Notas iniciais
Oieee pessoas lindas e maravilhosas!!! Cheguei com um capitulo mega especial! É um capitulo duplo em homenagem ao meu próprio aniversário que foi hoje (ontem, se contarmos que são 1:50 agora), eu faço aniversário, mas quem ganha um capitulo duplo ultra mega power tenso são vocês [ou talvez esse seja apenas minha desculpa esfarrapada pra postar 11mil palavras de uma vez, vai saber... uahausha] Não sério, é um capitulo duplo, então leiam sem pressa, dividam como acharem melhor, porque eu talvez demore um pouco pra postar o próximo. Antes de partir para toda a treta que nos espera quero fazer um agradecimento duplo e super especial para a Liyith por recomendar as duas temporadas de Lifeline. MELHOR PRESENTE DE ANIVERSÁRIO!!! Obrigada sua maravilhosa, espero fazer jus a toda sua confiança. Claro que eu não vou esquecer das minhas comentaristas lindas que sempre estão comigo: Mary Noleto, Menta, Mahilia e NandaNascimento. Obrigada suas divas por cada palavrinha de apoio e incentivo. Preparem seus emocionais e boa leitura. PS: Terminei e revisei tudo isso agorinha, então a probabilidade de eu ter deixado passar alguns erros é grande, se virem algum avisem sem medo que eu corrijo.

• NATALIE COOPER •

Limite: aquele ponto extremo que não pode ser ultrapassado. Quando mais nova eu não entendia muito sobre esse assunto, eu não sabia por que as pessoas criavam barreiras ao redor delas, desconhecia meus próprios limites e sempre achei esse conceito algo ruim. Quer dizer, algo que te limita e te afasta de pessoas ou objetivos tem que ser ruim, não é?

Conforme fui amadurecendo tive um novo ponto de vista sobre tudo isso, aprendi que limites deviam ser respeitados, mas, ao mesmo tempo, entendi que eles podiam ser forçados aos poucos para serem ultrapassados.

Limites são elásticos; acho que essa é a explicação mais simples, se puxá-los, aos poucos, eles tentem a lacear. Um trauma tratado dia a dia tente a se curar aos poucos, um corpo sedentário exercitado de forma moderada pode adquirir resistência física. Não importa qual o tipo de limite, com tempo e paciência ele tende a ceder, ele se adapta aos poucos e sequer ficarão sequelas.

Mas sabe o que acontece com um elástico quando ele é puxado abruptamente? Sabe o que acontece com o corpo de um sedentário quando forçado a exercícios extenuantes sem pausa? O elástico se rompe. O corpo entra em colapso. Algo parecido pode ser dito sobre a mente, quando somos pressionados a ultrapassar nossos limites de formas bruscas nunca é bom, as consequências podem ser devastadoras...

Observei os primeiros vestígios de claridade entrarem pela janela dos meus aposentos, a luz trêmula e fraca escorria para o chão de madeira em uma risca clara. Acompanhei seu movimento lento e preguiçoso pelo piso, percebi que o raio ficava mais largo e brilhante conforme se aproximava do meu pé, aquecendo aquele cômodo frio aos poucos.

Eu estava sentada na cama, os lençóis perfeitamente arrumados, mostrando que eu sequer me deitei aquela noite. Estava exausta, física e mentalmente. Aquele era apenas mais um dos meus limites que eu estava forçando ao máximo.

Dia após dia eu dizia a mim mesma que aquele tormento estava perto de acabar, mas honestamente conforme o tempo se passava minha convicção sobre isso era menor. Eu estava fraquejando.

A chegada de Daryl ao Santuário contribuiu muito para que eu chegasse nesse ponto, ele me tirava do meu centro, eu perdia o controle quando ele estava por perto. A prova mais recente da minha impulsividade tinha sido pedir ajuda ao Tony com a limpeza da cela e a comida.

Claro que o próprio Pontista tinha o rabo preso o bastante para não dizer nada, mas eu sabia que era um erro, me importar daquele jeito, com qualquer pessoa ali dentro, mesmo que essa pessoa fosse Daryl Dixon, era justamente o que eu tinha prometido não fazer.

Me coloquei de pé e resolvi tirar tudo aquilo da mente, eu não podia deixar Daryl tomar conta dos meus pensamentos, não podia permitir que os olhos dele me tirassem o foco. Mesmo que sua expressão ao me ver não saísse da minha cabeça...

Eu não podia dar atenção a tudo que ele despertava em mim. Passei a mão pelo rosto e suspirei profundamente, era o dia da minha primeira missão externa e eu precisava estar preparada para tudo.

Meu objetivo, desde que tinha formado meu plano de fuga, era ganhar confiança o bastante para ter uma vantagem que eu pudesse usar em uma hora apropriada e, uma missão fora dos limites do Santuário, era o primeiro indício de que as coisas estavam indo bem para mim.

No entanto, eu não conseguia me sentir satisfeita ou orgulhosa, na verdade, saber que minha primeira tarefa oficial como Salvadora era uma visita a comunidade de Daryl, apenas servia para me deixar tensa. Dentre todos os pensamentos confusos que habitavam minha mente um se destacava: se Daryl Dixon estava em Washington então Merle também estava?

A tentativa de discrição do Dixon mais novo ao dar de cara comigo tinha sido um alívio, mas será que o irmão mais velho faria o mesmo? E, caso não fizesse, como eu agiria depois?

Mesmo com esse ponto importante em xeque, eu não abriria mão daquela missão. Para mim, qualquer coisa parecia melhor do que ficar de guarda no harém de Negan. Pelo menos foi isso que eu pensei...

Depois de falhar em colocar qualquer coisa dentro do estômago no café da manhã, recebi ordens de Arat, uma das tenentes de Negan, sobre os primeiros preparativos da viagem.

— Olha só quem veio colocar a mão na massa, pensei que a Protegidinha do chefe continuaria nos trabalhinhos café com leite. — Laura, uma Salvadora de cabelos loiros e tatuagem no pescoço, debochou, enquanto também seguia ordens de Arat.

Não era segredo que praticamente todo mundo ali me odiava e achava que Negan me favorecia de algum modo, embora isso meio que dificultasse minha convivência no Santuário, não me incomodava realmente.

— Bom dia, meus queridos Salvadores... — Negan apareceu com toda a sua pompa e tratou de emendar, assim que viu a mim e as outras mulheres ali. — e Salvadoras.

Sorriu daquele jeito típico, enquanto fazíamos nossas reverências, podia parecer amigável, mas havia sempre uma ameaça velada em cada gesto do déspota.

E, para o meu completo azar, ele focou os olhos em mim.

— Olha só quem veio competir com o Sol essa manhã! É sempre um prazer apreciar sua beleza, Coração. — Fez um gesto para que os outros voltassem ao trabalho e já estava perto o bastante para cingir minha cintura e obrigar-me andar ao lado dele.

Me afastou dos caminhões e veículos, e fez questão de caminhar comigo alguns metros, mantendo a mão firme no meu quadril, me forçando a ficar praticamente colada nele.

— Então, pronta para a sua primeira missão hoje? — Perguntou cortês, quase como se fosse uma pergunta de rotina.

Mas com Negan sempre tinha algo mais e, como de costume, a conversa foi me deixando ainda mais tensa.

— Claro. — Respondi de imediato, me preparando mentalmente para o que viria.

— Não sei... — Parou, mantendo a mão no meu corpo enquanto se colocava na minha frente. — Acho que seria melhor você ficar, sabe? É perigoso lá fora.

Tremi de pura raiva, Negan era a imagem perfeita da hipocrisia, falando cada palavra como se realmente se importasse com meu bem-estar e segurança.

Eu já estava pensando em uma resposta inteligente o bastante, quando ele deu um passo para trás e voltou a falar, como se aquilo fosse simplesmente uma transação comercial.

— Infelizmente eu não posso te favorecer. Se você é uma Salvadora, é assim que eu tenho que te tratar. — O líder dos Salvadores colocou a mão direita no peito, curvando um pouco o corpo para trás em um gesto teatral, para, no instante seguinte, voltar a sua postura invasiva, praticamente sussurrando no meu ouvido. — Se você fosse uma das minhas esposas isso seria muito diferente...

Uma onda de asco percorreu meu corpo e eu lutei comigo mesma para não reagir. Felizmente, Negan voltou a se afastar, agindo como se fosse um perfeito cavalheiro.

