Lifeline — Destiny Don't Give Up
32 Jogos Mortais
Notas iniciais
Não chore por misericórdia
Ainda tem muita dor por vir...
Mercy — Hurts
➷•➷•➷•➷•➷
• NATALIE COOPER •
O conceito de um pesadelo diz que ele é um sonho que causa angústia e medo, uma série de imagens passando pelo subconsciente enquanto dormimos. Por pior que seja o pesadelo, acordar pode fazer tudo ficar bem...
Mas aquilo não era um pesadelo... ou melhor, era, porém eu não estava dormindo. Não havia como acordar, não havia como fugir, tudo que havia era a certeza que nada ficaria bem.
Meu coração batia fora do ritmo, minhas mãos suavam e tremiam, meu estômago doía e a cabeça rodava. Eu tentava fazer minha mente focar, afinal estar atenta podia me dar alguma vantagem, mas o pânico percorrendo minhas veias me impedia de raciocinar, eu achava até que me impedia de respirar naquele momento.
Negan me arrastou por algumas ruas, Daryl e Kane nos seguindo de perto, atentos, porém submissos. A pior parte é que eu sabia que nenhum deles tentaria nada para virar o jogo, os dois temiam por mim, por esse exato motivo Negan tinha as presas perfeitas.
Éramos apenas os brinquedinhos dele, e ele nos usaria segundo seus caprichos.
Me lembrei das ameaças que Negan tinha feito quando estava comigo e Kane no caminhão, ele não deixaria aquela oportunidade passar batido...
Quanto mais eu pensava no que podia acontecer, mais apavorada eu ficava, porque aquilo não era sobre mim apenas... Negan era o tipo de psicopata que usaria a dor das outras pessoas para me quebrar, machucar e torturar.
Eu sabia que ele estava planejando algum jogo mental cruel e sádico naquele instante, eu sabia que devia estar focada em me preparar, mas não conseguia, eu estava em estado de total pânico pensando no que viria a seguir.
— Aqui vai servir. — Negan ainda tinha o rosto colado na minha nuca, usando meu corpo como escudo para se proteger de qualquer ataque, seu hálito quente no meu pescoço me causava náuseas.
Apontou uma barbearia e entrou primeiro, ainda andando de costas enquanto me arrastava com a faca em meu pescoço.
Era um estabelecimento pequeno, um salão com três cadeiras próprias de barbearia, um pequeno banheiro que Negan checou rapidamente e uma porta trancada. Eu podia ouvir o som dos mortos lá dentro, arranhando a madeira quando perceberam o movimento, deviam ter dois ou três, não mais que isso.
— Vocês dois. Costas contra a parede. — Negan apontou o extremo oposto da porta trancada.
Kane e Daryl obedeceram. Daryl tinha um olhar assassino que não saia de Negan, enquanto Kane tinha os olhos em mim, fixos, como se quisesse me dizer algo que eu não era capaz de decifrar, não naquele momento.
— Tirem o cadarço dos coturnos. — Ordenou em uma voz firme e a mínima hesitação de Daryl fez com que Negan pressionasse ainda mais a faca na minha jugular, de modo que senti um filete quente de sangue escorrer pelo meu pescoço.
— Já estamos fazendo o que você mandou... — Kane argumentou em um tom que era pura súplica, tirando o cadarço rapidamente, enquanto Daryl fazia o mesmo.
— Eles gostam mesmo de você, Coração. — Negan sussurrou no meu ouvido e eu pude sentir o sorriso sádico dele contra a minha pele. — O que o desespero de um apocalipse não faz, não é? Os caras começam a gostar de qualquer mulherzinha...
Fechei os olhos tentando ignorar o asco que subiu pela minha garganta.
— Agora, Kane, pegue dois dos cadarços e amarre o Daryl na cadeira. — A ordem veio alegre, quase como se fosse uma brincadeira, mas mudou para algo ameaçador logo em seguida: — E não tente nenhuma gracinha, não force a minha mão nesse lindo pescocinho.
Kane fez o que foi ordenado e Daryl cooperou, mas não estava satisfeito. O clima era tão tenso que era como se o ar pesasse toneladas.
— Aperta essa porra direito, Bennet, eu vou checar depois e aposto que você não vai querer me deixar puto... — Negan declarou e seu tom sádico fez meu corpo tremer involuntariamente.
Fechei os olhos, tentando bolar um plano que me permitisse vantagem, mas tudo que eu conseguia era que cenas desconexas, macabras e dolorosas rondassem minha mente em um ciclo infinito, enquanto a voz da minha consciência acusava que tudo ali daria errado e seria minha culpa...
Eu estava tão perdida no meu próprio pesadelo que meu corpo agiu como se tivesse levado um choque, quando Negan tocou minha cintura com a mão livre.
— Aposto que gosta quando eu fico perto assim... — Insinuou, roçando o corpo no meu, sua voz baixa o bastante para me causar asco, mas alta o suficiente para que Kane e Daryl pudessem ouvir.
Daryl fez um movimento brusco, que talvez tenha assustado Kane, porque o moreno deu um passo para o lado e algumas coisas da bancada caíram no chão.
— Hey! Vocês dois querem mesmo arriscar a porra da sorte? — Senti a lâmina me arranhar um pouco mais, quando a postura de Negan ficou ainda mais rígida.
— Desculpe, não vai acontecer de novo. — Kane pediu, terminando de amarrar Daryl.
— Bennet, você é tão frouxo que chega a brochar. — Negan debochou, usando a mão livre para ordenar que Kane se afastasse de Daryl e sentasse na outra cadeira.
Caminhou até ali, me arrastando junto, então tirou a arma da cintura a pontando para a cabeça de Daryl e soltando a faca da minha garganta.
