Lifeline — Destiny Don't Give Up
18 Coisas Que Você Me Ensinou
Notas iniciais
• LUCENA DAVIS •
Quando você quebra uma perna, se não tratar o ferimento imediatamente, haverá sequelas, às vezes, mesmo com tratamento rápido o ferimento foi tão intenso que as sequelas permanecerão com você a vida toda. E eu não falo apenas da cicatriz...
Imagine quebrar essa mesma perna, de novo e de novo, consecutivamente no decorrer de anos. Sem nunca tratar direito, sem nunca ficar tempo o bastante com o gesso... O que você acha que vai acontecer? Mesmo se por um milagre de Deus você encontrar alguém que trate a sua perna e que se certifique que nada mais vai feri-la outra vez... O que você acha que acontece?
Você manca para o resto da vida, é simples, qualquer um vai chegar nessa conclusão.
O irônico, é que as pessoas nunca pensam o mesmo sobre os traumas. Poucas vezes alguém olha para as situações da vida que ferem o nosso emocional, da maneira que olhariam para algo que nos feriu fisicamente.
Eles dizem "esqueça", "acabou", "não vai acontecer mais". Porém o ferimento ainda está ali, as sequelas ficam, mesmo que tenha curado...
Certas coisas deixam cicatrizes profundas. Ser achada no lixo, abandonada pela sua mãe, com nada mais que uma carta. Deixa cicatrizes... Ser lembrada constantemente disso conforme cresce, piora essas cicatrizes.
Minha vida foi marcada pela rejeição, desde uma mãe que não quis um bebê porque "não podia fazer isso sozinha", até crescer em um lugar sabendo que eu nunca seria boa o bastante.
Não existe justiça dentro de um orfanato. Todas as crianças sofrem, mas, eventualmente, percebi que mesmo que ninguém ali tivesse família, não éramos iguais. Há distinção entre as crianças, mesmo no que diz respeito à administração.
Aos cinco anos eu já sabia que apenas as crianças brancas conseguiam família. Olhos claros, bochechas rosadas e cabelo loiro sempre eram os primeiros escolhidos no dia de adoção. Aos sete eu percebi que não era apenas a minha cor de pele que me privava de ter pais. Eu estava crescendo. Adotantes preferem os bebês. É um mundo cruel...
Roupas comunitárias. Quartos superlotados. Falta de amor. Papai Noel e Fada do Dente são histórias pra quem tem família. Sonhos e ilusões são uma armadilha perigosa para uma criança de orfanato.
Aos doze, minha herança genética me diferenciou ainda mais das outras meninas do orfanato, meu sangue latino me deu mais que uma pele escura que nenhum pai queria. Ele me deu peitos, e bunda, e sangue escorrendo pelas minhas pernas.
Coincidentemente nessa mesma época o senhor Davis, dono do orfanato, ficou muito amável comigo. Ele me trazia doces e me deixava comer na sala dele, me dava coisas que as outras crianças não tinham... Eu me senti especial pela primeira vez na vida. Pensei que tudo bem deixar que ele colocasse a mão na minha perna de vez em quando...
Com o tempo a mão dele não estava só na minha perna, não eram mais os doces que ele queria colocar na minha boca...
Não me lembro quando eu percebi que não queria mais aquilo, não lembro quando eu me dei conta que era errado. As coisas se tornaram um pesadelo muito rápido. Ele disse que era minha culpa, que eu tinha provocado aquilo. E eu acreditei. Ele disse que ninguém nunca me amaria, eu sempre seria a criança que jogaram no lixo. E eu acreditei também.
Aos catorze os cortes começaram, em lugares que as pessoas não pudessem ver. Às vezes, quando a dor é grande você encontra formas inusitadas de aplacá-la. Me lembro de pensar em cortar fundo o bastante, me lembro de pensar nisso mais de uma vez. Mas eu sempre fui covarde. Essa era a verdade sobre mim. Nua e crua.
Eu não fugi, eu não morri, eu não lutei, eu apenas fiquei ali parada esperando por mais uma sessão particular com o diretor. Essa minha vida.
Minha mente continuava procurando por um motivo. Talvez ele me amasse, talvez o amor fosse daquele jeito mesmo... Eu não sabia. Vivi tempo demais daquilo sem saber.
Eu tinha quinze quando Natalie Cooper chegou ao Sant Davis. Era meu aniversário. Mas ninguém se lembrava disso...
Ainda lembro das crianças mais novas se aglomerando pra conseguir ver a madame do carrão. Eles pensavam que Natalie estava ali pra adoção. Eu não me importei. Fazia anos que não me importava mais.
Eu estava sentada nas escadas pintando um bolo de aniversário em um papel quando ela se sentou do meu lado. Foi a primeira vez que alguém falou comigo durante uma visita.
Não confiei nela do dia pra noite, eu tinha medo. Natalie era uma mulher que fazia muitas perguntas. Coisas sobre as quais eu não queria falar. E o senhor Davis ficava muito tenso quando ela aparecia.
Eu não confiei nas promessas, não acreditei em nada do que ela disse. Mas eventualmente tudo se tornou verdade. E mesmo quando acabou eu levei muito tempo pra acreditar.
Recebi tratamento, foi difícil e doloroso, mas eu consegui. De repente eu não era mais a garota assustada e covarde, eu aprendi a lutar. Eu teria marcas e sequelas, era parte de quem eu era... Mas assim como alguém que foi condenado a mancar a vida toda pode fazer coisas extraordinárias, apesar de suas limitações físicas. Sobreviventes de traumas podem fazer coisas extraordinárias, apenar das marcas que ficaram.
Eu levei muito tempo pra entender essa última parte...
Mas então, três anos depois, no meio de um apocalipse zumbi, eu finalmente sabia. Eu podia fazer a diferença, eu podia lutar. Eu tinha que lutar.
Mas isso também tinha outros significados, e por isso eu estava tão nervosa naquele momento, andando de um lado para o outro naquela casa de Alexandria.
Petter tinha capotado em um dos quartos, eu não conseguia entender como ele estava tão calmo, enquanto omitia da mãe que sabia que o pai dele estava bem ali. Eu nunca conseguiria esconder nada de Natalie.
Mas Petter disse que ainda não era a hora de contar, e que não faria isso se fossemos mesmo embora. Natalie estava em primeiro lugar pra ele. Ainda bem.
Eu não diria isso em voz alta, mas seria muita sacanagem ele ficar do lado do pai, que nem conhecia direito, em um momento daqueles. Petter podia ter ilusões utópicas sobre o homem, mas eu via as coisas mais claramente... Eu não gostava do tal Daryl Dixon. Ele não merecia Natalie.
Talvez por isso ela quisesse ir embora... E era exatamente aí que residia nosso impasse.
A porta da frente se abriu em um rompante e uma Natalie Cooper claramente abalada passou por ela. Era diferente da mulher que tinha passado o dia conosco, embora essa também fosse diferente da pessoa com quem eu tinha vivido os últimos anos da minha vida.
Natalie estava diferente, eu ainda não entendia por que ou quanto, mas eu sabia...
Estagnei onde estava e Natalie não me percebeu de imediato, havia uma perturbação dolorosa em seu olhar. Deduzi que estar perto daquele homem fazia mal pra ela...