— Mas você disse não, então eu aceito isso. — Sorriu, para então repetir a conduta invasiva e os sussurros, daquela vez, de forma ameaçadora. — Só espero que não se arrependa...

Nossos olhos se encontraram naquele segundo, Negan ostentava um sorriso quase assassino e eu soube que ele tinha algo cruel em mente para mim.

Mas não me importei. Em minha estúpida inocência, cheguei mesmo a acreditar que nada mais que aquele homem fizesse conseguiria me chocar ou atingir.

— Olha só quem mais chegou pra nossa festinha! Justo quem eu queria ver! — Negan se afastou de mim tão rápido e entusiasmado que me assustei.

Me virei na direção em que ele olhava, e vi que Daryl, ao lado de Dwight, tinha os olhos cravados em mim. Eu não sabia bem quanto da cena ele tinha visto, mas percebi que era o bastante para que me encarasse com raiva.

Não que as encaradas raivosas de Daryl Dixon fossem uma novidade, porém aquela tinha algo mais, era como se eu fosse uma traidora. Tive que desviar os olhos dele, antes que eu mesma acabasse me denunciando.

Kane estava logo atrás dos dois e eu sabia que aquele Salvador cretino estava muito atento a cada movimento meu. Desconfiava que ele soubesse de alguma coisa e isso era apenas mais um dos meus problemas.

— Algo que eu possa fazer pelo senhor, Chefe? — Bennet deu um passo à frente, solicito e com a postura ereta.

Negan o olhou de cima à baixo com um tipo palpável de desdém no olhar.

— Não leve a mal Kane, mas eu não curto essa coisa de Romeu e Romeu, isso de ter a boca de outro cara nas minhas bolas não é pra mim. Prefiro os lábios fartos de uma dama. — Debochou, lançando um olhar nada sutil na minha direção.

Na maior parte das vezes Negan agia como um cretino, mas ele tinha um prazer ainda maior em fazer bullying com Kane. O estranho era que, aquela postura puxa-saco de Kane Bennet era justamente o que instigava o comportamento desdenhoso do líder do Santuário.

E o mais estranho: pelo tanto que eu conhecia Kane, já sabia que ele não era daquele jeito, então simplesmente não dava pra entender qual era o jogo dele.

Naquele instante ele ria como um idiota, como se a piada de Negan tivesse sido de fato engraçada e não de profundo mau-gosto.

— Me pegou, senhor! — Apontou para o outro, acenando positivamente algumas vezes.

A única coisa que Negan fez foi observá-lo com ainda mais desdém e ignorar.

— Quero vocês quatro trabalhando juntos hoje. — Ordenou, assumindo a postura mais séria. — Dwight vai precisar de ajuda em algumas coisas e não quero que o nosso novo amigo, Daryl aqui, se sinta solitário no meio de toda a nostalgia que o passeio de hoje vai causar.

Embora Negan estivesse falando de Daryl foi pra mim que ele olhou, quando mencionou nostalgia e, eu soube, que era apenas mais um de seus joguinhos.

Ele provavelmente me testaria durante aquele dia, me obrigando a reviver todas as lembranças possíveis de Sherwood, e para forçar um pouco mais colocaria justo um prisioneiro do meu lado. Eu odiava aquele homem.

— Então vocês quatro serão "melhores amigos pra sempre" no dia de hoje. Sejam hospitaleiros e não se preocupem, sei que vão se acostumar com o fedor. — Apontou para Daryl e depois abanou o nariz, em mais uma de suas piadas de extremo mau-gosto, que só serviam pra humilhar.

Ele sumiu, dando ordens por entre os vários caminhões e nos deixou olhando de um para outro. Dwight não pareceu se importar, como se já soubesse das ordens antes mesmo de recebê-las, tomou a dianteira, empurrando Daryl em direção a um dos veículos.

Kane dei de ombros e foi na mesma direção, comigo fazendo o mesmo, já que não havia outra escolha.

Iriamos na traseira de um furgão, adaptado com assentos que comportavam até seis pessoas, três de cada lado. Laura e um outro Salvador, chamado Davey, já estavam lá dentro.

Dwight obrigou Daryl a subir primeiro, fazendo-o se sentar ao lado de Laura, que lhe lançou um olhar de profundo desgosto.

— Damas primeiro. — Kane apontou, estendendo a mão para me ajudar a subir.

Ignorei totalmente o gesto e assumi meu lugar ao lado de Davey, bem na frente de Daryl.

Os últimos dois Salvadores assumiram seus lugares e, em minutos, nosso comboio ganhava a estrada.

Percebi que Daryl tentava não me encarar, da mesma forma que eu tentava desviar meus olhos dele, focando minha atenção no exterior, como se algo muito interessante estivesse acontecendo lá fora.

Era só a minha liberdade passando diante dos meus olhos...

— Estou surpresa que algumas pessoas aqui não apelaram para o favoritismo pra ficar de boa no Santuário hoje. — Laura comentou alto, me lançando uma indireta bem direta.

Eu apenas ignorei a provocação e continuei com o meu rosto virado para o outro lado.

— Se eu fosse você tomaria cuidado, Laura, em breve a Preferidinha pode se tornar a primeira Dama do Santuário. Você, com certeza, não vai querer aborrecer a futura realeza. — Kane retrucou, usando o apelido que Arat sempre usava pra se referir a mim.

Senti os olhos de Daryl me queimarem e fiz ainda mais força pra me concentrar na paisagem morta, que passava rapidamente do lado de fora.

— Você ainda acredita que o Negan vai mesmo colocar a bonitinha aí no harém? Não vejo porquê, ele já comeu mesmo... — Davey riu, usando o tipo de piadinha machista que Negan usava.

Daryl se remexeu desconfortável e bateu seu pé no meu com muito mais força que o necessário. O encarei por um milésimo de segundo e a raiva tinha se tornado ódio.

— Falando nisso, como ele era antes? Sempre tive curiosidade pra saber de onde veio o bastão... Negan carregava aquela coisa antes do fim do mundo também? — Kane perguntou, me cutucando com a ponta da bota, um tanto provocativo.

Percebi que Daryl tinha unido todas as peças mais rápido do que eu desejava. Não queria que ele soubesse do meu envolvimento anterior com Negan daquela forma.

Não que fosse da conta dele, é claro. Não éramos um casal e, com quem eu dormia ou não, jamais deveria ser pauta. Mas as coisas mudavam um pouquinho quando esse cara, com quem eu tinha dormido, era um assassino psicótico, que tinha matado os amigos de Daryl e feito dele prisioneiro, com direito a muita tortura e humilhação.

Mas de certa forma, naquele momento, o ódio de Daryl Dixon era melhor, eu precisava que ele odiasse, isso nos distanciava.

— Ela não sabe, deve ter sido um casinho de uma noite só. — Laura continuou a conversa, em um tom ainda mais amargo de deboche.

— Se foi mesmo um casinho de uma noite só, então alguém aqui fez jus as pernas que tem, porque, amigos... Vocês já viram Negan tão interessado em alguém? — Kane continuou dando corda, falando de mim como se eu não estivesse bem ali. Tudo que eu conseguia sentir era tédio.

Talvez outra pessoa se afetasse com o bullying, o deboche e a humilhação, mas eu já tinha passado por tanta coisa, que aquela conversinha ridícula parecia apenas picuinha de colegial.

— O tempo todo. Ele está sempre interessado demais em alguém. — Dwight deu de ombros, se pronunciando pela primeira vez. — Logo ele se cansa e encontra outro brinquedo.

Ele disse a última frase olhando nos meus olhos, usando um tom que devia ser uma ameaça, mas só me fez revirar os olhos.

Ou ele pode voltar para os brinquedos antigos. O pensamento sobre Sherry tomou forma na minha mente e eu me assustei com meu próprio veneno, preferindo ficar calada a ser aquele tipo de pessoa. Eu não desejava nada daquilo para aquela garota, mas desejava ferir Dwight de alguma forma, percebi que aquela raiva era quase infantil, mas não soube dizer exatamente de onde ela vinha, não naquele momento.

— Minha nossa! A vida de vocês deve ser muito tediosa pra serem tão interessados na minha. — Retruquei, revirando os olhos, deixando meu tédio evidente em cada sílaba. — Mas sigam em frente, a conversinha de vocês, pelo menos, está fazendo o tempo passar mais rápido.