— Amarre o Kane agora, Coração. — Mandou, guardando a faca no cinto.
Dei um passo para trás e encarei Daryl por alguns segundos, tremendo quando Negan destravou a arma.
Daryl moveu os lábios e eu distingui a palavra "corre", mas eu jamais faria aquilo e o deixaria ali para morrer.
Virei as costas e segui para Kane, amarrando seus braços na cadeira de barbearia com o cadarço, pensando em deixar frouxo o bastante para que ele pudesse escapar, mas sabendo que Negan já devia prever algo assim e certamente usaria aquilo como vantagem.
Decidi não fazer nenhuma idiotice que pudesse atingir Daryl ou Kane e apenas fiz o que me foi ordenado.
Enquanto amarrava Kane, notei que ele sussurrou que tudo ficaria bem, mas meu estado de pânico era tão intenso que eu sequer consegui acreditar naquilo.
— Agora senta. — Negan apontou a cadeira do meio, ainda com a arma bem firme na lateral da cabeça de Daryl. — Tire os cadarços também.
Segui as instruções e Negan se moveu na minha direção, com Daryl ainda na mira, ele usou a mão livre para amarrar um dos meus pulsos na cadeira. Percebi que seu dedo estava no gatilho, qualquer movimento brusco meu e Negan podia atirar por reflexo, eu não podia arriscar a vida de Daryl daquele jeito.
Quando conseguiu amarrar minhas duas mãos, ele finalmente abaixou a arma.
Depois disso Negan reforçou as amarras com fios que tirou dos equipamentos do lugar, aproveitando para amarrar nossas pernas também. Fez tudo isso assobiando, como se estivéssemos no meio de algum jogo infantil e inocente.
Tentei mover minha cadeira, mas era pesada pra isso e, mesmo que eu conseguisse, o modelo reforçado em metal não quebraria com o impacto no chão. Percebi que Negan não tinha escolhido o lugar aleatoriamente, ele sabia que conseguiria nos manter presos naquelas cadeiras.
Negan deu um passo para trás quando terminou, nos encarando com um sorriso sádico, como se estivesse pensando em tudo que faria conosco.
Eu estava no meio, Daryl a minha direita e Kane a esquerda, percebi que Daryl tentava mover os braços, mas as amarras estavam tão apertadas que dava para notar sua pele ficando vermelha aos poucos.
Os olhos de Kane encontraram os meus no espelho a nossa frente e havia certa urgência em suas íris, como se houvesse algo que ele queria me dizer.
— E aqui estamos! Isso vai ser divertido pra caralho! — Negan declarou, batendo uma mão na outra e pegando Lucille do chão.
Ele começou a nos rodear, com o taco passando a centímetros de nossos rostos e eu senti que meu coração podia entrar em colapso a qualquer instante.
Negan deixou que o silêncio reinasse entre nós por alguns minutos, usando aquela antecipação como tortura. Não saber o que viria depois fazia minha respiração sair do ritmo e minhas mãos suarem.
— Ah, Coração, a vida é engraçada, não é? — Ele passou atrás de mim e pousou a mão no meu ombro, colocando um pouco de pressão ali. — Estamos sempre nos reencontrando. Acho que estamos destinados você e eu, um dia você vai ver isso...
Fechei os olhos com força e tentei não tremer. Ele estava certo em algum ponto, não estava? De que outra forma continuaríamos nos encontrando de novo e de novo, se não fosse o maldito destino?
Negan deu a volta na cadeira em que eu estava e se afastou alguns passos, encostando na bancada, assim tinha visão de nós três ao mesmo tempo. Seus olhos estavam fixos em mim, como se ele fosse um falcão analisando sua presa.
— Já reparou que se não ficasse fugindo e lutando contra mim, sua vida seria bem mais fácil? Já imaginou quantas pessoas não estariam mortas agora? Seu próprio filho estaria vivo... — Enumerou com aquele falso tom de empatia.
Meu coração deixou de bater por um milésimo de segundo, quando Negan citou Petter, ele ainda acreditava que meu filho estava morto e aquela era, literalmente, a única coisa boa que havia acontecido nos últimos dias.
Eu e Daryl trocamos um olhar instintivo e rápido, que não passou desapercebido pelo déspota.
— Espera, eu vi isso... — Apontou de um para o outro e eu senti que enfartaria a qualquer instante. Negan sequer podia desconfiar que Petter estava vivo. Nunca. — Você era o pai!
Ele pareceu exultante com o fato de ter descoberto aquilo, e eu senti um certo alivio, afinal qualquer coisa era melhor do que Negan descobrindo que meu filho tinha sobrevivido e estava em segurança.
— Porra! Eu devia saber que isso era um amor antigo! — Ele moveu a mão no ar e curvou as costas para trás como se estivesse animado. — Me contem tudo, eu quero saber detalhes!
Moveu seus olhos entre Daryl e eu algumas vezes, mas nenhum de nós disse nada.
— Vamos lá senhora jornalista super fodona, você não gosta de contar histórias sobre homens? — Negan desafiou e seu tom de voz mudou para algo autoritário, quando ele apontou novamente a arma para o rosto de Daryl. — Me conte essa história...
Ficar calada não era uma opção, isso estava claro.
— Nós conhecemos na cidade em que o meu pai morava, namoramos por um tempo, meu pai morreu, eu voltei para casa, foi isso. — Resumi os eventos rapidamente, tentando controlar o tremor em meu timbre.
— Chama essa merda de contar uma história? — Negan moveu a cabeça para o lado e pareceu decepcionado.
Caminhou até mim, trocando a arma por uma faca e se debruçando sobre o meu corpo, fazendo a lâmina tocar minha bochecha.
