisa que eu podia fazer era viver uma vida que a honrasse, eu tinha que ser feliz, porque eu devia isso a ela.

Foi um tanto impactante ouvir aquilo, não só pelo meu papel na história, mas porque aquela última parte era o oposto do que eu pensava. Soava injusto eu estar viva e Luka não, soava injusto eu ter uma vida feliz e ela não.

E só vendo os opostos lado a lado, é que eu entendi que aquilo não tinha a ver com Luka, aquilo era eu mesma tentando me punir, não era o que ela desejaria pra mim...

Talvez Kane estivesse certo, desperdiçar meus dias afundada na dor não honraria Luka. Ela tinha dado a vida porque acreditava que podíamos viver melhor, que podíamos viver em paz, que podíamos e merecíamos ser felizes. Quando eu me negava a acreditar nisso eu estava dizendo que a morte dela tinha sido em vão.

— Pela primeira vez desde que Lexie morreu eu percebi que não era desrespeitoso ser feliz. — Kane continuou e senti que éramos duas pessoas lendo o mesmo livro. — Eu vi que tudo bem se eu quisesse algo pra mim mesmo. Ou alguém...

Seu olhar caiu sobre mim, de um monto intenso e caloroso e eu não fui capaz de desviar minha atenção.

— Acho que eu tenho que te agradecer por isso também. — Ele riu de canto e voltou a sua postura costumeira e leve, antes que o clima ficasse estranho. — Vamos ver se o Carinha espantou todos os meus peixes.

Fiquei parada no lugar, Kane se afastou alguns passos e então voltou. Por um segundo eu achei que ele me beijaria, talvez eu tenha até desejado isso, mas não foi o que aconteceu...

— Aposto que o Daryl vai gostar de umas fotos do Petter e do Bolt. — Ele comentou, tirando a máquina Polaroid de dentro da caixa. — Vamos ver se ainda funciona.

Soou tão estranho ele pensar em Daryl naquele momento e ao mesmo tempo era tão honroso que ele respeitasse aquele limite.

Daryl fazia isso também quando não reclamava de Kane, era quase um alivio que os dois não tivessem transformado aquela situação em uma disputa e, ao mesmo tempo, tornava minha escolha ainda mais difícil.

Seria mais fácil se um dos dois agisse como um babaca.

Deixamos a cabine logo depois e a festa no convés recomeçou, principalmente quando vimos que a rede de peixes estava cheia.

Me sentei na borda do barco e molhei meus pés, sentindo toda a leveza daquele momento. Bolt deu um pulo pra dentro do barco e se sacudiu inteiro, me dando um banho não desejado.

— Ah, cachorro! — Resmunguei, limpando meu rosto que era uma mistura de baba e água salgada. Em resposta Bolt me deu uma lambida na cara.

Petter e Kane caíram na gargalhada. Neguei algumas vezes e ri, ri de verdade, como há muito tempo não fazia, então chorei, tudo junto e ao mesmo tempo, como se as emoções se derramassem de mim e a dor escorresse pelos meus olhos e se fosse na água do mar.

Petter voltou para o barco e se sentou ao meu lado, me abraçou forte e beijou meu rosto. Foi a primeira vez em todos aqueles meses que eu realmente acreditei que ficaríamos bem...

Olhei para trás e Kane não estava mais lá, ele tinha nos dado um tempo sozinhos.

Não sei quanto tempo eu e Petter ficamos abraçados, mas sei que depois demos um mergulho juntos e eu tirei uma foto dele com Bolt. Mesmo que por alguns poucos minutos, ou talvez por um par de horas nós nos divertimos, só eu e ele.

Como nos velhos tempos.

No final da tarde Kane reapareceu para recolher os peixes e arrumá-los para o transporte. Eu saí da água e fui atrás das roupas que Petter tinha dito que trouxera pra mim na mochila.

Já trocada e seca, encontrei com Kane na parte coberta do convés. Era estranho olhar pra ele e pensar que nossa conexão era muito maior do que eu supunha.

