Lifeline — Destiny Don't Give Up
14 Inconfiança
Notas iniciais
• NATALIE COOPER •
A mente é uma coisa engraçada, em um simples segundo é possível ter uma quantidade incontável de pensamentos, como vários computadores multitarefa executando mil pesquisas ao mesmo tempo, infelizmente, a parte consciente de você dificilmente vai conseguir processar todos esses pensamentos ao mesmo tempo.
É por isso que dizem, que quando você acorda de um sono muito profundo, ou quando desperta depois de perder os sentidos, você pode, e provavelmente vai, se sentir desnorteado.
Não é sobre não ter informação nenhuma, é sobre ter informações demais.
Você se perde em todos os pensamentos e lembranças e aqueles segundos que demora pra que você conseguia interpretar tudo isso de forma logica, é o que chamam de "desorientação".
Ao menos, foi exatamente o que senti quando abri os olhos. Eu não fazia ideia de onde estava. A primeira informação que chegou na minha consciência foi a lembrança de estar com Kane. Eu atirei nele. E então fugi, encontrei uma pista sobre meus filhos e continuei andando.
Ignorei a dor, a fome e a sede, não haviam suprimentos, então eu não podia me dar ao luxo de parar. Eu precisava continuar e encontrar os meus filhos... Mas era então que tudo ficava mais confuso, eu me lembrava da dor, do frio e do medo de fracassar. Era como se o desespero ainda corresse pelas minhas veias.
E então teve Daryl. Eu o encontrei mesmo, ou apenas sonhei com isso? Tentei levar minha mão direita até minha testa, antes mesmo de abrir os olhos e só então percebi que estava presa. Amarrada em uma cadeira.
Todo meu corpo tremeu incontrolavelmente, eu tinha sido pega pelos Salvadores, estava tudo acontecendo outra vez. Uma agonia desesperadora tomou conta de mim, eu não podia passar por tudo aquilo outra vez, eu não aguentava mais.
— Não. Não. — Tentei me soltar, mexendo os pulsos.
Só então percebi que não estava em um local conhecido. Era um canto escuro do que parecia um porão.
— Só vai se machucar fazendo isso. Não vai se soltar. — Uma voz feminina me alertou, e reparei que havia algumas pessoas do meu lado esquerdo.
A mulher que tinha acabado de falar comigo deu um passo para frente, tinha um cabelo curto e uma expressão séria no rosto. Havia outra mulher logo ao lado dela, mas minha mente entrou em delay quando reconheci uma terceira figura: Daryl?
— Mas que merd... — A frase ficou presa na minha garganta tamanha a minha incredulidade.
Certo, então meu encontro com Daryl na floresta não tinha sido um sonho, foi real... Só me faltava descobrir como eu passei de um encontro na floresta para presa em um porão escuro.
Também reconheci uma garota, eu havia falado com ela em Alexandria, no entanto aquele lugar onde estávamos não parecia com nada do que eu tinha visto da comunidade.
Percebi a mulher do cabelo curto se dirigir a garota e a um outro cara de cabelo cumprido, não ouvi a conversa deles, pois além de estarem falando baixo, estavam na ponta do cômodo, enquanto eu estava no fundo, na parte mais escura
— O que eu estou fazendo aqui? — Fui direta, e olhei para Daryl enquanto perguntava. — E quem são vocês?
— Daryl salvou sua vida na floresta. — A mesma mulher de cabelo curto respondeu caminhando para mais perto de mim. — Ele te trouxe até aqui e você foi tratada pelo nosso médico.
Daryl sequer olhava pra mim, ele estava nervoso, eu ainda o conhecia bem o bastante para perceber isso. E saber que ele estava nervoso me deixava tensa, era um mau sinal, não era?
Mas que merda. Eu estava tão perto. Fechei os olhos e neguei. Estava frustrada, mas resolvi manter a calma, ainda achava que aquilo seria resolvido sem maiores problemas e então eu seguiria com a minha viagem e encontraria meus filhos. Adeus Negan, adeus Salvadores e Santuário e adeus Washington.
— Certo... — Tentei ser cordial. — Obrigada então, mas... onde exatamente é "aqui", e por que eu estou amarrada?
— Nem começamos e a maldita já quer informações, Maggie! — A outra mulher interferiu, rude e revoltada, se virando para a primeira e logo depois para mim: — Nós fazemos as perguntas aqui, 'tá ouvindo, sua cretina?
Okay, pelo visto não teria nada de fácil naquela conversa. Maravilha, saí do fogo pra entrar na frigideira.
— Deixa eu ver se entendi... estou amarrada e sendo interrogada. Então, não foi um salvamento, foi um sequestro. — Fui um tanto sarcástica e fuzilei Daryl com o olhar.
Ele mantinha a cabeça abaixada e eu até teria pensado em um jeito de compreender as atitudes dele, mas estava tão puta da vida naquele instante que só conseguia sentir raiva.