— Sabe o que eu acho? Acho que o meu Daryl ali partiu seu coração... Não é? — A pergunta mais pareceu uma ameaça debochada e devido ao meu silêncio Negan teve que ser mais enfático, forçando um pouco mais a faca contra a minha pele. — Não é?!
Percebi que Daryl continuava tentando se livrar das amarras que prendiam seu braço na cadeira, de um jeito discreto, sob um olhar atento de Kane, quase como se os dois tivessem um segredo que eu desconhecia.
— É... — Respondi a pergunta de Negan sem qualquer emoção e os olhos de Daryl seguiram para mim.
Era verdade no fim das contas, Daryl tinha partido meu coração, mas aquele não era um assunto que eu trataria na frente de Negan jamais.
— Você só me decepciona, Coração... — Ele deu alguns passos para trás, usando um tom ácido e abrindo as mãos em um gesto amplo. — Achei que teríamos um pouco de emoção, uma história digna de Hollywood, pelo jeito sua boca não conta histórias tão bem quanto paga boquetes...
O deboche promiscuo veio acompanhado de um olhar direto para Daryl, quase como se fosse um desafio.
— Não é, Daryl? — Negan caminhou naquela direção em passos lentos e Daryl parou o que estava fazendo com as amarras. — Diz, ela fez isso pra você também? Porque eu posso dizer que ela é muito boa nisso e em algumas outras coisas...
Rodeou a cadeira de Daryl, pousando uma das mãos no ombro dele e curvando o corpo um pouco, girando sutilmente a cadeira na minha direção, para que fossemos obrigados a nos encarar.
— Natalie te contou sobre nós? — A pergunta era quase um sussurro venenoso. Os olhos de Negan estavam em mim e os de Daryl também. — Como nos conhecemos em um bar e ela ficou tão vidrada na minha que sequer quis conversar? Ela só queria que eu a comesse com força...
Daryl desviou os olhos incomodado, mas eu sustentei o olhar de Negan por mais uns segundos. Se arrependimento matasse eu já teria morrido por causa daquela noite naquele maldito bar.
Mas arrependimento e culpa eram coisas diferentes, eu me culpava por muitas coisas na vida, mas por ser uma mulher solteira que tinha transado com o cara errado jamais. Aquilo não era minha culpa. Eu não tinha como saber que Negan seria o maior embuste da minha vida.
— Bons tempos... Infelizmente ela não usa a cabeça tão bem quanto usa o corpo, uma pena. — Negan se afastou de Daryl, parecendo um tanto entediado com nossa falta de reação, e então seu sorriso venenoso se abriu de novo. — Não acha, Kane?
Ele estava mudando de foco, provavelmente tinha visto que seu jogo comigo e Daryl não tinha dado tão certo, afinal o caçador já sabia sobre mim e Negan e já tinha me julgado o bastante por isso. Era notícia velha.
— Ah é, você não tem como saber... Você não experimentou. — Negan abriu um sorriso venenoso para Kane.
Meu corpo tremeu, eu não sabia o que era pior: ver Negan humilhando Kane por algo que já tinha acontecido, ou deixar que ele soubesse que já tinha acontecido e usasse isso a favor próprio de algum jeito.
Kane sustentou o olhar de Negan de uma forma neutra, sem enfrentamento ou submissão.
Negan manteve aquilo por alguns segundos, como se analisasse a situação e novamente meu coração foi pego por aquele tremor de antecipação. Então, quando Negan abriu um sorriso sádico, eu soube que algo terrível estava por vir...
— Mas sabe... — Ele caminhou até Kane, rodeando sua cadeira e a girando na minha direção, ao passo que se colocava atrás, exatamente como tinha feito com Daryl. — Eu posso realizar todos os seus sonhos. Eu posso mandar ela realizar seu maior desejo aqui e agora.
Havia um olhar de desafio e malicia no rosto de Negan e eu temi o que ele estava planejando. Daryl tinha parado de respirar, seus olhos fixos na cena, como se também estivesse prevendo o pior.
— Eu posso ordenar que a minha linda Coração te pague o melhor boquete de todos. — Negan sorriu como se fosse nada. — Acho que é um bom jeito de usar seu pau pela última vez, certo?
Lembrei da ameaça que ele tinha feito no caminhão e meu coração saiu do ritmo. Por um segundo me passou pela mente que Negan não teria capacidade de uma atrocidade daquelas, mas era Negan, ele queimava o rosto de pessoas com um ferro quente. Ele era um psicopata sádico, tinha capacidade de fazer qualquer coisa.
— Vocês três são meus para fazer qualquer coisa que eu ordene. — Deixou claro enquanto se afastava de Kane. — O que acha, Coração?
Caminhou até Daryl, trocando a faca pela arma.
— Eu tiro as suas amarras e você faz uma festinha de despedida para o pequeno Kane. Não é uma boa ideia? — Negan riu como se aquilo fosse algum tipo de brincadeira. — Vamos lá, ele já te segue por aí como um eunuco mesmo; com pinto, sem pinto, que diferença vai fazer? Ele nem está usando...
A gargalhada era verdadeira, Negan achava graça das próprias piadas macabras. Vi Kane fechar os olhos e soltar o ar devagar, como se estivesse se preparando para o que viria.
— Eu ainda estou sendo legal para caralho em deixar ele ter um último boquetinho antes de dizer adeus para o próprio pau. Não acha, Daryl? — Se debruçou sobre os ombros de Daryl de novo. Os olhos venenosos em mim, apreciando a tortura psicológica, como se fosse uma brincadeira de criança. — Aposto que seria um espetáculo maravilhoso, não acha?
