Life
60 Capítulo 59
Notas iniciais
Boa leitura!
Sabe quando você sente que tudo está no lugar? Quando sabe que finalmente encontro aquilo que sempre procurou? Foi assim que me senti quando finalmente entendi as palavras de Lauriê e percebi que Raphael sempre foi nossa salvação. A cura para o MEV 2 estava nele, o tempo todo, latente em seu sangue poderoso.
Era por isso que a raça humana só poderia ser salva se o Arcanjo decidisse nos salvar, pois ele mesmo era a cura. Todos acharam loucura quando eu falei, mas eles não puderam negar que fazia sentido. Raphael era diferente de tudo o que havia nesse mundo, tinha no sangue o poder de curar qualquer doença, de vencer a morte e o MEV 2.
Nós fizemos os testes. Com os vírus em laboratório infectamos cobaias que apresentaram os sintomas da infecção. Ao inocular o sangue de Raphael nelas, os sintomas diminuíam e cessavam completamente em poucos minutos. Era impressionante! É claro que o que o MEV 2 causava nos animais de laboratório não era comparado ao que causava aos humanos, então, nossa única alternativa seria infectar um dos malditos com seu sangue divino.
Foi difícil, mas eu e Lisa conseguimos, depois de muitas semanas de trabalho árduo. Isolamos o DNA da amostra de sangue do Raphael e, no laboratório, amplificamos esse material e o inoculamos em uma capsula viral inofensiva. Fizemos mais ou menos o que o projeto MEV original fez, porém com o DNA de Raphael e não de um organismo desconhecido. Nós esperávamos que se disseminasse entre os vampiros e, finalmente, a humanidade pudesse se ver livre deste mal.
Era noite. O céu estrelado dava a falsa sensação de que o tempo estava bom, mas o frio estava forte e fazia as árvores sacudirem com o vento revolto. Antes de sair, Raphael me beijou os lábios de forma suave e sorriu. Nós vimos pelas imagens das câmeras de segurança quando ele subiu pelo elevador, levando sua espada sagrada na mão e a granada biológica na outra. Do lado de fora, dezenas de criaturas rondavam a base militar a espreita, sedentos por sangue, esperando que saíssemos. Não havia mais anjos rebeldes em seus corpos, ou demônios assustadores, estes tinham sido vencidos na guerra celestial. Só o que restava eram os malditos vampiros e aquela infecção amaldiçoada.
A porta externa se abriu e Raphael passou correndo como uma flecha, atraindo a atenção deles. Mais que depressa, ele armou o dispositivo, jogou no meio deles e voltou correndo para dentro da segurança da base, tendo que matar alguns vampiros pelo caminho. Assim que a porta se fechou atrás do Arcanjo, ouvimos o barulho da grande explosão e houve um clarão. Alguns vampiros que estavam perto voaram longe com os corpos desfigurados, os que estavam mais distantes, caíram ao chão com o deslocamento de ar.
Nossos olhos ficaram grudados nas telas, a tensão era máxima. O barulho atraiu mais e mais malditos para a região e os monitores mostravam a grande população de mortos vivos. Muitos minutos passaram, longos, lentos, enquanto sentia a mão quente de Raphael segurando a minha. Quando menos esperamos, Marcos apontou o dedo pra um canto da tela.
- ALI! – ele disse.
Olhamos um maldito cair no chão, aparentemente sem motivo e, logo depois, mais e mais deles caíam no chão, como um desmaio coletivo. Um a um, os vampiros caíam, até que nenhum deles restou de pé.
Lisa, Marcos e Dornelles comemoravam, eu fiquei parada, sorrindo, encarando a tela a minha frente. Senti os braços de Raphael em volta de mim e finalmente o abracei, realizada. O grande sonho da minha vida tinha sido realizado e, finalmente, eu podia dizer a Evelyn, onde quer que ela estivesse, que nós tínhamos conseguido.
- Você conseguiu. – Raphael sussurrou em meu ouvido enquanto me apertava contra si.
Eu o encarei rapidamente.
- Obrigada por nos salvar. – falei antes de sentir seus lábios junto aos meus.