— Do meu ponto de vista, você devia ser um pouco mais grata. — A mulher que eu tinha descoberto se chamar Maggie, me respondeu em um tom neutro, percebi que ela era a líder ali.
— Eu seria, se minhas mãos não estivessem amarradas. — Devolvi em um tom ainda mais sarcástico.
— Como encontrou o Daryl? — Maggie ignorou minha frase anterior e começou o que eu previ que seria um interrogatório.
— Eu diria que foi uma coincidência infeliz do destino. — Praticamente cuspi, ainda me irritava demais saber que Daryl tinha me arrastado para aquela merda toda, bem quando eu estava tão perto dos meus filhos.
Ele entendeu a indireta e pareceu incomodado.
— Olha vou ser honesta com você, 'tá bom? Do nosso ponto de vista você é uma espiã, e só está esperando pra contar a posição do Daryl para o Negan. — Maggie entrou na minha frente enquanto falava, e se não fosse o tom totalmente sério dela eu teria achado que era uma brincadeira.
Acabei rindo, uma risada seca e sem humor, que tinha muito mais a ver com a minha raiva do que com qualquer outra coisa.
— Desculpa, mas é que vocês têm uma imaginação e tanto. Eu não quero estar aqui, do meu ponto de vista eu fui sequestrada. Não estou nem aí pra localização de vocês, na verdade, não estou nem ai pra vocês. — Argumentei, e senti que aquilo também atingiu Daryl.
Eu estava com tanta raiva, que mal conseguia pensar com clareza, era desesperador saber que eu tinha chegado tão perto e então era como se estivesse na estaca zero novamente. Eu só queria gritar e chorar, estava exausta de tudo aquilo, só queria os meus filhos, só isso, mas era como se o universo estivesse sempre conspirando contra mim.
A outra mulher, que eu acabei descobrindo pela conversa, que se chamava Sasha, falou com Maggie sobre aquilo ser exatamente o que eu diria se fosse uma espiã e eu tive que rir outra vez, uma risada de puro desespero, aquilo não podia estar acontecendo.
— Vocês não confiam em mim. Ótimo, eu entendo isso, afinal eu estava com os Salvadores. Mas se conseguem acreditar nessa teoria sem pé nem cabeça, por que é tão difícil imaginar que eu simplesmente fugi do Santuário? — Perguntei, tentando controlar meu tom de voz.
— Foi isso que aconteceu? — Daryl finalmente se pronunciou e eu juro que queria socar a fuça dele por desconfiar tanto de mim.
Estava na cara que ele não tinha contado para aquelas pessoas que me conhecia. No Santuário nossa ligação era um problema, mas ali, entre as pessoas que supostamente eram amigas dele, continuar mentindo sobre isso parecia ridículo.
Mas tentei entender, quer dizer, ele devia ter os motivos dele. Eu esperava que tivesse, ou toda aquela situação seria filha da putagem demais pra uma pessoa só.
Não é possível que eu tenha um dedo tão podre assim pra homens...
— Somos boas pessoas, se foi isso que aconteceu, você só tem que dizer a verdade. Podemos derrotar Negan juntos. Aposto que você tem informação. — Maggie parecia amigável.
Porém havia um grande problema ali: eles queriam derrotar Negan, queriam vingança, ou seja, estavam desesperados por qualquer trunfo. Se Daryl não podia dizer a verdade para os próprios amigos, então eu é que não faria isso.
Decidi que era melhor revelar apenas metade da verdade, nada de falar sobre filhos, eles eram importantes demais para que eu arriscasse.
A primeira coisa que você aprende quando sua mãe e seu padrasto são advogados é que tudo que você diz pode, e será, usado contra você.
— Eu fugi, fugi na primeira oportunidade, fui caçada, entrei numa briga e levei um tiro. Fim. Eu só quero dar o fora pra bem longe, me envolver em um guerra não está nos meus planos. — Tentei dar de ombros, mas minhas mãos e metade do meu tronco estavam presos na cadeira, tornando o movimento doloroso.
— Então está dizendo que não odeia o Negan, não o quer morto? — Maggie parecia chocada com a minha apatia, e eu até conseguia entender a reação, afinal, era impossível não odiar Negan.
— Eu não me importo com Negan, quero ficar o mais longe possível, só isso. Ainda mais considerando que vocês querem derrubá-lo, não vão existir vitoriosos nessa guerra, apenas o caos. E eu quero estar bem longe daqui quando acontecer. — Respondi com a verdade.
Uma guerra afetaria todas as comunidades, então eu não podia correr o risco de colaborar, dando informações que por tabela colocariam meus filhos em perigo.
Eu conhecia o acordo do Reino por cima, eram uma comunidade que seguia as regras à risca e com isso conseguiram manter os Salvadores longe de seus muros, ninguém podia entrar nos limites do Reino, o que significava que, enquanto aquela paz de mentira fosse mantida, meus filhos estariam seguros. Isso era tudo que importava pra mim.