Então ela me viu, sua postura mudou e seus olhos se iluminaram. Existe algo quase magico sobre Natalie Cooper e a forma como ela olhava pra mim, eu podia sentir o amor. Por isso era tão difícil fazer o que eu estava prestes a fazer.
— Oi! Pensei que estivesse dormindo... — Ela sorriu, dando alguns passos na minha direção, como se a cena na porta nunca tivesse acontecido
— Tudo bem? — Perguntei preocupada, apenas um reflexo do que ela tinha me dado de exemplo todos aqueles anos.
— Claro. Está tudo ótimo. — Natalie fez um gesto banal com as mãos e seguiu para a cozinha em busca de água.
Ela estava mentindo. Soube disso em meu íntimo. Eu tinha certeza que era aquele cara, ele a machucava. E eu o odiei um pouco mais naquele momento.
Natalie nunca falava do pai do Petter, nas raras vezes que o garoto fazia perguntas demais ela respondia da melhor forma, nunca falando mal do homem ou algo assim. Mas depois, quando Petter dormia e Natalie ficava sozinha, ela parava na janela e ficava olhando o nada por muito tempo. Ela chorava durante a noite. Eu conhecia uma ou outra coisa sobre dor, sabia que ela estava machucada. Sabia que aquele homem era um desses ferimentos que nunca saram.
Petter não sabia de nada disso. Nunca entendi por que Natalie o mantinha em uma bolha de ilusão, falando do pai do garoto como se ele fosse um herói, das vezes que era obrigada a falar dele. Mas Natalie tinha essa mania de proteção e cuidado, era uma coisa muito dela.
Alguns diriam que é coisa de mãe. Não pra mim. Nunca tive um bom exemplo de mãe. Pra mim era coisa de Natalie.
— A gente precisa dormir, saímos bem cedo amanhã. — Falou, passando por mim e, como sempre, bastou me olhar pra saber que tinha algo errado. — Algum problema?
Engoli em seco. Era como estar entre a cruz e a espada de duas coisas que eu queria. Mas eu não podia guardar aquilo comigo.
— Eu não posso ir, Natie... — Falei de uma vez e ela me encarou como se não entendesse.
— Dormir? — Franziu as sobrancelhas, fazendo a suposição errada. — Eu sei que o grupo do Rick é meio estranho, mas eles não são ruins... Um pouco idiotas e teimosos certamente, mas não são ruins. Ficaremos seguras aqui essa noite.
Ela esfregou meus ombros com carinho, me passando todo o conforto possível. Das muitas coisas que eu aprendi com Natalie, uma delas foi a ser bem direta. Eu não podia mentir pra ela, não se mente pra alguém que fez por você o que Natalie tinha feito por mim. Uma das primeiras coisas que combinamos foi que eu podia falar qualquer coisa pra ela.
Então eu falei:
— Eu não posso ir com você... embora.
Eu tremia dos pés à cabeça. Não era uma decisão fácil. Não era o que eu queria realmente, mas eu não podia obrigar Natalie a ficar, e sabia que não podia ir. Não depois de tudo que aconteceu com Benjamin.
— Do que você está falando? — Não havia raiva ou indignação na voz dela. Era apenas uma pergunta simples. Natalie estava tentando entender meus motivos.
Ela sempre fazia isso, sempre procurou escutar primeiro, nunca julgou. Por isso era tão difícil.
— Eu entendo, sério, entendo mesmo porque você tem que ir, quer dizer, você quase perdeu o Petter e aposto que foi horrível, mas eu não posso... — Falei tudo de uma vez, andando de um lado para o outro. — Eu tenho que ficar e lutar.
— Luka, isso é perigoso, o mais provável é que metade dessas pessoas acabe morta, ou pior... — Natalie tentou argumentar, havia um certo nervosismo em sua voz, se eu não a conhecesse muito bem diria que estava com medo.
Mas Natalie não tinha medo. Pelo menos eu achei que não.
— Eu sei... Eu só não... — Não tinha uma forma de explicar, a menos que eu contasse toda a verdade. — Havia um garoto no Reino, Benjamin. Eu o deixei se aproximar de mim, e eu não deixo as pessoas se aproximarem. Nunca.
A postura de Natalie suavizou, foi como se ela visse a realidade com mais clareza. Tentei me manter firme, não deixar a emoção me dominar e não chorar.
Eu queria entrar em uma guerra, ser fraca não era mais uma opção.
— Ele está morto agora. Por causa dos Salvadores. Foi por isso que o Reino resolveu entrar na luta. E eu não posso dar as costas pra isso. Quer dizer, não é só sobre o Benjamin, sabe? Eu só... Eu não posso voltar a ser aquela garota outra vez. — Deixei meus ombros caírem, aquela era a verdade.
Benjamin era apenas a ponta do iceberg. Na verdade, eu tinha que lutar para honrar a mim mesma. Para honrar tudo que eu tinha aprendido com Natalie.
— Eu mudei, você me ensinou a ser forte e fazer o certo, você me salvou de todas as formas que uma pessoa pode salvar alguém, me fez acreditar na vida outra vez, me tirou da escuridão e me mostrou a luz. Você me ensinou a lutar pelo que é certo e justo, mesmo quando é difícil, e fez de mim alguém melhor. E eu vou sempre ser grata e te amar por isso. Mas eu não posso ir com você. — Fui mais firme, Natalie tinha me ensinado a ter princípios, tinha me ensinado a lutar pelo que eu acreditava.
E eu acreditava naquilo, então eu tinha que lutar, mesmo que isso significasse ver Natalie e Petter irem embora. Eu não podia forçar as dois a lutarem minhas batalhas, afinal Natalie já tinha feito isso por mim.
— Luka eu... — Ela tentou argumentar, mas eu a detive.
— Eu não estou julgando você, eu juro. Eu entendo porque você quer partir, mas eu não posso ir, não posso mais ser aquela garota. Eu não quero voltar a ser aquela garota. — Reforcei, outra coisa importante que eu havia aprendido com ela era a respeitar o tempo de cada pessoa.
Ela me observou por um tempo, como se procurasse o que dizer, mas não encontrou, abaixou a cabeça. Era difícil deixar Natalie sem palavras.
— Por isso eu tenho que ficar. Talvez a gente vença, talvez não, mas eu quero fazer parte disso, é certo, é uma luta que vale a pena lutar! — Havia um nó na minha garganta, que se tornava cada vez maior então eu tive que terminar tudo de uma vez. — Talvez você esteja certa e metade dessas pessoas morra, talvez eu morra, mas eu teria morrido lá atrás, se não pelas mãos daquele homem nojento, pelas minhas próprias. Você me fez uma guerreira, e se eu morrer por algo em que eu acredito, então eu terei uma boa morte.
— Luka, me escuta... — Natalie ergueu a mão direita como se pedisse calma, mas eu sabia que não podia ficar ali, não naquele momento, não sem chorar.
— Desculpa. — Neguei algumas vezes e saí o mais rápido que podia.
Assim que ganhei as ruas de Alexandria o choro veio, sentido e sofrido. Era um sentimento péssimo, eu me sentia traindo a Natalie, mesmo que estivesse fazendo exatamente o que ela me ensinou a fazer.