Daryl era puro ódio, tremia, o maxilar travado, os punhos cerrados, o corpo rígido de irritação. Eu era o caos, meu coração batia tão rápido e descontrolado que era como se fosse rasgar meu peito a qualquer momento.
— Não seja egoísta, Daryl. Kane merece isso, primeira e única vez, onde está a camaradagem? — A risada de Negan era quase como o som do próprio demônio cantando.
Uma ideia passou rápido pela minha mente, mudaria o foco de Negan, provavelmente ele pensaria em uma coisa mais terrível depois e talvez nem valesse a pena, mas o fato de saber que havia algo que eu podia tentar me fez mover meus olhos na direção de Kane.
Dois ou três segundos, o tempo que Negan se afastava de Daryl e eu ainda tinha os olhos em Kane, ele piscou duas vezes e pareceu entender o que eu pretendia e moveu a cabeça sutilmente em negativa.
Podia ser uma péssima ideia, provavelmente era, eu me sentia no meio de um incêndio descontrolado, apagando as chamas com um copo de água. Era questão de tempo até tudo sair do controle. Mas desistir, sabendo que ainda tinha algo que eu podia tentar, me soou covardia.
— Então aqui estão as regras, eu te desamarro e você faz o que eu mandar, a menos que queira ver os miolos do Daryl espalhados por aqui. — Negan colocou a Lucille em um canto, segurando a arma em uma mão e a faca na outra.
Se aproximou de mim ao mesmo tempo em que apontava a arma para a cabeça do Daryl. Eu sabia que tinha que agir de um jeito que não parecesse uma informação dada de mão beijada, então foquei meus olhos em Kane por alguns segundos e movi a cabeça em concordância sutilmente, quase como se não quisesse ser notada, mas sabendo que Negan não deixaria aquele gesto passar despercebido.
Ele parou onde estava, olhou de um para o outro desconfiado e estreitou os olhos.
— O que é? Que porra vocês dois estão escondendo?
Kane não estava satisfeito com a minha decisão, isso era visível, mas eu já tinha ascendido o pavio, não tinha como voltar atrás, Negan não desistiria.
Eu só desejei que minha ideia não desencadeasse algo ainda pior...
— Nada. — Kane respondeu, como se estivesse tentando contornar a situação.
Eu mal tive tempo de piscar antes que uma bofetada violenta me atingisse. Senti meu pescoço estralar tamanha foi a brusquidão do golpe.
Daryl protestou de onde estava e sua raiva foi tanta que ele conseguiu mover a cadeira minimamente do chão. Negan sequer se importou com isso.
— Eu te fiz a porra de uma pergunta! Não minta para mim! — Gritou encarando Kane que tinha os olhos escuros de raiva.
Decidi que era hora de dar a informação, se Negan desistisse daquele plano horrendo de cortar partes do corpo já seria uma vitória. Estávamos todos ferrados, eu sabia isso, mas morrer rapidamente e ser fisicamente mutilado e torturado eram duas coisas bem diferentes.
— A gente já transou, isso é notícia antiga. — Declarei e mal reconheci minha voz, porque meu timbre era puro pânico.
Senti os olhos de Daryl me queimarem, como se eu fosse uma bruxa que precisava morrer na fogueira. Kane fechou os olhos e suspirou pesado, deixando claro que eu não devia ter dito aquilo.
Negan parou onde estava, me encarou por alguns segundos, analítico e curioso, mediu as reações de Daryl e Kane com atenção.
— Espera. Isso não é a porra de um joguinho seu! Isso aconteceu mesmo. — Havia um tanto de surpresa em sua voz.
Senti o olhar frio dele me marcar, Negan não tinha gostado de ouvir aquilo, só então me dei conta que devia ser uma afronta para seu ego masculino, no entanto ele deu um passo para trás e abriu um sorriso enorme e empolgado.
Temi o que viria a seguir, havia muita satisfação naquele sorriso. Talvez aquilo tivesse sido um erro...
— Parece que temos uma revelação fodidamente sórdida aqui! — Ele moveu a mão no ar em um gesto de empolgação. — Viu essa porra, Daryl, amigão? Ela é uma vadia. Aposto que ela dizia que te amava e fodia com ele pelas suas costas.
Daryl não conseguiu disfarçar sua reação, ele devia me odiar naquele momento, eu podia sentir o julgamento claro em seu olhar.
Bastava que ele recapitulasse as últimas horas e entenderia que eu tinha procurado Kane logo depois de brigar com ele. Eu vi esse raciocino passar por seus olhos azuis e a mágoa se instalar neles.
— Caralho, isso só fica mais e mais divertido! — Negan também foi perspicaz o bastante para notar o que estava acontecendo.
Daryl desviou os olhos de mim e sequer fez questão de encarar Kane, sua mandíbula estava travada enquanto ele olhava o nada.
— Me diz uma coisa Daryl, depois de tudo isso, você ama essa mulher? — Negan apontou para mim, usando um tom de desdém.
Daryl não respondeu, seus olhos apenas seguiram o dedo de Negan e focaram em mim por alguns segundos, mas ele moveu a cabeça para o outro lado em seguida, ignorando a mim e a pergunta.
Negan não gostou daquela atitude, deus dois passos rápidos até a cadeira de Daryl e segurou o rosto dele com violência.
— Responda quando eu falar com você! — Gritou ameaçador.
— Vá a merda! — Daryl retrucou encarando o maldito déspota sem medo.
Negan sorriu de canto, um sorriso que era praticamente uma ameaça, deu um passo para trás e seguiu em direção a minha cadeira, colocando o pé no suporte e a deitando um pouco para trás.
Ele focou os olhos em mim por um momento e eu vi o brilho sádico neles antes que um golpe rápido e inesperado me atingisse a coxa esquerda.