Dias depois saímos da base levando na bagagem a cura contra os vampiros. Por onde passávamos já conseguíamos ver o efeito do vírus que batizamos como ‘Life’. Havia corpos espalhados por todos os lugres, mas estavam mortos, mortos de verdade. Life trazia de volta a esperança, a vida que perdemos, e neutralizava por completo o MEV 2. Teríamos que viajar pelo mundo, através dos continentes, levando a cura para todas as partes do globo, mas isso seria fácil depois de tudo o que passamos. O que importava era que finalmente estávamos livres da maldição que nós mesmos criamos e que a história de Raphael seria ouvida por todos, para que pudéssemos entender, finalmente, o que vale a pena manter vivo.
...
A legião de anjos avançava depressa, esmagando todo nosso batalhão rebelde. Eu via meus irmãos caindo, sendo derrotados e enviados para as profundezas do abismo, onde não havia nada mais que dor. Mas eu não seria derrotado assim. Caliel era meu nome e se eu fosse cair, levaria aquele maldito Arcanjo comigo.
Urrei, fazendo os anjos fracos se afastarem do som que, para eles, era ensurdecedor. As asas negras me levaram para longe e, em instantes, eu estava longe do fim daquela batalha perdida. Sentia que eles vinham atrás de mim, nenhum lugar era mais seguro, eu teria que agir logo. Mentalizei a garota, aquela que havia sido a razão maior pela decisão de Raphael. Seria melhor assim, pois enfrenta-lo era um risco a mim mesmo e eu estaria muito fraco após fugir do campo de batalha.
Era noite. Estava ouvindo a comemoração e cantoria que vinha da cidade pra onde eles devem ter voltado. Muito tempo terrestre se passou desde que a guerra celestial começou. Havia algo de errado... não sentia mais o cheiro da morte, não via mais os corpos vazios movidos pelo instinto... eles haviam sumido... o maldito Arcanjo havia dado a essa espécie imunda a cura.
Senti o ar a minha volta tremer tamanho meu ódio. Eles não mereciam isso, não mereciam segunda chance, não mereciam o amor incondicional do Criador. Senti o poder voltando a mim, o poder que o ódio me proporcionava. Camuflado na noite segui pera a margem da floresta que cercava a cidade em festa. Os portões estavam abertos e os vermes estavam do lado de fora dos muros, seguros de que não havia mais nada que pudesse lhes fazer mal. Estavam desarmados, felizes...
Então eu a vi. No meio dos vermes, ela se destacava. Tinha um brilho diferente, uma energia pura e o cheiro do Arcanjo na pele. Reprimi um urro ao ver sua felicidade e me escondi nas sombras, correndo para onde eu sabia que a encontraria em breve. Minha melhor vingança seria ver o sofrimento dele quando eu a levasse comigo para o Inferno.
...
Quando chegamos em Naska, todos comemoraram nossa vitória. Ouvi orgulhosa e emocionada o relato de meus amigos quando eles viram os malditos caindo diante de seus olhos e eles souberam que nós havíamos encontrado a cura. O vírus Life se disseminava com a mesma rapidez e eficiência que o MEV 2 e estava limpando o mundo dos vampiros.
Foi incrível poder abraçar Roger novamente e ver seu reencontro com Lisa. Quando seus olhos procuraram pelo pai e não encontraram, senti um nó na garganta. Dr. Robert havia morrido naquela emboscada e eu vi a tristeza nos olhos do meu amigo. Mas logo, a tristeza e as lágrimas dele foram substituídas por um sorriso franco e sincero. Roger disse que não choraria pelo pai, pois ele foi e sempre seria um exemplo de perseverança e coragem e que ele não choraria pela morte de um herói.
Nós contamos tudo, sobre a cura e sobre como a missão de espalha-la pelo mundo deveria ser cumprida muito em breve. Todas as noites havia festa e comemoração e nossa maior alegria era não ter que ficar dentro dos muros. Finalmente nós podíamos abrir as portas novamente para o mundo e sermos livres.
- Manu, você tem que ver a homenagem que as crianças estão fazendo ao Raphael lá no galpão... está sendo lindo! Estão todas vestidas de anjo e cantando! Vem ver!