— Ela está mentindo! Tudo que saí da sua boca é ladainha sem sentido. — Sasha perdeu totalmente o controle, se apoiando nos braços da cadeira para me encarar bem de perto. — Talvez devêssemos arrancar a verdade dela...
— Tortura, sério? — Não consegui conter o deboche. — Isso porque vocês são boas pessoas, imagina se não fossem.
— Isso é mesmo necessário? — Daryl tentou intervir e tudo que eu conseguia pensar era em como tínhamos chegado naquele ponto...
Eu conseguia ver que ele estava dividido ali, mas eu estava tão brava, por ele ter me jogado naquela situação, que minha empatia não estava muito bem das pernas.
— Eles mataram Abraham e Glenn isso não é nem metade do "necessário"! — Sasha retrucou seca. A sede de vingança dela era visível e eu sabia que isso não a levaria a lugar nenhum, só a colocaria mais perto da morte.
— Então torturar pessoas é o que vocês fazem em honra dos seus mortos? — Questionei neutra, talvez ela visse que não fazia sentido.
Mas acho que ela não era do tipo que gostava de ser contrariada. Eu apenas vi o ódio brilhar em seus olhos antes de sentir o punho dela no meu maxilar.
O soco fez tudo rodar por um instante e eu senti sangue invadindo meu paladar. Acho que ela provavelmente teria me socado de novo, se Daryl não tivesse imediatamente se colocado entre nós duas.
— Já chega, Sasha! — Ele advertiu em um tom que eu jamais imaginei que usaria com ela. Na verdade, as duas mulheres na sala ficaram surpresas com aquilo também.
Eu conhecia aquele sentimento, era o mesmo que eu tinha quando Daryl estava no Santuário. Ele não queria que eu me machucasse e uma parte minha, aquela parte que eu tinha enterrado anos atrás, tentou vir á, trazendo consigo uma esperança que fazia meu coração doer. Ele não é mais o meu Baby Dix, ele me mandou embora, não dá pra voltar atrás agora, a outra parte de mim acusou, com uma sagacidade quase cruel.
Isso não é sobre Daryl Dixon, isso é sobre os seus filhos, eles precisam de você, Daryl é passado. Não confunda as coisas.
— Melhor você subir, eu e o Daryl cuidamos disso. — Ouvi Maggie intervir, e voltei minha atenção para eles.
Daryl ainda estava entre mim e Sasha, de costas pra mim. Ela olhou por sobre os ombros dele e pareceu ainda mais raivosa. No fundo eu a entendia, afinal eu também culpava todos os Salvadores por Sherwood, e era exatamente por entender a motivação dela e dos amigos, que eu não podia confiar neles.
Ela saiu batendo os pés e Maggie se virou para mim, mas algo aconteceu naquele instante, foi apenas um segundo, porém foi o suficiente para que eu percebesse uma coisa muito importante.
Sasha, em uma demonstração de raiva, bateu a porta do lugar onde estávamos e o som assustou Maggie por um segundo. Foi a reação dela que me disse tudo.
— Veja bem... — Ela começou, mas eu interrompi.
— Você está grávida. — Minha revelação vez com que ela me encarasse diferente, como se eu fosse uma ameaça ainda maior. Ela não fazia ideia de como eu havia descoberto aquilo, então eu expliquei: — Seu primeiro reflexo quando se assustou com o barulho foi proteger a barriga.
Ela e Daryl trocaram um olhar, Daryl baixou a cabeça, eu fiz todas as ligações que eu precisava naquele instante. Maggie era a viúva, a mulher que Negan estava procurando em Alexandria e a que Rick e o Padre tinham dito estar morta.
E eu conectei aquela situação com a outra coisa que eu sabia, Daryl se culpava pela morte de uma das vítimas de Negan, era isso que o déspota estava usando para quebrá-lo. E, se eu não estivesse totalmente errada, a vítima em questão, era o pai do bebê de Maggie.
Nesse caso, Daryl se sentia em uma dívida enorme com aquela mulher. Ele faria qualquer coisa pra compensar... O que significava que eu não podia confiar nele. Não podia haver nenhuma outra prioridade além dos meus filhos e da segurança deles, e Daryl claramente tinha outras prioridades.
— Agora você sabe porque eu preciso vencer. — Maggie declarou, me obrigando a esquecer minhas teorias e focar na realidade.
Há seis meses atrás eu entenderia totalmente, mas naquele momento, depois de todo o inferno que minha vida tinha virado...
— Não, agora é que eu não consigo entender por que você quer arriscar tudo isso pra lutar. — Expus meus pensamentos e ela pareceu decepcionada.
— Eu estou lutando pelo meu lar, pelas pessoas, pra dizer para o meu filho que eu fiz o certo pelo pai dele. — Havia uma força impressionante nela, e foi triste, porque ela me fez lembrar de mim mesma, da "eu" que faria qualquer coisa pelo certo, a "eu" que tinha lutado e perdido tudo.