Senti a lâmina da faca de Negan perfurar minha pele sem aviso e meu grito de dor se misturou com os protestos de Daryl e Kane.
Negan fez parecer que aquilo era uma punição por Daryl não ter respondido, mas eu vi, quando ele olhou fundo nos meus olhos que aquilo era pelo meu envolvimento com Kane, Negan estava se vingando, colocando seu ódio para fora.
Não era sobre ele gostar de mim e estar com ciúmes, era sobre o fato de eu o ter rejeitado, para ficar com alguém que ele julgava inferior.
A lâmina ficou ali na minha perna, quando ele deu um passo para trás. Eu podia sentir a dor irradiando para todo o meu corpo, mas conscientemente soube que ter a faca ali era a única coisa que impediria uma hemorragia que poderia me matar.
Negan certamente sabia disso, ele não me queria morta, ele me queria quebrada, destruída, submissa, queria me ver agonizando de dor, era como se ele tivesse prazer nisso.
— Então eu vou perguntar mais uma vez. — Ele voltou para Daryl que tinha um olhar assustado em mim. — Você ama a Natalie?
— Sim. — A resposta veio rapidamente, em um tom trêmulo.
Eu não precisava conhecer Daryl tão bem para saber que ele estava se culpando pelo que tinha acabado de acontecer.
O medo corria pelas minhas veias de novo, se misturando com a dor e o desespero. Nunca sairíamos dali vivos, e mesmo que saíssemos, valeria a pena? Negan estava empenhado em destruir nossa sanidade e eu sentia que ele estava bem perto de ser bem-sucedido nisso.
Respirar doía, era como se a faca latejasse dentro da minha pele, tentei controlar minha própria dor, mas eu não conseguia pensar ou respirar, tudo ao redor girava...
— Então, olhe pra essa mulher que provavelmente estava transando com outro há algumas horas, e diga que a ama. — Negan ordenou, se colocando atrás de Daryl outra vez, colocando as duas mãos nos ombros dele e o obrigando a me encarar.
Uma lágrima escorreu pelo meu rosto, mas eu sequer sabia qual das emoções que eu sentia no momento era a responsável pelo meu choro.
— Eu te amo. — Daryl disse com os olhos em mim por apenas alguns segundos antes de desviá-los.
Minha respiração saiu aos trancos dos meus pulmões, era a segunda vez que Daryl me dizia aquilo e o momento era ainda pior, mesmo no meio de todo aquele caos eu me perguntei se haveria um momento em que poderíamos dizer aquelas três palavras sem que o mundo estivesse desabando em nossas cabeças...
Eu duvidei que um dia haveria calmaria em nossas vidas e mesmo que houvesse, depois de tudo aquilo, ainda estaríamos sãos para desfrutar do momento?
Tudo que eu conseguia ver naquele instante era um futuro sombrio, eu sequer sabia se sairíamos dali inteiros fisicamente, quem dirá emocionalmente...
— Ah, Daryl, eu tinha tanta esperança em você. Mas essa coisa de corno não combina com o Santuário, cara. — Negan pareceu desapontado quando se afastou. Tive a impressão que ele queria que Daryl me odiasse. — Eu sabia que você era burro, mas não pensei que fosse tão burro...
Se afastou de Daryl em passos lentos, os olhos em mim, aquele brilho de sadismo estava lá novamente. Senti que Negan estava montando uma armadilha, mas eu não sabia o que esperar.
— Agora me diz você, Kane, porque trocou sua casa, seu posto, sua segurança, pela mulher de outro cara? — Negan mudou o foco de novo. — Tudo por causa de uma boceta? Você já não tinha todas as que queria no Santuário?
Kane piscou algumas vezes, como se estivesse surpreso com a informação. Percebi que Daryl tinha voltado a lidar com o cadarço e fios prendendo seu braço.
— Pois é, eu sabia do seu segredinho com as garotas, pontos por sexo, muito esperto, me irritava um pouco você ajudando as pessoas, mas elas queriam, então... — Negan deu de ombros. — Por que trocar tudo isso por uma mulher que, além de tudo, matou seu irmão?
Eu também não entendia aquela última parte. Eu não conseguia imaginar como Kane tinha apenas perdoado aquilo, no entanto naquele momento eu era apenas caos e dor, minha mente era incapaz de qualquer raciocínio lógico.
— Eu a amo. — Kane respondeu, simples e claro, como quem diz que o céu é azul em um dia bonito.
Nossos olhos se encontraram por dois ou três segundos, eu ainda não entendia, talvez eu nunca entendesse...
— Patético. Mas eu sempre soube que você era patético mesmo. — Negan deu de ombros com desdém.
Caminhou de volta na minha direção e arrumou a posição da cadeira, se debruçando sobre mim em seguida.
— Então aqui estamos. Dois homens que te amam, e que provavelmente fariam qualquer coisa pra te proteger... — Ele deu um peteleco na faca fincada na minha coxa por puro prazer de me ver gemer de dor. — E você, Natalie? Quem você ama? Quem você protegeria a qualquer custo?
Deu dois passos para trás e tirou a arma do cinto, apontando de um para o outro, como se estivesse me esperando escolher.
Então eu soube, assim que respondesse, assim que falasse um nome, essa pessoa se tornaria um alvo, Negan faria um dos dois sofrerem apenas para me punir... Eu não podia escolher.
— Nenhum deles. — Tentei controlar minha voz e soar fria. — Você tinha razão sobre mim, eu sou uma vadia fria. Não amo nenhum dos dois. Daryl partiu meu coração e não me entende, e eu só estou usando o Kane, porque eu preciso de um aliado.
Tentei colocar um pouco de verdade nas minhas palavras, mesmo que elas fossem mentira. Negan passou os olhos por mim minuciosamente e se aproximou, abaixando para que seu rosto ficasse a centímetros do meu.