Davey usou meu comentário para puxar um assunto paralelo e eu acabei saindo do foco deles. Contudo Daryl continuava com os olhos presos em mim, me julgando como se todos os crimes de Negan fossem meus e, talvez, tenha sido naquele instante que eu passei a sentir como se fossem realmente.

Quando finalmente chegamos ao nosso destino, eu praticamente passei por cima do Kane para sair do furgão, era como se Daryl tivesse sugado todo o ar do lugar.

Todos os veículos já estavam parados na frente da comunidade e pelo visto Negan já tinha começado a atormentar as pessoas.

A primeira coisa que me chamou atenção foi um aviso que podia ser lido nos muros de metal:

Zona segura de Alexandria.
Misericórdia para os perdidos.
Vingança contra os saqueadores.

Vi alguns dos Salvadores apontarem e rirem, enquanto Kane se colocava ao meu lado e encarava a mesma placa, sério o suficiente para que eu estranhasse sua postura.

Pra alguém que estava sempre debochando e fazendo piada de tudo, aquela expressão fechada era um tanto preocupante. Observei o olhar de Kane seguir da placa para o homem com quem Negan estava conversando, se é que dava pra chamar aquele compilado de sarcasmo de conversa.

Presumi que o homem de olhos azuis cristalinos e perturbados fosse o líder do lugar, Rick. Ele parecia usar todo seu autocontrole pra não encarar Negan com ódio. Foi mais ou menos nesse momento, que sua atenção foi direcionada a nós. Percebi que ele tremeu, tudo mudou dentro de suas íris em questão de segundos.

Vi que algo a minha esquerda tinha mexido com aquele homem mais do que a chegada do próprio Negan e percebi que esse "algo" era Daryl.

Seja qual fosse meu plano naquele dia, seja lá qual fosse a promessa que eu tinha feito de não me envolver, tudo caiu por terra nos cinco minutos seguintes, enquanto eu observava a forma como as pessoas dali interagiam com a figura de Daryl e, principalmente, como ele se portava perante os outros.

Pensei que estava pronta para aquilo, eu pensei até que quisesse realmente sair do Santuário para missões, mas comecei a ver como eu estava errada.

Nada teria me preparado para o sofrimento que eu vi nos olhos de Daryl e pra toda a crueldade que se desenrolava ao meu redor. Ele estava humilhado e derrotado, era como se não tivesse sobrado mais nada... Eu sabia que Daryl não merecia aquilo.

As pessoas de Alexandria pareciam gostar dele, era como se o respeitassem e admirassem, se preocupavam com ele, se importavam... Ver isso, partia meu coração de mais formas do que eu podia suportar. Cerrei os punhos com força, como se a dor das minhas unhas nas minhas palmas fosse o bastante pra me fazer suportar aquilo.

Rick foi obrigado a segurar Lucille, era como se eu pusesse sentir a dor dele pulsando nas minhas veias. Eu não queria aquilo. Não queria fazer parte daquele circo de horrores.

Negan ordenou que as buscas começassem e, quando ele finalmente se afastou, pensei que ficaria mais fácil, mas não ficou...

Dwight bancou o idiota com uma garota chamada Rosita e a mandou procurar pela moto do Daryl. Acumulei um pouco mais de raiva daquele cretino, e qualquer chance de que eu sentisse empatia por ele se esvaiu de mim.

— Bom, vamos começar então... — Kane abriu os braços, mostrando a comunidade, pouco tempo depois que o carro de Rosita havia deixado os portões. — Quer escolher a casa? — Perguntou diretamente para mim, como se estivéssemos em um parque de diversões e eu fosse apenas escolher um brinquedo.

Apertei um pouco mais meus punhos, desejando socar aquele queixo quadrado e Kane devolveu meu olhar com uma expressão ainda mais divertida no rosto.

— Eu já escolhi a casa. — Dwight nos cortou. — Onde é a sua casa, Daryl?

Houve um segundo de silêncio absoluto e eu percebi que Daryl escolheria a morte ao invés de responder.

— Tudo bem... Você não precisa responder, qualquer um pode fazer isso. — O Salvador de rosto queimado deu de ombros, olhando ao redor como se procurasse por uma presa. — Hey, você! — chamou uma garota que passava depressa por ali. — Aonde é a casa do Daryl?

A garota de cabelos castanhos, que não devia ter mais que quinze ou dezesseis anos, tremeu e imediatamente olhou para Daryl. Percebi que ele negou sutilmente, havia algo naquela casa que ele não queria que nós víssemos.

A única coisa em que consegui pensar foi que talvez Merle estivesse na casa, Daryl tentaria de tudo para proteger o irmão, mesmo que o Dixon mais velho não precisasse ser protegido.

— É aquela ali. — Ela apontou a casa mais próxima e sua mão tremeu um pouco.

— Mentira. — Kane cortou, colocando as mãos nos bolsos e dando um passo para frente. — É o seguinte, baixinha, vamos encontrar a casa com ou sem sua ajuda, porque nosso pessoal vai vasculhar todas as casas, então, você pode mentir e deixar alguém bravo o bastante pra machucar um dos seus amigos por sua causa, ou você pode desembuchar de uma vez.

A garota não respondeu. Daryl estava tenso. Percebi que minhas pernas tremiam, ela me lembrava Luka o bastante pra que eu me sentisse mal. Apertei os punhos um pouco mais, desejando que a dor física fosse forte o bastante pra me manter sã.

Os ombros da menina cederam e ela apontou primeiro, antes de dar uma explicação curta, que pareceu deixar Kane satisfeito.

Eu odiava aquilo, com todas as minhas forças eu odiava tudo aquilo.

Dwight seguiu na frente, praticamente arrastando Daryl, Kane foi logo depois, enquanto eu encarei a menina um pouco mais, querendo pedir desculpas, querendo dizer pra ela correr. Mas era como estar em um barco afundando, não havia salvação, nem pra ela, nem pra mim.

Minha única opção foi seguir os outros, passando pelas ruas e sentindo o olhar dos moradores do lugar na minha nuca. Nunca havia me sentido tão suja, tão perversa e nojenta, como naquele instante. Salvadores colocavam móveis e objetos pessoais pra fora, eles não se importavam, riam, se divertiam com a desgraça alheia, como se fosse um passatempo de fim de semana, como se não fosse desumano e cruel.

Finquei ainda mais minhas unhas nas minhas palmas, mas a dor emocional já tinha superado em muito a física e eu não sentia nada. Me arrependi de sair do inferno que era o Santuário e, o pior de tudo, era que sequer tinha começado.

Paramos em frente a uma grande casa de dois andares, a porta da frente tinha um tom de amarelo queimado e o número 101 estava perfeitamente visível na escadinha que levava a varanda. Por um segundo cheguei a duvidar da menina, Daryl nunca moraria em uma casa daquelas. Não o meu Daryl.

Pensei que, quando Dwight abrisse a porta, Merle Dixon surgiria com uma arma na mão e uma piada idiota, antes de atirar em todo mundo, mas não foi isso que aconteceu. A casa estava vazia.

— Nada mal. — Kane deu um assobio longo, olhando ao redor e rindo em seguida.

— Quero ver suas coisas! — Dwight foi seco, empurrou Daryl e ambos começaram a subir as escadas em direção aos quartos.

Me perguntei o que mais aquele cretino roubaria, porque aquela fixação com as coisas do Daryl só podia ser um transtorno de personalidade bem ferrado.

— Acho que tem boas bebidas por aqui, quer apostar? — Kane sugeriu, abrindo os armários como se a casa fosse dele.

Eu sequer respondi, subindo as escadas ainda cega de raiva e totalmente sem propósito.

Parei na porta do quarto onde os dois estavam. Dwight dava ordens para que Daryl tirasse o próprio colchão e arrancava as gavetas jogando as coisas no chão, como se tivesse prazer em bagunçar tudo.

— Você devia revistar os outros cômodos. — O Salvador ordenou diretamente pra mim e Daryl me encarou como se pudesse me dar um tiro. — Tire todos os colchões e jogue lá embaixo.

Meu estômago embrulhou e eu agradeci mentalmente não ter tomado café da manhã. Dei as costas tremendo dos pés à cabeça, os punhos cerrados com o máximo de força que eu tinha, antes de entrar na primeira porta que eu vi e fechá-la atrás de mim em um movimento quase desesperado.

Espalmei minhas duas mãos na madeira e tentei recobrar o controle, respirando descontroladamente e fazendo o possível para evitar uma crise de choro.