Me senti olhando pra mim mesmo no passado, e senti que precisava dizer o que eu queria que tivessem dito pra mim.
— Um lar não tem nada a ver com um teto e alguns muros, é tudo sobre as pessoas que estão nele, e em uma guerra são justamente essas pessoas que você perde. — Suspirei com a dor das lembranças. — No fim você só vai ter uma casa vazia, não vale a pena. Eu não conhecia o pai do seu filho, mas acho que ele...
— Não você não conhecia o Glenn. — Ela foi agressiva pela primeira vez. — Ele era bom e justo, corajoso e leal, e por isso que eu tenho que lutar! Você simplesmente não entende como é.
Tive que fechar as pálpebras, para que nenhum dos dois vissem as lágrimas que queriam escorrer pelo meu rosto.
Era muito triste, Maggie havia perdido o amor da vida dela, eu podia ver em seus olhos, então ela juntou toda a dor e resolveu lutar e tinha um bebê na barriga. Quão diferente aquilo era de mim mesma anos atrás? Sofrendo calada, enquanto quem me via de fora achava que eu era uma fortaleza.
Eu não queria ver aquela situação de perto. Eu não queria travar outra batalha contra Negan, eu estava exausta. Me chame de fraca, não me importo, eu estava cansada de ser forte, eu só queria pegar meus filhos e ir pra bem longe, pra um lugar onde Negan nunca me achasse.
— Eu entendo. Eu só não quero fazer mais parte disso... — Declarei, abrindo os olhos, e juntando toda a força que tinha em mim pra ser fria.
Olhar para Maggie só me dava a certeza de que eu devia preservar a única coisa boa que eu ainda tinha na vida: meus filhos.
E não havia "coisa certa", guerra, Negan ou "antigo amor voltando do inferno" que me faria mudar de ideia. Isso não era sobre eles, era sobre mim, eu não podia arriscar mais, simplesmente porque eu não tinha mais nada pra arriscar.
E sim, Daryl era o pai do meu filho, ele merecia a verdade, mas ele também era o homem que tinha dito na minha cara que não queria um filho. Então, enquanto houvesse qualquer chance da verdade ser um risco para Petter ou Luka, Daryl ficaria em segundo plano.
Ele não tinha mais a minha confiança, e talvez isso nem tivesse a ver com os eventos recentes das nossas vidas, tinha a ver com ele ter me abandonado quando eu mais precisava dele.
— Então acho que eu vou ter que pensar no que fazer com você. — Maggie decidiu, sem esconder sua frustração, e simplesmente virou as costas e saiu.
Daryl ainda ficou ali, me encarando em silêncio e andando de um lado para o outro, como era seu costume fazer.
Percebi que nossos papeis estavam trocados, eu era a prisioneira e ele o carcereiro. Infelizmente eu não podia contar que ele fizesse por mim o que eu tinha feito por ele, eu estava sozinha, e isso não era novidade nenhuma.
— Por que você está fazendo isso? — Perguntou finalmente, usando um tom acusatório que me deu certa raiva. — Por que está sendo tão sarcástica e inflexível, por que você se recusa a fazer a coisa certa?
O encarei por longos segundos. Percebi que sentia falta de nós dois. O "nós dois" da pedreira, antes dele partir meu coração e existir uma guerra se formando entre a gente. Eu sentia falta de nós dois em uma moto enfrentando o vento, e de brincadeiras hipotéticas para que ele se abrisse pra mim... Porque tudo que eu queria era entrar e fazer parte da vida dele.
Mas eu também odiava "nós dois". Odiava o "nós dois" daquele instante, odiava o que tínhamos nos tornado um para o outro. Odiava que ele me lembrasse dos tempos bons, e de como eu estava feliz antes dele destruir tudo no momento em que eu mais precisava daquela felicidade que ele era pra mim. Eu odiava que ele estivesse me fazendo culpá-lo por tudo naquele exato instante, porque eu tinha prometido a mim mesma que nunca o culparia, afinal ele não tinha culpa de ser quem era.
E eu realmente odiava que a simples presença dele me fizesse questionar tudo, até a prioridade que meus filhos tinham nas minhas decisões.
Daryl Dixon me fazia fraca. E eu não podia ser fraca naquele momento.
— Eu já disse que não é do meu interesse que o Negan morra. — Repeti uma frase de tempos atrás.
Eu só queria que o Daryl fosse embora. Só isso. Eu queria um momento para ficar sozinha e chorar, era como se houvesse um nó na minha garganta.
— Você ainda está apaixonada por aquele maldito, é isso? — A acusação de Daryl me fez rir, uma risada de puro desespero, porque aquela situação era ridícula.
— Eu não costumo me apaixonar por homens que me mantem em cativeiro. — Eu me protegi com sarcasmo.