— Foi uma boa tentativa... — Ele sorriu de canto. — Mas você está mentindo. E eu sei disso porque eu vejo o medo nos seus olhos...
Tremi involuntariamente e Negan se afastou, recolhendo a Lucille do chão.
— Então aqui vai minha promessa: minta para mim outra vez e a Lucille var foder com os seus dois namorados, diga a verdade e eu vou poupar um deles. — Ele foi andando de um para o outro, passando o taco envolto em arame farpado bem ao lado da cabeça de cada um. — Qual deles você ama Natalie? Qual deles você escolhe?
Negan continuou andando de um para o outro, como se aquilo fosse um jogo. Meu coração entraria em colapso a qualquer momento, eu não aguentava mais tudo aquilo, eu só queria que acabasse. Estava farta de ver pessoas que eu amava sofrendo por minha causa, minhas decisões, minhas escolhas.
Sequer havia garantias de que Negan pouparia quem eu escolhesse, afinal podia ser exatamente o contrário, ele só queria que eu escolhesse pra transformar o escolhido em um alvo. Eu seria responsável pela morte e sofrimento de um dos dois, de um jeito ou de outro...
— Cinco... Quatro... — Ele começou a contassem regressiva como se fosse um aviso.
— Por favor... — Pedi em tom de súplica, com as lágrimas rolando livremente pelo meu rosto. — Me diga o que você quer de mim e eu faço, eu faço o que você quiser, apenas pare com isso, por favor. Atira em mim, deixa a Lucille cuidar de mim. Ambos sabemos que eu sou o seu problema.
Qualquer coisa era melhor que aquilo, qualquer coisa era melhor que escolher quem vivia e quem morria, simplesmente porque eu não podia escolher...
— Lucille gostaria disso. — Negan ponderou, encarando o taco por alguns segundos e veio na minha direção.
— Não! Fique longe dela! — Daryl gritou com ódio em cada sílaba.
— Isso não é o que você quer fazer, Negan! — Kane argumentou, quando a Lucille estava a centímetros do meu rosto, se preparando para me dar o golpe.
Eu só queria que eles se calassem. Queria que tudo aquilo acabasse de uma vez. A morte parecia tão fácil, tão acolhedora, tão pacifica, era difícil não desejar aquela calmaria em um momento como aquele.
Morrer parecia uma dadiva.
— Acho que Kane está certo. — Negan se afastou e eu soube que ele nunca tinha considerado me atingir com o taco realmente. — Eu não te quero morta, Natalie. Eu quero que você viva, eu quero que você sofra...
Ele abriu um sorriso ferino que era puro sadismo. Eu soube que aquilo nunca acabaria, Negan me torturaria enquanto vivesse.
— Então, qual deles você ama? — A pergunta foi feita devagar, Negan estava de novo com o rosto a centímetros do meu.
Passei meus olhos por Daryl e Kane, então percebi que os dois se encaravam, quase como se conversassem sem palavras, enquanto Negan tinha a atenção em mim.
Só então eu finalmente me dei conta do que Kane parecia querer me dizer todo aquele tempo, o motivo pelo qual Daryl estava tão empenhado em tirar as amarras. Ele tinha uma pequena lâmina de gilete na mão.
Revi nossa chegada ali e soube que Kane tinha dado aquilo para Daryl, quando esbarrou na bancada e as coisas caíram no chão. Tinha sido tudo encenação, ele usou o acidente para disfarçar quando pegou o objeto cortante
Mas era uma pequena lâmina de gilete, provavelmente cega, pelo tempo que estava ali enferrujando. E claro, Negan tinha reforçado as amaras com fios grossos, Daryl precisava de tempo. Mas eu sentia que era exatamente isso que estava acabando...
— Os dois. Eu amo os dois. — Declarei, colocando para fora uma verdade que nem eu mesma tinha ciência, até ser obrigada a confrontar.
— Eu disse que se você mentisse pra mim... — Negan ameaçou já com a Lucille preparada.
— Eu não estou mentindo. — Garanti com sinceridade e aquilo surpreendeu até a mim mesma. — Eu amo os dois, por isso não consigo escolher.
Não sabia quando aquilo tinha acontecido, ou como tinha acontecido, mas o fato é que naquele momento era a verdade, eu amava os dois, não podia escolher, não podia perder nenhum...
Certamente eu os amava de formas e com intensidades diferentes, e claro que havia aquele que eu amava mais, mas Negan não tinha que saber disso.
Senti todos os olhares em mim, Negan analisava minha expressão minuciosamente, procurando qualquer traço de inverdade. Kane tinha a surpresa nos olhos castanhos escuros, percebi que ele também procurava a mentira por trás daquela frase. Apenas Daryl não parecia surpreso com o que eu tinha acabado de dizer, quase como se ele já esperasse algo assim...
— Mas isso é o que eu chamo de plot twist, caralho! — Negan se afastou em uma postura animada, quando se deu por convencido.
Ele encarou cada um de nós por alguns segundos, quase como se pensasse em seu próximo passo e então seguiu na direção de Kane.
— Quem diria, não é? — Ele se apoiou nos ombros do moreno. — Tem gente que tem mal gosto, fazer o que... — Suspirou, então focou sua atenção em Daryl por um segundo, passando para o tom de deboche. — Se bem que você não fede, Kane, já é uma vantagem.
Daryl teve que parar o que estava fazendo com a pequena lâmina, quando virou o centro das atenções. Negan rodeou nossas cadeiras em silêncio por algum tempo, eu sabia que ele estava pensando no que fazer conosco, isso fazia um arrepio de medo percorrer meu corpo e minhas mãos suarem frio.