No fundo eu sempre soube que os Cooper não seguiriam pra sempre na minha vida, cedo ou tarde eu teria que seguir sem eles. Crescer. Mesmo que fosse confortável e aconchegante me sentir parte de uma família, me sentir amada e apoiada como nunca antes.
Uma parte de mim sempre acusou que eu não me encaixava, como se eu não pertencesse aquele lugar, como se eu estivesse usurpando aquela vida.
Natalie nunca me tratou diferente, Petter me acolheu de braços abertos, mesmo assim havia aquela partinha de mim que cismava em sabotar tudo, dizer que nunca daria certo, que eu era só um projeto de caridade...
E eu já estava tão acostumada com a perda que pensei que fosse o rumo natural da vida. Mesmo encarar a morte de Benjamin e a queda de Sherwood não tinham sido de grande impacto em mim. Pessoas morrem, coisas acabam, cresci sabendo disso. Nada é eterno. Nada dura.
Como eu disse, não importava que a ferida já tivesse sarado, as sequelas ainda estavam lá, eu era uma garota deficiente, não fisicamente, mas emocionalmente, e eu sabia disso, tentava lidar com o problema, mas tinha coisas que nunca diria pra ninguém, nem mesmo para a terapeuta.
Tentei me acalmar, respirar fundo e colocar as emoções no lugar. Claro que era difícil ficar, me separar de pessoas que eu amava e que foram o meu único porto seguro, mas o fato de ser difícil só me fazia ter mais convicção que era o certo a fazer, porque fazer o certo nunca é fácil...
Resolvi procurar algo de útil para me ocupar. Distrair minha mente com trabalho sempre ajudava a me acalmar.
Segui para a entrada de Alexandria, avistando um pequeno grupo do Reino por ali. Me aproximei sem nenhum receio, o único motivo de eu não ter seguido com o grupo que saiu da nossa comunidade, junto com Ezekiel, logo de cara, tinha sido o Petter, eu nunca deixaria o garoto sozinho no Reino, ainda mais sabendo que ele certamente faria alguma coisa impensada.
Mas eu sabia que era tão, ou até mais, capaz que qualquer um ali.
Ezekiel dava algumas ordens, mandando alguns descansarem e outros se juntarem ao grupo Alexandrino para um tipo de ronda. Jerry ficaria no portão de vigia.
— Tem espaço pra mais um nessa vigia, majestade? — Perguntei neutra. Ainda era estranho tratar um cara comum como se ele fosse um rei.
Mas Ezekiel tinha se mostrado um líder justo e bondoso, então, se a ilusão de monarquia fazia as pessoas se sentirem bem, quem seria eu pra estragar tudo, não é?
Cada um lida com seus problemas de uma forma. Manter um faz-de-conta não era tão absurdo assim, principalmente se considerássemos a bizarrice que o mundo tinha virado.
— Achei que estaria com seus familiares, jovem Lucena. — Ezekiel sorriu, amigável como sempre.
Jerry subiu na plataforma que lhe dava visão do lado externo dos muros e o restante seguiu as ordens recebidas e dissipou.
Não esperei uma resposta, apenas caminhei até o portão e assumi uma posição ali, mas Ezekiel parou do meu lado, apoiando seu cajado no chão e colocando as duas mãos sobre ele enquanto olhávamos para o nada.
— Devia descansar para sua viagem ao amanhecer, a estrada oferece perigos esperados e inesperados, é mais proveitoso que esteja atenta. — Não dava pra negar que toda aquela firula pra falar tinha um certo impacto. Ou era engraçado, dependia do ponto de vista e do meu humor no dia.
Naquele dia em especial, achei que teve mesmo um certo impacto. Resolvi abrir o jogo de uma vez e poupar qualquer conversa constrangedora.
— Eu não vou com eles. Vou ficar e lutar pelo Reino, e pelo Benjamin, ele era me amigo também. — Dei de ombros, como se fosse a decisão mais banal de todas e como se não estivesse afetando minha mente de nenhuma forma.
— Sua mãe mudou de ideia? — Ele questionou surpreso.
Natalie e Ezekiel haviam conversado mais cedo, ele ofereceu um lugar para ela no Reino, coisa que Natalie negou com educação, agradecendo novamente e contando sobre seu desejo de partir.
E lá estava outra característica de Natalie que havia me pegado de surpresa no começo. Quer dizer, você não espera que uma mulher que cresceu no meio da riqueza seja tão agradecida daquele jeito, nem tão humilde.
O meu primeiro pensamento ao ver Natalie Cooper foi que ela devia ser apenas mais uma garota rica e entediada com a vida, que preferia adotar um neném branquelo, apenas porque não queria estragar o próprio corpo com a gravidez.
Eu errei feio...
Depois de passar algum tempo com Natalie, qualquer um vê a pessoa maravilhosa que ela é, compreensiva, generosa e forte. Com meus quinze anos ela parecia uma daquelas heroínas da TV, mas ainda melhor, afinal heroínas da TV não são reais.
Quinze anos? Qual é, vamos ser honestos, eu sempre veria Natalie como uma heroína, por isso me esforçava tanto pra honrar tudo que ela me ensinou.
— Não, ela não mudou... — Tentei soar neutra. — E ela não é minha mãe.
Ezekiel tirou os olhos da escuridão e virou o rosto para mim, totalmente confuso.
Ah, vamos lá! Qualquer um que olhasse pra nós duas saberia disso, Natalie não era mais velha que eu nem dez anos, seria impossível ser minha mãe, mesmo se ignorássemos todas as diferenças físicas.
— Ela parecia bem maternal, na minha humilde opinião. E Sir Petter é seu irmão, certo? — Ezekiel não se deu por vencido.
Suspirei, negando algumas vezes antes de me convencer a explicar. Eu não costumava falar com as pessoas sobre esse assunto.
— Natalie é minha tutora legal, cresci em um orfanato, sou acostumada a ter irmão que não tem nenhum parentesco comigo. — Dei de ombros, procurando medir meu tom para não ser rude ou nada assim. — Ela me tirou de lá quando eu tinha pouco mais de quinze anos. Eu sou muito grata, ela me ajudou muito, me deu um lar, me alimentou, me deu estudo e coisas que eu jamais teria no orfanato, ela também me ensinou a sobreviver e a fazer a coisa certa. Mas ela não é minha mãe...
Eu entendia que as pessoas não conseguiam ver o que eu via, afinal elas não tinham passado pelo que eu passei, por isso eu não costumava explicar aquele ponto em especifico do meu pensamento.
— Ela te amou? — A pergunta me pegou de surpresa, mas eu não precisei pensar para responder.
— Claro.
Algo que eu demorei a me acostumar quando fui viver com Natalie era a facilidade com que ela e Petter sempre disseram "eu te amo".
Acontecia a todo momento, por nenhuma razão aparente, e foi um choque pra mim quando ouvi pela primeira vez.
Não falamos de amor em orfanatos, sabemos que não somos dignos disso, é como um sonho que você nunca alcança. Então ter uma pessoa que te diz isso várias vezes ao dia, era quase como viver outra vida.
Eu perguntei para Natalie sobre isso uma vez. "Pra que tantos eu te amo?"