Me fazia imaginar como as coisas teriam sido se...

— Quer saber algo engraçado? — Perguntei, ajudando com os peixes.

— Você conhece alguma história engraçada? Isso é novo. — Kane respondeu bem-humorado.

Revirei os olhos para a piada e pensei por um momento se eu realmente contaria aquilo.

Quer dizer, assim que eu falasse se tornaria muito mais real, encheria nossa mente de "e se...?", mas de toda forma a minha já estava cheia mesmo...

— Eu acabaria te conhecendo de um jeito ou de outro. — Revelei, e Kane ergueu os olhos na minha direção.— Antes dessa bagunça, o caso Harrington era minha prioridade, e eu sabia que cedo ou tarde ele escaparia das acusações, então eu tinha que encontrar algo mais. A história de Alexandra era suspeita, por isso eu pedi que o pessoal do escritório de advocacia da minha mãe achasse tudo que podia sobre o namorado...

— Eu. — Kane completou certeiramente.

— Você. — Concordei. — Quando não encontramos nada sobre você, achei ainda mais suspeito. Não tinha nomes, fotos... Todos os dados eram confidenciais. Então eu decidi que tinha que te encontrar pessoalmente.

Era quase irônico que eu estivesse procurando pelo Kane, sem saber quem ele era, e depois tivesse encontrado com ele de uma forma tão improvável.

— Você ia me visitar na cadeia. — Ele adivinhou, mesmo antes que eu citasse algo sobre aquela parte da investigação.

Sem minha mãe e Daniel na firma, as coisas ficaram lentas, provavelmente demoraria pra descobrir o nome de Kane e a cadeia que ele estava, mas de uma forma ou de outra teríamos nos conhecido.

— Você não parece muito surpreso. — Constatei, ao ver que a informação não tivera nele o mesmo impacto que ainda tinha em mim.

— O destino ainda é o destino, com zumbis ou sem. — Kane deu de ombros. — Quando tem que acontecer, acontece, e eu e você era...

Ele parou quando percebeu o que estava prestes a dizer.

— Está ficando escuro, melhor voltarmos agora. — Terminou de guardar os peixes e mudou totalmente de assunto.

Será que ele estava certo? Nós éramos pra ser? Na minha mente eu e Daryl éramos pra ser, sempre tinha sido assim.

Saber que eu e Kane nos conheceríamos de um jeito ou de outro, colocava as coisas em uma perspectiva interessante. Uma perspectiva que deixava tudo ainda mais confuso.

— Carinha! — Ouvi Kane chamando Petter. — Vamos embora.

— Ah, não! — Meu filho resmungou.

— Seu pai vai ficar preocupado, quando chegar e você e sua mãe não estiverem lá. — Kane argumentou em um tom amigável e ouvir falar do pai foi o bastante para que Petter deixasse a água no mesmo instante e corresse para se trocar.

Ele passou por mim todo sorridente e eu soube que aquele dia tinha feito muito bem para o meu garotinho. Tinha feito muito bem para nós dois.

Olhei para Kane por alguns momentos e peguei a máquina Polaroid sobre a mesa.

— Tira uma foto comigo. — Pedi, parando ao lado dele e batendo a foto assim que nos posicionamos.

Nossa imagem apareceu no papel alguns segundos depois e eu estendi a foto para Kane.

— Obrigada por hoje. — Beijei-lhe o rosto carinhosamente. — Eu realmente precisava disso.

— Disponha. — Kane respondeu com um sorriso e guardou a foto no bolso.

Deixamos o barco pouco tempo depois, mais leves, abandonando a dor na água salgada e trazendo em troca uns bons quilos de peixe.

Petter tagarelou pelos primeiros trinta minutos direto e então desligou como se fosse um robozinho, assim como fazia sempre. Sorri para o meu menininho e suspirei aliviada, talvez a vida ainda tivesse boas coisas pra mim...

Mas enquanto voltávamos, passando pelas estradas abandonadas e vendo os mortos andando em bando, eu lembrei que a realidade não era tão azul quanto a vista naquele barco. O clima no mundo ainda era pesado e nada tinha mudado.