Então ele parou, olhou para mim de canto e sorriu abertamente, eu soube que uma ideia cruel tinha chegado em sua mente.
— Bom, já que você não tem predileções, vamos tentar na sorte. O que acham de uma roleta russa? — Balançou a arma no ar e eu senti que ninguém mais ali dentro respirava. — Já que eu só tenho uma automática, vamos fazer diferente...
Roleta Russa exigia arma de tambor, como a de Rick, uma automática não tinha como girar a roleta com uma bala só, então Negan apenas colocou a arma no chão entre nós.
Olhei para Daryl procurando qualquer sinal que ele estava perto o bastante de se soltar, mas ele moveu a cabeça em negativa sutilmente.
— Já que você não quer escolher, Coração, eu vou rodar a arma, em quem parar eu atiro, simples, mas é claro que isso te coloca na berlinda também, que pena... — Era um jogo, não a arma girando no chão, aquilo era apenas uma artimanha, o verdadeiro jogo era a tortura mental, colocar as três vidas em risco para ver quem desistia primeiro.
Encarei a automática rodando e rodando, senti que Daryl e Kane também tinham a atenção ali e por um segundo eu apenas desejei que a arma parasse em mim, então tudo aquilo acabaria de uma vez...
Aos poucos ela foi diminuindo a velocidade, fazendo meu coração quase parar de bater quando passou por Kane e Daryl, percebi que pararia em mim e quase suspirei de alivio.
Negan sorriu sádico quando o cano da arma me apontou, como se pudesse prever o que viria a seguir.
— Atire em mim! — A voz de Daryl cortou o salão. — Se quer alguém para atirar atire em mim, ela me ama há muito mais tempo, Natalie vai sofrer mais se você atirar em mim e você sabe disso, você sabe disso desde o começo. Ela literalmente acabou de conhecer o Kane.
— Olha só que corajoso... — Negan riu de canto, enquanto pegava a arma do chão.
Mas que merda Daryl estava fazendo?
Kane negou algumas vez, parecendo decepcionado com a impulsividade daquelas palavras e por um instante eu tive a impressão que ele tinha entendido melhor o jogo de Negan do que qualquer um de nós.
Eu não conseguia me mover ou falar, a bile estava presa na minha garganta, senti que podia vomitar a qualquer momento.
Negan tinha os olhos em Daryl como se ponderasse aquela opção e eu temi que qualquer coisa que eu dissesse poderia influenciar as coisas de um jeito irreversível. Temi que qualquer palavra fosse a sentença de morte de Daryl e temi que não dizer nada também fosse.
Ouvi um som na rua e levei dois ou três segundos para ter certeza que era real, parecia um carro. Podia ser ajuda, ou podiam ser os Salvadores...
Encarei Daryl e notei que ele também tinha percebido o problema é que Negan também percebeu, se afastou de nós até a janela olhando ao redor.
Daryl aproveitou esse momento para colocar ainda mais afinco na tarefa de cortar os fios de seu pulso.
Quando Negan se voltou para nós novamente, havia uma determinação diferente em seu olhar, quase como se ele tivesse visto algo na rua que o fez decidir agir com mais urgência.
— Esse é o problema com os heróis, eles têm que aprender que sou eu que decido quem vive e quem morre. — Declarou, parando ente nós três, bem na minha frente. — Eu não crio mártires, Daryl. Você queria deixar uma lembrança linda no coração da sua amada, mas essa é a vida real, a única coisa que você pode dar pra ela é dor e uma cicatriz que bem feia, algo que ela vai lembrar toda vez que olhar nos seus olhos.
Meu coração parou de bater, o medo dominou todos os meus poros, eu queria fechar os olhos porque previ que algo terrível aconteceria, mas eu não podia me mexer. Senti as lágrimas escorrendo, eu vi o brilho sádico no olhar de Negan e soube que algo terrível aconteceria.
— Mas eu tenho que te parabenizar por escolher, era tudo que eu precisava... — Ele apontou a arma para o rosto de Daryl que focou os olhos em mim por alguns segundos antes de fechá-los como se aquilo fosse um adeus. — Agora eu já sei em quem eu tenho que atirar. Espero que consiga viver com a culpa.
Observei Negan puxar a trava e mover a arma na minha direção, enquanto o grito de Daryl ecoava pelo lugar, pisquei por impulso e ouvi o som do tiro, me preparei para a dor, mas ela nunca veio. Quando abri os olhos notei que Negan tinha passado com a arma direto por mim. O alvo dele não tinha sido eu ou Daryl, o alvo era Kane...
Os olhos castanhos escuros estavam em mim, não havia surpresa neles, como se Kane as soubesse o desfecho daquilo, como se ele conhecesse o jogo.
O meu gritou ecoou pelo lugar, dolorido e furioso, enquanto o sangue começava a manchar o abdômen de Kane, Negan não tinha atingido a cabeça ou o peito, tinha atingido logo abaixo das costelas, como se quisesse que Kane sangrasse até a morte.
— Nós vemos em breve, Coração. — Debochou passando por mim.
Sumiu do meu campo de visão enquanto eu gritava sem parar e então o percebi abrindo a porta atrás de nós e soltando os errantes ali, ao mesmo tempo que a porta da frente era arrombada e Rick entrava de arma em punho.
Aconteceu muito depressa, Negan jogou um dos errantes sobre Rick, que cambaleou para o lado. Daryl finalmente se soltou da cadeira e voou para cima de Negan, lhe acertando um soco certeiro, ao mesmo tempo que o maldito revidava com a Lucille, Daryl escapou por pouco e Negan teve tempo o bastante para usar o outro errante como vantagem.