Ela disse que queria se certificar que cresceríamos sabendo que éramos amados, e que sempre seriamos amados, independente de qualquer coisa, queria que nos acostumássemos a sentir amor, assim nunca estranharíamos ou nos assustaríamos quando fossemos amados por alguém.
"Algumas pessoas têm medo de ser amadas. Elas cresceram sem amor e por isso acreditam que não podem ser amadas, que não merecem isso, e quando o amor bate à porta, essas pessoas simplesmente o mandam embora." Essas foram as exatas palavras dela
Me lembro de ter pensado por um instante que era sobre mim, mas algo nos olhos de Natalie deixou claro que era sobre outra pessoa...
— Não é o sangue, ou o nome que faz uma mãe, jovem Lucena. É cuidado, carinho, amor. Se Natalie fez mesmo por você, tudo que me disseste, então ela é mais sua mãe do que qualquer outra pessoa virá a ser um dia. — Ezekiel terminou seu discurso/lição de moral, e se virou para ir. — Pense nisso.
Eu sabia que ele estava certo, mas como explicar que "mãe" não significava a mesma coisa pra mim? Minha mãe tinha me abandonado, então, na minha visão, era isso que as mães faziam. Por isso eu não conseguia ver Natalie como minha mãe... Eu tinha medo de deixar que ela assumisse esse posto e de dar tudo errado depois disso.
Então eu apenas o deixei ir, e assim a noite foi passando. Horas depois Jerry perguntou se eu podia ficar uns segundos sozinha, ele não disse, mas eu sabia que estava indo atrás de um lanche.
Assumi a plataforma e fiquei olhando o nada. Não demorou muito e eu vi um vulto se aproximando pela rua, no interior de Alexandria. Era um homem e assim que sua silhueta foi iluminada pela parca luz noturna eu o reconheci: o pai do Petter... se é que dava pra chamar aquele cara de pai, não é? Fiz uma careta involuntária.
Eu sabia que tinha que controlar aquele ranço gratuito do cara, ainda mais porque estaríamos lutando do mesmo lado em breve, mas eu não conseguia. Talvez fosse projeção... Naomi Parker, minha terapeuta, disse que seria normal se eu começasse a projetar meus traumas em outra pessoa.
E Daryl Dixon era meio que a personificação perfeita dos meus problemas. Na carta que minha mãe deixou comigo quando me abandonou, dizia que ela não podia "fazer aquilo sozinha" que meu pai não me quis... Provavelmente algum cara branco que engravidou a mulher por descuido, e depois a abandonou.
Eu deduzia que meu pai fosse branco porque estava na cara que eu era mestiça, e já que minha mãe tinha escrito algumas coisas em espanhol, o americano só podia ser o cara.
Coincidentemente Daryl tinha feito a mesma coisa, abandonado a Natalie grávida, ou pelo menos era isso que eu achava. Se ela não fosse forte, talvez o Petter tivesse sido jogado no lixo também, ou quem sabe ele nem teria nascido.
Então, sim, talvez meu ranço fosse pura projeção, mas saber disso não ajudava em nada.
Daryl vinha na direção do portão, abriu a grade e saiu sem me lançar um só olhar.
Ele parecia abalado, como se fugisse de alguma coisa, mas eu não me preocupei realmente, porque minha mente acusou que era uma tremenda burrice sair por aí sozinho, no meio da noite, bem quando estávamos em guerra declarada contra Negan.
De repente fiz ligação entre o comportamento de Daryl e o de Natalie, talvez os dois tivessem conversado e, claramente. a conversa não tinha sido boa.
Vai ver por isso Natalie queria ir embora, talvez Daryl não quisesse o Petter e se afastar fosse o melhor pra poupar o garoto daquela dor.
Eu sabia melhor que ninguém como era se sentir rejeitada e Petter não merecia aquilo. Eu suspeitava até, que ele não aguentaria aquele tipo de sentimento, não quando tinha crescido tão cercado de amor e mimos que realmente acreditava que qualquer pessoa no mundo ia amá-lo da mesma forma.
E convenhamos, não era nada difícil amar o Petter, ele era uma criança adorável, carinhosa e esperta. Mesmo que eu não conseguisse ver Natalie como minha mãe, Petter era o meu irmão e eu nunca permitiria que ninguém o machucasse.
Meu ranço por Daryl cresceu um pouco mais, quando pensei que o cara sequer conseguia amar o próprio filho. Talvez meu pai fosse igualzinho ele.
Eu estava afogada em tantas lembranças e pensamentos que saí do ar por alguns momentos. Sequer reparei que alguém se aproximava e subia na plataforma, até que senti um toque leve no meu braço esquerdo.
Meu instinto agiu mais rápido que o meu pensamento, e quando eu vi já estava com a faca no pescoço da pessoa.
— Toque em mim de novo e eu vou arrancar suas mãos! — Ameacei entredentes, e só então parei pra ver quem era.
Um garoto. Eu o tinha visto de longe no Reino, um chapéu ridículo de cowboy e um curativo enorme no olho direito
— Desculpa, eu chamei, mas você não ouviu. — Ele ergueu as mãos em sinal de rendição.
Estreitei os olhos, mas abaixei a faca. Dei um passo para trás e ajeitei os fios de cabelo que meu movimento brusco tinham tirado do lugar. Agindo como se eu não fosse nenhum pouco paranoica.
— Seus pais não ensinaram que não pode sair por aí tocando garotas sem permissão? — Cruzei os braços e o medi dos pés à cabeça.
— Eu não te toquei, foi só um cutucão, mas desculpa. Eu sou o Carl Grimes. — Ele estendeu a mão direita para me cumprimentar, porém eu ignorei totalmente. Menino chato.
Era tarde demais pra ser legal, já tínhamos começado com o pé esquerdo
— E daí? — Dei de ombros totalmente desinteressada.
Sei lá por que, mas o idiota riu da minha reação.
— Você deve ser a Luka Cooper, não é? — Perguntou, e eu jamais diria em voz alta, mas amei ser chamada daquele jeito.
Mantive meus braços cruzados e o medi de cima a baixo de novo.
— Você veio aqui averiguar meus documentos, ou o que? — Dei de ombros, tentando não ser tão rude.
Em breve estaríamos em uma guerra, o melhor a fazer era ser amigável com as pessoas, mesmo que fosse complicado.
Na verdade, eu não tinha mais problemas com o toque das pessoas, tive muito no começo, mas naquele ponto não mais. O moleque do curativo enorme e chapéu ridículo só tinha me pegado em um momento bem ruim.
— Eu estava procurando pelo Daryl, disseram que ele veio nessa direção. — Explicou e eu me senti meio idiota por ter sido tão paranoica.
— Ele saiu faz uns minutos. — Apontei com a cabeça, tentando relaxar a postura.
— Ah, que merda! — O menino olhou pra noite escura e fez uma careta.
Senti uma vontade quase incontrolável de perguntar o motivo do curativo, mas não o fiz. Naqueles momentos Petter fazia falta, eu sempre podia contar que ele faria as perguntas mais constrangedoras.
— Fica aqui de guarda que eu acho ele pra você. — Declarei neutra, me preparando pra descer da plataforma.
Não era bem uma gentileza, era estratégia simples, o garoto era filho do líder do lugar, ficar lá fora dando sopa pra qualquer Salvador não era esperto.