Roger puxou minha mão e me guiou pela multidão. Segui meu amigo e cheguei a tempo de ver o final do pequeno espetáculo. Raphael me viu e vi seus olhos brilharem como nunca antes. Estava completamente feliz. Uma a uma, as crianças foram até ele e o abraçaram, agradecendo pela vida que ele nos devolveu.
Depois de um tempo, decidi ir para casa. Estava cansada, precisava dormir depois de tanta festa e comemoração e sabia que Raphael viria logo. Despedi-me de Roger, Dornelles, Lisa e Marcos, que estavam juntos agora, e segui para a casa de Raphael. O pequeno lugar me trazia lembranças e fazia meu peito doer um pouco. Ali, a presença de Alex era muito maior... talvez por isso eu tenha feito tanta questão em ir pra lá, pois o sentia em todos os lugares.
Fechei a porta e caminhei pela sala pequena e escura, indo até o quarto. Espirei fundo, tentando sentir a presença de Alex, querendo que estivesse comigo nesse momento, mas o que senti foi diferente. Parei, sentindo as pernas congelarem. A mão foi rapidamente até a pistola que eu ainda mantinha na cintura pela força do hábito, quando vi sua silhueta enorme no canto do aposento.
As asas o chifre e os olhos vermelhos saíram das sombras vieram em minha direção, junto com o familiar cheiro de enxofre e morte.
- Você vem comigo, sua humana imunda... – ele falou com a voz arrastada e grave.
Atirei contra seu corpo enorme de pura maldade enquanto sentia o corpo paralisar. As mãos frias como gelo e envolveram e seus olhos se aproximaram dos meus. Enquanto da boca saíam palavras rápidas e estranhas, num idioma que eu já havia escutado antes, mas que continuava sem entender.
De repente, ele abriu a boca e o cheiro me fez querer vomitar. Seus olhos se aproximavam de mim e me tragavam com uma força e violência descomunal... eu queria morrer... era como se estivesse sendo sugada a força por ele, para longe... como se minha carne tivesse sendo queimada.
Seus olhos vermelhos foram as últimas coisas que vi antes da loucura e da agonia me dominarem por completo e depois... mais nada.
...
Eu sentia a felicidade deles e seu agradecimento. Olhando para aqueles pequenos seres inocentes eu tinha confirmado que minha escolha tinha sido a certa. Senti cada abraço, cada palavra, como se me alimentassem. O amor e a gratidão deles era quente e me enchia de alegria.
Até eu escutar os tiros.
Foi tudo tão rápido que eu não soube dizer como aconteceu, mas sabia que algo estava muito errado. Senti um baque no estômago, como se minhas forças tivessem sendo drenada pra longe. Meu corpo congelou por uma fação de segundo, exatamente quando reconheci a energia que estava perto.
- Manuella!
Senti o metal morno na mão e com ele, me transportei para onde ela estava... tarde demais. Vi seu corpo caindo no chão, vazio e sem vida. Consegui ver, num último suspiro, o brilho de satisfação de Caliel pouco antes dele levar a alma dela junto com a dele, sumindo numa nuvem de enxofre e podridão.
Fiquei parado, impotente, não havia nada que eu pudesse fazer preso a este corpo. Eu havia acabado de perder tudo, havia acabado de morrer.
A Gladius fez um estrondo forte ao cair no chão ao meu lado, enquanto ajoelhei. O corpo dela estava frio, sua alma estava longe. Não sei o que passou em minha mente, não sabia mais quem eu era. Havia somente dor dentro de mim, e era tão intensa que paralisava.
“Eles não poderão tocá-la, meu irmão.” A voz de Miguel soava dentro de mim. Sabia que eles estavam ao meu lado, embora não pudesse vê-los. “Ela é pura, não pertence àquele lugar. Mesmo que ele tenha levado a essência dela, não podem fazer mal a Manuella.”
- Mas isso não importa... – minha voz saiu quase inaudível – Ele venceu, no final.
“Você os salvou, Raphael, cumpriu sua missão da melhor forma que pôde.” – Uriel sussurrou pra mim.
- Mas eu não salvei quem eu mais queria. – respondi sentindo as lágrimas escorrem.
“Não diga isso, sempre há uma saída. Ou você esqueceu de quem é filho?” – Gabriel falou com seu jeito sério de sempre.
...