Só então percebi que tinha manchado a porta branca de sangue. Virei as palmas e vi que minhas unhas haviam deixado marcas profundas na minha pele. Puxei as mangas e tentei limpar o sangue tanto da porta quanto das mãos, mas era como se a mancha já estivesse grudada na madeira.

Era igual a mim: eu já estava manchada por toda aquela podridão do Santuário, eu nunca conseguiria me limpar de tudo aquilo. Nunca conseguiria voltar a ser eu mesma.

Tampei o rosto com as mãos, enquanto soluçava descontrolada, tentando segurar o choro. Eu queria gritar, trancar aquela porta e nunca mais sair de lá. Eu simplesmente não aguentava mais.

O som característico de um chocalho, acompanhado de uma risadinha infantil, me fizeram virar imediatamente. O susto e a surpresa ficaram estampados na minha face, no segundo em que eu vi que aquele era um quarto infantil e que havia uma garotinha de uns dois ou três anos no berço.

Meio hipnotizada eu dei dois passos na direção dela, que sorriu assim que me viu e sacudiu mais uma vez o brinquedo.

E como uma avalanche, vários fatos me atingiram de uma vez só: quando Daryl não quis que a garota de antes nos contasse onde a casa ficava, ele estava tentando proteger aquele bebê. Instintivamente analisei o rosto da garota, procurando por qualquer semelhança entre os dois, mas meu coração batia tão rápido e tantas emoções diferentes me dominavam, que eu não consegui chegar em conclusão alguma.

É filha dele. Uma parte de mim acusou, se sentindo traída e abandonada, revivendo o dia em que Daryl me mandou embora da vida dele, depois de alegar que nunca poderia ter uma família, que jamais seria capaz de ser pai. Dei um passo para trás. Petter me veio à mente, todas as dificuldades da gravidez e toda a dor de criar aquele menino sem o pai. Foi como reviver todo o sofrimento de uma vida inteira em um minuto. Todas as perguntas do meu filho, todas as minhas evasivas...

É a filha dele. Outra parte em mim rugiu feio um leão e mais nada importou, eu simplesmente soube que jamais deixaria nada acontecer com aquela garota. Negan nunca poderia colocar os olhos nela, ninguém podia saber da existência daquele pequeno anjinho.

— Eu tenho que esconder você, amorzinho. — Sussurrei, estendendo os braços que foram prontamente recebidos pela bebê.

Ela devia ser acostumada com estranhos e tinha um sorriso que acalmava e me trazia uma saudade avassaladora dos meus filhos.

— Você tem que ficar bem quietinha, 'tá bom? — Acariciei os cabelos dourados.

Olhei ao redor e não vi solução alguma, comecei a me desesperar aos poucos, como eu esconderia um bebê, quando tinha dezenas de Salvadores vasculhando por toda a parte? Como eu esconderia um quarto todo de bebe?

Pensei por um segundo e apenas uma solução surgiu na minha cabeça... Comecei a pegar todas as coisas infantis pelo quarto e jogar no berço, cada enfeite, brinquedo, ou roupinha do armário foi jogado lá dentro, o mais rápido que eu podia, fazendo com que o lugar, em questão de minutos, parecesse um cômodo inutilizado.

Por último, peguei algumas roupas de cama e brinquedos, junto com a mamadeira, que já estava no berço antes, e arrumei tudo dentro do guarda-roupa.

Olhei ao redor uma última vez e percebi que faltava apenas um detalhe: Cobri o berço com um lençol branco e me dei por satisfeita, não sabia se daria certo ou não, mas rezei pra que convencesse.

Coloquei a pequena com cuidado na caminha improvisada e lhe dei a mamadeira.

— Fica bem quietinha tudo bem, fofinha? — Pedi, arrumando seu cabelinho e vendo-a sorrir uma última vez, antes de fechar a porta, me sentido um monstro por prender um bebê no escuro.

A menininha, no entanto, ficou em silêncio, como se já estivesse acostumada com o escuro ou com ter que ficar calada.

Eu estava fechando o guarda-roupas quando a porta do quarto se abriu.

— O que está fazendo trancada aqui? — Kane perguntou, se encostando no batente. Tinha uma garrafa qualquer de bebida alcoólica na mão esquerda.

Fiquei paralisada por um segundo, o coração batendo totalmente fora do ritmo. Pense Natalie, pense.

— Vasculhando. — Tentei parecer casual, colocando sutilmente meu corpo na frente da porta que eu tinha acabado de fechar. — Parece ser um quarto de crianças inutilizado ou algo assim.

Kane passou os olhos pelo quarto, focando no berço coberto pelo lençol, então, caminhou vagarosamente até mim.

— E o que tem aí atrás de você? — Parou a menos de dois passos, no limite do meu espaço pessoal.

— Nada, está vazio. — Dei de ombros, como se tivesse entediada.

Ele riu de canto, tombando a cabeça e estreitando os olhos.

— Você devia saber que não dá para mentir pra um mentiroso... — Mostrou as duas palmas e comprimiu os lábios em um gesto presunçoso. — Saí, deixa eu ver o que tem aí.

Eu não me movi e Kane deu um passo para frente, ameaçador o bastante pra que eu pensasse que tinha acabado de ferrar tudo. Ele abriu a porta, usando-a pra me tirar do caminho, fazendo com que a madeira empurrasse meu corpo para frente.

Não houve reação imediata quando ele viu a pequena, perfeitamente confortável entre cobertas e travesseiros, com a mamadeira na boca, mas logo uma leve expressão de decepção surgiu em seu rosto.

Tentei ficar calma e pensar em um jeito de sair daquilo, mas percebi que, pior do que pagar pelo meu erro, seria deixar aquela criança sofrer por isso.

— Kane... — Toquei seu braço que ainda segurava a porta, surpresa com a minha própria atitude, eu só conseguia pensar que, se meus filhos estivessem em algum lugar, passando pela mesma coisa, eu ia querer que alguém fizesse todo o possível para protegê-los. — Por favor...

Era a primeira vez que eu o tocava, a primeira vez que eu pedia qualquer coisa, mesmo depois de meses no Santuário e de semanas presa em uma cela. E eu sabia que era como fazer um trato com o demônio, sabia que era arriscado e que o preço seria alto, mas eu tinha que tentar.

Kane foi pego de surpresa pela minha atitude, ele passou os olhos da minha mão, ainda no braço dele, para o meu rosto, antes de se mover e quebrar o contato. O vi estreitar levemente as sobrancelhas, como se pensasse.

— E aí vamos? — Dwight parou na porta, com Daryl logo atrás dele e meu coração quase saiu pela boca. Será que tinha como aquilo ficar pior? — O que tem aqui?

Vi o pavor nos olhos de Daryl e eu, provavelmente, estava no mesmo estado. A porta do guarda-roupa ainda estava aberta, mas estávamos em um ângulo que impedia a visão de Dwight. Era um daqueles momentos em que não dá pra saber o que vai acontecer, é como estar dentro de um pesadelo, torcendo pra acabar antes do fim.

— Nada de útil, só brinquedos infantis. — Kane deu de ombros, com uma calma assustadora, fechando a porta e ocultando a bebê, segundos antes que Dwight entrasse de vez no quarto. —Aparentemente esses idiotas tem casas tão grandes, que não se importam em usar um quarto todo pra guardar coisas de crianças mortas.

Ele abriu os braços e riu meio mórbido, era como se tivesse controle absoluto de casa expressão em seu rosto.

Agindo como se estivesse no meio de trabalho de vasculhar tudo, ele abriu outra parte do guarda-roupa, deixando que Dwight visse que estava vazio.

— E aí? Vamos levar a tralha ou vamos deixar aqui pra que sofram toda vez que entrarem nesse quarto. Essa gente idiota tem cara que sofre por causa de bebês mortos, não acha, D?

O loiro olhou ao redor um segundo mais, antes de se mostrar totalmente desinteressado.

— Vamos deixar aí mesmo, vai ser melhor. — Fez um movimento displicente com a mão e deixou o cômodo.

Daryl tinha uma expressão de total confusão e eu só pude agradecer que Dwight não fosse esperto o bastante pra perceber aquilo.

— Vamos, Preferidinha, aqui não tem essa de fazer corpo mole não. — Kane chamou da porta, me esperando deixar o quarto também, para fechá-la atrás de mim. — De nada. — Sussurrou praticamente no meu ouvido, quando eu passei ao lado dele.