Além do que: eu era mais velha, mais preparada, e não tinha um curativo enorme tampando metade da minha visão.
E sim, eu estava um pouco curiosa pra saber o que Daryl tinha ido fazer sozinho lá fora.
— Ah não precisa, eu posso ir. — O garoto tentou me persuadir, mas eu o achei meio babaca por isso.
— Você sabe pra que lado ir? — Questionei superior.
— Não, mas é só você apontar a direção. — Ele respondeu como se fosse o obvio.
— Exatamente, garotinho. — Devolvi enquanto descia os degraus. Eu era a dona das informações, ou seja, eu tinha a vantagem.
Não que fosse uma competição... Ou talvez fosse, vai saber.
— Eu tenho praticamente a sua idade. — Retrucou ofendido e eu ri.
— Parece que eu me importo? — O encarei quando já estava no chão, com um sorriso ainda mais triunfante nos lábios.
Deixei Alexandria depois disso. Seguindo pelo caminho que eu vira o pai de Petter ir.
Eu não sabia muito de rastreamento, quer dizer não tanto quanto Natalie ou Petter, mas eu conseguia me virar bem.
Daryl era um cara descuidado, por isso não foi complicado achar o rastro dele, mesmo usando apenas minha lanterna de bolso.
Lembrei que Petter tinha dito que o pai caçava e estranhei, ou o cara era um péssimo caçador, ou ele não estava com cabeça pra pensar em andar com cuidado.
Daryl parecia bem abalado quando saiu...
Eu estava no meio do bosque que cercava Alexandria quando minha lanterna falhou. Merda. Olhei para o caminho pelo qual eu viera, cogitando se voltava ou não, mas a luz da lua cheia estava forte aquela noite, por isso resolvi continuar. O cara não podia estar tão longe assim.
De toda forma, não era como se eu nunca tivesse andado pela mata escura sem lanterna desde que aquela bagunça toda tinha começado.
Continuei caminhando, sendo o mais silenciosa que podia, afinal brincar com a sorte e atrair os mortos no escuro não era uma boa ideia.
Passei por algumas árvores e finalmente avistei Daryl. Ele estava em uma clareira, sendo iluminado pela luz da lua, de modo que eu podia vê-lo perfeitamente, mesmo que pela minha posição ele ainda não pudesse me ver.
Estava pronta para me aproximar, quando notei que... ele estava chorando?
Parei, sem saber se devia ou não chegar mais perto, anunciar a minha chegada ou simplesmente ir embora. Eu não fiz nenhum dos dois, apenas fiquei ali parada, ocultada pela escuridão, ouvindo um homem que eu mal conhecia chorar.
Ele teve um acesso de fúria em meio ao choro e socou a árvore mais próxima. Era uma cena angustiante de ver... Principalmente quando ele parou e deixou o corpo cair, terminando sentado no chão, com as costas apoiadas na árvore.
Duas coisas que eu aprendi sobre Daryl Dixon naqueles poucos minutos, primeira: Ele não era nada do que parecia; Segunda: Ele estava quebrado.
Por algum motivo eu simplesmente soube que Natalie, ou era o motivo, ou tinha algo a ver com aquele surto emotivo. A imagem que eu tinha de Daryl na minha mente se modificou.
Talvez a coisa não fosse tão preto no branco como eu tinha pensando. Quer dizer, eu ainda achava ele meio bosta por não estar com a família, mas percebi que havia mais ali.
Quando você passa pelas coisas que eu passei, aprende que, depois que acaba, para quem está de fora parece tudo bem, aquela situação terrível teve fim e você devia se sentir feliz e agradecida por ter superado. Mas só porque você saiu de uma situação horrível, não significa que acabou...
Na verdade, é aí que o terror começa, porque tudo continua acontecendo dentro da sua própria cabeça, não tem como fugir ou combater isso, você se torna seu pior inimigo, e precisa desesperadamente de ajuda. O problema, na maior parte das vezes, é que você não aceita a ajuda, você não confia, se fecha em si mesmo, então é só você e seus demônios, travando uma luta interna que ninguém devia travar sozinho.
Pequenos problemas, que para qualquer outra pessoa são fáceis e simples de resolver, se tornam um tormento.
Eu vi isso em Daryl, e era estranho projetar duas personagens tão distintas nele. O meu carrasco e eu mesma. Me dei conta que meu julgamento estava afetado e que no fim não cabia a mim julgar.
Daryl e eu não tínhamos vinculo algum e talvez fosse melhor que permanecesse assim. Se algo ou alguém era um gatilho, era melhor evitar, aprendi a não forçar meus limites.
Decidi ir embora, seja lá o que fosse que o moleque do tapa-olho queria com Daryl podia esperar.
Eu já tinha me afastado um metro, silenciosamente, quando cometi um erro simples, pisei em um galho seco e seu som ecoou pelo bosque vazio. Claro que Daryl ouviu e se colocou em estado de alerta, eu sabia que se ele forçasse a vista poderia me ver, então eu agi como se tivesse acabado de chegar.
— Ainda bem que eu te achei. — Falei enquanto me aproximava, tentando ser natural. — Minha lanterna acabou a pilha e eu já estava quase voltando.
Ele estreitou os olhos na minha direção, desconfiado e arisco. Eu não podia culpá-lo por isso... Resolvi falar de uma vez por que eu estava ali.
— Tem um menino chato te procurando. O do chapéu de cowboy. — Declarei como se não fizesse a menor diferença.
Ah, espera. Realmente não fazia diferença.
Daryl se recompôs rápido, se colocou de pé em um movimento brusco, quase violento e por puro instinto eu dei um passo para trás. Não era algo pensado, apenas um movimento inconsciente, mas ele percebeu, e sua postura mudou imediatamente para algo menos agressivo, quase como se estivesse envergonhado por ter me assustado. Não tinha, só pra constar, minha reação foi involuntária, apenas isso.
— Xerife. — Afirmou e eu franzi as sobrancelhas, tentando entender a palavra solta, enquanto Daryl passava por mim e começava a andar na frente. — Não é um chapéu de cowboy, é um chapéu de xerife.
— E tem diferença? — Perguntei retoricamente, enquanto apressava o passo.
— A mesma diferença entre chinês e coreano. — Daryl devolveu em um tom neutro. Ele falava pra dentro, quase como se tivesse medo da própria voz, um comportamento irritantemente reconhecível pra mim.
Se era para fazer algum sentido, como se fosse uma referência ou algo assim, obviamente eu não entendi.
Conforme andávamos, Daryl passou do cara quebrado e vulnerável da cena anterior, para alguém totalmente fechado, não pude deixar de imaginar como Natalie conseguia lidar com ele.
Continuamos em silêncio, embora eu sentisse o olhar de Daryl em mim vez ou outra, como se quisesse dizer alguma coisa.
— Como você me achou? — Perguntou finalmente e senti que ele estava só sondando terreno.
— Eu te vi saindo. Segui a direção, achei sua trilha. — Dei de ombros e percebi que controlar meu ranço tinha se tornado incrivelmente mais fácil.
— Você sabe caçar? — Soou surpreso, mas ainda estava rondando. A única coisa que nos conectava eram os Coopers, então chutei que esse fosse o motivo oculto da conversa.