Daryl sentiu a indireta, ele deu um passo para trás e desviou os olhos. E novamente eu odiei aquilo, odiei ter que quebrá-lo pra me manter inteira.
— Eu salvei a sua vida, e arrisquei muito pra fazer isso. — Ele queria passar alguma convicção com suas palavras, mas a verdade é que aquilo mais parecia um pedido de desculpas.
— Obrigada. Posso ir agora? — Movi meus braços totalmente presos para ilustrar.
— Eu não posso fazer isso... — Novamente era um pedido de desculpas.
Mas eu não queria ouvir desculpas, eu não queria entender a situação, eu queria ter o direito de sentir raiva, porque era como se a raiva me mantivesse viva.
— Então acho que seus atos nobres não significam merda nenhuma. — Retruquei o mais friamente que eu podia.
Daryl deu um passo pra trás e abaixou a cabeça, suspirou profundamente, antes de me encarar novamente com uma decepção tão profunda nos olhos, que eu tive que prender a respiração pra não chorar.
Então ele saiu, simples assim, sem dizer uma palavra ele foi embora, exatamente como ele tinha feito no dia em que deixou a minha casa, depois de me pedir para partir de Dawsonville.
Talvez aquele fosse o problema com a gente, ainda estávamos quebrados, e o tempo não tinha mudado isso, apenas acentuado cada rachadura aberta entre nós...
E foi isso, no momento em que ele fechou a porta, eu pude enfim soltar toda a dor presa em meus pulmões junto com a minha respiração.
Apenas me permiti chorar por um tempo, era como se tudo que eu fizesse não adiantasse nada, por mais que eu me esforçasse, não importava o quanto eu achasse que tinha progredido, eu voltava à estaca zero.
Eu não aguentava mais, estava exausta e infeliz e simplesmente não sabia quando é que eu tinha assinado aquela sentença...
Não sei quanto tempo eu fiquei ali, por alguns momentos eu simplesmente chorei, mas acabei percebendo que as lágrimas não adiantariam, eu tinha que continuar. Eu não queria, eu nem sabia se conseguia, mas era o que eu tinha que fazer.
O primeiro passo era descobrir onde eu estava, Alexandria não me parecia uma opção válida, mas a julgar pelo estoque, certamente era uma comunidade.
Ao mesmo tempo em que eu queria que fosse o Reino, eu também temia isso, as implicações seriam muitas, eu ainda estava tentando descobrir meu paradeiro, quando alguém abriu a porta, do que eu já estava convencida ser um porão.
Era um homem de meia idade, com um cabelo curto de tom castanho claro e traços que me pareceram familiares. Ele tinha uma garrafa de água e alguns comprimidos nas mãos.
— Seu ferimento estava bastante infecionado, precisa tomar os antibióticos e remédios para dor. — Explicou o que estava fazendo ali.
Eu tentei erguer minhas mãos, mostrando que eu estava amarrada como quem diz "e aí, como vai ser?".
— Eu posso...? — Se referiu a uma aproximação.
— Não é como se eu pudesse te atacar, é? — Respondi somente, e o homem se aproximou o bastante para me dar os comprimidos e a água.
— Você afetou mesmo os ânimos por aqui. — Tentou brincar, enquanto segurava a garrafa contra os meus lábios, mas eu não dei a menor trela. — Eu sou médico. Harlan Carson. — Se apresentou e eu finalmente descobri porque suas feições eram tão familiares.
— Você é o irmão do doutor Carson... — Afirmei. A história que rolava no Santuário era que o doutor Carson fora trazido de uma comunidade chamada Hilltop, que por fim acabou jurando lealdade a Negan.
Era uma das coisas das quais aquele maldito narcisista gostava de se gabar. Ter um médico no Santuário era um trunfo e tanto.
Presumi que estávamos na tal Hilltop, e aquilo me pareceu um pequeno progresso. Você tem que saber onde está pra poder fugir, certo?
— Você é conhece? — O médico perguntou, e parecia preocupado. — Ele está bem? Eu nunca mais o vi.
— Ele está. — Assenti.
Pelo menos eu esperava que estivesse, afinal Kane dependia dele, graças ao tiro que eu tinha disparado. Espero que aquele maluco esteja bem, eu não devia ter seguido a ideia louca dele.
— Que bom. — Harlan deu alguns passos para trás. — Eu tenho que ir. Me desculpe por... — Ele apontou pra mim em um movimento circular, se referindo ao fato de eu estar presa, e então saiu apressado.
Tive a impressão que ele só tinha descido ali para saber do irmão e todo o resto foi apenas uma desculpa. Coisas que a gente faz pela família...
Era por isso que eu não podia desistir, pela minha família. O primeiro passo era não estar mais presa naquela merda de cadeira.
Comecei a esfregar meu pulso contra o braço da cadeira, assim as cordas que me prendiam se desgastariam aos poucos.