Senti mesmo que eu tinha feito um pacto com o demônio...

Juntamos os colchões e o resto de coisas úteis do lugar, ou melhor, Daryl fez praticamente todo o trabalho, empilhando tudo na frente da própria casa, para que outra equipe recolhesse e guardasse no caminhão.

Meu coração ainda estava aos saltos, quando eles finalmente deram o trabalho ali como terminado. Estávamos deixando o imóvel e eu avistei a mesma garota de antes.

— Hey, garota, vem aqui. — Chamei, tentando soar tão cretina quanto qualquer outro Salvador.

— O que é agora? — Dwight perguntou contrariado, ao ver que eu havia parado.

— Eu preciso de algumas coisas de garotas, sabe como é... Querem vir junto? — Menti, apontando a casa novamente e Daryl me encarou como se eu fosse uma assassina sem coração.

— Me abstenho. — Kane ergueu as mãos, fazendo uma careta de desgosto para Dwight, que apenas continuou seguindo pela rua, fazendo com que Daryl fosse com ele.

Esperei que estivem longe o bastante, pra voltar minha atenção para a garota ao meu lado na varanda da casa.

— Como é o seu nome? — Perguntei, abrindo mão do tom abusador de uma Salvadora.

— Isso importa? — Ela foi mal-educada, como se tivesse percebido que eu era menos ameaça que os outros.

— Se eu estou perguntando é porque importa. — Fui um tanto irônica e cruzei meus braços para dar mais firmeza às minhas palavras, mesmo que eu não conseguisse culpar a menina por me odiar.

— Enid. — Respondeu a contragosto.

— Muito bem, Enid, quero que me ajude com uma coisa. — Abaixei um pouco meu tom e olhei ao redor pra me certificar que não haviam espectadores.

A garota pareceu confusa com a minha postura, por isso eu tratei de ser rápida.

— Eu escondi a garotinha no guarda-roupas do quarto dela, você vai subir discretamente e tirá-la de lá, depois vai se certificar de mantê-la longe de qualquer Salvador, entendeu? — Expliquei pausadamente, como eu faria com meus próprios filhos e Enid ficou ainda mais confusa. — Entendeu, Enid? Ela precisa ficar em segurança.

Depois que fui um pouco mais incisiva, ela finalmente assentiu positivamente, assumindo uma determinação que me lembrou ainda mais de Luka.

— Ótimo, e essa postura que usou comigo, não use com eles, qualquer coisa que fizer será como uma arma que eles vão usar contra você. — Adverti, não conseguindo evitar me preocupar com ela.

Enid assentiu novamente e deu os primeiros passos para entrar na casa, mas parou e se virou para mim antes de passar pela porta da frente.

— Obrigada.

A vi fechar a porta e tive que me controlar pra não me entregar às lágrimas ali mesmo. Eu não tinha suporte para tudo aquilo, só queria que acabasse logo.

Eu só não tinha ideia que ficaria ainda pior antes do fim do dia.

Quando ganhei as ruas novamente, tentando fechar os olhos para a crueldade que acontecia em toda parte, Arat me mandou encontrar Kane e Dwight, que aparentemente tinham se juntado a Negan, para o meu desespero.

Os encontrei perto dos muros, na frente do que me pareceram túmulos improvisados. Havia um homem estranhamente vestido de padre e, embora eu ainda não pudesse ouvir a conversa, sabia que Negan estava debochando da dor de alguém.

Daryl tinha os olhos fixos em uma das covas.

— Parece que uma mulher morreu, acho que era alguém importante pra ele... — Kane comentou, e eu percebi que ele estava encostado em uma árvore, há alguns metros de distância dos outros.

O encarei por meio segundo e não havia qualquer perturbação em seu rosto, como se o episódio de momentos atrás nunca tivesse acontecido. Eu nunca seria capaz de entender Kane, mas sabia que tinha que tomar cuidado com ele.

A risada nojenta de Negan desviou minha atenção para o grupo ao redor dos túmulos novamente, porém, de repente, outro barulho se sobrepôs a isso. Um tiro.

Um tiro vindo de dentro da comunidade.

Meu corpo todo tremeu e flashes apavorantes de Sherwood me atingiram com violência. A dor era mais que emocional, era física.

Negan se virou com uma expressão nada amigável no rosto, eu previ o pior. Era como se meu nariz ainda sentisse o cheiro de carne queimada, como se meus pulmões ainda estivessem obstruídos pela fumaça.

— Você e você, comigo. — Apontou Dwight e Kane, que o seguiram prontamente. E então passou por mim, havia um sorriso assassino em seus olhos. — Você fica de olho no prisioneiro, aposto que não quer passar por uma coisa assim outra vez, certo, Coração?

Negan foi na frente, acompanhando de perto pelos Salvadores e logo depois pelo líder da comunidade, que parecia tão apavorado quanto eu.

Daryl ainda tinha os olhos fixos no túmulo e o padre olhava de mim para ele.

— Pode ir. — Fiz um gesto ao homem, tentando ser o mais firme que eu podia e ele assentiu e se retirou meio apressado.

Me aproximei um pouco mais, tendo uma vista clara do túmulo adornado com uma cruz no chão. Percebi que havia outros, mas aquele, que Daryl encarava com tanto afinco, era recente.

O silêncio quase mortal e a ausência de mais disparos me acalmaram um pouco, tinha sido um incidente isolado, pelo visto aquelas pessoas não eram tão estúpidas quanto eu de baterem de frente com Negan.

Repassei o que Kane tinha dito anteriormente e lembrei que a pessoa ali enterrada era uma garota. Por algum motivo idiota meu cérebro uniu todos os acontecimentos do dia em uma linha só, e eu cheguei à conclusão que a mulher morta era mãe da garotinha que eu tinha escondido, o que me levou ao entendimento de que ela e Daryl tinham um relacionamento.

Uma família.

Exatamente o que ele tinha me negado. Percebi que não sabia nada sobre o homem na minha frente, nós não nos conhecíamos. Ficou claro que Daryl Dixon não tinha atravessado cinco estados por mim, ou porque o irmão dele o tinha arrastado. Ele tinha feito tudo isso por outra pessoa...

Aquele sentimento amargo de não ser boa o suficiente, que eu tinha demorado muito tempo pra superar, voltou com força total.

Tudo que Daryl tinha negado a mim, ele deu para outra pessoa, e isso doía. Mas, no meio de toda a dor, eu senti um certo alivio, me senti agradecida por alguém ter conseguido tirá-lo de todo aquele ciclo de ódio. Era exatamente o que eu tinha desejado pra ele durante toda minha vida, eu só não imaginei que doeria tanto ver isso de perto.

— Sinto muito pela sua amiga. — Declarei, sendo sincera, porque eu sabia exatamente como era a dor da perda.

Daryl ergueu a cabeça e não havia qualquer conforto em seu olhar, apenas um ódio puro e destrutivo.

— Sente mesmo? — Ele riu sem humor. — Acho que não sente não. Você estava ocupada demais transando com um assassino psicopata, pra sentir muito por qualquer coisa.

Senti o impacto de cada palavra como se fossem facadas. Daryl era o tipo que atacava quando estava ferido, mas saber disso não fez com que as acusações dele doessem menos.

Minhas mãos tremeram, toda a magoa e raiva que eu tinha ignorado por anos rugiram para sair.

— Quer saber? Talvez você esteja certo mesmo, fazer o que... — Dei de ombros, no limite do meu cinismo. — Assassinos, psicopatas, controladores e narcisistas, ou apenas caras que me expulsam de suas vidas, como se eu fosse nada, no momento que eu mais precisava de apoio... Eu sempre tive um dedo podre pra homens.

Silêncio. O clima ficou pesado como se não houvesse ar o bastante circulando. Abri outra ferida em mim mesma quando tentei feri-lo e estava farta daquilo, eu não aguentava mais.

— Desculpa. — Pedi, suspirando e negando algumas vezes. — Você está com raiva e eu não tinha o direito de usar isso contra você. Não foi justo.

Dei alguns passos para trás, me sentindo terrível por cada palavra, eu só queria me trancar em algum lugar e chorar até não ter mais lágrimas.

— Boch... Natalie... — Daryl me chamou em um fio de voz e o princípio do meu antigo apelido, fez mais mal do que bem para o meu coração.