— Petter e Natalie me ensinaram o básico, mas não é meu forte. — Respondi neutra, citando o nome dos dois propositalmente.
— Faz sentido ela ter ensinado vocês depois de tudo isso... — Daryl citou aquilo quase como se fosse uma nota mental.
Pensei se devia deixar por isso mesmo, mas sei lá, senti uma certa necessidade de esfregar na cara do Daryl que ele tinha perdido toda a infância do Petter.
Disse que estava fácil controlar o ranço, não que ele tinha sumido totalmente...
— Foi por isso que eu aprendi sim, mas o Petter sabe caçar desde sempre, a primeira medalha que ele ganhou nos escoteiros mirins foi pela habilidade de rastreamento. — Comentei, enaltecendo as habilidades do pequeno gafanhoto. Me deve essa Petter e eu vou cobrar.
Daryl sorriu de canto, parecia uma reação involuntária, mas eu tenho certeza que vi ele sorrir sim, tinha até um certo orgulho ali.
Então ele sabia mesmo sobre o Petter, talvez já soubesse antes ou talvez a Natalie tivesse contado... De qualquer forma, decidi que não era da minha conta.
Quando avistamos os muros de Alexandria, percebi que Jerry tinha voltado para o seu posto e que Carl estava nos portões.
Daryl assumiu a dianteira, e o garoto informou que Rick estava querendo falar com ele.
Passei pelos portões segundos depois.
— Você demorou. Eu estava começando a ficar preocupado. — O moleque com o chapéu que, pra mim, ainda parecia de cowboy lançou logo que eu passei por ele.
Daryl acenou com a cabeça antes de sumir pelas ruas de Alexandria e nos deixar ali na entrada.
— Com o quê? — Perguntei entediada com o papinho e cruzando os braços.
— Com a sua demora. — Carl respondeu como se fosse óbvio. — Você estava lá fora sozinha.
A risada de Jerry cortou o ar e nós dois trocamos um olhar cúmplice, aquele Carl Grimes não sabia de nada
— 'Tá ouvindo aquela risada? — Apontei com um sorrisinho irônico. — É por causa do absurdo que você acabou de dizer.
Carl estreitou o olho bom na minha direção, confuso com o que eu tinha dito.
— Você lá fora sozinho, certamente acabaria morto. Eu... — Virei os dois indicadores na minha direção... — Eu sou uma sobrevivente, sua preocupação me ofende.
Decidi que aquela vigia tinha dado o que tinha que dar e acenei para Jerry, virando as costas para Carl sem nenhuma despedida.
— Você não faz ideia do que eu sou capaz. — Ele retrucou e eu tive que parar onde estava. — Sou um sobrevivente bem melhor que você.
Eu ri, ri mesmo, de gargalhar até. Carl tinha os braços cruzados em uma postura que podia até assustar alguém, mas não a mim. Eu já tinha visto muita coisa assustadora pra ter medo de um garotinho que ainda brincava de Toy Story.
— Isso soa como um desafio... — Ponderei com um sorriso superior. — Prepare-se pra ser derrotado por mim, Woody.
Ele assumiu uma pose presunçosa, como quem diz "Veremos", e eu voltei para o meu caminho, deixando aquele desafio no ar.
Garotinho sem noção...
Segui pelas ruas de Alexandria, sabendo que não poderia fugir de Natalie pra sempre, eu precisava voltar lá e enfrentar as coisas. Era o certo a fazer.
Percebi que Daryl caminhava alguns metros na minha frente, e diminuiu o passo, como se me esperasse alcançá-lo, mas eu não me apressei nenhum pouco. Meu momento "seja legal com o Daryl" já tinha excedido a cota diária.
Eventualmente acabamos andando lado a lado, mesmo que eu estivesse em uma das calçadas e ele na outra. Não dei conversa, mas ele me encarava duas ou três vezes por minuto, como se quisesse dizer alguma coisa.
Deus, como é que Natalie aguentava um cara assim?
Okay, Luka, para de ser assim, está bancando a intolerante. Entrei em um debate interno, e resolvi apressar meu passo, deixando Daryl para trás, se ele não queria falar, eu é que não ia ficar esperando feito uma tonta.
Quando viu que eu estava assumindo a dianteira, Daryl resolveu se pronunciar:
— Diga pra sua família que eu desejei boa viagem amanhã...
Me segurei pra não revirar os olhos, mas parei onde estava e cruzei os braços. Sério? Então ele era o cara que mandava recadinhos idiotas ao invés de ser homem e ir falar com a mãe do filho dele?
Tive que segurar minha língua, confesso que mais por respeito a tudo que Natalie tinha me ensinado, do que por vontade.
"Todas as pessoas estão passando por uma luta da qual você não sabe nada. Seja gentil." Mais uma das frases que Natalie Cooper usava com frequência. Um dia aquela mulher seria canonizada como uma santa, eu tinha certeza.
Como eu disse: tentei segurar minha língua, ter sucesso nessa tentativa são outros quinhentos.
— Eu não sou seu pombo correio. Se quer falar alguma coisa pra eles, devia bater lá na porta e dizer. — Retruquei de queixo erguido e a resposta obviamente pegou Daryl de surpresa.
Senti que as pessoas não costumavam dizer verdades pra ele com muita frequência.
Nos encaramos por mais três segundos antes que eu virasse as costas. Senti um leve remorso por ter sido tão rude, mas a madre Teresa ali era a Natalie, não eu...
E falando em Natalie... era hora de voltar para casa. Pensei que ela já estaria dormindo, mas naquela altura eu devia conhecer aquela mulher o bastante pra saber que ela nunca dormiria antes de falar comigo.
Por isso quando abri a porta da casa e a encontrei sentada no sofá, me esperando, não foi exatamente uma grande surpresa.
— Você pode sentar aqui do meu lado? — Convidou em um tom carinhoso, batendo a mão no assento de seu lado direito.
Fiquei tensa imediatamente, mas não tinha o direito de negar. Caminhei até Natalie em passos incertos, não sabendo o que esperar da conversa que teríamos.
— Olha, é... — Tentei falar, mas foi a vez de Natalie me interromper com um movimento da mão esquerda.
— Eu gostaria que você me deixasse falar dessa vez, tudo bem? — Questionou docemente e eu não pude fazer nada além de concordar.
Natalie se virou para o meu lado e segurou minhas mãos antes de começar.
— Eu sou sua mãe. — Declarou bem direta e meu corpo todo tremeu. — Sei que você não me vê assim, não sei se é por causa da idade, ou por causa da vida... Mas não preciso de um título pra ser sua mãe, ou de um papel dizendo isso, eu não preciso que você tenha meu sangue ou tenha nascido da minha barriga, eu sou a sua mãe e você é minha filha. E eu te amo da mesma forma que eu amo o Petter, entende isso?
Senti meus olhos marejarem, Natalie tinha um jeito especial de mexer comigo, ela nunca pedia nada, mas sempre assumia responsabilidades que eram muito maiores do que devia. Assenti novamente, eu sabia o papel que ela tinha na minha vida, um rótulo ou não nunca mudaria isso, mesmo assim eu ainda tinha medo.
Como eu disse antes, às vezes seu pior inimigo é você mesmo...