Eu já estava fazendo isso há um bom tempo, de modo que meus pulsos estavam em carne viva, quando Maggie e Daryl entraram no lugar correndo, como se fugissem de alguma coisa.
Parei o que estava fazendo, agradecendo a escuridão daquela parte em que eu estava, pois assim talvez minha tentativa de fuga não fosse percebida. Maggie caminhou até mim, enquanto Daryl colocava algumas estantes com suprimentos na nossa frente.
Previ que tinha algo muito errado acontecendo.
— Os Salvadores estão aqui, e eu juro por Deus que se você tentar qualquer coisa, eu mato você. — Maggie ameaçou, me mostrando a faca que carregava e eu me mantive calada.
Salvadores estarem ali não era um problema apenas pra Daryl e seus amigos, eles eram um problema bem grande pra mim também. Então era do meu extremo interesse que não fossemos achados.
Os dois na minha frente estavam tensos, Daryl estava em alerta total e Maggie tinha uma mão na barriga, embora sua posição fosse agressiva.
Continuei, sutilmente, esfregando os pulsos nos braços da cadeira, a corda estava quase cedendo. Eu certamente não queria estar presa se um dos homens de Negan aparecesse ali.
De repente a entrada do lugar foi aberta e um deles entrou, deu uma olhada entre as coisas, pegou algumas, mas ainda estava há uma distância segura de nós.
Prendi minha respiração quando percebi que Daryl estava prestes a atacar, matar um Salvador ali, era o jeito certo de ser descoberto. Felizmente, Maggie o deteve e logo o capanga cretino de Negan foi embora.
Respirei aliviada, ao mesmo tempo em que Daryl corria para a porta, para checar a segurança. Maggie o seguiu e os dois começaram uma conversa logo depois, mas eu não me preocupei em prestar atenção, não só porque eles conversavam aos sussurros, mas porque eu estava mais preocupada em me livrar das cordas.
Percebi quando os dois se abraçaram depois de um tempo, e presumi que estavam falando do rapaz que Negan havia matado.
Fiquei feliz por Daryl, quer dizer, eu sempre quis que ele tivesse coisas boas e fosse cercado por pessoas que o compreendessem e amassem como ele merecia. Ele tinha isso com aquele grupo, aquelas pessoas pareciam ser pra ele tudo que eu nunca consegui ser.
Talvez o problema fosse eu...
Eles estavam prestes a sair, e eu finalmente tinha conseguido me livrar das cordas, quando a coisa deu muito errado.
— Eu já vou pegar, que merda! Você mesmo podia ter feito isso. — Uma voz de sotaque italiano, que eu reconheci de imediato, gritou, no momento em que a porta foi aberta novamente.
O que Tony está fazendo aqui?
Daryl e Maggie não tinham como se esconder, e já que Tony conhecia Daryl, eles não tinham nem como inventar uma desculpa.
Presumi que, com todas as merdas que eu tinha causado no Santuário, Tony tivesse finalmente conseguido um lugar nas missões externas, e se o descendente de italianos estava ali, então Simon também estava. O que tornava tudo muito pior.
Aconteceu muito rápido, Tony rendeu os dois, e usou Maggie de refém pra isso, já que estava bem claro que Daryl queria acabar com ele.
Então os três estavam lá em um impasse, Tony com Maggie na frente do corpo, e uma arma em sua cabeça. Daryl com a faca na mão e uma postura assassina.
Tudo isso enquanto eu estava oculta pelas sombras, já livre de qualquer coisa que me prendesse na cadeira.
Eu podia continuar ali, e esperar a merda bater no ventilador, talvez me encontrassem, talvez não. Mas isso significava assistir enquanto a desgraça acontecia. Na melhor das hipóteses os três ali acabariam mortos, Maggie por causa da arma em sua cabeça, Tony por causa de Daryl e depois o próprio Daryl, quando os Salvadores vissem que o cozinheiro estava demorando demais.
E, na pior das hipóteses, eles acabariam nas garras do Negan e eu sequer tinha estômago pra imaginar o que aconteceria com eles lá.
Mas que merda!
— É bem simples, vocês vêm comigo, e vai ficar tudo bem, Simon vai levá-los para o Santuário e Negan vai adorar ver vocês. — Tinha uma quantidade enorme de deboche na voz de Tony.
Convenci a mim mesma que impedir aquilo seria autopreservação, mas lá no fundo eu sabia que era mentira, autopreservação de verdade seria me esconder no fundo do lugar e esperar que acabasse.
Foda-se, já estou na chuva mesmo.
— Eu não faria isso se fosse você... — Sugeri, saindo das sombras e dando um passo na frente das prateleiras.
Automaticamente todos os olhares se voltaram pra mim, mas eu não tinha tempo de adivinhar o que se passava nas mentes de Daryl e Maggie, meu foco tinha que ser somente Tony.
— Natalie? — Ele ficou obviamente surpreso em me ver ali, puxou um pouco Maggie, de modo que ela ficasse bem na minha frente e ele me olhasse por cima dos ombros dela.