Ele deu três passos na minha direção e foi como se quisesse dizer algo, mas eu sabia que não podia ouvir, nosso tempo tinha passado, não importava mais. Era demais pra mim.

— Temos que ir, eu tenho ordens de um assassino psicopata pra cumprir. — Declarei séria e fui na frente, fazendo-o não ter outra escolha a não ser me seguir.

Pensei que tudo acabaria ali, pegaríamos as malditas coisas e iriamos embora, era melhor estar no inferno que era o Santuário, do que sair de lá para infernizar a vida dos outros.

Mas não acabou, na verdade foi naquele momento que o tormento de verdade começou. Todas as armas foram recolhidas, Negan disse que aquele tiro impensado tinha causado isso, mas eu sabia que ele já tinha intenção de pegar as armas antes mesmo de entrar pelos portões de Alexandria.

O autor do disparo foi um garoto, era filho de Rick, usava um chapéu de cowboy e tinha um curativo enorme no olho. Na breve olhada que eu dei no menino, ficou claro o quanto ele estava revoltado com tudo aquilo. Eu nem tinha mais coração pra partir naquela altura.

E ficou pior: duas armas sumidas, Negan sendo Negan e a vida de alguém estava em jogo.

Rick fez uma reunião particular com os outros Alexandrinos, mas ninguém entregou as armas. Os próprios moradores estavam vasculhando as casas, enquanto Negan tinha uma moça, chamada Olivia, como refém e o restante dos Salvadores carregavam os caminhões com as pilhagens que tinham feito.

— Esperamos que as coisas por aqui não terminem em sangue, como em Sherwood, não é, Coração? — Negan comentou, enquanto eu passava com uma caixa.

— Sim, senhor. — Respondi neutra, tentando não demonstrar pena da pobre Olivia, que tremia dos pés à cabeça, enquanto Negan tinha o braço sobre os ombros dela, como se fossem velhos amigos.

Voltei a caminhar, mas claro que Negan não me deixaria passar sem me atormentar um pouco mais:

— Na verdade... Acho que Rick está demorando muito nessa busca, porque você não vai lá e dá uma apressada nas coisas. Sei que você pode ser muito persuasiva.

Eu estava farta de testes e ordens, mas não era como se eu tivesse outra escolha.

Dei a caixa para um dos Salvadores e segui para casa em que o líder de Alexandria estava.

Tudo jogado pelo chão, por toda a parte, ele realmente estava se esforçando e eu odiava com todas as forças meu papel naquilo tudo.

— Eu não preciso de babá! — Rick foi hostil assim que me percebeu entrar. — Quer dizer, quando eu achar a arma eu mesmo levo para o Negan.

Ele tentou corrigir a insubordinação, mas estava na cara que odiava aquilo de se submeter. Se virou na minha direção, mas algo em seu olhar mudou assim que me viu, ele ficou mais calmo, ou menos raivoso, eu não saberia dizer.

— Ele vai matar a sua amiga se você não achar. Negan sempre fala sério quando se trata machucar pessoas. — Dei meu aviso, sendo o mais calma que podia, eu tinha que seguir ordens e ser uma cretina, mas não conseguia. Não, sabendo exatamente o que aquele líder estava passando.

— Acha que eu não sei disso? — Ele segurou a ponte do nariz, frustrado e exausto.

Me lembrei de Naomi e do quanto ela se preocupava com o bem-estar de todos em Sherwood, foi impossível não sentir empatia por aquele homem.

Foi quando uma ideia arriscada me ocorreu, eu sabia que era impulsivo e estupidez, mas era como se eu precisasse fazer algo bom, para compensar toda a crueldade com a qual eu era conivente.

— Okay, então eu vou dizer uma coisa que você não sabe. — Fechei a porta atrás de mim e me aproximei o bastante para falar em um tom baixo. — Ser prisioneiro no Santuário é pior que a morte, é pior que ser um escravo, não importa quão forte a pessoa seja, ela vai acabar quebrando. Daryl não pode ficar lá.

Rick estreitou os olhos na minha direção, confuso, mas preocupado o bastante para me deixar continuar.

— E aqui outra coisa que você talvez não sabia, Negan é um controlador, mas acima disso ele é um narcisista que gosta de pagar de bom moço, dê algo a ele, algo de verdade, alguma prova da sua submissão e então peça para o Daryl ficar, vai ser humilhante pra todos vocês e ele provavelmente vai achar um jeito de fazer seu amigo se sentir ainda pior, antes de ceder, mas talvez ele ceda e se você realmente se importa com o Daryl, então vai engolir um pouco de seu orgulho e fazer isso. Porque ninguém merece viver o que ele está vivendo lá dentro. — Eu falei cada palavra rapidamente, uma explicação bem curta, torcendo para que o líder de Alexandria comprasse minha ideia.

Mas a verdade é que aquilo era uma súplica, eu precisava que Daryl estivesse em segurança, porque, enquanto ele sofresse nas mãos de Negan, eu nunca teria frieza o bastante para deixar o Santuário sem olhar pra trás.

Rick colocou uma das mãos na cintura e jogou todo o peso do corpo sobre uma perna só.

— Você é uma mulher intrigante, chega aqui com os Salvadores, invade nossas casas, rouba nossas coisas e no meio de tudo isso arruma tempo pra esconder minha filha, pedir pra Enid mantê-la segura e, ainda por cima, está tentando ajudar o Daryl... — Ele enumerou como se estivesse colhendo pistas.

Filha dele? Entendi a raiva se esvaindo quando Rick me viu, Enid devia ter contado sobre mim na reunião ou em algum momento, mas a descoberta de que a bebezinha era filha dele, não do Daryl, confundiu todo o resto na minha mente.

— A única coisa que eu consigo pensar agora é que ou você é uma ótima mentirosa, ou o Negan não sabe quem luta do lado dele.

Rick continuou me encarando como se tentasse me decifrar, mas minha mente tinha dado um nó e eu ainda tentava arrumar a bagunça de sentimentos. Eu estava errada sobre Daryl atravessando o país por mim, estava errada sobre Merle em Alexandria, estava errada sobre a bebê, sobre o que mais eu podia estar errada? Eu costumava ser boa em suposições...

Eu já tinha agido por impulso vezes demais naquele dia, era hora de parar.

— Boa sorte com as suas armas... — Dei meia volta e saí sem esperar qualquer resposta.

Felizmente, momentos depois, Rick achou as armas, e Olivia foi poupada, mas claro que teve muito mais humilhação no portão.

Dwight ficou com a moto de Daryl. Negan pressionou ao máximo todos os limites que ele podia, mas nem ele estava pronto para ver Rick entregar uma terceira arma. Pelo que eu entendi da situação, o rifle estava com a namorada do líder de Alexandria, era uma arma deixada fora dos portões e não contabilizada, pelo menos, foi isso que ele disse.

E eu tive a prova que Rick realmente se importava, quando ele fez o que sugeri e pediu para que Daryl ficasse. Nunca achei que Negan fosse facilitar, tampouco que ele permitiria sem tripudiar muito primeiro, mas não pensei que Daryl seria tão orgulhoso a ponto de desperdiçar aquela chance.

Por fim, deixamos Alexandria, Daryl continuava prisioneiro e eu continuava entre a cruz e a espada... Pelos menos, eu achei que poderia respirar aliviada por um segundo. Mas as piores partes do dia ainda estavam reservadas pra mim.

O comboio parou no meio da estrada, apenas há alguns quilômetros do Alexandria. Negan deu ordens pra que todos os colchões fossem descarregados ali, bem no meio da estrada. Não entendi bem qual era o plano, mas soube que era ruim logo de cara, eu só não imaginava o nível de perversidade.

Depois que tudo estava literalmente jogado na sarjeta, Negan foi até um dos caminhões e voltou um galão de combustível. Todos os Salvadores ficaram em formação e o déspota, cretino, chamou Daryl pra ficar na frente de tudo.

— Isso está prestes a ficar muito quente. — Riu empolgado, e então estendeu o galão com uma caixa de fósforos... pra mim. — Aqui, acho que você sabe o que tem que fazer...

Paralisei, simplesmente não consegui esticar a mão para pegar o maldito galão. Eu já sabia que Negan era um cretino, abusador, e que não precisávamos daqueles colchões no Santuário, mas eu nunca previ que ele me mandaria queimá-los.