Olhei para Kane por alguns segundos e suspirei, eu vinha evitando aquele assunto por muito tempo, mas senti que se não falasse com alguém eu acabaria explodindo.

— Posso te fazer uma pergunta? — Comecei, um tanto incerta se era mesmo uma boa ideia tocar naquele problema.

— Quantas você quiser. — Kane respondeu, sem tirar os olhos da estrada.

— Você nunca disse o que acha do Negan ter ficado vivo... — Tentei não deixar que a tensão transparecesse em minhas palavras.

— Isso não é exatamente uma pergunta. — Kane devolveu neutro.

— Isso não incomoda você? — Estralei os dedos freneticamente.

— Um pouco... — O moreno assentiu calmamente. — Porque quem escolheu isso foi o Rick, sozinho. E ele não tinha esse direito.

— Ele é o líder, escolheu diplomacia para fazer a paz. — Argumentei, tentando ser imparcial, ou pelo menos seguir para o lado mais "certo". — Se estivéssemos vivendo como antes, seria assim.

— Não estávamos vivendo como antes. — Kane foi firme e até um pouco frio. — É diferente agora, não importa se ele era o líder. Desde que isso começou os planos dele não foram muito eficientes. Você e suas amigas venceram essa guerra, pelo que eu fiquei sabendo.

Fiquei um pouco surpresa, na pratica ninguém falava sobre aquilo, Rick tinha derrubado Negan, o caminho para chegar até ali não era discutido.

— Todo mundo ajudou um pouco, até você. — Comentei, dando de ombros.

— Meu plano falhou, assim como todos os outros. — Ele pousou os olhos em mim por um momento. — Seu plano venceu essa guerra. Eu sempre soube que você era uma boa jogadora.

— Se eu fosse mesmo uma boa jogadora isso teria acabado há muito tempo... — Deixei meus ombros caírem. — Negan é o bom jogador aqui.

E isso era exatamente o que me dava medo.

— Ganhar quando se tem todas as cartas é fácil, é sorte, mas ganhar quando você não tem carta nenhuma... é isso que um bom jogador faz. — Kane declarou muito convicto de cada palavra.

Queria que fosse assim mesmo... Mas na prática era muito diferente.

— Rick deteve o Negan no final... — Repeti algo que eu vinha dizendo para mim constantemente. — Era escolha dele.

— É o que você diz pra si mesma pra aceitar isso? — Kane foi direto como sempre era.

Respirei fundo. Eu vinha escondendo tudo que pensava sobre o assunto desde que a guerra tinha acabado, mas era como um câncer crescendo dentro de mim.

— Eu digo para mim mesma que era exatamente isso que a Natalie de antes desejaria; um homem atrás das gradas pagando por todos os seus crimes. — Confidenciei, com os olhos perdidos na estrada.

— Mas você não é mais a Natalie de antes. — Kane afirmou certeiramente.

Ele me conhecia e isso tinha deixado de me surpreender.

— Não sou... — Concordei, passando a mão pelo rosto. — E agora eu só... Não consigo dormir, passo as noites acordadas esperando algo terrível acontecer; quanto tempo até que o Negan fuja? Quanto tempo até que os Salvadores se rebelem? Quanto tempo até que tudo desmorone? Quanto tempo até que eu perca mais alguém? E se o próximo for o Petter?

Coloquei todas as minhas dúvidas para fora, receios que eu tinha guardado pra mim mesmo todo aquele tempo.

— E mesmo que tudo dê certo nesse sentido... Quanto tempo até a Maggie colocar o plano dela em prática e termos uma guerra civil em mãos? — Senti meu corpo tremer quando visualizei todas as possibilidades aterrorizantes.

— Uma guerra civil que colocaria Daryl bem no meio do fogo cruzado. — Novamente Kane acertou meus receios em cheio.

— Guerras matam pessoas, eu vi isso de perto. — Lamentei, negando algumas vezes e sentindo um gosto amargo em minha boca.