— Tony, Tony... — Dei alguns passos na direção dele. — Parece que você conseguiu seu posto, afinal. — Tombei a cabeça para o lado e deixei que cada palavra minha tivesse uma nota irônica de ameaça.
— Você matou alguns dos nossos e atirou no Kane, Negan precisava de reforço. — Explicou rapidamente, mudando de posição conforme eu caminhava.
Maggie franziu as sobrancelhas, talvez no intuito de entender o que estava acontecendo ali.
— Acho que você me deve um agradecimento então... — Dei de ombros, usando um tom quase bem-humorado.
Passar todo aquele tempo com Negan tinha me ensinado uma ou duas coisas sobre os métodos dele, nenhuma delas era boa, mas não era hora de pensar em moralismo.
— Eu vou. — Tony garantiu, senhor de si o bastante, para que eu o comparasse com qualquer Salvador cretino do Santuário. — Principalmente depois que entregar todos vocês ao Negan e contar que você estava conspirando contra ele.
Daryl deu um passo para frente, como se pudesse pular no pescoço de Tony naquele momento, mas eu segurei seu braço no impulso.
Ele parou, imediatamente, não sei dizer se foi por sensatez ou se foi pela surpresa que meu toque causou nele. Minha mão formigou, a textura da pele de Daryl sob meus dedos enviou ondas de choque por todo meu corpo, mas eu sabia que não podia perder o foco daquele jeito, então simplesmente o soltei, dando mais alguns passos para frente e continuando meu joguinho com Tony.
— Conspirando? — Repeti, como se estivesse ofendida. — Não seja tão ingênuo, estou em uma missão, estou espionando. Vi uma oportunidade de descobrir todos os planos do Rick e estou fazendo isso.
Tony piscou, três segundos de hesitação, foi o bastante pra saber exatamente onde eu devia atacar.
— Viu? Você acreditou. E eu nem tive que me esforçar... — Fui irônica e convencida, rodeando seu corpo sutilmente, como um animal prestes a dar o bote. — Imagina quando eu contar essa história para o Negan, sendo bem mais convincente? Eu direi que você estragou o meu plano, posso até levantar a hipótese de uma conspiração, seu segredinho com o Simon certamente virá à tona.
Não era justo ou certo, ninguém deveria ser depreciado ou menos relevante que outra pessoa baseado em sua orientação sexual, mas aquilo não era sobre o meu moralismo, aquilo era sobre tirar a arma da cabeça de uma mulher grávida.
Eu já tinha chafurdado na lama do Santuário mesmo, um pouco de sujeira a mais ou a menos não mudaria o peso que aquilo tinha em mim... Pelo menos eu achava que não.
— Considerando que a corda sempre estoura do lado mais fraco, e que Negan é obcecado por mim, quem você acha que vai se sair mal nisso? Tem certeza que quer ter suas atividades sexuais expostas em um lugar como o Santuário? Porque, não importa o que vai acontecer comigo, eu vou contar. — Ameacei, quando estávamos cara a cara, apenas Maggie entre nós.
Eu me senti o próprio demônio naquele momento, uma criatura vil e sem escrúpulos que não mede esforços pra conseguir o que quer. Mas isso não me fez abaixar a cabeça, não me fez pestanejar ou hesitar.
— A menos que eu te mate primeiro... — Tony revidou, se desvencilhando de Maggie e colocando a arma bem na frente da minha testa.
A primeira parte do meu plano tinha dado certo. Encarei Maggie por meio segundo, apenas pra me certificar que ela estava bem, não parando tempo o bastante para medir duas reações, e então voltei meus olhos para Tony.
— Tudo bem, vá em frente. Como Negan diz, nada mais importa se você estiver morto, não é? — Dei um passo para frente em desafio, fazendo o cano frio da arma encostar na minha pele, eu estava apostando alto. — Você atira em mim, eles matam você. Eu vou estar morta, mas você também.
Eu esperava que Negan tivesse mexido o bastante com a cabeça do coitado para que o que eu dizia fizesse sentido pra ele. A verdade é que cada homem ou mulher no Santuário era tratado como um animal usando antolhos, Negan os oprimia tanto que eles esqueciam da realidade ao redor deles.
A maior parte das pessoas ali não conseguia ver a situação como um todo, por isso achavam Negan praticamente um Deus, o trabalho de persuasão daquele maldito era tão perfeito que, no fim, tudo que restava era a visão de que ele era de fato a salvação e, para aqueles que saiam da linha, ele podia ser a personificação perfeita da destruição.
Tony estava indeciso, ele não era do tipo que pensava tão rápido, ou que podia ver a reação dominó que suas decisões poderiam causar.
E aquela era minha maior vantagem sobre ele.