A conversa que tivéramos pela manhã começava a fazer sentido, eu cheguei a pensar que o psicopata havia esquecido de mim durante o dia, mas não, ele só estava tramando algo pra me quebrar um pouco mais. Era um castigo por todas as minhas negativas em aceitar seu pedido.

— Eu não gosto que meu pessoal pense que estou favorecendo alguém, então você, como a Salvadora que é, tem que cumprir ordens, como todo mundo. — Negan abriu os braços e jogou um pouco o corpo para trás enquanto falava. — Algumas regalias são apenas para minhas amadas esposas.

Era um ultimato, um alerta de que ele dificultaria, e muito, as coisas pra mim, mas faria isso como se fosse apenas a rotina padrão daquele inferninho.

Daryl evitava me encarar e agradeci internamente, nunca seria capaz de fazer o que era necessário com ele me olhando.

Respirei fundo e peguei o galão, derramei todo seu conteúdo nos colchões e risquei o fósforo. Tentei dizer a mim mesma que eram só colchões, mas a verdade é que eram de alguém, eram as camas de pessoas inocentes que dormiriam no chão.

Fechei os olhos e ateei fogo à pilha, desejando que Negan também queimasse nela e sabendo que, assim como o fogo estava consumindo tudo rapidamente, o meu ódio acabaria me consumindo também.

— Algo mais, Chefe? — Perguntei controlada, tendo a audácia de erguer minha cabeça e fingir que aquilo não era nada demais.

Negan sorriu, mas estava insatisfeito, seus olhos me disseram que não era o bastante.

— Por enquanto não. — Respondeu, como se fosse uma promessa e partimos novamente.

Pela segunda vez, pensei que havia acabado, que, pelo menos naquele dia, não haveria mais crueldade e tortura. Eu estava exausta, sentia como se um bolo enorme estivesse preso na minha garganta, mesmo que eu não tivesse comido coisa alguma durante todo aquele dia.

Quando finalmente chegamos ao Santuário, outra equipe descarregou os caminhões, enquanto Negan fazia um discurso, ele se declarava praticamente um herói, o Salvador do novo mundo, eu sequer tinha forças para rebater as atrocidades dele mentalmente, só queria que acabasse logo, queria me trancar no meu quarto e simplesmente desligar tudo aquilo.

Mas a realidade não podia ser desligada, aquele não era um pesadelo do qual eu podia acordar, eu tive certeza disso quando Negan dispensou a todos, mas me deteve, antes que eu pudesse tomar meu rumo.

— Você não, Natalie, eu tenho mais uma tarefa pra você hoje. Traga o prisioneiro. — Ordenou um tanto enigmático, e um pavor profundo tomou conta de mim

Ele sabia. Tentei encontrar uma maneira de contornar tudo aquilo, mas não vi nenhuma alternativa, eu estava correndo de um lado para o outro, feito um rato em um labirinto, mas a verdade é que eu nunca tive chances.

Negan nos levou para o refeitório e mandou que todos saíssem. Tentei dizer a mim mesma que, dependendo do quanto ele soubesse, ainda havia um jeito de explicar.

Ele colocou Daryl parado bem na minha frente, no meio do salão, mas nossos olhos se evitaram como se fugíssemos de um crime.

— Quem é você, Natalie? — A pergunta fez um tremor gelado percorrer meus ossos.

— Eu sou Negan, senhor. — Respondi, fazendo o possível para não titubear, enquanto ele me rodeava.

— Vê? — Foi a vez de Daryl receber atenção, o líder dos Salvadores o rodeou e continuou naquele joguinho perverso. — Essa é a resposta certa. Talvez você aprenda algo importante aqui hoje, Daryl.

O sorriso sádico, o olhar frio e calculista. O pavor começou a tomar conta de mim.

— Sentem-se, por favor. — Apontou uma das mesas, cordial demais, e nos deixou, desaparecendo na área da cozinha por um minuto.

Fiz o que foi ordenado, porque, honestamente, minhas pernas não aguentariam meu corpo muito mais, e Daryl acabou fazendo o mesmo logo depois.

A espera e a incerteza já eram, por si só, tortura. Tentei controlar minha respiração e secar o suor frio das minhas mãos.

Negan voltou, trazendo uma bandeja, vi um pão e uma lata de comida de cachorro, logo que ele colocou o objeto entre nós. Imaginei o que viria pela frente e meu estômago revirou.

— Daryl teve um dia muito cansativo, aposto que ele está com fome. — O déspota voltou a ser cordial, quase como um anfitrião que serve petiscos aos convidados. — Eu quero que você faça um sanduiche pra ele, Natalie. Sabe...vocês têm algumas coisas em comum, então quero aproveitar esse momento para que ele veja que uma prisioneira de outra comunidade, pode muito bem se encaixar aqui dentro.

Percebi que Daryl não sabia o que Negan queria dizer, mas eu sim. O psicopata torturador não havia descoberto nossa ligação, ele só viu uma oportunidade de torturar nós dois ao mesmo tempo, cada um por motivos diferentes, que se completavam na cabeça dele, de alguma forma doentia.

Embora um sopro de alívio tenha entrado pelos meus pulmões, eu sabia que era cedo pra comemorar, aquilo ainda era um teste, era apenas mais um joguinho de tortura para Negan.

— Eu vou ter que mandar outra vez? — Minha demora em agir o irritou o bastante, para que ele batesse Lucille contra a mesa de trás.

Meu corpo agiu instintivamente por causa do susto e eu comecei a fazer o maldito sanduiche. Minhas mãos tremiam. Eu tentava com todas as minhas forças não chorar. Eu não podia dar comida de cachorro para alguém, era desumano, e era ainda pior que essa pessoa fosse Daryl Dixon.

— O trabalho de uma Salvadora nunca acaba, mas você deve estar feliz, isso é exatamente o que você queria, Coração. — Negan colocou as mãos nos meus ombros e os apertou um pouco, sussurrando cada palavra no meu ouvido, como se fosse uma lição vingativa.

Terminei o sanduiche ainda tremendo, incapaz de olhar nos olhos de Daryl para não desmoronar bem ali.

— Agora coma, Daryl. — A ordem veio em forma de desafio, irônica, afiada. Negan estava, literalmente, matando dois coelhos com uma cajadada só.

Daryl não se moveu, não fez qualquer menção de pegar aquela porcaria em cima da mesa, só então entendi que ele estava punindo Daryl por não ter suplicado em Alexandria.

— Ele é teimoso, adoro isso nele. — A voz estridente, cheia de humor falso, feriu os meus ouvidos. Temi a próxima cartada.

Negan andou ao redor da mesa com um sorriso nos lábios, ele queria que Daryl resistisse, ele queria seguir adiante naquele jogo mortal.

— É bem simples Daryl. A Natalie aqui é uma dar minhas, se eu mandar atirar, ela atira; se eu mandar pular, ela pula... — Ele voltou para trás de mim e colocou uma faca de caça na minha mão, prolongando qualquer contato comigo o máximo que podia. — E se eu mandar ela enfiar essa faca na sua mão, caso você não coma esse delicioso sanduiche, então ela vai fazer isso sem questionar.

Senti o nariz de Negan roçar o meu pescoço e tremi de asco. Apertei a faca na mão direita e desejei enfiar na cabeça daquele desgraçado, mas eu sabia que, pelo menos, três Salvadores estavam do lado de fora do refeitório, sabia que jamais sairia viva daquele maldito inferno e eu tinha prometido. Eu tinha prometido para os meus filhos...

Foi a primeira vez que meus olhos encontraram os de Daryl desde que entráramos no refeitório, ele ainda não tinha se mexido e eu sabia que, se ele não fizesse o que Negan queria, as coisas acabariam mal.

Eu não queria aquilo, não queria machucá-lo de nenhuma forma, não queria toda aquela humilhação. Eu não aguentava mais...

A mão que segurava a faca tremeu, era demais pra mim, eu não conseguia, uma lágrima pesada escorreu pelo meu rosto, no momento em que assumi para mim mesma que eu não tinha escolha, eu não sabia jogar aquele jogo.

Não havia mais ódio nos olhos de Daryl, se ainda existia uma parte dele intacta, naquele momento ela se quebrou. Negan tinha vencido. Eu e Daryl Dixon éramos coelhos mortos.

Ele pegou o sanduiche e deu a primeira mordida. Engoli meu próprio choro como se fosse veneno.

— Eu gosto de pessoas que entendem as regras. — Negan declarou satisfeito, afagando meus ombros um pouco mais, até que não houvesse mais nada para ser comido na bandeja.