— E agora é você no fogo cruzado, porque você não pode dizer nada sem ser a faísca que vai começar o incêndio. — O moreno completou, dando toda a dimensão da situação complicada em que eu me encontrava.

— Exatamente. — Concordei uma vez mais. — Daryl já quer fazer algo estúpido sem eu dizer nada, se eu disser...

— Você está preocupada com ele. — Kane constatou e notei uma leve mudança em sua voz, mas não decifrei sua expressão.

Percebi que aquela conversa era um tanto injusta. Eu estava sendo insensível com os sentimentos de Kane.

— Desculpa, eu não devia estar de falando isso. — Declarei, desviando meu olhar para a estrada novamente.

— Você pode me falar qualquer coisa, Natalie. — Ele segurou minha mão por um momento e foi firme. — Não peça desculpas por se preocupar com as pessoas que você ama.

Nossos olhos se encontraram por alguns segundos e então Kane voltou a prestar atenção na estrada. Ao longe o portão de Hilltop já podia ser visto.

— Chegamos. — Ele declarou, diminuindo a velocidade.

Vi a pessoa de guarda nos murros acenar para alguém dentro da comunidade, ao mesmo tempo que os portões se abriam devagar.

— Posso te dar um conselho? — Kane perguntou, enquanto esperávamos e eu assenti. — Viva um dia de cada vez, as coisas estão calmas agora, e tudo tende a se resolver quando a poeira abaixa. Existe uma grande diferença entre viver "pré-ocupada" e se ocupar de um problema. Você pode viver um dia de cada vez e se permitir ser feliz, e mesmo assim estar pronta para quando e se a guerra chegar até você outra vez.

Kane acelerou o carro para dentro dos limites de Hilltop.

— Por hora está tudo bem. Tenta relaxar um pouco. — Ele disse com calma e segurou minha mão uma vez mais, antes de descer do carro.

Tentei tomar aquelas palavras como verdadeiras e suspirei, virando pra acordar Petter. Vi Daryl se aproximando em passos apressados, com seus olhos de tempestade focados no carro.

— Onde vocês estavam? Aconteceu alguma coisa? — Ele perguntou exasperado e seu tom era um misto de preocupação e talvez raiva.

— Chegamos, Pequeno Gafanhoto. — Toquei meu filho sutilmente, até que começasse a despertar.

— Fomos dar um passeio. — Ouvi Kane dizer em um tom calmo.

— Um passeio no meio dos mortos? — Daryl soou irritado.

Petter abriu um sorriso imenso assim que ouviu a voz do pai e deu um pulo do carro.

— Pai! — Ele correu para abraçar Daryl, que o recebeu como se tivéssemos sumido por dias.

Desci do carro também e senti os olhos azuis cravados em mim.

— Kane tem um barco! — Petter comentou cheio de entusiasmo e senti a confusão no semblante de Daryl.

— Vou levar os peixes para dentro. — Kane declarou, abrindo o porta-malas e pegando a caixa com o que seria uma ótima novidade para a comunidade.

— Obrigado, Kane, foi divertido. — Petter fez questão de agradecer.

— De nada, Carinha. — O moreno usou o mesmo tom amigável de toda a viagem.

Então parou perto de Daryl.

— Eu nunca levaria sua família para um lugar perigoso. Eu não sou burro. — Declarou em um tom baixo e apaziguador.

Era bem óbvio que ele entendia os limites ali e respeitava a posição de Daryl como pai.

— Qualquer lugar é perigoso hoje em dia... — A resposta veio rude, mas um rude bem normal para Daryl, quase como se a irritação tivesse se esvaído dele quando viu Petter tão feliz.

— Exatamente, é tudo perigoso, o clima é sempre tenso e pesado, pessoas precisam respirar. — Kane respondeu em um tom que foi um pouco enfático demais, quase como se quisesse que Daryl percebesse algo.

E pela expressão no rosto do caçador, ele entendeu sim. Era muito interessante ver os dois interagindo tão "bem"...