— A razão pela qual eu quero ir pra bem longe são vocês, eu não posso perder vocês de novo... — A voz de Natalie travou na garganta quando ela continuou. — Eu só quero pegar vocês dois e ir embora pra bem longe, porque eu estou tão apavorada que eu mal consigo respirar.
Ela olhou pra mim por apenas dois segundos antes de desviar os olhos e eu soube que tinha dor demais ali pra uma pessoa só carregar sozinha.
Me senti péssima por ser um gatilho para Natalie naquele instante, mas não havia nada que eu pudesse fazer a não ser deixá-la colocar tudo aquilo pra fora.
Às vezes tudo que você precisa é compartilhar sua dor com alguém, certo?
— Coisas aconteceram no Santuário, coisas ruins, e tudo que eu conseguia pensar é que não importava, porque eu precisava encontrar vocês! — Ela continuou, seus olhos perdidos em algum ponto fictício, como se revivesse as lembranças. — Então eu fiz coisas que... que eu nunca faria.
Eu sabia o quanto ser uma boa pessoa importava para Natalie, o quanto ela se esforçava pra fazer sempre o certo e ser justa com todo mundo.
— Eu menti, eu manipulei, usei pessoas, machuquei pessoas... — Natalie começou a tremer e não se preocupou em conter as lágrimas. — Eu me tornei Negan, e não foi só da boca pra fora. Sinto que ele ainda está aqui na minha mente, debaixo da minha pele. Ele tirou uma coisa importante de mim e agora eu nem sei quem eu sou mais quando eu olho no espelho...
Ela estava quebrada e eu sabia exatamente como era isso. Sabia como era quando alguém entra na sua vida e tira coisas de você que nunca poderão ser recuperadas, então um pedaço seu fica faltando e você não se reconhece mais.
Existe um limite de dor que alguém pode aguentar, depois disso, mesmo que você sobreviva, estará marcada pra sempre...
— Eu atirei em um homem a sangue frio, quando haviam outras mil escolhas, e ele era bom... — Natalie parou por um momento, respirou fundo, suas mãos se remexiam inquietas. — Eu o deixei pra trás, sabendo o que isso significava, sabendo o que Negan faria com ele. E eu fiz tudo isso porque estava com medo demais pra confiar...
Eu nunca a tinha visto tão vulnerável e exposta, era de partir o coração.
— Achei, ou melhor, eu tive certeza, que quando encontrasse vocês tudo ficaria bem. Mas não está nada bem. Eu ainda estou com medo, na verdade com mais medo ainda, eu não consigo dormir, comer, eu mal consigo respirar... — Quando mais ela falava mais desesperadora as coisas ficavam. Não era justo que alguém como Natalie tivesse passado por tudo aquilo. — Eu não sei mais onde a Natalie que eu era antes está, não sei mais que tipo de pessoa eu sou.
Parou. Se colocou de pé e andou de um lado para o outro por um tempo. Eu não sabia o que dizer, era como se os papéis estivessem invertidos, Natalie sempre me deu apoio, sempre esteve lá por mim, e eu estava cortando esse vínculo no pior momento possível.
— Eu continuo mentindo, escondendo, omitindo... Céus, eu estou pronta pra negar ao Petter a chance de ter algo que ele quer muito, apenas porque eu estou com medo demais! — Ela passou as duas mãos pelo rosto, ainda andando de um lado para o outro como se isso pudesse aplacar o sofrimento.
Tentei conectar aquela última frase com o que eu achava que sabia sobre Daryl e Natalie, mas honestamente eram coisas e sentimentos demais pra processar e eu não cheguei à conclusão nenhuma.
— Eu só queria que tudo isso parasse, que acabasse, mas continua acontecendo, de novo e de novo, aqui dentro da minha mente. — Ela bateu na lateral da cabeça com o indicador e negou algumas vezes, deixando os ombros caírem. — Eu estou perdida... E eu não sei se vou conseguir me encontrar outra vez.
Suspirou. As lágrimas ainda rolaram quando eu me levantei. Eu não podia abandonar Natalie daquele jeito, não era certo. Talvez eu não servisse de muita coisa, mas eu tinha que estar lá. Estava pronta pra dizer isso quando ela recomeçou:
— Mas eu ainda sou a sua mãe, e você ainda é a minha filha. E eu estou muito orgulhosa da mulher que você se tornou, e eu te amo mais que qualquer coisa. — Segurou meu rosto e me encarou com uma certeza avassaladora. Uma lágrima pesada escorreu pelo meu rosto, no fundo eu ainda era só uma criança que queria ser amada... — Então se você diz que é certo ficar e lutar, então nós vamos lutar, Luka. Porque eu posso estar perdida, posso não saber mais o que é certo ou errado, mas eu sei que eu sou sua mãe e você é minha filha. Você fica, eu fico. Eu nunca te abandonaria.
Não importa o quanto você conheça Natalie Cooper, ela sempre vai te surpreender. Ela estava devastada, quebrada, ferida, mas ainda assim era a pessoa mais forte que eu conhecia, pronta pra colocar o bem estar de outras pessoas acima do dela. Sempre.
Eu a abracei, simples assim, porque eu precisava daquele abraço tanto quanto ela também precisava. Se havia alguém que podia superar toda aquela dor e tragédia, esse alguém era Natalie Cooper e prometi para mim mesma que faria o possível pra ajudar no que eu pudesse.
Finalmente admiti pra mim mesma que eu tinha uma mãe e que ela não me abandonaria por nada nesse mundo. E aquela certeza floresceu dentro de mim.
Às vezes, só as vezes, um milagre acontece e uma cicatriz se torna só uma marca, ela ainda está lá, mas não doí mais, faz parte de quem você é, mas não tem poder pra moldar sua vida. Não mais...
Subimos depois disso. Petter dormia em uma cama improvisada no chão, já que, pelo que eu tinha entendido dos comentários soltos que ouvira, os Salvadores tinham levado todos os colchões da comunidade.
Natalie ajeitou as coisas para que todos dormíssemos juntos. Ela precisava daquilo. Acho que de modo geral nós três precisávamos.
Teve que mover o garoto, o chamou suavemente, mas se tem uma coisa que Petter sempre teve foi o sono pesado. O garoto não dormia, ele simplesmente desligava. Quando finalmente conseguimos acordá-lo ele olhos de uma pra outra e sorriu meio grogue.
— Já está na hora da gente ir? — Perguntou sonolento, esfregando os olhos, enquanto nos deitávamos.
— Não, pequeno Gafanhoto, a gente não vai pra lugar nenhum, Luka disse que o certo e ficarmos e ela está certa, precisamos ficar. — Natalie explicou de maneira simples, sem esconder nada.
Era costume dela ser bastante clara sobre tudo. Bom, sobre quase tudo... o pai de Petter era uma exceção à regra.
— É claro que ela 'tá certa, ela é a irmã mais velha, a função dela é estar sempre certa. — Petter se aninhou nos braços da mãe, mas ficou virado na minha direção, pra conseguir segurar minha mão.
Ele era o tipo de garotinho que queria todo o amor do mundo pra si, e ele merecia isso...
— Eu amo vocês — Natalie declarou e parecia aliviada em poder dizer aquilo finalmente.
— Daqui até a lua — Petter completou piscando duro.
— Ida e volta — Terminei e sorri.