Eu soube que eles conseguiriam a cura no instante em que conversei com Alex e Manuella. Era ele o Salvador, eu sabia, sentia com todo meu coração. Então eu vi acontecer. Numa noite fria, São José foi atacada por uma grande quantidade de malditos. Muitos soldados morreram e os vampiros estavam prestes a avançar pelos muros. Eu estava reclusa na santa Igreja, orando ao Pai por perdão, pelas almas dos bravos homens e mulheres que estavam lá fora tentando nos salvar quando ouvi os tiros cessarem.
Minutos depois, os gritos de alegria dos soldados. As pessoas assustadas, mas curiosas, saíram da proteção da Santa Igreja para saber o que estava havendo e eu não pude me conter quando alguém, minutos mais tarde, entrou correndo na Igreja gritando que nós estávamos salvos, que os malditos estavam caindo mortos no chão e que nós estávamos livres deles.
As lágrimas escorriam pelo meu rosto e eu não consegui conter o turbilhão de imagens que me atingiam a memória. Foram tantas tentativas, tantas perdas, tantas frustrações. Lembro como se fosse ontem quando chorei a perda de Ambrósio e de quando desisti de achar uma cura que parecia impossível. Dentro das paredes daquele laboratório, finalmente saiu a cura que tanto procuramos, mas que apenas o Salvador podia ter trazido.
São José estava em festa, mas eu não arredei pé da igreja que sempre me acolheu. Sentia que agora poderia morrer em paz, pois o mal que eu tinha ajudado a criar, finalmente foi vencido. Estava sozinha lá dentro quando senti um calor familiar e abri os olhos. Diante de mim estava um senhor, em sua forma translúcida e pacificadora. Eu o conhecia, era o mesmo velho xamã que, há muitos anos atrás, me deixou o cordão que eu carregava no pescoço.
“Lauriê, você teve fé por todo esse tempo e por todo esse tempo guardou com cuidado o objeto que lhe dei, o mesmo que retirei do fundo daquela caverna e que tanto representa nessa vitória.” – a voz que há anos eu não ouvia me disse enquanto sorria.
- Meu velho amigo – respondi sorrindo-lhe, enquanto apertava a pedra morna da gargantilha entre os dedos – Em que posso lhe ser útil?
“Você foi tão importante nessa vitória quanto os que passaram por aqui, Lauriê, e agora chegou o momento de você fazer a sua escolha, assim como um dia, há muito tempo, eu fiz a minha.”
Ele fez um breve silêncio antes de prosseguir.
“O objeto que seguras, é o símbolo da união entre as essências de Alex e Raphael, o Arcanjo enviado pelo Criador para nos salvar. Essa pedra foi forjada no instante em que eu deixei este plano e Raphael e Alex se tornaram um só. Ela ficou em seu poder porque foram as suas palavras que levaram Manuella a encontrar o significado da cura e apenas suas palavras podem encerrar esta história.”
Permaneci quieta, ouvindo a bela voz de meu amigo fantasmagórico flutuando diante de mim.
“A alma de Manuella foi levada para longe, para um lugar que ao qual ela não pertence, no último ato do demônio conhecido como Caliel. Raphael só pode trazê-la de volta se sua essência for separada da de Alex e pra que isso aconteça... você precisa quebrar a pedra ao meio.”
Refleti por alguns instantes antes de dizer.
- Isso me parece fácil e simples demais para que você diga que eu tenho uma escolha.
Ele sorriu e assentiu.
“Só seu sacrifício pode rachar a pedra, Lauriê, assim como somente o meu sacrifício pôde trazer Raphael para este mundo.”
Era isso. Finalmente eu tinha entendido o motivo de tudo, finalmente eu estava tendo a minha chance de redenção. Sem pensar, sem hesitar, senti uma lágrima escorrer de meu olho cansado e um sorriso de pura felicidade se abriu em meu rosto. Eu tinha conseguido ver, finalmente, o milagre da vida, o milagre de Deus.
Então, as minhas palavras finalmente conseguiram libertar o Arcanjo... e a mim.
- Eu aceito.
Senti a bondade e a paz do espírito do meu velho amigo xamã me abraçar enquanto a pedra que unia o homem ao Arcanjo, se quebrar em minhas mãos.
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