— Você devia ir com a gente da próxima vez. — Kane teve a audácia de dar um tapinha amigável no ombro de Daryl e eu segurei a risada ao ver a reação do Dixon. — Quero ver se é tão bom pescando quanto é caçando.

Daryl obviamente não respondeu, mas só por ele não ter afastado Kane com umas bofetadas era um progresso.

— Boa noite, Natalie. — Kane passou por mim e eu assenti com um sorriso, então o vi sumir para dentro da casa central.

Depois disso Daryl não disse uma só palavra, eu pedi que Petter subisse e fosse tirar o sal do corpo, ele obviamente queria ficar e contar suas aventuras para o pai, mas achei que era melhor acalmar os ânimos primeiro.

Levei as coisas para dentro e me certifiquei que Petter fosse mesmo para o banho.

Quando voltei para o lado de fora, procurando por Daryl, ele estava sentado na varanda com Bolt, a noite já tinha caído e Hilltop se encontrava calma com apenas algumas pessoas de vigia no muro.

Me sentei ao lado de Daryl, mas ele continuou calado, quase como se estivesse perdido nos próprios pensamentos. Ele roía a lateral do polegar direito, por isso eu sabia que algo o estava preocupando ou incomodando.

— Então, como foi com o Dwight? — Puxei um assunto qualquer, em um tom casual.

— Como tinha que ser... — Daryl moveu um dos ombros.

Esperei mais algum tempo e ele continuou calado.

— Olha, eu entendo. — Suspirei, sabendo que daquela vez eu tinha sido relapsa, aquilo de criar Petter com a participação do pai ainda era estranho pra mim. — Você está bravo porque eu tirei o Petter daqui e não...

— Eu não estou bravo. — Daryl se apressou em responder e foi a primeira vez que olhou pra mim em todo aquele tempo. Percebi que seus olhos azuis estavam vermelhos. — Você é a mãe dele, protegeu ele por dez anos, pode levar o Petter pra qualquer lugar... Eu só fiquei preocupado com vocês, só isso.

Assenti algumas vezes, eu entendia, se fosse ao contrário teria ficado louca.

— Eu devia ter deixado um recado avisando. Desculpa. — Admiti meu erro.

— Tudo bem. — Daryl negou algumas vezes como se não fosse nada demais. — A gente vai acertando isso com o tempo.

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Aquilo era a forma dele dizer que continuaríamos tentando, até encontrarmos a melhor forma de criarmos Petter juntos. Era um grande avanço vindo de Daryl. Me deixava orgulhosa do homem que ele era.

Me fazia amá-lo um pouquinho mais...

Coloquei a mão no bolso e estendi a polaroid de Petter e Bolt para Daryl. Ele pegou a foto da minha mão e encarou a imagem por um tempo, pensativo, quase como se estivesse prestes a tomar uma decisão que podia mudar o mundo.

— Petter parece feliz. — Continuou com os olhos na imagem.

— Ele estava. Estava radiante. — Sorri de canto ao lembrar daquela tarde. — Ás vezes eu esqueço que ele é só uma criança e que a vida precisa ser mais que segurança e obrigação... Ele precisava dessa pausa.

— Me parece que vocês dois precisavam. — Daryl afirmou neutro, me estendendo a foto.

— É sua. — Apontei e ele assentiu.

Segurou a imagem na mão mais algum tempo e então suspirou.

— Ele realmente gosta de você... — Daryl declarou depois de um longo momento de silêncio, mas não foi capaz de me encarar. — Kane. Ele se importa com você de jeitos... diferentes, mais que o básico.

Franzi as sobrancelhas, sem entender muito bem o porquê daquela declaração estranha.

Daryl virou o rosto na minha direção e pareceu tão melancólico naquele momento, que eu não soube como reagir.

— Você merece felicidade na sua vida. Você merece ser feliz mais do que qualquer pessoa que eu conheço... — Disse as palavras com honestidade palpável e então desviou os olhos. — Você devia ficar com o Kane. Ele te faria feliz.