Ele olhou nos meus olhos e sorriu antes de fugir pela porta da frente, levou um segundo para que eu entendesse tudo. Ele nunca pretendeu poupar quem eu pedisse, essa seria a pessoa que ele mataria, mas como eu não escolhi, ele usou a escolha de Daryl como um trunfo para fugir de Rick, que ele já tinha visto se aproximar quando olhou do lado de fora momentos antes.
Kane era o bode expiatório, a vantagem de fuga, e também, apenas um jeito de Daryl se sentir culpado por tudo...
Enquanto eu tentava me soltar a todo o custo para chegar até Kane que ainda sangrava sem poder conter a hemorragia, Daryl e Rick se livraram dos errantes, Rick saiu pela porta segundos depois, sem sequer olhar a situação que o rodeava, totalmente focado em Negan.
Daryl fez o mesmo caminho e eu sequer consegui ficar surpresa com ele estar indo embora e me deixando ali sozinha, vendo outra pessoa morrer sem poder fazer nada... Naquela altura Kane já engasgava com o próprio sangue.
Daryl parou na porta e olhou para nós dois, então voltou, pegou uma tesoura e cortou minhas amarras, entregando o objeto na minha mão e saindo correndo em seguida.
Eu queria ficar furiosa com aquilo, mas não havia tempo, me joguei da cadeira na direção de Kane, assim que me desamarrei, e só então lembrei da faca na minha coxa, a dor foi tanta que não tive firmeza para segurar meu próprio corpo, ele despescou no chão e no meio do desespero tive que me arrastar até Kane.
O soltei e ele escorregou para o chão comigo, ao mesmo tempo em que eu arrancava minha camisa para estancar o sangue que escorria sem parar.
— Fica comigo, fica comigo por favor. — Eu só conseguia repetir como um mantra, enquanto tentava a todo custo conter o sangramento.
Kane deitou no chão, como se estivesse cansado demais para qualquer outra coisa, tudo que eu conseguia fazer era chorar e me arrepender de cada pequena decisão que tinha me levado até ali.
Eu era a responsável por tudo aquilo, aquele sangue estava nas minhas mãos...
— Tudo bem. Tudo bem... — Ele tentou me acalmar, colocando a mão sobre a minha, que pressionava forte seu ferimento. — Eu sou risco baixo lembra? Descartável. Você não tem que sofrer por isso...
Kane tentou tocar minha bochecha, mas foi como se não tivesse forças o bastante para isso, seu rosto estava muito pálido e ele estava gelado.
— Você não é. — Neguei entre as lágrimas. — Você é importante pra mim e eu não posso te perder, por favor, fica comigo.
Eu estava cansada de perder pessoas, cansada de suportar tudo aquilo sozinha, cansada de fazer todas as coisas erradas... Eu não suportaria ver outra pessoa que eu amava morrer daquele jeito.
Kane sorriu para mim, um sorriso consternado, meu coração se quebrou em mim pedaços diferentes naquele momento e eu odiei Negan mil vezes mais.
— Hey, olha pra mim... — Pedi tocando o rosto de Kane, apenas para que ele não fechasse os olhos. — Eu...
As palavras ficaram presas na minha garganta.
— Tudo bem, você não tem que dizer nada. — Tossiu desconfortavelmente, enquanto apertava um pouco mais minha mão.
Eu estava pronta para responder, quando pude ouvir os pneus de um carro cantando pneu no asfalto, segundos depois o veículo parou ali e Daryl passou pelas portas de novo. O rosto suado e a respiração ofegante, como se tivesse corrido uma maratona.
Os olhos azuis de mar em fúria focaram em mim, enquanto ele se abaixava e foi como se tudo ao redor parasse nesse curto segundo... Daryl tinha voltado por mim.
— Temos que levar ele de volta para Hilltop. O médico pode dar um jeito. — Ele declarou, já movendo Kane do chão.
Então eu entendi: Daryl não tinha ido embora, ele estava atrás de um carro. Ele estava atrás de um jeito de salvar Kane...
E aquela foi provavelmente a melhor coisa que ele já tinha feito por mim.
Enquanto Kane era levado para o carro eu tive que me apoiar na cadeira para ficar de pé, a perna doía mais que qualquer coisa, porém eu sabia que tirar a faca dali seria um erro.
Daryl teve que voltar para me ajudar, logo depois de acomodar Kane no banco de trás, mas em minutos já estávamos na estrada a caminho de Hilltop.
Eu me sentia um tanto dopada, talvez fosse o sangue escorrendo aos poucos da minha perna, talvez fosse tudo que tinha acabado de acontecer... Meu coração estava despedaçado de preocupação, Kane tinha desmaiado no banco de trás e eu não sabia se ele acordaria.
Olhei para Daryl ao meu lado e ele tinha toda a atenção na estrada, exigindo toda a velocidade que o carro podia dar, suas mãos firmes no volante exibiam o pulso ferido, marcado pelas amarras que ele insistentemente tentou cortar, seus dedos também estavam feridos e eu presumi que aquilo era por causa da fricção constante com a lâmina enferrujada.
Seu semblante estava duro, e as mandíbulas cerradas, eu não sabia exatamente o que ele estava pensando, mas eu conseguia entender que ter deixado Rick para trás não era algo que o agradava.
Ele tinha feito por mim. Ninguém precisou me dizer, eu simplesmente sabia disso. E depois de tudo que tinha acontecido naquela sala, Daryl ter ficado dizia muito mais do que qualquer palavra no mundo.
— Obrigada... — Agradeci e Daryl focou os olhos em mim por um momento, antes de assentir em um movimento curto.
Ao longe eu vi os portões de Hilltop, estávamos a salvo, mas isso não significava que estávamos inteiros...
Fale com o autor