Ele se afastou de nós e abriu as portas do refeitório, ordenou que Daryl fosse levado e, pela primeira vez em todo aquele tempo, esqueci da minha promessa e desejei estar morta.

Obedeci a um sinal de Negan e me levantei.

— Mais perto. — Mandou, parado há uns cinco metros de mim. — Mais perto... Mais perto. — Fui obrigada a me aproximar, até que menos de dois passos nos separassem.

A única coisa que eu conseguia pensar era que, se aquela era a tortura pra uma simples negativa minha, eu não queria nem imaginar o que estava reservado pra mim, se Negan soubesse minha verdadeira ligação com Daryl.

— Viu? Não importa se você é minha esposa ou uma Salvadora. — Ele deu os últimos dois passos, ameaçador o bastante pra que eu ficasse paralisada. — Você responde a mim. Você trabalha pra mim. — Senti a mão dele queimar minha pele conforme ele tocava meu rosto. — Você é minha...

Muito perto, o suficiente pra que eu sentisse a barba nojenta dele pinicar meus lábios. Fechei os olhos, antevendo que ele me violaria, com um beijo forçado, mas nada aconteceu. Negan simplesmente se afastou.

— Ótimo! — Riu, parecendo satisfeito em me ver derrotada. — Agora que estamos entendidos, você pode ir, amanhã sua nova rotina de trabalho vai ser entregue. Boa noite, Coração.

Deixou o refeitório em passos alegres e tive que reunir toda a força que eu não tinha, para me arrastar até o quarto. Fechei a porta atrás de mim e acendi a luz, pronta para dar vazão a todo o choro e desespero que eu havia segurado durante todo o dia.

— Noite difícil? — Uma voz conhecida perguntou e eu me virei para dar de cara com Kane, confortavelmente deitado na minha cama, os pés ainda calçados sobre o colchão.

Ri de puro nervoso, incapaz de acreditar que aquilo estava mesmo acontecendo. Aquela merda não acabada nunca.

— Sabia que dá pra fazer a cópia de uma chave com um pouco de fogo, fita adesiva, tesoura e latinha? — comentou casualmente, como se não fosse nada estranho ele ter invadido meu quarto e estar deitado na minha cama. — E sabia que Negan tem uma segunda chave guardada pra cada fechadura dessa fábrica?

Mostrou o que parecia uma chave improvisada. Uma cópia da chave do meu quarto.

— O que você quer, Kane? — Fui direta, rude, aquele dia tinha que acabar logo.

— Eu arrisco meu pescoço pra te ajudar a esconder uma garotinha insignificante e, mesmo assim, você age com toda essa hostilidade... — Se sentou na cama e deu uma de ofendido. — Pensei que já tínhamos passado dessa fase, parceira.

Dei uma risadinha incrédula, ele não podia ser tão cara de pau daquele jeito.

— Pare de me tentar fazer acreditar que fez aquilo por bondade, eu sei que você fez por que tem algum interesse escuso. — Cruzei os braços, no limite de toda minha paciência, lidar com Kane era como lidar com um adolescente mimado.

— Escuso... — O moreno brincou com a palavra na ponta da língua e foi como se o clima todo mudasse, todo o humor sumiu. — Minha nossa! Como você fala difícil, Cooper. — Começou a caminhar na minha direção, devagar, um passo de cada vez. — Mas você está certa, eu tenho interesses, ainda bem que você não é do tipo iludida e pensou que eu fiz, porque gosto de você. — Sorriu, eu tinha parado de lidar com um adolescente, me senti lidando com a máfia. — E já que falou de interesses, vamos colocar as coisas às claras...

Kane tinha muitas faces, porém aquela era nova, eu já tivera vislumbres dela, mas nunca me pareceu tão certo que aquele fosse o verdadeiro Kane Bennet.

Havia algo imponente em sua figura, não era como Negan, que se impunha e intimidava usando tudo que estava ao seu alcance, era mais natural, era como ver um escorpião andando na grama.

Ele parou, respeitando meu espaço pessoal, como fazia sempre, mas perto o suficiente para que eu sentisse a energia que emanava dele. E, assim como acontece com escorpiões, tive certeza que Kane Bennet era perigoso e mortal, ainda assim, foi exatamente isso que prendeu minha atenção.

— Enquanto os meus interesses e os seus se complementarem, somos aliados, a partir do momento em que você passar a desejar coisas que me prejudiquem, de qualquer forma, bom... digamos que você não vai gostar de me ter como inimigo.

Negan teria terminado aquela frase com um sorriso ameaçador, mas Kane não o fez, aquilo não era uma ameaça, era um fato, e ele estava falando muito sério.

— Eu não faço ideia do que você está falando. — Preferi mentir, dando de ombros.

— Então vou clarear sua mente... — Ele deu um passo para frente e eu dei três para trás. — Estamos falando do fato de você ter perdido totalmente o controle quando um certo prisioneiro chegou. Assim que ouviu o nome dele tudo mudou, você ficou descuidada. Pensei que era apenas algo relacionado as suas próprias lembranças como prisioneira, mas então eu vi como você ficou no dia do teste dele, eu vi você na porta enquanto o espancávamos... Mas, até que você se manteve na linha depois disso, então eu tive que esperar o momento em que os dois ficaram cara a cara, e eu tenho que dizer, Natalie, você pode ser muito discreta, mas o seu namoradinho é muito explosivo, ele vai acabar ferrando tudo pra você, cedo ou tarde.

Pisquei meio desnorteada, Kane sabia de tudo, tentei formular uma resposta qualquer, balbuciando coisas sem sentido, quando ele se aproximou, no limite do meu espaço pessoal novamente, e ergueu o dedo em riste.

— Não. Nem tenta, não somos amigos, não quero saber dos seus draminhas românticos. A única coisa que me importa é que volte a fazer seu papel, porque se você se mostrar um fracasso é a mim que Negan vai culpar e isso não é do meu interesse. Entendeu? — Era um aviso, não uma ameaça, e isso me confundiu mais ainda, porque não era nada do que eu esperava.

Kane deu três passos para frente e eu acabei batendo minhas costas contra a porta. Ele estava perto demais, mas que merda ele estava fazendo?

Meio passo de distância apenas. Sua mão direita desceu até a altura da minha cintura, engoli em seco por puro instinto, porque nossos olhos estavam presos uns nos outros.

— Aquele cara é a sua fraqueza e, aqui no Santuário, não podemos ter nenhuma fraqueza, Natalie. Livre-se dele. — Soou como uma ordem e meu cérebro entrou em curto tentando processar tudo ao mesmo tempo.

Desci os olhos, para entender porquê estávamos tão perto e porquê a mão dele estava na altura da minha cintura; percebi que na verdade Kane estava apenas girando a maçaneta. Usando a porta, exatamente como mais cedo, ele empurrou meu corpo para o outro lado e deu um passo para fora do quarto.

— Tenha uma boa noite, Cooper.

Fechou a porta quando saiu, me deixando parada ali, totalmente atônita. Foram cinco segundos de choque até que minhas pernas cedessem ao meu peso.

Eu não sabia se chorava, gritava, ou ria de puro nervoso, aquele era o momento em que o elástico estourava, o sinal de que eu tinha desrespeitado meus próprios limites. Tudo doía, por dentro e por fora, era um colapso mental e físico.

E no meio de toda a confusão, uma coisa me pareceu muito certa, Daryl não podia mesmo ficar no Santuário, minha sanidade dependia daquilo.

Notas finais
Gente coitada da Natalie, eu tenho tanta dó da minha bebê, mas ao mesmo tempo tenho tanto orgulho dela por ser tão forte e por ainda tentar fazer o que é certo. Natalie é uma baita mãezona, mesmo para os filhos que não são dela. EU AMO ESSA MULHER GENTE, no final ela vai é terminar comigo, não com o Daryl uahsuashuhs. E ao mesmo tempo ela foi a rainha das suposições erradas, neh uahsuashuashu Nesse já tivemos uma pontinha da magoa que ela guarda da separação imposta pelo Daryl. Amei dar o ponta pé inicial na interação Natalie e Rick, porque os dois ainda vão ter muuuuitas cenas legais. E teve o Kane, que quanto mais aparece, menos a gente entende aushaushaush Me contem tudo que vcs acharam pq eu tô mundo curiosa!! Bjss e até!