Levei alguns segundos pra digerir aquelas palavras e minhas mãos tremeram.

— Está dizendo que você não me faria feliz? — Quando vi já estava de pé, encarando Daryl de cima.

— Eu faria? — Ele perguntou olhando nos meus olhos. — Em todos esses anos eu já te fiz feliz?

A pergunta me pegou de surpresa, eu dei dois passos pra trás. Sim, eu tinha sofrido muito por causa de Daryl, mas mesmo tudo isso não tinha destruído o amor que eu sentia por ele, então isso significava que tínhamos sido felizes.... Certo?

— A gente foi feliz, Daryl. — Respondi, mas talvez meu tom tenha soado incerto.

— Algumas semanas, com sorte meses de felicidade... compensaram todo o sofrimento que eu causei depois? — Daryl suspirou e desviou os olhos.

Ele parecia tão conformado com o que estava dizendo que isso me irritava, ou talvez o fato das perguntas fazerem tanto sentido era o que me irritasse de verdade.

— E pra você, compensou? — Joguei de volta com aspereza.

— Isso não é sobre mim. — Ele negou algumas vezes.

Eu sequer sabia porque estava tão nervosa... Talvez eu estivesse com medo de tudo estar desmoronando ao meu redor.

— É sim, isso é sobre você e eu, nós dois. — Acusei, começando a andar de um lado para o outro, coisa que era costume do Daryl, não meu. Por que ele estava tão calmo? — Você está desistindo de mim por que quer que eu seja feliz? Ou está desistindo por que percebeu que não vale a pena ser feliz comigo?

As perguntas saíram duras, eu sequer sabia se estava falando coisa com coisa. Eu só não queria que tudo desmoronasse naquele momento...

Eu mal vi Daryl se levantar como um furacão, no instante seguinte ele estava na minha frente, com as duas mãos no meu rosto, me obrigando a olhar pra ele.

— Eu desistiria de tudo, está me entendendo? De tudo, pra ser feliz com você por mais um dia apenas. — Ele foi enfático em cada palavra, parecia importante que eu entendesse aquilo. Seus olhos eram uma tempestade, turvos de lágrimas não derramadas. — Mas isso não te faria feliz. Isso não faria o Petter feliz. Eu não estou desistindo de você, eu te amo e eu nunca vou deixar de te amar, mas estou dizendo que você tem uma escolha... Uma que é obviamente melhor.

Meu corpo tremeu, meus olhos marejaram e tudo ao redor perdeu o foco por um segundo. A oferta de mais um dia pareceu tão tentadora, era tudo que eu queria também.

Mas Daryl estava certo... Isso não me faria feliz, a longo prazo só traria mais sofrimento, precipitação não era a resposta. Tanto de um lado quanto do outro.

— Não é assim tão óbvio, Daryl. — Respondi tentando controlar minhas emoções. — Se fosse óbvio eu já teria feito essa escolha. Minha escolha, como você bem colocou.

Ele soltou meu rosto e deu dois passos para trás, quase como se não conseguisse entender.

— Você e o Kane são diferentes, mas os dois são bons. E eu vou escolher, eventualmente, quando eu estiver pronta... — Tentei explicar, mas isso pareceu confundi-lo mais.

Eu compreendia a visão dele, devia ser difícil aceitar aquilo. Daryl tinha uma visão um tanto dicotômica das coisas. Se ele era bom e eu o amava, por que eu não estava com ele? Essa pergunta devia ser o bastante para que ele dissesse a si mesmo que, então, eu achava Kane melhor e, portanto, devia escolher o Kane.

Era aquela velha coisa "não se pode amar duas pessoas ao mesmo tempo"...

Suspirei. Pousando meus olhos nele por algum tempo e decidindo que Daryl merecia minha honestidade.

— Eu sei que soa egoísta, e eu sinto muito... Eu amo você, Daryl amo mesmo. Mas eu também amo o Kane. — Tentei explicar da melhor forma. — Sei que parece apenas uma desculpinha, e talvez eu sequer consiga explicar. Eu amo vocês de formas diferentes, porque vocês me causam coisas diferentes. É confuso, egoísta e infantil, eu sei, mas eu...