— Do meu ponto de vista cada movimento que você está planejando agora não vale o risco. Você devia pegar o que veio buscar, e dar o fora, aproveite seu tempo nas rondas com o seu príncipe não-tão-encantado. Ou você pode arriscar tudo isso pelo Negan, vale a pena? — Minha pergunta final era um ultimato.
Fiz parecer que as opções eram escassas e que eu realmente tinha chances de ganhar, afinal esse era o segredo de um bom blefe, certo? Fazer seu oponente achar que você tem todas as chances quando na verdade você tem nenhuma.
E era exatamente isso que tínhamos: nenhuma chance. Negan não me perdoaria por ter matado dois dos seus, atirado em outro, facilitado a fuga de um prisioneiro e uma de suas esposas, e principalmente, ele nunca me perdoaria por tê-lo enganado.
Quanto a Daryl e Maggie, eu nem queria pensar qual seria o destino deles...
A mão de Tony tremeu e ele levou mais alguns segundos para tomar sua decisão. Era como se o clima ali fosse tão tenso que eu podia cortá-lo com uma faca.
— Você é igualzinha ao Negan... — Ele declarou, dando um passo para trás e pegando algumas coisas, ainda com a arma apontada para mim. — Uma maldita manipuladora, espero que você queime no inferno!
As palavras de Tony tiveram um efeito catastrófico em mim, porque eu saiba que eram verdade. Para escapar do Santuário eu tinha me tornando uma versão daquilo que eu mais odiava, tive que me proclamar Negan pra sair daquele jogo maldito, e no fim foi exatamente o que eu me tornei. Eu era Negan.
Tony saiu por onde tinha entrado, sem dar as costas por um só segundo.
Tinha acabado, estávamos salvos, mas não era assim que eu me sentia... Era como estar perdida. Até onde toda aquela merda valia mesmo a pena?
— Pois é, acho que estamos quites com aquela coisa de salvar vidas... — Declarei, antes de finalmente me virar para os dois ali comigo.
Daryl estava assustado, isso estava perfeitamente claro em seus olhos azuis, mas também havia uma certa ponta de alívio em sua postura. Maggie, por outro lado, tinha um semblante que não mostrava emoção alguma, era indecifrável e, pela primeira vez desde que tinha acordado naquele lugar, senti medo dela.
— Ele ainda pode contar pra todos eles. — Daryl foi o primeiro a se pronunciar, mas o fez em um tom neutro, era quase como se ele quisesse saber se eu tinha pensado naquela hipótese.
— Ele não vai. A partir do momento em que ele não nos entregou na hora, ele simplesmente não pode nos entregar mais. — Pensei em explicar como aquele tipo de coisa funcionava no Santuário e em como Negan veria a simples informação tardia como falta de lealdade e puniria Tony mesmo que fossemos pegos depois, mas achei desnecessário entrar naqueles pormenores. — Então, vocês vão me prender outra vez, eu será que eu posso ir?
Estendi meus pulsos teatralmente e percebi Daryl encarando os ferimentos neles. Havia culpa em seu olhar, ele me lembrou aquele rapaz de Dawsonville, no fundo eu já sabia disso, Daryl Dixon ainda era o mesmo Daryl de sempre.
Estava prestes a abaixar meu pulso, e dar aquela situação como finalizada, quase sentindo uma certa felicidade em finalmente poder sair dali e retomar minha busca pelos meus filhos, quando Maggie se pronunciou.
— Não você não pode. — Ela estava me ameaçando com uma faca.
Mas que caralho!
— O que? Eu acabei de salvar a sua vida! — Protestei, no limite da incredulidade e da raiva.
— O que eu vi foi você salvando a própria pele, e jogando com alguém que provavelmente era seu amigo e que te confiou um segredo. — Ela acusou, e a pior parte foi que seu argumento era perfeitamente válido. — Você não é confiável. Você não tem lealdade.
— Maggie... — Daryl tentou intervir, mas talvez não soubesse o que dizer depois, ou apenas não conseguisse escolher um partido.
— Não. Você ouviu, Daryl, ela é igual ao Negan, e eu não vou deixar alguém com esse caráter solta por aí, sabendo da minha gravidez. Eu não vou arriscar. — Ela estava olhando dentro dos meus olhos quando disse aquilo, e eu me senti exposta e julgada como nunca antes.
Era irônico que o motivo de não confiarmos uma na outra fosse nossos filhos.
Apenas ergui as mãos em sinal de rendição, antes eu tivesse ficado presa na maldita cadeira, pelo menos teria mantido alguma parte mínima dos meus princípios intacta.
— Alexandria tem uma cela, vou pedir que Rick a leve pra lá, já que ela parece muito boa em fugir. — Maggie declarou muito senhora de si.
Era como um lopping infinito onde eu sempre estava voltando para o mesmo lugar: Presa e longe dos meus filhos. E daquela vez a pior parte era que eu sequer conseguia sentir raiva da Maggie por ser, no mínimo, ingrata, afinal no lugar dela eu faria exatamente a mesma coisa...
Fale com o autor