Eu não sabia se tudo ficaria bem, mas me permiti ficar feliz por estarmos todos juntos. Isso era mais do que a maior parte das pessoas tinha.
Me acomodei melhor, observando Petter cair no sono lentamente, mas não fiz o mesmo, minha mente vagou para Daryl Dixon. Ele era como uma peça avulsa... Eu finalmente estava confortável com a família que eu tinha, mas de algum modo percebi que aquilo não era sobre mim.
Daryl estava quebrado, Natalie estava quebrada e Petter ansiava por unir os pais, tanto quanto eu tinha desejado ter pais um dia. Percebi que se eu podia fazer alguma coisa pra facilitar, então era meu dever fazer isso. Era o mínimo...
— Está acordada, Natalie? — Perguntei baixinho, para que Petter não acordasse.
— Sim...
— Sabe o Daryl? — Comecei como quem não quer nada e ouvi Natalie engolir em seco. — Ele esteve no Reino e o Petter bom...
Não sabia se tinha o direito de passar por cima do garoto pra dizer aquilo, então me calei, era a Natalie afinal, meio ponto era quase uma frase inteira pra ela.
— Petter sabe, não é? — Ela soltou um riso sem humor, e nem pareceu tão surpresa assim.
— Eu não posso responder isso, um irmão nunca deve dedurar o outro. — Me limitei a responder.
Natalie riu, de verdade daquela vez.
— Diga a verdade, você não quer que o Petter tenha um motivo pra se vingar de você. — Ela devolveu bem-humorada. Foi quase como estar em casa outra vez, mas eu sabia que ela só estava tentando ser evasiva quanto ao assunto importante.
— Da última vez ele pintou meu rosto com caneta permanente e eu fiquei dias com aquilo na cara. Não vou me arriscar. — Me defendi, lembrando de quando estávamos em Sherwood e eu "acidentalmente" tinha contado para a Natalie que o Petter pulava o muro pra caçar do lado de fora.
Natalie suspirou, e eu soube que ela também tinha lembrado dos bons tempos. Houve um longo momento de silêncio até que Natalie se pronunciou outra vez.
— Acho que já passou da hora de lidar com isso. Dez anos me preparando e eu ainda não estou pronta... — Deixou no ar. — Resolvo isso amanhã, merecemos uma boa noite de sonho.
Estranhei, quer dizer, Petter sabia do pai e eu pensei que Natalie já tinha falado com Daryl. Pelo visto eu tinha entendido alguma coisa errada. Mas também resolvi deixar o assunto para o outro dia. Ou ao menos eu tentei... Mas eu não consegui dormir.
— Ele é uma pessoa ruim? — Tive que perguntar, porque no fundo uma parte de mim ainda tinha dúvidas.
— Daryl? — Natalie deduziu, parecendo surpresa.
— Ele abandonou você e o Petter, isso parece a definição de um homem ruim pra mim. — Expliquei, não era exatamente da minha conta, mas se aquela era a minha família então eu não podia permitir que homens como Negan e o Senhor Davis se aproximassem.
Se Daryl fosse uma ameaça, eu protegeria Natalie e Petter dele.
— Daryl é complicado, ele ainda é só um garoto que teve que crescer rápido demais e não sabe lidar com os sentimentos. Ele fica paralisado pelo medo de se tornar alguém que ele não quer ser... — A voz de Natalie ficou embargada e eu sabia que ela estava segurando o choro mesmo no escuro. — Ele não é ruim Luka, ele luta todos os dias contra o passado pra não ser ruim. Ele está tão acostumado com isso que as vezes acaba machucando as pessoas ao redor. Ele é uma boa pessoa, o problema é que ele não sabe disso.
Natalie suspirou, se moveu na cama de modo que pudesse olhar para o teto.
— Ele não abandonou a gente, ele me pediu pra partir, porque ele não achava eu era bom o bastante, ele não sabia sobre o Petter, então se ele é uma pessoa ruim, suponho que eu seja pior porque eu escondi um filho dele por dez anos, quando tudo que eu tinha que fazer era telefonar, eu me apoiei em uma promessa idiota como se isso fosse me fazer mais nobre, porém a verdade é bem menos florida... — Confidenciou e, mesmo diante daquilo, eu não consegui imaginar uma realidade em que Natalie fosse a pessoa que ela tinha acabado de pintar.
Ela não era má ou egoísta, e eu sabia disso em primeira mão. Minha tela mental de Natalie Cooper não tinha nenhuma falha, ela era perfeita.
— E por que não contou, então? — Questionei neutra, não queria invadir o espaço dela, mas eu ainda não conseguia ver a história como um todo.
— No começo, dois ou três meses, eu simplesmente não podia ferir o Daryl dessa forma. Eu era o gatilho de uma arma apontada pra cabeça dele e, na minha mente, Petter era a bala que o mataria. — Soou um tanto mórbida. — Depois disso, nos três próximos meses, uma parte de mim ficou esperando que Daryl lutasse por mim, sabe? Eu queria o meu príncipe no cavalo branco... Ele não fez isso. Então, quando Petter nasceu, tudo mudou, eu apenas precisava proteger aquele bebezinho, e fiquei tão revoltada com Daryl no primeiro ano que era como ter um câncer na minha garganta, por causa de todas as coisas não ditas. É algo meio doentio tentar a todo custo odiar alguém que você ama. Acho que foi a época mais difícil...
Natalie parou, olhou para o Petter no meio da gente e ele ainda dormia como uma pedra, sem preocupações, apenas um menino de dez anos que sabia que a mãe estava bem ali do lado.
— Depois... Eu continuei encontrando desculpas ano após ano. Tudo besteira. — Ela riu sem humor. — A verdade é que eu tive medo, eu ainda tenho, porque sei que no momento em que eu contar tudo muda, levei bastante tempo pra entender que o Daryl não é bom pra mim, e se foi ruim suportar a distância esses dez anos, vai ser ainda pior suportar a proximidade.
Ela ainda não tinha contado nada pra ele, mas Daryl sabia, então aparentemente todo mundo ali sabia, apenas não queriam contar um para o outro... Que gente complicada.
— Você o odeia? — Tive que perguntar, porque honestamente eu odiaria alguém que me fizesse me sentir daquele jeito.
— É impossível odiar alguém que você amor por tanto tempo, bom ou mau, esse tipo de amor nunca morre... — Ela suspirou parecendo exausta. — Mas sabe o que eu digo sobre o amor, não é?
— Nem sempre ele é o bastante... — Repeti algo que Natalie dizia às vezes e ela murmurou uma afirmativa.
E então eu tinha aquela realidade nas mãos: uma guerra estava chegando e, ao mesmo, tempo Natalie estava afundada em todos aqueles dilemas emocionais...
Apenas uma coisa passou pela minha cabeça naquele momento: aquela complicação toda acabaria matando alguém... Não era o momento para coisas não ditas.
— Ele sabe, Natalie. O Daryl sabe sobre o Petter. — Foi a última coisa que eu falei, antes de deixar o quarto ficar no completo silêncio.
Eu tinha acabado de dar a ponta de um novelo de lã embolado para Natalie, bastava que ela puxasse o fio. E eu esperava que ela resolvesse tudo isso antes da guerra bater na nossa porta.
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