Não consegui terminar, quando mais eu falava menos fazia sentido. Deixei meus ombros caírem e encarei a noite.

— Fazer uma escolha não significa felicidade, significa perder alguém que eu amo. — Contei meu verdadeiro medo, sentindo todo meu corpo tremer e uma lágrima rolar pelo meu rosto. — E eu não quero perder mais ninguém... Eu só preciso dos dois na minha vida agora, sinto muito. Eu sinto que Petter e vocês é tudo que eu tenho de concreto agora, porque a todo instante eu sinto que todo o resto está prestes a desmoronar.

Daryl deu dois passos para mais perto de mim e assentiu devagar, como se finalmente tivesse entendido.

— Só não desiste de mim ainda, 'tá bom? — Pedi tentando controlar as lágrimas. — Ainda não... Espera só mais um pouco. Por favor.

Eu sabia que era pedir demais, sabia que não era justo querer que Daryl e Kane estagnassem suas vidas esperando por mim.

Eu estava sendo egoísta, pensando apenas em mim... talvez lá no fundo eu já soubesse quem era o escolhido... E quando eu escolhesse um, eu perderia o outro.

Daryl deu mais um passo na minha direção e estendeu a mão para limpar minhas lágrimas, então puxou meu corpo pra perto e me abraçou apertado.

— Eu te esperaria por toda a minha vida, Natalie. — Ele beijou a minha testa. — Eu prometo.

Ergui meus olhos para encará-lo. Ele sabia o que promessas significavam pra mim. Ele sabia que era sério e, quando olhei em seus olhos azuis, eu soube que Daryl não estava falando por falar... Era uma promessa verdadeira.

Aquilo me fez suspirar de alivio, me fez ser envolvida por uma sensação de segurança.

Daryl me encarou uma última vez e apenas se afastou alguns passos, seguindo para outra direção sem dizer mais nada.

Então fiquei ali fora sozinha, analisando aquela confusão que era minha vida...

Pessoas dizem que quando se ama duas pessoas ao mesmo tempo, deve se escolher a segunda, afinal, se amassemos mesmo a primeira, nunca haveria outra. Isso é besteira. A vida não é assim tão simples... Ela é cheia de encontros e desencontros, de curvas e bifurcações.

É tudo sobre nossas escolhas no fim e, ás vezes, escolhas criam situações definitivas...

Cada palavra é uma escolha, e eu não sabia ainda, mas a minha escolha tinha ficado clara naquele dia. Mesmo sem perceber eu dei preferência a um dos dois e isso levou todos nós a uma situação definitiva.

Isso nos levou ao checkmate.

Notas finais
Meu coração tá mais confuso que o da Natalie kkkkkkk vocês sabem que eu sou trouxa e queria mesmo é que os 3 ficassem juntos, mas neh... Enfim. Esse capitulo teve uma porção de coisas importantes/interessantes... Natalie finalmente descobrindo toda a história do Kane e vendo o quanto eles são parecidos. A gente descobrindo que Nane tava mais ligado do que a gente imaginava. Um momento de calmaria pra nossa neném, finalmente, porque ela precisava neh... E a claro, DixChechas envolvido em outra promessa (aí deus, esses dois...) Agora, Natalie disse ali no fim que fez uma escolha durante o capitulo sem perceber e eu posso dizer é isso que motiva todos os eventos do proximo capitulo que se chama "Checkmate" Ele foi o primeiro capitulo chave que eu planejei pra essa fic (mesmo antes da morte da Luka), então tô muito ansiosa! Não sei se vai agradar todo mundo, mas posso dizer que é o meu preferido da fic. A sinopse dele é: "A jogada final de um dos personagens muda o tabuleiro para sempre." Então é isso, se preparem para treta porque dia 09 é hora do Checkmate (e mandem as teorias, se tiverem kkkkk) Bjss e até lá!